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JO 2024

Ontem a judoca Patrícia Sampaio fez história e ganhou a primeira medalha dos Jogos Olímpicos de Paris de 2024 para Portugal. Isto horas depois de Ana Cabecinha, após concluir na última posição os 20km de marcha, dizer que “foi o que se conseguiu arranjar” porque “a melhor medalha está fora deste percurso”.

Que muito “conseguiu arranjar” quando termina uma prova particularmente dura, três meses após ser mãe (receber a tal medalha). Mas, sabem qual o clube e onde treinam a terceira classificada dos Jogos Olímpicos de 2024 na sua categoria de judo e uma atleta que cumpriu 5 Jogos Olímpicos com três top-10 na Marcha?

É. Faltam “os grandes”, particularmente do futebol. Mas o Desporto, e com ele os Jogos, são isso mesmo.

Anteontem emocionei-me ao ver um jovem, natural da pequena aldeia onde nasci e onde parte da minha família vive, realizar uma extraordinária prova de triatlo e terminar, como a enorme foto de José Sena Goulão (LUSA) demonstra, abraçado ao colega, companheiro e amigo Vasco Vilaça que terminou imediatamente antes dele.

Falo do Ricardo Batista. Formou-se e compete pelo Clube de Natação de Torres Novas, clube que muito me deu e continua a dar. Lá atrás, quando ano após ano lá treinava e competia. Lá não tanto atrás, quando, por via de uma touca do Clube, me deu oportunidade de reencontrar uma pessoa e (re)iniciar uma importante amizade para mim e para a minha família próxima.

Viva o Desporto;

Viva os Jogos;

Viva as e os atletas;

Viva os pequenos lugares tão parte do Mundo como quaisquer outros lugares;

Viva a amizade!

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Decidir hoje, decidir amanhã

“Conforme respiramos constantemente, quando activos e de forma muitas vezes não consciente, a cada fracção de momento das nossas vidas, salvo em situações excepcionais, tomamos decisões que determinam o nosso comportamento e que se relacionam com os nossos pensamentos e crenças e com as nossas emoções. Decisões que nos impactam, que, invariavelmente, impactam quem e o que nos rodeia e que, quando têm maior importância, são capazes de “mudar” a nossa vida (…) A capacidade e a possibilidade de tomar boas decisões é, nesse sentido, fulcral para a possibilidade de autodeterminação de cada pessoa.

“Decidir hoje, decidir amanhã”, 88º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte sobre a investigação e caminho percorrido relativamente ao processo cognitivo de tomada de decisão, processo que inclui não apenas “dimensões racionais e observáveis, mas também emocionais e intuitivas.”

Pensa como “as significativas alterações aos nossos contextos e modo de vida estão, rápida e decisivamente, a determinar transformações nas pessoas, algumas estruturais, desde logo nas suas funções e capacidades cognitivas e no seu comportamento, transformações que impactam os processos de tomada de decisão”. Como os “processos de desenvolvimento tecnológico em curso, nomeadamente os avanços na inteligência artificial generativa, realidade aumentada e virtual, internet das coisas, big data ou robótica, estão a mudar e mudarão significativamente elementos-chave actuais dos processos de tomada de decisão individual e colectiva, bem como tenderão a questionar valores éticos, base das sociedades.”

Partindo do exemplo do que hoje delegamos e do que poderemos ou não vir a delegar das nossas decisões à inteligência artificial, procura sublinhar que “se estas alterações podem permitir processos de tomada de decisão mais eficientes e eficazes” será essencial “um caminho de complementaridade e alinhamento entre seres humanos e tecnologia face aos processos de tomada de decisão, a partir das justas preocupações sobre a equidade, não enviesamento dos algoritmos, valores éticos e dos direitos humanos.”

Termina afirmando que sendo o processo de tomada de decisão “complexo, multideterminado e triangulado, num determinado tempo e contexto, entre factores cognitivos, emocionais e princípios éticos”, se não tivermos estes aspectos presentes, e, portanto, não participarmos e influenciarmos também os desenvolvimentos em curso, não alcançaremos a capacitação de pessoas e da sociedade, o que constituirá um erro de consequências potencialmente gravosas para a equidade e coesão social e, logo, para a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas.”

