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NPD – Normalização, polarização, democracia

Algumas semanas após Marcelo Rebelo de Sousa o ter solicitado, conhecemos em simultâneo com a proposta de Orçamento do Estado (OE), o cenário macroeconómico previsto pelo Governo para 2023. Contém perspectivas sobre o PIB, a inflação, o mercado de trabalho, financiamento e pressupostos como taxas de juro ou preço do petróleo. Nem nele, nem no próprio OE, constam indicadores (e sua variação) sociais como a pobreza e desigualdade ou psicológicos como o bem-estar. Se infelizmente ainda assim é, creio que assim não será sempre e que, indicadores fulcrais como estes para aferir as condições e qualidade de vida, serão mais considerados nas decisões políticas, respondendo-se mais a necessidades e expectativas das pessoas, algo fundamental à preservação da democracia.

“NPD – Naturalização, polarização, democracia”, 43º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) faz uso de 7 simplificações (“que julgo importantes e que procuro serem cuidadosas e simples, mas não simplistas”) para, a partir do trabalho pioneiro de Vygotsky, pensar a relação entre processos de normalização, polarização e (ameaças à) democracia. Democracia, “sistema que, apesar das suas vulnerabilidades, mais permite e promove o envolvimento de todas e todos, procura o desenvolvimento de uma sociedade inclusiva e aberta, assente na equidade e na coesão social e na promoção de saúde, incluindo saúde mental, bem-estar e possibilidade de desenvolvimento e autodeterminação.”

O artigo discute e exemplifica o “papel de outras e outros nos processos de normalização, no tornar real o que apenas era potencial” e o “facto de quando o outrora apenas potencial se torna real, automaticamente se criar outro potencial, mais distante.”

Pensa “a forma como a quebra de mediadores externos e sociais (jornalistas, por ex.) “entrega” a intermediação do estímulo–resposta à linguagem e simbólico de cada pessoa ou, quando muito, de cada grupo”. A forma como “as redes sociais determinam o fluxo de informação e influenciam a formação de opiniões e, até, identidades”. Como “a quebra generalizada de confiança (nas e nos outros, nos e nas decisoras e nas instituições) desafia a saudável separação entre factos e opiniões, questiona a ciência e factualidade, dificulta a discussão construtiva e a mobilização das pessoas para a causa pública.”

“Tudo a concorrer para a fragilização dos princípios democráticos e das democracias, enquanto sistema que vive da partilha de princípios comuns fundamentais.” Tudo a exigir que “compreendamos, escutemos e empatizemos com quem vota. Que criemos, em conjunto e com compromisso, políticas que respondam às necessidades e expectativas e atendam às vulnerabilidades económicas, sociais e psicológicas das pessoas. Que façamos da saúde mental e do bem-estar prioridades globais” contribuindo “para a confiança, credibilidade das instituições e qualidade da democracia” garantindo, assim, melhores condições para a promoção da saúde e para a possibilidade de bem-estar de todas e todos.”

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O SNS e os seus profissionais – Um ditado para Manuel Pizarro (Ao redor…; Sábado; 14.09.2022)

Nas memórias da minha infância cabem um conjunto de ditados e provérbios populares que acompanhavam vivências quotidianas. O “onde alhos há, vinho haverá”, invariavelmente associado à preparação de uma marinada muito utilizada por uma tia minha, é-me particularmente presente, também porque reforçado por uma memória olfactiva. Evoco-o a propósito da indigitação de Manual Pizarro como Ministro da Saúde, dos desafios com os quais se deparará e de uma reflexão sobre os profissionais de saúde que compõem o Serviço Nacional de Saúde (SNS), incluindo as psicólogas e psicólogos.

O novo Ministro da Saúde inicia funções confrontado com um conjunto de problemas instalados. A carência de profissionais das áreas da Medicina e Enfermagem e as dificuldades para o seu recrutamento, por indisponibilidade de candidatas e candidatos, é um deles. Medidas excepcionais e outras estruturais, espera-se, serão brevemente implementadas para responder a este problema estrutural do SNS, cujas causas remontam a acções e/ou inacções do presente, dos últimos anos, mas também de um período mais distante no tempo. Ora, porque “onde alhos há, vinho haverá”, importa que Manuel Pizarro tenha capacidade e motivação para liderar uma equipa capaz de atender a este foco sem esquecer que, inacções noutras áreas ou junto de outros grupos profissionais, podem a médio (ou mesmo curto) prazo resultar em problemas semelhantes. Veja-se o caso das psicólogas e psicólogos.

Portugal investiu consideravelmente na formação destes profissionais. Apesar de ser uma profissão recente em Portugal (maioritariamente a partir da década de 80 do século passado, considerando que a oferta formativa em Portugal se iniciou apenas após o fim do Estado Novo em 1974), existem hoje mais de 26.000 psicólogas e psicólogos (5500 dos quais especialistas em Psicologia Clínica e da Saúde) mas apenas um pouco mais de 1000 (4%) no SNS. Isto, apesar do amplo reconhecimento público, também do ora Ministro da Saúde, da necessidade do crescimento significativo do número de profissionais, em especial nos cuidados de saúde primários (CSP). Reconhecimento que convive com a realidade de um concurso que decorre há quatro (!) anos para a contratação de 40 psicólogas/os para os CSP e com as notícias que informam que um cada vez mais significativo número de profissionais da área optaram por sair do SNS, devido às suas condições de trabalho. Reconhecimento que convive com a situação incompreensível de não equiparação à carreira de “Técnico Superior de Saúde – Ramo Psicologia Clínica” dos e das psicólogas clínicas do SNS com contratos individuais de trabalho, algo que gera situações de desequilíbrio e desigualdade de condições profissionais (de carreira, remuneração e até, imagine-se, de possibilidades de actuação) de profissionais com a mesma formação, perfil técnico e funcional e funções nas estruturas do SNS. Se não queremos, num futuro provavelmente breve, que também na área da Psicologia seja difícil manter e recrutar profissionais, é, além de justo, indispensável, alterar legislação, revendo e agilizando os processos de contratação e criando um percurso comum de progressão e diferenciação profissional, bem como reforçar a autonomia técnico-científica e a valorização deste grupo profissional. É que, “onde alhos há, vinho haverá”.

