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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Política Psicologia

Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação

“…parece já não surpreender a vitória e a possibilidade de sermos governados por partidos da direita populista, radical ou extrema na Europa. Um inimaginável que, dia-a-dia, foi limitando a novidade (…) Fez com que nos habituássemos. Com que naturalizássemos.”

“Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação”, 86º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado; link abaixo) reflecte sobre como naturalizamos situações (da não concretização da relocalização do Aeroporto da Portela/Humberto Delgado, à ascensão de discursos/partidos populistas na Europa). Reflecte, também, no quão significativos são “os impactos da perda de valores e do enfraquecimento das instituições democráticas na coesão social e na saúde e bem-estar” para apelar ao desenvolvimento de “estratégicas que mitiguem a habituação e mobilizem a população para a não naturalização destes processos”.

“Reforçarmos o pensamento crítico e a capacidade individual e colectiva de questionar e compreender o Mundo, também pela promoção da partilha e diálogo entre países e culturas e pela capacitação e literacia científica e mediática. Promover o diálogo entre diferentes sectores da sociedade e não o encerramento e polarização, validando posições diversas e discutindo temas e procurando construir pontes de encontro a partir dessa validação mútua. Garantindo que contribuímos para a preservação da confiança nas instituições e para o empoderamento das estruturas de vigilância e garantia do conjunto de valores da nossa democracia e constituição. Também, procurando garantir maior inclusão e diversidade na representação política e nas estruturas da sociedade civil no sentido da maior identificação e representatividade.”

“Tudo isto e utilizarmos a ciência e a melhor evidência disponível para garantir mais possibilidade de protecção e resiliência da população aos fenómenos que mais têm contribuído para que alguns inimagináveis se estejam a tornar realidade.” Por exemplo, conforme von der Leyen recentemente afirmou, “se pensarmos na manipulação da informação e na desinformação como um vírus, ao invés de tratarmos uma infecção depois de desenvolvida (“debunking”), é muito mais eficaz vacinarmo-nos para que o corpo fique imunizado”. Ou seja “é muito importante expormos, controladamente, a população ao fenómeno da desinformação, educando para a forma como é utilizada, preparada e difundida para que, a partir dessa literacia e conhecimento, as pessoas desenvolvam capacidade de pré-refutação (“prebunking”) dessa informação, ficando mais imunes e menos expostas aos seus impactos e à possibilidade de sermos cadeias de transmissão e reforço.”

“…não desistirmos da verdade e da informação factual e defendermos os valores da União Europeia e as Democracias na Europa implica que não permitamos que nos habituemos aos fenómenos que contribuem, muitas vezes por dentro dos sistemas democráticos, para que a coesão social e a integridade das instituições democráticas sejam enfraquecidas.”

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Dia Mundial das Redes Sociais

“Um em cada quatro jovens em Portugal utiliza as redes sociais mais de 6 horas por dia. É evidente que este é um comportamento inapropriado, desde logo porque essas 6 horas não podem ser utilizadas noutro tipo de actividades que poderiam ser importantes para o seu desenvolvimento e participação social.”

Parte da conversa que tive com a Cristina Freitas, na SIC Notícias, na manhã de Domingo, Dia Mundial das Redes Sociais que partilho. Conversa sobre a utilização das redes sociais e os seus impactos, sobretudo na população mais jovem. Sobre um tema tão importante e, creio, tão urgente.

Porque certamente todos sentimos os seus impactos. Os menos positivos, conforme os referidos no enquadramento da peça, a partir de declarações da minha colega Sofia Ramalho, nomeadamente na diminuição do diálogo entre gerações, na dependência e na saúde mental. A estes, na peça, acrescento que quando o uso é desadequado (referindo que isso depende dos tempos, momentos e objectivos de utilização e de características individuais de quem utiliza), podem existir outras consequências negativas na saúde e bem-estar, como a diminuição da prática de actividade física, participação social, alterações no sono, no comportamento alimentar ou um maior isolamento. Assinalo, ainda, impactos negativos em dimensões emocionais e na auto-estima quando a utilização visa o contacto e partilha com conteúdos violentos ou tendentes à comparação social.

Mas, na conversa, procuro sublinhar existirem também um conjunto de impactos positivos da utilização, quando adequada, das redes sociais. Entre outros que poderia ter focado, refiro a relação e conexão com pares, o maior suporte social e a partilha, participação e envolvimento em grupos, iniciativas e organizações.

