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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia

Benefícios e limites do autocuidado (Ao redor…; 17.04.2023)

Se trabalhou hoje, teve uma “segunda-feira mínima”? Num tempo onde corremos a nomear fenómenos, as “bare minimum mondays” [segundas-feiras mínimas] correspondem a uma escolha consciente por um primeiro dia de semana de trabalho mais tranquilo, focado em actividades prazerosas e no bem-estar. Visam prevenir um significativo e desproporcional dispêndio de energia e a exposição a situações de maior stresse, melhorando, assim, o tempo de descanso anterior, pela não antecipação de uma transição brusca entre o momento de lazer e de trabalho. Uma escolha consciente, mas… possível para todas as pessoas que trabalham?

Não, sabemos que não. Não existem semelhantes possibilidades de “segundas-feiras mínimas”, nem semelhantes possibilidades de autocuidado no geral.

O autocuidado corresponde ao conjunto de actividades que, também conscientemente e com mínima regularidade, escolhemos realizar e que impactam de forma positiva o nosso bem-estar e saúde, incluindo a saúde mental. Sendo sempre e para todas as pessoas relevante, assume especial importância em momentos de maior desafio ou crise pessoal/colectiva ou de vulnerabilidade e corresponde a diferentes acções e actividades, que variam de pessoa para pessoa ou, na mesma pessoa, em diferentes momentos. Esta relevância decorre dos cientificamente documentados benefícios da sua prática regular na prevenção de problemas de saúde mental, de problemas profissionais e laborais, incluindo stresse e burnout, e na promoção do bem-estar.

Sabemo-lo, mas sabemos mais. Sabemos que o autocuidado não é acessível de igual forma a todas as pessoas, dependendo da informação/conhecimento da sua importância e relevância. Ainda, da motivação que colocamos nas acções, mas, principalmente, do empoderamento, oportunidade e das condições de (des)igualdade que temos para as concretizar. Ou seja, de termos ou não recursos, internos e externos, e meios para cuidarmos de nós ou, noutro sentido, dos obstáculos que enfrentamos sejam, por exemplo, a falta de tempo ou de pessoas com quem o partilhar.

Neste sentido é fundamental que, à sua importância, não deixemos corresponderem processos de (auto)culpabilização, pela dificuldade de algumas pessoas se mobilizarem ou concretizarem comportamentos e estratégias de autocuidado. É colectiva a responsabilidade de não acrescentarmos novos factores de stresse decorrentes da impossibilidade de priorizar e realizar estas acções, a factores de stresse por vezes já significativos. Como é, considerando o papel do autocuidado na prevenção de doenças, acidentes ou erros e no bem-estar, não deixarmos que seja, apenas, responsabilidade individual, algo potencialmente penalizador e estigmatizante de pessoas com vivências complexas e exigentes e/ou em situação de maior vulnerabilidade, também, mas não apenas, nas dimensões emocionais ou psicológicas. O autocuidado não depende apenas da nossa vontade e querer. Sobretudo nestas situações, não conseguir priorizar/praticar o autocuidado não significa incapacidade, preguiça, falta de carácter ou compromisso.

O autocuidado, como a autoajuda, não pode, portanto, ser apenas uma indústria em forte expansão, particularmente quando as condições para a sua prática são tão desiguais. Sendo temática preponderante das redes sociais e presença constante na comunicação social, é essencial atender às suas limitações e impactos, não apenas positivos, no presente e futuro das pessoas. Da sobrecarga ou bloqueios que também podem resultar de acrescentar a necessidade de cuidarmos de nós em situações particularmente difíceis, aos problemas decorrentes de eventuais compras ou gastos associados ao autocuidado no presente, que podem gerar maior stresse e/ou ansiedade e incerteza financeira no futuro, às consequências profissionais ou relacionais de uma eventual excessiva centralização nestas actividades. Neste sentido, o autocuidado deve ser promovido, de forma próxima, personalizada e responsiva aos valores e condições de vida de cada pessoa, também e especialmente junto de pessoas em situação de pobreza, exclusão ou vulnerabilidade, respeitando circunstâncias e ambientes próprios e procurando a sua naturalização na vida de cada pessoa.

