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APA 2023 | You belong here

“You belong here”. Este “pertences aqui” foi a impactante assinatura da Convenção da American Psychological Association de 2023. E o “pertences aqui” ganha particular relevância quando ali estamos, num país e numa associação com enormes complexidades, entre as e os que constroem e desenvolvem a nossa ciência (das/os jovens investigadoras/es às históricas referências) e que, dia-a-dia, um pouco por todo o Mundo, a advogam e praticam, por vezes em condições muito exigentes.

Pertences aqui. Pertencemos aqui. A uma ciência e profissão que tem a possibilidade mas, sobretudo, o dever de olhar o micro mas também o macro, de olhar o local, o nacional, o regional, o global. Uma ciência e profissão que deve integrar isso mais e mais nas suas práticas de investigação e intervenção, incorporando especificidades e, mesmo que muito mais difícil, aproximando a ciência das pessoas que pretende impactar na forma como a faz e a transfere para a sociedade civil, para decisoras/es e nas suas práticas, aumentando a sua eficácia e eficiência, o impacto e garantindo mais confiança das pessoas na ciência e nos profissionais.

Uma ciência e uma prática que deve prosseguir o multilateralismo. Uma ideia de construção conjunta a partir de uma base identitária de uma psicologia no quadro dos direitos humanos a contribuir para a possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas. Algo para o qual procurei contribuir na sessão (e grupo de discussão) “Moving Forward a Global Perspective: Developing Effective Strategies” [Construindo uma Perspectiva Global: Desenvolver Estratégias Específicas], onde coordenei o grupo de trabalho em torno dos contributos da psicologia para a erradicação da pobreza, conjuntamente com a representação da USAID – Bureau for Humanitarian Assistanceque coordenou o grupo sobre a erradicação de terapias de reconversão sexual e oFernando de la Mora Salcedo das United Nations que coordenou o grupo dos contributos para a melhoria de acesso a serviços na área da saúde mental.

Uma ciência e uma prática que deve advogar pela saúde pública e pela protecção das pessoas. Num tempo de crescente obscurantismo e de desafios e questionamento à ciência, reforçar a sua ligação às pessoas, promover a confiança e a forma como “entrega” resultados positivos é fundamental. Também aqui, algo para o qual procurei contribuir na sessão “Is Psychotherapy a Separate Profession from Therapy Delivered by Psychologists?” [É a Psicoterapia uma profissão separada da Psicologia?] num quadro internacional, discussão a partir da realidade e dos contributos dos EUA discutidos pela Amanda Clinton, Ph.D., de Espanha pelo Manuel Berdullas (Consejo General de la Psicología de España) e de Portugal, por mim apresentados e reflectidos, com contributos fundamentais do David Dias Neto.

Isto, além dos diversos encontros/reuniões com associações congéneres e com boas e importantes, creio, perspectivas para o futuro, também para a psicologia em Portugal.

Pertences aqui. Pertencemos aqui.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia. (Ao redor…; 26.07.2023)

Mas beneficiaria a saúde pública em Portugal de ter mais psicólogas/os nas suas equipas e de ter mais conhecimento e ciência psicológica no seu planeamento e na sua gestão e administração? Sim, estou certo de que sim. Tal qual estou certo de que a experiência da pandemia o demonstrou possível e os desafios do presente e futuro o exigem.

E beneficiaria, certamente, nos papéis mais tradicionalmente atribuídos a estes profissionais, na promoção da saúde mental, desde a promoção da literacia nesta área, à promoção do autocuidado e de respostas de prevenção e intervenção contingentes aos problemas, mas, também, na intervenção em situações de crise ou catástrofe.

Mas mais. Beneficiaria no contributo da psicologia, enquanto ciência comportamental, para o melhor desenho e maior efectividade das políticas públicas na área da saúde e no que aportaria aos processos de investigação e avaliação, por exemplo na percepção de risco, no risco comportamental ou custo-efectividade de intervenções. Beneficiaria no trabalho conjunto, multidisciplinar e de consultoria, junto de profissionais de saúde e na formação, activação, mobilização e possibilidade de promover educação psicológica deliberada relativa, por exemplo, à adesão a comportamentos pró-sociais e/ou manutenção de determinados comportamentos. No processo de transição digital, de integração de novas tecnologias e do trabalho com grandes números, fundamentais no domínio da saúde pública e que a psicologia pode apoiar, a par da capacitação dos consumidores de saúde e da melhoria dos processos de informação, comunicação e da eficácia de campanhas, por exemplo de prevenção do consumo de tabaco ou álcool.

