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Agência.

Lembram-se da “TINA”, o acrónimo em inglês para o “NHA” português [There Is No Alternative | Não Há Alternativa]?

Estamos num desses momentos. Confrontados com incêndios que nos fazem sentir impotentes e descrentes em que possamos fazer algo para prevenir, no futuro, estas situações e os seus impactos. Confrontados com fenómenos sociais que, conjugados no tempo, nos fazem desafiar a percepção de segurança que o nosso país continua a oferecer, por comparação à grande maioria (quase totalidade) de países, Mundo fora.

Estamos num desses momentos porque, sozinhos, sentimo-nos distantes, desempoderados e descrentes de poder fazer algo que, significativamente, contribua para minimizar estas situações e mitigar os seus efeitos.

Mas… Assim não é. Pensemos nas pessoas, hoje e nos últimos dias, envolvidas no combate aos incêndios e apoio às populações. Em como as comunidades se unem para, juntas, resistirem. Em como profissionais e voluntárias/os dão o que têm e o que não têm pelas outras pessoas e pelos lugares.

Neles inspirado, pensemos em como, mesmo à distância, podemos contribuir e advogar para uma mobilização social que reconheça local e globalmente a crise climática e como podemos contribuir, individual, colectiva e globalmente para a sua mitigação. Como podemos advogar por alterações no ordenamento do território e na organização da sociedade, para maior prevenção destas situações. Também para uma preparação das comunidades para protocolos de actuação em situações como os desastres naturais ou acontecimentos inesperados, aumentando a sua percepção de controlo, a resiliência individual e colectiva e a sua segurança e previsibilidade. Como podemos, mesmo à distância, dar pequenos grande contributos como são exemplo dar sangue, conversar e ligarmo-nos a pessoas próximas, comunicar estes fenómenos com as crianças e jovens diminuindo o seu impacto. Como nos podemos aproximar e suportar as pessoas que mais sofrem com estes fenómenos e construirmos comunidades. Como podemos contribuir para fazer cair o “N” da TINA e do NHA e promover agência nas pessoas e comunidades.

Eu, singelamente, procuro fazê-lo. Junto das pessoas mais próximas. Também em pequenos contributos como os que partilho, sobre a importância de comunicarmos fenómenos como o da EB da Azambuja com crianças e jovens (obrigado Nuno Vinha) ou sobre a hiper-exposição e o papel da comunicação e do suporte da comunidade (obrigado, Carla Jorge de Carvalho). Acredito na possibilidade de mudança e isso é, para mim, um factor protector.

A mudança é possível. De outra forma, aquando destas situações, não falaríamos ainda do impacto na saúde mental e bem-estar. A mudança é possível. Podemos empoderar pessoas e comunidades para lidar com estes fenómenos. Podemos promover recursos individuais e comunitários, mesmo tudo fazendo para que estes fenómenos não se repitam.

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Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Psicologia

Fomos e somos capazes e exemplo noutras áreas. Podemos ser nesta.

A fuga do Estabelecimento Prisional de Vale Judeus foi o acontecimento mediático da semana passada. Sendo um acontecimento necessariamente significativo, temo que esta atenção resulte no que resultou o sobressalto após a fuga do EP de Caxias de 2017: poucas alterações substantivas ao sistema judicial e prisional; pouco debate sobre as condições da reclusão e dos processos de prevenção da (pequena) criminalidade e de reinserção e reintegração.

Vejamos. Portugal é o 7º país mais seguro do Mundo e o 7º país da União Europeia (UE) com menor taxa criminalidade violenta. Tem, em simultâneo, um número de reclusas/os acima da média na UE e é o país da UE com penas de prisão médias mais longas.

Um paradoxo? Sim, certamente… Pequenos comentários sobre ele:

 

a) Um trabalho da “The Psychologist” de 10.09 trata o tema e parte de uma ideia sobre a qual creio devermos reflectir: a necessidade de inscrevermos que “as pessoas estão detidas como punição e não para serem punidas”;

 

b) Reforça, depois, o papel da pobreza e da exclusão como trajectórias para a (pequena) criminalidade e o ciclo de, após uma detenção, a dificuldade de integração social (trabalho, habitação, …) potenciar a reincidência. Algo especialmente factual em Portugal onde a população reclusa é maioritariamente marcada pela pertença comunitária não maioritária e/ou pela pobreza. Onde a taxa de reincidência é muito elevada;

