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COVID-19, 20, 21, 22, 23, … (Ao redor…; 20.03.2023)

Acordamos um dia para, tão somente, mais um dia como tantos outros na nossa vida. Mas eis que algo significativo nele sucede e o terminamos a sentir que o Mundo desabou. Sei que sabem do que escrevo. Já o sentimos, certamente. É que, ao contrário das transformações positivas na nossa vida, normalmente incrementais, morosas e sem “uma data”, há mudanças e/ou perdas bruscas que decorrem de um acontecimento muitas vezes imprevisto, datado. Com dia, hora e até local.

E, se assim é com cada uma e um de nós, assim é com o Mundo e com o que dele nos chega, particularmente via comunicação social e redes sociais. Como a prosperidade e as melhorias não têm, normalmente, data e não se compadecem com a actualidade do dia-a-dia, chega-nos, desequilibradamente, mais informação sobre acontecimentos negativos súbitos que processamos e integramos, também, através de mecanismos de generalização e considerando e focando mais a nossa atenção em factos ou aspectos negativos face a positivos, algo que configura o apelidado “viés da negatividade”.

Tudo isto ajuda a explicar porque nos é tão simples de evocar ou ter presente datas de acontecimentos negativos significativos. Como recordamos onde estávamos, por vezes até o que estávamos a fazer, quando soubemos dos atentados nos Estados Unidos da América em 11 de Setembro de 2001 ou dos incêndios de 15 de Outubro de 2017 em Portugal. Como recordamos as datas relativas aos primeiros casos confirmados, à primeira morte ou ao primeiro dever de recolhimento obrigatório em Portugal em virtude da COVID-19 em 2020.

Passaram três anos e recordo cada um destes momentos, colectivos, e um outro, muito próximo. Sexta-feira, 13 de Março de 2020, dia da criação do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses e dia em que fui nomeado seu coordenador. Sabia e sabíamos, por essa altura, que algo significativo aí viria, mas era-me e era-nos, creio, impossível nesse momento perspectivar claramente os múltiplos impactos que a pandemia teria no Mundo, em Portugal e em cada uma e um de nós. Nessa altura e, em bom rigor, talvez ainda hoje na sua totalidade.

Nos três anos que decorreram entre esse dia e a passada segunda-feira 13 de Março, dia em que terminou a estrutura do gabinete de crise e em que, formalmente, deixei as funções de seu coordenador, muito mudou. No Mundo, onde se interrompeu a descida progressiva da percentagem de pessoas com fome e em pobreza extrema. Em Portugal, onde assistimos a uma diminuição da esperança média de vida à nascença, algo que já não sucedia desde 1996, e onde a COVID-19 irrompeu como responsável por entre 5 e 10% das mortes totais nos anos de 2020, 2021 (o pior, com 9,6%) e 2022, num total de mais de mais de 26.000 mortes a que se junta um número indeterminado, mas muito significativo, de complicações sucessivas e/ou doenças agravadas na população. Onde, também por isto, pela crise socioeconómica decorrente da pandemia e pelas fortes restrições e alterações aos padrões de vida, aumentou consideravelmente o sofrimento psicológico e, em alguns casos e particularmente junto de grupos populacionais em situação de maior vulnerabilidade, aumentou a prevalência de dificuldades de saúde mental ou mesmo de doença mental, particularmente associadas ao stresse, à ansiedade e à depressão. Onde, ainda e por muito relevante, muitas crianças e jovens, também particularmente em situação de maior vulnerabilidade, viram impactados e prejudicados os seus percursos escolares e educativos em virtude do encerramento das Escolas e de outras actividades, com perdas significativas e de exigente (para alguns, impossível) recuperação. Perdas que agravam a já de si grave crise na área da saúde mental da população mais jovem, não apenas resultante da pandemia, manifesta, por exemplo, nos dados que demonstram o aumento do mal-estar (físico e psicológico), da insatisfação com a vida e dos comportamentos auto lesivos.

Finalmente, a pandemia impactou significativamente o bem-estar de forma geral. Hoje mesmo, Dia Internacional da Felicidade, a Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas publicou o relatório da felicidade mundial (2020-2022) onde Portugal mantém o 56º lugar, 22 lugares abaixo do 34º de 2019, numa análise que engloba as dimensões do rendimento disponível, do apoio social, da esperança de vida com saúde, da liberdade, generosidade e da percepção da corrupção, todas directa ou indirectamente influenciadas pela pandemia.

