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Por um . Final à Pobreza (Ao redor…; Sábado; 05.07.2022)

Imaginemos por um momento um país onde apenas 3 em cada 100 pessoas têm acesso a alimentos que garantem qualidade e segurança alimentar. O cenário de 97% da população não conseguir cumprir as suas refeições mínimas parece o guião de um livro, uma série ou um filme “apocalíptico” inquietante. Não é. É, antes, a realidade que sustenta que António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, tenha afirmado que o “Afeganistão está por um fio.” Guerra. Um regime autoritário que não respeita direitos humanos básicos. Crise climática e seca extrema. Pobreza e exclusão. Determinantes desta situação que, além do sofrimento que comporta e das suas implicações de curto, médio e longo prazo, é um “barril de pólvora” de consequências imprevisíveis para o Afeganistão, para a região e para o Mundo.

Cada um destes determinantes relaciona-se, directa ou, pelo menos, indirectamente, com todas pessoas, com o seu comportamento e com as suas tomadas de decisão. São, portanto, objecto de uma ciência – a Psicologia – que há mais de um século os estuda e assegura, hoje, um vasto e sólido corpo de investigação que apoia a sua compreensão e que pode e deve contribuir para a sua mitigação e prevenção. Que deve, interna e externamente, afirmar-se enquanto ciência e prática não apenas centrada na doença ou nas perturbações da pessoa, que resultam das adversidades que enfrenta, mas também, e cada vez mais, no contributo decisivo que pode ter na qualidade de vida e no bem-estar no dia-a-dia das pessoas, numa potencial mudança da sociedade, rumo a um quotidiano com menos exposição à adversidade (e mais apoio aquando desta), capaz de prevenir a referida doença. Afirmar, na profissão e na sociedade, em Portugal e no Mundo, a Psicologia, também na sua intervenção social e comunitária, complementar ao contributo de outras suas áreas para esta mudança, portanto não só focada no individual e no psíquico, apoiando a pessoa nos seus problemas, empoderando-as e promovendo recursos. Mas, também, focada na mudança de políticas públicas e das realidades que nos conduzem a e perpetuam ciclos de adversidade, como os resultantes da pobreza e da exclusão, impactando significativamente a sociedade e colaborando nos principais desafios societais, a partir dos contributos únicos da ciência e prática da profissional.

Não por acaso a erradicação da pobreza é o primeiro dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. É-o porque tudo impacta (educação, saúde, trabalho, participação social, …), qual espiral tóxica, alimentando factores de exclusão e dificultando a saída dessa situação, com sérias repercussões no futuro, particularmente das crianças e jovens. E é-o porque, apesar de ser um desafio crítico, sem fronteiras e intergeracional, e apesar de por vezes nos ser difícil assim o sentir, é possível e está ao nosso alcance terminar com a pobreza e, em particular, com a pobreza extrema. Está ao nosso alcance substituir a desesperança, consciente ou inconsciente, individual e colectiva, por um propósito de acção, consciente, individual e colectivo rumo a um fim à pobreza.

Possível, em Portugal, um dos países da União Europeia em que é mais difícil sair desta situação e em que uma em cada cinco pessoas, mesmo considerando apoios sociais, vive hoje em situação de pobreza. Possível, no Mundo, onde vivem hoje 700 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema, número que hoje cresce, invertendo uma tendência de diminuição significativa dos últimos anos, particularmente pelos efeitos da pandemia por COVID-19, da crise climática e seca severa ou extrema em diversas regiões e da guerra (não apenas, mas particularmente na Ucrânia).

Curiosamente, ou não tanto, são também mais de uma em cada cinco as pessoas que em Portugal vivem com um problema de saúde mental. A relação entre estes problemas, particularmente a ansiedade, a depressão e o stresse e as situações de exclusão e pobreza é “íntima”, conforme compreendemos e reconhecemos, bastando-nos olhar sensitivamente à nossa volta. Ainda que seja evidente, nem sempre as pessoas e as políticas públicas são responsivas a esta realidade mas, hoje, ao olhar do senso comum, junta-se um forte corpo de investigação que demonstra esta associação cíclica e forte, tal como demonstra como o “efeito túnel” e a escassez mental associada às situações de pobreza, influenciam a capacidade de autocontrolo (comportamental e emocional), de planeamento e de tomada de decisão.

Imagine-se a tomar decisões relativamente à Escola do seu filho no próximo ano num final de tarde em que não tem, e não sabe como poderá ter, uma refeição para lhe dar de jantar. Imagine e imagine, por ser impossível fazê-lo, o quão duplamente injusto é, na maioria das situações, culparmos as pessoas pelas suas situações de pobreza, as penalizarmos por não tomarem as melhores decisões, planearem a sua vida ou reagirem impulsivamente e as estigmatizarmos. Imagine e imagine o quão triplamente injusto pode ser quando, a esta culpabilização e estigmatização, acresce auto-culpabilização e auto-estigmatização por parte das pessoas por não conseguirem dar-se e dar a outras e outros (dependentes, por exemplo) outras condições, sendo muitas vezes penalizadas por isso por uma sociedade que por vezes não lhes garante condições e oportunidade para sair da situação em que se encontram. Imagine e imagine quando a esta realidade juntamos níveis subsequentes de exclusão, por via de se tratar de pessoas especialmente vulneráveis como (algumas) pessoas migrantes, pessoas com problemas de saúde psicológica ou pessoas com baixas qualificações, para dar apenas três exemplos particularmente frequentes. Imagino, eu agora, que parte das pessoas a quem peço que imagem possam já ter vivido alguma destas situações, possam estar a viver ou que, como todas as outras pessoas, possam vir a vivenciar.

Também porque, não esqueçamos: a pobreza vai além da mera ausência ou escassez de recursos materiais. É uma experiência pela qual todas e todos nós poderemos passar e que condiciona direitos, a possibilidade de desenvolvimento e de nos cumprirmos. Condiciona a saúde psicológica e bem-estar. Por compromisso com estes valores, com a promoção da justiça social e dos Direitos Humanos e em total fidelidade com o objecto e com os princípios do Código Deontológico da profissão, a Ordem dos Psicólogos Portugueses apresentou a campanha “. Final à Pobreza” (https://finalapobreza.pt). Com ela pretendemos – assumindo um papel de ciência e profissão capaz de contribuir para a mudança e coordenando a nossa acção com a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 de Portugal – potenciar a aplicação do conhecimento procedente da Psicologia à construção de políticas públicas eficientes e responsivas às pessoas, de respostas integradas e multidimensionais e reforçar os instrumentos disponíveis para o contributo da profissão e das psicólogas e dos psicólogos na área da pobreza e da exclusão.