Ps. Este texto é adaptado a partir do capítulo “A Psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções” por mim escrito, parte do livro “Ética Aplicada: Psicologia” (2024; Edições 70), coordenado por Maria do Céu Patrão Neves e Miguel Ricou.

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2100

Mais de 75 anos ou de 27.500 dias afastam este início de semana do dia em que chegaremos ao ano 2100. Será certamente um marco e foi o utilizado por António Guterres, secretário-geral das United Nations, para redigir uma carta pública destinada aos que se nos seguem, neste caso às e aos seus descentes.

Carta que partilho, neste início da última semana de Julho de 2024, trazendo e destacando o seu fim:

“O que fizeste para salvar o nosso planeta e o nosso futuro quando tiveste essa oportunidade?

Eu não desistirei de garantir que a minha geração responda a este apelo essencial.

Mobilizar-me-ei pela açção climática, pela justiça climática e por um Mundo melhor, mais pacífico e sustentável que tu e todas as gerações merecem.”

Mobilizemo-nos pelo que merecemos e pelo que quem se nos segue merece: um Mundo melhor.

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Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal (Ao redor…; 17.07.2024)

“A mensagem principal é dizer aos jovens que vale a pena viver em Portugal (…) Precisamos dos jovens portugueses em Portugal, para termos todos mais futuro”. Estávamos em Maio e foi com estas palavras que Luís Montenegro apresentou e enquadrou as decisões de um Conselho de Ministros voltado para a população mais jovem. Um conjunto de medidas em áreas diversas como a habitação, a fiscalidade, a saúde (com destaque para a saúde mental) ou o alojamento e bolsas de estudo para estudantes. Tudo propostas que, concordando-se mais ou menos, particularmente no detalhe, focam áreas-chave do desafio que se coloca ao nosso (mas não apenas ao nosso) país. Tudo propostas que, creio, serão potencialmente mais eficazes e eficientes se acompanhadas por uma mudança nas organizações, públicas e privadas, no sentido de um maior envolvimento e vinculação da população mais jovem, mudança este que poderia ser impulsionada a partir de estímulos concretos ao reforço dos princípios de equidade, diversidade e inclusão nas organizações.

Se olharmos ao nosso redor podemos ver e perceber. Temos, hoje, em Portugal, uma população jovem, não apenas com mais e mais especializada formação, mas mais diversa, fruto do aumento da mobilidade global e de um certo tipo de migração nos últimos anos. Uma população jovem, empoderada, que prioriza o propósito na vida e no trabalho, que se orienta por valores, pela procura de equilíbrio entre vida profissional e pessoal e pela promoção do bem-estar. Mercê alterações societais, algumas muito influenciadas pelas novas tecnologias, temos também hoje um desfasamento significativo entre gerações e, por vezes, maior dificuldade nos diálogos e na compreensão intergeracional. Temos, por outro lado, uma inversão relevante da pirâmide etária e, por isso, cada vez mais pessoas com maior capacidade e, algumas, com vontade e intenção de trabalhar mais anos e de manter posições de decisão e responsabilidade nas organizações.

Dizia que a população mais jovem prioriza o propósito na vida e no trabalho e o bem-estar. Fá-lo, no presente, mas considerando sempre o futuro e, particularmente, fazendo-o a partir da criação de um caminho, de uma perspectiva. Procura, portanto, previsibilidade e segurança em tempos de incerteza e de maior volatilidade. Procura algum controlo que pode resultar, também, da agência que sente na construção desse caminho e no desejo de ser parte activa e considerada. A população jovem quer, por isso, fazer e ser parte dos processos, da política às instituições da sociedade civil, passando, necessariamente, pelas organizações. Quer, mas, invariavelmente, não consegue. Não acede, não participa de forma abrangente e generalizada.