Mas, se prevenção é uma palavra-chave da prática das psicólogas e psicólogos, a procura de compreensão da pessoa, de acordo com modelos que enfatizem a sua dimensão biológica, psicológica e social também o é. Hoje sabemos bem quanto é importante, em saúde, actuar não apenas nas consequências, mas nas causas dos problemas, influenciando e estimulando hábitos e estilos de vida (mais saudáveis), a promoção de competências, a adesão e manutenção de comportamentos ou terapêuticas ou mesmo contribuindo em importantes determinantes sociais como a pobreza ou a exclusão. O compromisso das psicólogas e psicólogos de participação em programas ao longo de todo o ciclo de vida e de intervenções multidisciplinares, bem como de um contributo para a mudança societal, é algo de muito relevante a uma intervenção não exclusiva em fim de linha, tendente à prevenção e à diminuição do “stresse” e da pressão sobre as organizações do SNS, o que pode concorrer para a diminuição do sofrimento ético e para a motivação dos diferentes profissionais. É que, “onde alhos há, vinho haverá”.

Mas, além da prevenção e do modelo biopsicossocial, o foco no trabalho em equipa de psicólogos e psicólogas e o seu conhecimento e contributo possível nas dimensões do comportamento, da tomada de decisão e da relação são diferenciadores. Num momento em que a organização de trabalho e os riscos psicossociais são responsáveis por muitos milhares de dias de trabalho perdidos e de muito sofrimento instalado, além das fundamentais medidas de valorização das e dos profissionais, importa que se estabeleçam planos nas estruturas do SNS de avaliação, prevenção e acção permanente sobre estes riscos e de formação e apoio às lideranças, no sentido da implementação das melhores práticas e de uma actuação cientificamente validada, visando a criação de locais de trabalho inclusivos e saudáveis, com contributo da psicologia. É que, “onde alhos há, vinho haverá”.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, os sistemas de saúde, porque confrontados com níveis elevados de incerteza, de desconfiança, com a maior longevidade da população e com crises de saúde pública diversas, muito beneficiam da psicologia enquanto ciência e profissão na garantia da sua sustentabilidade. Muito beneficiam na promoção da saúde, bem-estar e equidade das populações que servem. Também por isso, Sr. Ministro, saiba a nossa profissão não apenas disponível, como sempre estivemos, mas preparada, motivada e comprometida com o objectivo de um SNS mais próximo das pessoas e mais responsivo às suas necessidades. Creio ser tempo das proclamações políticas, das legitimas expectativas das e dos profissionais e da exigência das populações, redundarem em acções concretas que dêem mais oportunidade e condições às psicólogas e psicólogos para um contributo distinto e distintivo na saúde e bem-estar das populações a partir do SNS e para a sustentabilidade dos serviços públicos em Portugal.

 

O SNS e os seus profissionais – Um ditado para Manuel Pizarro

in Sábado (Ao redor…); 14.09.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-sns-e-os-seus-profissionais–um-ditado-para-manuel-pizarro

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(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem (Ao redor…; Sábado; 02.09.2022)

Se hoje temos mais informação, mais literacia e se temos melhores condições (socioeconómicas), porque temos mais problemas? Conversava sobre saúde mental com um conjunto de estudantes de medicina e, já perto do final da sessão, isto mesmo me perguntaram, a propósito da saúde mental da população jovem, particularmente das e dos estudantes de ensino superior. Questão que julgo merecedora de especial atenção e cuja reflexão procuro estimular a partir dos quatro pontos cardeais.

N(otas). Uma das mais importantes e significativas transformações de Portugal nas últimas décadas prende-se com o aumento da escolaridade da população, especialmente da população mais jovem. De 1981 a 2021, e apesar da diminuição considerável do número de jovens em Portugal, as e os estudantes a frequentarem o ensino superior aumentaram quase 5 vezes de 84 para 412 mil. Hoje, Portugal tem 44% da população entre os 30 e 34 anos com o ensino superior completo, percentagem já superior à média da União Europeia (42%). Este ano, apenas na primeira fase, candidataram-se mais de 61 mil pessoas (para pouco mais de 55 mil vagas), números que reforçam a competição para a entrada, que acresce à competição, “à décima”, para determinados cursos de determinadas instituições.

A centralização nos resultados, medidos pelas classificações internas no ensino secundário e pelas provas de ingresso (exames nacionais), impacta significativamente o período de ensino secundário no que ao bem-estar respeita. O excessivo foco nos exames e nos resultados, com prejuízo do desenvolvimento de outras competências, incluindo as sócio-emocionais, bem como uma lógica que procura premiar o mérito mas que, não raras vezes, desconsidera a falta de oportunidades e as situações de vulnerabilidade prévias de estudantes, acaba por resultar na promoção da competição e competitividade ao invés da colaboração e coesão, importantíssimas à percepção de suporte social enquanto factor protector da saúde mental fundamental nestas idades.

O programa do actual governo prevê “avaliar a melhoria a introduzir no acesso ao ensino superior, com vista à separação entre a certificação do ensino secundário e o acesso ao ensino superior”. Algo essencial, ainda pouco discutido em Portugal, apesar da recente aprovação de uma reforma em Espanha que, progressivamente, concretizará a mudança de sistema, com redução das tradicionais provas de acesso (exames) pela introdução de uma prova centrada na “maturidade académica”, nas competências e na interrelação de conteúdos, inspirada no modelo PISA da OCDE. Importa acompanhar esta experiência porquanto é fundamental que Portugal possa vir a ter um sistema mais responsivo ao conhecimento hoje existente (na avaliação, mas também nos processos de ensino-aprendizagem e estudo), melhor prevenindo problemas de saúde mental (nomeadamente stress, ansiedade ou depressão) também resultantes do actual sistema e da pressão associada à (imposta) necessidade de determinado tipo de resultados.