Na Madalena (Ilho do Pico), na primeira sessão de recolha de contributos com psicólogas e psicólogos para a campanha, uma das participantes deixou esta simples proposta: “Promover a ideia de que a pobreza de uns afecta todos”. Que a pobreza, mesmo quando são outras as pessoas a vivenciá-la, a todas e todos impacta, que a sua mitigação e prevenção depende, também, de todas e todos e que a sua diminuição (fim, um dia) garantirá maior possibilidade de bem-estar para todas e todos. Que, no fundo, promover a equidade é, em si e pelo seu impacto potencial, preventivo. Além, claro está, de justo, porque é um direito. Além de, até terapêutico, se quisermos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental que priorizemos o combate à pobreza e à pobreza extrema, considerando todos os seus impactos e os problemas que comporta às pessoas e à sociedade. Que priorizemos e que, nesse combate, usemos a ciência que estuda o comportamento humano e os profissionais que, dia-a-dia, a aplicam nos seus diversos contextos de intervenção, em todo o ciclo de vida das pessoas e na informação às decisões e desenho e mobilização de soluções: as psicólogas e psicólogos. Profissionais felizmente disponíveis em Portugal e motivados para um contributo numa matéria decisiva para, afinal, o objectivo fundamental da sua intervenção: promover a autodeterminação, a saúde psicológica e o bem-estar das pessoas; contribuir para uma sociedade de direitos humanos, de equidade e coesão social.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 05.07.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/por-um–final-a-pobreza

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Por um . Final à Pobreza.

Sexta-feira. No conjunto de emails por ler tinha um com título: “Por um . Final à Pobreza”. Tratava-se da newsletter da Revista Sábado com chamada para o artigo que escrevi com esse nome além de para notícias e outro artigo de opinião (“Acreditar no Pai Natal”). Simbólica coincidência, seremos sugeridos a pensar. Mas, “apesar de por vezes nos ser difícil assim o sentir, é possível e está ao nosso alcance terminar com a pobreza e, em particular, com a pobreza extrema. Está ao nosso alcance substituir a desesperança, consciente ou inconsciente, individual e colectiva, por um propósito de acção, consciente, individual e colectivo rumo a um fim à pobreza.”

“Por um . final à pobreza”, 36º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte da afirmação que transcrevo para – contextualizando a realidade do fenómeno no Mundo e em Portugal e a inversão recente da “tendência de diminuição significativa dos últimos anos, particularmente pelos efeitos da pandemia por COVID-19, da crise climática e seca severa ou extrema em diversas regiões e da guerra” – apresentar e discutir o contributo da Psicologia, como ciência e profissão, neste desígnio.

Para tal toca a proximidade dos números da prevalência em Portugal de problemas de saúde psicológica com os de pessoas a viver em situação de pobreza, algo não fruto do acaso. Reflecte as relações (e consequências) destas situações, além do “efeito túnel” e do impacto da escassez na “capacidade de autocontrolo (comportamental e emocional), de planeamento e de tomada de decisão” para, com exemplos, sublinhar a “espiral tóxica” que a pobreza impõe ao alimentar “factores de exclusão e dificultar a saída dessa situação, com sérias repercussões no futuro, particularmente das crianças e jovens”.

Para afirmar, ainda, “na profissão e na sociedade, em Portugal e no Mundo, a Psicologia, também na sua intervenção social e comunitária, complementar ao contributo de outras suas áreas para esta mudança, portanto não só focada no individual e no psíquico, apoiando a pessoa nos seus problemas, empoderando-as e promovendo recursos”. Uma Psicologia também “focada na mudança de políticas públicas e das realidades que nos conduzem a e perpetuam ciclos de adversidade, como os resultantes da pobreza e da exclusão, impactando significativamente a sociedade e colaborando nos principais desafios societais, a partir dos contributos únicos da ciência e prática da profissional.”

Uma oportunidade para voltar a abordar a campanha https://finalapobreza.pt e “promover a ideia de que a pobreza de uns afecta todos”, conforme a sugestão de uma psicóloga na 1ª sessão de recolha de contributos na Madalena (Ilha do Pico). Psicólogas e psicólogos, “felizmente disponíveis em Portugal e motivadas/os para um contributo numa matéria decisiva para, afinal, o objectivo fundamental da sua intervenção: promover a autodeterminação, a saúde psicológica e o bem-estar das pessoas; contribuir para uma sociedade de direitos humanos, de equidade e coesão social.”

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Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo (Ao redor…; Sábado; 21.06.2022)

“Um muro de Berlim no centro de Oslo”. Foi esta a forte metáfora que uma Associação de Comerciantes de Oslo usou para descrever um conjunto de pilaretes utilizados num projecto piloto que experimentou – com o sucesso que hoje todas e todos reconhecem – limitar as deslocações automóveis no centro da cidade, tornando maioritariamente pedonal ou de mobilidade ligeira parte significativa do centro da cidade. Não há muitos anos, a economicamente vibrante cidade de Oslo, frequentemente considerada uma das melhores cidades do Mundo para viver, visitar ou trabalhar, com uma rede de transportes integrada modelo para diversas cidades no Mundo, discutia, nestes termos, mudanças associadas à organização do seu espaço público.

Talvez este debate, relativo a Oslo, surpreenda algumas pessoas. Surpreenda na exacta medida em que não surpreende que cá, relativamente às cidades portuguesas, discutamos nestes termos. Isto porque, racionalmente, associamos os diferentes níveis de surpresa à distinção que estabelecemos entre as condições de Oslo e as das cidades portuguesas para esta transição. Racionalmente, assim é. Mas, creio relevante, particularmente para decisoras e decisores, que se tenha sempre presente que mudar é difícil. Muito difícil. Que vencer a resistência à mudança inerente à condição humana e a inércia (social) associada a estas alterações conceptuais na forma de organização das cidades, é sempre difícil, em qualquer lugar do Mundo, quaisquer que sejam as suas circunstâncias.

Algumas e alguns de nós recordamos ou já vimos imagens da Avenida dos Aliados no Porto, do Terreiro do Paço em Lisboa ou da Praça do Giraldo em Évora quando ainda eram essencialmente ou, pelo menos, também utilizadas como parque de estacionamento / praças de táxis. Qualquer um dos três espaços mudou, significativamente, mas não sem resistência, não sem metáforas ou premonições sobre a perda de dinamismo e de pessoas que implicaria. Premonições, grosso modo, não cumpridas. Ao contrário, cumpriu-se o habitual hindsight bias (viés da retrospectiva), ou seja, depois da mudança ter acontecido, foi sentida como mais provável e possível face às questões que levantou antes de experimentada ou concretizada, parecendo-nos hoje absolutamente natural que a mudança tenha acontecido e o que estranhamos é como foi possível ter sido de outra forma no passado. Isto aplica-se à utilização de emblemáticas praças portuguesas como parques de estacionamento ou ao facto de ter sido, e hoje não ser possível, fumar num autocarro, num avião ou num restaurante.

