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Um Mundu Nôbu

“A tua terra é o Mundo, o teu coração bate no mesmo compasso dos outros, mas algo te diz que o caminho não é igual para todos (…) Estamos aqui para fazer esse caminho contigo. Para construir um lugar onde a diversidade é celebrada, e onde os sonhos e as conquistas não dependem da origem de cada um (…) Um Mundu Nôbu.”

Parto de parte do manifesto da Mundu Nôbu, uma nova ONG há dias apresentada, para um conjunto de reflexões, um convite e um apelo a partir mesma.

Pensar a Mundu Nôbu é para mim impossível sem o fazer a partir das duas incríveis pessoas que a idealizaram e construíram: o enorme e talentoso Dino D’Santiago e o seu forte impulso e compromisso em retribuir; a inspiradora e sagaz fazedora Liliana Valpaços e a sua capacidade de atrair e reunir pessoas em volta de uma missão.

Mas é-o também sem pensar o que foi, lá mais atrás, a minha experiência (e para a frente, o meu desejo) de participar no desenho e implementação de projectos de intervenção comunitária e transformação social. Do quão significativo foi, é e pode ser… Dos enormes desafios que normalmente se enfrentam, alguns dos quais, que me lê, sabe que tenho procurado discutir (um exemplo apenas: https://www.linkedin.com/pulse/estamos-falhar-às-pessoas-em-situação-de-maior-tiago-pereira-yab5f/).

Felizmente, parte deles, esta ONG, estas pessoas, este projecto ultrapassam… Um Mundu Nobu no social, portanto, a contribuir com oportunidades e possibilidades para um Mundu Nobu.

E, por isso, vos convido… Colegas que me lêem, outras e outros profissionais das áreas da educação, saúde e, particularmente, da área social, convido-vos a conhecerem o projecto, a envolverem-se, a promoverem-no e a serem mediadoras/es e influenciadoras/es junto da população mais jovem, com quem trabalham (14 a 18 anos), residente em bairros sociais de Lisboa, para que aqui se inscrevam (https://mundunobu.my.site.com/oteulugar/) no programa da Mundu Nôbu (uma adaptação da metodologia da The Brotherhood Sister Sol) até ao próximo dia 15 de Julho. O programa será totalmente gratuito e visará um acompanhamento próximo, entre 4 a 6 anos, de 160 jovens, promovendo “o autoconhecimento, pensamento crítico e um projeto de vida sólido e consciente, num contexto de combate à falta de representatividade.” Diferenciador, visionário, empoderador.

Finalmente, o apelo. Construir oportunidades e possibilidades. Promover a equidade, celebrar a diversidade, entender os desafios e os problemas sociais como de todas as pessoas e não apenas das e dos que mais sofrem com eles. Tudo, neste exemplo e neste tempo de enorme desafio ao ideal dos Direitos Humanos Universais, deve fazer-nos reflectir e questionar o nosso papel para co-constuirmos “…um mundo em que derrubamos barreiras e estamos juntos, no mesmo ponto de partida: um Mundu Nôbu.”

Vamos a isso?

Obrigado, Dino. Obrigado, amiga Liliana.

Mais informações: https://mundunobu.org

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Comportamento Desafios da Psicologia Psicologia

(não) fica bem falar de… saúde mental na adolescência.

“As inseguranças, as comparações e a iniciação às redes sociais… A verdade é que acabamos por pensar pouco nos porquês das transformações que acontecem durante a adolescência.”

Excerto inicial da apresentação do episódio do podcast “(não) fica bem falar de…” sobre saúde mental na adolescência. Uma (para mim muito interessante – mas comentários são muito bem-vindos) conversa, que aqui partilho em vídeo, entre mim e uma perspicaz e incisiva Jessica Athayde, com quem partilho um tempo de adolescência necessariamente diferente do tempo de quem hoje vive este intenso e determinante período desenvolvimental.

Na conversa, conforme continua a apresentação do episódio, discutimos “o momento paradoxal em que vivemos, em que temos cada vez mais recursos, informação e sensibilidade para com este assunto, mas também uma pressão crescente e nunca vista no que toca aos desafios que se colocam à saúde mental dos adolescentes, especialmente no caso das [meninas e] mulheres.”

Abordamos questões tão diversas como complexas, da violência no namoro, à pressão para “estar bem”, do sono à forma como podemos e devemos manter canais de comunicação e espaço de segurança psicológica com as e os adolescentes. Falamos de cremes anti-rugas, de auto-estima, de idades que se cumprem e não se cumprem relativas às redes sociais e de como, eventualmente, mais literacia e regulação tenderão a funcionar melhor que proibição, também porque, de acordo com a investigação, nem tudo é negativo (embora por vezes muito seja) na exposição da população jovem às redes sociais.

