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1000 dias e as políticas públicas

É inestimável a importância da ciência. Na psicologia, como em outras áreas, na conceptualização, no desenvolvimento de instrumentos e metodologias e na definição de protocolos de avaliação e intervenção baseados em evidência, é certo. Mas, também, nas dimensões macro fundamentais à sua disseminação e à sua transferência com impacto social, desde a promoção de literacia à tão importante, mas nem por isso pouco desafiante, informação ao desenho, avaliação e implementação de políticas públicas.

Na publicação da @The British Psychology Society procuro dar um exemplo de como a investigação sobre as causas e os impactos da vivência em situação de pobreza e de exclusão (parte significativa com contributo da ciência psicológica) tem permitido a densificação do conceito dos “1000 dias” e de como essa evidência deve informar as políticas públicas, nomeadamente sobre o quão fundamental pode ser na redução de ciclos de pobreza, mitigar estas situações em famílias em processo de gravidez e nos dois primeiros anos de vida do bebé. Algo sobre o qual temos vindo a trabalhar e advogar em Portugal.

Fi-lo em Brighton (UK), em Julho passado, aquando do 18º Congresso Europeu de Psicologia e logo após o Keynote que nele apresentei: “Multiple contributions of psychology to a “Full Stop to Poverty” – The role of psychological science, practice and professional associations” [“Múltiplos contributos para um “.Final à Pobreza” – O papel da ciência e da prática psicológica e das suas associações profissionais”]. 

O contributo para o desenho de políticas é essencial para maior e mais rápida generalização dos seus benefícios e dos impactos da ciência para a promoção, neste caso, da possibilidade de autodeterminação e de bem-estar para todas as pessoas. Em tempos particularmente desafiantes para a ciência é importantíssimo, também por este papel, que reflictamos sobre a história da nossa relativamente jovem, mas, muito importante ciência, procurando compreender os erros cometidos no passado e reforçando os mecanismos para, a cada dia, produzirmos mais e melhor ciência, reforçando a confiança das pessoas e sociedade nela e a sua capacidade de produzir impacto social.

Ps. Para mais informações sobre os “1000 dias” partilho duas publicações com alguns meses. Um artigo exactamente titulado “1000 dias” e a minha participação no programa da “É ou não e” (@RTP) sobre pobreza em que discuto sobre o tema.

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30 meses ao redor, um pedido e um compromisso (Ao redor…; 21.08.2023)

No próximo dia 24 de Agosto passam 30 meses da data em que escrevi o primeiro artigo desta rubrica. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e terminava com uma proposta: “Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.”

Nesse dia, sabia dos desafios complexos do país e do Mundo nesse momento e sabia, também, que estariam para vir outros, não menos complexos e não totalmente previsíveis. Estávamos a 24 de Fevereiro de 2021 e não previa que, exactamente um ano depois, se entrasse numa escalada da invasão pela Federação Russa da Ucrânia e se iniciasse uma Guerra na Europa. Ou que estaríamos hoje, enquanto nos debatemos com eventos climatéricos significativos resultantes, também, da crise climática, a discutir, como estamos a discutir, os impactos da inteligência artificial generativa, dos computadores espaciais e realidade virtual ou a preparamo-nos para pensar as transformações que podem advir com os futuros computadores quânticos.

É por isso, pensando no presente, mas sobretudo no futuro, que 63 artigos depois desse primeiro, aqui partilho um pedido e um compromisso.

Se há algo que parece unânime no debate público em Portugal, talvez no Mundo, é a necessidade de potenciar o crescimento económico. Ora, o pedido que partilho convosco é para que, enquanto sociedade, em Portugal e no Mundo, procuremos complementar este discurso e objectivo com a necessidade de promover, simultaneamente, a equidade e a segurança, incluindo psicológica, de pessoas e comunidades, como vectores fundamentais para, num quadro de direitos humanos, democracia e multilateralismo e de protecção do meio ambiente, contribuirmos para a possibilidade de bem-estar de pessoas e para a coesão social.

Tal como tem acontecido com a pobreza, particularmente com a pobreza extrema, também a nível global existiu nas últimas 3 décadas uma significativa redução das desigualdades globais entre países, manifesta em indicadores como a esperança média de vida, o acesso a alimentos e água potável, à educação ou à internet e outros meios de comunicação. Porém, existem neste percurso três questões que importa detalhar e que devem estimular reflexão e mobilizar enquanto sociedade.

