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Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade? (Ao redor…; 17.10.2023)

Sim, estamos. Absolutamente. E, creio, todos somos um pouco responsáveis por esta situação e temos um papel na sua potencial alteração.

Hoje é Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Chegamos a este dia com os últimos dados consolidados a demonstrarem-nos que 1 milhão e 700 mil pessoas no nosso país vivem, mensalmente, com um valor de rendimento agregado inferior a 551€, valor praticamente idêntico ao preço, hoje, da mais actual consola Playstation, apenas ligeiramente superior a um sofá simples de médias dimensões, mas claramente inferior a alguns Smartphones. Estas famílias, estas pessoas, vivem em situação de pobreza e, necessariamente, com os seus direitos humanos e a sua possibilidade de bem-estar condicionados. Como diz a placa inaugurada na Praça dos Direitos Humanos e Liberdades, em Paris, aquando da primeira comemoração deste dia, em 1987, “onde homens e mulheres são condenados a viver na pobreza, os direitos humanos são violados…” Acrescento, e a justiça e coesão social e a confiança nas instituições, na democracia e nas outras e nos outros ameaçadas.

Este é, portanto, um dia que deve ser mobilizador de decisoras e decisores e um pouco de toda a sociedade civil para este desígnio, possível e, até, provável se, enquanto sociedade, nisso investirmos. Dia que devemos usar para advogar por uma melhor compreensão do fenómeno, estímulo para a mudança progressiva de determinados preconceitos e crenças a ele associados e, particularmente, para uma melhor informação das políticas públicas neste âmbito a partir da melhor evidência científica.

É que, mais que números e abstrações, é de pessoas, famílias, das suas vidas, histórias e experiências que falamos. Pessoas que vivem em todo o país, ainda que mais em determinados “nichos urbanos”, mas, sobretudo, em meios rurais e nas regiões autónomas. Famílias, muitas vezes, monoparentais ou com mais filhas e filhos. Pessoas em situação de isolamento e mais velhas. Pessoas com baixas qualificações e baixos níveis de escolaridade. São, ainda, pessoas em situação de desemprego. Mas, são, também, pessoas que trabalham e recebem salário. Quase uma em cada três pessoas que trabalham em Portugal não consegue, com o seu salário, sair da situação de pobreza ou contribuir para a retirada do seu agregado familiar de uma situação de pobreza.

Não apenas em Portugal, ter um emprego remunerado não é pois, por si só, suficiente para se não viver em situação de pobreza. O tema, em 2023, das comemorações do Dia Internacional da Erradicação da Pobreza sublinha-o. “Trabalho digno e proteção social: Pôr a dignidade em prática para todos” vem reforçar a necessidade de políticas e de uma governação integrada para responder de forma estruturada e estrutural a um problema complexo, prevenindo tentações discursivas ou opções políticas simplistas, de medidas pontuais e/ou oportunistas, não integradas. São fundamentais políticas que incluam as dimensões do emprego, é certo, mas também as da educação, saúde, habitação, organização dos territórios e mobilidade ou acesso a desporto, cultura e outras oportunidades. Políticas integradas, participadas, sustentadas e mobilizadoras.

Esta governação integrada é fundamental para quebrar os ciclos intergeracionais de pobreza e exclusão e os factores que os determinam. Aqui são essenciais políticas nas áreas da educação e saúde, para redução de iniquidades e desigualdades, mas também na área social, quer nos apoios financeiros, quer na capacidade, qualidade e eficácia da intervenção social realizada pelas instituições, organizações e projectos sociais.

Infelizmente, em Portugal, parte significativa da intervenção social e das próprias entidades que a promovem vive em situação de “precariedade”, fazendo com que a actuação e intervenção junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade seja, ela própria, contraditoriamente, muitas vezes vulnerável. Senão vejamos. Num contexto de trabalho exposto a desafios particularmente significativos e de elevada complexidade e dificuldade, ao invés de termos profissionais mais reconhecidos e valorizados, com maior possibilidade de acesso a autocuidado, mais bem preparados e com formação ao longo da sua vida profissional que acompanhe a evolução da ciência temos, infelizmente e invariavelmente, uma realidade de muito baixos salários, de precariedade, de não investimento, de descontinuidade de trabalho, muitas vezes dependente de projectos, financiamentos e timings. Temos, por isso, a não continuidade das intervenções em contextos onde o conhecimento da realidade e as relações são fundamentais, além, naturalmente, de muita rotatividade pela saída de profissionais quando têm outras oportunidades, condicionando a qualidade, o sucesso e a sustentabilidade da intervenção.

Mas mais. Num contexto de trabalho exposto a desafios particularmente significativos e de elevada complexidade e dificuldade, reitero, temos instituições, organizações, quando não apenas projectos, também eles com dificuldades estruturais. Por vezes com instalações muito precárias, sem capacidade (ou vontade) de ter lideranças técnicas e profissionais empoderadas que não afectas apenas a determinada actividade ou projecto e, por isso, com menos potencial de participação e relação com outras entidades e de promoção de oportunidades de transformação efectiva das práticas e de maior integração do conhecimento e da evidência científica nas mesmas.

Instituições e equipas, depois, que navegam num contexto que estimula a reprodução e cristalização de práticas e princípios, onde a inovação, a experimentação e a transformação – que precisam de bases sólidas – têm muita dificuldade em penetrar. Contexto onde vigora o princípio da desconfiança, conduzindo equipas técnicas a usar parte significativa do seu tempo (se não a maioria) a justificar e registar o que vão fazer, para o poderem fazer, e o que fizeram, para receberem, em reembolso, por vezes, as verbas por o terem feito. Tempo fundamental, com outro ecossistema, à co-construção com as pessoas suas destinatárias das práticas, à efectivação de mudanças e sua avaliação, melhorando-as pela aproximação às necessidades e desejo das comunidades.