Mais, o autocuidado não pode, ainda, ser uma panaceia. Também porque não responde a tudo e, principalmente a todos os problemas de saúde mental. Deve, assim, ser considerado e integrado junto com mecanismos de autoajuda mediados por profissionais e de mecanismos de apoio, suporte e acompanhamento psicológico estruturado quando e se necessário, numa resposta de cuidados diferenciados em saúde, particularmente na abordagem a problemas de saúde mental mais comuns como a ansiedade e a depressão. Há experiências estruturadas e estudadas desta tipologia de cuidados, desde logo no Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, que comprovam a possibilidade de alcançar e responder a mais pessoas e sustentam a adequação destas intervenções. Também neste contexto, está a ser utilizada, com sucesso, a “prescrição social ou cultural” nos cuidados de saúde, ou seja, a “prescrição” pelo aconselhamento e apoio nesse sentido, de actividades sociais, como a pertença a um grupo de caminhadas ou de dança, e culturais, como a visita a um museu ou a participação num clube de leitura. Actividades ajustadas à pessoa e ao seu contexto e tendentes à promoção do autocuidado e bem-estar e ao reforço das suas relações na comunidade, particularmente dirigidas a pessoas com problemas de saúde mental comuns e/ou em situações de exclusão, isolamento ou solidão.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, temos de reflectir sobre o impacto da excessiva responsabilização individual pelos problemas e pelas formas de os solucionar, bem como sobre a ausência de equidade no acesso a apoios estruturados baseados na melhor evidência. Na contracapa da última edição de uma revista que habitualmente leio, surge um anúncio de um carro eléctrico cujo preço base ascende a mais de 80.000€ com a sugestiva frase: “O progresso é uma questão de carácter”. Antes a pobreza como “traço de personalidade”, agora o (potente) carro eléctrico como “questão de carácter” e o autocuidado como “chave-mestra para todas as portas”. Não me compreendam mal, a promoção do autocuidado é fundamental e este tem um papel importantíssimo na saúde e bem-estar. Mas, internalizar excessivamente problemas, responsabilizar totalmente as pessoas pelo seu comportamento e estilo de vida e contribuir para uma positividade tóxica, além de não ter suporte na evidência e factualidade, não respeita as pessoas e as suas diferenças. Não aponta à promoção do autocuidado, do bem-estar e à exigência colectiva que devemos prosseguir de serem desenvolvidas e ser garantida a equidade de acesso a respostas diferenciadas, estruturadas e baseadas na evidência para a promoção da saúde mental.

 

Tiago Pereira

Benefícios e limites do autocuidado

in Sábado (Ao redor…); 17.04.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/beneficios-e-limites-do-autocuidado

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Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia Tomada de Decisão

Saúde (mental), bem-estar e ESG nas Organizações

Tal qual hoje pensamos duas vezes na compra de um produto que sabemos poder ter sido produzido recorrendo a trabalho infantil… Ou pensamos duas vezes na compra de algo que sabemos não haver cuidado de aspectos relacionados com o meio ambiente… Creio que passaremos a pensar duas vezes antes de comprar um produto ou serviço a uma organização que não cuide da saúde e bem-estar das e dos trabalhadores.

Este pressuposto, a par da visão das pessoas como vector de sustentabilidade e da possibilidade de adaptação a mudanças e crises, suportaram as minhas intervenções no debate “O papel das empresas como promotores de saúde mental e na prevenção da saúde”, integrado na “ESG Week”, iniciativa da APEE – Associação Portuguesa de Ética Empresarial, que debateu a Sustentabilidade a partir domínio “Environmental, Social e Governance”.

No debate (após 23m40s), promovido pela Fidelidade/Multicare, junto com o Alexandre Nilo Fonseca, o Daniel Riscado e o Frederico Fezas-Vital e com a moderadora Inês Pimenta de Castro (a quem agradeço a confiança e o convite), procurei:

. reforçar a importância (mas também os limites) das organizações promoverem a saúde mental e bem-estar de trabalhadoras/es, não se substituindo às respostas nesta área que devem existir, ser reforçadas e assentarem na equidade de acesso e na melhor evidência de eficácia nos âmbitos clínicos e de saúde;

. sublinhar a importância de, como hoje se usa da melhor ciência em diversas áreas, se faça uso também da melhor ciência comportamental e psicológica nas organizações, tendo ou recorrendo a profissionais especializadas/os, a iniciativas baseadas na evidência, a instrumentos de avaliação validados e ao desenvolvimento de culturas de organização que façam destes valores centrais e estruturais de toda a organização, incluindo lideranças;

. pensar as mais valias que daqui decorrem, quer do ponto de vista da produtividade e prosperidade (da organização e do país), quer da capacidade de inovação e criatividade, a partir da criação de ambientes inclusivos e com segurança psicológica;

. sublinhar a importância de falarmos em promoção do bem-estar e não da felicidade e de ser fundamental que as organizações sejam capazes de acolher as pessoas em momentos mais e menos felizes;

. ainda, como devemos atender a vulnerabilidades e a iniquidades nas transições (desde logo na digital), as mais-valias e os desafios que se colocam na digitalização na área da psicologia e como, para sermos consequentes, devemos repensar a utilização de conceitos como a telemedicina ou a medicina online, avançando para telesaúde e saúde online, que incluindo, vão além da telemedicina e medicina online e apontam à promoção e prevenção.