Se a diferença entre os países classificados como economias mais desenvolvidas e menos desenvolvidas diminuiu nestes elementos, não o fez em todas as áreas. Dois exemplos em dimensões relevantes: a mortalidade infantil, que descendo em ambos os grupos de países, fê-lo muito mais intensamente nos países com economias mais desenvolvidas, aumentando a diferença e desigualdade. Também na poluição do ar a diferença aumentou nos últimos anos, muito devido ao crescimento das cidades, da população e da industrialização dos países apelidados de em desenvolvimento.

Este ponto, a par do acesso a espaços azuis e verdes, traz-nos à segunda importante questão. O facto de, além das iniquidades globais, existirem iniquidades nacionais. Em Portugal o ritmo de decréscimo tem sido relativamente baixo no que se refere aos rendimentos e permanecem desfasamentos significativos em elementos como a saúde, a educação, a habitação ou o acesso à recreação, à cultura ou ao desporto pelo nível de rendimentos, localização (por vezes dentro da mesma cidade) ou pertença comunitária. É, também por isso, que sendo possível como se tem demonstrado, importa acelerar e aprofundar a redução das desigualdades, algo fundamental à promoção da saúde pública, da capacidade de agência, controlo e previsibilidade das pessoas, logo do seu bem-estar e, portanto, do desenvolvimento da sociedade.

Finalmente, a redução das desigualdades está também positivamente associada a maior confiança nas outras pessoas, nas instituições, incluindo políticas, e na coesão social. É por isso que retrocessos nos últimos anos na redução da desigualdade em algumas áreas, particularmente na que se refere à vivência de liberdades de direitos e política e da vivência em democracias, periga estes elementos e nos deve fazer reflectir na forma como forças da sociedade civil e da política usam o medo, a instigação do ódio e a desinformação para procurar polarizar a sociedade, promover a desconfiança, romper contratos sociais e diminuir direitos. Como os usam para fragilizar a segurança, incluindo a segurança psicológica, de todas as pessoas numa sociedade.

O discurso de ódio e o desrespeito por condições diversas de vivência, incluindo práticas religiosas, pertença comunitária, condição de vivência no país ou orientação sexual, depois de terem diminuído significativamente nas últimas décadas, estão, nos últimos anos, em crescimento em alguns países e continentes no Mundo, incluindo na Europa. A ascensão das chamadas “democracias iliberais” e o retorno do autoritarismo em alguns países condicionam a segurança, incluindo a psicológica, e a igualdade, como fundamentos base das sociedades. Prevenir, portanto, a inversão de caminhos de maior segurança psicológica para todas as pessoas e comunidades, desde logo na Europa e em Portugal em concreto e generalizar esta necessidade Mundo fora, é fundamental à promoção do bem-estar das pessoas e da coesão social. Da possibilidade de respondermos à adversidade e a acontecimentos de vida negativos com suporte de outras pessoas e/ou com apoio comunitário ou social. Da possibilidade de errarmos e de, por isso, não sermos eternamente penalizados, particularmente se tivermos determinadas características ou condições face a outras pessoas, com outras características ou condições.

É este, assim, o meu pedido. Que à necessidade de crescimento económico, unânime no debate público, somemos a promoção da equidade e da segurança, incluindo psicológica, e que todas as pessoas, quaisquer que sejam os seus papéis e responsabilidades na sociedade, se envolvam e para isso contribuam. Se este é o meu pedido, o compromisso que partilho é que, enquanto este espaço e esta rubrica me for permitida, também aqui vou continuar a disponibilizar contributos, a partir de um olhar que procuro que seja informado pela ciência, para que este pedido seja tema e desígnio e de como é possível continuarmos e acelerarmos o caminho percorrido nestas áreas em Portugal e no Mundo.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a psicologia, enquanto ciência e profissão, tem, necessariamente, que procurar contribuir mais para informação e literacia da população sobre os impactos da desigualdade e da insegurança psicológica nas pessoas e sua possibilidade de bem-estar, nas comunidades e seu desenvolvimento e na sociedade e sua coesão social. Tem, também e necessariamente, que contribuir, conjuntamente com outras disciplinas, para promover situações e/ou transformações sociais que permitam e promovam os valores da equidade e da segurança, incluindo a segurança psicológica. Por isso, este meu pedido, a quem me lê e também à minha ciência e profissão. Por isso, este compromisso meu, como responsável desta rúbrica e enquanto psicólogo.