Discutimos, como também refere a apresentação da conversa, “de que forma é que o contacto com as redes sociais afeta a auto-estima e a saúde mental a longo prazo” e como podem os e as adolescentes “lidar com a pressão de parecer sempre bem e sempre feliz”, procurando-se partilhar algumas pistas de reflexão para preocupações hoje comuns de mães, pais, cuidadoras/es, familiares, professoras/es, … relativas a este período.

Falamos, ainda, de sinais de preocupação e, eventualmente, de como procurar cuidar dos limites, por vezes muito pouco claros, entre o sofrimento e as vicissitudes naturais deste período e o sofrimento e vicissitudes que excedem o natural e nos devem mobilizar para respondermos e apoiarmos, individualmente. Conforme falamos que o número hoje muito significativo de condições na área da saúde mental da população mais jovem nos deve fazer reflectir, numa dimensão de esperança e optimismo que a conversa também comportou, como enquanto sociedade temos o dever de nos mobilizar para, progressivamente, produzirmos transformações societais que permitam mitigar o paradoxo acima referido e garantir mais possibilidade de saúde, incluindo mental, e bem-estar às e aos adolescentes e mais equidade no acesso a essas possibilidades.

Uma interessante conversa, dizia. Sobre uma muito desafiante e, também por isso, interessante idade. Obrigado à produção, pelo convite. Obrigado, Jessica.

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Comportamento Desafios da Psicologia Emergência Climática Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Dia Mundial do Ambiente

9 em cada 10 Portuguesas/es entende a crise climática que vivemos como um problema muito sério para o Mundo. Foi este o enquadramento da produção do “Bom dia Portugal” (RTP) para a conversa que partilho, no Dia Mundial do Ambiente (5.6).

Mais, 1 em cada 5 entende mesmo que as alterações climáticas são o mais grave problema societal que enfrentamos, dados de um trabalho da Comissão Europeia que posicionam Portugal como um dos países da UE onde a preocupação é mais significativa.

Na entrevista começo por referir que os dados não serão alheios ao facto de uma grande percentagem de população viver na faixa litoral e ao impacto das alterações climáticas (aumento da temperatura, seca, etc.) têm em actividades económicas importantes para o país como a agricultura, as pescas ou o turismo. Não são também alheios às situações de catástrofe como inundações e, particularmente, aos incêndios rurais que, em conjunto, são factores de preocupação das pessoas com impacto na sua saúde, incluindo mental, e bem-estar.

Continuo referindo que, além das perdas e da necessidade de adaptação, há também sentimentos de desesperança relativamente ao futuro – estamos a ficar sem algo e sentimo-nos impotentes para travar essa perda – que, por vezes, se manifestam em problemas comportamentais e de saúde mental, nomeadamente ansiedade (especialmente na população mais jovem), depressão e stresse, incluindo pós-traumático.

Procuro, também e sugerindo a leitura do documento “Combate às alterações climáticas | O papel dos psicólogos” da Ordem dos Psicólogos Portugueses (link abaixo), reforçar que a psicologia, enquanto ciência que estuda o comportamento e os processos de tomada de decisão, pode assumir um importante contributo:

  1. a) na compreensão do comportamento humano e no desenho de intervenções comportamentais e políticas públicas eficazes na mudança de comportamento e combate às alterações climáticas;
  2. b) na adaptação da população, nomeadamente na forma como se pode capacitar e promover competências e resiliência individual e comunitária face às alterações climáticas;
  3. c) na mitigação dos problemas com intervenção psicológica junto da população com problemas de saúde mental.

Termino reforçando o papel da agência nos desafios que atrás refiro. Sentirmos que estamos a fazer algo, a dar o nosso contributo, é, além de promotor da mudança individual e colectiva, um elemento protector da nossa saúde, incluindo mental, e bem-estar.

Juntas e juntos, enquanto seres humanos e na relação com o ecossistema, enfrentamos já desafios muito significativos. Não deixemos de falar sobre a crise climática, no Dia Mundial do Ambiente e em todos os restantes dias do ano. Em casa. Na nossa comunidade. Façamos algo, por nós, pelas e pelos nossos, por quem se nos seguirá. Para que ultrapassemos mais este desafio.