 

c) O populismo, ontem mais latente que hoje na população portuguesa, mas que sempre influenciou (influencia) decisoras/es e partidos “catch all”, muito contribuiu (contribui) para inexistência de pressão da sociedade civil para a garantia de melhores condições para reclusas/os e para profissionais que trabalham no sistema prisional, quer sejam as/os que garantem a segurança de reclusas/os e sistema, quer quem se foca na promoção da educação, saúde, trabalho (reinserção social). Fazem-no pela utilização do exemplo, factual por vezes, não factual noutros, contra dados oficiais e pelo exacerbar do revanchismo e medo como estímulo para políticas públicas claramente contracíclicas face à ciência e às boas práticas nos direitos humanos.

Que este seja um tempo de pensarmos em transformações que, sendo complexas, são possíveis. Que atendemos às e aos profissionais. Que empoderemos as comunidades para a inclusão. Que pensemos as condições, a saúde (incluindo a saúde mental) e o bem-estar da população reclusa. Que previnamos as condições sociais que determinam as trajectórias e diminuamos a reincidência. Tudo investimentos de retorno económico significativo e de promoção de bem-estar e coesão social.

Fomos e somos capazes e exemplo noutras áreas. Podemos ser nesta.

Ps. Imagem captada pelas câmaras de videovigilância do EP de Vale Judeus partilhada por diversos órgãos de comunicação social depois de disponibilizada numa rede social do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (!).

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O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais

Quase 50.000 jovens iniciam por estes dias o seu percurso no Ensino Superior. Tempo para perguntar se “estaremos a investir adequadamente no desenvolvimento de competências facilitadoras das relações interpessoais [neste] momento-chave da formação das e dos profissionais do presente e para o futuro? Estaremos a valorizar estas competências e a utilizar a ciência e a evidência no seu desenvolvimento?

“O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais”, 90º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) traz estas questões quando a crise climática, a par de outros desafios sociais complexos, “exigem mais relação interpessoal, capaz de estimular mais trabalho em equipa, colaboração interdisciplinar e comportamentos pró-sociais de cooperação entre cidadãos”.

O artigo discute porque a resposta às primeiras perguntas é “não, não o estamos a fazer suficientemente”. Fá-lo em 6 pontos que sustentam possíveis explicações e pistas para uma mudança no sentido do reforço deste caminho:

a) “A progressiva fragmentação e atomização da comunidade educativa” e o seu contributo “para a quebra da ligação, identidade, sentido de coesão e comunidade” e como devemos “reforçar o envolvimento e possibilidade de participação, os valores comuns e o trabalho colaborativo e em equipa nas instituições”;

b) “O desafio da transição e integração na Universidade/Politécnico” e a importância de se desenharem “estratégias que apoiem a integração de novas/os estudantes, com destaque para programas de mentoria e tutoria”;

c) “O agravamento nos últimos anos (e a situação tenderá a piorar nos próximos) dos problemas e das condições relacionadas com a saúde mental das e dos jovens estudantes” e o quão urgente é “investir estruturalmente na saúde mental, numa perspectiva, também, de prevenção e da sua promoção”;

d) “A necessidade de balancear o desenvolvimento de competências técnicas com competências facilitadoras, nomeadamente de âmbito pessoal e social como a capacidade de reconhecimento e gestão das emoções, de comunicação ou de resolução de problemas”;

e) “A não-valorização e não-intencionalização da colaboração” e o caminho a percorrer para a inclusão de acções de colaboração “enquanto indicadores principais da actividade e sustentabilidade das organizações e de avaliação de desempenho”;

f) “A necessidade de repensar o acesso e/ou escolha das lideranças” abandonando o modelo da liderança da equipa corresponder ao “topo de carreira” ou à “maior competência técnica instalada” e considerando as competências de liderança e a possibilidade do seu desenvolvimento.

Termino apelando a que na formação “das e dos profissionais e líderes do presente e do futuro invistamos, significativamente, no reforço das suas competências sócio-emocionais, considerando o quão prementes serão as relações interpessoais na resposta aos desafios. Desafios que que necessitarão de um novo e renovado impulso de colaboração e cooperação entre seres humanos.”

Que nele participemos, juntos e por todos.