Neste contexto e com este enquadramento, penso fundamental que as organizações tenham presente referenciais que assumam os valores da equidade, da diversidade e da inclusão como centrais na sua estratégia. Valores capazes de influenciarem a cultura da organização no sentido da maior diversificação das suas pessoas e das pessoas envolvidas nos processos de gestão e tomadas de decisão estratégicas. De influenciar, também, no sentido de serem mais inclusivas na diversidade de experiências e proveniências, incluindo académicas/formativas, de capacidades, de culturas, de géneros, de gostos, de idades. De garantir maior equidade, a partir de oportunidades para todas e todos. Tudo no sentido de que mais pessoas, e mais pessoas mais jovens, sintam espaço de envolvimento, de segurança e de participação nos processos de decisão e condução das organizações, vinculando-se e contribuindo para o seu desenvolvimento, sustentabilidade e futuro. Seu, da sua organização, do país e do Mundo, num quadro de valores e propósito.

Várias organizações têm nos últimos anos assumido este ou referenciais próximos, cuja evidência científica tem demonstrado serem relevantes quer relativamente aos processos internos, quer na melhor resposta das organizações às necessidades das pessoas que servem e da sociedade em que operam. Das melhorias no clima organizacional, na flexibilidade, na inovação e criatividade, ao aumento da segurança psicológica e redução de conflitos, passando, necessariamente, pela maior responsividade às necessidades de clientes e maior capacidade de adaptação a mudanças de contexto e na sociedade, são inúmeros, amplos e significativos os impactos potenciais do reforço destes referenciais e vão muito além do importante papel de responsabilidade social para que concorrem.

“Não apenas é fazermos o que é correcto, é fazermos o que é mais inteligente”, ouvi há anos um CEO referir quando apresentava o referencial Equidade-Diversidade-Inclusão como um dos pilares fundamentais em todas as decisões estratégicas da sua organização. Acrescento, não apenas é fazermos o correcto e mais inteligente nas organizações como, ao fazê-lo, estaremos certamente a contribuir para uma sociedade que vive melhor a sua diversidade, logo mais inclusiva, mais equitativa e com maior possibilidade de bem-estar e de futuro para todas as pessoas, incluindo a sua população mais jovem.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, os desafios do envolvimento da população mais jovem nas organizações implicarão mudanças, progressivas e participadas, nas próprias organizações. É por isso relevante que programas que visem a vinculação das e dos mais jovens jovem ao país visem medidas junto da população mais jovem, mas, complementarmente, estímulos concretos e decisivos que apontem a um caminho de maior diversidade, equidade e inclusão nas organizações. Um caminho que deve ser desejado e acarinhado pela própria sociedade civil e que pode, positivamente, apoiar a inovação, a transformação, o desenvolvimento e a sustentabilidade das organizações e da sociedade.

 

 

Tiago Pereira

Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal

in Sábado (Ao redor…); 17.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/mudar-para-envolver-e-vincular—as-organizacoes-e-os-jovens-em-portugal

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Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal

Equidade–Diversidade–Inclusão. “Não apenas é fazermos o que é correcto, é fazermos o que é mais inteligente”, ouvi há anos um CEO referir quando apresentava este referencial como um dos pilares fundamentais de todas as decisões estratégicas da sua organização. Acrescento, não apenas é fazermos o correcto e mais inteligente nas organizações como, ao fazê-lo, estaremos certamente a contribuir para uma sociedade que vive melhor a sua diversidade, logo mais inclusiva, equitativa e com maior possibilidade de bem-estar e de futuro para todas as pessoas, incluindo a sua população mais jovem.”

“Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal”, 87º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte sobre a importância de “programas que visem a vinculação das e dos mais jovens ao país” conterem, além de medidas junto da população mais jovem, “estímulos concretos e decisivos que apontem a um caminho de maior diversidade, equidade e inclusão nas organizações”.