Documento OPP – “Combate às alterações climáticas | O papel dos psicólogos”

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Reconhecer

Reconhecer é um verbo poderoso. “Relevante em várias áreas científicas”, acompanha-nos “em momentos significativos da nossa vida pessoal, profissional e em sociedade”, sendo “essencial na forma como nos relacionamos connosco, com as outras pessoas e com o que nos rodeia.”

“Reconhecer”, 84º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da afirmação do quão relevante é o reconhecimento individual. “Sentirmo-nos ou não reconhecidas/os pelo que somos, pelo nosso valor e valores e pelo que conseguimos, impacta a visão que temos sobre nós próprios e, nesse sentido, a construção da nossa identidade, auto-estima (…) e a nossa saúde e bem-estar.” Sublinha, também, que “num nível interpessoal, o auto e heteroreconhecimento promove uma maior compreensão, entendimento e uma atitude, tendencialmente, mais empática face às outras pessoas (…) apoiando a nossa identificação em sociedade, a validação e o entendimento mútuo.”

Defende, depois, que “a validação e o entendimento mútuo são, por sua vez, pilares essenciais ao reconhecimento mútuo e este decisivo na construção de uma visão partilhada sobre direitos, deveres e desafios societais das pessoas, (…) bem como à coesão, desenvolvimento e prosperidade social e factor protector face a formas de resolução de conflitos não construtivas” para afirmar que é da percepção da necessidade desse reconhecimento mútuo, também político, que também resulta a proposta de dois Estados para a partilha da Palestina da ONU.

Continua afirmando que “infelizmente, com fases e momentos históricos apesar de tudo distintos, mas com momentos tenebrosos, como os ataques terroristas inqualificáveis, perpetrados pelo Hamas, em Israel, a 7 de Outubro do ano passado e os crimes e atrocidades cometidas pelo exército de Israel, em Gaza daí até hoje, nunca os dois Estados foram reconhecidos pela totalidade ou quase totalidade dos países, entre si e, também por isso, nunca a paz foi verdadeiramente cumprida.”

“Pese embora os enormes desafios que se colocam e que determinam que este reconhecimento não seja consensual, é hoje claro que, conforme o não reconhecimento de pessoas e comunidades as impacta significativamente, o não reconhecimento do Estado da Palestina contribui para um quadro de incerteza e de confusão, por vezes propositada, entre organizações terroristas e o povo palestiniano. Contribui, também, para a diminuição das condições e contexto para que a Palestina possa criar e desenvolver as suas instituições, preservar a sua segurança, oferecer horizontes de esperança e futuro à sua população, no seu país e, com isso, fortalecer a prevenção do terrorismo.”

“Reconhecermos é uma ferramenta poderosa, ao alcance de todas/os, local e globalmente, para construirmos mais relação connosco, com as outras/os e em comunidade. É, também, uma ferramenta para validar, para caminharmos para uma sociedade de direitos, deveres e de maior equidade. Para nos acolhermos e construirmos paz. Comecemos por reconhecer.”

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Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Eleições 04.06

A semana que agora começa tem duas eleições para quem é psicóloga e psicólogo em Portugal e não votou antecipadamente ontem: as eleições Europeias no Domingo; as eleições para o Conselho de Supervisão da Ordem dos Psicólogos Portugueses já amanhã, dia 4.6.

Numa e noutra o nosso voto, a nossa voz, a nossa participação é, além de um direito, que importa também respeitar pelo seu exercido, uma responsabilidade, porquanto são eleições fundamentais no presente e para o futuro da Europa (e do Mundo), do país e para a psicologia enquanto profissão e seu contributo.

As de amanhã, com especificidades. Desde logo a facilidade de participação, considerando a possibilidade de votação num horário longo (até às 20h), através de qualquer dispositivo móvel (telemóvel, tablet ou pc), a partir de qualquer lugar e das informações que as/os eleitoras/es recebemos.

As de amanhã, elegendo 4 pessoas para um mandato curto (cerca de 6 meses, até pouco depois das eleições gerais do final do ano) mas determinante desse novo órgão da Ordem. Dois membros da OPP e dois não membros da OPP (em pares), através do método de Hondt, algo que, com apenas duas listas candidatas, faz do seu voto, de cada voto, ainda mais significativo e decisivo.

As de amanhã, onde se confrontam duas visões para o Conselho de Supervisão, para a sua constituição, para o cumprimento das suas atribuições e para a coesão dos diversos órgãos da OPP e da sua missão, conforme aqui procurei reflectir.