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A Alhambra e a atomização…

Não começando com o “Al” das palavras de origem árabe (como Algarve e a sua alfarroba), tenho pensado muito na Alhambra e na sua relação com o verbo atomizar.

Este Verão visitei a Alhambra (Granada), provavelmente o melhor preservado conjunto de monumentos representativos da história da cultura e arquitectura islâmica da Península Ibéria. Aconselho vivamente a visita a quem ainda não teve essa oportunidade, pela beleza e pela história que encerra, naturalmente, mas, também, pela coesão e identidade daquele aglomerado de edifícios, jardins, caminhos e espaços públicos e pela intencionalidade com que foi construído. Cada peça, cada canto e recanto, cada jardim, cada pormenor parece perspectiva de pensado, planeado e executado na perfeição e com atenção ao mais ínfimo detalhe, criando sentido, dando significado ao espaço e melhorando a sua eficiência. Isto, nas dimensões de promoção do bem-estar de quem lá habitava, na rentabilização dos recursos naturais e na segurança e força (poder) que passava a quem visitava a Alhambra ou pensava “conquistá-la”.

A Alhambra é um exemplo, naturalmente contextualizado ao seu tempo, de construção de comunidade. A Alhambra é um exemplo, naturalmente contextualizado ao seu tempo, do que pode ser construído em comunidade.

Recorda-nos a importância da colaboração, do trabalho em equipa, das relações e do foco na coerência do conjunto, do todo. Recorda-nos a importância de resistirmos aos processos de atomização e fragmentação em sociedade, hoje muito comuns em particular nos serviços públicos. Não raras vezes, quer por processos de redução de custos, ausência de recursos e/ou resposta mais imediata a necessidades, quer por processos de desconfiança e de falta de colaboração entre profissionais, quer por processos de hiperespecialização, temos, enquanto comunidade e sociedade, optado pela desagregação de conjuntos coerentes (partes que fazem um todo) de resposta/serviços, pulverizando acções, segmentando-as e dividindo as acções. Na saúde. Cada vez mais na Educação, perdemos comunidade e conjunto em função da dispersão e individualização de processos e acções.

Perdemos comunidade e perdemos a capacidade de na diversidade edificarmos mais e melhores respostas às pessoas. Perdemos a capacidade de na diversidade edificarmos mais e melhor e, com isso, espaço de construir comunidade.

Também por isso, importa que pensemos nos impactos para o futuro das respostas que hoje construímos para os desafios que se nos colocam no presente mais imediato. Na sua sustentabilidade e impacto a médio e a longo prazo. Eventualmente na forma como podem, essas respostas, criar desafios e como os consideramos.

A Alhambra é, para mim, não sem problemas e sem a necessária contextualização, uma expressão viva do poder da comunidade e de como comunidade gera comunidade e, em sentido contrário, atomização gera fragmentação.

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O MEC…

“Viver com preconceitos é como passear de tanque.”

Faço parte do conjunto de pessoas que com regularidade lê o Miguel Esteves Cardoso. Leio-o e, como ele, reflicto sobre o Mundo ao redor. Aprendi e aprendo muito com ele. Pensei e penso, senti e sinto muito com ele.

Ontem, sobre como os nossos preconceitos e vieses influenciam a nossa tomada de decisão e comportamento. Influenciam a nossa vida e, nesse sentido, porque todas e todos os temos, a nossa sociedade.

“Espreita-se a rua, vêem-se as pessoas e até podemos arriscar e mostrar a cabeça, para poder falar directamente com alguém, ou respirar o vento. Mas estamos dentro de um tanque. E não é assim que se mexem os animais deste planeta”.

Não, não é. E o MEC descreve, à sua maneira, porque não, não é, e porque isso nos retira oportunidades de experimentar, de sentir, de ser. Porque pode encerrar-nos, mas…

“Temos tantos preconceitos porque os preconceitos nos protegem…”

Diz, com propriedade. Efectivamente os vieses que suscitam que, com maior ou menor intensidade – também dependendo das nossas características e experiências, do nosso momento de vida e do tema/acontecimento a que se apliquem – automaticamente consideremos mais o presente e o imediato (face ao passado e mais distante), o negativo (face ao positivo), que confirmemos as nossas ideias prévias e preconceitos tiveram e têm um papel na nossa protecção enquanto indivíduos e espécie.