Abordo, ainda, a importância da supervisão dos adultos de referência desta utilização por parte da população mais jovem, seja a partir da família ou dos contextos de educação formal e não formal, advogando pelo estabelecimento de canais de comunicação que permitam conhecermos e apoiarmos a sua participação, protecção e segurança em ambiente digital.

Termino procurando assinalar um conjunto de contributos que a psicologia pode aportar a esta conversa. Desde logo na literacia e apoio às tomadas de decisão, mais individuais (pessoas e famílias) e de desenho de políticas, a partir da informação e conhecimento da ciência psicológica – a esse propósito a Ordem dos Psicólogos Portugueses disponibilizará em breve um conjunto de documentos/contributos e este será um tema central do seu próximo congresso. Ainda, e finalmente, na intervenção e apoio que psicólogas e psicólogos podem disponibilizar junto de pessoas com usos mais problemáticos das redes sociais ou com problemas que desse uso decorram.

Uma conversa que devemos continuar… Uma conversa que necessita da participação de todos.

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Guia Prático de Marketing Pessoal e Profissional – Pistas para fortalecer a marca profissional e visibilidade no mercado de trabalho em psicologia

“Conteúdo. Embalagem. Visibilidade.”

 

Como num triângulo, neste início de semana/mês/semestre, gostava de partilhar convosco o terceiro volume-vértice da colecção de “Artigos PsiCarreiras da Ordem dos Psicólogos Portugueses”.

 

Após o primeiro – “Ser Psicólogo – O Início da carreira em Psicologia Pistas para que está a dar os primeiros passos numa carreira em Psicologia” (https://www.linkedin.com/pulse/prefácio-ser-psicólogo-o-início-de-carreira-em-tiago-pereira/?trackingId=oNyvSQmUQCW8l6TZq%2FjLOg%3D%3D) – qual conteúdo, em torno do que significa, hoje, ser psicólogo e iniciar uma carreira em psicologia…

 

E o segundo – “Carreira em psicologia num mundo imprevisível – Pistas para “navegar” com confiança e adaptabilidade” (https://www.linkedin.com/pulse/prefácio-carreira-em-psicologia-num-mundo-pistas-para-tiago-pereira-kxxif/?trackingId=vJmU2ZHZSliHrjj3EKN1OA%3D%3D), qual embalagem, sobre como participarmos num Mundo vertiginoso e imprevisível, como a confiança e a adaptabilidade são chave para psicólogas e psicólogos e como pode, a ciência e a profissão, contribuir para uma sociedade mais capaz de, com maior equidade, possibilitar saúde, bem-estar e capacidade de autodeterminação…

 

Publicamos, agora, o terceiro volume – “Guia Prático de Marketing Pessoal e Profissional – Pistas para fortalecer a marca profissional e visibilidade no mercado de trabalho em psicologia”, em torno da relevância da presença e da notoriedade no quadro do mercado de trabalho em psicologia, numa sociedade de informação a cada dia mais abundante e de interesse crescente pelos temas da saúde mental e bem-estar.

 

No prefácio, do qual os excertos anteriores adapto e cujo link abaixo partilho, escrevo que este e-book também é “organizado e triangulado nesta relação. Uma componente conteúdo, com artigos e recursos maioritariamente centrados na forma como nos podemos pensar e projectar pessoal e profissionalmente no presente e no futuro. Uma componente embalagem, com artigos sobre a forma com podemos apresentar, com impacto, esse conteúdo. Finalmente, uma componente visibilidade, com artigos maioritariamente centrados na forma como desenvolver, primeiro, e promover e destacar, depois, a nossa marca e criar, por essa via, oportunidades relevantes e relações significativas. Cada parte, parte indispensável de um todo que resulta da forma como (nos) comunicamos.”

 

Agradeço a toda a equipa, parte indispensável, envolvida neste projecto e às autoras e autores: Ana Leonor Baptista; Ana Sofia Nobre; Artur Moura Queirós, Edite Queiroz, Joana Almeida Monteiro; Joana Inácio, Mafalda Reis, Marta Alves; Rita Tavira Santos e Rodrigo Dumas Diniz.

 

Equipa, parte indispensável de um todo.

 

Muito obrigado.