As de amanhã onde, infelizmente, não tivemos (pelo menos ainda, até à hora em que escrevo) oportunidade de aceder às motivações, compromisso e projecto das/os candidatas/os de uma das listas na primeira pessoa, algo importante num órgão de “eleição pessoal”. Aqui partilho o vídeo de apresentação das/os candidatas/os da Lista B – Mobilizar os Psicólogos e aqui o documento de apresentação da sua candidatura.

Não deixe de participar nestas eleições. Não deixe de contribuir, de forma informada, para este importante processo da sua Ordem. Use do seu voto. Defenda e promova a profissão em benefício de mais e melhores serviços de psicologia nas mais diversas áreas de actividade e de mais e melhor acesso aos mesmos pelas pessoas. Defenda e promova a profissão em benefício de um maior contributo da ciência e prática psicológica para a sociedade.

Amanhã com alegria e determinação voto Lista B – Mobilizar os Psicólogos. Pela clareza da visão da equipa candidata e do seu compromisso com a Ordem. Gostava de o fazer consigo e com outras e outros colegas comprometidos com esta ideia e projecto. Amanhã vote e mobilize colegas para votar. Por si. Por todas e todos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia Tecnologia

Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar (Ao redor…; 22.05.2024)

Lembro-me muito bem da primeira vez que saí de comboio na impressionante Estação do Oriente para, depois de uma caminhada, entrar nesse outro Mundo que foi a “Expo 98” para um rapaz de 14 anos que crescia fora de um grande centro urbano. Se pensar um pouco, a Estação, embora hoje mais envelhecida, não mudou muito. Como não mudou a linha do Norte e o comboio regional que me levou do Entroncamento ao Oriente. Já ser um/a adolescente de 14 anos em Portugal mudou significativamente.

Como todas as pessoas adultas, mais ou menos jovens, já tiveram 14 anos esta afirmação será das poucas que hoje não gera na sociedade um debate polarizado. Todas e todos os que temos bastante mais do que 14 anos sabemos que se tivéssemos vivido essa idade com o acesso às tecnologias, à internet e às redes sociais hoje existente; com as fotos e vídeos permanentemente a guardarem momentos e a serem partilhadas e comentadas; ou se tivéssemos vivido com a pressão da felicidade, do mérito, da voragem da competitividade e da necessidade permanente de adaptação a transformações muito rápidas teríamos, certamente, vivido uma adolescência muito diversa e experimentado um conjunto muito diferente de desafios, experiências e possibilidades. Também entenderíamos, talvez de forma mais sentida, o enorme paradoxo desta ser a época de maior abundância em termos de recursos, acesso, literacia, possibilidades de diversão e entretenimento e, simultaneamente, uma das épocas onde, pelo menos desde que existem registos e indicadores robustos, diferentes condições e problemas de saúde mental são mais e mais cedo prevalentes e desafiam e impactam o quotidiano e o bem-estar nestas idades.

Perceberíamos, ainda, creio, porque é que o tão relevante – e hoje crescentemente densificado em Lei – “Direito a desligar” e desconectar do trabalho, fora do horário de trabalho, tende a equivaler-se ao “Direito a desligar” e desconectar da internet e das redes sociais por adolescentes, em determinados momentos do seu dia. Como, tais direitos, dependem, tanto do dever das organizações, líderes e da sociedade de legitimarem, respeitarem e promoverem este direito junto de cada trabalhador/a, como do dever de cada organização, pessoa adulta e da sociedade perceberem a importância, promoverem e estimularem esse direito junto dos e das adolescentes.

A este propósito penso muitas vezes no quão seria diferente para mim (talvez mesmo decisivo) a possibilidade, hoje existente, de 24 sob 24 horas, via internet rápida e redes sociais, estar conectado a amigas, amigos, a pessoas conhecidas próximas e não tão próximas. No quão importante foi – perdendo naturalmente outras possibilidades de relação e mecanismos de conexão fundamentais em determinadas situações (pensemos na pandemia por COVID-19 – ter oportunidade para me aborrecer, para, à noite, no meu quarto, casa ou rua, poder estar só, a pensar no que aconteceu naquele dia, a elaborar o que fiz, aprendi ou senti. No quão importante foi não estar sempre em “directo”, numa linguagem jornalística, e no quanto isso me foi permitindo sentir, também, mais previsibilidade, estabilidade e segurança, factores fundamentais ao bem-estar.