(O)utras e Outros. Um inquérito recente demonstra que 73% de estudantes respondem “sim” quando questionadas/os se procuram “sempre parecer positivas/os e felizes com tudo o que se associe ao seu nome verdadeiro”. Esta constante exigência, especialmente quando as redes sociais, as relações e o reconhecimento no espaço virtual são tão importantes, acrescentam uma pressão significativa às e aos jovens, potencialmente estigmatizante, penalizadora e até violenta para as e os que estão em situação de maior vulnerabilidade, que estão mais tristes, mais tímidas/os, questionadora da sua autoestima e da integração social.

Mais e melhor informação e investigação sobre redes sociais, a sua organização e as suas consequências. Mais e melhor literacia para as crianças, jovens e seus responsáveis sobre a sua utilização consciente e sobre formas de prevenir os seus impactos, incluindo para a saúde mental. Uma nova atitude em torno do sucesso e da sua obstinada associação à felicidade e mérito. Todos elementos essenciais a uma sociedade mais inclusiva, respeitadora da diversidade e de suporte à vulnerabilidade. De uma sociedade mais capaz de apoiar aquando da adversidade, de crises individuais e colectivas e de promover a saúde mental, o bem-estar e a possibilidade de futuro das e dos jovens.

S(uporte). Recentemente um outro estudo apontou a saúde mental como terceira maior preocupação da população jovem, depois do custo de vida e da crise climática. Também a Agenda da Juventude para a Saúde 2030 lhe confere especial enfâse, destacando que “não devem existir barreiras à (…) saúde mental”, que “a promoção do bem-estar psicológico deve ser especialmente considerada em todos os momentos de contacto com os serviços de saúde e deve articular-se agilmente com o meio escolar” e que a “capacitação de jovens em meio escolar para a promoção do bem-estar físico e psicológico deve recorrer a estratégias aliadas à aprendizagem social e emocional”.

É importantíssimo o capital social associado à aspiração da população jovem a uma outra resposta, mais contingente e com mais recursos, aos desafios que a sociedade contemporânea coloca à saúde e à saúde mental. Desde logo para concluir o caminho de diminuição do estigma, visível no facto das respostas que, passo a passo, têm vindo a ser criadas e/ou reforçadas terem elevada procura – veja-se nas Escolas, o sucesso do programa Cuida-te+ ou o facto do Serviço de Aconselhamento Psicológico do SNS24 ser maioritariamente utilizado por população jovem e/ou em situação de desemprego. Mas, também, para um verdadeiro reforço de recursos que perpasse diversas áreas e inclua um real acesso a serviços de psicologia e saúde mental no SNS e nos seus cuidados de saúde primários, o reforço dos recursos nas Escolas, nas Comunidades e no Ensino Superior, neste contexto particularmente dirigidos à prevenção e promoção, conforme o recente programa da FLAD (Saúde Mental no Ensino Superior), que conta com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses, procura estimular e apoiar.

E(stabilidade). Numa fase de constante necessidade de adaptação à transformação e de resposta a desafios e crises sucessivas, de procura e construção de autonomia, de saída de casa e transição, é fulcral que o país possa ter uma estratégia concertada de apoio, procurando garantir mais estabilidade e previsibilidade à população jovem. Tal investimento é essencial ao futuro do país e implica pensar a habitação, a remuneração e reconhecimento no trabalho, os vínculos e o combate à precariedade e a promoção da saúde, saúde mental e do bem-estar. É essencial, porque condiciona significativamente o futuro da população jovem, incluindo a tomada de decisão de manutenção ou não no país, de ter ou não filhas/os e as oportunidades e capacidades de desenvolvimento, florescimento, empreendedorismo e produtividade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, os pontos cardeais são pontos de referência que se associam e complementam. Assim é também com as notas, as outras e outros, o suporte e a estabilidade (ou as suas ausências), elementos essenciais a pensarmos a rosa dos ventos da saúde mental da população jovem e à resposta aos seus problemas e aos seus desafios. Assim é, pois, conforme na rosa dos ventos, “um mínimo desvio inicial torna-se cada vez maior, à medida que vai aumentando a distância”, desvio com forte impacto na saúde e bem-estar da população mas também em alguns dos principais desafios do país, nomeadamente o envelhecimento da população, a (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde e segurança social ou a produtividade.

 

(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem

in Sábado (Ao redor…); 02.09.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/rosa-dos-ventos-da-saude-mental-da-populacao-jovem

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O SNS e os seus profissionais – Um ditado para Manuel Pizarro

“É criado, no âmbito do Ministério dos Assuntos Sociais, o Serviço Nacional de Saúde (SNS), pelo qual o Estado assegura o direito à protecção da saúde, nos termos da Constituição.” Artigo 1º da Lei 56/79 que criou o SNS, publicada há exactamente 43 anos. Lei que continuou o ciclo aberto pelo célebre “Despacho Arnaut” (Julho de 1978) que afirmava o compromisso com a criação do SNS, a saúde como um direito fundamental e a garantia do acesso de todos, independentemente da sua condição económica. Do “Despacho Arnaut” até hoje, o SNS, no que teve e tem de transformador, de muito bom e de melhorar, constrói-se com todas e todos e dia após dia, vivendo hoje desafios significativos que coexistem com mudanças na sua liderança. É que “onde alhos há, vinho haverá”.

“O SNS e os seus profissionais – Um ditado para Manuel Pizarro”, 41º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte deste dito popular, memória da minha infância, para, “a propósito da indigitação de Manual Pizarro como Ministro da Saúde e dos desafios com os quais se deparará”, reflectir “sobre os profissionais de saúde que compõem o SNS, incluindo as psicólogas e psicólogos”.