Hoje mesmo é apresentado o “Plano de Acção da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2022-2025” que, quando escrevo este artigo, não conheço ainda. A estratégia nacional de combate à pobreza “ganhou” coordenação neste dia em 2022 e ganha agora um plano de acção que comtemplará medidas já em curso. Uma excelente oportunidade para reforçar esta prioridade, a integração das políticas e, espero, garantir recursos e impulso para apoiar mudanças consistentes na realidade da intervenção social, das e dos profissionais e instituições, organizações e projectos. Reduzir a escassez a que estão expostas que tanto condiciona capacidades e impede a exploração das potencialidades.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, falharemos se não investirmos na erradicação da pobreza e na quebra dos seus ciclos intergeracionais. Falharemos se não dermos melhores condições às e aos profissionais e às instituições e organizações sociais para promoverem melhores práticas, mais avaliadas e mais baseadas na melhor evidência científica disponível. A tal placa, inaugurada há 36 anos em Paris, também diz “…Unirmo-nos para garantir que esses direitos sejam respeitados é nosso dever solene.” É esse o tempo. Que o plano hoje apresentado seja motor disso e nos mobilize.

 

Tiago Pereira

Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade?

in Sábado (Ao redor…); 17.10.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/estamos-a-falhar-as-pessoas-em-situacao-de-maior-vulnerabilidade

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Companheirismos e Persistência (Ao redor…; 04.10.2023)

Kameradschaft. Palavra alemã que descreve um sentimento de camaradagem. De companheirismo. Sentir profundamente humano, abundantemente partilhado entre as pessoas e com forte impacto no nosso comportamento e tomada de decisão.

Se partilhamos múltiplas características e comportamentos com diferentes espécies animais (estima-se que 98,7% do nosso DNA seja idêntico ao dos macacos bonobo), partilhamos ainda mais com as diversas pessoas que experienciam connosco o Mundo. Não com algumas dessas pessoas, antes com todas essas pessoas. Do nosso grupo de amigas/os, ao nosso grupo de colegas de trabalho, hobbie ou desporto. Mas, também, com as pessoas que não votam e pensam a sociedade como nós, que vivem em lugares longínquos e que têm práticas culturais que nos parecem distantes. Com as pessoas que sentimos e percepcionamos como “boas” e incapazes de conscientemente provocarem sofrimento a outras pessoas, mas, também, com as que sentimos e percepcionamos como “más”, como pouco empáticas e pensamos poderem desejar ou, pelo menos, serem capazes de, conscientemente, provocar sofrimento a outras pessoas.

Roy Baumeister dedicou parte da sua vida e do seu trabalho a estudar o “mal” e a procurar desconstruir o “mito do mal puro”, a visão que tendemos a ter de associar o mal a outras pessoas que não nós ou nossos próximos, pessoas “intrinsecamente más”, sádicas por vezes, e que o dirigem contra pessoas “como nós”, boas, inocentes. Baumeister procura introduzir matizes a esta visão, estimulando-nos a pensar a complexidade do fenómeno e a considerar as circunstâncias e motivações que podem conduzir a determinados comportamentos. No fundo, como pessoas “como nós” a elas expostas podiam, eventualmente, adoptar outro tipo de comportamentos. Ou como em grupo podemos ter comportamentos tão distintos de outros, fora do grupo. Ou como não foi a ideologia ou objectivos militares/políticos os motivos identificados pelas tropas nazis para a não dissidência e persistência na II Guerra Mundial, mesmo quando já perto da derrota, antes a “kameradschaft” partilhada com as e os seus companheiros.

Pensá-lo é fundamental a olhar o que sucedeu no Mundo nos últimos muitos milhões de anos. As relações, a confiança, o companheirismo e o paradoxo da inexistência tão clara como gostaríamos de um “nós” e um “outras/os” foram fundamentais ao progresso, à persistência e à resposta a desafios que se colocaram à vida nele, sempre. São fundamentais, hoje, à mitigação da crescente polarização ou à prevenção da desinformação e do seu impacto na sociedade, apoiando a legitimação de diferenças e dúvidas e estimulando que, em comunidade e sociedade, se iniciem conversas construtivas, capazes de criar pontes de encontro baseadas no não julgamento, na relação, segurança e confiança. Baseadas num conjunto de valores que, enquanto seres humanos, procurarmos consensualizar e atingir e num companheirismo que partilhamos. Companheirismo que nos permite persistir.

A persistência é hoje, aliás, uma competência ao mesmo tempo fundamental e, de certa forma, desafiada. Fundamental, num Mundo em (cada vez mais) rápida mudança e de enorme complexidade e ambiguidade. Desafiada, por esse Mundo, também pautado por hiper e diversa estimulação e pela procura de gratificações e sensações imediatas. Em todo o caso, permite-nos resistir ao insucesso e continuar, permite-nos falhar para melhorar, aprender, desenvolvermo-nos, investirmos em, também com outras pessoas, contribuirmos para a resolução de problemas complexos. Sendo individual e relacionando-se com características de cada pessoa (a autoestima, o autoconceito ou a autoeficácia, por exemplo) e com as suas circunstâncias e história, depende, em muito, das relações próximas, dos grupos, do companheirismo. Debrucemo-nos sobre um exemplo concreto e actual.

Soubemos por estes dias de um feito importante do país. Voltamos a ver subir o número de estudantes no Ensino Superior, que já tinha sido o maior número de sempre no ano lectivo anterior (446 mil). Sabemos, no entanto, que existem níveis de insucesso e abandono muito altos, realidade que impacta a vida (futura) de estudantes e que não faz jus ao investimento das famílias e do país. A título de exemplo, em 2022/23, quase 11% das e dos novos estudantes de licenciaturas e 25% dos cursos técnicos superiores profissionais, abandonaram os estudos antes do final do ano lectivo. Isto, além de uma percentagem não despiciente ter mudado de curso e da percentagem historicamente significativa que tenderá a abandonar os estudos sem concluir os respectivos graus.