 

Tiago Pereira

Prefácio | Guia Prático de Marketing Pessoal e Profissional – Pistas para fortalecer a marca profissional e visibilidade no mercado de trabalho em psicologia

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_ebook_guiapraticodemarketingpessoaleprofissional.pdf

JUN2024

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Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos (Ao redor…; 18.06.2024)

Uma cornucópia é um símbolo que representa, desde a mitologia grega e romana, ideias de fertilidade, riqueza e abundância. Foi o nome escolhido pela artista Björk para o seu último espectáculo, uma produção que envolve diversas artes performativas em torno dos seus álbuns “Utopia” e “Fossora”. Passou por Portugal, em Setembro, e é, à sua forma, uma manifestação da sua reflexão e activismo por um futuro com maior equidade e onde pessoas e ecossistemas coexistam de forma sustentável e produtiva.

Reflexão que será certamente resultado também da sua história e experiência. Björk nasceu em Reykjavík, cidade-capital da Islândia, uma ilha remota do Atlântico Norte, com apenas cerca de 1000 anos de ocupação humana, mas que tem feito caminho na eliminação total dos combustíveis fósseis, ousando fazer da energia gerada por uma ameaça letal (a actividade vulcânica) energia limpa e um recurso-chave para a qualidade de vida das pessoas e para a atratividade e competitividade do território. Apenas um de vários exemplos possíveis que fazem da Islândia um caso de sucesso e admiração. Um país que ousou, pela cooperação e co-criação, encontrar soluções criativas para se transformar e fazer o melhor possível com os recursos que existem, cuidando, em simultâneo, desses mesmos recursos e promovendo bem-estar.

Apenas um exemplo de porque é que a Islândia é hoje olhada como um caso de sucesso de transformação que – a partir da motivação de ousar cooperar, criar e encontrar soluções criativas para fazer o melhor possível com os recursos que existem, cuidando, em simultâneo, desses recursos – pode resultar em aumento de bem-estar.

Na Islândia, enquanto país, mas também nos seus habitantes. Conforme escreveu o jornalista Mário Rui Vieira, no final do ano passado, quando em 1993 a Björk apresentou “Debut”, o seu primeiro álbum, “a Islândia era um território bem mais enigmático do que é hoje”. Diferente, muito diferente, acrescento eu. Foi, também, por pessoas como ela que a transformação ocorreu. Nessa entrevista, Björk afirma que se “tivesse escutado aquilo que a Islândia queria [para ela], teria passado os anos 80 de camisola de lã a vender peixe. E não foi isso que fiz.” Não foi isso que fez. Fez da ambição, do talento e do activismo motor para ser hoje uma referência a fazer música e uma embaixadora do país.

Como felizmente muitos de nós, nos quatro cantos do Mundo e em diferentes momentos históricos, resistiu à pressão para se moldar às expectativas que, a partir de diversas fontes (familiares, culturais, sociais, profissionais…) cedo nos procuram “encaixar” e encaminhar, num ou noutro sentido. Cedo acabam por constranger a nossa capacidade de expressão e afirmação individual, depois colectiva. Cedo mitigam uma procura por cumprir valores, ambições e sonhos e toldam a autenticidade, fundamental a uma vida de e com propósito e à nossa saúde, sobretudo mental, e bem-estar.

Existem, porém, e como dizia, muitas histórias de não conformidade. Umas públicas e por todas e todos reconhecidas, como a da Björk ou do Nobel da Literatura português, José Saramago. Pessoas que o conseguem, a partir do contexto e oportunidades certas, de figuras de referências e suporte. Pessoas com suficiente segurança psicológica para se cumprirem sempre a partir, todavia, de um conjunto de acasos felizes, que também se procuram e constroem com abertura às outras pessoas e interesse pelo que nos rodeia. Pessoas que o conseguem, desafiando o que delas se esperaria pela ousadia de procurarem o que desejam. São conjuntos de histórias como estas, que, com sentido de comunidade, cooperação e a partir da inovação mudam ruas, bairros, cidades e países.

Mas, neste caminho, importa ter sempre presente uma condição profundamente humana e pelas pessoas partilhada, o viés do sobrevivente. Ou seja, a nossa tendência para, instintivamente, distorcermos a realidade e darmos mais atenção e considerarmos mais as excepções (casos excepcionais de sucesso – do jogador de futebol extraordinário a uma incrível empreendedora) do que a grande maioria das pessoas que não chegam a essas posições, “desaparecendo” (não sobrevivendo) no caminho. Tendemos, portanto, a considerar este tipo de sucesso como algo mais comum do que realmente é.