Em suma, procurei sustentar o quão fundamental é considerar as pessoas, o seu valor, a sua saúde e bem-estar e o seu envolvimento/alinhamento com a organização na sua sustentabilidade e como isso pode e deve ser avaliado e valorado.

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Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política

25.4.

O 25 de Abril é, para mim (mas creio para muitas pessoas), um conjunto de valores fundamentais e estruturantes que também vivem das imagens, dos sons e das letras que o fizeram e fazem, ano após ano.

A iconografia da data é extraordinária e escolho, para este pequeno texto, a pintura de Maria Helena Vieira da Silva que assinalou o 10º aniversário do 25 de Abril, o meu primeiro em vida. Chama-se “Liberdade” e deambula em volta da ideia da árvore (vida), dos seus frutos e da pluralidade das letras que no seu conjunto formam a palavra liberdade.

Evoco-a pelo simbolismo e pelo que representa, hoje, num tempo em que se enfraquecem, por vezes intencionalmente, mediadoras/es sociais, particularmente as/os jornalistas e a capacidade de vermos (intuirmos, percebermos, sentirmos) o todo perante o caso, o contexto e não apenas o exemplo, a palavra e não apenas a letra.

Os sons da data são também extraordinários e escolho a lembrança de ouvir Joaquim Furtado a ler o primeiro comunicado do MFA então às 04.00 daquela madrugada de 25 de Abril de 1974. “Aqui posto de comando (…) Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal para o que apelamos para o bom senso (…) Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo.”

Evoco-o pelo simbolismo e pelo que representa, hoje, num tempo em que se polarizam, por vezes intencionalmente, as posições, empolando divisões e confrontos, transformando adversários em inimigos, fazendo do medo, do ódio e do ressentimento móbil para a tomada de decisão, acção e comportamento. Num tempo onde o bom senso sucumbe à voracidade da informação/comunicação. Também, por isto, a confiança, a ciência, a factualidade, a empatia e o cuidado com as outras e outros é tão fundamental e um jornalismo construtivo urgente, conforme defendido/promovido pela Margarida Alpuim e Prof. Dr. Katja Ehrenberg no projecto “Psychology for Journalists” (aqui o 3º texto sobre o sentido de comunidade e polarização).

As letras da data são também extraordinárias e escolho a “Inquietação” do José Mário Branco que, sem saber e querer, me e nos deu “duas datas extra em Abril”, uma a partir de 2010, outra de 2013. “Cá dentro inquietação, inquietação; É só inquietação, inquietação; Porquê, não sei; Porquê, não sei; Porquê, não sei ainda | Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer; Qualquer coisa que eu devia perceber; Porquê, não sei; Porquê, não sei; Porquê, não sei ainda.”

Evoco-a pelo simbolismo e pelo que representa, hoje, num tempo que me inquieta. Que todas e todos, também com e pelo jornalismo e outras/os mediadoras/es, vivamos os valores para que tenhamos e geremos mais oportunidades de nos cumprirmos. De cumprirmos a possibilidade de liberdade para todas e todos.

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Columbine, 24 anos…

Elephant. Filme de Gus Van Sant, (parcialmente) baseado no massacre na Escola de Columbine, sobre o qual passaram 24 anos ontem. Quem, como eu, frequentava à época uma Escola como a de Columbine não esquece(rá) o massacre. Quem, como eu, vive o cinema, não esquece(rá) o filme, extraordinário. Quem, como eu, gosta de metáforas, do simbólico, de pormenores, não esquece(rá) a associação, via título e forma do filme, entre um assunto particularmente difícil e complexo (a realidade dos tiroteios nas Escolas nos EUA e a violência no geral) e a “parábola do(s) cego(s) e do elefante”, onde cada pessoa consegue descrever uma parte do objecto/fenómeno, mas ninguém consegue percepcioná-lo na sua totalidade e integridade.