Mas, considerando este papel e considerando a disponibilidade e motivação das psicólogas e dos psicólogos, parece justo perguntar porque são ainda tão escassos estes profissionais na área da saúde pública em Portugal? Tal qual parece justo responder que persistem barreiras históricas a esta maior integração que começam na compreensão do papel dos profissionais de psicologia e na sua incorporação na legislação que enquadra as equipas e a sua actividade. Obstáculos que se estendem a uma visão, embora em mutação, ainda pouco focada na promoção da saúde e prevenção da doença e que, ao invés, ainda tende a associar a saúde pública à doença, particularmente às doenças físicas, transmissíveis ou infecciosas, e a um modelo excessivamente, senão exclusivamente, biomédico, centrado, portanto, na/o médica/o, modelo para o qual são dirigidos os principais incentivos financeiros e recursos humanos.

Quebrar estas barreiras e ultrapassar estes obstáculos é algo fundamental para o país responder, também via saúde pública, ao desafio de acrescentar ao aumento da esperança média de vida da população, anos de vida com qualidade e cuidados de saúde mais humanizados e personalizados. Para tal é necessário que, paralelamente ao aumento de recursos humanos na saúde, decorrente das maiores necessidades presentes e futuras, se diversifique a gestão e constituição das equipas e as suas competências, melhorando as suas capacidades, a sua eficiência e uma visão mais biopsicossocial de pessoas e comunidades. É exactamente o preconizado pela Organização Mundial da Saúde que tem advogado, a partir do conceito “uma só saúde”, pelo reforço do papel das políticas ambientais e sociais na saúde (pública) e pelo aumento do investimento em abordagens multissectoriais e multidisciplinares de saúde pública. Nada mais importante. Nada mais essencial, também em Portugal.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, ao crescente reconhecimento da população e da sociedade civil do papel da psicologia e das psicólogas e psicólogos, deveria corresponder uma mais rápida e decisiva integração destes profissionais nas equipas de saúde pública, a par do reforço da própria saúde pública e das políticas de promoção da saúde e bem-estar no nosso país. Um e outro aspecto são fulcrais à promoção da sustentabilidade dos serviços públicos e a um país mais coeso e resiliente face às adversidades hoje existentes e que se prevêm para o futuro. Fulcrais, ainda, a mais solidariedade e ao caminho para transformações sociais essenciais ao reforço do acesso e da equidade de acesso à saúde e da possibilidade de bem-estar para todos.

 

Tiago Pereira

O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia.

in Sábado (Ao redor…); 26.07.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-pais-precisa-de-mais-saude-publica-a-saude-publica-precisa-de-mais-psicologia

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Into the Wild – Guaranteed

Esta é uma das vistas da praia de Ribeira d’Ilhas (Ericeira), quando olhada da estátua à/ao Surfista. Uma de um conjunto de lindas praias da costa portuguesa, algumas que frequentaremos nas próximas semanas. Esta com duas particularidades. Ser próxima de onde vivo, logo local de fruição com família e encontro com amigas/os. Ser particularmente apreciada por praticantes de Surf, sejam amadoras/es ou profissionais.

Um deles, embora amador, nada tem de desconhecido. Eddie Vedder, desde há muito, quando em Portugal, procura-a para praticar Surf, contactando com a natureza e, como refere, sentindo-se “mais um” nesse encontro. Já o fez após o seu trabalho “Into the Wild”, banda sonora do filme com o mesmo nome, onde aborda esta busca da natureza em músicas como a “Guaranteed” que, numa tradução possível, assim começa:

“De joelhos dobrados não é forma de ser livre;

Erguendo um copo vazio, pergunto em silêncio;

Que todos os meus destinos aceitem aquele que sou;

Para que possa respirar“

Por aqui, há dias, escrevi a propósito da falácia do apelo pelo natural quando conjugado com a negação da ciência e, ainda mais, quando estimula desigualdades. Hoje, porém, gostava de reflectir um pouco sobre a importância do natural (e da natureza) quando conjugado com a ciência e, ainda mais, na procura da equidade e iguais possibilidades para todas e todos.