Existem múltiplas razões para tal, desde logo, naturalmente, as socioeconómicas. Mas a entrada no Ensino Superior traz um conjunto de exigências e dificuldades, incluindo cognitivas, que implicam adaptação, estudo, treino e método, que também justificam parte do insucesso e sucessivo abandono. Quando se aprofunda o estudo do fenómeno percebe-se que nem sempre a capacidade ou competência são o que melhor explicam a persistência e continuidade. Estudos realizados nos EUA demonstram que, em áreas tendencialmente muito complexas como as matemáticas aplicadas, apesar do tercil mais baixo em capacidades dos estudantes das “melhores” Universidades ser muito próximo do primeiro tercil dos estudantes dos mesmos cursos de outras Universidades, a taxa de abandono é praticamente idêntica no mais baixo tercil entre as “melhores” Universidades e as outras. Parecem ser o sentimento de pertença e a posição relativa face ao grupo próximo que estimulam ou obstaculizam a persistência, mais do que as competências ou capacidades. Reflictamos, portanto, sobre o impacto da competição no insucesso e abandono e o papel que a pertença e companheirismo devem assumir.

Um exemplo que, sublinho, é muito influenciado pelas condições socioeconómicas decisivas até à entrada e na continuidade/término do Ensino Superior. Mas extensível aos estilos de vida e comportamentos que adoptamos, pensando na prática de exercício físico ou no consumo de álcool ou tabaco. Ou aos comportamentos associados à crise climática e à necessidade de alteração de determinados comportamentos e padrões de consumo, onde a pertença e o companheirismo são determinantes na tal persistência.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, são pessoas como nós que tomam decisões e agem. Pessoas expostas às mesmas heurísticas, suscetíveis aos mesmos vieses. Pessoas que precisamos de, empaticamente, compreender e aceitar na sua diversidade, criando relação. Pessoas que necessitam do companheirismo para persistir e para, persistindo, aprender, mudar, não abandonar, resolver, florescer. Pessoas que fizeram, fazem e farão a nossa relação com o Mundo. Persistamos, com elas, pelo Mundo.

 

Tiago Pereira

Companheirismo e Persistência

in Sábado (Ao redor…); 04.10.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/companheirismo-e-persistencia

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade?

“Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade? Sim, estamos. Absolutamente.”

Assim começa o 68º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) publicado ontem, Dia Internacional da Erradicação da Pobreza. Nele reflicto sobre a necessidade de “políticas integradas, participadas, sustentadas e mobilizadoras” de combate à pobreza e de uma governação integrada capaz de “quebrar ciclos intergeracionais de pobreza e exclusão e os factores que os determinam”. Políticas, portanto, “nas áreas da educação e saúde, para redução de iniquidades e desigualdades, mas também na área social, quer nos apoios financeiros, quer na capacidade, qualidade e eficácia da intervenção social realizada pelas instituições, organizações e projectos sociais.”

Porém, em Portugal, “parte significativa da intervenção social e das próprias entidades que a promovem vive em situação de “precariedade”, fazendo com que a actuação e intervenção junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade seja, ela própria, contraditoriamente, muitas vezes vulnerável.”

“Num contexto de trabalho exposto a desafios particularmente significativos e de elevada complexidade e dificuldade, ao invés de termos profissionais mais reconhecidos e valorizados, com maior possibilidade de acesso a autocuidado, mais bem preparados e com formação ao longo da sua vida profissional que acompanhe a evolução da ciência temos, infelizmente e invariavelmente, uma realidade de muito baixos salários, de precariedade, de não investimento, de descontinuidade de trabalho, muitas vezes dependente de projectos, financiamentos e timings (…) Temos instituições e organizações, por vezes com instalações muito precárias, sem capacidade (ou vontade) de ter lideranças técnicas e profissionais empoderadas que não afectas apenas a determinada actividade/projecto e, por isso, com menos potencial de participação e relação com outras entidades e de promoção de oportunidades de transformação efectiva das práticas e maior integração do conhecimento e da evidência científica.”

“Instituições e equipas, depois, que navegam num contexto que estimula a reprodução e cristalização de práticas e princípios, onde a inovação, a experimentação e a transformação têm muita dificuldade em penetrar. Contexto onde vigora o princípio da desconfiança, conduzindo equipas técnicas a usar parte significativa do seu tempo (se não a maioria) a justificar e registar o que vão fazer, para o poderem fazer, e o que fizeram, para receberem, em reembolso, por vezes, as verbas por o terem feito.”

“Falharemos se não investirmos na erradicação da pobreza e na quebra dos seus ciclos intergeracionais. Falharemos se não dermos melhores condições às e aos profissionais e às instituições e organizações sociais para promoverem melhores práticas, mais avaliadas e mais baseadas na melhor evidência científica disponível.”

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Companheirismo e Persistência

Hoje passam 56 anos do desaparecimento do psicólogo Gordon Allport. Em 70 anos de vida deixou uma importante obra que iniciou debates em áreas dispares como a personalidade, a maturidade, a motivação, a religião, os rumores ou a formação de preconceitos. Obra que incluiu um trabalho de campo na África do Sul, na década de 50 e em pleno apartheid, relativo à teoria/hipótese do contacto. Allport defendia que o contacto entre diferentes pessoas/grupos diminuiria preconceitos, ódio e o racismo entre pessoas e grupos. Faleceu em 1967 afirmando que essas suas ideias não tinham sido confirmadas, mas, além de pioneiras, a história da África do Sul e estudos mais actuais (de dados longitudinais) demonstram que, efectivamente, o contacto com pessoas diversas pode impactar neste sentido

“Companheirismo e Persistência”, 67º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado; link abaixo) parte da “palavra alemã kameradschaft que descreve um sentimento de camaradagem. De companheirismo. Sentir profundamente humano, abundantemente partilhado entre as pessoas e com forte impacto no nosso comportamento e tomada de decisão” (…) que explica, melhor que a ideologia ou objectivos militares/políticos, a não dissidência e persistência na II Guerra Mundial das tropas Nazis, mesmo quando já perto da derrota.