Pandemia que, mais que transformar, acelerou mudanças “sem data” e enfatizou iniquidades e vulnerabilidades. Mudanças na forma de comunicar, de aprender ou de trabalhar. Mudanças na ciência e na utilização do seu conhecimento, por exemplo na produção de vacinas. Mudanças no reconhecimento da importância da literacia em saúde e em ciência ou da prevenção do obscurantismo e da desinformação. No reconhecimento, ainda, da importância da confiança nos sistemas e em decisores e mediadores, incluindo jornalistas e profissionais de saúde. Enfatizou que “não estamos todas e todos no mesmo barco”, tal qual trouxe mais certeza da incerteza, das vulnerabilidades das pessoas e sistemas e de futuras crises de saúde pública.

Pandemia que, também mais que transformar, tornou mais consciente a importância da saúde mental, particularmente da população mais jovem, e da resiliência de pessoas e comunidades. Reforçou a necessidade de mitigar a precariedade, a pobreza e a exclusão social, promovendo a coesão social e factores protecores. A necessidade de reforçar a equidade, a proximidade e a contingência do apoio na área da saúde mental e de priorizar a possibilidade e a oportunidade de bem-estar para todas as pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a pandemia juntou, por via das funções que assumi, o enorme desafio pessoal de adaptação à realidade que impôs ao meu maior desafio profissional. Trouxe-me desafio, mas envolvimento, comprometimento e propósito ao que foi o meu contributo, pequeníssima parte do contributo maior (será ainda maior em futuras crises) da ciência psicológica e, particularmente, das psicólogas e psicólogos junto de pessoas, organizações e no apoio à tomada de decisão. “…viu-o lá fora, na viela, por trás da cerca alta. Um homem possante, um gigante escondido por trás da cerca de um metro e oitenta, a pá despontando de tempo a tempos, devolvendo a neve ao céu”, excerto do “A primavera há-de chegar, Bandini”. Primavera que chega hoje. Oportunidade para “devolvermos a neve ao céu” e de nos mobilizarmos para que a “Primavera” chegue a e para todas as pessoas.

Tiago Pereira

COVID-19, 20, 21, 22, 23, …

in Sábado (Ao redor…); 20.03.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/covid-19-20-21-22-23-

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Um pausa…

Um, dois… Um, dois, três, quatro, cinco minutos de jazz. Ontem acordamos com a notícia do desaparecimento de José Duarte, porventura o mais importante divulgador do jazz em Portugal. O seu “Cinco minutos de jazz”, que sempre assim começa, oferece uma pausa diária com uma música há já 57 anos, pausa que muito fez e faz pelo reconhecimento/gosto da música jazz.

Foi também uma pausa, neste caso para a saúde mental, que o Gabinete de Apoio ao Estudante/Espaço S da @Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa propôs. Dois dias para reflectir uma questão hoje fundamental no Ensino Superior, com forte impacto no bem-estar de toda a comunidade educativa e com consequências diversas no presente e futuro do país.

Na mesa em que participei, com a @Catarina Ruivo e a @Olga Cunha, moderada pelo @Diogo Telles Correia, realcei a importância de discutirmos este tema, neste contexto. Alertei para a importância de atendermos não apenas à urgência de apoiarmos quem, em sofrimento ou com um problema de saúde mental, necessita de suporte mas também pensarmos as causas do significativo aumento destas situações. Olharmos, como fiz no artigo “(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem” para:

  1. (N)otas e para o foco nos resultados e competitividade, com claro prejuízo do desenvolvimento de outras competências, incluindo as sócioemocionais, e do auto e heterocuidado;
  2. (O)utras e Outros e a necessidade da população jovem estar (sempre) “feliz”, porquanto as redes sociais, as relações e o reconhecimento no espaço virtual são importantes, acrescentando uma pressão significativa, potencialmente estigmatizante e penalizadora;
  3. (S)uporte e sua ausência, considerando que ao capital social associado à aspiração da população jovem a mais e mais contingentes respostas na saúde mental não correspondeu um significativo aumento do acesso e da equidade de acesso;
  4. (E)stabilidade também ausente, manifesta na falta de previsibilidade sobre o futuro e na ausência de segurança e controlo, pelo aumento do custo de vida/habitação e pela elevada precariedade.

Tudo a acrescentar pressão e factores de stresse a uma transição/adaptação existente, num momento de vida desafiante. Tudo com impacto desproporcional nas e nos com maiores vulnerabilidades. Tudo a contribuir para elevadas taxas de abandono no ensino superior (11% nas licenciaturas; 16% nos mestrados) e de mudança de curso/instituição (9%). Tudo grave, mas tudo menos grave do que o que se espera nos próximos anos, considerando o agravamento da condição dos e das agora adolescentes.