Faço-o partindo, exactamente, de um “Into the Wild”, título de uma metanálise de estudos que tratam o impacto de intervenções psicológicas/psicoterapêuticas em contexto natural (fora de gabinetes convencionais) que discute os seus prós e desafios, permitindo pensar este tipo de intervenção como potencialmente promotoras de melhores resultados, em determinadas circunstâncias e pessoas.

Faço-o pensando nas novas formas que a psicologia tem encontrado (e deve continuar a procurar) para chegar a mais pessoas, em diferentes contextos e momentos de vida, considerando os enormes desafios hoje da saúde mental e bem-estar. Formas que devem ir além das “clínicas” (ainda que fundamentais em determinadas situações) e incluir, mais e mais, caminhos para a prevenção e promoção da saúde mental ao longo da vida. Desde logo informando e apoiando a formação de outros profissionais nestas dimensões, particularmente quando com funções essenciais na sociedade civil desde as Escolas aos estabelecimentos que mais directamente contactam com pessoas como pastelarias ou restaurantes, cabeleireiros/barbeiros e salões de beleza aos clubes e associações desportivas, recreativas, culturais e/ou religiosas.

Caminhos fundamentais para mais psicologia, mais próxima das pessoas e mais personalizada às necessidades de cada um/a. Para uma sociedade mais sensitiva e mais promotora de saúde mental. Para uma sociedade menos (Into the) “Wild” e mais “Guaranteed” (for all).

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia.

Penso ser inegável que a psicologia tem hoje mais “voz e participação na sociedade e que isso contribui para a diminuição do estigma, para o aumento da literacia e do conhecimento e para uma maior participação da ciência e das/os profissionais no debate público e em diferentes contextos, da educação à saúde, passando pela área social e comunitária, desporto e actividade física e, muito importante, das organizações. Em todas estas áreas, mas a ritmo diferente. Na saúde subsistem 2 áreas em que tarda a integração mais consistente da ciência e de mais psicólogas/os: os cuidados de saúde primários e a saúde pública.”

“O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia”, 62º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) responde à questão: “Beneficiaria a saúde pública em Portugal de ter mais psicólogas/os nas suas equipas e de ter mais conhecimento e ciência psicológica no seu planeamento e na sua gestão e administração?”

“Sim, estou certo de que sim. Tal qual estou certo de que a experiência da pandemia o demonstrou possível e os desafios do presente e futuro o exigem”, respondo.

Faço-o afirmando que “a saúde pública tem e terá uma importância significativa, além da resposta a situações de crise, na melhoria dos indicadores de saúde do país (…) e na redução de desigualdades.”

Faço-o afirmando que os contributos das/os psicólogas/os e da psicologia, enquanto ciência comportamental, vão “além dos papéis mais tradicionalmente atribuídos na promoção da saúde mental (…) ou em situações de crise ou catástrofe”, podendo contribuir para o melhor desenho e efectividade das políticas, para melhores processos de investigação e avaliação, para o trabalho conjunto, multidisciplinar e de consultoria, formação, mobilização ou de educação psicológica deliberada, na transição digital, big data ou na capacitação de consumidores de saúde e melhoria de processos de comunicação.

Faço-o afirmando que “persistem barreiras históricas a esta maior integração que começam na compreensão do papel dos profissionais, na sua incorporação na legislação que enquadra as equipas e a sua actividade” e na (ainda) associação da “saúde pública à doença, particularmente às doenças físicas e a um modelo excessivamente, senão exclusivamente, biomédico, centrado, portanto, na/o médica/o, modelo para o qual são dirigidos os principais incentivos financeiros e recursos humanos.”

Mudar é fundamental sendo “necessário que, paralelamente ao aumento de recursos humanos, decorrente das maiores necessidades presentes e futuras, se diversifique a gestão e constituição das equipas e as suas competências, melhorando capacidades, eficiência e apontando a uma visão mais biopsicossocial de pessoas e comunidades como preconizado pela World Health Organization a partir do conceito “uma só saúde” e na advocacia pelo reforço do investimento em abordagens multissectoriais e multidisciplinares de saúde pública.”