Um bom exemplo é o viés da intencionalidade que, muitas vezes, surge associado a explicações sobrenaturais para fenómenos naturais ou a teorias da conspiração. A crença de que se algo aconteceu, aconteceu porque algo ou alguém intencionalmente o provocou (desde logo, retirando espaço ao fundamental acaso das nossas vidas), foi muito importante numa perspectiva de evolução da espécie para a defesa e protecção face a ameaças externas. Historicamente, a “perda” associada a se pensar que podia existir um “elemento ameaçador” que fez com que caísse um fruto duma árvore atrás de nós sem que esse elemento existisse gerou, apesar de tudo, decisões e comportamentos com menor perda potencial relativamente a achar-se que o fruto tinha simplesmente caído por si e existir mesmo um “elemento ameaçador” na árvore atrás de nós, de onde caiu o fruto.

“Temos tantos preconceitos porque os preconceitos nos protegem. Mas também nos protegem do que é bom.”

Protegem do que é bom…

Hoje, embora alguns vieses não contribuam para o pensarmos e sentirmos assim, o Mundo, para a maioria das pessoas (infelizmente não para todas), é menos ameaçador.

Experimentemos, portanto, pensar diferente, fazer diferente. Permitamo-nos sentir diferente. Quem sabe gostaremos. Quem sabe compreenderemos melhor a/o outra/o. Quem sabe sentir-nos-emos mais e melhor…

Dia bom para vocês… Hoje é um bom dia para ser um dia bom.

Ps. Experimente ler o “Experimente que vai ver” [MEC | 05.09.24]

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Setembro. Darren Walker.

Eis-nos em Setembro. Tempo para se retomar um certo quotidiano. Tempo para um “segundo início de ano” e, necessariamente, de confronto e desafio… De balanço, também.

Assim o sinto. Por isso e como forma de regressar aqui e a quem me lê [Obrigado, bom reinício!] escreve-vos hoje sobre uma pessoa que muito admiro e que nestes dias li nas “8 Questions” (de balanço) da “Time”: Darren Walker.

Começo pelo fim. Figura maior na área da filantropia e justiça social, anunciou há semanas que em 2025 terminará um longo e profundamente impactante percurso como presidente da poderosa e influente Fundação Ford.

Destaco duas das 8 questões:

a) Sobre se a sua função influencia a sua vida pessoal. Como não, penso. Como não, por outras palavras, responde. “Não tenho dúvidas que nestes anos respirei sempre ar rarefeito. Nunca tive uma má refeição. As pessoas mudam o seu quotidiano para serem deferenciais comigo. Mas [com a saída] serei capaz de seguir em frente, com alegria. Terei menos amigas/os mas mais jantares com reais amigas/os.” Com alegria. Com relações estruturais e significativas.

Darren Walker sabe bem o valor do que é estrutural. Nestes anos de presidência da Fundação Ford fez algo que urge expandir: focar a Fundação na promoção de mudanças sistémicas e, nesse sentido, não situar a intervenção social e a promoção da justiça social apenas em acções reparativas, individualizadas e situadas no tempo, algo fundamental (necessário) a quem delas necessita, mas insuficiente para a transformação social. Conhecendo-se a sua história percebe-se porque é tão importante para si. Pensando o nosso redor percebe-se porque urge intensificarmos este caminho.

b) Diz noutro momento que “quando se entende que a filantropia deve estar comprometida com a democracia como a melhor forma de Governo estes tempos são desafiantes”. Também que “a esperança é o oxigénio da democracia mas que a iniquidade é inimiga da esperança. E pessoas sem esperança vão fazer coisas que não pensávamos possíveis em sociedade.” Isso preocupa-o.

Isso preocupa-me. Um tempo em que Starmer, 1º ministro eleito por milhões, é confrontado por Musk, “dono”/decisor do X que pouco ou nada faz para prevenir a desinformação, a agressão e instiga ódios a partir da sua condição, escrevendo, num momento tenso, que uma “guerra civil é inevitável”. Tempo em que a AfD ganha eleições em Estados Alemães. Tempo em que naturalizamos, mesmo fora dos EUA, que Trump pode ser novamente Presidente, mesmo após o que aconteceu no seu mandato e em resultado da eleição que perdeu.

Mas pode ser também tempo de envolvimento, de advocacia, de inspiração. Na promoção, por exemplo, do papel (potencial) da filantropia e das Fundações num caminho de maior justiça social e equidade. Na defesa da importância da coesão social, da participação e do significado no bem-estar de todas as pessoas.

