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Benefícios e limites do autocuidado

“Na contracapa da última edição de uma revista que habitualmente leio, surge um anúncio de um carro eléctrico cujo preço base ascende a mais de 80.000€ com a sugestiva frase: “O progresso é uma questão de carácter”.

“Antes a pobreza como “traço de personalidade”, agora o (potente) carro eléctrico como “questão de carácter” e o autocuidado como “chave-mestra para todas as portas”. Não me compreendam mal, a promoção do autocuidado é fundamental e este tem um papel importantíssimo na saúde e bem-estar. Mas, internalizar excessivamente problemas, responsabilizar totalmente as pessoas pelo seu comportamento e estilo de vida e contribuir para uma positividade tóxica, além de não ter suporte na evidência e factualidade, não respeita as pessoas e as suas diferenças. Não aponta à promoção do autocuidado, do bem-estar e à exigência colectiva que devemos prosseguir de serem desenvolvidas e ser garantida a equidade de acesso a respostas diferenciadas, estruturadas e baseadas na evidência para a promoção da saúde mental.”

“Benefícios e limites do autocuidado”, 56º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) assim termina. Trata o autocuidado, ou seja, “o conjunto de actividades que, também conscientemente e com mínima regularidade, escolhemos realizar e que impactam de forma positiva o nosso bem-estar e saúde, incluindo a saúde mental.” Autocuidado que “não é acessível de igual forma a todas as pessoas, dependendo da informação/conhecimento da sua importância e relevância, da motivação que colocamos nas acções, mas, principalmente, do empoderamento, oportunidade e das condições de (des)igualdade que temos para as concretizar. Ou seja, de termos ou não recursos, internos e externos, e meios para cuidarmos de nós.”

“É fundamental que, à sua importância, não deixemos corresponderem processos de (auto)culpabilização, pela dificuldade de algumas pessoas se mobilizarem ou concretizarem comportamentos e estratégias de autocuidado (…) não conseguir priorizar/praticar o autocuidado não significa incapacidade, preguiça, falta de carácter ou compromisso.”

“O autocuidado, como a autoajuda, não pode, portanto, ser apenas uma indústria em forte expansão, particularmente quando as condições para a sua prática são tão desiguais (…) devendo “ser promovido, de forma próxima, personalizada e responsiva aos valores e condições de vida de cada pessoa, também e especialmente junto de pessoas em situação de pobreza, exclusão ou vulnerabilidade, respeitando circunstâncias e ambientes próprios e procurando a sua naturalização na vida de cada pessoa.”

“Não pode, ainda, ser uma panaceia. Também porque não responde a tudo e, principalmente a todos os problemas de saúde mental. Deve, assim, ser considerado e integrado junto com mecanismos de autoajuda mediados por profissionais, da [prescrição social e cultural] e de mecanismos de apoio, suporte e acompanhamento psicológico estruturado quando e se necessário, numa resposta de cuidados diferenciados em saúde.”

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