Obrigado à @Carla Vale Lucas e a toda a equipa que organizou o evento por o trazerem a debate, por me confiarem um papel e por procurarem mobilizar respostas para esta situação.

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Poverty: The oldest challenge of humankind

Há exactamente uma semana, a Fundação Francisco Manuel dos Santos disponibilizou um trabalho da autoria Carlos Farinha Rodrigues intitulado Portugal Desigual. Resumidamente assinala o positivo da recuperação nos indicadores de pobreza (18,4 para 16,4%) e desigualdade (33 para 32% no coeficiente de Gini) em 2021, após em 2020 termos assistido à inversão de um caminho de melhoria destes indicadores. Assinala o negativo, porém, do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento de 2022 (resultante de dados do 1º semestre e, nesse sentido, ainda não incorporando o impacto total da inflação em 2022) assinalar a contração de rendimentos reais pela subida de preços e o aumento de famílias que indicam não ter capacidade para aquecer adequadamente a casa e fazer uma refeição de carne ou peixe no mínimo de 2 em 2 dias.

Quinze dias antes, na rúbrica “O Psicólogo Responde” (colaboração CNN Portugal | Ordem dos Psicólogos Portugueses) que aqui partilho, respondi à pergunta “Existe uma relação entre ter baixos recursos financeiros e a saúde mental?”. “Sim, existe (…) viver em situação de pobreza e de exclusão, tantas vezes a ela associada, é um dos principais determinantes de doença, incluindo doenças mentais. Nesse sentido, a vulnerabilidade económica provoca stresse e sofrimento psicológico e afecta a saúde mental e o bem-estar”. Assim disse, acrescentando que “importa, porém, sublinhar que esta relação não é unidireccional, antes bidireccional (…) conforme a vulnerabilidade económica pode potenciar problemas de saúde mental, também problemas de saúde mental, como o stresse, a ansiedade ou a depressão, podem conduzir a uma maior probabilidade de se viverem situações de precariedade, desemprego ou pobreza” e, atendendo também À urgência dos dados e desafios acima, que “investir na promoção da saúde e da saúde mental também é garantir um mais eficaz combate à pobreza e à exclusão.”

Esta semana, num local particularmente significativo para mim (Póvoa de Varzim), terei participações no 37º Congresso da EFPSA (European Federation of Psychology Students’​ Associations) sobre este ciclo. Primeiro moderando um debate com intervenções do Eldar Shafir, do Francisco Branco e da Raquel Corval com o mote “Poverty: The oldest challenge of humankind”. Depois, dinamizando um workshop sobre contributos da psicologia para um ponto final à pobreza. Congresso em 2023, 20 anos após o de 2003 no Porto, em que participei enquanto estudante de psicologia.

Agradeço, também por isso, à Carolina Garraio (que primeiro me falou de trazer de volta a Portugal o Congresso da EFSPA) e à Gabriela Silva, pelos temas, qualidade e riqueza do programa que construíram e por todo o cuidado e empenho colocado na organização. Nelas, a toda a equipa. Parabéns, obrigado e que seja uma óptima semana de uma EFSPA que nasceu também do impulso de estudantes de psicologia portugueses em 1987 e cujo legado outras/os e as/os actuais procuram manter.

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COVID-19, 20, 21, 22, 23, …

“Acordamos um dia para, tão somente, mais um dia como tantos outros na nossa vida. Mas eis que algo significativo nele sucede e o terminamos a sentir que o Mundo desabou. Sei que sabem do que escrevo. Já o sentimos, certamente (…) Passaram três anos e recordo (…) [a] Sexta-feira, 13 de Março de 2020, dia da criação do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses e dia em que fui nomeado seu coordenador. Sabia e sabíamos, por essa altura, que algo significativo aí viria, mas era-me e era-nos, creio, impossível nesse momento perspectivar claramente os múltiplos impactos que a pandemia teria no Mundo, em Portugal e em cada uma e um de nós.”

“COVID-19, 20, 21, 22, 23, …”, 54º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como a pandemia, “mais que transformar, acelerou mudanças “sem data” e enfatizou iniquidades e vulnerabilidades” e sobre o meu papel, e o de tantas e tantos outros psicólogos, ao longo da mesma.

