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Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais

“Não há atribuições colectivas de culpa em Portugal, Senhor Deputado”. A generalização induz que experiências ou conhecimentos focados ou limitados sobre um determinado tema sejam processadas como se referindo ao total das situações, influenciando a tomada de decisão e conduzindo a erros e ao reforço de estereótipos e preconceitos” (…) Já a heurística da disponibilidade explica porque percebemos como mais provável um acontecimento se tivermos presente um evento semelhante próximo e porque tantos debates são autorreferenciados (…) A desconfiança está associada aos conflitos sociais, à diminuição da participação social e pública e à falta de coesão social.

“Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais”, 53º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) discute como tantas vezes são estes os “princípios-chave na reflexão sobre a criação, revisão ou regulamentação de Leis. “O peso que um “caso” tem na percepção de que tudo é igual, que “algo que nos aconteceu” ou que “conhecemos” tem na nossa percepção de uma situação/problema e que a desconfiança impõe, prejudicam gravemente o debate público e a construção de soluções legislativas mais simples, ágeis, responsivas e personalizadas.”

“Temo-lo assistido em diversas situações. Voltamos a assistir no debate em torno da proposta de alteração ao Regime Jurídico das Ordens Profissionais. Muitas e muitos dos que critica(ra)m o Sr. Deputado (e bem!) pela permanente generalização e atribuição de culpas colectivas debatem as Ordens Profissionais em Portugal usando da generalização e tratando 20 Ordens muito diferentes como se tudo e todas fossem iguais.”

Estes princípios limitam o debate público e limitaram-nos neste processo em específico. “Permitiriam que se reflectisse mais profundamente a mais-valia das comissões responsáveis pela avaliação dos estágios profissionais serem constituídas, também, por elementos externos à profissão, sem experiência profissional (…) Que limita e discrimina docentes que realizam actividades enquanto psicólogas/os ao prever que o órgão de supervisão, agora proposto, seja constituído por “40% de membros oriundos dos estabelecimentos de ensino superior que habilitem academicamente o acesso à profissão organizada em associação pública profissional, não inscritos na associação profissional” (…) Que é incoerente ao não prever melhores condições, incluindo a possibilidade da mediação ética para algumas situações, para o Conselho Jurisdicionional, nomeadamente a possibilidade de remuneração ou de um regime de faltas justificadas.”

“…É a identificação de particularidades, os dados de qualidade e escrutínio e a confiança mútua que abre espaço ao diálogo e à cooperação, que promove solidariedade e o respeito pelas especificidades e que estimula o envolvimento cívico e político. É a confiança mútua que permite a construção de mais eficazes soluções para os mais complexos problemas.”

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Sexta-Feira, 24 de Fevereiro – Dia da não-naturalização (Ao redor…; 20.02.2023)

[UNICEF/UN0770704/Filippov]

Esta sexta-feira, 24 de Fevereiro, assinalamos o aniversário de dois momentos muito relevantes para pensarmos a Europa e o Mundo, no presente e futuro. Nove anos do afastamento forçado do governador de Sevastopol, maior cidade da Crimeia e maior porto do Mar Negro, e entrega da função a um represente russo, concretizando o início da ocupação da Crimeia. Um ano do início da segunda fase de invasão da Ucrânia pela Federação Russa, com o bombardeamento de várias cidades ucranianas, incluindo Kiyv, e a invasão do território com meios terrestres. Duas fases, é certo que com diferentes reacções (internacionais), de uma Guerra que desrespeita o direito internacional e os direitos humanos. De uma Guerra que muito desafia. Mas, como em quase tudo, de uma Guerra que corre o risco de ser naturalizada.

Mas recuemos a quatro momentos. A 24 de Fevereiro de 2021, exactamente um ano antes do início da segunda fase desta Guerra, escrevia o primeiro texto desta rúbrica “Ao Redor…” Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e nele escrevi que “procurar compreender o nosso comportamento – e os pensamentos (cognições) e sentimentos (emoções) a ele associados – e como este é influenciado e influencia o contexto que o determina, creio interessar ou mesmo fascinar a todas/os. Fez de mim psicólogo.” Neste duplo aniversário evoco esta passagem na perspectiva do quão fundamental é enquadrarmos o comportamento e a tomada de decisão humana no seu contexto e em como este é profundamente influenciado pelo comportamento e tomada de decisão das pessoas. Termos isso presente é essencial para pensarmos o comportamento, do mais banal ao mais excecpcional. É essencial para pensarmos a Guerra.