Porquê, podem perguntar-se… Porque “temos, hoje, em Portugal, uma população jovem, não apenas com mais e mais especializada formação, mas mais diversa, fruto do aumento da mobilidade global e de um certo tipo de migração nos últimos anos. Uma população jovem, empoderada, que prioriza o propósito na vida e no trabalho, que se orienta por valores, pela procura de equilíbrio entre vida profissional e pessoal e pela promoção do bem-estar (…) Fá-lo, no presente, mas considerando sempre o futuro e, particularmente, fazendo-o a partir da criação de um caminho, de uma perspectiva. Procura, portanto, previsibilidade e segurança em tempos de incerteza e de maior volatilidade. Procura algum controlo que pode resultar, também, da agência que sente na construção desse caminho e no desejo de ser parte activa e considerada. A população jovem quer fazer e ser parte dos processos, da política às instituições da sociedade civil, passando, necessariamente, pelas organizações.”

No artigo procuro, como este contexto, sublinhar o quão fundamental pode ser as “organizações terem presente referenciais que assumam os valores da equidade, da diversidade e da inclusão como centrais à sua estratégia. Valores capazes de influenciarem a cultura da organização no sentido da maior diversificação das suas pessoas e das pessoas envolvidas nos processos de gestão e tomadas de decisão estratégicas. De influenciar no sentido de serem mais inclusivas na diversidade de experiências e proveniências, incluindo académicas/formativas, de capacidades, culturas, géneros, gostos e de idades. De garantir maior equidade, a partir de oportunidades para todas e todos.”

“Tudo no sentido de que mais pessoas, e mais pessoas mais jovens, sintam espaço de envolvimento, de segurança e de participação nos processos de decisão e condução das organizações, vinculando-se e contribuindo para o seu desenvolvimento, sustentabilidade e futuro. Seu, da sua organização, do país e do Mundo, num quadro de valores e propósito.”

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Vinhos com História

Numa recente entrevista ao jornal @PUBLICO, a @Maria João Valente Rosa – uma das demógrafas mais reconhecidas num Portugal onde a demografia é hoje um desafio – dizia que uma das formas que temos para melhor prevenir o isolamento e a solidão é prepararmo-nos para ter uma vida longa procurando, entre outras coisas, fazer e manter amizades com diferentes gerações. “Promover relações intergeracionais”, dizia, para combater um sério problema de saúde pública no presente e para o futuro. Não podia estar mais de acordo. Para combater a solidão e para promover a coesão social.

Este caminho, de construção de uma sociedade de relações mais intergeracionais, que contrarie uma tendência de fechamento em “bolhas” de gostos, ideais, clubes, rotinas, idades e até, por vezes, de géneros, que tendencialmente as novas tecnologias e determinados usos das redes sociais têm exacerbado, faz-se de reconhecimento das outras pessoas, de amizades e de pontes e pontos de encontro. E é aqui que determinados interesses (um hobbie, uma actividade cultural, uma participação cidadã) podem ser decisivos. É aqui que algumas constantes e costumes do nosso país podem, verdadeiramente, fazer a diferença. Permitam-me um exemplo, a que convido.

A @RTP transmitiu recentemente uma série, ainda (?) apenas com 5 episódios, intitulada “Vinhos com História”. Versa a história de determinados vinhos, típicos de determinadas zonas de Portugal e, à volta deles, de relações que se estabelecem entre pessoas e entre pessoas e territórios. Continuidades. E pontos e pontes de encontro, por vezes extraordinários, porque resultam da prática de “fazer o vinho”, de o fazer naquelas condições e com determinadas práticas que passam e se aprimoram de geração em geração e, depois, de o celebrar e dele ser motivo para juntar pessoas, por vezes muito diversas, incluindo nas suas idades.

Mais, representa um país, apesar de tudo com uma profunda identidade construída também na diversidade das suas regiões, práticas e das suas pessoas. Diferenciado. Com história. Se aceitarem o meu convite e se escolherem apenas um dos episódios, convido ao dos “Vinhos do Pico”. Simbólico enquanto retrato de um país bonito, intenso, exigente, sempre por descobrir. Um país de futuro, mesmo quando o futuro parece difícil. Um país que ousa e tenta melhorar dia-a-dia, falhando muitas vezes para acertar outras. Um país que não vira a cara às dificuldades e desafios e com um potencial enorme de possibilidade de bem-estar para as suas pessoas.