Sobre como trouxe “mudanças na forma de comunicar, de aprender ou de trabalhar. Mudanças na ciência e na utilização do seu conhecimento, por exemplo na produção de vacinas. Mudanças no reconhecimento da importância da literacia em saúde e em ciência ou da prevenção do obscurantismo e da desinformação. No reconhecimento, ainda, da importância da confiança nos sistemas e em decisores e mediadores, incluindo jornalistas e profissionais de saúde.” Sobre como enfatizou que “não estamos todas e todos no mesmo barco”, tal qual trouxe mais certeza da incerteza, das vulnerabilidades das pessoas e sistemas e de futuras crises de saúde pública.”

Sobre como tornou “mais consciente a importância da saúde mental, particularmente da população mais jovem, e da resiliência de pessoas e comunidades. Reforçou a necessidade de mitigar a precariedade, a pobreza e a exclusão social, promovendo a coesão social e factores protecores. A necessidade de reforçar a equidade, a proximidade e a contingência do apoio na área da saúde mental e de priorizar a possibilidade e a oportunidade de bem-estar para todas as pessoas.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a pandemia juntou, por via das funções que assumi, o enorme desafio pessoal de adaptação à realidade que impôs ao meu maior desafio profissional. Trouxe-me desafio, mas envolvimento, comprometimento e propósito ao que foi o meu contributo, pequeníssima parte do contributo maior (será ainda maior em futuras crises) da ciência psicológica e, particularmente, das psicólogas e psicólogos junto de pessoas, organizações e no apoio à tomada de decisão (…) Primavera que chega hoje. Oportunidade para “devolvermos a neve ao céu” e de nos mobilizarmos para que a “Primavera” chegue a e para todas as pessoas.

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Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

isto não é um cachimbo.

Na cultura existem objectos (livros, filmes, músicas ou quadros) que são mais conhecidos pelo objecto em si ou alguma das suas personagens/características do que pelo seu nome. Um exemplo, se falarmos do quadro “A traição das imagens” imagino que poucas pessoas pensem na imagem que evocam quando nos referimos ao quadro do “cachimbo”, embora este seja o seu nome. Pintado por René Magritte em 1929, permanece como um dos melhores exemplos do surrealismo ao “provocar” quem observa o quadro, desafiando a descrição do que é observado através da célebre frase “isto não é um cachimbo” abaixo da pintura de um cachimbo.

Penso-o a propósito da importância da literacia… Nas artes, certamente. Na ciência. Na área financeira. Na saúde e, mais especificamente, na saúde mental. Penso-o a propósito da colaboração da Ordem dos Psicólogos Portugueses com a Médis, também concomitante ao lançamento da sua nova cobertura compreensiva na área da saúde mental, e do meu contributo para se conhecer e reconhecer o burnout.

Síndrome hoje mais presente na sociedade, também pela maior consciência acerca do fenómeno e da pressão resultante das crises e da incerteza, das transformações no mercado de trabalho e dos desafios de conciliação da vida pessoal com a vida profissional.

No vídeo procuro afirmar como o burnout implica a triangulação da exaustação emocional resultante da dificuldade de gerir o stresse profissional com um menor envolvimento e propósito com e no trabalho e, finalmente, com um sentimento de perda de eficácia enquanto trabalhador/a. Poderá, esta tríade, estar ainda associada a outra sintomatologia (física e psicológica) e a dificuldades na gestão da vida pessoal e familiar mas apenas se cumpre nesta tríade, sem a qual teremos um quadro onde “isto não é burnout”.

Ainda no vídeo abordo questões da prevenção e do tratamento, sublinhando que além da dimensão individual relativa ao sofrimento psicológico, à gestão de emoções, à autorregulação e ao autocuidado é fulcral a dimensão organizacional. Porque, se as lideranças não estiverem atentas a este fenómeno e à promoção da saúde e do bem-estar das pessoas/equipas, dificilmente se mitigam e previnem estas situações.

Era, é e será fundamental que as organizações possam considerar e integrar nas suas práticas e dinâmicas os principiais determinantes do bem-estar no trabalho. Considerá-los de acordo com a evidência científica, avaliá-los e geri-los com as práticas que a ciência prova que, efectivamente, resultam.

Pela saúde e bem-estar das pessoas. Pela sustentabilidade e prosperidade das organizações e do país.