Discute, abordando a situação actual das psicólogas e psicólogos (carência de recursos, 4 (!) anos de concurso e a incompreensível não equipação das/os profissionais com contratos individuais de trabalho à carreira de “Técnico Superior de Saúde – Ramo Psicologia Clínica”) que “se não queremos, num futuro provavelmente breve, que também na área da Psicologia seja difícil manter e recrutar profissionais, é, além de justo, indispensável, alterar legislação, revendo e agilizando os processos de contratação e criando um percurso comum de progressão e diferenciação profissional, bem como reforçar a autonomia técnico-científica e a valorização deste grupo profissional.

Afirma-se que o seu “compromisso de participação em programas ao longo de todo o ciclo de vida e de intervenções multidisciplinares, bem como de um contributo para a mudança societal, é algo de muito relevante a uma intervenção não exclusiva em fim de linha, tendente à prevenção e à diminuição do “stresse” e da pressão sobre as organizações do SNS, o que pode concorrer para a diminuição do sofrimento ético e para a motivação dos diferentes profissionais.

Advogam-se “planos nas estruturas do SNS de avaliação, prevenção e acção permanente sobre estes riscos e de formação e apoio às lideranças, no sentido da implementação das melhores práticas e de uma actuação cientificamente validada, visando a criação de locais de trabalho inclusivos e saudáveis, com contributo da psicologia.

É que “creio ser tempo das proclamações políticas, das legitimas expectativas das e dos profissionais e da exigência das populações, redundarem em acções concretas que dêem mais oportunidade e condições às psicólogas e psicólogos para um contributo distinto e distintivo na saúde e bem-estar das populações a partir do SNS e para a sustentabilidade dos serviços públicos em Portugal.”

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(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem

Recentemente ouvi Vivek Murthy. Enquanto “Surgeon General”, coordena uma equipa de 6000 profissionais dedicada à saúde pública nos EUA. Falou das prioridades do seu mandato: COVID-19; Desinformação; Burnout nos Profissionais de Saúde e, principalmente, Saúde Mental na Juventude. Sublinhou o enorme e crescente número de jovens que sofrem com problemas de saúde mental, que têm dificuldade em aceder ao apoio que necessitam e do quão urgentes são mudanças políticas, institucionais e individuais que permitam priorizar a saúde mental nos jovens. Assim é nos EUA. Assim é em Portugal.

Lá, como cá, se estabelecidas as prioridades hoje, talvez acrescesse o desafio que a inflação e a crise sócio-económica comportam e como impactam, também, as e os mais jovens. Há dias, quando partilhei uma peça da “Notícias Magazine” para a qual contribui sobre esta temática, dizia “sobre (problemas de) saúde mental na população jovem volto a escrever em breve” – https://lnkd.in/dyhuiUdX. Assim fiz.

“(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem”, 40º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte de uma questão que recentemente me foi colocada: “Se hoje temos mais informação, literacia e se temos melhores condições (socioeconómicas), porque temos mais problemas?”. Penso-a, no artigo, a partir dos 4 pontos cardeais.

N(otas) – sublinhando que “a centralização nos resultados, medidos pelas classificações internas e pelas provas de ingresso, impacta significativamente o período de ensino secundário no que ao bem-estar respeita.”

(O)utras e Outros – afirmando a necessidade de “mais e melhor informação e investigação sobre redes sociais; mais e melhor literacia para crianças, jovens e seus responsáveis sobre a sua utilização consciente e sobre formas de prevenir os seus impactos, incluindo para a saúde mental e uma nova atitude em torno do sucesso e da sua obstinada associação à felicidade e mérito.”

S(uporte), referindo “o importantíssimo capital social associado à aspiração da população jovem a uma outra resposta” e a necessidade de um “verdadeiro reforço de recursos que perpasse diversas áreas e inclua um real acesso a serviços de psicologia e saúde mental no SNS, Escolas, Comunidades e no Ensino Superior.”

E(stabilidade), advogando “fulcral que o país possa ter uma estratégia concertada de apoio, procurando garantir mais estabilidade e previsibilidade à população jovem”.

Recordo, a fechar, que conforme na rosa dos ventos, “um mínimo desvio inicial torna-se cada vez maior, à medida que vai aumentando a distância”.

Aqui, desvios “com forte impacto na saúde e bem-estar da população” e em desafios do país como o “envelhecimento da população, a (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde e segurança social ou a produtividade.”

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Re…cooperar

“Afinal, como bem sabe quem vive no Alentejo, os efeitos da crise climática e da seca extrema não terminam na Extremadura Espanhola. Como bem sabe quem vive na Galiza, a pobreza não impacta a saúde e bem-estar de pessoas apenas no Alto Minho (…) Os desafios societais globais não se limitam a ou com fronteiras e não se ultrapassam sem colaboração e cooperação, nacional e internacional.”
“Re…cooperar”, 39º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) pensa como a cooperação “foi (é ainda) o que nos tem permitido, não sem obstáculos ou críticas e pela definição de princípios e objectivos em torno dos Direitos Humanos e da vida no Planeta, melhorar índices de paz, saúde e bem-estar a nível global” e possibilitar “que, hoje, milhares de milhões de pessoas no Mundo aspirem e expectem condições de vida que talvez supuséssemos globalmente inatingíveis há não muitas décadas.”

“Há 50 anos, onde no meu caso, igual ao de tantas outras famílias, seria inimaginável às minhas avós (com 53 e 40 anos em 1972) ou aos meus pais (ambos com 11 anos) imaginarem o neto/filho que nasceria 11 anos depois e, através dele, o Portugal de 2022. Ou há 99, quando se comemorou o 1º Dia Internacional das Cooperativas (…) e nasceu, a poucos km de onde cresci, José Saramago.”