Comecemos Setembro com esperança, alegria, coragem e compromisso. Inspiremo-nos em Darren Walker e em como vive o seu dia-a-dia e o Mundo.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A política e os determinantes sociais da saúde (mental) (Ao redor…; 15.08.2024)

“Não é nenhum mistério a razão pela qual as taxas de ansiedade e depressão nos Estados Unidos da América aumentaram em 2020, no auge da pandemia. Mas, entretanto, a vida começou a voltar lentamente ao normal. Assim sendo, porque é que as taxas de sofrimento psicológico não voltaram também ao normal?”

Foi esta a chamada da newsletter “The Morning” do “New York Times” de 8 de Agosto. Gira em torno de um conjunto de dados, incluindo os de auto-reporte do questionário “Household Pulse”, sobre sintomas de ansiedade e depressão na população dos EUA. Dados que demonstram o aumento significativo de 11% pré-pandemia para 42,6% em Novembro de 2020, mas, essencialmente, que a descida pós-pandemia não aproximou os dados dos valores pré-pandemia, fixando-se actualmente nos 20,7%. A newsletter explora estes números para detalhar a forma como para eles em muito contribui a população mais jovem, sublinhando que “a proporção de jovens adultas/os que relatam ansiedade e depressão vinha a aumentar há cerca de uma década antes da pandemia por Covid-19”, que assim se manteve durante toda a pandemia e [ao contrário do que sucedeu com outras faixas etárias] “não diminuiu rapidamente quando as vacinas foram disponibilizadas” ou quando a pandemia terminou.

Infelizmente em Portugal não temos uma recolha verdadeiramente sistemática e ampla deste tipo de dados. Apesar disso, temos cada vez mais indicadores, incluindo empíricos, de que a realidade, particularmente no que se refere à população mais jovem, será próxima da aqui relata. Próxima, nos valores que se encontram. Próxima, nas potenciais causas cuja newsletter também discute: “a precariedade económica, a crise imobiliária, o isolamento social e a turbulência política”. Acrescento a perda de algum sentido e significado de vida, também, pela perda de alguma envolvência na comunidade e de relação com as pessoas e o meio ao redor. Acrescento, ainda, uma tentativa de síntese para estes factores – a maior incerteza face ao presente e futuro e, com ela, a menor previsibilidade e segurança, essenciais a esta etapa de vida. Mas deter-me-ei na turbulência política.

Creio que quem acompanha minimamente a política e reflecte sobre a sociedade americana e, simultaneamente, conhece ou experiencia a realidade portuguesa, sabe que a turbulência política mencionada tem características bastante diversas da que vivemos em Portugal e, nesse sentido, impactos distintos em sociedades também elas bastante distintas. Sabemos, porém, que existem duas constantes: que o impacto dessa turbulência é mais severo junto dos grupos populacionais com maiores vulnerabilidades, sejam elas relacionadas com o estatuto sócio-económico, com expectativas sociais ou de papel ou com a pertença a um grupo ou comunidade minoritária; que o impacto é particularmente sentido na população mais jovem, considerando que as suas consequências habitualmente se reflectem nas e nos mais jovens de forma desproporcional e por períodos temporais mais significativos.

É por isso que, não acontecendo em Portugal o que aconteceu nos últimos anos nos EUA, importa que em Portugal não deixemos de o pensar e de sobre isso reflectir. Desde logo pensar o impacto de situações como a proibição de programas e actividades no âmbito das competências sócio-emocionais em Escolas, a proibição do ensino de vertentes da ciência relacionadas, por exemplos, com as teorias da evolução ou o recuo no direito à interrupção voluntária da gravidez nas Mulheres em diversos Estados dos EUA, que resultou num reporte mais significativo de sintomas de ansiedade e depressão nas jovens desses Estados face a jovens meninas e raparigas de outros Estados e face aos jovens meninos e rapazes do mesmo Estado. Mas, também, porque tem surgido e ganho espaço mediático, um pouco por toda a Europa, e também em Portugal, um discurso que se pode definir contra direitos humanos para todas as pessoas e abertamente contra o movimento relacionado com os objectivos do desenvolvimento sustentável que, necessariamente, vulnerabiliza as pessoas e comunidades mais expostas à desigualdade e à discriminação e que tende a validar determinadas atitudes e comportamentos que até há bem pouco não eram publicamente validados. Todas e todos sabem do que falo, todas e todos o vimos e sentimos. Finalmente, porque também em Portugal já se discutem propostas de tomadas de decisão que merecem ser refectidas, a este nível e bastante ponderadas.