Este fenómeno tem duas consequências importantes. A primeira relativa à forma como esta situação pode gerar processos de auto e heteroculpabilização em situações de insucesso, mesmo quando são estas as mais comuns. Outra, não menos importante, a forma como podemos negligenciar os factores que tornam mais equitativo o caminho e a possibilidade deste sucesso, factores múltiplos e muitas vezes muito precoces em termos do desenvolvimento. Efectivamente não partimos todos da mesma linha de partida e os obstáculos (desafios), empurrões (apoios) e oportunidades para errar e falhar (suporte e aceitação) não são idênticos para todas as pessoas.

Aproximar mais os pontos de partida, com mais educação e mais eficaz intervenção social pré-gravidez e no período de gravidez, e gerar mais equidade, apoio, suporte e aceitação é fundamental para construir um caminho de transformação e, no sentido do que atrás escrevo, não conformidade e autenticidade. São, ainda, garantia de mais auto e heterocuidado, sentido de pertença e de abertura às e aos outros e, nesse sentido, de mais desenvolvimento e prosperidade para as comunidades e países. Foi o que a Islândia, ao longo das últimas décadas e com uma eficácia tremenda, foi capaz de fazer, sendo hoje um dos países do Mundo com menor taxa de (risco) pobreza, menor desigualdade entre pessoas com mais e menos rendimentos e, há mais de 10 anos, o país com menor desigualdade, nomeadamente salarial, entre Homens e Mulheres.

Por estes dias visitei a exposição do, também extraordinário, Siza Vieira, na Fundação Calouste Gulbenkian. Além de nos proporcionar uma visão ampla sobre o seu não-conforme trabalho na arquitectura, apresenta-nos os pilares desse trabalho, nomeadamente o conjunto de valores que o sustenta e o seu gosto pelo espaço e pelo desenho. A certa altura, uma citação: “Nenhum desenho me dá tanto prazer como estes: desenhos de viagem.” Desenhos, acrescento, de momentos em que nos confrontamos com diferentes estímulos, culturas, papéis, formas de fazer… Em que imaginamos, em que buscamos e em que trazemos connosco. Nestes próximos dias vou viajar e…

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, reflectirei sobre como certas mudanças podem não apenas melhorar vidas, individuais, mas servir de catalisador para a transformação social. Como podemos, e o que determina que possamos, ser mais o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos. Como pessoas. Como comunidade. Como país. Como podemos, ainda, ser facilitadores da criação de oportunidades para que outras pessoas o possam fazer. No fundo, como podemos fazer o melhor possível com os recursos que temos, cuidando, em simultâneo, desses mesmos recursos.

 

 

Tiago Pereira

Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos

in Sábado (Ao redor…); 18.06.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/podermos-ser-o-que-queremos-ser-e-nao-apenas-o-esperado-que-sejamos

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A beleza das pequenas coisas | Gabriela Moita

Cada tempo histórico tem as suas características. Tem as suas dificuldades e os seus desafios específicos. Tem as suas belezas. Este nosso tempo não foge à regra.

Pergunto-vos, quando estão num lugar mais inóspito ou quando se confrontam com uma situação de vida mais exigente, não dão por vós a pensar como pessoas há dezenas, centenas, milhares de anos lidavam com essas situações e o quanto, invariavelmente, mais duro, exigente, por vezes desumano, seria? Eu faço-o. Muito. Recuando milhares de anos, séculos, décadas ou, muitas vezes, apenas alguns anos, para situações mais específicas. Faço-o e isso situa-me. Dá-me “chão”, dá-me aqui e agora, dá-me perspectiva em dois sentidos: para o passado e para quem nos antecedeu; para o futuro e para quem nos sucederá.

Vem esta minha reflexão e partilha a propósito de ter ouvido uma maravilhosa conversa entre duas pessoas que, cada qual à sua maneira, muito admiro. O Bernardo Mendonça, um comunicador nato e dinamizador de (boas, “ricas” e impactantes) conversas. A Gabriela Moita, também uma extraordinária comunicadora, com uma experiência de vida incrível e com uma enorme capacidade de tornar perceptível, tangível e claro, dimensões científicas e fenómenos que são, invariavelmente, profundamente complexos. A Gabriela tem sempre palavras para o que parece não (poder) ter palavras.

É assim hoje. Será assim amanhã, estou certo. Mas, mais relevante, é assim há muito. Quanto era, ainda, mais difícil. A Gabriela é uma pessoa e uma profissional com uma importância fundamental na, hoje, maior literacia da população relativamente aos temas da psicologia e da sexualidade e para uma maior percepção e compreensão dos potenciais contributos da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos nos desafios fundamentais das pessoas e da sociedade.