Discute o conceito e a sua importância histórica (“as relações, a confiança, o companheirismo e o paradoxo da inexistência tão clara como gostaríamos de um “nós” e um “outras/os” foram fundamentais ao progresso”) e contemporânea, na mitigação da crescente polarização ou na prevenção da desinformação e do seu impacto na sociedade. Pensa-o, ainda, na relação com a persistência, “competência ao mesmo tempo fundamental (num Mundo em rápida mudança e de enorme complexidade e ambiguidade) e desafiada (por este Mundo, também pautado por hiper e diversa estimulação e pela procura de gratificações e sensações imediatas).”

Discuste como mais que a capacidade ou competência parece ser “o sentimento de pertença e a posição relativa face ao grupo próximo que estimulam ou obstaculizam a persistência”, por exemplo no que se refere ao insucesso e abandono no Ensino Superior, significativos em Portugal.

Propõe que “reflictamos sobre o impacto da competição no insucesso e abandono e o papel que a pertença e companheirismo devem assumir”, bem como serem “pessoas como nós que tomam decisões e agem (…) pessoas que necessitam do companheirismo para persistir e para, persistindo, aprender, mudar, não abandonar, resolver, florescer. Pessoas que fizeram, fazem e farão a nossa relação com o Mundo. Persistamos, com elas, pelo Mundo.”

 

Ps. Amanhã comemoremos o Dia Mundial da Saúde Mental. Dia também para ponderarmos, espero, como a diferença e a diversidade desenvolvem a sociedade e devem ser respeitadas e como a equidade e a redução das desigualdades estimulam o bem-estar e a coesão social. Como, no fundo, são essenciais à saúde e saúde mental de pessoas e comunidades.

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As vozes ausentes: abstenção eleitoral, remédios e efeitos secundários (Ao redor…; 20.09.2023)

Domingo, 24 de Setembro de 2023, decorrem as Eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira. Abrem um ciclo que, mantendo-se o calendário previsto, nos levará à eleição da nova Assembleia da República daqui a 3 anos, com eleições ao Parlamento Europeu e Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (2024), Autárquicas (2025) e Presidenciais (2026) até lá. Num contexto de crise(s) permanente(s), de imprevisibilidade, incerteza e transições diversas, do clima ao digital; num Mundo pautado pela “quebra” de mediadores e da confiança, pela crescente polarização, tensão geopolítica e enfraquecimento das democracias, julgo fundamental, neste início de ciclo de eleições, pensarmos a representatividade e a abstenção eleitoral.

Partamos da evolução da participação eleitoral nas Eleições Legislativas em Portugal. Nas 17 eleições após 1975, apenas em três (1979, 2005 e 2022) a participação eleitoral subiu mais de um 1 ponto percentual face à eleição imediatamente anterior, tendo a abstenção subido de 8,5% em 1975 até 48,6% em 2022. Apesar de tudo, valor inferior ao máximo em Eleições Legislativas (51,4% em 2019) e no conjunto das Eleições, atingido nas Eleições Europeias também de 2019 (68,6%). Esta mudança, não exclusiva de Portugal, confronta-nos com um fenómeno com impacto profundo na sociedade, mas, também, com a necessidade de compreendermos o que o justifica se, com eficácia, quisermos co-construir e co-dinamizar acções necessárias à inversão deste caminho.

Compreendermos que abstermo-nos ou não resulta, não apenas da favorabilidade da data das eleições ou da facilidade de acesso às mesas de voto, embora estas a influenciem, mas também da conjugação de um conjunto de crenças, sentimentos e de atitudes com factores socioeconómicos. Ou seja, à descrença, ao não reconhecimento ou identificação com os processos, instituições e/ou candidatas/os, devemos somar dimensões como a pertença comunitária, o nível socioeconómico ou educativo (nos Estados Unidos) ou a idade (em Portugal). São, no seu conjunto, factores que influenciam os níveis de participação eleitoral e que, por um lado, reforçam o status quo e os grupos e características maioritárias das eleitas e eleitos, bem como a parte da população que, tendencialmente, mais beneficia das opções e políticas resultantes das eleições. Por outro, perpetuam a carência de representatividade que resulta desta desproporção, do desincentivo que dela decorre e do facto das pessoas que se sentem menos empoderadas, tenderem a sentir-se, simultaneamente, menos confiantes, menosprezarem as suas capacidades e, também por isso, participarem e envolverem-se menos.

Tendo presente estes dados, parece-me essencial concluir pela necessidade de três acções: investigar, em permanência, as causas e consequências da abstenção, considerando a sua importância e a necessidade da sua compreensão; usar do conhecimento científico para promover acções e incitativas de prevenção da abstenção e de promoção da participação eleitoral; promover o envolvimento e participação nos processos eleitorais de pessoas/comunidades sub-representadas.

Gostava de me centrar nos dois últimos pontos. Apensar dos desafios crescentes que atrás mencionei, há hoje um conjunto de evidência científica que pode ser mobilizada para, particularmente nas democracias e sociedades que promovem direitos, incluindo de participação, desenvolvermos acções concretas e avaliáveis conducentes a estes objectivos. Da utilização de nudges, “lembretes” personalizados ou a norma/”pressão” social. Do envolvimento de “influenciadoras” e “influenciadores” sociais e prevenção e combate à desinformação/fake news. Do aumento da acessibilidade e da facilidade e modalidades do processo de voto, incluindo soluções que usam ferramentas electrónicas, diferentes locais/datas ou diferentes línguas. Da procura de envolvimento em acções de cidadania e políticas de crianças e jovens, procurando interromper ciclos geracionais de afastamento da participação pública, à qualidade percebida das políticas públicas e, particularmente, das medidas e apoios sociais. Tudo caminhos importantes, com exemplos concretos, avaliados e facilmente evocáveis. Tudo caminhos, também porque possíveis, urgentes. Tudo caminhos, porém, que comportam o risco de se aumentar as iniquidades de participação eleitoral, reforçando-a em grupos populacionais que já hoje mais votam e não noutros, acentuando fossos de participação e representação entre grupos e cidadãos.