“À parte da extraordinária e muito complexa história de vida, Saramago escreveu, talvez como muito poucos, aquilo que apelidou como a “involução humana”, enquanto movimento regressivo aplicado a diversos fenómenos, da língua (portuguesa) ao comportamento em sociedade. Saramago não viveu os últimos 12 anos do Mundo mas viveu 4 dos 16 anos últimos anos com consecutivo declínio da liberdade e da democracia, pelo “enfraquecimento das instituições (particularmente judiciais) e do valor da Lei; ataque à liberdade de imprensa; perversão das eleições; e discriminação de migrantes e outras comunidades”.

“Esta situação (e retrocesso) é particularmente preocupante quando a colaboração, a intervenção articulada e a cooperação são a cada dia mais essenciais, considerando a complexidade dos desafios que as organizações e sociedades enfrentam. Quando as redes sociais e a forma de organização da sociedade, globalizam velozmente movimentos, ideais e ideias (….) Justifica-se, assim, que o último dos 17 objectivos do desenvolvimento sustentável (ODS) seja centrado nas parcerias para a implementação dos ODS (…), que tenhamos presente o papel da cooperação na superação e na adaptação à mudança e à(s) crise(s) e de processos muito estudados e trabalhados pela psicologia para a promoção da cooperação, como a relação, orientação para os valores sociais, empatia e altruísmo, comunicação, compromisso, confiança, identificação e a cultura.”

“É momento de recuperarmos do conjunto de crises que vimos enfrentando também pela recuperação da cooperação. Tempo de Re…cooperarmos, pela confiança nas instituições e pessoas. De Re…cooperarmos, pela paz, pela saúde e pela possibilidade de bem-estar, de todas e todos.”

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Férias. França. Falta de memória e de factualidade (Ao redor…; Sábado; 21.07.2022)

“O trabalho liberta”. Leon Blum, ao contrário de outras e outros judeus (e não apenas), não terá lido esta frase quando, em 1943, entrou no campo de concentração da Alemanha Nazi de Buchenwald. Este campo, ao contrário de Auschwitz ou Sachsenhausen, não a tinha no portão, antes a não menos inquietante e perturbadora: “a cada um o que lhe é devido”. Seria mais um anacronismo a acrescer ao inominável da situação, quando, sete anos antes, Blum havia liderado o primeiro governo no Mundo a instituir legalmente e universalizar o direito a férias pagas. A partir de 1936, quem sabe não por acaso no primeiro governo também com Mulheres com funções executivas (quando as Mulheres ainda não tinham direito de voto), além da fixação de uma jornada de trabalho fixa (40h semanais) e do prolongamento da escolaridade obrigatória (14 anos), as “congés payés” permitiram que milhões de trabalhadoras e trabalhadores em França usufruíssem de férias anuais, pagas.

A importância das férias é, hoje, inegável e França foi farol para que outros países, com importantes e significativas excepções, fossem progressivamente assumindo as férias pagas. Apesar da Organização Internacional do Trabalho o defender, também desde 1936, e da Declaração Universal dos Direitos do Homem afirmar desde 1948 que “toda a pessoa tem direito ao repouso e aos lazeres, especialmente a uma limitação razoável da duração do trabalho e a férias periódicas pagas”, em Portugal, as férias pagas foram generalizadas e universalizadas, sob a forma de Subsídio de Férias, a par da instituição do Subsídio de Desemprego, apenas em 1975, meses após a generalização do 13º mês de retribuição (Subsidio de Natal) em Agosto de 1974.

“As férias não devem ser um luxo, pois são cruciais para garantir a saúde e o bem-estar dos trabalhadores”, diz um recente relatório da Confederação Europeia dos Sindicatos que alerta para o crescimento significativo, de 2019 até hoje, do número de trabalhadoras e trabalhadores que na União Europeia não tem hoje capacidade financeira para “pagar férias”. Em Portugal, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2020 foram 61% e em 2021 56% das e dos residentes que não realizaram qualquer viagem em férias, ou seja, que não se deslocaram para fora do seu ambiente habitual, pernoitando uma noite que fosse.

Se o trabalho pode ser um factor importante na realização, a possibilidade das e dos trabalhadores desligarem (mesmo que não a 100%), de pararem (ou, pelo menos, reduzirem) é, além de um direito, um elemento central na produtividade, na gestão das organizações e na saúde e bem-estar das pessoas. Uma oportunidade de descansar, de prevenir a exposição a situações adversas ou desafiantes no contexto de trabalho (muitas vezes potenciadoras de ansiedade, angústia ou stresse) e a riscos psicossociais. Uma oportunidade de quebrar rotinas, algo fundamental à criação de novos hábitos e à mudança que tantas vezes procuramos e que, com a diminuição potencial de estímulos em férias, pode ser realizada, repetida e acomodada (logo mais facilmente manutenível), quer seja relativa a uma actividade desportiva, cultural, na alimentação ou na interrupção de um comportamento impregnado no dia-a-dia. Uma oportunidade de centração noutros elementos importantes da vida além trabalho, como a família, as amigas e amigos, os projectos “adiados” ou os hobbies, da leitura às viagens, da praia aos festivais, das romarias ao “regresso à terra”.

França, simbolicamente, deu-nos e deu-me isso. Deu-me também, como a muitas e muitos portugueses, oportunidades e outras possibilidades de qualidade de vida, porquanto, noutro momento, parte da minha família lá viveu e trabalhou, em busca da liberdade impossível em Portugal naqueles anos. Em busca de um futuro melhor para o nosso país e para nós que, dia-a-dia, o construímos e vivemos. Esta é ainda, hoje, a época do ano onde famílias se reencontram, onde a “terra” ganha vida, sotaque, economia, histórias do e dos passados, sonhos de regresso e de futuro. Onde, quando paro eu de férias, penso no que foi no passado e é para muitas e muitos ainda hoje, a abnegação e o sofrimento de partir não raras vezes não apenas por si, mas pelas e pelos seus.