“Nada mais essencial, também em Portugal.”

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Desenrascanço

Estamos a horas do último fim de semana de Julho. Há dias escrevi aqui sobre como, uma certa quebra de rotina neste período, nos pode permitir “activarmo-nos para procurarmos mais quem e o que nos rodeia”, sugerindo falarmos e interagirmos com pessoas que nos são desconhecidas. Volto hoje, mas para reflectir sobre como podemos pensar o que nos rodeia, sejam objectos ou comportamentos, nos seus detalhes, histórias e “funções”.

Sobre como podemos, a partir dessas descobertas, pensar no que move ou não a nossa resposta a problemas, da inércia à força colectiva das comunidades, sempre na relação da ou das pessoas com o espaço e com desafios.

Deixo-vos um estímulo. Usem 4 dos vossos minutos e sintam o pequeno vídeo da Joana Astolfi para a Monocle que partilho. Visa, com uma beleza invulgar, também resultado de uma simplicidade conjugada com intensidade e intencionalidade, apresentar ao Mundo uma forma de resolver problemas que tendemos a atribuir/ver em Portugal: o desenrascanço.

Esse “desprender-se da rede” expandido ao “desprender-se do problema”, de forma simples e “esperta”, com os recursos à nossa volta, não raras vezes criativamente, não raras vezes sob a forma de improviso. A Joana Astolfi mostra-nos e mostra-se num expoente do desenrascanço, o Cais Palafitico da Carrasqueira, local que muito gosto e gostamos e que vos convido a visitar. Mostra-nos, também, na abertura de uma cerveja e recorda-me quando na construção civil brincávamos dizendo (e testando) que a esponja era a única “ferramenta” com a qual não era possível abrir.

Fá-lo lembrando-nos, porém, que o desenrascanço tem tanto de bom e belo como pode ter de menos bom, por menos rigoroso.

Se olharmos com atenção à nossa vamos vê-lo muitas vezes. No espaço, na sua utilização. Nos detalhes. No comportamento das pessoas. A “abordagem de última hora” como lhe chama a Joana Astolfi, por oposição a um planeamento atempado e rigoroso, que procura preparar potenciais problemas com planos a, b e c. O “português MacGyver”, por oposição a um potencial português Hippodamus de Miletus.

Mas belo, sempre belo. E mais belo quando o desenrascanço contempla a/o outra/o e o cuidado e impacto com ela/e. Quando comtempla uma ideia de colectivo, de equidade e de sustentabilidade, também ambiental, com o que se encontra ao nosso redor. Quando foca uma ideia de promoção do bem-estar individual, mas, também, colectivo, presente, mas, também, futuro, considerando gerações vindouras. Quando acontece, mais livremente e seguro, por as respostas aos problemas/desafios mais estruturais estarem asseguradas, essas sim, na antítese do desenrançando. No planeamento, no rigor, na ciência.

É essa conjugação que tornará o nosso país ainda mais belo, ainda mais delicioso nos detalhes. Façamos por isso, mas, porque disso precisamos também para que para isso possamos contribuir, olhemos à volta e “deixemo-nos surpreender”. Dizia-o, também, há dias antes de terminar como volto a terminar: “No geral, fará e far-nos-á bem.”

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14.600 dias na Terra

Hoje é um dia diferente para mim. Um daqueles em que, necessariamente, olho os dias, todos os dias, que vivi. Faço-o pensando-me hoje, no presente, e, de certa forma, como me fui pensando e imaginando a chegar ao dia de hoje, em cada momento já vivido.

Faço-o e faço-o com um grande sorriso. São 14.600 dias de curiosidade, de descoberta e de um processo de preenchimento. Dias, dias e dias a cumprirem dimensões expectáveis, mas, principalmente, a surpreenderem-me e a sugerirem-me o menos expectável. O menos expectável bom, muitas vezes. O menos expectável, menos bom, poucas vezes. O menos expectável, muito bom, felizmente, mais vezes. Pessoal e profissionalmente.