Importa, portanto, mobilizar o conhecimento científico e as experiências do nosso país, escalando-as, e de outros países, adaptando-as, para promover aumentos de participação mas, simultaneamente, diminuir gaps de envolvimento de diferentes grupos populacionais. Se formos capazes de o fazer, enquanto sociedade, promoveremos a confiança, reduziremos iniquidades e contribuiremos para, com e pela democracia, um país e Mundo mais justo para todas e todos, mote do dia da Democracia comemorado a 15 de Setembro último. Dia este ano dedicado ao “empoderamento da próxima geração” e comemorado num momento próximo da apresentação de um grande estudo internacional da “Open Society Foundations” que indica que 42% da população jovem inquirida entende uma “liderança militar” como “algo positivo” e 35% apoia uma liderança que ignore os parlamentos nacionais. Empoderamento, pois, também dependente da sua participação cívica e da representação de todas as franjas populacionais desta “próxima geração” no processo e na construção da “obra sempre inacabada” que é a Democracia e desta apresentar resultados que previnam a procura de soluções aparentemente mais simples mas que podem condicionar direitos sociais e humanos, conforme a história nos tem demonstrado.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o sentimento de pertença continua a ter um papel relevante na saúde e bem-estar das pessoas. Uma menor percepção de pertença tende a resultar numa menor confiança nas outras pessoas e nas instituições e, consequentemente, em processos de descrença e desesperança na Democracia. Protegê-la e reforçá-la depende de, mobilizando o conhecimento e investindo com esse objectivo, invertermos o crescimento da abstenção e aumentarmos a representação e os sentimentos de pertença de todos os cidadãos, independentemente das suas condições. Depende de promovermos o empoderamento das pessoas, o seu envolvimento cívico e a sua literacia política. Depende de melhorarmos as instituições e as suas respostas para todas e todos. Depende de tudo isto, todos os dias, todos os anos.

 

Tiago Pereira

As vozes ausentes: abstenção eleitoral, remédios e efeitos secundários

in Sábado (Ao redor…); 20.09.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/as-vozes-ausentes-abstencao-eleitoral-remedios-e-efeitos-secundarios

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As vozes ausentes: abstenção eleitoral, remédios e efeitos secundários

“Domingo decorrem as Eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira (…) Num contexto de crise(s) permanente(s), de imprevisibilidade, incerteza e transições diversas, do clima ao digital; num Mundo pautado pela “quebra” de mediadores e da confiança, pela crescente polarização, tensão geopolítica e enfraquecimento das democracias, julgo fundamental, neste início de ciclo de eleições, pensarmos a representatividade e a abstenção eleitoral.”

“As vozes ausentes: abstenção eleitoral, remédios e efeitos secundários”, 66º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) centra-se no aumento consistente da abstenção nas últimas décadas, “fenómeno com impacto profundo na sociedade” e na “necessidade de compreendermos o que o justifica se, com eficácia, quisermos co-construir e co-dinamizar acções necessárias à inversão deste caminho.”

“Compreendermos que abstermo-nos ou não resulta, não apenas da favorabilidade da data das eleições ou da facilidade de acesso às mesas de voto, embora estas a influenciem, mas também da conjugação de um conjunto de crenças, sentimentos e de atitudes com factores socioeconómicos (…) Factores que, por um lado, reforçam o status quo e os grupos e características maioritárias das eleitas e eleitos, bem como a parte da população que, tendencialmente, mais beneficia das opções e políticas resultantes das eleições. Por outro, perpetuam a carência de representatividade que resulta desta desproporção, do desincentivo que dela decorre e do facto das pessoas que se sentem menos empoderadas, tenderem a sentir-se, simultaneamente, menos confiantes, menosprezarem as suas capacidades e, também por isso, participarem e envolverem-se menos.”

No artigo concluo “pela necessidade de três acções: investigar, em permanência, as causas e consequências da abstenção, considerando a sua importância e a necessidade da sua compreensão; usar do conhecimento científico para promover acções e incitativas de prevenção da abstenção e de promoção da participação eleitoral (dando exemplos concretos e avaliáveis); promover o envolvimento e participação nos processos eleitorais de pessoas/comunidades sub-representadas (prevenindo o risco de se aumentar as iniquidades de participação eleitoral com estas acções, reforçando-a em grupos populacionais que já hoje mais votam e não noutros, acentuando fossos de participação e representação entre grupos e cidadãos).

Proteger e reforçar a democracia “depende de, mobilizando o conhecimento e investindo com esse objectivo, invertermos o crescimento da abstenção e aumentarmos a representação e os sentimentos de pertença de todos os cidadãos, independentemente das suas condições. Depende de promovermos o empoderamento das pessoas, o seu envolvimento cívico e a sua literacia política. Depende de melhorarmos as instituições e as suas respostas para todas e todos. Depende de tudo isto, todos os dias, todos os anos.”

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Onde estavas na transição digital? (Ao redor…; 06.09.2023)

Seja por via do original – a pergunta que Baptista-Bastos fazia a quem entrevistava nas suas “Conversas secretas” – seja por via da personagem humorística nele inspirada e interpretada por Herman José, a pergunta “onde estava no 25 de Abril?” entrou no nosso imaginário e é hoje utilizada para diversas situações. Todavia, não creio provável, ainda que no futuro, que nos perguntemos “onde estava/s na transição digital?”, mas…

Não creio porque, desde logo, é um fenómeno claramente distinto do que representou e impactou o 25 de Abril para as pessoas e sociedade portuguesa. Mas também não nos lembraremos dele como nos recordamos de onde estávamos quando tivemos conhecimento dos acontecimentos relativos ao 11 de Setembro de 2001 ou quando decorria a final do Campeonato Europeu de Futebol de 2016. Não, porque ao contrário destes momentos, a transição digital não tem uma data e não se constitui como acontecimento significativo. É, antes, um processo, com poder transformador e que, queiramos ou não, será profundamente significativo na nossa vida presente e futura.

