
Imaginemos por um momento um país onde apenas 3 em cada 100 pessoas têm acesso a alimentos que garantem qualidade e segurança alimentar. O cenário de 97% da população não conseguir cumprir as suas refeições mínimas parece o guião de um livro, uma série ou um filme “apocalíptico” inquietante. Não é. É, antes, a realidade que sustenta que António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, tenha afirmado que o “Afeganistão está por um fio.” Guerra. Um regime autoritário que não respeita direitos humanos básicos. Crise climática e seca extrema. Pobreza e exclusão. Determinantes desta situação que, além do sofrimento que comporta e das suas implicações de curto, médio e longo prazo, é um “barril de pólvora” de consequências imprevisíveis para o Afeganistão, para a região e para o Mundo.
Cada um destes determinantes relaciona-se, directa ou, pelo menos, indirectamente, com todas pessoas, com o seu comportamento e com as suas tomadas de decisão. São, portanto, objecto de uma ciência – a Psicologia – que há mais de um século os estuda e assegura, hoje, um vasto e sólido corpo de investigação que apoia a sua compreensão e que pode e deve contribuir para a sua mitigação e prevenção. Que deve, interna e externamente, afirmar-se enquanto ciência e prática não apenas centrada na doença ou nas perturbações da pessoa, que resultam das adversidades que enfrenta, mas também, e cada vez mais, no contributo decisivo que pode ter na qualidade de vida e no bem-estar no dia-a-dia das pessoas, numa potencial mudança da sociedade, rumo a um quotidiano com menos exposição à adversidade (e mais apoio aquando desta), capaz de prevenir a referida doença. Afirmar, na profissão e na sociedade, em Portugal e no Mundo, a Psicologia, também na sua intervenção social e comunitária, complementar ao contributo de outras suas áreas para esta mudança, portanto não só focada no individual e no psíquico, apoiando a pessoa nos seus problemas, empoderando-as e promovendo recursos. Mas, também, focada na mudança de políticas públicas e das realidades que nos conduzem a e perpetuam ciclos de adversidade, como os resultantes da pobreza e da exclusão, impactando significativamente a sociedade e colaborando nos principais desafios societais, a partir dos contributos únicos da ciência e prática da profissional.
Não por acaso a erradicação da pobreza é o primeiro dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. É-o porque tudo impacta (educação, saúde, trabalho, participação social, …), qual espiral tóxica, alimentando factores de exclusão e dificultando a saída dessa situação, com sérias repercussões no futuro, particularmente das crianças e jovens. E é-o porque, apesar de ser um desafio crítico, sem fronteiras e intergeracional, e apesar de por vezes nos ser difícil assim o sentir, é possível e está ao nosso alcance terminar com a pobreza e, em particular, com a pobreza extrema. Está ao nosso alcance substituir a desesperança, consciente ou inconsciente, individual e colectiva, por um propósito de acção, consciente, individual e colectivo rumo a um fim à pobreza.
Possível, em Portugal, um dos países da União Europeia em que é mais difícil sair desta situação e em que uma em cada cinco pessoas, mesmo considerando apoios sociais, vive hoje em situação de pobreza. Possível, no Mundo, onde vivem hoje 700 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema, número que hoje cresce, invertendo uma tendência de diminuição significativa dos últimos anos, particularmente pelos efeitos da pandemia por COVID-19, da crise climática e seca severa ou extrema em diversas regiões e da guerra (não apenas, mas particularmente na Ucrânia).
Curiosamente, ou não tanto, são também mais de uma em cada cinco as pessoas que em Portugal vivem com um problema de saúde mental. A relação entre estes problemas, particularmente a ansiedade, a depressão e o stresse e as situações de exclusão e pobreza é “íntima”, conforme compreendemos e reconhecemos, bastando-nos olhar sensitivamente à nossa volta. Ainda que seja evidente, nem sempre as pessoas e as políticas públicas são responsivas a esta realidade mas, hoje, ao olhar do senso comum, junta-se um forte corpo de investigação que demonstra esta associação cíclica e forte, tal como demonstra como o “efeito túnel” e a escassez mental associada às situações de pobreza, influenciam a capacidade de autocontrolo (comportamental e emocional), de planeamento e de tomada de decisão.