 

Tiago Pereira

30 meses ao redor, um pedido e um compromisso

in Sábado (Ao redor…); 21.08.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/30-meses-ao-redor-um-pedido-e-um-compromisso

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Comportamento Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social

Penso claro para todas e todos que as questões da saúde mental estão hoje muito mais presentes no espaço/debate público face ao que acontecia há muitos, alguns e, até, há poucos anos. São diversos os fenómenos que para isso contribuem e que tornam relevantes projectos de comunicação nesta área que promovam a literacia, a personalização/concretização da informação e, fundamentalmente, a credibilidade, factualidade e cientificidade da mesma.

Penso claro, também, que este movimento beneficia do envolvimento de todas as pessoas. Que a secção do Observador dedicada à Saúde Mental é um excelente exemplo, pelo envolvimento de diversas entidades, projectos, profissionais de saúde e cidadãos. Que o título escolhido para a newsletter da secção (“Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental”), da responsabilidade do Paulo Farinha, é profundamente significativo e representativo disso mesmo.

Há dias foi publicado o artigo/contributo meu para o projecto, que partilho. A propósito do título da newsletter chamei-lhe “Temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social” e, destacando a importância de “aceder[mos] a informação de qualidade, cientificamente validada e ajustada aos nossos conhecimentos, experiências e necessidades para que possamos melhor reconhecer o que estamos a vivenciar, atribuir-lhe significado e promover mudanças”, reflicto sobre o facto de “falar sobre saúde mental implica[r] falar também sobre o que a influencia e, muitas vezes, determina”, particularmente da pobreza e exclusão social.

“Cresci numa aldeia que durante muito tempo via partir pessoas, demasiadas pessoas, e com elas, “partia” famílias, relações e a comunidade. Pessoas que, como o meu avô (e depois os meus 2 tios), saiam da aldeia e depois do país a pé, boleia aqui, boleia ali, a caminho de diferentes cidades e países (…) Eu sei o quanto a pobreza impacta a possibilidade de saúde, de bem-estar, de autodeterminação. Eu sei o quanto a pobreza e a exclusão limitam e obstaculizam a saúde mental. Eu sei e você sabe-o. Se queremos falar sobre saúde mental temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social.”

Mas “todas as pessoas que vivem em situação de pobreza têm ou vão ter uma dificuldade de saúde mental ou mesmo desenvolver doença mental? Ou, todas as pessoas com doença mental vivem ou viveram em situação de pobreza e exclusão?”, questiono. “Não. E não. Mas, não sendo uma inevitabilidade, há uma relação forte entre a vivência em situação de pobreza e exclusão e os problemas de saúde mental, principalmente o stresse, a ansiedade e a depressão.”

“Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental. De pessoas, da vida dessas pessoas por trás dos impressionantes números. De acesso e de equidade e qualidade no acesso a literacia, recursos e serviços na área da saúde mental, certamente. Mas, se queremos falar de saúde mental, temos também de falar sobre como combater a pobreza e os seus ciclos geracionais e de como construir uma sociedade mais inclusiva e mais sensível à diversidade.”

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Especiais interesses…

Não sei quantas e quantos de vós já estiveram dentro de uma pegada de dinossauro com cerca de 175 milhões de anos. Eu já estive e, além de fascinante, é uma sensação complexa, pela difícil concretização da ideia de estar, no presente, numa pequena cratera, produzida por um ser vivo de uma espécie extinta que, naquele caso, podia ter tido até 30 metros de altura e pesar 70 toneladas.

Mais quando a primeira vez que o fiz foi num momento em que ainda não abundava o acesso fácil à informação e à imagem que a internet e televisão/streaming proporcionam ou aos parques temáticos que, conjuntamente, permitem maior concretização.

Essa primeira vez seguiu-se a 3 acontecimentos significativos para mim naqueles anos próximos: um livro que recebi, hoje impossível pela crueza da informação e imagem e, até, pela informação hoje existente e não existente à época, livro que esteve no meu quarto de infância até ao dia em que mudou para o quarto do meu filho mais velho; o filme e todo o “universo Jurassic Park”; e todo o debate em torno da Pedreira do Galinha, ali a poucos km da minha aldeia, onde se tinham descoberto os trilhos de pegadas e onde meses (anos até) de debate se prolongaram até à abertura do parque das “Pegadas dos Dinossauros da Serra de Aire”. Hoje serão poucas as crianças que não visitaram já uma exposição ou um parque temático com reproduções próximas de diferentes dinossauros e/ou que não tenham acedido a ampla informação, imagens, vídeos sobre dinossauros. Mas…

O meu fascínio, o nosso fascínio, é o fascínio dos meus e nossos filhos, das crianças de hoje e, penso, de amanhã. Aqui e Mundo fora.