Aplica-se, portanto, à mudança. Mesmo quando a mudança, críticas e receios à parte, se insere na necessidade de respondermos a desafios societais complexos (como a crise climática ou crises de saúde pública), nos aporta bem-estar e não confirma premonições de perdas económicas ou outras invariavelmente evocadas. Aplica-se, por exemplo, a como desenhamos as cidades, como respondemos às necessidades e expectativas das pessoas e como aproveitamos oportunidades que existem para melhorarmos a qualidade de vida com intervenções que estimulem, incentivem e mitiguem obstáculos a mudanças comportamentais e à adopção de comportamentos e estilos de vida mais saudáveis e mais conectados com os objectivos do desenvolvimento sustentável.

Se hoje, múltiplas cidades portuguesas têm as suas Rua do Alecrim como Lisboa – ruas centrais onde, apesar de uma pequena minoria de pessoas se deslocar em viatura própria, cerca de dois terços do seu espaço público é dedicado a veículos automóveis (neste caso, duas faixas mais uma terceira para estacionamento) e onde intervenções urbanísticas poderiam com sucesso promover mudanças comportamentais no sentido do atrás referido – amanhã mais e mais oportunidades existirão. As Nações Unidas estimam que em 2050 68% da população mundial habitará em zonas urbanas (50% mais face a 2016), apesar destas corresponderem a apenas 3% do espaço do planeta. Também por isso, as cidades serão cada vez mais a expressão micro (contextualizada, territorializada, personificada) dos problemas macro (globais e complexos), sendo, portanto, contextos privilegiados para as intervenções e para que soluções globais sejam aplicadas e adaptadas localmente. As cidades serão espaço de experimentação, de inovação, de transição e estímulo à mudança no Mundo.

Precisamos e podemos ter cidades mais “inteligentes”, mais funcionais, responsivas às necessidades e expectativas das pessoas, mais flexíveis e inclusivas e, com elas, um Mundo melhor. Olhando o exemplo da mobilidade – particularmente quando na Europa e nos Estados Unidos da América cerca de 50% das viagens motorizadas distam menos de 4km e em Portugal temos o clima que conhecemos – precisamos de cidades que permitam mais escolhas equilibradas de transporte, que privilegiem, na medida do possível, a mobilidade ligeira, segurança para se caminhar a cidade, para se circular em bicicleta e para se viver o espaço público. Precisamos e podemos ter cidades em que, ao contrário de nos fazerem adoecer e morrer precocemente pela sua poluição (segundo a Agência Europeia do Ambiente, ainda que tenhamos melhorado nos últimos anos, em 2019 foram mais de 300.000 as mortes prematuras na Europa atribuíveis à poluição atmosférica), incentivem e promovam o bem-estar, a relação com o que nos rodeia (pessoas e meio ambiente) e a nossa pertença. Cidades que respondam, pelo seu desenho, à necessidade de se assumirem como restaurativas, promovendo a conexão das pessoas com a natureza e com os seus espaços verdes/azuis enquanto factor protector e mitigando a discrepância de problemas de saúde mental hoje existente em espaços urbanos face a espaços rurais. Cidades, portanto, que, pelo seu exemplo, mostrem possível, desejável e liderem a mudança no Mundo.

Este caminho será tão mais possível e tão mais bem-sucedido quanto mais pessoas e entidades da cidade se fizerem ouvir, se envolvam e se mobilizem na discussão e construção da mudança. Será tão mais possível e bem-sucedido quanto mais for pilotado, testado, ajustado quando necessário, e abandonadas as más soluções e escaladas as boas soluções. Será tão mais possível e bem-sucedido quanto mais o planeamento e a decisão política integrem a ciência, o conhecimento e a melhor evidência científica disponível, incluindo a proveniente da ciência psicológica, para melhor compreensão do comportamento e dos processos de tomada de decisão das pessoas e grupos. Será tão mais possível e bem-sucedido quanto mais consigamos estimular e facilitar as mudanças necessárias e não as obstaculizar. Quanto mais confiarmos na mudança, na possibilidade da mudança e nos activemos para a operar.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, exemplos como o da cidade de Oslo permitem-nos aspirar a cidades e a um Mundo melhor. Oslo, além de soluções mais integradas de mobilidade, tem hoje um orçamento associado ao consumo de dióxido de carbono, gerido nos exactos termos do orçamento monetário anual da cidade. E, quem habita a cidade, ao contrário de penalizar medidas “apelidadas” de ecológicas, verdes ou de transição, valoriza-as, tendo crescido o apoio a partidos, movimentos e pessoas que mais as advogam e promovem e existindo hoje mais propostas deste tipo nos programas dos diversos partidos e movimentos. Lá, como cá, é possível e as pessoas valorizam a mudança. Lá, como cá, país de recursos fantásticos, as boas e eficazes ideias e soluções são contagiosas. Acreditemos, confiemos e envolvamo-nos na mudança. Das nossas cidades. Do nosso Mundo.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 21.06.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/mudar-nas-cidades-para-mudar-no-mundo

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Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo

“Nós, os povos das Nações Unidas”. Assim se inicia o preâmbulo e, com ele, a Carta das Nações Unidas aprovada em São Francisco fez ontem 77 anos. Dia sempre (e bem) recordado, pela sua importância, a par do 24 de Outubro, quando, também em 1945, muitos países ratificaram a Carta. Há, no entanto, uma data menos conhecida no processo cujo simbolismo me interpela: as negociações que conduziram aos 26.06 e 24.10, começaram a 25 de Abril de 1945 e, quer a Carta das Nações Unidas, quer a revolução que mudou (o regime em) Portugal, procuraram dar centralidade à equidade, à liberdade, à utilização do conhecimento (científico), à participação e ao envolvimento das pessoas.

“Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo”, 35º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como “precisamos e podemos ter cidades mais “inteligentes”, mais funcionais, responsivas às necessidades e expectativas das pessoas, mais flexíveis e inclusivas e, com elas, um Mundo melhor”. Como tal também depende de “mais pessoas e entidades da cidade se fazerem ouvir, se envolverem e se mobilizarem na discussão e construção da mudança”, do “planeamento e decisão política integrarem a ciência, o conhecimento e a melhor evidência científica disponível, incluindo a proveniente da ciência psicológica, para melhor compreensão do comportamento e dos processos de tomada de decisão das pessoas e grupos” e de “estimularmos e facilitarmos as mudanças necessárias, não as obstaculizando”, testando e pilotando soluções para os desafios. Também, “quanto mais confiarmos na mudança, na possibilidade da mudança e nos activemos para a operar”.

Mas, não podemos esquecer que mudar é difícil, sublinho no artigo. Cá, é certo, mas também noutro lugares do Mundo, onde poderíamos pensar mais simples – em Oslo, por exemplo, onde uma Associação de Comerciantes apelidou de “Muro de Berlim” um conjunto de pilaretes que tornaram maioritariamente pedonal ou de mobilidade ligeira parte significativa do centro da cidade. “Mudar é muito difícil. Vencer a resistência à mudança inerente à condição humana e a inércia (social) associada a estas alterações conceptuais na forma de organização das cidades, é sempre difícil, em qualquer lugar do Mundo, quaisquer que sejam as suas circunstâncias.”