Ontem, não por acaso quando passavam 24 anos de Columbine, acordamos com a discussão pública via comunicação social de um assunto antes em discussão privada (em grupos de mensagens) e pública, mas via redes sociais. Falo da “apelidada” ameaça de massacre em Escolas em Portugal, propagada e reproduzida via uma mensagem numa rede social e ao longo do dia classificada pelas autoridades como “brincadeira de mau gosto”, conforme aliás o título desta peça da SIC, na qual tenho um pequeno contributo/participação.

A peça abriu ontem o Jornal da Tarde, considerando algum alarme com a situação e procurando garantir informação sobre um fenómeno complexo, com diversas partes. O medo e como, enquanto emoção, influencia a nossa tomada de decisão e comportamento. O desconforto associado à imprevisibilidade, insegurança e falta de controlo, particularmente quando se trata de crianças e jovens, e a necessidade de procurarmos controlo e previsibilidade. A forma como a informação se propaga, se reproduz, se “refina” (ganhando pormenores e exemplos) via redes sociais, particularmente a que “joga” com emoções como o ódio, a raiva e o medo. Também, a forma como o viés da negatividade nos influencia para darmos mais atenção a eventos/acontecimentos negativos e, portanto, os considerarmos mais prováveis/possíveis.

Mais, a forma como em ambientes digitais mais despersonalizados, anonimamente ou não, pessoas (e pessoas mais jovens) são capazes de comportamentos que noutros contextos não existiriam, como forma de afirmação e/ou chamada de atenção. Ainda, a importância da literacia digital e da boa informação ocupar o espaço potencial da má ou da desinformação, particularmente quando a boa informação provém de mediadores/referências, como a comunicação social, personalidades públicas e autoridades que devem, como aconteceu, sem alarme, mas sem complacência, atender a estes fenómenos e procurar garantir o possível controlo e segurança.

Um elefante, portanto. Complexo, cheio de partes, ângulos, pormenores, difícil de descrever na sua totalidade e integridade e, até por isso, a necessitar que todos o olhemos, pensemos e previnamos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia

Benefícios e limites do autocuidado

“Na contracapa da última edição de uma revista que habitualmente leio, surge um anúncio de um carro eléctrico cujo preço base ascende a mais de 80.000€ com a sugestiva frase: “O progresso é uma questão de carácter”.

“Antes a pobreza como “traço de personalidade”, agora o (potente) carro eléctrico como “questão de carácter” e o autocuidado como “chave-mestra para todas as portas”. Não me compreendam mal, a promoção do autocuidado é fundamental e este tem um papel importantíssimo na saúde e bem-estar. Mas, internalizar excessivamente problemas, responsabilizar totalmente as pessoas pelo seu comportamento e estilo de vida e contribuir para uma positividade tóxica, além de não ter suporte na evidência e factualidade, não respeita as pessoas e as suas diferenças. Não aponta à promoção do autocuidado, do bem-estar e à exigência colectiva que devemos prosseguir de serem desenvolvidas e ser garantida a equidade de acesso a respostas diferenciadas, estruturadas e baseadas na evidência para a promoção da saúde mental.”

“Benefícios e limites do autocuidado”, 56º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) assim termina. Trata o autocuidado, ou seja, “o conjunto de actividades que, também conscientemente e com mínima regularidade, escolhemos realizar e que impactam de forma positiva o nosso bem-estar e saúde, incluindo a saúde mental.” Autocuidado que “não é acessível de igual forma a todas as pessoas, dependendo da informação/conhecimento da sua importância e relevância, da motivação que colocamos nas acções, mas, principalmente, do empoderamento, oportunidade e das condições de (des)igualdade que temos para as concretizar. Ou seja, de termos ou não recursos, internos e externos, e meios para cuidarmos de nós.”

“É fundamental que, à sua importância, não deixemos corresponderem processos de (auto)culpabilização, pela dificuldade de algumas pessoas se mobilizarem ou concretizarem comportamentos e estratégias de autocuidado (…) não conseguir priorizar/praticar o autocuidado não significa incapacidade, preguiça, falta de carácter ou compromisso.”

“O autocuidado, como a autoajuda, não pode, portanto, ser apenas uma indústria em forte expansão, particularmente quando as condições para a sua prática são tão desiguais (…) devendo “ser promovido, de forma próxima, personalizada e responsiva aos valores e condições de vida de cada pessoa, também e especialmente junto de pessoas em situação de pobreza, exclusão ou vulnerabilidade, respeitando circunstâncias e ambientes próprios e procurando a sua naturalização na vida de cada pessoa.”