Um pequeno exemplo que beneficia do efeito de recência. Cresci, profissionalmente, desde quando era ainda apenas um estudante de psicologia, interessado e admirado pela forma como a American Psychological Association e a The British Psychological Society tinham capacidade de transferir a investigação científica em psicologia para o quotidiano do nosso dia-a-dia, para os desafios que se colocavam a pessoas e sociedade, para a afirmação da nossa ciência e dos seus profissionais e para a forma como a ciência psicológica poderia melhor informar as políticas públicas. Cresci assim e hoje, singelamente, procuro também eu fazê-lo.

Cresci, profissionalmente, a ler as revistas dessas Associações, particularmente a “The Psychologist”. Cresci e este mês, mês deste meu dia, num momento dos claramente menos expectáveis mas muito bons da minha vida, a edição da “The Psychologist” tem uma entrevista minha (cujo link abaixo partilho) sobre um tema que de uma ou de outra forma me tem acompanhado – a pobreza, a desigualdade, os seus impactos e como, a partir da psicologia, podemos contribuir para a sua mitigação e erradicação e para a promoção da saúde e bem-estar de todas as pessoas.

Nela, a propósito de uma pergunta, falo do “20.000 dia na Terra”, documentário que trata 24 horas fictícias de vida do Nick Cave e de onde provém a frase destacada na entrevista: “Let’s raise this flame of great things that can be built” [“Façamos crescer a chama das grandes mudanças que podemos construir”, numa tradução minha]. É um mote perfeito para estes meus não 20.000 mas 14.600 dias na Terra. Ajudar a fazer crescer, convosco, esta chama.

Que tenham mais um bom dia na Terra. Obrigado a todos quantos os vão partilhando comigo. Tudo de bom.

Entrevista “The Psychologist” (July/August 2023) | https://www.bps.org.uk/psychologist/lets-raise-flame-great-things-can-be-built

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Comecemos com um minimal “Olá”

Há dias vi(mos) Kings of Convenience, banda norueguesa que vive de diálogos… Do diálogo entre dois amigos de quase sempre, Erlend e Erik, compositores e intérpretes. Do diálogo entre as suas guitarras, que parecem, em certos momentos, conversar entre si, e entre elas e o violino e contrabaixo que, em certos momentos, as acompanham. Do diálogo entre eles e um conjunto de pessoas “estranhas” que os escuta e segue, pessoas como eu.

Este encontro entre a música e o contactar ou falar com pessoas que nos são “estranhas” é, também, um diálogo entre dois elementos importantes ao meu e ao nosso bem-estar. A crescente compreensão dos fenómenos envolvidos e a investigação têm-no demonstrado, tal qual sublinham que tendemos a desconsiderar o quão importantes para nós podem ser / são as interacções sociais que temos com pessoas “desconhecidas” e o quanto podemos, a partir delas, aprender e nos sentir bem.

Acontece, porém, que existem hoje barreiras significativas a que falemos com pessoas nossas desconhecidas com frequência. A voracidade do tempo e das nossas múltiplas e permanentes ocupações e estímulos, a facilidade com que contactamos com pessoas nossas conhecidas e a forma como muitas vezes socialmente estamos pouco disponíveis para tal, ou porque através dos dispositivos móveis estamos “sempre a ouvir algo” (música, por exemplo) ou em interacção com “conhecidos” (redes sociais, por exemplo), obstaculizam o contacto com desconhecidas/os ao nosso redor. E, a menor oportunidade gera maior dificuldade e receio e, sucessivamente, o hábito de não o fazermos, hábito que se reforça e autoalimenta. De não conhecermos mais outras/os, de não as/os procurarmos perceber, compreender, colocarmo-nos no seu lugar. De não nos confrontarmos com novas pespectivas ou pontos de vista. De recebermos, menos. De termos menos feedback.

Este período, de férias para algumas pessoas, pré-férias para outras ou simplesmente de Verão, é um bom momento para, com a quebra de algumas rotinas, reflectirmos sobre isto e activarmo-nos para procurarmos mais quem e o que nos rodeia. Olharmos fora do nosso círculo, permitirmo-nos humanizar, iniciar diálogos e discussões construtivas. Contribuirmos, um pouquinho que seja, para quebrar este nós vs. outras/os que com intensidade e impacto crescente nos cerca e nos polariza. Contribuirmos, um pouquinho que seja, para promovermos a empatia, as relações, a confiança… A paz, conforme ela se pode promover, pelo esbater do receio do desconhecido, do medo da outra e do outro e pelo reforço da coesão.

