Um pouco mais de 9 décadas separam o ano de nascimento do Gil da sua bisavó, a pessoa mais velha da sua genealogia. Olhando através das gerações, conforme convencionadas, a sua bisavó pertence à geração S (Silent) e atravessou as gerações Baby Boomers (das suas avós e dos avôs), X (do seu tio), Y (da sua mãe e pai), Z (das suas primas e primos mais velhos), a (do seu irmão) e a geração ainda sem nome que previsivelmente caracterizará as pessoas que como ele nasceram em 2021. Em 9 décadas, a sua bisavó viveu a II Guerra Mundial, a Guerra Colonial, a Guerra Fria e o Terrorismo. Viveu a Grande Depressão, a crise do subprime e períodos de forte expansão económica, também em Portugal. Viveu a emergência e queda do Estado Novo, o 25 de Abril de 1974 e a integração de Portugal na União Europeia. Viveu a transformação dos direitos humanos, a democratização das sociedades, a globalização e um recente questionar dos direitos e (re)emergência do autoritarismo. Viveu as transformações nos transportes, incluindo as idas à Lua e ao Espaço, e de comunicação/conectividade, do telefone à televisão, da internet às redes sociais e realidade virtual. A minha avó Felismina viveu tudo isto e muito mais, em mais de 9 décadas. O Gil, meu filho mais novo, viveu, consigo e comigo, nos seus nove meses de vida, a pandemia COVID-19, as primeiras viagens comerciais ao espaço, o relatório da ONU que confirma as primeiras mortes em contexto de guerra com decisão exclusiva da inteligência artificial (sem intervenção humana) e a Guerra na Ucrânia. 9 meses que comparam com 9 décadas confirmando a aceleração do momento que vivemos. Um tempo de enorme complexidade, volatilidade, ambiguidade, incerteza e, claro, imprevisibilidade. Um tempo em que a saúde mental das pessoas está naturalmente ameaçada e impactada no exacto momento em que, mercê todas as previsíveis transformações e toda a necessidade de adaptação, reacção à adversidade e aos acontecimentos de vida, muito dela necessitamos.
Não me canso de sublinhar que, conforme sucede com a paz (muito mais que a ausência de guerra), quando falamos de saúde mental não falamos de doença mental ou mesmo da sua ausência. Falamos, de acordo com a definição da Organização Mundial da Saúde, de “um estado de bem-estar em que os indivíduos podem cumprir as suas capacidades, lidar com as adversidades da sua vida, trabalhar de forma produtiva e contribuir para a sua comunidade”. No fundo, falamos de um estado de bem-estar que permite o florescimento e a adaptação e que resulta de um conjunto de determinantes (biológicos, psicológicos, sociais), do desenvolvimento de competências e da disponibilidade de recursos para viver o dia-a-dia. De recursos internos e de autocuidado, de recursos externos, de heterocuidado e suporte social e de ajuda especializada, quando tal se justifica. Não me canso de sublinhar porque, infelizmente, creio ainda não inscrito junto da sociedade, das instituições às pessoas, passando pelas decisoras e pelos decisores, onde, creio, por vezes persistir um viés que opõe, em polos, a doença mental à ausência de doença mental e não à saúde mental.
É, também, por ausência desta inscrição que considero particularmente relevante e até corajoso que instituições da sociedade civil invistam na saúde mental e contribuam para a afirmação conceptual da saúde mental e do quão fundamental é a sua promoção, no presente e para o futuro das pessoas, das comunidades e do país. Assim o fez a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) que, com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), apresentou no passado dia 11 de Abril (candidaturas até 19 de Junho) um programa dirigido a serviços de saúde/psicologia de instituições de ensino superior públicas,que se baseia no conceito de saúde mental e investe (até 100.000 euros) em projectos que apostem na sua promoção, a par da promoção da literacia, do desenvolvimento de competências socioemocionais e da resiliência (não apenas na recuperação, mas na resiliência) no contexto do ensino superior.
Um programa profundamente responsivo à hoje significativa e abundante evidência científica que confirma a premência e pertinência deste investimento, com o propósito de servir de estímulo ao futuro e a novas e boas práticas nestes domínios, baseadas na articulação interinstitucional e entre serviços, no envolvimento das e dos participantes no desenho e avaliação dos projectos e na sua transferibilidade e sustentabilidade.
Um programa profundamente responsivo, também, porque a população jovem foi desproporcionalmente afectada pela pandemia (como aliás havia sido na crise socioeconómica do início da década anterior), quer a nível económico e social, quer psicológico. Se antes da pandemia 15 a 25% dos e das estudantes universitárias sofria com problemas na área da saúde mental (com um aumento da prevalência e da gravidade nos anos que a antecederam) e 44% apresentava um “nível inadequado ou problemática de literacia em saúde (e saúde mental)”, a pandemia agravou significativamente este cenário com 55% das e dos estudantes a relatarem que a “sua saúde mental piorou” nestes últimos dois anos, 38% dos e das quais referindo que isso condicionou o seu desempenho académico (com impacto nos muitos preocupantes níveis de insucesso e abandono no Ensino Superior em Portugal) e 28% que, em consequência, fez medicação relativa a estes problemas, quase metade sem qualquer consulta ou prescrição nesse sentido (por dificuldade de acesso a cuidados nesta área).
Um programa profundamente responsivo, finalmente, à necessidade de diminuirmos a rigidez na análise de quais as competências mais úteis para o nosso futuro pessoal e profissional, de produtividade e de bem-estar. À sobrevalorização de competências técnicas, o ensino superior deverá responder com a promoção de competências socioemocionais e facilitadoras (como a autoestima, a autorregulação emocional, a capacidade de adaptação e resolução de problemas, a empatia e altruísmo, a cooperação ou a capacidade de trabalho em equipa), hoje, embora já menos, ainda subvalorizadas, e com a promoção da saúde mental, atributos que preparam as pessoas e sociedades para o futuro.
Um pouco por tudo isto creio fundamental que a geração do Gil, desafiada que será pela imprevisibilidade e incerteza do futuro próximo e menos próximo, necessitará de uma comunidade, um país e um Mundo que invistam na promoção da confiança (em nós, nas outras e outros e nas instituições), da coesão social, da universalização e generalização dos direitos (humanos) e do bem-estar. Invistam na literacia, na resiliência e na saúde mental, de cada individuo e da sociedade.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a saúde mental é hoje uma matéria-prima fundamental que importa, não apenas preservar, mas estimular, enquanto recurso fundamental ao presente e futuro. Enquanto ferramenta essencial aos complexos e tremendos desafios societais que enfrentaremos. O programa “Saúde Mental no Ensino Superior” é um contributo da FLAD e da OPP que nos deve mobilizar para este desígnio colectivo: acreditar que seremos capazes de construir um futuro com maior produtividade, equidade e possibilidade de bem-estar de todas e todos, desígnio para o qual a população jovem é essencial.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 19.04.2022
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/9-decadas-vs-9-meses—a-saude-mental-como-materia-prima-do-tempo-que-viveremos