“Não pode, ainda, ser uma panaceia. Também porque não responde a tudo e, principalmente a todos os problemas de saúde mental. Deve, assim, ser considerado e integrado junto com mecanismos de autoajuda mediados por profissionais, da [prescrição social e cultural] e de mecanismos de apoio, suporte e acompanhamento psicológico estruturado quando e se necessário, numa resposta de cuidados diferenciados em saúde.”

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Habitação, Saúde e Bem-estar e Democracia (Ao redor…; 03.04.2023)

Estávamos sensivelmente a meio de Fevereiro e um texto de Miguel Esteves Cardoso terminava com um “É um princípio. É uma sensatez. É uma saúde.” O artigo tratava as questões da habitação e, independentemente do expresso no texto, ouso usar deste final porque, efectivamente…

É um princípio. Considerando que o acesso à habitação é, hoje, uma preocupação central e transversal da sociedade portuguesa, da população mais jovem à menos jovem e não apenas das pessoas e famílias com menores rendimentos. Considerando, também, a relação da crise na habitação com outros importantes desafios do país, que vão desde a crise demográfica e de natalidade à dificuldade de colocação de diferentes profissionais ou fixação de populações em algumas cidades, das migrações à saúde mental, do ensino superior aos problemas da solidão e do isolamento. É um princípio, fundamental, ampliarmos a relevância do tema na sociedade e mobilizarmos participação cívica e contributos da sociedade civil e compromissos de decisores sobre as dificuldades e desafios nesta matéria.

É uma sensatez. Se passamos 80 a 90% dos nossos dias (e, portanto, da nossa vida) em ambientes construídos, maioritariamente na nossa habitação. Se as pessoas em situação de maior vulnerabilidade passam uma percentagem ainda mais significativa do seu tempo nestes ambientes e se, alterações recentes nos modelos de trabalho, com a maior generalização de modelos de teletrabalho ou híbridos, poderão ainda aumentar estas percentagens de tempo. Se a habitação (e as suas condições) é, na maioria dos índices, um dos factores principais na análise do bem-estar das pessoas e dos países e se o sentimento de pertença, a privacidade, a segurança e identidade e mesmo o suporte social são essenciais à nossa qualidade de vida. Se as dificuldades no acesso à habitação fazem com que sejamos um dos países da Europa onde a população mais jovem mais tarde sai de casa, onde existem significativos tempos de percurso médio casa-trabalho e trabalho-casa. Se existe um número significativo de pessoas em situação de sem abrigo, de casas com más condições de habitabilidade e de pessoas em situação de instabilidade / precariedade habitacional. Se muitas pessoas vivem com pessoas desconhecidas ou com quem preferiram não viver (por exemplo, depois de terminadas relações ou mesmo uniões de facto ou casamentos), é uma sensatez debatermos o assunto na sociedade e, particularmente, encontrar e co-construir soluções eficazes para os problemas e desafios que se nos colocam.

É uma saúde. Quando sabemos da cada vez mais significativa evidência existente, que as más condições habitacionais aumentam consideravelmente a probabilidade de mortalidade precoce a níveis próximos de doenças como a hipertensão ou a obesidade e que, muitas vezes, estas habitações se encontram em zonas ou bairros com condições precárias, às quais se associam questões como a poluição, carências de infraestruturas e acesso, maior exposição a frio e calor e até a stresse e outros mecanismos psicológicos associados a sentimentos de marginalização ou insegurança. Quando sabemos que “proprietárias/os” de habitações têm maior sensação de controlo, previsibilidade e segurança, essenciais à saúde mental e bem-estar, face a arrendatárias/os e, particularmente, a quem sofre de instabilidade habitacional. Quando sabemos que a precariedade habitacional, com a pressão dos valores das rendas, ausência de controlo e impossibilidade de personalização da casa-lar, estão relacionados com problemas de stresse, ansiedade e depressão. Quanto a habitação periga a adaptação adequada e protectora a transformações de vida, quer seja a chegada de um/a filho/a, quer seja um divórcio ou a perda de mobilidade/autonomia e, quando a tudo isto, se somam o estigma social e o aumento de conflitos potenciais por ausência de privacidade em algumas casas ou de maior dificuldade de conciliação da vida pessoal e profissional, é uma saúde pensarmos em mais e melhores políticas que possibilitem mais e melhores condições de habitação para todas as pessoas, especialmente aquelas que estão em situação de vulnerabilidade ou em momentos mais sensíveis das suas vidas.