Mais tarde, a 30 de Dezembro de 2021, também no “Ao redor…” escrevi um texto sobre um desejo (meu) para o 2022 que aí viria. Chamei-lhe “Um desejo para 2022? Construirmos mais paz” e nele escrevi que “conforme sucede com a saúde mental, também a paz é comummente definida como a ausência de guerra. Creio que 2022 será um ano particularmente desafiante no que à paz diz respeito e que, também por isso, será importante que pessoal ou profissionalmente, em contexto privado ou público, conversemos sobre ela e disseminemos que, indo muito além da ausência de guerra, a paz representa a harmonia, a civilidade entre pessoas e comunidades e a serenidade, e que compreendê-lo será fundamental para a promovermos. Para a promovermos em Portugal, na Suíça ou nos Estados Unidos da América, não apenas na Síria, em Myanmar ou na fronteira da Ucrânia com a Rússia.” Nele falava, também, da quebra progressiva de confiança nas instituições, na democracia e, particularmente, nas instituições e nas profissões que funcionam como mediadores sociais e do risco que isso representa no presente e para o futuro.

Já há exactamente um ano, a 20 de Fevereiro de 2022, Zelensky escrevia na sua conta na rede social Twitter: “Defendemos a intensificação do processo de paz. Apoiamos a convocação imediata do GCT [Grupo de Contacto Trilateral] e um cessar-fogo imediato”. Escreveu-o e informou Macron da situação no leste da Ucrânia e dos ataques das milícias separatistas. Enquanto isso, a Federação Russa negava qualquer intenção bélica e afirmava ter retirado parte do contingente da zona (tinha, pelo menos, 150.000 soldados junto à fronteira com a Ucrânia). Neste jogo de sinais e do simbolismo do mesmo, ressalta a ideia de que o passado pode mesmo encontrar as suas formas de se repetir, mesmo que isso nos pareça improvável e, particularmente, como a percepção do risco vai evoluindo e condicionando os nossos comportamentos. A sua análise e consideração nos processos de construção de paz ou, noutro exemplo, na promoção da saúde pública é essencial porquanto, por vezes, bons resultados ou indicadores positivos fazem com que a percepção de risco de determinado acontecimento / situação baixe tão consideravelmente que nos predispõe menos para determinadas iniciativas ou comportamentos de (auto) protecção ou, até, a acreditarmos ou não na sua possibilidade.

Finalmente, recuemos a 2002 e à constituição da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) para recordar o seu preâmbulo e a mensagem de “que uma vez que as guerras se iniciam nas mentes dos homens, é nas mentes dos homens que devem ser construídas as defesas da paz”. Recordemo-la para sublinhar o quão importante é procurar, activamente, combater a naturalização da Guerra como estado que se (pode) interioriza(r). Recordemo-la para que mantenhamos activação e reacção sobre o nosso redor e para que atitudes de não-complacência e de apoio à procura da resolução da Guerra não sejam desafiada pelas dificuldades (sócio-económicas, por exemplo) que dela resultam, conforme, ainda assim com alguma racionalidade, Putin e outras e outros líderes têm procurado que suceda. Isso o devemos, conforme nossa responsabilidade solidária moral, em primeiro lugar às ucranianas e ucranianos que muito sofrem com cada minuto mais de um contexto de Guerra, mas também a uma Europa e um Mundo de paz, de permanente e empenhada construção de paz e de permanente e empenhado reforço da cooperação, harmonia, civilidade e serenidade. Diria, também, de democracia, de confiança nas instituições e nas pessoas.

A compreensão do nosso comportamento e da forma como ele é influenciado pelo contexto determina a necessidade de que o investimento na construção da paz seja permanente. Tal qual determina termos presentes que, sim, o passado pode encontrar formas de se repetir, particularmente quando muitos acreditamos no contrário, a partir exactamente da nossa baixa percepção de risco, geradora de menor envolvimento na preservação das instituições, da civilidade e da paz. Ainda, determina que tenhamos presente que tendemos a naturalizar quase todas as condições humanas, incluindo a Guerra, pelo que activa e empenhadamente temos de o contrariar, não aceitando e não compactuando com as violações de direitos que a mesma comporta.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, talvez seja importante lembrarmos Erasmo de Roterdão que, viajante e construtor de pontes entre povos, escreveu há mais de 500 anos no seu “A Guerra e a queixa da Paz” que se “formássemos um cálculo justo do custo da guerra e o da busca da paz, veríamos que a paz pode ser comprada a um décimo do custo dos cuidados, labores, problemas, perigos, despesas e sangue envolvidos numa guerra.” Buscar a paz era, é e será sempre o caminho que nos aproxima da convivência entre povos e de um Mundo melhor. Lutemos por ela, pelas ucranianas e ucranianos. Por todas e todos nós.