Do simbolismo variado (até pelo facto do Erik ser, também, psicólogo), às letras e às melodias profundas e introspectivas, é talvez um certo minimalismo tocante que melhor caracteriza os “Kings of Convenience”. Minimalismo que podemos e devemos usar para começar estes nossos diálogos com pessoas nossas desconhecidas… Comecemos com um minimal “Olá”. Surpreendamos. Deixemo-nos surpreender. No geral, fará e far-nos-á bem.

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A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência (Ao redor…; 11.07.2023)

Eis-nos no Verão. Tempo propicio a pensarmos em nós, no nosso corpo e mente, na nossa saúde e bem-estar. Tempo propicio a associarmos o calor, por vezes extremo, a “bom tempo”. Os alimentos orgânicos ou biológicos a algo “mais saudável”. Tudo quanto é natural a algo “que faz bem”, é seguro e eficaz. Nada mais simples. Nada mais, sistematicamente, aprendido. Nada mais errado.

Não, calor, por vezes extremo, não é “bom tempo”. Não, os alimentos orgânicos ou biológicos não são sempre “mais saudáveis” e seguros. Não, há alimentos naturais que “não fazem bem” e que podem, potencialmente, ser mais perigosos que outros, não biológicos ou orgânicos. Não, há produtos químicos ou sintéticos que são muito mais benéficos face a naturais na promoção da saúde e do bem-estar.

A complexidade desta questão reside no facto dos produtos naturais serem associados a algo “saudável” e “seguro” estando hoje, e na nossa sociedade, abundantemente disponíveis e intensa (por vezes, eficazmente) promovidos e “marketizados”. Podemos, hoje, sem grande dificuldade quando existe poder de compra, alimentarmo-nos todo o dia com produtos orgânicos ou naturais, considerando que desde 2019 mais de 60% dos novos produtos alimentares colocados no mercado mencionam ser “orgânicos”, “naturais” e/ou “sem aditivos”.

O viés pró-natural conjuntamente com o viés desta crescente disponibilidade, reforça a preferência pelo natural e, de certa forma, a “falácia do apelo pelo natural” que justifica, também, porque acabamos a aceitar pagar mais por estes produtos (face a convencionais) e porque inferimos benefícios para a saúde e bem-estar destas escolhas, alimentando todo o ciclo atrás descrito. No entanto, estas nossas escolhas não resultam, necessariamente, de recomendações oficiais e, como Alexandra Bento, Bastonária da Ordem dos Nutricionistas, recentemente afirmou “a evidência científica até à data não corrobora que o consumo de alimentos biológicos possa estar associado a menor incidência de doenças crónicas associadas ao estilo de vida”.

Esta “falácia do apelo pelo natural” tem dois riscos que importa ter presentes. O primeiro relativo a uma potencial generalização da ideia de que os alimentos / produtos convencionais ou químicos são menos saudáveis ou prejudiciais, algo que poderá conduzir a que sejam menos consumidos / utilizados, penalizando particularmente as pessoas e famílias com maiores dificuldades económicas ou com menor acesso a estes produtos (por exemplo, também por viveram em zonas mais remotas).

O segundo relacionado com a associação entre o apelo pelo natural e a negação da ciência, muito expressa, por exemplo, na crescente desconfiança e recusa de terapêuticas químicas (antibióticos e medicação no geral, quimioterapia, …), de terapêuticas baseadas na evidência como a psicoterapia ou outras intervenções psicológicas ou na desconfiança e negação das vacinas, apesar de terem sido e serem algo absolutamente preponderante na melhoria global de bem-estar e qualidade de vida, no aumento da esperança média de vida e diminuição da mortalidade infantil ou na prevenção e erradicação de um conjunto de doenças nas últimas largas décadas.

Mesmo na União Europeia (noutros países os dados são ainda mais significativos), e mesmo ainda em período pré-pandemia (na pandemia alguns destes problemas foram agudizados), mais de 1 em cada 3 cidadãos diziam que as vacinas poderiam “causar as doenças para as quais criam imunidade” e quase 1 em cada 3 “diminuir o sistema imunitário”, sendo a confiança na imunidade natural associada a ideias pró-naturalistas e um dos factores que mais contribuem para a hesitação na vacinação.