Sublinho, ainda, que “quem habita a cidade, ao contrário de penalizar medidas “apelidadas” de ecológicas, verdes ou de transição, valoriza-as, tendo crescido o apoio a partidos, movimentos e pessoas que mais as advogam e promovem e existindo hoje mais propostas deste tipo nos programas dos diversos partidos e movimentos. Lá (na Noruega), como cá, é possível e as pessoas valorizam a mudança. Lá, como cá, país de recursos fantásticos, as boas e eficazes ideias e soluções são contagiosas. Acreditemos, confiemos e envolvamo-nos na mudança. Das nossas cidades. Do nosso Mundo”, para, conforme continua o preâmbulo da Carta das Nações Unidas, “promovermos o progresso social e a qualidade de vida com mais liberdade”.

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Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal (Ao redor…; Sábado; 08.06.2022)

Uma menina de cara redonda vira a esquina, aproxima-se de dois homens que olham para um buraco que abrem no passeio e pergunta: “Andam à procura das raízes nacionais?”. “Não menina, de uma fuga de gás”, responde um dos homens. “Como sempre, o urgente não deixa tempo para o importante”, vemos na imagem seguinte a Mafalda pensar. Décadas passaram sobre a publicação desta sempre actual tira que suscita em cada um e uma de nós, ou em nós em diferentes momentos, um ímpeto para substituir “raízes nacionais” por um qualquer problema, desafio ou prática e “fuga de gás” por outro qualquer problema, desafio ou prática. Hoje, “raízes nacionais”, evoca em mim a promoção de competências socioemocionais; de uma cultura de apoio e suporte, de não-violência e não-discriminação e de um clima de Escola promotor de saúde, bem-estar e aprendizagem de todas e todos. Já “fuga de gás” situações de crise, conflitos violentos e problemas de saúde psicológica sem resposta ou intervenção no sistema de saúde. Em bom rigor, hoje a tira de há algumas décadas que questiona a Argentina da Mafalda faz-me pensar a prática da psicologia em contexto escolar em Portugal, hoje.

É verdadeiramente significativa a mudança que ocorreu desde que iniciei (ainda enquanto estagiário, em 2005) ou mesmo desde que interrompi (em 2013) funções como psicólogo com intervenção escolar. É verdadeiramente significativa, particularmente, no potencial impacto destes profissionais junto da comunidade educativa. Esta mudança decorreu, essencialmente, a partir de três grandes e relativamente rápidas transformações: o capital que a psicologia tem hoje na sociedade, o que representa e o seu (re)conhecimento e valorização; o crescimento significativo do número de psicólogas e psicólogos com intervenção em contexto escolar; a transformação conceptual dos referenciais e do seu papel, de intervenções tipicamente remediativas, apenas directas e junto de crianças e jovens com algum problema para intervenções de índole preventiva e promotora, também de consultadoria e junto de todas as crianças e jovens, professoras e professores, direcções, outros profissionais e assistentes e toda a comunidade educativa.

Impacto potencial que advém deste caminho de transição de uma intervenção quase exclusiva com as dificuldades de aprendizagem, a que se somava a orientação e desenvolvimento vocacional, para a intervenção em todo o contexto, apoiando e estimulando a criação de ambientes promotores de aprendizagem e desenvolvimento. Do caminho de intervenções quase exclusivas nos problemas de saúde mental para uma acção promotora da saúde (e da saúde mental) e do bem-estar. Impacto, apenas potencial por não totalmente cumprido. Porque, se antes não existia este referencial de actuação. Porque, se antes também, já existindo referencial, não existiam profissionais em número mínimo. Porque hoje, mesmo existindo referencial e profissionais num número mais significativo, a ausência de resposta aos problemas das crianças e jovens nos serviços de saúde explica o fosso entre o potencial instalado e a forma como, concretamente, as práticas ocorrem.

É que se já pré-pandemia – também em resultado da crise social e económica do início da década anterior e da não mobilização de respostas contingentes na área da saúde mental – existia uma prevalência de dificuldades e problemas de saúde psicológica nas Escolas portuguesas, a pandemia veio agravar este cenário e acrescentou sofrimento psicológico significativo a muitas crianças e jovens, particularmente as com maiores vulnerabilidades. Esta realidade foi recentemente reforçada com um importante estudo coordenado por Margarida Gaspar de Matos que, além do sofrimento nas crianças e dos jovens (1 em cada 3), evidencia-o também nas professoras e professores (1 em cada 2). A propósito destes indicadores, e validando as propostas de acções sugeridas no estudo, o Ministro da Educação voltou a assumir o facto das psicólogas e psicólogos serem “necessidades permanentes” das Escolas, a comprometer-se com a continuidade dos profissionais contratados nos últimos anos e a reforçar o “compromisso para com a saúde mental”, assumindo que ainda “não se investiu tanto quanto se devia”. Fê-lo tal qual António Costa havia feito, há semanas e numa conferências sobre o futuro da Europa, quando assumiu a necessidade de ser concretizado um “grande investimento” e a “capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde para poderem responder” aos problemas de saúde mental e disse ser necessário cumprir um programa “que está a ser desenvolvido, com muito lentidão neste caso, de introdução de psicólogos na Escola de forma a poder haver um melhor acompanhamento, uma melhor protecção e melhor resposta aos problemas de saúde mental entre os jovens”.

Ora, não poderia estar mais de acordo. Ao cumprimento do programa de reforço da psicologia em contexto escolar e transformação progressiva das suas práticas, alinhando-as com a melhor evidência científica disponível, deve corresponder a capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde para responder às situações hoje já problema. Isso é essencial para assegurar que existem recursos dirigidos às “fugas de gás”, podendo estas ser intervencionadas onde devem sê-lo (em contexto e com setting clínico, particularmente nos cuidados de saúde primários) pós-sinalização, entre outros, do próprio sistema educativo. Isso é essencial para se libertar recursos para que as “raízes nacionais” sejam “procuradas” e neste caso existam recursos disponíveis para intervir preventivamente onde isso mais deve e pode acontecer – nas Escolas e acompanhando todo o percurso educativo das crianças e jovens. Esta complementaridade porque permitiria também a articulação interinstitucional entre serviços, melhoraria a resposta e torná-la-ia mais eficiente. Permitiria que a “urgência” de responder na Escola a problemas não intervencionados fora dela, por escassez ou ausência de recursos, não invalidasse a oportunidade de se intervir no que é importante em contexto escolar, preparando crianças, jovens e comunidades para melhor lidarem com a adversidade futura e apoiando o desenvolvimento de competências, de ferramentas e a mobilização de recursos para não virem a engrossar o número de “urgentes” mais tarde.