 

Tiago Pereira

Sexta-Feira, 24 de Fevereiro – Dia da não-naturalização

in Sábado (Ao redor…); 20.02.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/sexta-feira-24-de-fevereiro—dia-da-nao-naturalizacao

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III Encontro Psicólogos na Administração Local

Comecemos pelo Capitólio. Ali voltei ontem, 3 anos e alguns dias depois de a 16.02.20, para um concerto, o último a que assisti pré-pandemia. Mal sabia. Mal sabíamos com toda a amplitude o que aí viria.

Mas voltei, voltamos, para o III Encontro dos Psicólogos da Administração Local, co-organização da Câmara Municipal de Lisboa e da Ordem dos Psicólogos Portugueses, ponto de encontro, partilha, reflexão e debate de psicólogas e psicólogos das autarquias de todo o país. Voltamos, e o que mudou das edições de 2017 e 2019, com (cada vez) mais psicólogas/os a darem o seu contributo (incluindo mais psicólogas/os júnior) nas estruturas/projectos das autarquias, a partilharem práticas no âmbito do prémio de boas práticas e, não menos relevante, com papéis cada vez mais amplos e diversos, incluindo as/os com posições de liderança e decisão.

Mas, de repente (por uma alteração de última hora, última hora mesmo), ali estava eu e o Gabriel Soares (um dos mentores, com a sua equipa, da iniciativa e que mais se tem a ela dedicado; Obrigado, Gabriel) para procurar estimular a reflexão sobre como pode a psicologia e as psicólogas e psicólogos contribuir para a promoção do bem-estar a partir das autarquias. Para pensar o nosso papel:

a) No desenvolvimento de ciência, a partir da psicologia, que permita afirmar a importância da promoção do bem-estar e o que pode ou não funcionar (what works?) para mediar a “tensão” entre os espaços que idealizamos para viver (com verde e azul, sem ruídos de transportes, com encontro e conexão, com tempo, …) e as cidades actuais;

b) Na advocacia para que a promoção da saúde (mental) e do bem-estar possa verdadeiramente ser prioridade das autarquias e possa ser aspiração das e dos munícipes, valorizando projectos de “cidade” nela centrados e usando do capital social para os influenciar;

c) Nas respostas de proximidade considerando que é nos territórios que os desafios societais (pobreza, migrações, insucesso/abandono escolar, …) ganham nome e história de vida e onde mais eficazes intervenções junto das pessoas e na transformação dos determinantes sociais da saúde e do bem-estar podem acontecer;

d) Na disseminação do conhecimento da psicologia nas diversas áreas da sociedade, no apoio à tomada de decisão e, porque não, com mais psicólogas e psicólogos em posições de responsabilidade, liderança e tomada de decisão.

Volto ao Capitólio porque também me recorda o que aconteceu no dos EUA. Faço-o para, como também disse, partilhar que é a possibilidade de bem-estar de todas e todos e a coesão social que dela resulta que mais nos protege da deterioração da confiança nas instituições, nas outras e outros e na democracia. Que mais nos protege de emoções como a raiva ou o ódio serem dominantes no espaço público e na política, num ciclo que inevitavelmente conduzirá a mais violência e a menor equidade, possibilidade de autodeterminação e de uma vida plena, de bem-estar.

Oxalá vos tenha feito sentido. Para mim foi um gosto. Obrigado.

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13 anos… E muito (mas nem tudo) mudou…

Passam hoje 13 anos que a perdemos. Que a perdi.

Com ela fui, em 2004, a primeira vez aos Açores. Visitamos três das nove ilhas do arquipélago e viajamos por cada recanto da ilha de S. Miguel. De Ponta Delgada ao Nordeste e às Sete Cidades… Das Furnas, a Mosteiros e a Rabo de Peixe. Nos já quase 19 anos que passam desse momento, voltei algumas vezes aos Açores e a S. Miguel. Todas já sem ela, na minha vida. Não apenas mas também por isso, diferente e com outra visão e reflexão sobre o meu “ao redor”. Consciente de que muito mudou nestes anos, mas de que muitos desafios se mantêm, incluindo os fenómenos associados à iniquidade de oportunidades, de exclusão, da vivência em situação de pobreza e da reprodução, geracional, da mesma.