Fascínio que nos une, também porque atravessa gerações, reforçando a nossa curiosidade pelo que nos rodeia, pelo nosso passado, pela nossa história, pelo nosso planeta. Ainda, porque trata de seres vivos poderosos e gigantes, algo particularmente magnético para crianças e que se associa à atracção destas por meios de transporte / veículos de grandes dimensões (algo que também, hoje, testemunho) como autocarros, camiões, tractores, comboios ou aviões, estes últimos “voadores” como alguns dinossauros.

Podemos chamar-lhe “hiperfixação” ou “um especial interesse”. É comum, natural, talvez até desejável, seja face a dinossauros, como em tantas crianças, seja face a outro tema. Estimula o jogo baseado na imaginação e conceptualização, sendo particularmente benéfico para o desenvolvimento cognitivo das crianças pois requer (mais) atenção, persistência e aprofundamento da informação, além de relacionamento com outra informação e memória.

As férias, incluindo as “férias grandes”, são momentos relevantes para as famílias percorrerem estes especiais interesses das crianças. As escolas, aí à porta, em qualquer ciclo de estudo incluindo o pré-escolar, são instituições relevantes para reconhecerem e validarem os especiais interesses de cada aluna/o e garantirem espaços para o seu desenvolvimento, por exemplo, através de trabalho em equipa, grupo ou de projecto.

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30 meses ao redor, um pedido e um compromisso

Hoje passam 30 meses da data em que escrevi o 1º artigo da rubrica “Ao redor”. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e terminava com uma proposta: “Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.”

“Nesse dia, sabia dos desafios complexos do país e do Mundo nesse momento e sabia, também, que estariam para vir outros, não menos complexos e não totalmente previsíveis. Estávamos a 24 de Fevereiro de 2021 e não previa que, exactamente um ano depois, se entrasse numa escalada da invasão pela Federação Russa da Ucrânia e se iniciasse uma Guerra na Europa (…) É por isso, pensando no presente, mas sobretudo no futuro, que 63 artigos depois desse primeiro, aqui partilho um pedido e um compromisso.”

“30 meses ao redor, um pedido e um compromisso”, 64º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte do pedido de complementarmos o discurso sobre a necessidade de promovermos crescimento económico, “com a necessidade de promovermos, simultaneamente, a equidade e a segurança, incluindo psicológica, de pessoas e comunidades, como vectores fundamentais para, num quadro de direitos humanos, democracia e multilateralismo e de protecção do meio ambiente, contribuirmos para a possibilidade de bem-estar e para a coesão social.”

Afirma-o possível, como a redução significativa das desigualdades nas últimas 3 décadas demonstrou, mas desafiante, particularmente no que se refere a determinadas dimensões e a “iniquidades internas”, por ex. em Portugal, onde “o ritmo de decréscimo da desigualdade tem sido relativamente baixo no que se refere aos rendimentos e permanecem desfasamentos significativos na saúde, educação, habitação ou no acesso à recreação, cultura ou ao desporto pelo nível de rendimentos, localização (por vezes dentro da mesma cidade) ou pertença comunitária.”

Nele abordo ainda como “a ascensão das chamadas “democracias iliberais” e o retorno do autoritarismo em alguns países condicionam a segurança, incluindo a psicológica, e a igualdade, como fundamentos base das sociedades” essenciais “à promoção do bem-estar e da coesão social.”

Assumo, finalmente, o compromisso de, “enquanto este espaço e esta rubrica me for permitida, continuar a disponibilizar contributos, a partir de um olhar que procuro que seja informado pela ciência, para que este pedido seja tema e desígnio e de como é possível continuarmos e acelerarmos o caminho percorrido nestas áreas em Portugal e no Mundo.”