Pensemos, pois, na atribuição de culpas colectivas e na generalização de características e comportamentos a determinadas comunidades ou em apoteóticas propostas de confinamento de comunidades em Portugal, aquando da pandemia. Pensemos, ainda, em propostas anti-científicas de penalizar bebés e crianças, por exemplo no acesso a um estabelecimento educativo público, ou jovens no acesso a apoios sociais, apenas pelo estatuto social, económico ou de empregabilidade da sua mãe ou pai, em processos, não raras vezes, de dupla culpabilização de bebés, crianças e jovens cuja condição deveria ser protegida, sempre e em qualquer circunstância, pela comunidade e pelo Estado.

É por tudo isto que, tal como não aceitaríamos, enquanto sociedade, que a segurança de um bebé e de uma criança quando viajam de automóvel fosse discutida apenas considerando a qualidade da resposta das equipas de emergência após um acidente e não também pela necessidade de sistema de retenção que possam prevenir problemas mais complexos em caso de acidente, não podemos não debater o processo em curso e os seus impactos. Não podemos ser displicentes com a situação que vivemos e devemos advogar, lutar, no presente pelo futuro, para que decisoras e decisores considerem a promoção da segurança psicológica (e não o seu contrário) e da equidade (e não do seu contrário) nos seus processos de tomada de decisão e que aportem às políticas públicas dimensões de prevenção e promoção. Algo só possível, também, com maior informação da ciência, incluindo ciência psicológica, a este desenho para uma mais decisiva e eficaz resposta aos anseios e expectativas das pessoas e aos desafios da sociedade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, cada segundo conta. Verdadeiramente. Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental reconheceremos, validarmos e respeitarmos as necessidades das outras e dos outros. A ciência, incluindo a ciência psicológica pode ajudar a lembrá-lo, a cada dia. Pode ajudar a fazer deste valor e do valor maior da equidade e dos Direitos Humanos para todas e todos, valores centrais na política pública, na vida das pessoas, na nossa sociedade. Hoje e amanhã.

 

 

Tiago Pereira

A política e os determinantes sociais da saúde (mental)

in Sábado (Ao redor…); 15.08.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-politica-e-os-determinantes-sociais-da-saude-mental

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A política e os determinantes sociais da saúde (mental)

“Não é nenhum mistério a razão pela qual as taxas de ansiedade e depressão nos EUA aumentaram em 2020, no auge da pandemia. Mas, entretanto, a vida começou a voltar lentamente ao normal. Assim sendo, porque é que as taxas de sofrimento psicológico não voltaram também ao normal?”

Foi esta a chamada de uma recente newsletter do “New York Times” que justifica estes dados no facto de “a proporção de jovens adultas/os que relatam ansiedade e depressão vir a aumentar há cerca de uma década antes da pandemia por Covid-19”, de assim se ter mantido durante toda a pandemia e, [ao contrário do que sucedeu com outras faixas etárias], “não ter diminuído rapidamente quando as vacinas foram disponibilizadas” ou quando a pandemia terminou.

“A política e os determinantes sociais da saúde (mental)”, 89º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte destes indicadores para, afirmando que “infelizmente em Portugal não temos uma recolha verdadeiramente sistemática destes dados”, discutir a proximidade das potenciais causas para eles apontadas: “a precariedade económica, a crise imobiliária, o isolamento social e a turbulência política”.

Do artigo que partilho destaco 3 elementos a este propósito, nele detalhados: a) que os factores que sintetizo numa “maior incerteza face ao presente e futuro e, com ela, a menor previsibilidade e segurança” são comuns às e aos jovens portugueses; b) que penso faltar a “perda de algum sentido e significado de vida, também, pela perda de alguma envolvência na comunidade”; e c) que a turbulência política mencionada “tem características bastante diversas da que vivemos em Portugal”, mas penso importante não ser desconsiderada, particularmente porque o seu impacto “é mais severo junto de grupos populacionais com maiores vulnerabilidades” e “é desproporcionalmente sentido na população mais jovem”.