No final da passada semana voltei aos Açores e a S. Miguel. Voltei para (mais) uma sessão de recolha de contributos para o projecto https://finalapobreza.pt e, ainda, para um debate. Debate que, a propósito da comemoração do Dia Mundial da Justiça Social, juntou a Ordem dos Psicólogos Portugueses (eu e o Marco Santos, presidente da nossa Delegação Regional dos Açores), aos colegas Hélder Fernandes e Pedro Gomes, da Associação Novo Dia e da Associação para Públicos Jovens, e, ainda, às colegas Cristina Canto Tavares, Vereadora da Câmara Municipal de Ponta Delgada e Tânia Moreira da Fonseca, Vogal do Conselho Diretivo do Instituto de Segurança Social dos Açores.

“Se me dissessem há 20 anos que aqui estaria hoje, entre psicólogas e psicólogos, a discutir o nosso contributo para os desafios da pobreza não acreditaria”, diria um colega já perto do final da sessão. Penso o mesmo… Há 20, há 19 quando fui a primeira vez aos Açores, e, até, há muito menos anos. E que importante é conversar-se sobre este tema.

Além da importante reflexão, já por si significativa, a sessão permitiu a comunicação do tema a partir dos contributos da ciência e prática psicológica para a sociedade (por exemplo com a reportagem da RTP Açores), além do pedido e do compromisso para um contributo da OPP para a “Estratégia Local Integrada de Combate à Pobreza e Exclusão Social” de Ponta Delgada, conforme aqui noticiado.

Passo a passo, momento a momento, caminhamos para um maior contributo da psicologia no combate à pobreza e à exclusão. Passo a passo, momento a momento, procuramos afirmar que este caminho é, necessariamente, ligado também à saúde mental e, logo, à necessidade de reforço das psicólogas e psicólogos nos diversos serviços públicos, quer seja nas dimensões de prevenção e promoção, quer seja na intervenção junto das pessoas com problemas na área da saúde mental, e à necessidade de maior envolvimento da ciência psicológica no desenho de estratégias/políticas nesta área.

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Sexta-Feira, 24 de Fevereiro – Dia da não-naturalização

Passam agora umas horas desse momento. Recordo-o, por tão marcante. Era madrugada, escrevia como escrevo agora, mas naquele momento com a televisão ligada. Via, em rigor ouvia, a CNN. Um repórter comentava a precipitação de acontecimentos dos últimos anos, meses, emanas, dias. Horas até numa vertiginosa aceleração que… trouxe uma Guerra ampla na Europa. Uma Guerra que vi começar em directo, com o início dos bombardeamentos a Kyiv naquele preciso momento, com o repórter a procurar abrigar-se, colocar capacete, depois mudar de lugar naquele topo de hotel de onde fazia o directo mas, quase sempre, em directo e sem o interromper… O directo de uma Guerra que um ano depois não mostra sinais de ser interrompida.

“Sexta-Feira, 24 de Fevereiro – Dia da não-naturalização”, 52 º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) procura recordar que hoje se cumprem dois aniversários muito relevantes para pensamos a Europa e o Mundo: nove anos do afastamento forçado do governador de Sevastopol (…) concretizando o início da ocupação da Crimeia; Um ano do início da segunda fase de invasão da Ucrânia pela Federação Russa (…) e de uma Guerra que desrespeita o direito internacional e os direitos humanos. De uma Guerra que muito desafia. Mas, como em quase tudo, de uma Guerra que corre o risco de ser naturalizada.

A compreensão do nosso comportamento e da forma como ele é influenciado pelo contexto determina a necessidade de que o investimento na construção da paz seja permanente. Tal qual determina termos presentes que, sim, o passado pode encontrar formas de se repetir, particularmente quando muitos acreditamos no contrário, a partir exactamente da nossa baixa percepção de risco, geradora de menor envolvimento na preservação das instituições, da civilidade e da paz. Ainda, determina que tenhamos presente que tendemos a naturalizar quase todas as condições humanas, incluindo a Guerra, pelo que activa e empenhadamente temos de o contrariar, não aceitando e não compactuando com as violações de direitos que a mesma comporta.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, talvez seja importante lembrarmos Erasmo de Roterdão que, viajante e construtor de pontes entre povos, escreveu há mais de 500 anos no seu “A Guerra e a queixa da Paz” que se “formássemos um cálculo justo do custo da guerra e o da busca da paz, veríamos que a paz pode ser comprada a um décimo do custo dos cuidados, labores, problemas, perigos, despesas e sangue envolvidos numa guerra.” Buscar a paz era, é e será sempre o caminho que nos aproxima da convivência entre povos e de um Mundo melhor. Lutemos por ela, pelas ucranianas e ucranianos. Por todas e todos nós.