Além de acompanhar, formar e supervisionar muitas gerações de psicólogas e psicólogos, ajuda desde há muito e ajudará a que seja mais possível a outras e outros darem este contributo, fazerem este trabalho e continuarem este seu caminho. Ajudou-me e ajuda-me, muito. Sempre. Sempre com uma bondade sem limites e com uma generosidade inexcedível.

Ouçam. Sintam. Confrontem-se. Partilhem.

Para mim, e em mim, foram minutos preciosos da minha vida. Para a minha vida. Obrigado.

Podcast: A beleza das pequenas coisas [Gabriela Moita; parte I]

Podcast: A beleza das pequenas coisas [Gabriela Moita; parte II]

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Direitos da Criança. “Ação local, desafio global”

A mensagem “pense global(mente), aja local(mente)” tem tanto de controverso, sobre a quem se deve atribuir, como de consensual no princípio que transmite. Sendo os principais desafios societais globais mas com impactos diversificados, as acções e intervenções que lhes respondem devem ser localmente desenhadas, de forma participada e diferenciada. É este o princípio de actuação da UNICEF que, através da sua equipa em Portugal, confere um contributo relevante a partir da realidade do país.

Também a partir deste princípio, a UNICEF Portugal promove amanhã um evento que discutirá o “valor maior”: os Direitos da Criança. “Ação local, desafio global” reunirá, no Porto, representantes da comunidade, incluindo decisoras/es (Pedro Pimpão da Câmara Municipal De Pombal, Fernando Paulo da Câmara Municipal do Porto e Beatriz Santos da CM de Vila Verde), responsáveis de institutos públicos (Catarina Marcelino do ISS), da UNICEF (Beatriz Imperatori, Andrea Rossi, Paola Bernal Fuentes e Leonor Costa), além de estudantes, professoras/es, mães/pais, um campeão do Mundo de Kickboxing e um psicólogo, eu, no meu caso para participar numas estimulantes “conversas improváveis” em torno do tema.

Tema que a todas e todos impacta e que de todas e todos depende. De quem pensa e faz a Educação, a Saúde e Bem-Estar ou o Suporte Social. De quem pensa a cidade, lugar fundamental do desenvolvimento sustentável das comunidades, onde cada número tem um nome e uma história. Onde se podem construir laços, resiliência, segurança e, em toda a sua amplitude, lugares “amigos das crianças”, com e pela participação das crianças.

Tudo a caminho de procurarmos políticas públicas mais robustas e uma sociedade mais responsiva no cumprimento dos direitos das crianças. De solidificarmos em Portugal projectos e políticas como a “Garantia para a Infância”, as “Cidades Amigas das Crianças” ou as “Escolas pelos Direitos da Criança”.

Tudo a caminho de olharmos ao nosso redor e nos inspirarmos em iniciativas como o “Act on the Integration of Services in the Interest of Children‘s Prosperity”, uma política participada, estruturada, intersectorial e de longo prazo da Islândia, que nos próximos anos revolucionará o acesso de crianças e jovens a direitos e cuidados fundamentais, apontando à sua prosperidade. Um investimento com custos, hoje, mas com impacto económico estimado até 2070 muito maior que autoestradas ou centrais eléctricas, apenas superado pelo impacto do aeroporto internacional da ilha. Coragem e visão que se saúda.

Coragem e visão que também por cá e por todo o Mundo a UNICEF tem demonstrado. Mesmo e quando a sua equipa se confronta com enormes desafios. Obrigado UNICEF. Obrigado Beatriz Imperatori, pela oportunidade, confiança e por todo o trabalho.

Espero ver-vos por lá.

Informações e inscrições aqui.

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Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos

“Tivesse escutado aquilo que a Islândia queria mim, teria passado os anos 80 de camisola de lã a vender peixe. E não foi isso que fiz.” Não foi isso que Björk fez. “Fez da ambição, do talento e do activismo motor para ser hoje uma referência a fazer música e uma embaixadora do país”. Fê-lo e junto com outras pessoas, em circunstâncias próximas, ajudou a transformar a Islândia num “caso de sucesso e admiração. Um país que ousou, pela cooperação e co-criação, encontrar soluções criativas para se transformar e fazer o melhor possível com os recursos que existem, cuidando, em simultâneo, desses mesmos recursos e promovendo bem-estar.”

“Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos“, 85º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado; link abaixo) usa este exemplo para discutir como “felizmente muitas e muitos de nós, nos quatro cantos do Mundo e em diferentes momentos históricos, resistiu à pressão para se moldar às expectativas que, a partir de diversas fontes (familiares, culturais, sociais, profissionais…) cedo nos procuram “encaixar” e encaminhar, num ou noutro sentido. Cedo acabam por constranger a nossa capacidade de expressão e afirmação individual, depois colectiva.