São particularmente significativos os “impactos da desigualdade e da insegurança psicológica nas pessoas e sua possibilidade de bem-estar, nas comunidades e seu desenvolvimento e na sociedade e sua coesão social” (…) “Por isso, este meu pedido, a quem me lê e também à minha ciência e profissão. Por isso, este meu compromisso, como responsável desta rúbrica e enquanto psicólogo.”

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A confiança, uma vez mais…

Quem por aqui me vai acompanhando sabe-me fascinado por pormenores e pelo simbólico. O não tangível que partilhamos e aquilo em que precisamos de acreditar, juntos, para que exista. Da democracia ao dinheiro passando pelas instituições, é o facto de acreditarmos (ou não) neles que os (des)legitima e lhes dá (ou não) valor.

Nesse acreditar, a confiança é essencial. Confiança que vai sendo desafiada, ora pela quebra dos mediadores formais no acesso à (des)informação na sociedade contemporânea, ora por pessoas, organizadas ou não, com fins políticos ou económicos.

Quem por aqui me vai acompanhando sabe também que julgo que a confiança (em nós, nas/os outras/os e nas instituições) é um valor essencial a promover e preservar porque influencia a nossa possibilidade de bem-estar e a coesão social. Sabe, ainda, que defendo que acompanhemos as tendências da confiança da população, como fonte de informação sobre os factores que as determinam e para a tomada de decisão informada.

Nesse sentido, numa equipa coordenada pelo Miguel Ricou e que envolveu na 1ª fase a Sílvia Marina, a Helena Patrícia Pereira e o Ricardo Picoli e depois o Hugo Rodrigues Fernandes, promovemos dois pequenos estudos acerca da confiança em grupos profissionais no período da pandemia por COVID-19. O 1º publicado em Março de 2021 [COVID-19 Pandemic: Effect on Confidence Levels of Portuguese Towards People of Different Professions]. O 2º há dias [Trends in trust of professional groups in Portugal during COVID-19].

Neles encontramos resultados que apontam para o aumento da confiança em grupos profissionais cuja actividade se baseia na ciência neste período, particularmente, em médicas/os, enfermeiras/ou e investigadoras/es, e uma tendência contrária em jornalistas e decisoras/es políticas/os, algo que, creio, merece reflexão.

“Em 1964 73% das/os Republicanas/os dizia confiar que o governo federal faria o melhor sempre ou quase sempre. Hoje esse número desceu para 9%. Podemos ver a mesma tendência para os media, as Escolas ou Universidades públicas ou as vacinas. Não podemos compreender o Partido Republicano hoje sem compreender o colapso total da confiança nas instituições”, dizem-nos a abrir uma conversa com Katharine Ham’s sobre a “rampa deslizante” para a desconfiança nos EUA.

Ouço-o e evoco o Cormac McCarthy que no seu “A Estrada” tratou a confiança máxima entre pai e filho num contexto de desconfiança máxima, num Mundo pós-apocalíptico, com a civilização e as suas bases em colapso. Nele escreveu: “Tu tens de carregar o fogo. | Eu não sei como. | Sim, sabes sim. | O fogo é real? | O fogo? Sim, é. | Onde está? Eu não sei onde está. | Sim, sabes. Está dentro de ti. Sempre esteve lá. Eu consigo vê-lo.”

A confiança está dentro de nós. Que a carreguemos e que façamos, juntos, por a ver e nela acreditar.

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Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro (Ao redor…; 09.08.2023)

“Não, acho que os tempos eram outros (…) Vivíamos em tempos sem medo do futuro. Com uma grande expectativa em relação ao que poderia vir do futuro.” Recentemente, num podcast, ouvi a Eurodeputada Marisa Matias dizê-lo, após explicar o seu dia-a-dia enquanto estudante universitária num momento em que, depois das aulas e durante cerca de dois anos, trabalhou entre as 22h e as 02h. “E tu pensavas quando estavas nesses trabalhos, nessas limpezas e a trabalhar à noite, que estavas numa espécie de ciclo fechado, que seria difícil sair dele? Ou seja, que estavas quase que fadada a uma vida que não sairia daquilo?”, havia perguntado o jornalista. “Sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E perspectiva.

Muito mudou nas décadas que passaram sobre o tempo em que a geração de 70 pensava o futuro quando adolescentes e jovens adultas/os. Muito. Mudaram as circunstâncias. Mudou a rapidez com que mudam as circunstâncias e como as mudanças nos impactam. Mudou a forma como acedemos e comunicamos as circunstâncias. Quando antes pensávamos e projetávamos e projetávamo-nos no futuro, hoje tendemos para o presente, como que soprados por ventos de incerteza. Hoje tendemos para o presente, como que estimulados por media e por redes sociais que reforçam a propensão humana de considerarmos mais o caso que a tendência, mais o negativo que o positivo.