Um processo, em rigor, em curso há décadas, e que se projecta, exponencialmente, aquando de momentos de introdução e/ou generalização de novas tecnologias ou possibilidades, capazes de rapidamente transformarem processos de educação ou trabalho e a forma como vivemos em sociedade. São disso exemplo, a internet, os computadores pessoais, os smartphones, a realidade virtual ou, mais recentemente, a inteligência artificial generativa (por exemplo, o ChatGPT). Será disso exemplo a possibilidade, defendida por múltiplos especialistas, de atingirmos a “superinteligência artificial”, ou seja, um sistema não-humano ultrapassar a inteligência humana.

Apesar de ser um processo em curso, penso ser fundamental reflectirmos o momento actual como particularmente relevante neste percurso. Todas e todos intuímos que, com a evolução rápida da realidade virtual e, particularmente, da inteligência artificial generativa, existirão alterações profundas e visíveis no nosso dia-a-dia e que isso requererá da parte de cada pessoa, grupos e comunidades, a par do desenvolvimento de novas competências, a necessidade de uma rápida adaptação e de gestão dos impactos emocionais e no bem-estar desta transformação.

Até hoje, a transição digital, além da famosa “eliminação do papel”, trouxe-nos impactos positivos, mas, também, necessariamente desafios e impactos menos positivos, que permitem comunicarmos muito mais rapidamente e com menor custo, acedermos mais facilmente a informação e cultura, podermos preparar e prever viagens ou entregas ou podermos realizar acções de educação / formação ou mesmo intervenções terapêuticas à distância. Com este ponto de partida, perspectivemos os impactos do actual crescimento exponencial e do momento que vivemos ter uma característica estruturalmente diferente dos anteriores que o torna o crucial. Verdadeiramente, é a primeira vez que a tecnologia vem, de certa forma, apropriar-se, potenciar e generalizar partes de uma competência tipicamente humana, a cognição. O ChatGPT está para os processos cognitivos como a memória, a linguagem, o processamento de informação ou a criatividade como os primórdios dos motores de busca estão para a Google hoje ou como o primeiro Iphone está para as redes sociais hoje.

E, se esses primórdios, já significam resumos automáticos de reuniões segundos depois do seu fim ou produções de código ou texto com alguma complexidade, numa ferramenta gratuita e generalizada, podemos pensar (mesmo que não consigamos prever com acuidade) o que poderá ser a evolução destas ferramentas e o que permitirão. A forma como tenderão a contribuir para a substituição ou diminuição de necessidade de determinadas tarefas e uso de competências, mas, também, como nos ajudarão a descrever e prever fenómenos e como isso pode apoiar acções preventivas e prescritivas, permitindo, por exemplo na área da saúde, acções de prevenção e intervenção precoce e personalizada, algo que será relevantíssimo em áreas como o cancro ou nas doenças degenerativas.

Fazendo-o com a cognição humana, terá ainda muitas limitações a poder fazê-lo em dimensões mais emocionais, ainda que as impactando. Mas o que poderá acontecer com a utilização da computação quântica, algo previsível no futuro e que mudaria (mudará?) significativamente a capacidade de tratamento de dados e possibilitará maiores aproximações, inclusivamente, à reprodução da forma como o cérebro humano funciona? É este o contexto que levou a que um conjunto de personalidades relevantes na área, lideradas por Geoffrey Hinton, um psicólogo por vezes apelidado “pai da inteligência artificial”, publicasse um manifesto apelando a que “mitigar o risco de extinção (humana) devido à inteligência artificial deve ser uma prioridade global conjuntamente com outros riscos como as pandemias e a guerras nucleares”.

Efectivamente os desafios e riscos hoje existentes implicam desenvolvimentos suportados em dimensões éticas e sociais, alinhando a tecnologia com os valores da humanidade. Apenas orientações que o impliquem, em conjunto com o reforço do multilateralismo, poderão, com sucesso, contribuir para que estes riscos sejam mitigados e para que esta transformação contribua para o desenvolvimento e para a redução das iniquidades a uma escala global, com instrumentos e ferramentas globais.

Terminei o primeiro paragrafo deste texto com um mas… Mas, porque talvez nos devamos mesmo perguntar, a nós mesmo, “onde estamos na transição digital?”. Como estamos para ela preparadas e preparados, que competências temos e, eventualmente, precisamos desenvolver, como nela estamos a participar e a estamos a influenciar? Foi também este o mote das comemorações, a 4 de Setembro último, do Dia Nacional do Psicólogo, com uma conferência e um conjunto de acções em torno do “Factor Humano na Transição Digital”, reflectindo-se estes temas na profissão, mas, principalmente, com a sociedade, os contributos de uma ciência que, estudando o comportamento humano e o que o influencia, pode ser importantíssima às pessoas, às organizações, ao desenvolvimento das tecnologias e às políticas neste processo de transição digital.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, infelizmente de forma não equitativa, a inteligência artificial generativa disseminar-se-á rapidamente. Não sem riscos, não sem obstáculos, não sem medos, terá o potencial no futuro curto que se pode prever de nos tornar melhores estudantes e profissionais, nas mais diversas áreas, sendo nosso copiloto e ferramenta auxiliar aos processos de tomada de decisão e realização de tarefas, quando e se alinhada com as dimensões éticas e de segurança e com os valores do humanismo e dos direitos humanos. Este alinhamento, não apenas, mas também depende de cada um de nós e de onde estamos e queremos estar na transição digital.

 

Tiago Pereira

Onde estava na transição digital?

in Sábado (Ao redor…); 06.09.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/onde-estava-na-transicao-digital

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Onde estava na transição digital?