Deixo depois alguns exemplos dos EUA com ressonância em países na Europa (e tentativas em Portugal), desde a proibição de programas na área das competências sócio-emocionais, do ensino da ciência relacionada com a evolução ou relacionadas com a interrupção voluntária da gravidez. Mas sublinho portugueses, das “culpas colectivas e na generalização de comportamentos a determinadas comunidades”, a propostas de “confinamento de comunidades” ou outras “anti-científicas de penalizar bebés e crianças no acesso a um estabelecimento educativo público, ou jovens no acesso a apoios sociais, apenas pelo estatuto social, económico ou de empregabilidade da sua mãe ou pai”.

Concluo afirmando que não “podemos ser displicentes com a situação que vivemos e devemos advogar, lutar, no presente pelo futuro, para que decisoras e decisores considerem a promoção da segurança psicológica (e não o seu contrário) e da equidade (e não do seu contrário) nos seus processos de tomada de decisão e que aportem às políticas públicas dimensões de prevenção e promoção”, também pela saúde (mental) no presente e no futuro.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia Tecnologia

Decidir hoje, decidir amanhã (Ao redor…; 31.07.2024)

Conforme respiramos constantemente, quando activos e de forma muitas vezes não consciente, a cada fracção de momento das nossas vidas, salvo em situações excepcionais, tomamos decisões que determinam o nosso comportamento e que se relacionam com os nossos pensamentos e crenças e com as nossas emoções. Tomamos decisões de forma mais intuitiva ou deliberativa que nos impactam, que, invariavelmente, impactam quem e o que nos rodeia e que, quando têm maior importância, são capazes de “mudar” a nossa vida. Podem alterar a nossa vida porque são fundamentais nas nossas relações, realizações, qualidade de vida, saúde e bem-estar. A capacidade e a possibilidade de tomar boas decisões é, nesse sentido, fulcral para a possibilidade de autodeterminação de cada pessoa.

Hoje, mercê algumas décadas de enorme crescimento quantitativo e qualitativo da investigação nestas áreas, temos uma maior consolidação conceptual e uma definição da tomada de decisão relativamente estável e clara que, a partir da psicologia, remete, no geral, para o processo cognitivo de escolha entre duas ou mais alternativas. Apesar da definição ser estável e clara, ao remeter para um “processo cognitivo”, aponta para um fenómeno não baseado apenas em dimensões racionais e observáveis, mas incluindo também dimensões emocionais e intuitivas. A definição contém e acrescenta, portanto, a subjectividade, a história e experiência e a necessidade de contextualização à compreensão e à análise dos processos de tomada de decisão.

Neste sentido, a nossa capacidade de decidir decorre e é influenciada por características, capacidades e competências “internas” de cada pessoa. Mas decorre, também, das expectativas, necessidades e circunstâncias da pessoa, no momento específico da decisão, e de um sem número de outros elementos externos. A conjugação de todas estas dimensões traz complexidade e diversidade a este processo e determina a facilidade, a forma como tomamos decisões e a qualidade da nossa tomada de decisão.

As significativas alterações aos nossos contextos e modo de vida estão, rápida e decisivamente, a determinar transformações nas pessoas, algumas estruturais, desde logo nas suas funções e capacidades cognitivas e no seu comportamento, transformações que impactam os processos de tomada de decisão. Transformações estas com tendência incremental, quando não exponencial, e que, por isso, devemos considerar puderem assumir-se como potencialmente disruptivas para estes processos nos próximas anos e décadas. Estas mudanças, muito alavancadas nos processos de desenvolvimento tecnológico em curso, nomeadamente os avanços na inteligência artificial generativa, realidade aumentada e virtual, internet das coisas, big data ou robótica, estão a mudar e mudarão significativamente elementos-chave actuais dos processos de tomada de decisão individual e colectiva, bem como tenderão a questionar valores éticos, base das sociedades. Pensemos, por exemplo, na forma como a cada vez maior delegação de tarefas de apoio à decisão ou mesmo decisões à inteligência artificial – da rota para o trabalho ou escolha de um alojamento hoje para algo amanhã que talvez nem consigamos ainda imaginar – transformará a sociedade, as relações, a comunicação ou a educação. E, se estas alterações nos podem permitir processos de tomada de decisão mais eficientes e eficazes, pensemos o quão relevante será um caminho de complementaridade e alinhamento entre seres humanos e tecnologia face aos processos de tomada de decisão, a partir, exactamente, das justas preocupações sobre a equidade, não enviesamento dos algoritmos, valores éticos e dos direitos humanos.