Hoje, em particular em dias difíceis, um/a adolescente com um telemóvel no seu quarto, casa ou rua, pode, se com maior dificuldade de autoregulação ou regulação na sua utilização, viver numa espécie de montanha russa sem pausas nas sensações e emoções. Vive permanentemente activada/o, é a cada momento estimulado e invadido com novas informações, dúvidas e sensações que não guardam espaço para elaborar, para descansar, para desligar. Para sair do turbilhão da nova informação, interacção, emoção e organizar e integrar ideias, algo relevante em todos os nossos momentos de vida, mas particularmente relevante numa época como a da adolescência onde tudo é vivido com tremenda intensidade, onde os grupos e a percepção dos pares é tão decisiva na construção da identidade, na percepção das outras, dos outros e do Mundo ao redor e no desenvolvimento da autonomia.

Mais, hoje, somos desafiados por novas adições (jogo online), dependências (smartphone) e problemas (cyberbullying) que nesse 1998 não facilmente imaginaria (embora existissem e permaneçam outras adições, dependências e problemas), conforme hoje não imaginamos novas adições, dependências e problemas com os quais, possivelmente, nos confrontaremos nos próximos anos. Não pensava, também pela perspectiva de cada vez maior participação e empoderamento das meninas, raparigas e mulheres que hoje assistiríamos a um recrudescimento da violência no namoro e doméstica, da desigualdade de género nestas e noutras idades e de um discurso público que, não raras vezes, a legitima ou, no mínimo, não condena veementemente.

Com este cenário e com a perspectiva de potencial aprofundamento desta situação no futuro, desde logo pela evolução da tecnologia e seus impactos, talvez não seja fácil estar optimista. Apesar de tudo, não deixo de assim o sentir. Também.

Porquê? Porque as mesmas tecnologias que são base de alguns dos desafios e dos problemas hoje mais significativos são, também e quando ou se usadas com cuidado e com essa intencionalidade, potenciais ferramentas para outros resultados e para a promoção da equidade e do bem-estar hoje e no futuro.

Porquê? Porque há hoje, apesar de nem sempre ser de qualidade, muito mais compreensão pública do que significa ser adolescente e este período de desenvolvimento. Tal como mais informação, literacia e uma centração da população mais jovem nas questões da saúde, incluindo a saúde mental, e bem-estar que pressionam no sentido de mais respostas nesta área, mais contingentes aos problemas, mais qualificadas, de qualidade e eficientes.

Porquê? Porque, finalmente, os desafios e problemas são cada vez menos individuais mas mais geracionais, algo que sensibiliza a sociedade e impele a uma acção preventiva de procura de transformar e mudar o que na sociedade possa estar a concorrer para esta situação, aumentando o debate, entre outros, sobre os impactos e formas de utilização da tecnologia ou a necessidade de se repensar e promover a prática da actividade física, a alimentação saudável, hábitos de sono, competências sócioafectivas e emocionais ou o contacto com as outras e outros e com o meio ambiente, tudo elementos fundamentais à saúde e bem-estar das populações mais jovens.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos observar extraordinários exemplos de envolvimento e participação cívica da população mais jovem que, desejo, serem primeiros passos para o reforço da perspectiva de comunidade e para a construção de propósito. Se assim for, e se investirmos em transformações cirúrgicas e na capacitação e empoderamento de crianças e adolescentes para os desafios que o Mundo e a sociedade se lhes coloca, estarei sempre mais próximo de cumprir este meu optimismo. No que me toca, para isso procurarei contribuir e para isso procurarei que contribuam.

 

Tiago Pereira

Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar

in Sábado (Ao redor…); 22.05.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/ser-adolescente-hoje-e-o-dever-de-ajudar-a-desligar

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Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Eleições Conselho de Supervisão OPP (04.06.2024)

Nada sobre nós sem nós! Este título de um livro que trata o empoderamento e participação das pessoas com deficiência, é hoje mensagem forte nos movimentos em torno da defesa dos direitos humanos. É, também, a mensagem que vos trago a propósito das Eleições para o Conselho de Supervisão da Ordem dos Psicólogos Portugueses da próxima 3ª feira, 4 de Junho. Trago-a em 2 dimensões:

 

1. Para partilhar convosco 4 ideias a propósito da lista que apoio e que julgo melhor poder cumprir, com conhecimento, isenção e responsabilidade, as competências deste novo órgão – Lista B | Mobilizar os Psicólogos:

 

a) Dois regulamentos estruturantes da OPP, aprovados em Assembleia de Representantes, aguardam a tomada de posse do órgão para serem por ele analisados – Especialidades e Estágios. Houve cuidado e intencionalidade de constituir a lista com 4 psicólogas/os que incluem colegas especialistas, mas, também (e creio relevante), colegas que realizaram o ano profissional júnior (estágio profissional), conhecendo e vivenciando esta etapa, factor importante ao contributo que poderão aportar;