Por tudo isto é tão relevante que o debate que decorre na sociedade seja, antes de mais, mais cientificamente informado, incluindo pela ciência psicológica, e que proporcione mais insight e literacia nas áreas da saúde e financeira à sociedade civil, além de informação e agência em torno destes temas, da complexidade dos mesmos e do facto de impactarem todas as pessoas e a sociedade como um todo. Depois, que se reforcem e complementem outros programas existentes de recuperação e reparação do edificado, minimizando os diversos constrangimentos que hoje impactam a saúde e que se criem condições para, mais contingentemente, apoiar pessoas e famílias, particularmente também quando em processos de transição. Ainda que visem a criação de condições, e também se necessário de apoios mais substanciais e sustentados, ao acesso à “habitação inicial” para a população mais jovem e um estímulo a mais soluções que se adaptem a novas necessidades de maior alteração, mobilidade e migração (incluindo interna), nomeadamente de co-living (viver “conjuntamente”) e co-working (trabalhar “conjuntamente”). Ainda que, se associem medidas na área da habitação à promoção de competências transversais nas pessoas e, quando necessário, de suporte emocional e apoio psicológico, permitindo maior resiliência em períodos de maior incerteza e instabilidade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, “é um princípio, é uma sensatez, é uma saúde” discutir como podemos ter mais, melhor, mais acessível, previsível e segura habitação. Desenhar um bom plano e concretizar medidas eficazes nesse sentido proporcionará mais saúde, quer física, quer reforçará um importante factor protector da saúde mental. Proporcionará, logo, mais possibilidade de bem-estar e qualidade de vida. Proporcionará, finalmente, e pela intersecção de desafios diversos da sociedade portuguesa com o problema e a crise da habitação, mais confiança na democracia, porquanto será o Estado e a sociedade a responder às principais dificuldades e preocupações da população. Investir na habitação é mais que investir no edificado. É e será investir nas pessoas e nas famílias, no nosso Serviço Nacional de Saúde, na nossa Segurança Social, na nossa Economia. É e será investir na equidade, na coesão social, na Democracia e, portanto, no nosso futuro.

 

Tiago Pereira

Habitação, Saúde e Bem-estar e Democracia

in Sábado (Ao redor…); 03.04.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/habitacao-saude-e-bem-estar-e-democracia

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Desafios da Psicologia Psicologia

13.04.13/23

Porque… Hoje é um dia especial.

Porque… Esta hora é uma hora especial, desse dia especial.

Porque… Muito mudou mas muito mais se complementou, não sem desafios é certo, mas com muita partilha e muito propósito.

Porque… Como dizia há 3 semanas, nas Jornadas de Jovens Investigadores da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa (obrigado Madalena Ricoca-Peixoto e a toda a equipa pela confiança e pelo convite), devemos, olhando para o futuro e para os enormes desafios que nos esperam, atender ao que Fernado Pessoa (enquanto Bernardo Soares) nos estimulava há já cerca de 100 anos: “Esse cientista de depois de amanhã terá um escrúpulo especial pela sua própria vida interior.”

Porque… Fazê-lo é, também, celebrar momentos especiais.

Porque… Fazê-lo é, também, expressar (além de nos “permitirmos” sentir) gratidão (neste caso enorme).

 Obrigado por este caminho. Por esta vida.

Afinal… (e a Natalia Ginzburg escreveu-o)

“O amor pela vida, gera amor pela vida.”

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Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

O Psicólogo Responde – Existe uma relação entre ter baixos recursos financeiros e a saúde mental? (CNN Portugal; 05.03.2023)

Existe uma relação entre ter baixos recursos financeiros

e a saúde mental?

Sim, existe e devemos ser totalmente claros na resposta a esta importante pergunta. Viver em situação de pobreza e de exclusão, tantas vezes a ela associada, é um dos principais determinantes de doença, incluindo doenças mentais. Nesse sentido, a vulnerabilidade económica provoca stresse e sofrimento psicológico e afecta a saúde mental e o bem-estar.

Esta associação, que intuímos nas nossas relações e no nosso dia-a-dia, está hoje amplamente documentada por investigação que, inclusivamente, estuda impactos ao longo da vida e não apenas no presente. É por isso possível afirmar que o bem-estar financeiro, ou seja, a percepção de que temos condições materiais para satisfazer as principais necessidades e cumprir as principais aspirações, é um importantíssimo indicador de bem-estar. Já a sua ausência associa-se a problemas de saúde mental como a ansiedade, a depressão, o stresse, o uso abusivo de substâncias, problemas de sono e alimentares ou o isolamento.