Estamos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio e, num Mundo onde a ciência e conhecimento estão mais acessíveis que nunca, o espaço e o debate público é profundamente influenciado por teorias da conspiração, desinformação ou notícias falas e promessas acientíficas ou pseudocientíficas de resolução dos problemas, dos mais simples aos mais complexos. Como Steven Pinker refere, mesmo para problemas muito complexos e com muito sofrimento associado para pessoas, famílias e comunidades, “o problema é que as pessoas aceitem (e utilizem) as soluções encontradas para os problemas”, vencendo-se o obscurantismo, missão fundamental da sociedade hoje.

Missão fundamental, mas exigente, quando existe um valor monetário e comercial significativo associado a esta situação e cultura. Nos EUA, o sector da saúde mental foi no final de 2022 a área com maior investimento na saúde digital e, ao investimento, não correspondeu o desenvolvimento e a necessária utilização da ciência e da melhor evidência científica, algo particularmente notório na proliferação de “aplicações de saúde mental”, não baseadas em evidência científica. Aplicações que, não raras vezes, prometem soluções para problemas complexos como a ansiedade ou a depressão com apelativas, também por simples, “terapias naturais ou orgânicas” (falar com amigas/os, sair de casa, …), importantes certamente, mas nunca substitutas de intervenções convencionais baseadas na evidência como a intervenção psicológica ou psicofarmacológica, quando necessárias. Significativo valor monetário e comercial, portanto, que vive dos desafios do presente e para o presente, mas que impacta verdadeiramente o futuro de todas as pessoas, seja no fomento do discurso anticiência, seja no fomento da desconfiança, seja no fomento de discursos mais populistas, antipolítica e políticos. Todos, em todo o caso, têm em simultâneo e paralelo a colocação dos interesses pessoais de alguém, de algum movimento ou partido, de alguma empresa ou negócio, acima do bem-comum e uma não preocupação com as pessoas em situação de maior vulnerabilidade, com um futuro de confiança, de ciência e de coesão. Com um futuro mais potencialmente promotor e possibilitador de bem-estar para todos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, passou a ser necessário “marchar” pelos factos, como assinalava recentemente um cartaz de um jovem numa manifestação por acções face à crise climática [“I can’t believe in marching for facts”]. Pelos factos, pela saúde pública e por acções contra a falácia do apelo pelo natural e contra a negação da ciência.

 

Tiago Pereira

A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência

in Sábado (Ao redor…); 11.07.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-falacia-do-apelo-pelo-natural-a-desigualdade-e-a-negacao-da-ciencia

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The kids are not all right

Vivemos um momento muito complexo relativo à prevalência de problemas de saúde mental nas crianças e jovens. Em rigor, vivêmo-lo em todas as faixas etárias, mas, muito especialmente, na população mais jovem.

Problema que não é problema apenas em Portugal. Há sensivelmente um ano fiquei profundamente impactado ao assistir a um evento muito a propósito intitulado “The kids are not all right”, sobre o declínio da saúde mental na população jovem nos EUA. Tal qual fico ao reflectir sobre o aumento das perturbações depressivas e de ansiedade na última década na Europa, com países como a França ou o Reino Unido a aumentarem 2 a 4 vezes a incidência. Ou quando observo dados portugueses sobre comportamentos autolesivos ou dados globais sobre suicídio na adolescência. Quando um relatório do Centers for Disease Control and Prevention indica que em 2021 13% das alunas do ensino secundário nos EUA tentaram o suicídio (30% consideraram-no seriamente), 20% se considerarmos o universo das/os estudantes LGBTQ+ (45% consideram-no seriamente), existindo dados consistentes também sobre a maior prevalência em jovens com pertenças comunitárias distintas.

Desigualdade(s). Exclusão. Nas suas antigas e novas formas, enquanto determinantes do passado e presente fundamentais para os problemas referidos, potenciados pelas novas formas de desigualdade e exclusão decorrentes da relação com as outras e outros (também por via das novas tecnologias e de uma sociedade focada no presente, no imediato e numa “ditadura” da felicidade), da pressão das notas e do mérito, da ausência de previsibilidade, controlo e de alguma segurança face ao futuro. Isto a par da carência de suporte e apoio consistente e contingente que acompanhe esta pressão e desafio à saúde mental e o capital social hoje existente que faz com que as/os jovens “exijam”, bem, respostas mais significativas e eficazes neste âmbito.