Não deixa, portanto, de ser anacrónico que seja esta, também, a altura do ano em que algumas pessoas questionem as migrações. Das pessoas, de quem escolhe (ou não) Portugal enquanto país para viver ou de quem, particularmente nesta altura do ano, regressa ao país. Das ideias e dos ideais, de direitos e de liberdades, da procura da igualdade de oportunidades e de um país e de um Mundo que não discriminam pessoas pela sua nacionalidade, características ou escolhas. Numa duplicidade só possível em quem acha que tudo pode resolver com soluções simples e simplistas e que aspira a reconhecimentos divinos, questionam-se as migrações em Portugal dizendo-se defender as portuguesas e portugueses e Portugal, um país em vários momentos da sua história (e felizmente hoje) aberto ao Mundo, contribuidor para a partilha, para a troca e a cooperação e feito, também, de migrantes e de migrações, de pessoas e de ideias e ideais.

Não precisamos de evocar o importante contributo da população imigrante e emigrante para o desenvolvimento e para o futuro do país. Não precisamos de evocar os significativos contributos anuais para o sistema de segurança social português das trabalhadoras e trabalhadores sem nacionalidade portuguesa. Não precisamos de evocar o papel que as migrações tiveram, têm e terão no enfrentar dos grandes desafios do país, desde os seus níveis de pobreza, às crises sócio-económicas ou aos desafios da natalidade e da falta de trabalhadoras e trabalhadores em alguns sectores de actividade. Basta-nos evocar as férias e França, basta-nos olhar ao redor para aferirmos como a (sua) falta de factualidade e falta de memória não (pre)ocupam tanto algumas pessoas quanto a possibilidade de circulação e de migração de pessoas e de ideias e ideais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podendo para algumas pessoas, como aqui escrevi há alguns meses, ser contraintuitivo parar e intencionalizar uma ociosidade positiva e prazerosa, é essencial num caminho rumo a uma maior possibilidade de bem-estar, de autodeterminação e ao exercício e usufruto da nossa liberdade. Essencial, portanto, a sermos abertos à mudança, às e aos outros, à diversidade que resulta do contacto com novas pessoas, lugares e ideias. A uma diversidade que nos enriquece a todas e todos, enquanto comunidade. Promovamos, enquanto indivíduos e enquanto sociedade, a possibilidade e a oportunidade de todas e todos terem férias, de todas e todos circularem, interagirem e se espantarem e inspirarem mutuamente por um Mundo melhor.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 04.08.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/ferias-franca-falta-de-memoria-e-de-factualidade

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Férias. França. Falta de memória e de factualidade

“O trabalho liberta”. L. Blum, ao contrário de outras e outros judeus (e não apenas), não terá lido esta frase quando, em 1943, entrou no campo de concentração de Buchenwald. Este campo, ao contrário de Auschwitz ou Sachsenhausen, não a tinha no portão, antes a não menos inquietante e perturbadora: “a cada um o que lhe é devido”. Seria mais um anacronismo a acrescer ao inominável da situação, quando, 7 anos antes, Blum havia liderado o primeiro governo a instituir legalmente e universalizar o direito a férias pagas.

“Férias. França. Falta de memória e de factualidade”, 38º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a importância inegável das férias (pagas), hoje assumidas por vários, persistindo importantes excepções mesmo quando defendidas pela OIT desde 1936 e na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Fá-lo, também, reflectindo sobre o seu papel na saúde e bem-estar, na produtividade e na gestão das organizações, na oportunidade que comportam à prevenção da exposição a situações adversas e riscos psicossociais, de criação de novos hábitos, rotinas e centração noutras dimensões da vida.

Mas se França, porque pioneira, me e nos deu (infelizmente ainda não a todas/os) isso, também me (e nos, a tantas e tantos portugueses) deu outras possibilidades de qualidade de vida, por ter sido local de trabalho de familiares no passado. “Esta é [portanto] ainda, hoje, a época do ano onde famílias se reencontram, onde a “terra” ganha vida, sotaque, economia, histórias do e dos passados, sonhos de regresso e de futuro. Onde, quando paro eu de férias, penso no que foi no passado e é para muitas e muitos ainda hoje, a abnegação e o sofrimento de partir não raras vezes não apenas por si, mas pelas e pelos seus”.

“Não deixa, portanto, de ser anacrónico que seja esta, também, a altura do ano em que algumas pessoas questionam as migrações. Das pessoas, de quem escolhe (ou não) Portugal enquanto país para viver ou de quem, particularmente nesta altura do ano, regressa ao país. Das ideias e dos ideais, de direitos e de liberdades, da procura da igualdade de oportunidades.” Nem “precisamos de evocar o importante contributo da população imigrante e emigrante para o desenvolvimento do país, os seus contributos para o sistema de segurança social ou para os grandes desafios (pobreza, crises sócio-económicas, natalidade, falta de trabalhadoras e trabalhadores em diferentes sectores…), basta “evocar as férias e França e olhar ao redor para aferirmos como a (sua) falta de factualidade e falta de memória não as/os (pre)ocupam tanto quanto a possibilidade de circulação e de migração de pessoas e de ideias e ideais.”

A ociosidade positiva e prazerosa é essencial num caminho rumo a uma maior possibilidade de bem-estar, autodeterminação e ao exercício e usufruto da nossa liberdade. À mudança. À diversidade que enriquece todas e todos, enquanto comunidade. A que posamos interagir, espantar-nos e inspirar-nos mutuamente por um Mundo melhor.

Boas férias, sim?

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Violências (Ao redor…; Sábado; 21.07.2022)

Noite de Sábado, 24 de Julho de 1999. Numa base aérea desactivada nas imediações de Nova Iorque, Fred Durst sobe ao palco e, perante centenas de milhares de pessoas (e milhões a assistirem na TV), com os seus Limp Bizkit, canta a canção “Break stuff [Partam coisas]”. Diz, depois e repetidamente, “não existirem regras” e encoraja a que as pessoas “se zanguem”. Em pleno Woodstock 1999 – depois de dias de calor intenso, com péssimas condições de espaço e de higiene, após um acumular de tensão e de violências várias – Durst convida à “zanga”. Com ou sem consciência, com ou sem intenção, contribuiu para uma legitimação do que se sucedeu nas horas seguintes e que conduziu ao fim abrupto do festival, com uma forte intervenção policial, resultante do perigo provocado pelo total descontrolo de parte significativa do público e já depois da MTV e outros órgãos de comunicação social terem retirado as e os jornalistas do recinto por falta de segurança.