Ter baixos recursos financeiros está também ligado a níveis menores de literacia em saúde mental. Resulta, também, em maior dificuldade em ter tempos de descanso, actividade física ou de lazer e, portanto, em menos oportunidades de autocuidado. Quem vive com dificuldades económicas tende a ter maior impulsividade, mais dificuldade em planear o futuro e a cometer mais erros, porque da escassez de recursos resulta um efeito túnel (concentração quase exclusiva numa necessidade premente que pode ser, por exemplo, o pagamento de uma conta, de uma dívida ou de uma renda) e, logo, menor disponibilidade emocional e cognitiva para a tomada de decisões e para a gestão do dia-a-dia.

Não se podendo dizer que viver em situação de vulnerabilidade económica resulta automaticamente no desenvolvimento de doença mental, importa ter presente que esta condição é um factor de risco. Como é, até, um dos factores de risco de suicídio.

Importa, porém, sublinhar que esta relação não é unidireccional, antes bidireccional. Ou seja, conforme a vulnerabilidade económica pode potenciar problemas de saúde mental, também problemas de saúde mental, como o stresse, a ansiedade ou a depressão, podem conduzir a uma maior probabilidade de se viverem situações de precariedade, desemprego ou pobreza. Nesse sentido, devemos ter presente a existência de uma relação cíclica entre estas duas dimensões de vida das pessoas. Quando uma piora a probabilidade da outra piorar aumenta.

Imaginemos uma corrida com outra pessoa e com diferentes séries em que se chegarmos em primeiro, partimos 100 metros mais à frente e se chegarmos em segundo 100 metros mais atrás. Imaginemos ainda alguém que parte atrás e perde a primeira série. Na série seguinte parte ainda mais atrás e a probabilidade de perder aumenta, aumentando também a possibilidade de na série a seguir partir ainda mais atrás e de voltar a perder. É um pouco assim com este ciclo dado que é ainda mais difícil a quem vive com vulnerabilidades económicas recuperar de um problema de saúde mental e a quem vive com problemas de saúde mental sair de uma situação de vulnerabilidade económica.

É por tudo isto que investir na promoção da saúde e da saúde mental também é garantir um mais eficaz combate à pobreza e à exclusão.

Sugestões:

Se vive em situação de pobreza ou de exclusão recuse, activamente, sentir-se (ou que o façam sentir) culpado por essa circunstância. A pobreza não resulta, na grande maioria das situações, de erros ou falhas pessoais, mas de circunstâncias sociais que a determinam.

Partilhe as suas preocupações e sentimentos. Partilhar as nossas preocupações com alguém em quem confiemos, incluindo as financeiras, pode fazer-nos sentir menos sós, mais apoiados e, até, ajudar-nos a encontrar novas estratégias e formas de resolução de problemas ou a lidar melhor com as nossas preocupações e sentimentos.

A pobreza, colocando em perigo maioritariamente a saúde e bem-estar das pessoas que a vivem, afecta todas pessoas, venham ou não a viver nessa condição, pelo que o seu combate deve ser abraçado por todas as pessoas.

Se estiver numa situação em que sente que necessita de apoio psicológico solicite-o junto do centro de saúde ou da unidade de saúde mais próxima de si. Pode, também, em situação de crise, contactar o serviço de aconselhamento psicológica do SNS24 (808 24 24 24) a qualquer hora e em qualquer dia da semana (chamada gratuita) e em situação de emergência o INEM (112).

 

Tiago Pereira

O Psicólogo Responde – Existe uma relação entre ter baixos recursos financeiros e a saúde mental?

CNN Portugal; 05.03.2023

https://cnnportugal.iol.pt/dossier/o-psicologo-responde-existe-uma-relacao-entre-ter-baixos-recursos-financeiros-e-a-saude-mental/64009f010cf2cf9224fb8645

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o medo persistente de que o declínio seja inevitável…

Temos de nos mobilizar contra o “medo persistente de que o declínio seja inevitável e da próxima geração ter que diminuir as suas aspirações”. Assim o disse Obama, no seu discurso de tomada de posse para o seu primeiro mandato, em Janeiro de 2009.

Era, apesar de tudo, um Mundo diferente do de hoje. Mas este receio pairava nos EUA. Pairava numa parte significativa do Mundo. Receio que, ao invés de haver diminuído, provavelmente se agudizou com os desafios que se colocaram aos países e ao Mundo no período que dista daquele discurso a hoje, mais particularmente nesta terceira década deste nosso século XXI.