 

b) Isto determina que, além de pessoas com mais experiência profissional, a lista contenha jovens profissionais, algo fundamental numa profissão jovem e com legado e num órgão que tem também como missão acompanhar o processo de integração na profissão, a formação e o estágio profissional. Mais, construiu-se uma lista com paridade de género, diversidade de contextos de actividade profissional, não com tendência exclusivamente académica e com pessoas de diferentes regiões do país, incluindo regiões autónomas;

 

c) No que se refere às/aos candidatas/os não membros da OPP, por princípio, não se incluíram profissionais que pela formação/actividade poderiam (se o desejassem) ser membros da OPP. Mais, procuraram-se profissionais com diversas formações mas, necessariamente, confortáveis com as principiais posições estratégicas que têm sido defendidas pela OPP, do referencial para a intervenção em contexto escolar, à prática da psicoterapia passando pela defesa da figura da/o psicóloga/o do trabalho nas organizações.

 

d) Constituir uma lista com uma visão coesa sobre o órgão e missão a que se propõe. Podem vê-lo no vídeo de apresentação das/os candidatas/os – https://www.youtube.com/live/ewsoCeaEkUg?si=UzA3eLJajClBNh1N.

 

Obrigado pela disponibilidade e coragem Teresa Jesus, Nuno Antunes, Ana Nascimento Sabino, António Fragoso, David Guedes, Carolina Garraio, Teresa Maneca Lima e Eduardo Fermé. Obrigado Miguel Ricou, seu (meu também e nosso em 2016) Mandatário, por continuares este caminho e propósito.

 

2. Não deixe que estas Eleições aconteçam sem a sua participação. Sem a sua voz. Vote e motive e mobilize colegas a votarem.

 

Eu, dia 4, voto alegre e convictamente Lista B | Mobilizar os Psicólogos. Pelos princípios e valores que defendo, que defendo para a Ordem. Para a afirmação e desenvolvimento da profissão e do seu, cada vez mais necessário e relevante, contributo para a sociedade.

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One Health to Planetary Health

O Dia da Criança é comemorado em diferentes datas de país para país. Em Portugal, celebramos esse (poder) ser criança a 1 de Junho, continuando a cumprir, por essa via, o apelo que resultou da Conferência Mundial do Bem-Estar das Crianças, que decorreu em Genebra num 1º dia de Junho: reconhecer, globalmente, a importância dos Direitos das crianças e do seu bem-estar.

Estávamos em 1925 e seria tão ousado pensar os Direitos e o bem-estar das crianças conforme eu e, provavelmente, quem me lê os pensamos, conforme talvez será hoje pensar a saúde, a partir dos sistemas de saúde dos países, a partir dos modelos “One Health” [Uma (só) Saúde] e “Planetary Health” [Saúde Planetária].

Neste 1 de Junho de 2024, a partir dos relevantes contributos da literacia em saúde, eu, a Ana Cadete, a Maria João Baptista, o Pedro Teixeira, a Susana Fonseca e o Xavier Teles Canavilhas, com coordenação da Cristina Vaz de Almeida, propomo-nos ousar pensar em como podemos caminhar para a “inscrição” destes conceitos nos sistemas de Saúde, no nosso sistema Saúde.

Fazêmo-lo num tempo em que (ainda) sentimos desafios imensos ao aprofundamento do investimento em prevenção da doença e promoção da saúde em Portugal e à assunção, clara e clarividente, do impacto da degradação dos ecossistemas, da crise climática ou da pobreza e das iniquidades económicas e sociais na saúde e no bem-estar.

Discuti-lo-emos num painel integrado no Cascais International Health Forum, organizado pelo FÓRUM SAÚDE XXI através de uma equipa liderada pelo Adalberto Campos Fernandes.

Que, exactamente 99 anos depois da Conferência Mundial do Bem-Estar das Crianças de 1925, esta nossa conversa possa inspirar-nos e, eventualmente, inspirar alguém mais, para contribuir(mos) para um planeta sustentável e para um Mundo de Direitos, de saúde e de bem-estar. Para as crianças, todas as crianças. Para todas e todos.

Venha daí e participe, também, nesta conversa e neste contributo.

Mais informações e inscrições (gratuitas, mas obrigatórias) aqui.

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Behavioural Insights Comportamento Congresso Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

VI Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses | XIII Congresso Ibero-Americano de Psicologia.