Imagine-se a tomar decisões relativamente à Escola do seu filho no próximo ano num final de tarde em que não tem, e não sabe como poderá ter, uma refeição para lhe dar de jantar. Imagine e imagine, por ser impossível fazê-lo, o quão duplamente injusto é, na maioria das situações, culparmos as pessoas pelas suas situações de pobreza, as penalizarmos por não tomarem as melhores decisões, planearem a sua vida ou reagirem impulsivamente e as estigmatizarmos. Imagine e imagine o quão triplamente injusto pode ser quando, a esta culpabilização e estigmatização, acresce auto-culpabilização e auto-estigmatização por parte das pessoas por não conseguirem dar-se e dar a outras e outros (dependentes, por exemplo) outras condições, sendo muitas vezes penalizadas por isso por uma sociedade que por vezes não lhes garante condições e oportunidade para sair da situação em que se encontram. Imagine e imagine quando a esta realidade juntamos níveis subsequentes de exclusão, por via de se tratar de pessoas especialmente vulneráveis como (algumas) pessoas migrantes, pessoas com problemas de saúde psicológica ou pessoas com baixas qualificações, para dar apenas três exemplos particularmente frequentes. Imagino, eu agora, que parte das pessoas a quem peço que imagem possam já ter vivido alguma destas situações, possam estar a viver ou que, como todas as outras pessoas, possam vir a vivenciar.
Também porque, não esqueçamos: a pobreza vai além da mera ausência ou escassez de recursos materiais. É uma experiência pela qual todas e todos nós poderemos passar e que condiciona direitos, a possibilidade de desenvolvimento e de nos cumprirmos. Condiciona a saúde psicológica e bem-estar. Por compromisso com estes valores, com a promoção da justiça social e dos Direitos Humanos e em total fidelidade com o objecto e com os princípios do Código Deontológico da profissão, a Ordem dos Psicólogos Portugueses apresentou a campanha “. Final à Pobreza” (https://finalapobreza.pt). Com ela pretendemos – assumindo um papel de ciência e profissão capaz de contribuir para a mudança e coordenando a nossa acção com a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 de Portugal – potenciar a aplicação do conhecimento procedente da Psicologia à construção de políticas públicas eficientes e responsivas às pessoas, de respostas integradas e multidimensionais e reforçar os instrumentos disponíveis para o contributo da profissão e das psicólogas e dos psicólogos na área da pobreza e da exclusão.
Na Madalena (Ilho do Pico), na primeira sessão de recolha de contributos com psicólogas e psicólogos para a campanha, uma das participantes deixou esta simples proposta: “Promover a ideia de que a pobreza de uns afecta todos”. Que a pobreza, mesmo quando são outras as pessoas a vivenciá-la, a todas e todos impacta, que a sua mitigação e prevenção depende, também, de todas e todos e que a sua diminuição (fim, um dia) garantirá maior possibilidade de bem-estar para todas e todos. Que, no fundo, promover a equidade é, em si e pelo seu impacto potencial, preventivo. Além, claro está, de justo, porque é um direito. Além de, até terapêutico, se quisermos.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental que priorizemos o combate à pobreza e à pobreza extrema, considerando todos os seus impactos e os problemas que comporta às pessoas e à sociedade. Que priorizemos e que, nesse combate, usemos a ciência que estuda o comportamento humano e os profissionais que, dia-a-dia, a aplicam nos seus diversos contextos de intervenção, em todo o ciclo de vida das pessoas e na informação às decisões e desenho e mobilização de soluções: as psicólogas e psicólogos. Profissionais felizmente disponíveis em Portugal e motivados para um contributo numa matéria decisiva para, afinal, o objectivo fundamental da sua intervenção: promover a autodeterminação, a saúde psicológica e o bem-estar das pessoas; contribuir para uma sociedade de direitos humanos, de equidade e coesão social.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 05.07.2022

