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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Menos (Ao redor…; Sábado; 24.08.2021)

Passei centenas de vezes naquele portão preto. Uma parte sempre fechada e outra sempre aberta que “separava” o interior do recinto daquela escola primária da minha rua, rua da aldeia onde cresci e vivi a primeira metade da minha vida. Brinquei e brincámos naquele recinto, em dias de semana e ao fim de semana, durante o dia e a noite. Brinquei e brincámos até que um dia o lado sempre aberto do portão encontrou o lado sempre fechado e assim permaneceu, criando uma barreira e fazendo daquele recinto escolar uma ilha apenas utilizável num pequeno período de tempo, por um pequeno grupo de pessoas. Espaço anulado enquanto espaço de todas e todos, enquanto bem-comum.

“Gosto de estruturas híbridas. Não quero uma igreja que sirva apenas uma vez por semana. Para mim, um edifício bem-sucedido é um edifício de utilização permanente”, afirmou recentemente David Adjaye, arquitecto responsável pelo projecto do Museu Nacional da História e da Cultura Afro-Americana (Washington, EUA). Diz imaginar “um futuro em que templo e universidade sejam um só”, defendendo múltiplas utilizações do espaço a que acrescento, pelo maior número de pessoas (diversas), de actividades e de tempo possível. Um “templo-universidade”, uma praia para o ano inteiro ou uma escola, pavilhão ou outra infraestrutura a todo o momento disponível e acessível à comunidade. Multiutilizações de espaços e estruturas que, se projectadas de acordo com o resultado do envolvimento activo das cidadãs e dos cidadãos e conscientemente com esse fim, podem fazer jus ao bem-comum criando mais oportunidades e outras dinâmicas com menos.

A crise climática que vivemos desafia-nos e confronta-nos com a urgência de pensarmos o presente e o futuro, considerando o nosso comportamento e estilo de vida e o comportamento e estilo de vida das pessoas que connosco habitam o nosso planeta. Se em parte já significativa do Mundo se tornou prática a reciclagem, temos rapidamente assistido a um impulso para a reutilização de materiais utilizados. Em todo o caso, é também hoje claro – até pelos recentes e muito mediatizados dados disponibilizados pelo Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas (IPCC) – que um terceiro “R” será fundamental para mitigar a emergência climática resultante da acção humana – Reduzir.

Se até as energias renováveis, solução mais evidente para os problemas da utilização de combustíveis fósseis, têm “custos ambientais”; se a população e a pressão sobre os recursos do planeta continua a aumentar; se as florestas e os oceanos estão cada vez mais fragilizados; se continuamos a desperdiçar mais de mil milhões de toneladas de alimentos (cerca de um terço do total produzido) a cada ano; mas também se um determinado comportamento ou prática nos “aprisiona” e nos rouba espaço e oportunidade; e se a repetição e a hiperespecialização, particularmente quando precoce, não nos prepara para um Mundo de complexidade e ambiguidade, a solução tem e terá que ser reduzir. Desacelerar, desapegar, diversificar, diminuir e reduzir a caminho de um menos que, conforme Adjaye preconiza, pode ser mais. De um menos que pode não apenas ser conciliável com o bem-estar, mas até seu gerador. De um menos que previne a desigualdade e iniquidade e que promove a partilha e a coesão social.

No entanto, o caminho para este menos não é nem linear, nem simples, nem imune a perdas, podendo beneficiar de uma progressiva generalização da percepção de que o ser humano e o seu comportamento são influenciados quer pela inércia (conforme definida pela Física), quer por um conjunto de viés que concorrem para um certo “egoísmo”, muitas vezes não consciente, que nos centra em nós (e menos nas e nos outros), no nosso contexto (e menos nos contextos ao nosso redor) e no presente ou futuro de curto prazo (e não no de médio ou longo prazo) quando tomamos pequenas decisões associadas, por exemplo, a consumir algo, a deslocarmo-nos e à forma escolhida para essa deslocação ou a comprar ou não algo. Pode ainda beneficiar de uma mais ampla percepção de que mudar é, pelo questionamento inerente, pela energia que implica e pelo que impacta em nós e no nosso grupo mais próximo, muito difícil e muito desafiante. Difícil e desafiante, mas possível, particularmente quando a mudança resulta de um ou mais objectivos com significado que estabelecemos, incentivados e valorizados por outras, outros e pela sociedade, com propósito individual e social.

Essa mudança beneficiará, também, de uma atitude coerente e congruente com o conhecimento existente, que determina que algumas pessoas podem necessitar de incentivos para a compreensão e aceitação da necessidade de mudar e/ou apoio ao desenvolvimento de competências e oportunidades que permitam a mudança. Daqui resulta que devemos, enquanto sociedade, organizar-nos e prepararmo-nos, para mudar, apoiando as e os de nós que possam ter mais dificuldades neste processo.

Esta mudança, atendendo às dimensões de bem-estar envolvidas, não poderá acontecer “contra as pessoas” e, por isso, não poderá assentar apenas em restrições e proibições, mas numa progressiva maior consciencialização das pessoas, pela informação e literacia, das consequências (individuais e sociais) das suas decisões e comportamentos, nomeadamente nos que remetem para um consumo (mais consciente) e dessa forma para a possibilidade de uma mudança incremental e da avaliação progressiva e contingente de sucessos (individuais e sociais, também).

Esta mudança tem, finalmente, que envolver um grande número de pessoas – das crianças mais pequenas às adultas e aos adultos mais velhos e da “cidadã comum” ao empresário ou à decisora – e ser alimentada e reforçada pelas diversas oportunidades de criação de valor e utilização sustentável dos recursos e de gerações com experiências muito diversas que conseguem projectar memória da vivência em sociedade há quatro, cinco, seis décadas e projectar-se na sociedade nas próximas quatro, cinco, seis décadas, permitindo um olhar sobre o presente informado pelo passado e pela expectativa de futuro.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, há espaço, particularmente em algumas sociedades e contextos, para conciliar a necessidade de desacelerarmos, nos desapegarmos, de diminuir, diversificar e, particularmente, de reduzirmos com a possibilidade de bem-estar. Há espaço para, neste processo, ganharmos proximidade, tempo, foco e energia, logo maior qualidade de vida. Há espaço para mais e melhor relação connosco, com as outras e outros e com o que nos rodeia, promovendo a resiliência e a coesão social. Há espaço para um consumo mais consciente individual e colectivo, para maior partilha e para a tomada de decisão e gestão conjunta dos bens-comuns por todas e todos e para todas e todos, as e os de hoje e as e os de amanhã, garantindo maior justiça social intergeracional. Há espaço para que, dia-a-dia, integremos que menos pode ser mais. Que menos, será mais.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 24.08.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/menos

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