Oxalá o consumamos com a moderação com que devemos consumir os seus magníficos vinhos. Oxalá o aproveitemos com o deleite que os seus vinhos nos provocam e provocam a todas as pessoas que decidem sentir o nosso país também a partir deles.

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13 de Julho…

Conforme este nosso planeta não pára de rodar em torno do seu próprio eixo e de girar à volta do Sol, o que se passa nele não pára de nos surpreender. De nos desafiar.

À dias lia como estudos mais aprofundados sobre um fóssil, apelidado de “Tina” e descoberto em 1989 na província de Valência, vêm demonstrado como uma criança Neandertal, cujo tempo de vida se estima situado entre os 273 e os 146 mil anos antes de Cristo, viveu no mínimo até aos 6 anos com Síndrome de Down. Ou seja, como recuando centenas de milhares de anos encontramos antepassados nossos que desenvolveram sentido de pertença, de comunidade, de altruísmo perante outras e outros, o manifestaram e como foram também esses sentidos e atributos que nos trouxeram aos seres humanos de hoje, aos dias de hoje.

Penso-o à luz de dois recentes e extraordinários 13 de Julho nos EUA que, à sua forma, serão também lembrados por dezenas ou centenas de anos (embora, talvez, não centenas de milhares de anos):

a) O de 2013 quando Alicia Garza, junto com companheiros, “cunhou” a hastag “#BlackLivesMatter”, a propósito da morte de um jovem e do processo de julgamento da pessoa por ela responsável. Concorde-se mais ou menos com a forma como todo o movimento que se seguiu foi e tem sido gerido (por vezes utilizado), é um momento (e movimento, depois) simbólico da afirmação do valor de todas as vidas, de todas as pessoas, e de um bem maior que trata o respeito da pessoa humana, qualquer que seja a sua história, origem ou conjunto de características;

b) O de 2024 quando numa acção de campanha, o ex-presidente dos EUA Donald Trump, a dias de ser formalmente indicado em convenção pelo Partido Republicano como novamente candidato às presidenciais de 2024, foi alvo de uma tentativa de assassinato que foi, por apoiantes e por adversárias/os, amplamente condenada como uma tentativa absolutamente inaceitável e intolerável de atentar contra uma vida humana e contra a ideia de democracia.

Numa mensagem de agradecimento ao apoio que justamente tem recebido, Donald Trump escreveu ontem na sua rede social que não deixará e deixarão “que o mal vença”. Por uma vez, estamos de acordo. Não deixar “que o mal vença”.

Não deixar que o mal vença os valores de pertença, comunidade e altruísmo que nos trouxeram aos dias de hoje. Não deixar que o mal vença a ideia de que cada ser humano é um ser com direitos, independentemente da sua história, origem ou conjunto de características. Não deixar que o mal vença um sistema de opinião e participação livre, de adversárias/os e não inimigas/os, de democracia.

Espero que possamos também concordar que, para tal, todos temos que fazer a nossa parte, mais ou menos singela, para criar condições e contribuir para objectivos, para um chão e para uma ideia de bem-comum e de possibilidade de compromisso entre pessoas que, naturalmente, podendo (e devendo) discordar, são parte de uma mesma sociedade.

Como à centenas de milhares de anos, hoje, olhando e contribuindo para o amanhã.

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Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação (Ao redor…; 02.07.2024)

Lisboa, 14 de Maio de 2024: O governo português, reunido em Conselho de Ministros, aprova uma resolução que determina “o desenvolvimento de um novo aeroporto internacional de Lisboa, com a designação de Aeroporto Luís de Camões, localizado no Campo de Tiro de Alcochete”. Copenhaga, 14 de Maio de 2024: Ursula von der Leyen, numa intervenção no Congresso da Democracia de Copenhaga, defende que a “Europa tem de lutar pelos seus valores e pelas suas democracias sob pena de serem pirateadas por autoritarismos que procuram corroer e erodir tudo o que se construiu nos últimos 70 anos”.