Ricardo Araújo Pereira costuma afirmar que, mesmo quando se tem essa pretensão, um/a humorista “não consegue controlar totalmente o efeito do [seu] humor”. E o humor, como sabemos, tem um papel muito importante e diverso na sociedade. Porque nos diverte e faz sentir bem. Porque nos aproxima e permite sintonizar com outras e outros e começar/continuar conversas. Porque nos permite olhar, criticamente, o que nos rodeia. Em Portugal, como noutros países, diferentes gerações têm beneficiado do humor e, num certo momento da minha vida, o Herman José (e toda a sua equipa), particularmente no Herman Enciclopédia, marcaram-me muito. Entre tantas outras personagens recordo o “Artista Bastos”, personagem inspirada no Baptista-Bastos e que ajudou a projectar para os nossos dias a pergunta “Onde estava/s no 25 de Abril?”.

“Onde estava na transição digital”, 65º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) usa duma apropriação da pergunta ao processo de transição digital em curso, processo “com poder transformador e que, queiramos ou não, será profundamente significativo na nossa vida presente e futura”. Fi-lo, pois, “julgo ser fundamental reflectirmos o momento actual como particularmente relevante” (…) dado que com “a evolução rápida da realidade virtual e, particularmente, da inteligência artificial generativa, existirão alterações profundas e visíveis no nosso dia-a-dia” que “requererão da parte de cada pessoa, grupos e comunidades, a par do desenvolvimento de novas competências, a necessidade de uma rápida adaptação e de gestão dos impactos emocionais e no bem-estar desta transformação.”

Mas, não existindo apenas benefícios perspectivados desta transição em curso (também desafios e riscos que procuro, também, reflectir no artigo), devemos advogar e contribuir para “desenvolvimentos suportados em dimensões éticas e sociais, alinhando a tecnologia com os valores da humanidade. Apenas orientações que o impliquem, em conjunto com o reforço do multilateralismo, poderão, com sucesso, contribuir para que estes riscos sejam mitigados e para que esta transformação contribua para o desenvolvimento e para a redução das iniquidades a uma escala global, com instrumentos e ferramentas globais.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, infelizmente de forma não equitativa, a inteligência artificial generativa disseminar-se-á rapidamente. Não sem riscos, não sem obstáculos, não sem medos, terá o potencial no futuro curto que se pode prever de nos tornar melhores estudantes e profissionais, nas mais diversas áreas, sendo nosso copiloto e ferramenta auxiliar aos processos de tomada de decisão e realização de tarefas, quando e se alinhada com as dimensões éticas e de segurança e com os valores do humanismo e dos direitos humanos. Este alinhamento, não apenas, mas também depende de cada um de nós e de onde estamos e queremos estar na transição digital.”

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30 meses ao redor, um pedido e um compromisso (Ao redor…; 21.08.2023)

No próximo dia 24 de Agosto passam 30 meses da data em que escrevi o primeiro artigo desta rubrica. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e terminava com uma proposta: “Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.”

Nesse dia, sabia dos desafios complexos do país e do Mundo nesse momento e sabia, também, que estariam para vir outros, não menos complexos e não totalmente previsíveis. Estávamos a 24 de Fevereiro de 2021 e não previa que, exactamente um ano depois, se entrasse numa escalada da invasão pela Federação Russa da Ucrânia e se iniciasse uma Guerra na Europa. Ou que estaríamos hoje, enquanto nos debatemos com eventos climatéricos significativos resultantes, também, da crise climática, a discutir, como estamos a discutir, os impactos da inteligência artificial generativa, dos computadores espaciais e realidade virtual ou a preparamo-nos para pensar as transformações que podem advir com os futuros computadores quânticos.

É por isso, pensando no presente, mas sobretudo no futuro, que 63 artigos depois desse primeiro, aqui partilho um pedido e um compromisso.

Se há algo que parece unânime no debate público em Portugal, talvez no Mundo, é a necessidade de potenciar o crescimento económico. Ora, o pedido que partilho convosco é para que, enquanto sociedade, em Portugal e no Mundo, procuremos complementar este discurso e objectivo com a necessidade de promover, simultaneamente, a equidade e a segurança, incluindo psicológica, de pessoas e comunidades, como vectores fundamentais para, num quadro de direitos humanos, democracia e multilateralismo e de protecção do meio ambiente, contribuirmos para a possibilidade de bem-estar de pessoas e para a coesão social.

Tal como tem acontecido com a pobreza, particularmente com a pobreza extrema, também a nível global existiu nas últimas 3 décadas uma significativa redução das desigualdades globais entre países, manifesta em indicadores como a esperança média de vida, o acesso a alimentos e água potável, à educação ou à internet e outros meios de comunicação. Porém, existem neste percurso três questões que importa detalhar e que devem estimular reflexão e mobilizar enquanto sociedade.

Se a diferença entre os países classificados como economias mais desenvolvidas e menos desenvolvidas diminuiu nestes elementos, não o fez em todas as áreas. Dois exemplos em dimensões relevantes: a mortalidade infantil, que descendo em ambos os grupos de países, fê-lo muito mais intensamente nos países com economias mais desenvolvidas, aumentando a diferença e desigualdade. Também na poluição do ar a diferença aumentou nos últimos anos, muito devido ao crescimento das cidades, da população e da industrialização dos países apelidados de em desenvolvimento.

Este ponto, a par do acesso a espaços azuis e verdes, traz-nos à segunda importante questão. O facto de, além das iniquidades globais, existirem iniquidades nacionais. Em Portugal o ritmo de decréscimo tem sido relativamente baixo no que se refere aos rendimentos e permanecem desfasamentos significativos em elementos como a saúde, a educação, a habitação ou o acesso à recreação, à cultura ou ao desporto pelo nível de rendimentos, localização (por vezes dentro da mesma cidade) ou pertença comunitária. É, também por isso, que sendo possível como se tem demonstrado, importa acelerar e aprofundar a redução das desigualdades, algo fundamental à promoção da saúde pública, da capacidade de agência, controlo e previsibilidade das pessoas, logo do seu bem-estar e, portanto, do desenvolvimento da sociedade.