Mais isto é fundamental num país ainda de forte exposição da sua população mais jovem aos principais determinantes socioeconómicos dos problemas de saúde mental (pobreza, exclusão e instabilidade nos contextos familiares). Mais isto é fundamental quando sucessivos estudos confirmam a importância do envolvimento das e dos alunos com a Escola e do seu gosto pela Escolar. Vejamos, por exemplo, resultados recentes de um novo estudo com o grupo de pais, mães e crianças que é longitudinalmente seguido desde 1991 (Avon Longitudinal Study) que demonstra que o “gosto pela Escola” de um ou uma estudante aos 6 anos é sensivelmente tão preditor do sucesso escolar aos 16 anos (10 anos depois) quanto o seu nível socioeconómico. Esta conclusão é uma importante pista para a intervenção visto ser, teoricamente, muito mais simples promover o gosto pela Escola quando comparado com a promoção de mudanças estruturais nos níveis socioeconómicos das famílias (ainda que pudessem ser desejáveis). Pista esta que se associa a outra conclusão do estudo (esta menos surpreendente), a forte relação entre o gosto pela Escola das e dos estudantes e a opinião que têm dos seus e das suas professoras, algo que sublinha a amplitude de benefícios de se avaliarem e prevenirem os riscos psicossociais dos profissionais na área de Educação e de se desenharem planos de desenvolvimento das pessoas nesta área.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, comemora-se, por estes dias e desde 1950, o Dia Mundial da Criança. Dia que pretende assinalar a importância da defesa dos direitos das crianças num Mundo onde tantos milhões de crianças e jovens são ainda deles privadas. Dia que hoje evoca a Declaração Universal dos Direitos das Crianças que no preâmbulo afirma, bem, que a “humanidade deve à criança o melhor dos seus esforços” para que “tenha uma infância feliz e possa gozar, em seu próprio benefício e no da sociedade, os direitos e liberdades aqui enunciados”. A humanidade deve-o às crianças e, devendo-o, não pode apenas responder ao urgente, mas, no seu melhor interesse, também ao importante. Devemos-lhes, hoje ainda mais que ontem, usando da melhor ciência e evidência disponível e da colaboração interinstitucional, fazer o importante urgente, com a inquietação sábia e a inspiração da Mafalda de Quino.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 08.06.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/importante-vs-urgente—-o-sofrimento-psicologico-nas-criancas-e-jovens-em-portugal

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Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal

Quase 70 anos depois, é ainda célebre o discurso onde Eisenhower, ex-presidente dos EUA, disse: “Eu tenho dois tipos de problemas: os urgentes e os importantes; os urgentes, não são importantes; os importantes nunca são urgentes.” Anos mais tarde, Quino revisitou esta dicotomia através de uma tira onde a sua Mafalda se aproxima de dois homens que abrem um buraco e pergunta: “Andam à procura das raízes nacionais? | Não menina, de uma fuga de gás | Como sempre, o urgente não deixa tempo para o importante”, acaba por dizer.

“Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal”, 34º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre esta dicotomia transportada para prática da psicologia nas Escolas em Portugal, hoje. Sobre como a importante “promoção de competências socioemocionais; de uma cultura de apoio e suporte, de não-violência e não-discriminação e de um clima de Escola promotor de saúde, bem-estar e aprendizagem de todas e todos” é condicionada pela urgência das “situações de crise, conflitos violentos e problemas de saúde psicológica sem resposta ou intervenção no sistema de saúde”.

O artigo pensa as rápidas e profundas transformações dos últimos anos na prática da psicologia em contexto escolar, particularmente pelo maior capital social e reconhecimento da psicologia; pelo crescimento significativo do número de psicólogas e psicólogos nestes contextos; e pelas alterações conceptuais na sua intervenção, de intervenções quase exclusivamente remediativas para uma prioridade a intervenções de índole preventiva e promotora. Transformações infelizmente não totalmente cumpridas porque a “ausência de resposta aos problemas de saúde mental das crianças e jovens nos serviços de saúde” não permite, muitas vezes, o foco da intervenção no importante e nos novos referenciais dos contextos escolares. Mais quando 1 em cada 3 alunas e alunos manifestam sofrimento psicológico, segundo dados de um estudo coordenado por Margarida Gaspar de Matos (com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses).

António Costa disse recentemente ser necessário um “grande investimento” com vista à “capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde na resposta aos problemas de saúde mental”. No fundo, às situações hoje já problema, permitindo intervir-se no que é importante em contexto escolar, preparando crianças, jovens e comunidades para melhor lidarem com a adversidade futura e apoiando o desenvolvimento de competências, de ferramentas e a mobilização de recursos para não virem a engrossar o número de “urgentes” mais tarde”.

O Dia Mundial da Criança evoca a Declaração Universal dos Direitos das Crianças que no preâmbulo afirma, bem, que a “humanidade deve à criança o melhor dos seus esforços”. “Devemos-lhes, hoje ainda mais que ontem, usando da melhor ciência e evidência disponível e da colaboração interinstitucional, fazer o importante urgente, com a inquietação sábia e a inspiração da Mafalda de Quino.”

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O bem-estar em todas as políticas (Ao redor…; Sábado; 20.05.2022)

Foram três atletas que representaram Portugal nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, edição particularmente marcada pela possível invasão da Ucrânia pela Rússia, concretizada com a intensidade e brutalidade que hoje conhecemos apenas quatro dias após o seu final. Creio não errar se afirmar que não serão muitas as leitoras e leitores deste texto que conseguem nomear três cidades do país mais medalhado desses Jogos Olímpicos. Com pouco mais de metade dos e das habitantes de Portugal e com uma comitiva de atletas consideravelmente mais pequena face a outros países, a Noruega manteve-se como o país mais medalhado (já o fora em 2018), batendo o recorde de medalhas de ouro nuns só Jogos Olímpicos de Inverno.

Apesar da neve abundante e das condições propícias à prática de desportos de Inverno, que aliás partilha com muitos outros países, muitos deles com muito mais população e atletas, este sucesso não se esgota nestas modalidades (veja-se, entre outros exemplos, Erling Haaland no futebol). Antes resultará, em muito, de políticas diversas e da sua carta dos Direitos das Crianças no Desporto, orientação que define que as crianças devem ter experiências positivas sempre que praticam desporto, que sugere a prática e a experimentação de diferentes modalidades e que não permite, antes dos 13 anos, classificações, pontuações ou rankings, procurando estimular a alegria, a relação e o bem-estar associado ao Desporto para todas e para todos ao longo de toda a vida.

A promoção e o investimento na alegria, na relação e no bem-estar, por oposição à rápida especialização, profissionalização e competitividade, como pista para o sucesso desportivo. Como para o sucesso educativo, como cada vez mais evidência científica confirma, desde os ciclos de estudos iniciais ao ensino superior. Como para a (nossa) produtividade laboral, como todas e todos já sentimos. Como para o desenvolvimento das nossas sociedades e para a confiança das pessoas e das comunidades nas suas instituições e nas pessoas.