Faltam agora 4 meses para muitas e muitos de nós, espero, nos reunirmos e encontrarmos no VI Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses que, em virtude da presidência da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP) pelo Bastonário da OPP (Francisco Miranda Rodrigues) decorrerá em simultâneo com o XIII Congresso Ibero-Americano de Psicologia.

Conforme há 10 anos, quando em 2014 se organizou o II Congresso da OPP em simultâneo com o IX Congresso Ibero-Americano, regressamos a Lisboa e ao Centro Cultural de Belém, depois de Congressos da OPP no Porto (2016), Braga (2018) e Aveiro (2022).

Foi exactamente no CCB e, mais especificamente, no caminho José Saramago – personalidade que procurou, também, pensar e discutir uma “sociedade ibero-americana” – que gravei o “vídeo convite” para o Congresso, cujo link abaixo partilho.

Um Congresso que, na linha dos anteriores, se propõe a uma discussão e debate interdisciplinar dos contributos e da colaboração potencial da ciência e da prática psicológica na resposta às necessidades e anseios das pessoas (nos seus mais diversos contextos, circunstâncias e acontecimentos de vida) e comunidades e aos principais desafios societais.

Um congresso que contou com cerca de 700 submissões já analisadas num enorme e extraordinário trabalho de uma comissão científica superiormente presidida pela Isabel Soares e que tem uma call específica associada ainda aberta (ver link abaixo) para submissões para a revista científica da OPP. Um congresso que conta com um espaço específico de apresentação para as e os mais jovens – Espaço Jovem. Um congresso que procura uma nova e reforçada experiência de relação com o espaço, com outras/os congressistas nacionais e internacionais, com expositores e com patrocinadores. Um congresso, finalmente, que potencia a colaboração com um conjunto de entidades, incluindo a American Psychological Association, num evento colaborativo dentro do próprio congresso sobre novas tecnologias, inteligência artificial, contributos da psicologia e potenciais desafios e impactos na sociedade.

Com cerca de dois terços dos bilhetes presenciais já vendidos, nos próximos dias começaremos a conhecer o programa que, creio, estimulante e um contributo importante para pensar a psicologia em Portugal e no espaço Ibero-Americano.

Quando a 26.09.2010 caminho José Saramago foi inaugurado pela sua filha, ela disse sentir pena por “ele não estar aqui [lá] para ver”. No 2º dia do Congresso passarão 14 anos dessa dia e espero que esteja lá para ver. Para ver e contribuir para se construir um grande Congresso e, com ele, um importante contributo para a sociedade.

Link Congresso

Link Call Revista

Link Vídeo

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Vidas da Emergência Pré-Hospitalar – Contexto, equipas e intervenção psicossocial (Prefácio)

“Há alguns anos, uma instituição social que trabalha com crianças pediu-me para desenvolver uma ideia que envolvesse os direitos das crianças (…) Ocorreu-me que uma maneira de abordar algumas das situações complexas e dos problemas sociais que afectam as crianças seria olhar para os quartos de crianças em diferentes circunstâncias”. É assim que James Mollison, um fotografo britânico que procura cruzar esta disciplina artística com a reflexão e acção sobre o Mundo e seus desafios societais, narra o projecto “Where Children Spleep” [Onde Dormem as Crianças], um conjunto significativo de pequenas biografias de crianças muito diversas, de todos os contextos do Mundo, acompanhadas por uma fotografia sua e por uma fotografia do lugar onde dormem. Um projecto interessantíssimo que nos recorda que estando expostos a condições diversas, todas e todos partilhamos muito de comum, ao longo de toda a nossa vida.

Dormimos, desde logo. Fechamos os olhos, respiramos, sonhamos, abrimos os olhos, acordamos. Fazemo-lo, uns dias mais tranquilamente, outros nem tanto. Por vezes com conforto e segurança, outras nem tanto. Brincamos. Rimos. Sofremos. Todas e todos, sofremos, também aqui cada qual com a sua circunstância, conforme a célebre abertura do “Anna Karenina” de Tolstoy: “Todas as famílias felizes são iguais. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”

Recordo, como cada pessoa que me lê, diferentes momentos da minha vida em que sofri. Alguns com uma intensidade tal que, ainda hoje ao recordá-los, sou transportado para o momento. Como que sinto a temperatura, os cheiros, os sons, as emoções desse momento. Recordo, dizia, vários, mas evoco um em específico, pelas suas características e pela forma como se relaciona com esta importante obra. Estávamos na primeira metade da década de 1990. Estava na Escola e, um infeliz incidente entre dois colegas, resultou num trágico acidente. Guardo comigo e acompanham-me imagens, sons e sensações desse acontecimento, incluindo da campainha que tocou “para a saída” como se nada tivesse acontecido e da ambulância no interior da Escola.