Estávamos em 1969 quando se iniciou em Portugal o debate sobre a relocalização do Aeroporto da Portela. Processo cuja concretização da resolução acima referida pode concluir, mais de 60 anos depois e após múltiplas e diversas decisões e possibilidades de relocalização. Vivia-se, em 1969, tal como se vivia em Espanha, numa das últimas ditaduras que resistiam enquanto ditadura na Europa do pós II Guerra Mundial e seria certamente inimaginável que esta decisão pudesse demorar 60 anos a ser concretizada. Um inimaginável que, dia-a-dia, pelos avanços e recuos nas decisões e não-concretizações, foi limitando a novidade, a nossa resposta ao estímulo “novo aeroporto” e que fez com que, necessariamente, desviássemos a atenção desse foco para nos concentrarmos noutras novidades ou em desafios mais significativos. Fez com que nos habituássemos.

Não precisamos de recuar tantas décadas para considerarmos inimaginável o momento que vivemos na Europa. Momento que, conforme von der Leyen bem refere, se caracteriza por um forte questionamento dos valores da União Europeia e das suas Democracias. Um pouco como observamos com a ascensão de populismos e políticas iliberais Mundo fora – com o exemplo dos EUA e dos estados tradicionalmente autoritários sempre presente – parece já não surpreender a vitória e a possibilidade de sermos governados por partidos da direita populista, radical ou extrema na Europa. Um inimaginável que, dia-a-dia, foi limitando a novidade, a nossa resposta ao estímulo “populista” e fez com que, necessariamente, desviemos a atenção desse foco para nos concentrarmos noutras novidades ou em desafios mais significativos. Fez com que nos habituássemos. Com que naturalizássemos. Fez, portanto, com que o efeito de sobressalto colectivo de grande parte da sociedade, sentido aquando da passagem de Jean Marie Le Pen à segunda volta das presidências de 2002 de França, tenda a não se repetir hoje a caminho de uma segunda volta das Legislativas de 2024, onde o partido herdeiro das suas ideias – o Rassemblement National – poderá garantir uma vitória.

Com que naturalizássemos, também, a mentira em política. Com que naturalizássemos que, pese embora um desempenho confrangedor de Biden, seja possível, hoje, considerar-se que o primeiro debate das presidenciais de 2024 dos EUA foi vencido por um político como Trump, cujo valor da verdade e dos factos não reconhece ou respeita e que, por isso, normalmente (como foi o caso) não cumpre regras mínimas para debater em democracia, logo, para vencer qualquer debate democrático.

Aqui chegados, reconhecendo-se este caminho e história, sabendo-se os impactos da perda de valores e do enfraquecimento das instituições democráticas na coesão social e na saúde e bem-estar, particularmente de pessoas em situação de vulnerabilidade, e compreendendo-se o comportamento humano e como decorrem os processos descritos, importa desenvolver estratégicas que mitiguem a habituação e mobilizem a população para a não naturalização destes processos.

Reforçarmos o pensamento crítico e a capacidade individual e colectiva de questionar e de compreender o Mundo, também pela promoção da partilha e diálogo entre países e culturas e pela capacitação e literacia científica e mediática em todas as idades. Promover o diálogo, também, entre diferentes sectores da sociedade e não o encerramento e polarização, validando posições diversas e discutindo temas e procurando construir pontes e pontos de encontro a partir dessa validação mútua. Garantindo que contribuímos para a preservação da confiança nas instituições e para o empoderamento das estruturas de vigilância e garantia do conjunto de valores da nossa democracia e constituição. Também, procurando garantir maior inclusão e diversidade na representação política e nas estruturas da sociedade civil no sentido da maior identificação e do sentido de representatividade.