Tudo a concorrer para que o medo emerja e se propague, gerando mais ansiedade e medo, dividindo-nos como sociedade, condicionando-nos e não nos permitindo florescer e desenvolver como indivíduos. Impelindo-nos para nos polarizarmos, como sociedade. Impelindo-nos para nos comportarmos, nos movermos, nos mobilizarmos mais pelo evitamento do que não queremos, do que não gostamos, do que não acreditamos, de quem não queremos que pela procura do que queremos, do que gostamos, do que acreditamos, de quem queremos. Para nos activarmos, pela oposição. Para, fundamentalmente, descrermos das outras e dos outros e da sociedade. Para desacreditarmos de nós. Para perdermos a perspectiva.

Mas, também no podcast, a Eurodeputada Marisa Matias conta-nos sobre o seu pai e sobre os quase dois anos em que este dormiu cada noite da sua semana em dois períodos. O imediatamente anterior ao despertador tocar para a ir buscar a Coimbra, onde estudava e trabalhava, às 02.30h de cada madrugada. O que sucedia à chegada de ambos e antecedia o despertador tocar, novamente, para mais um dia de trabalho seu e de estudo e trabalho dela. De uma ela, sua filha, “sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E esperança.

Uma esperança possível, naquele momento, dependente das circunstâncias, mas, também, do que e de quem nos rodeia. Não um desejo passivo. Não forças que ilegitimam as dúvidas, as dificuldades, a sobrecarga. Antes uma esperança enquanto energia que nos activa, pela agência. Antes uma esperança que nos devolve poder, controlo e motivação, porque nos dá um caminho. Uma esperança que previne que nos movamos pelo medo, de falhar (novamente), por exemplo. Uma esperança que previne que nos movamos pelo evitamento, de ousar tentar, para não falhar (novamente), por exemplo.

Uma esperança possível e que, também pela ciência que a estuda, sabemos que se desconstrói quando, perante a adversidade, a raiva ou a fúria bloqueiam objectivos perspectivados, resultando, sucessivamente, numa descrença que não nos permite ajustar objectivos, porque nos bloqueia os caminhos, e numa apatia que nos desmotiva e pode vencer. Mas, ao contrário, que se constrói, que se pode promover, ensinar, educar. Uma esperança que depende de identificarmos um caminho e de navegarmos através dele com sentido de agência e de controlo. Que vive de histórias significativas para nós e exemplos, que vão além da mera ocasião e são especialmente impactantes quando tratam processos de construção e vida longos no tempo e impacto. De como, ainda, vive do suporte social e de como a resistência colectiva promove a esperança colectiva. De como a esperança, individual e colectiva, nos pode activar, enquanto indivíduos e sociedade, e se sobrepor ao medo e ao evitamento.

A perspectiva e a esperança são antídotos poderosos para os impactos negativos dos complexos desafios do presente e do futuro. São veículos essenciais para navegar o Mundo actual e as suas circunstâncias, para a nossa adaptação e bem-estar. E, se forças existem que os desafiam, são também possíveis de ensinar, de educar, de desenvolver e, particularmente, de construir. Também pela ciência. Também com psicólogas e psicólogos, como motor junto de indivíduos e da sociedade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, precisamos de olhar e pensar mais as tendências e menos as manchetes. Mais as tendências dos dados que determinam o bem-estar e como têm ou não evoluído. Menos as manchetes dos media que nos dão o acontecimento, em cima do acontecimento, não raras vezes marcado pela negatividade. Mas, também, mais as nossas tendências e menos, apenas, o nosso dia-a-dia, não raras vezes marcado pela adversidade. Recuperar um “sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E desenvolver perspectiva, construindo esperança.

 

Tiago Pereira

Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro

in Sábado (Ao redor…); 09.08.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/desenvolver-perspectiva-e-construir-esperanca-como-antidoto-para-os-desafios-do-presente-e-do-futuro

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Dualidade(s)

Ontem nasceu em Portugal o primeiro bebé por inseminação pós-morte. O Hugo resulta de uma luta e activismo da sua mãe, Ângela, que nos e o inspirará, estou certo, vida fora. Desse activismo, e de um desejo partilhado com o seu marido que faleceu vítima de cancro aos 29 anos, e que deixou escrito que o desejava, mesmo quando a Lei ainda não o permitia.