Passam cerca de 30 anos desse momento. E tanto mudou. Temos hoje outra sensibilidade na sociedade para o impacto destas situações na saúde, incluindo naturalmente na saúde mental, e bem-estar. Impactos para quem vive (directa ou indirectamente) ou observa situações de crise, catástrofe e/ou situações trágicas. Temos hoje profissionais de diversas áreas, em diversos contextos, mais preparadas/os e capacitadas/os para responder e apoiar nestes desafios. Temos hoje, psicólogas e psicólogos nas Escolas, ao contrário do que acontecia naquela e em muitas naquele momento. Temos hoje psicólogas/os nas estruturas de emergência, incluindo pré-hospitalar, e nos agentes de protecção civil. Muito mudou, mas muito caminho há por percorrer.

Este livro ajuda-nos a pensar esta mudança, o caminho percorrido e o caminho por percorrer. Porque reúne um conjunto significativo de pessoas que fazem parte desta história, desta mudança, que dia-a-dia, muitas vezes em condições particularmente exigentes e complexas, construíram a resposta pré-hospitalar de apoio às populações, também a partir do contributo específico, integrado multidisciplinarmente, da ciência e prática psicológica. Porque estas pessoas, de certa forma representando outras, partilham as suas experiências, contribuindo, para uma maior sensibilidade a estes temas e para a capacitação de psicólogas, psicólogos e outros profissionais. Porque, ainda, nos desafiam a pensar o futuro, assinalando caminhos para a melhoria de práticas e do seu enquadramento, visando uma melhor preparação das pessoas, das comunidades e melhores respostas. Muito obrigado a todas e a todos.

Este livro ajuda-nos a pensar esta mudança, o caminho percorrido e o caminho por percorrer, dizia. Também porque a sua coordenadora, a Ana Oliveira, além de personagem participante activa desta história, fez este muito desafiante percurso, desde o seu interesse, atitude e disponibilidade para nesta área contribuir com o seu tempo e intervenção como cidadã primeiro e depois como psicóloga, à feliz ideia de reunir esta diversidade de pessoas e contributos, organizando-os e concretizando-os nesta obra. Devemos-lhe, por isso e pela dificuldade disso, um agradecimento especial. Devo-lhe eu, um duplo, por ter tido ainda a gentileza de confiar em mim e me permitir estar associado a este seu esforço, a este grupo de pessoas e a este trabalho.

Permitam-me uma palavra final sobre mim, aqui. Desde há anos, em diferentes funções, tenho procurado contribuir para que as áreas de intervenção psicológica em situação de crise e catástrofe e dos primeiros socorros psicológicos se disseminem na formação inicial e contínua de todas e todos os psicólogos, contributo que me parece essencial para maior possibilidade de intervenção e resposta de cada profissional, em cada contexto, em momentos particularmente sensíveis da vida das pessoas, apoiando processos de estabilização emocional e prevenindo, numa primeira linha, o desenvolvimento de problemas psicológicos mais complexos. Mais, quando a Ana Oliveira me fez este convite era ainda coordenador do ainda existente Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Foram, sabemos todas e todos, e em particular quem trabalha nas áreas que encontrarão detalhadas nas páginas seguintes, momentos absolutamente excepcionais e particularmente difíceis. Sabemos o quão requereu de nós, mas, em simultâneo e assim foi comigo, o quão significativo e o quão marcante pelo propósito que representou, também para tantas pessoas e para tantos profissionais, o seu contributo. Sabemos, finalmente, que teremos enquanto país e comunidade que enfrentar catástrofes e outras situações de crise no futuro e que as enfrentaremos com maior preparação se parte de uma comunidade sensibilizada e unida para estes temas, com estruturas de resposta estabelecidas, papéis definidos, profissionais capacitadas/os, organizadas/os em diferentes níveis de intervenção e especialização. Ora, as páginas que se seguem, creio, contribuem para tudo isto. Orgulho-me de fazer parte delas e também o devo a uma pessoa que muito contribuiu para a sensibilidade que tenho face a estes temas e que me e nos falta todos os dias.

 

 

Tiago Pereira

Vidas da Emergência Pré-Hospitalar – Contexto, equipas e intervenção psicossocial (Prefácio)

Pactor [2024]