Por cá estávamos entre a publicação da Lei que criara a Ordem dos Psicólogos Portugueses em 4 de Setembro de 2008 e a nomeação da sua comissão instaladora que aconteceria, apenas, em Abril de 2009. Com ela, e com o contributo de tantas e tantos psicólogos, houve também a afirmação (e um reconhecimento e valorização) da psicologia, enquanto ciência e prática fundamental no apoio às pessoas, particularmente em situações de maior vulnerabilidade e/ou sofrimento e enquanto ciência e conhecimento fundamental ao desenho de políticas (públicas) e ao contributo para transformações sociais fundamentais à possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação. Fundamentais à equidade e coesão social.

Este relevante caminho, e a perspectiva de que se possa continuar e aprofundar, motiva-me e, mesmo perante desafios significativos na sociedade, anima-me no presente e para o futuro. Como me anima o compromisso da EFPSA (European Federation of Psychology Students’​ Associations) com este propósito, expresso, por exemplo, em duas iniciativas para as quais dei um singelo contributo há meses e há dias:

a) A “Call to Action – Students Building Community Psychology”, que advoga por mais sensibilização e formação das e dos estudantes de psicologia na Europa na área da Psicologia Social e Comunitária e para contributos da psicologia nos principais desafios societais | http://efpsa.org/wp-content/uploads/2022/08/Call_to_Action_Paper_EFPSA.pdf

b) O seu 37º Congresso cujo tema “Information is transformation: Unravelling Psychology’s role in policy-making” [Informação é transformação: Desvendando o papel da psicologia no desenho de políticas (públicas)], onde os contributos da psicologia na área da pobreza e da exclusão foram discutidos e onde tive oportunidade de voltar a estar e discutir com o inspirador Eldar Shafir.

Temos de nos mobilizar contra o “medo persistente de que o declínio seja inevitável… Disse-o Obama, há 14 anos. Dizemo-lo hoje, juntos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Política Psicologia Tomada de Decisão

Habitação, Saúde e Bem-estar e Democracia

A habitação “é, hoje, uma preocupação central e transversal da sociedade portuguesa, da população mais jovem à menos jovem e não apenas das pessoas e famílias com menores rendimentos.” A crise da habitação relaciona-se “com outros importantes desafios do país, que vão desde a crise demográfica e de natalidade à dificuldade de colocação de diferentes profissionais ou fixação de populações em algumas cidades, das migrações à saúde mental, do ensino superior aos problemas da solidão e isolamento.” É assim fundamental “ampliarmos a relevância do tema na sociedade e mobilizarmos participação cívica e contributos da sociedade civil e compromissos de decisores sobre as dificuldades e desafios nesta matéria.”

“Habitação, Saúde e Bem-estar e Democracia”, 55º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado; link abaixo) aborda o quão central a habitação é nas nossas vidas, considerando que nela vivemos parte significativa dos 80 a 90% de tempo de vida que se estima que passemos em ambientes construídos. É um dos “factores principais na análise do bem-estar das pessoas e dos países” e elemento-chave aos sentimentos de pertença, privacidade, segurança, identidade e de suporte social essenciais à qualidade de vida. É, ainda, fulcral nas dimensões da saúde e da saúde mental, porquanto as “más condições habitacionais aumentam consideravelmente a probabilidade de mortalidade precoce a níveis próximos de doenças como a hipertensão ou a obesidade” e a instabilidade ou precariedade habitacional, “com a pressão dos valores das rendas, ausência de controlo e impossibilidade de personalização da casa-lar, estão relacionadas com problemas como o stresse, a ansiedade e a depressão.”

O artigo propõe “que o debate que decorre na sociedade seja mais cientificamente informado, incluindo pela ciência psicológica, e que proporcione mais insight, literacia (…) e agência neste tema”. Que se “reforcem e complementem outros programas existentes de recuperação e reparação do edificado, minimizando constrangimentos que impactam a saúde e (…) se apoiem pessoas e famílias, particularmente também quando em processos de transição”. Ainda, que se criem condições, e também se necessário apoios mais substanciais, para acesso à “habitação inicial” para a população jovem e um estímulo a soluções que se adaptem a novas necessidades de maior alteração, mobilidade e migração (incluindo interna), nomeadamente de co-living (viver “conjuntamente”) e co-working (trabalhar “conjuntamente”). Finalmente que se associem medidas na área da habitação à promoção de competências transversais nas pessoas e, quando necessário, de suporte emocional e apoio psicológico, permitindo maior resiliência em períodos de maior incerteza e instabilidade.

Hoje, “investir na habitação é mais que investir no edificado. É e será investir nas pessoas e nas famílias, no nosso SNS, na nossa Segurança Social, na nossa Economia. É e será investir na equidade, na coesão social, na Democracia e, portanto, no nosso futuro.”