Pensar as violências implica pensar não apenas o que as caracteriza e determina, no presente (no tempo e momento em que decorrem), mas todo o percurso e contexto que a elas conduziu. No Woodstock 1999, nos fenómenos diversos que no Mundo e em Portugal tanto condicionam a sociedade e a saúde e bem-estar das pessoas ou até no percurso etimológico da própria palavra – violência – que a traz ao presente a partir do latim “violentia” (vis), associada a algo bravio, de vigor e de potência, bem como a uma ideia de abundância, essência e força (física) em acção. Associada, portanto, a quatro elementos que me parecem essenciais à reflexão sobre este fenómeno, à forma como impacta a sociedade e as pessoas e à forma como é por elas impactada.

Desde logo, a impossibilidade de definição de “uma violência”, antes de violências (individuais, colectivas, institucionais ou estruturais), e as transformações permanentes do que é ou não percepcionado como violência, da sua (in)visibilidade social, política e/ou jurídica e dos normativos sociais e de direitos humanos que as enquadram. Esta realidade acresce complexidade ao fenómeno, pela dificuldade da sua definição estanque, permanente e abstracta, fazendo depender a sua consideração, logo a sua prevenção e mitigação, de quadros éticos e valorativos também partilhados entre (tod)as pessoas e (tod)as instituições da sociedade, desprotegendo dessa forma grupos ou pessoas com menor visibilidade e capacidade e/ou possibilidade de participação.

Existe ainda, de certa forma, uma naturalização das violências na sociedade, como algo inevitável, quando não considerado mesmo relevante à organização da sociedade. Isto é, ainda hoje e em Portugal, evidente em determinados comportamentos individuais (por exemplo, na violência no namoro e doméstica, particularmente a exercida sobre as Mulheres), colectivos (por exemplo, no Desporto e, particularmente, nos grupos organizados de adeptas e adeptos), institucionais (por exemplo, nas instituições e equipamentos sociais, sobre população mais velha e normalmente mais dependente) ou mesmo em questões mais estruturais de organização da sociedade (por exemplo, os fenómenos de discriminação e exclusão, mais ou menos explícitos, de grupos populacionais). Desnaturalizar e invalidar as diversas formas de violência é essencial à sua não legitimação e, nesse sentido, a uma sociedade de maior equidade, coesão social e possibilidade de bem-estar para todas e todos.

Há também a utilização política das violências, quer com vista à afirmação identitária de grupos mais expostos às mesmas, quer, sobretudo, à utilização da insegurança, do medo e do sofrimento dela resultante com fins políticos. Daqui podem resultar mecanismos pseudo-securitários que, ao invés de garantirem maior segurança da e na diversidade e liberdade, contra ela atentam. Resultam, ainda, desconfianças e incompreensões diversas, muito relacionadas com os fenómenos de tribalização e polarização das sociedades e de fragilização das instituições da sociedade. Resulta, também, a emergência de autoritarismos e a legitimação de determinadas violências, algo a que crescentemente vimos assistido no discurso na proposta política em Portugal.

Finalmente, a forma como o comportamento e a linguagem, e os fenómenos de grupo, contágio e reprodução a eles associados, perpetuam e tornam estruturais as violências. Se o comportamento é a expressão visível das cognições e emoções que para ele contribuem, e por visível, socialmente aprendido, perpetuado e reproduzido, a linguagem e o vocabulário são um reflexo e uma imagem destes pensamentos, destas emoções e destes potenciais comportamentos, reflectindo as estruturas sociais e históricas que os mantêm e perpetuam. Efectivamente, não há neutralidade na comunicação, na expressão e na linguagem e estas podem ser fundamentais na manutenção ou na criação de possibilidades de mudança no sentido de um futuro com menos naturalização, legitimação e utilização das violências. De um futuro com menos violências.

Futuro que, dependendo de todas e todos, independentemente do nosso papel ou responsabilidades na sociedade, será tão mais possível quanto nos envolvermos (pessoas, comunidades e instituições) numa resposta conjunta que assente na ideia da não inevitabilidade das violências e que nos mobilize numa acção concertada visando a sua prevenção e mitigação, assente em quatro objectivos fundamentais.

À cabeça, melhor compreender o fenómeno, para melhor informar as respostas e as políticas públicas. Caracterizar, estudar e aprofundar dados e conhecimento, prevenindo a cristalização de preconceitos e vieses não factual ou cientificamente comprovados. Como disse o Ministro da Administração Interna, na apresentação da Comissão de Análise Integrada da Delinquência Juvenil e da Criminalidade Violenta, temos a responsabilidade de não associarmos automaticamente o aumento em 2021 da “delinquência juvenil e grupal” (num ano em que a criminalidade violenta no global voltou a decrescer) a questões relacionadas com as zonas ou comunidades de proveniência, algo que apenas confirma e perpetua estereótipos, preconceitos e factores de exclusão. Disse, José Luís Carneiro, que devemos analisar “em que medida os efeitos da pandemia, no domínio da saúde mental, podem contribuir para explicar este fenómeno” e “qual o grau de reemergência [também na sequência da pandemia] de fenómenos de exclusão [e isolamento com consequente maior e menos controlada exposição a conteúdos, alguns violentos, nas redes sociais e internet] e de pobreza que possam contribuir para explicar a delinquência juvenil e a criminalidade”. Mais que associar a um grupo de pessoas ou em comunidades, perceber o quão as dimensões macro ajudam a explicar o fenómeno, e logo, informam a possibilidade de intervenção no mesmo.

