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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Nada fazer… Que valor?

O que pretende não fazer?; Quanto tempo pretende não o fazer?; Porque é particularmente importante para si não o fazer?; Porque é que é a pessoa certa para não o fazer? Estas questões foram mote para os projectos cujo júri da Universidade de Belas Artes (Hamburgo) apreciou para atribuição das originais bolsas “Doing nothing” [Fazer nada] que desafiam a visão tradicional (em alguns contextos, pecaminosa) da ociosidade e, dessa forma, questionam a percepção social do sucesso. Ao contrário da obsolescência programada, propõem algo como uma “ociosidade programada” que, estimulada e activada, potencia a transformação, a mudança de comportamentos e o questionamento do “prestígio social” no sentido de permitir que este se compatibilize com “tempo para sonhar”, “tempo para nada fazer”.

“O valor de nada fazer”, 22º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) trata o que nos confronta a atribuição de uma bolsa a uma pessoa e projecto para “nada fazer”. Trata esta não-conformidade e o que ela, simbolicamente, elucida sobre um possível binómio entre conformismo (fazer, continuando a fazer) e originalidade (não fazer, não o continuando a fazer). Estimular a reflexão sobre “aceitar que não fazer algo poder ser um primeiro passo e uma oportunidade de espaço e tempo para uma mudança, para (fazer) algo diferente, potencialmente gerador de outras respostas a um mesmo problema ou desafio ou de maior potencial de bem-estar.” Finalmente, fá-lo, num momento especialmente importante, onde o brincar na sua expressão livre, espontânea e não dirigida das crianças se encontra há muito obstaculizado e há um “encerramento” das pessoas no sentido da menor abrangência e diversidade e especiais desafios à conciliação de papéis.

Mas, esta necessidade de parar depende de pessoa para pessoa e necessita de condições, que mais do que nunca devem ser investidas, que organizo (e detalho) em quatro dimensões: 1) estarem cumpridas necessidades básicas de segurança e conforto; 2) existência de contextos encorajadores da criação e reflexão; 3) desenvolvimento de valores associados à reflexão e de competências de criação; 4) importância da saúde psicológica e da existência de recursos internos e externos de adaptação e resiliência.

Como N. Ginzburg descreve (“quando somos felizes, a nossa fantasia tem mais força; quando somos infelizes, então é a nossa memória que age mais vivamente”) ao contrário de uma visão mistificada – e apesar dos pontos de contacto entre (alguma) disrupção e criatividade e (alguma) doença mental – a capacidade de criação depende do não confronto permanente com o sofrimento e do não esgotamento de recursos. Aproveitemos o momento e a época do ano que vivemos para reflectirmos sobre a possibilidade de parar, de pausar, de nada fazer sem nos culpabilizarmos, intencionalizando uma ociosidade positiva essencial ao nosso florescimento, à diversidade e, através dela, à riqueza. Aproveitemos o momento para desafiar e questionar o prestígio e sucesso conforme o conhecemos e conforme nele nos reconhecemos.”

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