Sobre isto conversei com a Margarida Gaspar de Matos e a Tânia Monteiro Neves no Encontro Nacional de Psicólogos Ubuntu a 22.06, momento que aqui partilho: https://www.youtube.com/watch?v=qzRJWQvmqBs. Sobre isto conversei, com amigas/os e colegas de sempre, a convite da Cláudia Espiguinha Guerra, no meu primeiro Agrupamento de Escolas, onde estagiei e trabalhei os primeiros 7 anos enquanto psicólogo, reflectindo sobre os “Desafios na promoção da saúde mental de crianças e jovens”.

Sobre isto, finalmente, volto a partilhar o artigo “(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem” que escrevi na rubrica “Ao redor” em Setembro de 2022: https://www.linkedin.com/pulse/rosa-dos-ventos-da-saúde-mental-população-jovem-tiago-pereira/.

Também para lembrar que a pandemia continuou/aprofundou alguns destes problemas, nomeadamente as suas manifestações comportamentais. Apenas continuou/aprofundou, não explica por si o aumento consistente da última década, pelo que há muito mais a fazer que a simples (e importante) recuperação da pandemia.

Para isso, todos contamos. Todos somos fundamentais.

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A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência

“Eis-nos no Verão. Tempo propicio a pensarmos em nós, no nosso corpo e mente, na nossa saúde e bem-estar. Tempo propicio a associarmos o calor, por vezes extremo, a “bom tempo”. Os alimentos orgânicos ou biológicos a algo “mais saudável”. Tudo quanto é natural a algo “que faz bem”, é seguro e eficaz. Nada mais simples. Nada mais, sistematicamente, aprendido. Nada mais errado.”

“A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência”, 61º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a “falácia do apelo pelo natural” e dois riscos dela decorrentes:

  1. A potencial generalização da ideia de que os alimentos / produtos convencionais ou químicos são menos saudáveis ou prejudiciais, algo que poderá conduzir a que sejam menos consumidos / utilizados, penalizando particularmente as pessoas e famílias com maiores dificuldades económicas ou com menor acesso a estes produtos (por ex., também por viveram em zonas mais remotas);
  2. A associação entre o apelo pelo natural e a negação da ciência, muito expressa, por ex., na crescente desconfiança e recusa de terapêuticas químicas (antibióticos e medicação no geral, quimioterapia, …), de terapêuticas baseadas na evidência como a psicoterapia ou outras intervenções psicológicas ou na desconfiança e negação das vacinas, apesar de terem sido e serem algo absolutamente preponderante na melhoria global de bem-estar e qualidade de vida, no aumento da esperança média de vida e diminuição da mortalidade infantil ou na prevenção e erradicação de um conjunto de doenças nas últimas largas décadas.

“Estamos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio e, num Mundo onde a ciência e conhecimento estão mais acessíveis que nunca, o espaço e o debate público é profundamente influenciado por teorias da conspiração, desinformação ou notícias falas e promessas acientíficas ou pseudocientíficas de resolução dos problemas, dos mais simples aos mais complexos. Como Steven Pinker refere, mesmo para problemas muito complexos e com muito sofrimento associado para pessoas, famílias e comunidades, “o problema é que as pessoas aceitem (e utilizem) as soluções encontradas para os problemas”, vencendo-se o obscurantismo, missão fundamental da sociedade hoje.”

Mais ainda, quando a “falácia do apelo pelo natural” gera um “significativo valor monetário e comercial, vivendo, portanto, dos desafios do presente e para o presente, mas impactando verdadeiramente o futuro de todas as pessoas, seja no fomento do discurso anticiência, seja no fomento da desconfiança, seja no fomento de discursos mais populistas, antipolítica e políticos.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, passou a ser necessário “marchar” pelos factos, como assinalava recentemente um cartaz de um jovem numa manifestação por acções face à crise climática [“I can’t believe in marching for facts”]. Pelos factos, pela saúde pública e por acções contra a falácia do apelo pelo natural e contra a negação da ciência.”