Já nos últimos dias de 2019, aquando da sua primeira candidatura a presidente do PSD, Luís Montenegro dizia “crer que a política tem de ser medida precisamente pelo bem-estar” propondo “a adesão de Portugal a um novo índice: o Índice de Felicidade Interna Bruta”. Na nova candidatura que hoje abraça, volta ao tema, discordando do facto de hoje “medirmos o bem-estar das pessoas com base apenas no Produto Interno Bruto (PIB)”, dizendo não “temer a palavra felicidade” e reafirmando a intenção de criar um “Índice de Felicidade”. Acompanho Luís Montenegro na perspectiva de que a política e as políticas (públicas) devem, essencialmente, atender ao bem-comum e à possibilidade de bem-estar para todas e para todos e na consideração de que o PIB de um país é uma medida insuficiente para avaliar o nível e o progresso (ou não) no bem-estar das populações. Manifesto, porém, as minhas reservas, também conceptuais, em torno de índices referentes à felicidade e, neste âmbito, creio mais sustentada a posição do seu adversário nestas eleições (Jorge Moreira da Silva) que, além de apontar à melhoria considerável do posicionamento do nosso país no ranking do Desenvolvimento Sustentável e do Desenvolvimento Humano, ambos da ONU, aponta também como meta (ambiciosa, é certo, mas que nos guia) que Portugal possa vir a ocupar uma das 3 primeiras posições no Índice de Bem-Estar da OCDE, organização junto da qual trabalhou nos últimos anos.

Este índice resulta da combinação de 11 dimensões e, até simbolicamente, permite uma visão mais clara do quão complexo e muito impactante é o conceito de bem-estar. Das condições de habitação, ao rendimento; do trabalho e emprego de qualidade, à conciliação entre vida pessoal e profissional e ao suporte e conexão social; da educação e formação à qualidade do meio ambiente; do envolvimento cívico e participação democrática ao acesso a cuidados de saúde de qualidade; da percepção de satisfação com a vida à segurança. 11 dimensões que respondem a uma questão simples, mas chave do bem-estar: “como vai a (sua) vida?” 11 dimensões que tornam clara a multidimensionalidade do conceito, tal como tornam claro que o bem-estar (e o impacto das políticas públicas nele) vai além do Produto Interno Bruto sendo, naturalmente, por ele condicionado, mas também condicionando-o. Que o bem-estar é mais que a felicidade da pessoa ou das pessoas num determinado momento sendo, naturalmente, por ela condicionado, mas condicionando-a.

Saudando a relevância de ambos os candidatos a líder do maior partido hoje na oposição afirmarem central nas políticas públicas e na avaliação do seu impacto o bem-estar, e o que daí também pode resultar para o debate público e para a acção do governo e dos parceiros sociais, creio importante sublinhar três transformações relevantes na sociedade portuguesa neste domínio. Desde logo o capital social presente e futuro relativo à aspiração das populações a maior possibilidade de bem-estar para todas e todos e a pressão que isso traz e trará à sociedade e aos decisores e decisoras para o considerarem nas suas propostas e acção. Também o caminho de mudança de paradigma de medidas e políticas sociais que visam e apontam limites mínimos (de quotas, de rendimentos, de acesso), ainda absolutamente fundamentais, para uma narrativa, medidas e políticas de promoção do bem-estar. Medidas e políticas avaliadas pelos seus impactos no bem-estar, e não apenas por indicadores económicos ou de acesso, logo mais dirigidas às especificidades e aspirações da sua população alvo e mais desenhadas considerando o envolvimento em todas as fases das e dos seus destinatários. Finalmente, o evoluir para um modelo e para uma abordagem às políticas públicas onde a cada nova proposta, qualquer que seja a área, seja considerado e estudado o impacto na dimensão do bem-estar, numa perspectiva da possibilidade de bem-estar em todas as políticas. Bem-estar a que acrescento a saúde mental, nele fundamental. Bem-estar num país que poderá ter factores menos facilitadores de um crescimento significativo (e continuado) do PIB nos próximos anos, mas que tem inúmeros factores facilitadores de um crescimento significativo da possibilidade de bem-estar de todas e de todos e, até, deste alavancar o seu PIB.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, pensar o desenvolvimento de um país face aos desafios do presente e do futuro, e até à necessidade de alteração de paradigmas de comportamento e consumo da sua população, tendo por referência principal o seu Produto Interno Bruto é potencialmente falacioso e promotor de “águas de bacalhau”. Ao contrário, além do Bacalhau (da Noruega), feito produto nacional de qualidade e cartão de visita, sugiro importarmos a centralidade do bem-estar das políticas (da Noruega), fazendo-o, também, produto nacional e cartão de visita. Desenvolvendo-o a partir de uma estratégia onde todos os sectores de governação o considerassem e priorizassem, onde se estabelecessem parcerias com entidades, organizações da sociedade civil e empresas, onde se pensasse o quão determinante é hoje o bem-estar na prevenção e na promoção nas áreas económicas, sociais ou ambientais. Onde se apostasse no seu valor na captação de pessoas e investimentos para o país, na promoção da qualidade de vida, da equidade e da coesão social e, afinal, no quão decisivo é na resposta à pergunta chave: “como vai a (sua) vida”?

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 20.05.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-bem-estar-em-todas-as-politicas

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O bem-estar…

Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 foram marcados pela possível invasão da Ucrânia pela Rússia, concretizada com a brutalidade que hoje conhecemos apenas 4 dias após o seu final. Neles, a Noruega, país com cerca de metade da população de Portugal, repetiu a vitória de 2018, tornando-se em 2022 o país com mais medalhas de ouro nuns só JO de Inverno. Noruega, país onde o Desporto é promovido para todas e todos, ao longo de toda a vida. País cuja carta dos Direitos das Crianças no Desporto estimula que as crianças tenham experiências positivas sempre que o praticam, sugerindo a prática/experimentação de diferentes modalidades e não permitindo, até aos 13 anos, classificações, pontuações ou rankings. País que promove e investe na alegria, relação e no bem-estar, por oposição à rápida especialização, profissionalização e competitividade no Desporto.

“O bem-estar em todas as políticas”, 33º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte estes factores chave do sucesso desportivo da Noruega. Factores também chave do sucesso educativo, da produtividade laboral e do desenvolvimento das nossas sociedades e da confiança das pessoas e das comunidades nas pessoas e nas instituições.

Partindo daqui o artigo saúda o facto dos candidatos a líder do maior partido hoje na oposição afirmarem central nas políticas públicas e na avaliação do seu impacto o bem-estar, e o que daí resulta para o debate público e para a acção do governo e dos parceiros sociais. Nele afirmo-me concordante com Luís Montenegro na sua afirmação de que as políticas (públicas) devem, essencialmente, atender ao bem-comum e à possibilidade de bem-estar para todas e todos e que o PIB de um país é uma medida insuficiente para avaliar o nível e o progresso (ou não) no bem-estar das populações. Nele associo-me a Jorge Moreira da Silva quando aponta como meta (ambiciosa, é certo, mas que nos guia) que Portugal possa vir a ocupar uma das 3 primeiras posições no Índice de Bem-Estar da OCDE, medida que resulta de 11 dimensões que tornam clara a multidimensionalidade do conceito de bem-estar e que este vai além do PIB sendo, naturalmente, por ele condicionado, mas também condicionando-o.