Um segundo objectivo está, necessariamente, relacionado com a necessidade de promover um ambiente de segurança, também psicológica, e saúde mental nas pessoas e nas comunidades. A vulnerabilidade, qualquer que seja, tem que ser validada, não penalizada. Tem que ser visível, não escondida. Tem que ser apoiada, para que possa ser superada. Outras pessoas e a comunidade no geral devem assumir-se como apoiantes e garantes de suporte da diferença, da diversidade e da ou das pessoas em situação de vulnerabilidade. Devem adoptar posturas e atitudes que criem um ambiente de segurança psicológica fundamental a uma mais adaptativa resposta da pessoa e das comunidades quando confrontada com adversidades. Para tal é fundamental promover a saúde mental, ao longo de todo o ciclo de vida e, particularmente, construir e capacitar respostas nesta área, contingentes e sensíveis às necessidades e aos momentos das pessoas e comunidades. Ambientes psicologicamente seguros e intervenções psicológicas que apoiem a mudança de comportamentos, de cognições e uma melhor gestão e regulação emocional, desempenham um papel muito importante na prevenção das violências.

A intervenção psicológica e psicossocial, constituem elementos essenciais à reparação e ao apoio às vítimas de diversos fenómenos de violência, por isso destaco-as como terceiro objectivo. Porque, não apenas este apoio é devido às pessoas, enquanto direito da mais elementar justiça social, como este apoio é fundamental à prevenção da reprodução e perpetuação de ciclos de violência, onde pessoas vítimas podem vir a ser pessoas agressoras, particularmente quando falamos de vítimas (ou observadoras/es) directas ou indirectas, ainda crianças ou jovens.

Finalmente, o quarto objectivo, a integração, articulação e inovação de respostas. Quando enfrentamos desafios sociais sistémicos e complexos, conforme os que justificam as violências, precisamos de respostas não simplitas (normalmente populares), mas sistémicas, com envolvimento de todas as instituições políticas, jurídicas e sociais. Precisamos de caminhar de uma responsabilização quase exclusivamente interpessoal para a identificação dos mecanismos sociais justificativos e de como os podemos, a par da intervenção individual, modificar, particularmente com políticas sociais que promovam mais possibilidades de inclusão, maior equidade e que verdadeiramente não “deixem ninguém para trás”. Esta modificação promoverá o empoderamento da participação das pessoas e comunidades menos visíveis e, dependerá, fortemente, do combate a discursos e narrativas (de cada um e uma de nós, das decisoras e decisores, das jornalistas e dos jornalistas, para dar apenas alguns exemplos) e a atitudes, comportamentos e decisões (de entidades e autoridades policiais, judiciais e políticas) se não promotoras, legitimadoras, das violências.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, prevenir e mitigar as violências passa por as contextualizarmos no quadro da sua complexidade, por nos mobilizarmos contra a ideia da sua inevitabilidade e contra a sua naturalização e por nos activarmos, qualquer que seja o nosso papel, para a mudança necessária à sua prevenção e mitigação. Para um contributo para uma sociedade de maior inclusão, equidade, coesão e bem-estar para todas e para todos. Para uma sociedade que possibilite a auto-determinação no presente, garantia de futuro.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 21.07.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/violencias

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Violências…

“Pensar as violências implica pensar não apenas o que as caracteriza e determina no presente (no tempo e momento em que decorrem), mas todo o percurso e contexto que a elas conduziu.”

“Violências”, 37º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte deste mote para “pensar” as violências enquanto fenómenos complexos e diversos que, no Mundo e em Portugal, tanto condicionam a saúde e bem-estar das pessoas e a sociedade, sendo também por ela condicionados. Faço-o procurando reflectir a partir de quatro elementos enquadradores e de quatro acções possíveis para a sua prevenção e mitigação dos seus impactos.

Quando aos elementos enquadradores: a) “a impossibilidade de definição de “uma violência”, antes de violências (individuais, colectivas, institucionais ou estruturais), e as transformações permanentes do que é ou não percepcionado como violência”; b) uma certa “naturalização das violências na sociedade, como algo inevitável, quando não considerado mesmo relevante à organização da sociedade”; c) “a utilização política das violências, quer com vista à afirmação identitária de grupos mais expostos às mesmas, quer, sobretudo, à utilização da insegurança, do medo e do sofrimento dela resultante com fins políticos”; e d) “a forma como o comportamento e a linguagem, e os fenómenos de grupo, contágio e reprodução a eles associados, perpetuam e tornam estruturais as violências”.

Quanto às quatro acções, dependentes de todas e todos, independentemente do nosso papel ou responsabilidades na sociedade, serão tão mais possíveis “quanto nos envolvermos (pessoas, comunidades e instituições) numa resposta conjunta”: a) “melhor compreender o fenómeno [também quanto a questões associadas à pobreza / exclusão e saúde mental], para melhor informar as respostas e as políticas públicas”; b) “necessidade de promover um ambiente de segurança, também psicológica, e saúde mental nas pessoas e nas comunidades”, onde a vulnerabilidade, qualquer que seja, deverá ser validada, não penalizada; c) o reforço da intervenção psicológica e psicossocial de “reparação e apoio às vítimas de diversos fenómenos de violência”, enquanto direito de justiça social e fundamental à prevenção da reprodução e perpetuação de ciclos de violência; e d) “a integração, articulação e inovação de respostas” caminhando “de uma responsabilização quase exclusivamente interpessoal pelas violências, para a identificação dos mecanismos sociais delas justificativos e de como os podemos modificar”.

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, prevenir e mitigar as violências passa por as contextualizarmos no quadro da sua complexidade, por nos mobilizarmos contra a ideia da sua inevitabilidade e contra a sua naturalização e por nos activarmos, qualquer que seja o nosso papel, para a mudança necessária. Para um contributo para uma sociedade de maior inclusão, equidade, coesão e bem-estar para todas e para todos. Para uma sociedade que possibilite a auto-determinação no presente, garantia de futuro.”