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Natália…

Indomável, imprevisível, ousada. Assim foi Natália Correia, figura ímpar da literatura e do século XX português, que perdemos fará no próximo mês 30 anos e cujo centenário do seu nascimento se assinalará em Setembro.

Recordo-me do um Polígrafo feito a seu respeito. Verificava se seriam verdadeiras (e confirmava serem) umas frases a si atribuídas datadas do ano do seu desaparecimento: “As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis… Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo (…) O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de abril, o Estado social e a independência nacional sofrerão gravíssimas ruturas (…) Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e comida. A esperança média de vida cairá. Espoliada a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres.”

Algumas pessoas olha(ra)m para estas palavras como premonitórias. Fernando Dacosta, que as confirma, refere que Natália sofria ao ver o Mundo “da cultura, dignidade, liberdade, criatividade e afetuosidade ruir”, conforme entendia. Ruína para si muito decorrente da desigualdade e da abundância de situações de pobreza e exclusão. Condicionantes que entendia fundamentais e que privavam pessoas da dignidade e da possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação.

Continuo, por estes dias, em iniciativas que cruzam os contributos da ciência e da prática da psicologia com o enorme desafio societal que representam os fenómenos da pobreza e da exclusão. Há uma semana, na ilha da Madeira, discuti a temática com colegas, recolhi contributos para o projecto https://finalapobreza.pt e procurei via comunicação social um contributo para a mediatização e discussão no espaço público do tema e, mais particularmente, da pobreza infantil, conforme partilho exemplo: https://www.rtp.pt/madeira/sociedade/acompanhamento-psicolgico-desde-a-infncia-uma-forma-de-reduzir-impacto-da-pobreza-udio_111756

Já amanhã, volto a recolher contributos para o projecto, agora em S. Miguel (Açores), sessão que decorrerá exactamente no Centro Cultural Natália Correia e que, numa parceria entre e @Ordem dos Psicólogos Portugueses e a @Câmara Municipal de Ponta Delgada, terá posteriormente um debate sob o tema “A Intervenção Psicológica no combate à pobreza e na promoção da equidade social”, que assinalará o Dia Mundial da Justiça Social celebrado a 20 de Fevereiro (informações e inscrições aqui: https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/noticia/4483).

Porque, conforme Natália, precisamos ousar… Na literatura. Na crítica (social). No combate à pobreza e à exclusão, com maior contributo das psicólogas e psicólogos e fazendo dele desígnio de todas as pessoas nos Açores, no país e no Mundo.

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De número em número até 5.3 mil milhões (Ao redor…; 08.02.2023)

“Portanto… Enfim, é fazer a conta.” Apesar de já longínquo o ano de 1995 e, até, dos “contos” [1000 escudos] mencionados terem dado há muito lugar aos [5] euros, permanece no imaginário colectivo o momento em que António Guterres, então primeiro-ministro, não conseguiu responder rapidamente a um pedido de um jornalista para quantificar quanto significava os 6% do PIB português que havia mencionado.

Eventualmente como noutros países, no Portugal contemporâneo e no debate público presente, os números têm uma enorme presença, permanência e simbolismo. Nas últimas semanas discutimos muito, muitas vezes acaloradamente, um treze, um quinhentos, um quatro ponto dois e um três. Um, o primeiro, referente a um número de pessoas. Os restantes, a milhares e milhões de euros. Neste texto partilho outro, a cujo menor debate de que é e será alvo, não creio corresponder a uma importância menor: cinco ponto três. Cinco mil e trezentos milhões de euros.