Tudo isto. Tudo isto e utilizarmos a ciência e a melhor evidência disponível para garantir mais possibilidade de protecção e resiliência da população aos fenómenos que mais têm contribuído para que alguns inimagináveis se estejam a tornar realidade. Conforme o Fórum Económico Mundial – que considera a má informação e a desinformação o risco global mais severo no curto prazo – von der Leyen, no mesmo discurso que atrás referi, deu-nos um importante exemplo do que podemos e devemos fazer quando refere que “é essencial que as pessoas saibam qual é a influência da má informação e da desinformação e quais são as técnicas por detrás delas, pois à medida que o conhecimento aumenta, as hipóteses de sermos influenciadas/os diminuem, e isso fortalece a resiliência da sociedade”. Disse-o para depois defender que, “se pensarmos na manipulação da informação e na desinformação como um vírus, ao invés de tratarmos uma infecção depois de desenvolvida (“debunking”), é muito mais eficaz vacinarmo-nos para que o corpo fique imunizado”. Dito de outra forma, é muito importante expormos, controladamente, a população ao fenómeno da desinformação, educando para a forma como é utilizada, preparada e difundida para que, a partir dessa literacia e conhecimento, as pessoas desenvolvam capacidade de pré-refutação (“prebunking”) dessa informação, ficando mais imunes e menos expostas aos seus impactos e à possibilidade de sermos cadeias de transmissão e reforço. A este propósito, e caso tenham interesse, aconselho os trabalhos do psicólogo Sander van der Linden e das equipas com quem tem trabalhado no desenvolvimento de recursos e jogos pedagógicos de combate à desinformação e aos seus impactos negativos nas pessoas e sociedade, como é o caso do “Bad News Game”, com evidência científica promissora.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, não desistirmos da verdade e da informação factual e defendermos os valores da União Europeia e as Democracias na Europa implica que não permitamos que nos habituemos aos fenómenos que contribuem, muitas vezes por dentro dos sistemas democráticos, para que a coesão social e a integridade das instituições democráticas sejam enfraquecidas. Enfrentar o desafio do populismo exige proactividade e uma actuação multifacetada, que considere o tempo presente, mas pense também a história e os seus exemplos e pense o futuro e a forma como, numa perspectiva de legado, podemos contribuir para um país e um Mundo de Direitos e com maior possibilidade de autodeterminação para todas as pessoas no futuro.

 

Tiago Pereira

Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação

in Sábado (Ao redor…); 02.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/ai-habituamo-nos-habituamo-nos-ou-o-importante-papel-da-mobilizacao-e-da-inoculacao

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Planeta em mudança

A Fundação Francisco Manuel dos Santos disponibilizou uma extraordinária conversa entre Pedro Pinto e um inspirador historiador Peter Frankopan, gravada à dias em Lisboa para um episódio do podcast “Não é assim tão simples”.

Aconselho-a. Muito. É sobre um “planeta em mudança” e, como não podia deixar de ser, a conversa “dança” permanentemente com a crise climática que vivemos, mas, também, com a crise de confiança, os seus fundamentos e a forma como, globalmente, nos relacionamos, colaboramos e adaptamos. Como no fundo, como diz Frankopan, “recuando no tempo profundo, uma das razões para o sucesso foi sempre a resiliência” e como “continua a ser uma arma poderosa para combater os desafios actuais”.

Ouvi-los fez-me e faz-me:

a) Regressar a 2019 quando estive com o Peter Frankopan, em Oxford, na “Challenges of Government”, conferência à qual aportou uma reflexão impactante sobre o papel da população mais jovem, dos riscos que corre e da disrupção que historicamente trouxe. De Júlio César aos participantes nos Congressos Bolchevique de 1917 ou no que criou o Partido Nazi, terminando na contemporaneidade e nos impactos na sociedade de pessoas muito jovens a partir de Silicon Valley. Num pequeno texto que então escrevi refiro-me à forma como me fez reflectir sobre como “a norma social de comportamento das/os mais jovens tem moldado o futuro e como o poderá fazer também ao nível da governação e dos seus modelos” ou, acrescento, em torno da necessária (priorização da) transição climática;

b) Partilhar, convosco, o projecto “Battered Waters” da Anush Babajanyan, vencedora do prémio “Long-Term Project” do World Press Photo de 2023. A imagem que partilho é apenas uma de um trabalho amplo, diverso e profundo em torno da dificuldade de acesso a água na Ásia Central e da adaptação das populações e impacto nelas desta realidade.