Finalmente, a redução das desigualdades está também positivamente associada a maior confiança nas outras pessoas, nas instituições, incluindo políticas, e na coesão social. É por isso que retrocessos nos últimos anos na redução da desigualdade em algumas áreas, particularmente na que se refere à vivência de liberdades de direitos e política e da vivência em democracias, periga estes elementos e nos deve fazer reflectir na forma como forças da sociedade civil e da política usam o medo, a instigação do ódio e a desinformação para procurar polarizar a sociedade, promover a desconfiança, romper contratos sociais e diminuir direitos. Como os usam para fragilizar a segurança, incluindo a segurança psicológica, de todas as pessoas numa sociedade.

O discurso de ódio e o desrespeito por condições diversas de vivência, incluindo práticas religiosas, pertença comunitária, condição de vivência no país ou orientação sexual, depois de terem diminuído significativamente nas últimas décadas, estão, nos últimos anos, em crescimento em alguns países e continentes no Mundo, incluindo na Europa. A ascensão das chamadas “democracias iliberais” e o retorno do autoritarismo em alguns países condicionam a segurança, incluindo a psicológica, e a igualdade, como fundamentos base das sociedades. Prevenir, portanto, a inversão de caminhos de maior segurança psicológica para todas as pessoas e comunidades, desde logo na Europa e em Portugal em concreto e generalizar esta necessidade Mundo fora, é fundamental à promoção do bem-estar das pessoas e da coesão social. Da possibilidade de respondermos à adversidade e a acontecimentos de vida negativos com suporte de outras pessoas e/ou com apoio comunitário ou social. Da possibilidade de errarmos e de, por isso, não sermos eternamente penalizados, particularmente se tivermos determinadas características ou condições face a outras pessoas, com outras características ou condições.

É este, assim, o meu pedido. Que à necessidade de crescimento económico, unânime no debate público, somemos a promoção da equidade e da segurança, incluindo psicológica, e que todas as pessoas, quaisquer que sejam os seus papéis e responsabilidades na sociedade, se envolvam e para isso contribuam. Se este é o meu pedido, o compromisso que partilho é que, enquanto este espaço e esta rubrica me for permitida, também aqui vou continuar a disponibilizar contributos, a partir de um olhar que procuro que seja informado pela ciência, para que este pedido seja tema e desígnio e de como é possível continuarmos e acelerarmos o caminho percorrido nestas áreas em Portugal e no Mundo.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a psicologia, enquanto ciência e profissão, tem, necessariamente, que procurar contribuir mais para informação e literacia da população sobre os impactos da desigualdade e da insegurança psicológica nas pessoas e sua possibilidade de bem-estar, nas comunidades e seu desenvolvimento e na sociedade e sua coesão social. Tem, também e necessariamente, que contribuir, conjuntamente com outras disciplinas, para promover situações e/ou transformações sociais que permitam e promovam os valores da equidade e da segurança, incluindo a segurança psicológica. Por isso, este meu pedido, a quem me lê e também à minha ciência e profissão. Por isso, este compromisso meu, como responsável desta rúbrica e enquanto psicólogo.

 

Tiago Pereira

30 meses ao redor, um pedido e um compromisso

in Sábado (Ao redor…); 21.08.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/30-meses-ao-redor-um-pedido-e-um-compromisso

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30 meses ao redor, um pedido e um compromisso

Hoje passam 30 meses da data em que escrevi o 1º artigo da rubrica “Ao redor”. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e terminava com uma proposta: “Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.”

“Nesse dia, sabia dos desafios complexos do país e do Mundo nesse momento e sabia, também, que estariam para vir outros, não menos complexos e não totalmente previsíveis. Estávamos a 24 de Fevereiro de 2021 e não previa que, exactamente um ano depois, se entrasse numa escalada da invasão pela Federação Russa da Ucrânia e se iniciasse uma Guerra na Europa (…) É por isso, pensando no presente, mas sobretudo no futuro, que 63 artigos depois desse primeiro, aqui partilho um pedido e um compromisso.”

“30 meses ao redor, um pedido e um compromisso”, 64º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte do pedido de complementarmos o discurso sobre a necessidade de promovermos crescimento económico, “com a necessidade de promovermos, simultaneamente, a equidade e a segurança, incluindo psicológica, de pessoas e comunidades, como vectores fundamentais para, num quadro de direitos humanos, democracia e multilateralismo e de protecção do meio ambiente, contribuirmos para a possibilidade de bem-estar e para a coesão social.”

Afirma-o possível, como a redução significativa das desigualdades nas últimas 3 décadas demonstrou, mas desafiante, particularmente no que se refere a determinadas dimensões e a “iniquidades internas”, por ex. em Portugal, onde “o ritmo de decréscimo da desigualdade tem sido relativamente baixo no que se refere aos rendimentos e permanecem desfasamentos significativos na saúde, educação, habitação ou no acesso à recreação, cultura ou ao desporto pelo nível de rendimentos, localização (por vezes dentro da mesma cidade) ou pertença comunitária.”

Nele abordo ainda como “a ascensão das chamadas “democracias iliberais” e o retorno do autoritarismo em alguns países condicionam a segurança, incluindo a psicológica, e a igualdade, como fundamentos base das sociedades” essenciais “à promoção do bem-estar e da coesão social.”

Assumo, finalmente, o compromisso de, “enquanto este espaço e esta rubrica me for permitida, continuar a disponibilizar contributos, a partir de um olhar que procuro que seja informado pela ciência, para que este pedido seja tema e desígnio e de como é possível continuarmos e acelerarmos o caminho percorrido nestas áreas em Portugal e no Mundo.”

São particularmente significativos os “impactos da desigualdade e da insegurança psicológica nas pessoas e sua possibilidade de bem-estar, nas comunidades e seu desenvolvimento e na sociedade e sua coesão social” (…) “Por isso, este meu pedido, a quem me lê e também à minha ciência e profissão. Por isso, este meu compromisso, como responsável desta rúbrica e enquanto psicólogo.”