Lei esta, agora com resultado concreto, cuja base, desafiante, não depende apenas das áreas da Medicina, Direito ou Ética. Envolve, também e necessariamente, a Psicologia e a consideração dos impactos psicológicos destes processos, naturalmente complexos, em todas as pessoas envolvidas. Isso mesmo referiu a Ordem dos Psicólogos Portugueses no contributo científico em fase de discussão da alteração à Lei (https://recursos.ordemdospsicologos.pt/files/artigos/parecer_sobre_projectos_de_lei_n___214_xiv__223_xiv__237_xiv_e_572_xiv.pdf) que o passou a possibilitar e que permitiu, entre outras alterações, que fosse nela incluído um ponto (Art. 22º; 7) que refere que “É assegurado, a quem o requerer, acompanhamento psicológico no quadro da tomada de decisão de realização de uma inseminação post mortem, bem como durante e após o respetivo procedimento.” Um contributo da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos para, cremos, melhorar a Lei e reforçar a possibilidade de bem-estar de todas as pessoas envolvidas e a confiança da sociedade nestes processos.

Este nascimento acontece, curiosamente, quando estou a ler um pequeno livro cujo narrador é um bebé ainda no útero da sua mãe, no seu último trimestre de gravidez. A certa altura tem uma passagem impactante sobre a sua dúvida em se nascerá num “tempo bom” quando considera os desafios do tempo presente (de há menos de uma década) de um Reino Unido onde nascerá Vs. o tempo do bem-estar e de todos os indicadores que, retirando os desafios imensos que descreveu, tornariam sempre o melhor e, eventualmente, mais seguro momento para nascer e viver no contexto do UK.

Esta dualidade creio que nos acompanha também nestes exemplos. Esta possibilidade, oportunidade, mesmo num tempo desafiante. Esta, outras, outra.

Penso, por exemplo, o que pensaria G. Engel quando, após a publicação em 1977 de um artigo na Science propondo um “modelo biopsicossocial” que desafiasse “o modelo biomédico” que “não deixa espaço na sua conceptualização ao papel das dimensões sociais, psicológicas e comportamentais na doença”, veria passarem 23 anos até ao fim do século e milénio e mais 23 anos de novo século e milénio para as United Nations aprovarem, em 26 de Junho último, a primeira resolução sobre “saúde mental e suporte psicossocial” para o desenvolvimento sustentável e paz, assente na protecção direitos humanos.

46 anos passaram, é certo. Mas temos hoje aprovada por unanimidade (e bem sabemos o quão isso é relevante por difícil ao tratar direitos humanos no quadro dos países da ONU) uma resolução que o determina e nos convoca. A todas e todos, por todas e todos.

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Fact Check – PHDA

A 30 de Julho de 1962 a capa do New York Times assinalava o pedido de “desculpas incondicionais” do presidente Eisenhower (EUA) à Suécia. Pedido de desculpas relativo a um discurso que havia feito 2 anos antes onde associara as políticas sociais da Suécia a um caminho para um país de “pecado, nudez, consumo excessivo de álcool e suicídio”. Sabemos, ainda melhor hoje e com maior escala de dados, a evolução da Suécia nestes 60 anos. Mas já sabíamos da inversão da taxa de suicídio, particularmente nos homens a partir dos anos 50, e que sendo ainda muito alta nos anos 60, muito decresceu, sendo já há anos mais baixa que a dos EUA.

Sabemos. Sabíamos. Mas a utilização de informação não factual ou de desinformação em política não é um fenómeno de hoje. Como não o é noutros aspectos da nossa vida, do marketing à saúde, incluindo, pela sua sensibilidade, a saúde mental e parentalidade. Tem passado. Tem presente, expandido pela diminuição de mediadores na comunicação, pela tecnologia que aumenta o acesso e pelos algoritmos das redes sociais que estimulam a sua (rápida) propagação e polarização. Terá futuro, com tecnologias ainda mais poderosas e, potencialmente, impactantes.

Pelo seu papel na saúde e bem-estar de indivíduos, na saúde pública, equidade e coesão da sociedade, projectos diversos de fact check são fundamentais ao tempo que vivemos. Partilho um, da autoria da Ana Kotowicz, uma importante colaboração do Observador com o Facebook, com contributo meu.