Continua assinalando que existem diversas histórias de não-conformidade, “pessoas que o conseguem, a partir do contexto e oportunidades certas, de figuras de referências e suporte. Pessoas com suficiente segurança psicológica (…) desafiando o que delas se esperaria pela ousadia de procurarem o que desejam. São conjuntos de histórias como estas, que, com sentido de comunidade, cooperação e a partir da inovação mudam ruas, bairros, cidades e países.”

“Mas, neste caminho, importa ter sempre presente uma condição profundamente humana e pelas pessoas partilhada, o viés do sobrevivente. Ou seja, a nossa tendência para, instintivamente, distorcermos a realidade e darmos mais atenção e considerarmos mais as excepções (…) face à generalidade das pessoas que “desaparecem” (não sobrevivem) no caminho.“

Este fenómeno tem duas consequências: a) “gera processos de auto e heteroculpabilização em situações de insucesso, mesmo quando são estas as mais comuns”; b) contribui para se “negligenciarem os factores que tornam mais equitativo o caminho e a possibilidade deste sucesso. Efectivamente não partimos todas e todos da mesma linha de partida e os obstáculos (desafios), empurrões (apoios) e oportunidades para errar e falhar (suporte e aceitação) não são idênticos para todas as pessoas”.

Importa, assim, “aproximar mais os pontos de partida, com mais educação e mais eficaz intervenção social pré-gravidez e no período de gravidez, e gerar mais equidade, apoio, suporte e aceitação é fundamental para construir um caminho de transformação e, no sentido do que atrás escrevo, não conformidade e autenticidade.

Importa pensarmos “como podemos, e o que determina que possamos, ser mais o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos. Como pessoas. Como comunidade. Como país.”

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Ética Aplicada – Psicologia

Estávamos em 1938 quando uma das primeiras e, certamente há época a mais relevante Associação de Psicologia do Mundo, criou uma Comissão Temporária de Ética Científica e Profissional. Falo da American Psychological Association que 14 anos mais tarde, em 4 de Setembro de 1952, aprovaria no seu Conselho de Representantes os “Princípios Éticos dos Psicólogos”, ainda hoje um importantíssimo documento histórico e de referência. Curiosamente, esta aprovação aconteceu num 4 de Setembro, dia da criação em 2008 da Ordem dos Psicólogos Portugueses (116 anos depois da APA), hoje Dia Nacional do Psicólogo em Portugal.

Apesar destes anos de diferença e do desenvolvimento tardio da psicologia em Portugal, particularmente quando comparado com outros países, as questões éticas e deontológicas foram sempre, são e, creio, serão centrais na afirmação e desenvolvimento da psicologia em Portugal e na relevância do contributo que pode conferir às pessoas e à sociedade. Também por isso, e pela visão e compromisso de muitas e muitos colegas, desde muito cedo que cartas de princípios e documentos diversos em torno da ética e da deontologia foram desenvolvidos em Portugal e estruturam o ensino e formação neste âmbito, até à publicação, já em 2011, da primeira versão do Código Deontológico pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, “um poderoso instrumento para o exercício da Psicologia”, conforme Telmo Mourinho Baptista, então Bastonário, escreveu nas suas primeiras linhas.

Daí para cá creio que todas e todos reconhecemos o caminho percorrido e o cada vez mais significativo e comprometido contributo da psicologia, enquanto ciência, e das psicólogas e psicólogos no nosso país. Esse contributo, decorre, também, da forte estruturação da profissão, do investimento em padrões éticos e deontológicos sólidos e em processos de desenvolvimento profissional contínuo, capazes de possibilitar respostas baseadas em valores e na melhor evidência científica disponível, para os diferentes desafios, dos mais simples aos mais complexos, dos antigos aos novos que com cada vez mais rapidez surgem.

Hoje trago mais um contributo neste percurso e, com ele, faço-vos um convite. Trago a obra “Ética Aplicada – Psicologia”, coordenada pela Maria do Céu Patrão Neves e pelo Miguel Ricou e editada pela Edições 70, que reúne um conjunto reflexões-capítulos, sobretudo de psicólogas/os, sobre os cruzamentos e alinhamentos entre a Ética e a Psicologia, um deles por mim escrito (“A psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções”).