Este valor corresponde ao custo estimado em 2022 das perdas directas de produtividade das empresas e organizações portuguesas causadas pelo absentismo e presentismo (quando se trabalha abaixo das reais capacidades), resultantes de stresse e de problemas de saúde psicológica de trabalhadoras e trabalhadores. Este número, que seria consideravelmente superior se envolvesse organizações do sector público e do sector financeiros (sectores não considerados no estudo), corresponde a um aumento de 66% face às perdas estimadas de 3.2 mil milhões de euros em 2020. Aumento este, não apenas, mas em muito resultante dos diversos impactos da pandemia por COVID-19 e das, hoje, permanentes transformações e incertezas associadas ao mundo laboral e das crescentes exigências e desafios de conciliação da vida profissional com a vida pessoal.

Este impactante número é detalhado no relatório “Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações – Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica
no Trabalho, em Portugal”, recentemente publicado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, e resulta dos 8 dias de trabalho que em 2022 cada trabalhador/a em média perdeu e dos 15,8 dias que, também em média, trabalhou mas abaixo das suas capacidades reais, por razões associadas ao stresse e a problemas de saúde psicológica. Considerando que um ano tem cerca de 250 dias úteis e se a este número descontarmos o período de férias, temos que, em média, cada trabalhador/a ou não trabalhou ou trabalhou abaixo das suas capacidades mais de 10% do seu tempo anual útil de trabalho por razões associadas ao stresse e à sua saúde psicológica.

Ora, num país onde apesar das melhorias em 2022, a produtividade das e dos trabalhadores é entendida como um problema grave da economia, e onde durante muito anos nos afastamos da média Europeia (em 2019 eramos o 6º país da Europa com menor produtividade), é fundamental que reflictamos sobre estes dados. Sobre os dados e sobre como investir na avaliação, prevenção, gestão e intervenção nos riscos psicossociais e promover a saúde psicológica no trabalho pode, não apenas reduzir significativamente o sofrimento e mal-estar individual e os custos com ele relacionados para sistemas como o de saúde e segurança social, como resultar na mitigação das perdas e, logo, em mais prosperidade e sustentabilidade para as organizações e melhorias na produtividade e na economia do país.

Objectivamente, a prevenção dos riscos psicossociais, a par da promoção da saúde psicológica e do bem-estar, se baseadas em projectos e iniciativas com base e evidência cientifica, é um investimento de enorme retorno para as organizações, particularmente se aos custos directos anteriormente assinalados juntarmos outros resultantes, por exemplo, da prevenção de erros e acidentes de trabalho, no envolvimento com as organizações dos e das trabalhadoras e na sua capacidade de comunicação, relação, produção/realização e resolução de problemas. É, no entanto, um investimento que depende, em muito, da mobilização de toda a organização, incluindo o empenho e compromisso da gestão e da liderança, na procura de co-construção de uma cultura de bem-estar e de uma ideia de local de trabalho saudável.

Ideia, aliás, fortemente relacionada com o conceito de segurança psicológica dos locais de trabalho, ou seja, com o desenvolvimento de uma cultura organizacional onde cada trabalhador/a sinta espaço, segurança e conforto para partilhar preocupações e sugestões de melhoria, contribuir com ideias e propostas para processos de trabalho e outros aspectos da organização e se sinta respeitada/o e valorizado nos seus contributos e especificidades. Esta cultura, por sua vez, tende a tornar a organização mais resiliente porquanto promove dimensões como a inclusão, a inovação e, até, a integridade, fundamentais aos processos de adaptação e à mobilização para resposta a desafios / crises.

Há dias, um dos autores de um estudo representativo da “população empregada” dos Estados Unidos, explicava como a relação entre o “gostar do trabalho” e este “se relacionar bem com a vida e valores da pessoa” é um muito relevante elemento para compreender o que liga um/a trabalhador/a a uma organização e a um projecto de trabalho. Ou, noutra perspectiva, como a ausência de bem-estar no trabalho e o desalinhamento entre valores de vida e da organização faz perigar o envolvimento com o trabalho e as perspectivas de continuidade e desenvolvimento profissional de um ou uma trabalhadora no seio de uma organização.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a saúde psicológica e o bem-estar são elementos essenciais para que as pessoas possam colocar as suas capacidades e competências ao serviço das organizações e do seu desenvolvimento e sustentabilidade. Em 1995, aquando do episódio atrás referido, António Guterres falava com jornalistas a propósito do investimento em saúde, referindo que “desejavelmente deveríamos poder atingir num prazo tão curto quanto possível um nível na ordem dos 6% do PIB em despesa de saúde”. Diria, depois, “portanto… Enfim, é fazer a conta.” Digo-o agora a líderes, a gestoras e gestores, mas também a decisoras e decisores a quem o compete estimular: Enfim, é fazer a conta a tudo quanto de bom pode significar investir na prevenção dos riscos psicossociais e na promoção da saúde psicológica e do bem-estar de trabalhadoras e trabalhadores.