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Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais (Ao redor…; 06.03.2023)

Generalização. “Não há atribuições colectivas de culpa em Portugal, Senhor Deputado”. Foi com estas palavras que o Presidente da Assembleia da República interrompeu o discurso inarrável de um Sr. Deputado em torno de um conjunto de generalizações, naquele caso, relativas à comunidade cigana em Portugal. A generalização induz que experiências ou conhecimentos focados ou limitados sobre um determinado tema sejam processadas como se referindo ao total das situações, algo que influencia a tomada de decisão, conduzindo a erros e ao reforço de estereótipos e preconceitos.

Disponibilidade. A heurística da disponibilidade é um processo cognitivo que explica porque percebemos como mais provável um determinado acontecimento se tivermos presente um evento semelhante próximo. Porque também, tantas vezes, assistimos a debates profundamente autorreferenciados em que boas ou menos boas experiências de alguém sobre um determinado acontecimento induzem a sua visão sobre essa temática e tendem a diminuir a probabilidade da pessoa procurar outros dados, informações, referências ou ângulos sobre o assunto.

Desconfiança. A confiança é um valor fundamental numa sociedade e é hoje abundante a investigação que demonstra que níveis mais elevados de confiança (nas instituições e nas e pessoas) têm um peso importante na percepção de bem-estar das populações. Noutro prisma, a desconfiança está associada aos conflitos sociais, à diminuição da participação social e pública das pessoas e à falta de coesão social.

A generalização, a heurística da disponibilidade (de informação) e a desconfiança são, no actual contexto, presença permanente no comentário e debate público em Portugal e, muitas vezes, princípios-chave na reflexão sobre a criação, revisão ou regulamentação (operacionalização) de Leis. O peso que um “caso” tem na percepção de que tudo é igual, que “algo que nos aconteceu” ou que “conhecemos” tem na nossa percepção de uma situação/problema e que a desconfiança impõe, prejudicam gravemente o debate público e a construção de soluções legislativas mais simples, ágeis, responsivas e personalizadas.

Temo-lo assistido em diversas situações. Voltamos a assistir no debate em torno da proposta de alteração ao Regime Jurídico das Associações Públicas Profissionais. Muitas e muitos dos que critica(ra)m o Sr. Deputado (e bem!) pela permanente generalização e atribuição de culpas colectivas debatem as Ordens Profissionais em Portugal usando da generalização e tratando 20 Ordens muito diferentes como se tudo e todas fossem iguais. Como se Ordens com inscrição obrigatória para a prática profissional fossem semelhantes a outras sem essa obrigatoriedade. Como se Ordens com várias dezenas de milhares membros ou com várias décadas fossem iguais a outras com poucos milhares de membros ou anos de existência. Ou como se todas as Ordens tivessem estágios profissionais não remunerados, de longos anos ou não tivessem já no seu estatuto definidos processos de reconhecimento de habilitações académicas e profissionais obtidas no estrangeiro. Como se um “caso” fosse a realidade, “caso” esse público ou, por vezes, resultante de uma experiência autorreferenciada, particularmente quando para ilustrar e confirmar uma ideia, a “sua ideia”, sobre um assunto. A isto acresce ainda o princípio da desconfiança e a ideia de que as Ordens, todas as Ordens, prosseguem agendas “corporativas” não compatíveis com o “interesse público”.

Estes princípios limitam o debate público e limitaram-nos neste processo em específico. Uma revisão de Lei que pretendia a modernização do regime jurídico das Associações Públicas Profissionais, partindo de outros princípios, que apontassem mais às especificidades das diversas Ordens, que atendessem menos à “percepção” e mais à “realidade e a factos” e que se baseassem no valor da confiança, permitiriam construir mais participadas e equilibradas respostas, logo soluções melhores que beneficiariam a sociedade e o interesse público.