c) E, finalmente, partilhar também um contributo científico onde colaborei enquanto representante da Ordem dos Psicólogos Portugueses no “Expert Reference Group for Psychology and Climate Change” da EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), intitulado “Climate Crisis and the Human Factor: 10 Psychological Keys to Unlocking Climate Action”. Relatório onde encontram um conjunto específico de contribuições da psicologia, enquanto ciência e prática, para a tão desafiante e hercúlea, quanto relevante e urgente, transição climática.

Uma transição que implica resiliência, é certo, mas, também, capacidade de adaptação, de colaboração e relação. Que implica ciência e uma sociedade comprometida.

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A França…

Começo a semana a pensar em Beethoven. Passam, agora, poucas semanas das comemorações em 7 de Maio último, dos 200 anos da primeira apresentação da sua 9ª Sinfonia, que inclui o Hino da Alegria, Hino da União Europeia.

Beethoven pensou e propôs a alegria com o (pelo, apesar do) sofrimento e, conhecendo-se a sua história de vida, facilmente o percebemos. Hoje é, apesar de tudo, um dia bom para o celebrar. Alegria, com sofrimento.

Há dias aqui convosco partilhei o último artigo que escrevi para a rubrica “Ao redor” da Sábado (https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_ai-habituamo-nos-habituamo-nos-ou-o-importante-activity-7214897043092172801-wf0v?utm_source=share&utm_medium=member_desktop). Nele escrevi:

“Fez com que nos habituássemos. Com que naturalizássemos. Fez, portanto, com que o efeito de sobressalto colectivo de grande parte da sociedade, sentido aquando da passagem de Jean Marie Le Pen à segunda volta das presidências de 2002 de França, tenda a não se repetir hoje a caminho de uma segunda volta das Legislativas de 2024, onde o partido herdeiro das suas ideias – o Rassemblement National – poderá garantir uma vitória.”

Ganhando, pelo quanto cresceu e continua a crescer, não venceu. E, não se repetindo o sobressalto colectivo de há 22 anos, outro, importante, existiu. E quão decisivo foi. É. Será. Por uma ideia e ideal de sociedade. De França. De Europa.

De diversidade, co-construção e humanismo, onde não existem níveis diversos de pessoas (os por cá, pelo partido irmão, chamados “portugueses de bem”, por oposição a outras/os portuguesas/es), com diferentes níveis de acesso, por exemplo a cargos públicos (a quem com dupla nacionalidade) ou à própria nacionalidade, conforme proposto por Bardella / Marine Le Pen.

De ciência, considerando o amplo receio de quebras no investimento e independência da ciência à escala nacional e europeia e da emergência e empoderamento de grupos e de um discurso anti-ciência e de decisão individual por oposição à saúde pública. Veja-se o que e porque propôs a Liga em Itália, partido de Salvini – outro partido próximo – relativamente a alterações às orientações de vacinação de crianças.

Ainda, de reconhecimento da crise climática e da necessidade de transição ecológica garantindo outro presente e futuro. Que permita considerar além do presente, num quadro de justiça intergeracional, o legado para as novas gerações ao nível da sociedade e coesão, da economia e social e do ambiente – qual seria o contributo de França para o Pacto Ecológico Europeu e que defesa faria do acordo de Paris? Simbolicamente, Paris.

“Não conheço nenhum outro sinal de superioridade a não ser a bondade”, disse Beethoven. É. Nunca o esqueçamos. Quase 9 milhões de votos agora (9 milhões e 400 mil na 1ª volta), partido mais votado numa e noutra. Não, não se trata de “inferioridade/superioridade” mas um certo sentir e um certo ressentimento. Valha-nos a vontade. Valha-nos a possibilidade de reconstruir comunidade. Valha-nos a bondade.