 

Tiago Pereira

De número em número até 5.3 mil milhões

in Sábado (Ao redor…); 08.02.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/de-numero-em-numero-ate-53-mil-milhoes

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Ice Merchants e o nosso Mundo…

Uma imagem bonita, feita como que de esquissos. Pensada com sentido e significado. Desenhada com uma estética com eles compatível e, particularmente, impactante. Abaixo da varanda da casa da montanha, um baloiço baloiça com um menino nele sentado. Quem viu o trailer (ou toda a curta), que nos enche de orgulho pela recente nomeação para os Óscares, sabe que falo do filme de João Gonzalez, “Ice Merchants”. Quem não viu, convido a olhar a imagem abaixo…

O baloiço daquela imagem, signo de um resquício de infância, de diversão, de liberdade, lembra-me os “baloiços”, como chamava e chamávamos ao único parque infantil da aldeia onde cresci. Nele existiam dois como aquele junto com outros equipamentos e ali brinquei e joguei primeiro, me encontrei, conversei e me escondi depois. Ali, mais tarde, ouvi música, li. Entre os outros equipamentos havia um velhinho (parece que sempre foi velhinho) escorrega metálico que, não sendo exactamente idêntico, me lembra o da imagem que também partilho abaixo e que…

Nos parecia, invariavelmente, que à descida, mais rápida inicialmente, correspondia um abrandamento no final, por vezes “como se levantássemos” antes de chegar ao chão. Mas sempre, sempre, a caminho do chão. Penso-o exactamente assim a propósito do caminho que se vem realizando na erradicação da pobreza extrema no Mundo onde, à descida consistente (mesmo que não tão rápida e em todos os lugares como gostaríamos) de 80 para 8% da população, correspondeu um aumento em 2020. Um aumento que sinaliza o caminho ainda a percorrer até ao chão e, particularmente, alerta para que apenas com envolvimento, compromisso e com a conjugação de vontades e saberes (científicos) se combate a pobreza extrema e a pobreza e exclusão no geral.

Na @Ordem dos Psicólogos Portugueses continuamos a fase de visitas a instituições e projectos com contributos nas áreas da pobreza e exclusão e com sessões de discussão da temática e recolha de contributos para a estratégia https://finalapobreza.pt junto de psicólogas e psicólogos. Na passada semana, em Évora, conforme também o Diário do Sul (abaixo) reportou. Hoje no Funchal (informações e inscrições aqui) no âmbito de uns Trilhos da Psicologia e no próximo dia 23.2 em S. Miguel (informações e inscrições aqui), no âmbito de um evento nesta área.

O “Ice Merchants”, porque pensado com sentido e significado, permite múltiplas reflexões. Do isolamento à família, das relações ao trabalho e sua relevância, das rotinas, do quotidiano, do binómio pobreza–riqueza, além da dimensão (importantíssima para as pessoas em situação de pobreza) monetária. Muitas, mais uma outra, a ausência de um elemento, sempre presente, porém. Uma não completude, um não preenchimento que, mais ou vez, qual escorrega, me lembra quem vive em situação de pobreza e de exclusão e o nosso dever de colocar a nossa ciência e a nossa prática mais e mais ao serviço do seu fim.

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O(s) Grito(s)

“Caminhava pela estrada com dois amigos enquanto o sol se punha. Parei e encostei-me à vedação. Completamente exausto. Sobre a cidade e o fiorde azul-escuro pairavam línguas de fogo. As cores gritavam. Os meus amigos continuaram a caminhar e eu fiquei para trás, a tremer de angústia. Senti um grito interminável a passar pela natureza.”

Foram estas as palavras que Edvard Munch escreveu antes de pintar “O grito” (1893).  Quadro que sustentaria o seu reconhecimento enquanto artista e, de certa forma, tornar-se “interminável”, como o grito que sentiu. Interminável e determinante no cruzamento entre o (seu) naturalismo e expressionismo com nuances de um existencialismo, em desenvolvimento há época enquanto corrente filosófica, de influência fundamental em diferentes expressões artísticas (na literatura, por exemplo) e, até, na emergência e desenvolvimento da psicologia.