Abordo, ainda, o capital social presente e futuro relativo à maior aspiração das populações à possibilidade de bem-estar para todas e todos; a mudança de paradigma de medidas e políticas sociais que visam e apontam limites mínimos (de quotas, rendimentos, acesso), ainda absolutamente fundamentais, para uma narrativa, medidas e políticas de promoção do bem-estar; e o evoluir para um modelo e uma abordagem às políticas públicas onde a cada nova proposta, em qualquer área, seja considerado e estudado o impacto na dimensão do bem-estar, numa perspectiva da possibilidade de bem-estar em todas as políticas.

Termino sugerindo que além do Bacalhau (da Noruega), feito produto nacional de qualidade e cartão de visita, importemos (da Noruega) a centralidade do bem-estar nas políticas, fazendo-o, também, produto nacional e cartão de visita.

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Eleições: Lá como cá, a relatividade do ganhar e do perder (Ao redor…; Sábado; 08.05.2022)

Como eu, certamente já acompanhou noites eleitorais. Um rodopio de resultados regado com comentários e declarações dos e das candidatas e principais apoiantes. Tudo em busca da identificação e comunicação de quem venceu e de quem perdeu, signifique ganhar e perder ter mais ou menos votos que as e os adversários ou apenas “um bom ou mau resultado”.

Foram, grosso modo, 13 milhões e 300 mil as francesas e franceses que votaram no passado dia 24 de Abril em Marine Le Pen, 41,46% do total de votantes. Mais quase 8 milhões face aos 5 milhões e 500 mil votos (17,79%) que o pai, Jean-Marie Le Pen, havia obtido aquando da sua surpreendente passagem à segunda volta das presidenciais francesas de 2002. Daí para cá a Frente (hoje Reagrupamento) Nacional obteve 6 milhões e 400 mil votos na primeira volta das eleições de 2012 e 10 milhões e 600 mil na segunda volta em 2017, assegurando três segundas voltas em cinco eleições nos últimos 20 anos e aumentando 145% o seu resultado de 2002 a 2022. Noutra geografia, e noutro contexto, Donald Trump obteve 74 milhões e 200 mil votos nas eleições presidenciais americanas de 2020, mais de 11 milhões de votos mais do que havia obtido nas eleições de 2016 que fizeram dele Presidente, a maior votação de sempre de um/a candidata/o à presidência com excepção dos votos de Joe Biden que ganhou essa eleição (a melhor votação de Obama – presidenciais de 2004 – foi inferior a 70 milhões de votos). Dois simbólicos exemplos de derrotas, incluindo a de um incumbente, a que poderíamos juntar a outras próximas em Espanha ou Itália, que nos estimulam a reflectir sobre a complexidade do momento que vivemos e sobre a relatividade do ganhar e do perder (em) eleições, dado os enormes impactos e ganhos de quem “perdeu”.

Não sendo um fenómeno exclusivo de uma direita mais nacionalista, populista e antissistema (veja-se o efeito dos partidos “verdes” nas últimas 2/3 décadas na mudança de programas políticos dos partidos de centro direita e esquerda na Europa Central e do Norte e do Bloco de Esquerda no programa do Partido Socialista em Portugal), um dos ganhos associados às derrotas destes partidos em diferentes países mas com resultados crescentes e significativos, é a generalização da política do ódio e do e pelo medo. Dizia um conjunto de historiadoras e historiadores franceses que Zemmour mente sobre o passado para as pessoas odiarem o presente. Ódio que, a par do medo instigado face a tudo o que é novo, diferente, diverso, facilmente se propaga ao ritmo dos desafios societais e da complexidade crescente que enfrentamos, das mudanças e adaptações que o quotidiano nos exige e que se espalham e alimentam em grupos e redes sociais cujos algoritmos beneficiam mensagens assentes em emoções intensas e polarizadoras.

A polarização extrema, daqui resultante, alimenta-se do confronto claramente distendido de visões de sociedade e da transformação de adversários e adversárias em inimigos e inimigas. Rompem-se pontes, classificam-se “pessoas” e não apenas posições / ideias (“deploráveis”, nas palavras de Hillary Clinton face a “metade das e dos eleitores de Trump”) ameaçando a harmonia necessária em política, a possibilidade e a crença de mudança, perpetuando e reforçando ciclos de extremismo e a cristalização de dois polos, altamente magnéticos, não conciliáveis e que vivem, também, uma união baseada na repulsa do outro polo e não apenas na identificação com as pessoas e ideias do seu polo.

Com este “fosso” entre grupos cada vez maior, a narrativa do medo e do ódio ganha espaço mesmo quando os e as candidatas que a usam e a propagam perdem eleições. Com ela instala-se o que podemos apelidar de crise de direitos e da democracia, ou seja a interrupção e retrocesso recente a que assistimos de um caminho de maior generalização e incondicionalidade de direitos básicos humanos no Mundo e de diminuição progressiva de sistemas e regimes políticos autoritários no Mundo.

Parte da inversão deste caminho resulta de uma centração permanente no caso ou exemplo particular de uma situação, seja ela uma dificuldade ou vulnerabilidade de uma pessoa ou grupo ou uma situação dúbia ou mesmo criminosa que serve de farol para classificações do tipo “nós” vs. “outras/os” ou “país real vs. país das e dos políticos ou dos privilegiados”. Serve também propósito de colectivização da culpa, recentemente abordada no parlamento português e, por vezes, de promoção ou legitimação de discursos e comportamentos xenófobos ou homofóbicos. Acrescenta, então, à crise da representação, uma crise de confiança onde pessoas crescentemente desconfiam de instituições, de outras pessoas e, até, de si próprias e da possibilidade do seu futuro. Crises que funcionam como estímulo para uma maior procura e aceitação de decisões ou propostas simples, simplistas, que atendem exclusivamente ao presente e ao local, por vezes salvíficas e personificadas numa pessoa, para questões ou problemas especialmente complexos, abrindo espaço a discursos altamente apelativos que oferecendo “soluções” e “melhorias” rápidas atingem facilmente pessoas e grupos mais vulneráveis ou psicologicamente a eles mais predispostos.