O convite é que se juntem à sessão de apresentação que acontecerá amanhã na Livraria Almedina (Rato, Lisboa) e assistam à sessão em torno da “Psicologia e dos Direitos Humanos” com a participação da Ana Ribas, da Margarida Gaspar de Matos e moderação do Miguel Ricou. Apesar de ser a não perder, com muita pena minha, mas por um bom motivo, eu não me poderei juntar. Juntar-me-ei, porém, a uma próxima que brevemente será anunciada e que acontecerá no Porto.

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Relaciono-me, logo existo

Ontem comemorei o aniversário de um “primeiro dia do resto da tua vida” e, conforme a letra da música do Sérgio Godinho com este título, veio-me “à memória uma frase batida”: as relações são, mesmo, o mais importante da nossa vida. Deixo, a este propósito, duas sugestões de início de semana:

a) Um artigo, curiosa e simbolicamente (para mim) ontem publicado no The New York Times, da colega Darby Saxbe em torno da forma como a paternidade transforma o cérebro e o corpo dos homens, dotando-os de ferramentas neurobiológicas para a parentalidade (ferramentas, geralmente, “atribuídas” às mães) que impactam a relação pais-filhas/os e comportam desafios, nomeadamente nas dimensões da saúde, sobretudo mental, e bem-estar: “Dad Brain Is Real, and It’s a Good Thing” | https://www.nytimes.com/2024/06/16/opinion/dad-brain-fatherhood-parenting.html

b) Uma conversa que tive com o Rui Marques, referência maior na área da relação entre pessoas e povos, para um podcast de um projecto que coordena – Relational Lab. O podcast chama-se “Relaciono-me, logo existo” e no episódio falamos, naturalmente, sobre relações em diversos contextos, sobre e relação em diversos momentos da minha actividade profissional e em processos de tomada de decisão.

Falamos sobre como as redes sociais impactam as relações, mas imaginando como o controlo do “fogo”, há muitos milhares de anos, também impactou. De velocidade da mudança, hoje, da incerteza, do paradoxo da escolha, da individualidade e da perda de alguns referenciais comunitários e valores partilhados, nas últimas décadas. Falamos de aceitação, de partilha, mas, também, de desinformação, da propagação de mensagens de ódio e de polarização e tribalização.

Falamos de tempo. De como caminhar “de uma cultura da felicidade para uma cultura de bem-estar”, título do episódio, e de como isso pode contribuir para a qualidade relacional. Falamos da pandemia por COVID-19, das manifestações incríveis de cooperação e colaboração, particularmente na sua primeira fase e “pré-fadigas diversas”, e do ajustamento, necessidade de recuperação das perdas e reparação. Falamos de educação e do quão cada vez mais central será a relação nela e do caminho que Portugal tem percorrido. Falamos de capital relacional, da resiliência individual e comunitária, da necessidade de combater a pobreza e a crise climática e promover equidade e agência, tendo em vista mais e melhor participação. Falamos de psicologia, da sua história em Portugal e do seu potencial contributo, particularmente se em conjunto com outras áreas do saber e profissionais. Do meu “optimismo” e de como o situo na história e no que nos rodeia.

No fundo pensamos “o que temos, ao mesmo tempo, de mais bonito, mas também de mais complexo nas nossas vidas: as relações”, conforme comecei.

“E é então que amigos nos oferecem leito; entra-se cansado e sai-se refeito”, diz também a letra da canção. Assim foi. Obrigado Rui. Pelo convite e confiança. Pelo projecto.

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Reconhecer (Ao redor…; 05.06.2024)

Há, na língua portuguesa, verbos que têm múltiplos e muito diversos significados, podendo ser utilizados numa variedade muito ampla de situações. Reconhecer é um deles e, porque poderoso, é um verbo relevante em várias áreas científicas e que nos acompanha em momentos significativos da nossa vida pessoal, profissional e em sociedade. É um verbo essencial na forma como nos relacionamos connosco, com as outras pessoas e com o que nos rodeia.

Num nível individual, sabemos o quanto o reconhecimento pessoal, profissional ou social é importante. Sentirmo-nos ou não reconhecidas e reconhecidos pelo que somos, pelo nosso valor e valores e pelo que conseguimos, impacta a visão que temos sobre nós próprios e, nesse sentido, a construção da nossa identidade, auto-estima ou, até, o nosso compromisso e motivação no dia-a-dia. O quanto e o como somos ou não reconhecidas/os pode contribuir (decisivamente) para nos aceitarmos, para podermos mudar, tomar (melhores) decisões e para a nossa saúde e bem-estar.