Trata-se do “Fact Check – Teste online permite fazer diagnóstico de perturbação de hiperatividade com défice de atenção?” a propósito de uma publicação assim resumida pela jornalista: “Nas redes sociais, um destes testes [Motion Induced Blindness] está a ser partilhado como uma forma de testar, muito rapidamente, se se tem Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA). O problema? Não é verdade, como explica ao Observador o psicólogo Tiago Pereira.” Continua referindo que argumento existir “um aspeto positivo que leva a que este tipo de publicações apareçam”, a crescente “procura de informação sobre o tema e isso é bom” e que “a parte menos boa é que a informação factual coabita com informação não factual e enganadora, assim como a ciência coabita com a pseudociência nas redes sociais.”

Na peça refiro-me, ainda, a dados de prevalência e questões associadas ao diagnóstico de PHDA e aponto a especial “perversidade” da publicação dado que num dos poucos estudos que existem sobre a utilização do teste para diagnóstico de PHDA as/os autores “reconhecem [sublinhando-o] que não é possível utilizar esta ilusão visual para fazer um diagnóstico”.

Como o pedido desculpas, o fact check não resolve tudo, bem sabemos. Mas também sabemos da importância de repor a factualidade, a ciência, e, particularmente, de criarmos espaço, contexto e estímulo nas redes sociais e na sociedade que, com liberdade, não permita a diluição da fundamental separação entre ciência e pseudociência e factos e opiniões.

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Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro

“Não, acho que os tempos eram outros (…) Vivíamos em tempos sem medo do futuro. Com uma grande expectativa em relação ao que poderia vir do futuro.” Recentemente, num podcast, ouvi a Eurodeputada Marisa Matias dizê-lo”, após explicar um dia-a-dia particularmente exigente, como um momento da sua vida. “Sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E perspectiva.

“Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro”, 63º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte do quanto mudou desde “o tempo em que a geração de 70 pensava o futuro quando adolescentes e jovens adultas/os”.

O quanto “mudaram as circunstâncias, a rapidez com que mudam e como nos impactam. Mudou a forma como acedemos e comunicamos as circunstâncias.” (…) O quanto hoje “tendemos para o presente, como que estimulados por media e por redes sociais que reforçam a propensão humana de considerarmos mais o caso que a tendência, mais o negativo que o positivo.” (…) O quanto isto concorre “para que o medo emerja e se propague” (…) e nos impele “para nos comportarmos, nos movermos, nos mobilizarmos mais pelo evitamento do que não queremos, do que não gostamos, do que não acreditamos, de quem não queremos que pela procura do que queremos, do que gostamos, do que acreditamos, de quem queremos (…) Para, fundamentalmente, descrermos das outras e dos outros e da sociedade. Para desacreditarmos de nós. Para perdermos a perspectiva.”

Mas, também no podcast, conta-nos que o seu pai acordava todas as noites para, de madrugada, a ir buscar a Coimbra, podendo assim trabalhar à noite enquanto estudava (…) “Sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E esperança.

Uma esperança possível (…) não um desejo passivo. Não forças que ilegitimam as dúvidas, as dificuldades, a sobrecarga. Antes uma esperança enquanto energia que nos activa, pela agência (…) que previne que nos movamos pelo evitamento.

“Uma esperança possível e que, também pela ciência que a estuda, sabemos que se desconstrói quando, perante a adversidade, a raiva ou a fúria bloqueiam objectivos perspectivados (…) Mas, ao contrário, que se constrói, que se pode promover, ensinar, educar. Uma esperança que depende de identificarmos um caminho e de navegarmos através dele com sentido de agência e de controlo (…) Uma esperança, individual e colectiva, que nos pode activar, enquanto indivíduos e sociedade, e se sobrepor ao medo e ao evitamento.”

“A perspectiva e a esperança são antídotos poderosos para os impactos negativos dos complexos desafios do presente e do futuro. São veículos essenciais para navegar o Mundo actual e as suas circunstâncias, para a nossa adaptação e bem-estar. E, se forças existem que os desafiam, são também possíveis de ensinar, de educar, de desenvolver e, particularmente, de construir. Também pela ciência. Também com psicólogas e psicólogos, como motor junto de indivíduos e da sociedade.”