Permitiriam, certamente, que se reflectisse mais profundamente a mais-valia das comissões responsáveis pela avaliação dos estágios profissionais serem constituídas, também, por elementos externos à profissão, sem experiência profissional, portanto, quando estas comissões servem o exacto propósito de avaliação do desenvolvimento de competências profissionais. Ou do órgão de supervisão, agora proposto, ser constituído por “40% de membros oriundos dos estabelecimentos de ensino superior que habilitem academicamente o acesso à profissão organizada em associação pública profissional, não inscritos na associação profissional”. Daqui decorre que, nos casos como na psicologia em que as e os docentes das Universidades são na sua grande maioria profissionais da área, o leque de recrutamento destes membros será diminuto e discriminará quem, na sua actividade académica, realiza acções de prática de extensão à comunidade, realiza investigação-acção, lecciona unidades curriculares que incorporem actos psicológicos (como a avaliação psicológica) ou, simplesmente, realize prática enquanto psicóloga/o, estando por isso inscrita/o na Ordem dos Psicólogos Portugueses. Ou, noutro prisma, que tal como sucede com a/o Provedor/a agora proposto, cuja remuneração do cargo está prevista no regime jurídico, se previsse a remuneração ou, no mínimo, um regime de faltas justificadas para o órgão jurisdicional da Associação Pública Profissional. Considerando a especial complexidade da actividade e a necessidade de ser reforçada no quadro da melhoria dos processos de auto-regulação das profissões seria algo fulcral, a par da introdução de mecanismos de mediação ética para algumas situações, da manutenção do escrutínio e eleição directa e do aumento do número de membros, pontos infelizmente não plasmados no novo regime jurídico, embora propostos, algo que parece incoerente com os objectivos propagados das alterações propostas, nomeadamente no que se refere ao aumento do escrutínio e melhoria da auto-regulação das profissões.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, tal qual era e será a primeira atribuição de qualquer Associação Pública Profissional “a defesa dos interesses gerais dos destinatários dos serviços”, importa que possamos caminhar para um debate público e para processos de co-construção de Leis que se baseiem menos na generalização, nas heurísticas de disponibilidade e autorreferenciação e na desconfiança. Ao contrário, é a identificação de particularidades, os dados de qualidade e escrutínio e a confiança mútua que abre espaço ao diálogo e à cooperação, que promove solidariedade e o respeito pelas especificidades e que estimula o envolvimento cívico e político. É a confiança mútua que permite a construção de mais eficazes soluções para os mais complexos problemas.

 

Tiago Pereira

Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais

in Sábado (Ao redor…); 06.03.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/generalizacao-disponibilidade-e-desconfianca—alteracoes-ao-regime-juridico-das-ordens-profissionais

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A habitação… A habitação…

 

“É um princípio. É uma sensatez. É uma saúde.” Assim termina um texto de Miguel Esteves Cardoso sobre o debate público em curso em torno da habitação. Assim começou, também, a minha primeira intervenção na iniciativa “Os problemas da Habitação e do Arrendamento”, promovida pela Associação dos Inquilinos Lisboneses, onde debati, sob moderação da jornalista Filomena Lança, com o Francisco Louçã, o Gonçalo Antunes e a Sónia Alves.

Um princípio, considerando que a habitação (e o acesso à habitação) é hoje uma preocupação central e transversal da sociedade portuguesa, dizendo respeito a todas as pessoas e famílias, e não apenas a uma determinada faixa etária ou àquelas com rendimentos mais baixos.

Uma sensatez, considerando que as pessoas passam até 90% do seu dia em média em ambientes construídos (a maioria desse tempo em casa) e os riscos para a saúde (e saúde mental) e bem-estar associados aos lugares onde se vive.

Uma saúde, considerando a importância da previsibilidade, do controlo e da segurança para a saúde mental e bem-estar e a forma como as carências habitacionais, desde logo, e a instabilidade/precariedade habitacional impactam a saúde física e mental (particularmente questões associadas ao stresse, ansiedade e depressão), bem como penalizam processos de transição e adaptação em situações de adversidade ou aquando de acontecimentos de vida significativos.

Tal como havia referido em conversa com a @Helena Lins para uma recente reportagem da CNN Portugal, também neste debate procurei afirmar como o desafio da habitação se relaciona com outros desafios do país, nomeadamente a crise demográfica, a precariedade, pobreza e exclusão, as migrações ou, até, os significativos problemas de saúde pública associados ao isolamento/solidão e aos problemas de saúde mental. Tal qual procurei reflectir sobre como investir em habitação é, de certa forma, investir e melhorar a sustentabilidade de diversos serviços/sistemas da área da saúde, à segurança social, passando pelas áreas da educação, formação e emprego.

Ontem na Assembleia da República e hoje em Conselho de Ministros, Deputadas/os e Governo, aprova(ra)m medidas no âmbito da Habitação e do programa Mais Habitação. Que quem tem a responsabilidade de decidir o tenha em consideração e pense a habitação de forma ampla, nas suas fortes relações com a saúde (e saúde mental) e bem-estar e em como é essencial à dignidade, à possibilidade de desenvolvimento pessoal e autodeterminação das pessoas. Como é importante a uma sociedade mais coesa e de oportunidades para todas e todos.

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COVID-19 Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

13.03.2020 – 13.03.2023

Hoje passam 3 anos da criação do gabinete de crise COVID-19 da @Ordem dos Psicólogos Portugueses e da minha nomeação para seu coordenador. Hoje terminará, formalmente, o gabinete de crise COVID-19 da OPP e eu deixarei (formalmente) a sua coordenação.