Dito de outra forma, colocar-se enquanto pessoa nos seus quadros. Colocar-se no que implica a sua experiência humana, o seu sentir, pensar e agir. No que significa experienciar a melancolia, sempre presente no seu trabalho, a ansiedade ou o desespero e como se lhes pode (ou não) e consegue (ou não) dar sentido [se desejarem conhecer um pouco da história e do contexto de vida de Munch, recomendo este documentário que passou recentemente na @RTP2].

Mas, se no final do século XIX a experiência humana era partilhada (e compartilhada) através da arte, é certo, mas, particularmente, nos cafés, tertúlias e colectividades, hoje é-o, numa velocidade completamente distinta, através da arte, dos cafés, tertúlias e colectividades, mas, também, dos media e, particularmente, das redes sociais, chegando a milhões de pessoas numa velocidade incrível. Talvez a melhor metáfora desta transformação é olharmos a singularidade do quadro de Munch e pensarmos a quantidade de vezes que somos confrontados com este emoji [😱] que, também, dele resulta.

Mas há o que caminhe junto nestes cerca de 130 anos que distam do quadro ao emoji: a omnipresença da angústia existencial; o ímpeto (e os potenciais erros) de interpretação das motivações de quem “usa”; e, sempre, a tal figura sozinha… No quadro como no emoji, sozinha e por isso com menor oportunidade de reformulação e de transformação da angústia que exprime.

Munch escreveu no seu quadro que havia sido “feito por um louco”. À compreensão da existência própria e da/o outra/o a partir do (auto)julgamento e da (auto)estigmatização, devemos contrapor com uma atitude de não-julgamento, de empatia e, particularmente, de (auto)compaixão.

(Auto)compaixão, também para que a conjugação do existencialismo com a velocidade e os meios de comunicação actuais não resulte numa sociedade menos sociedade.

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De número em número até 5.3 mil milhões

“Portanto… Enfim, é fazer a conta.” Permanece no imaginário colectivo o momento em que António Guterres, então primeiro-ministro, não conseguiu responder rapidamente a um pedido de um jornalista para quantificar quanto significava 6% do PIB português. 6% em 1995, treze (pessoas), quinhentos (milhares de euros), quatro ponto dois e três (milhões de euros), mais recentemente. “Discutimos muito, muitas vezes acaloradamente” números, números aos quais acrescento um que merecerá menor debate mas a que não “creio corresponder a uma importância menor: cinco ponto três. Cinco mil e trezentos milhões de euros.”

“De número em número até 5.3 mil milhões”, 51 º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado; link abaixo) destaca o “custo estimado em 2022 das perdas directas de produtividade das organizações portuguesas causadas pelo absentismo e presentismo (quando se trabalha abaixo das reais capacidades), resultantes de stresse e de problemas de saúde psicológica de trabalhadoras e trabalhadores. Número que seria consideravelmente superior se envolvesse organizações do sector público e do sector financeiros (sectores não considerados no estudo) e que corresponde a um aumento de 66% face às perdas estimadas de 3.2 mil milhões de euros em 2020.

Este impactante número é detalhado no relatório “Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações – Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica
no Trabalho, em Portugal” e resulta dos 8 dias de trabalho que em 2022 cada trabalhador/a em média perdeu e dos 15,8 dias que, também em média, trabalhou mas abaixo das suas capacidades reais, por razões associadas ao stresse e a problemas de saúde psicológica (em conjunto, mais de 10% do seu tempo anual útil de trabalho).

“Objectivamente, a prevenção dos riscos psicossociais, a par da promoção da saúde psicológica e do bem-estar, se baseadas em projectos e iniciativas com base e evidência cientifica e na mobilização de toda a organização (incluindo o empenho e compromisso da gestão e liderança), é um investimento de enorme retorno para a prosperidade e sustentabilidade das organizações, particularmente se aos custos directos anteriormente assinalados juntarmos outros resultantes, por exemplo, da prevenção de erros e acidentes de trabalho (…) Pode, ainda, reduzir significativamente o sofrimento e mal-estar individual e os custos com ele relacionados para sistemas como o de saúde e segurança social e produzir melhorias na produtividade e economia do país”.

“Portanto… Enfim, é fazer a conta”, disse Guterres. Digo-o agora a líderes, a gestoras e gestores, mas também a decisoras e decisores a quem o compete estimular: Enfim, é fazer a conta a tudo quanto de bom pode significar investir na prevenção dos riscos psicossociais e na promoção da saúde psicológica e do bem-estar de trabalhadoras e trabalhadores.