Reconhecermo-nos implica procurarmos saber quem somos, como somos e porque o somos. Reconhecermo-nos é um ponto de partida importante para nos interessarmos e procurarmos saber quem são, como são e porque são assim outras pessoas.

Nesse sentido, num nível interpessoal, o auto e heteroreconhecimento promove uma maior compreensão, entendimento e uma atitude, tendencialmente, mais empática face às outras pessoas. É, portanto, um elemento preponderante à nossa abertura à e ao outro e ao que nos rodeia, facilitando o estabelecimento de relações, a co-construção, a inclusão, o envolvimento em projectos ou o trabalho em equipa. Apoia a nossa identificação em sociedade, a validação e o entendimento mútuo.

A validação e o entendimento mútuo são, por sua vez, pilares essenciais ao reconhecimento mútuo e este decisivo na construção de uma visão partilhada sobre direitos, deveres e desafios societais das pessoas, comunidades e dos países, num quadro internacional capaz de normas e acordos que, respeitando nuances culturais, sejam aceites e cumpridos. O reconhecimento social mútuo é, assim, veículo de coesão, de desenvolvimento e prosperidade social e factor protector face a formas de resolução de conflitos não construtivas. O reconhecimento social mútuo é fundamental para a construção e preservação da paz.

Quando, em Novembro de 1947, as Nações Unidas aprovaram uma resolução que pressupunha uma solução de dois Estados para a partilha da Palestina, tinham certamente presente que o reconhecimento, também político, desempenha esse papel crucial na resolução de conflitos e na promoção da paz. Infelizmente, com fases e momentos históricos apesar de tudo distintos, mas com momentos tenebrosos, como os ataques terroristas inqualificáveis, perpetrados pelo Hamas, em Israel, a 7 de Outubro do ano passado e os crimes e atrocidades cometidas pelo exército de Israel, em Gaza daí até hoje, nunca os dois Estados foram reconhecidos pela totalidade ou quase totalidade dos países, entre si e, também por isso, nunca a paz foi verdadeiramente cumprida.

Apesar da ampla aceitação da solução de dois Estados – seja pelo reconhecimento do Estado da Palestina concretizado por 152 (mais de 75%) dos países que integram as nações Unidas, seja pela defesa desta solução por Estados que não concretizaram o reconhecimento da Palestina – um conjunto de países, onde se inclui Portugal, vários outros países da União Europeia e os Estados Unidos da América, persistem num entendimento de que não chegou ainda o momento para se efectivar o que assumem defender. Paulo Rangel, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, disse, há dias, que “nunca houve nenhum Governo que fizesse tanto pelo reconhecimento da Palestina”. Falava do actual Governo, justificando, porém, a decisão de não acompanhar o reconhecimento efectuado recentemente por Espanha, Noruega e por uma Irlanda cuja história é bem demonstrativa da importância do reconhecimento e legitimação mútua, em virtude da sua participação no processo que culminou no Acordo da Sexta-Feira Santa em 1998 e no processo de construção da paz na Irlanda do Norte.

Pese embora os enormes desafios que se colocam e que determinam que este reconhecimento não seja consensual, é hoje claro que, conforme o não reconhecimento de pessoas e comunidades as impacta significativamente, o não reconhecimento do Estado da Palestina contribui para um quadro de incerteza e de confusão, por vezes propositada, entre organizações terroristas e o povo palestiniano. Contribui, também, para a diminuição das condições e contexto para que a Palestina possa criar e desenvolver as suas instituições, preservar a sua segurança, oferecer horizontes de esperança e futuro à sua população, no seu país e, com isso, fortalecer a prevenção do terrorismo e diminuir o poder, formal e informal, de organizações como o Hamas. Finalmente, diminui o papel de mediação das organizações internacionais, como é exemplo a ONU, na prossecução de uma paz duradoura na região e do respeito pelos Direitos Humanos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, há hoje robusta evidência sobre a importância do reconhecimento e sobre o seu impacto na vida de cada um/a de nós. Reconhecermos é, portanto, uma ferramenta poderosa, ao alcance de todas e todos, local e globalmente, para construirmos mais e melhor relação connosco, com as outras e outros e em comunidade. É, também, uma ferramenta para validar, para caminharmos para uma sociedade de direitos, deveres e de maior equidade. Para nos acolhermos e construirmos paz. Comecemos por reconhecer.

 

 

Tiago Pereira

Reconhecer

in Sábado (Ao redor…); 05.06.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/reconhecer