Quem habitual ou ocasionalmente me lê sabe-me palavroso. Hoje, neste momento, não o serei. Quero apenas escrever, e com palavras dizer: Obrigado, obrigado, obrigado!

Ao @Francisco Miranda Rodrigues que confiou em mim e me confiou esta enorme tarefa e desafio.

À equipa, do gabinete e da OPP, incluindo todas as pessoas dos órgãos eleitos, comissões e grupos de trabalho, que, num contexto particularmente exigente, deu uma resposta excepcional, de envolvimento, de empenho e de vínculo com os valores da organização e com o seu (importante) papel social e de especial interesse público num momento de grave crise.

A quem, desapegadamente, se envolveu na actividade e no contributo da OPP ao longo da pandemia, particularmente nos momentos mais críticos. Foram centenas de psicólogas e psicólogos (e não apenas) e jamais esquecerei alguns dos muitos telefonemas que recebi, particularmente nos primeiros dias, com tantas e tantos colegas a disponibilizarem-se para o que pudesse ser necessário naquele momento.

Foram cometidos erros, certamente. Cometi erros, certamente. Mas orgulho-me, orgulho-me, orgulho-me.

Orgulho-me do contributo no período de pandemia, primeiro, das psicólogas e dos psicólogos a partir dos seus contextos de trabalho, por vezes com e em condições particularmente difíceis. Orgulho-me do contributo da OPP e da forma como, mantendo a sua actividade e as suas atribuições, procurou apoiar as pessoas, as famílias e o país (e não apenas). Finalmente, permitam-me, orgulho-me do meu próprio contributo naquele que foi, também certamente, o meu maior desafio profissional até hoje.

Orgulho-me, muito, muito, muito.

Agradeço, muito, muito, muito.

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Desbloquear o acesso bloqueado (Newsletter OPP)

Há três anos confirmavam-se os primeiros casos de infecção por COVID-19 em Portugal. Sabíamos, por essa altura, que algo muito significativo aí viria. Não sabíamos, porém, toda a dimensão e todas as implicações da pandemia. “Adivinhar o futuro é muito duro, é muito duro”, assim começa a canção “Acesso bloqueado”.

Chegamos a 2020 com marcas significativas dos atrasos de desenvolvimento económico, social e educacional da população portuguesa, em muito resultantes da ainda não total recuperação de indicadores que trazíamos do período do Estado Novo. Também muito penalizados pela grave crise socioeconómica que culminou e se desenvolveu a par do último programa de assistência financeira a Portugal e do não investimento na saúde mental, com o total incumprimento do Programa Nacional de 2007. Marcas que redundavam num baixo nível de literacia em saúde mental, num significativo sofrimento psicológico e num conjunto de determinantes sociais que pressionavam a saúde e saúde mental da população que, conjugadas com enormes dificuldades (e iniquidades) de acesso a serviços de Psicologia e saúde mental, faziam de Portugal um dos países da Europa com maior prevalência de perturbações nesta área e com maior consumo per capita de psicofármacos.

Os últimos três anos trouxeram algumas alterações. Conversar sobre saúde mental naturalizou-se, tal a relevância social do tema hoje. O estigma é, também por isso, menor e, ainda que possamos e devamos continuar a melhorar a literacia em saúde psicológica (também neste sentido lançaremos brevemente a campanha “Ciência com Evidência”), a expectativa de resposta às necessidades terá aumentado, particularmente, na população mais jovem. Há hoje mais respostas, e mais respostas públicas disponíveis, nomeadamente com o retomar do Cuida-te + (população jovem), com a criação da Resposta de Apoio Psicológico (vítimas de violência doméstica), com o crescimento significativo de psicólogas e psicólogos no Sistema Educativo e, não tão significativo, nas Autarquias, Empresas e Organizações ou nos Centros Hospitalares.

Mais, há hoje um caminho integração e consideração da Psicologia pelas principais seguradoras, iniciado em 2021 pela que tem a maior cobertura e continuado este ano pela segunda maior. Ambas, em colaboração com a Ordem dos Psicólogos Portugueses, desenvolveram modelos compreensivos que consideram, também, as dimensões de prevenção e promoção da saúde mental e actos nas diversas áreas de actividade da Psicologia, quer via reembolso directo aos clientes que procuram psicólogas/os fora da rede ou com preços de rede, com uma das seguradoras a diferenciar já os montantes de pagamento a psicólogas/os especialistas, valorizando-os.