Além das vitórias na narrativa o caminho de crescimento, mesmo aquando das derrotas, torna o horizonte de vitória mais possível, próximo, por vezes até provável, com três consequências significativas: a) a institucionalização progressiva e a naturalização de ideias e figuras políticas no espectro nacional e internacional, alargando-se mais o seu espaço mediático e sua capacidade de condicionar o debate público; b) o maior crédito e a maior penetração, discussão e propagação de ideias e de posições não verdadeiras, não factuais ou não baseadas em ciência, com cada vez maior partilha de desinformação, de fake news e teorização conspirativa que sustenta a ideia de necessidade de “fim de regime”, “fim de ciclo” ou apenas de “autovitimização”; c) com a institucionalização e o crescente assumir de lugares de relevância, decisão e poder, mais personalidades e empresas se predispõem a associar-se a estes partidos e pessoas, profissionalizando as suas estruturas e, particularmente, a sua comunicação, usando mais e com maior eficácia estratégias de reforço, de segmentação e de mediatização das mensagens e das pessoas em questão.

Outro efeito “ganhador” destas derrotas resulta da mudança e da influência nos discursos e nas práticas de partidos vencedores ou potencialmente vencedores. A este propósito vejamos o impacto das posições mais populistas da campanha do “Leave” (pela saída) no referendo que discutiu a continuidade do Reino Unido na União Europeia nos partidos Conservador e Trabalhista, como o Partido Republicano normaliza posições, comportamentos e atitudes de Donald Trump justificando-as como “a sua compreensão da frustração das comunidades americanas brancas mais pobres” ou como Valérie Pécrese, candidata presidencial dos Republicanos em França, abordou logo no seu primeiro comício a suposta “grande substituição”, bandeira dos partidos da direita nacionalista, populista e antissistema, que entrou no discurso e programa do partido de centro direita, apesar de claramente contrária aos seus princípios básicos (de factualidade, da não discriminação e do não incitamento ao ódio e violência), também por isso ameaçando-os e a prazo colocando-os em risco.

Por cá, como por lá, tivemos um candidato presidencial em 2021 que usou da expressão “pessoas de bem”, tão utilizada por Salvini em Itália ou Marine Le Pen em França (aliás presenças nas suas campanhas eleitorais), para nacionalizar a expressão no seu “portugueses de bem”. Arrogando-se de decidir quem o é ou não é, mesmo dirigindo-se apenas a parte das eleitoras e eleitores, obteve cerca de 500.000 votos de portuguesas e portugueses (11,90%) depois de uma campanha de legitimação de ódios, de utilização despudorada do medo e onde acabou pronunciado por desobediência e condenado por agredir uma família.

Como por lá, por cá, a Psicologia, no seu desenvolvimento como ciência e na sua prática, não pode ignorar esta realidade. O seu objecto – aprofundar e generalizar os direitos humanos, prosseguir a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas e grupos e a equidade, inclusão e coesão social das sociedades – depende não apenas de dimensões individuais, mas do contexto e de dimensões políticas e sociais do mesmo. Mais, a ciência psicológica é essencial a determinantes desta crise da democracia e dos direitos. Porque informa sobre a importância e promove a relação, a curiosidade, a cooperação e a resolução não violenta de conflitos, essenciais à abertura à e ao outro e à prevenção dos fenómenos de ódio e à utilização do medo. Porque é central na promoção da saúde mental, na possibilidade de florescimento e de bem-estar, factores essenciais à confiança no presente e para o futuro, à adaptação às adversidades e à gestão dos anseios e frustrações. Porque é essencial ao desenho ajustado às pessoas, ao seu comportamento e à tomada de decisão, de políticas públicas fundamentais à mitigação das vulnerabilidades, à resposta aos desafios do presente e do futuro e à crença no sistema democrático como capaz de responder às necessidades e expectativas das pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o chão comum da democracia e dos direitos humanos far-se-á com todas e com todos, com participação, envolvimento e mobilização capazes, não apenas de vencer eleições, mas de vencer ideias, narrativas, simplificações e mistificações. Capazes de vencer a utilização (e legitimação) do ódio e do medo, em benefício de projectos e ambições políticas de pessoas e de grupos. Capazes de recuperar e construir confiança e de acreditar no futuro, de cada pessoa e de todas as pessoas. Como cidadão, e como cidadão psicólogo, aqui e ali, no Mundo ao redor, preocupam-me mas mobilizam-me estes desafios e o nosso tempo. E a si?

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 08.05.2022

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Noves de Maio…

Eis-nos a 9 de Maio. Nas últimas semanas, comentadores e comentadoras, têm-se desdobrado em reflexões sobre o conteúdo do discurso de Putin neste dia de parada militar na Rússia, comemorativa da capitulação da Alemanha Nazi na II Guerra Mundial. Sobre ganhos e perdas, narrativas e o “reescrever da história”, ódios e medos. Sobre volatilidade. Sobre relatividade. Sobre tudo isto com uma constante: independentemente de quem ou como se ganhe ou perca e do que isso signifique, nada, hoje e no futuro, Mundo fora, permanecerá como antes da absurda e ilegítima invasão da Ucrânia.

“Eleições: Lá como cá, a relatividade do ganhar e do perder”, 32º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa a relatividade do ganhar e do perder, discutindo ganhos associados a derrotas de partidos [particularmente de direita nacionalista, populista e antissistema] em diferentes países, mas com resultados crescentes e significativos. Toca a “generalização da política do ódio e do e pelo medo” que “se espalha e alimenta em grupos e redes sociais, cujos algoritmos beneficiam mensagens assentes em emoções intensas e polarizadoras”. Toca a polarização extrema que se alimenta “do confronto claramente distendido de visões de sociedade e da transformação de adversários e adversárias em inimigas e inimigos”, rompendo pontes e “ameaçando a harmonia necessária em política e a possibilidade e a crença de mudança”. E toca a crise de direitos, da democracia e de confiança, também resultante de uma “centração permanente no caso ou exemplo particular de uma situação, seja ela uma dificuldade ou vulnerabilidade de uma pessoa ou grupo ou uma situação dúbia ou mesmo criminosa que serve de farol para classificações do tipo “nós” vs. “outras/os” ou “país real vs. país das e dos políticos ou privilegiados, para a colectivização da culpa e promoção ou legitimação de discursos e comportamentos xenófobos ou homofóbicos”.

Em resumo, mesmo com derrotas assistimos à institucionalização progressiva e naturalização de ideias e figuras políticas no espectro nacional e internacional; ao maior crédito e penetração, discussão e propagação de ideias e posições não verdadeiras, não factuais ou não baseadas em ciência; e à profissionalização das estruturas destes partidos, particularmente da sua comunicação.

Isto, lá (EUA ou França, em Itália ou Espanha), como cá, onde um candidato presidencial nacionalizou a expressão “portugueses de bem”, arrogando-se de decidir quem o é ou não é. Lá, como cá, onde “a Psicologia, no seu desenvolvimento como ciência e na sua prática, não pode ignorar esta realidade” ou não fosse “o seu objecto – aprofundar e generalizar os direitos humanos, prosseguir a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas e grupos e a equidade, inclusão e coesão social – dependente não apenas de dimensões individuais, mas do contexto e de dimensões políticas e sociais do mesmo”.

Eis-nos a 9 de Maio, também Dia da Europa. Dia de celebrar a reflectir para preservar e promover os seus valores.