Há, finalmente, uma resposta ímpar, inclusivamente na realidade internacional. O serviço de aconselhamento psicológico do SNS24 que permite, sem barreiras e 24h por dia / 7 dias por semana, o acesso a aconselhamento psicológico gratuito, realizando desde Abril de 2020 cerca de 210.000 atendimentos.

210.000 atendimentos, serviços “cheios” e listas de espera, a contrariar a “ideia zombie” de que é o estigma, e não a inacessibilidade, que impede as pessoas de procurarem apoio. Porque, em rigor, a inacessibilidade persiste. Apesar do atrás referido, e apesar das psicólogas e psicólogos reportarem aumento da quantidade de trabalho, o aprofundamento do sofrimento psicológico, o agravamento dos determinantes sociais com a pandemia, a Guerra ou a crise da inflação e a crescente procura de serviços, não acompanhada pelo reforço significativo de recursos em todas as áreas e, especialmente, nos cuidados de saúde primários, resultam em dificuldades graves de acesso a serviços de Psicologia por parte da população. Dificuldades de acesso e desigualdade no acesso, considerando as iniquidades decorrentes de parte da população não ter recursos que possibilitem priorizar a saúde mental e procurar serviços não públicos nesta área.

Continuaremos, consigo que dia a dia constrói a Psicologia a partir do seu trabalho no seu contexto, a advogar e a contribuir para o progressivo desbloquear deste acesso bloqueado. Reforçamos, pois, o nosso compromisso e empenho por mais equipas e serviços de Psicologia, mais contingentes, capacitados, empoderados e com mais recursos. Mais eficazes, equitativos e acessíveis para todas e todos os cidadãos.

 

Tiago Pereira

Desbloquear o acesso bloqueado

in Newsletter Ordem dos Psicólogos Portugueses (02.03.2023)

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Faz bem à saúde [Podcast]

“Desbloquear o acesso bloqueado”. Assim se intitulava uma recente newsletter, por mim assinada, que aqui partilharei integralmente no próximo Sábado. Procura pensar, em sete rápidos parágrafos, como chegamos à pandemia, o que sucedeu no período da pandemia e o que tem acontecido nos últimos e podemos esperar nos próximos meses relativamente à saúde mental em Portugal e ao acesso (e equidade de acesso) da população a serviços e profissionais nesta área.

Foi enviada quando passavam 3 anos após a confirmação dos primeiros casos de infecção por COVID-19 em Portugal. Desse momento para cá, persistindo problemas significativos de acesso e significativas iniquidades no acesso, há duas novas, distintas e importantes respostas nesta área. O serviço de aconselhamento psicológico do SNS24 que permite, sem barreiras e 24h por dia / 7 dias por semana, o acesso a aconselhamento psicológico gratuito e que conta já cerca de 210.000 atendimentos. O caminho de integração e consideração da Psicologia pelas principais seguradoras, iniciado em 2021 pela que tem a maior cobertura no país e continuado em Fevereiro último pela segunda maior. Ambas, em colaboração com a @Ordem dos Psicólogos Portugueses, desenvolveram modelos compreensivos que consideram, também, as dimensões de prevenção e promoção da saúde mental e actos nas diversas áreas de actividade da Psicologia e das psicólogas/os, quer via reembolso directo aos clientes que as/os procuram fora da rede ou com preços de rede, com uma das seguradoras a diferenciar já os montantes de pagamento a psicólogas/os especialistas, valorizando-os.

No âmbito das iniciativas de lançamento desta nova cobertura, junto com a Patrícia Figueiredo, gravei um episódio do podcast “Faz bem à saúde” em torno da temática “Doença mental: conhecer e prevenir”. No episódio, abordamos o contínuo saúde–doença mental e questões em torno da literacia, autocuidado e promoção da saúde mental e da prevenção e intervenção na doença mental, incluindo questões associadas ao acesso e ao papel e agência de cada pessoa nestas matérias, quer relativamente a si, quer relativamente às pessoas próximas de si.

Como terminava a newsletter, é fundamental “avogar e contribuir para o progressivo desbloquear deste acesso bloqueado”. Um advogar que terá tanta mais força e será tão mais sucedido quantas mais pessoas nele participem.

Dizia, ainda e finalmente, que “reforçamos o nosso compromisso e empenho por mais equipas e serviços de Psicologia, mais contingentes, capacitados, empoderados e com mais recursos. Mais eficazes, equitativos e acessíveis para todas e todos os cidadãos.”