Acresce que as decisões dependem, também e necessariamente, das condições e das competências cognitivas e emocionais das pessoas envolvidas, nomeadamente ao nível da autorregulação e da empatia, fundamentais no processo de tomada de decisão e sucessiva passagem a comportamento(s). Sabemos hoje, com maior acuidade, como determinadas emoções (o medo ou a compaixão, para dar apenas dois exemplos) influenciam os comportamentos, o que, por sua vez, justifica cuidados e deveres éticos adicionais na utilização destas emoções com vista ao estímulo a determinados comportamentos individuais e de grupos. Consideremos, também, a forma como obectivos últimos podem ser prosseguidos, também mercê o sofrimento e mal-estar que podem provocar, bem como a eventual naturalização ou banalização de determinados comportamentos. É, portanto, fundamental atender às condições em que se apela a determinadas emoções, da comunicação social à comunicação política, passando naturalmente pela comunicação comercial ou de marketing de determinados produtos ou grupos e pela forma como questões éticas e de valores são para isso relevantes.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, creio que todos concordaremos que nunca, como hoje, tivemos acesso a tanta informação, conhecimento e evidência científica. Sabemos, porém, que tal como o ser humano se sente limitado quando se reconhece sem opções ou submetido apenas a uma via de acção, também sente outro tipo de limitações ou constrangimentos quando dispõe de mais ampla liberdade e múltiplas opções. Referimo-nos a limitações de ordem racional, de ordem emocional, limitações relacionadas com dimensões internas a cada um, outras com dimensões externas, limitações de foro mais individual e de foro mais social ou de grupo. Sabemos, ainda, quão relevante é o processo de tomada de decisão e como é complexo, multideterminado e triangulado, num determinado tempo e contexto, entre factores cognitivos, emocionais e princípios éticos. Se não tivermos estes aspectos presentes, e, portanto, não participarmos e influenciarmos também este processo, não alcançaremos a capacitação de pessoas e da sociedade, o que constituirá um erro de consequências potencialmente gravosas para a equidade e coesão social e, logo, para a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas.

Ps. Texto adaptado a partir do capítulo “A Psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções” por mim escrito, parte do livro “Ética Aplicada: Psicologia” (Edições 70), com coordenação de Maria do Céu Patrão Neves e Miguel Ricou, publicado em Junho de 2024.

 

Tiago Pereira

Decidir hoje, decidir amanhã

in Sábado (Ao redor…); 31.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/decidir-hoje-decidir-amanha

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Tecnologias e Pessoas mais Velhas

No Domingo, noite dentro, pude e pudemos fazer algo que muito gostamos, mas que, nesta fase, só em situações mais excepcionais podemos fazer: ir ao cinema. Fomos. Vimos, ouvimos e, sobretudo, sentimos o “Elis & Tom, Só tinha de ser com Você”.

Filme, documentário, em torno da gravação do mítico “Elis & Tom”, álbum que resulta do encontro entre duas pessoas incrivelmente talentosas, Elis Regina e António Carlos Jobim. Lançado em Agosto de 1974, comemora por estes dias o seu 50º aniversário e merece ser ouvido. Como o filme merece ser visto, o álbum merece ser ouvido e ouvido e ouvido. Um álbum com 50 anos.

No filme uma das pessoas que acompanhou a produção do trabalho aborda os impactos da tecnologia, hoje, e como, a seu ver, “torna tudo presente, não dando espaço ao pensamento e à criação de algo intemporal” capaz de passar e permanecer por “gerações e gerações”, como aconteceu com aquele disco. Diz, por outras palavras, que aquele trabalho não seria o mesmo num eventual 1974 numa Los Angeles feita, também, de pessoas com as suas tecnologias, como hoje existem. Di-lo mesmo considerando tratar-se de um álbum de duas pessoas adultas aquando da gravação.

Efectivamente os impactos – quer se trate dos potenciais benefícios, quer dos potenciais riscos – da utilização da tecnologia não se restringem aos bebés, crianças e jovens, momentos do desenvolvimento em que automaticamente pensamos quando reflectimos sobre os impactos das tecnologias.

A este propósito tive uma conversa que partilho com a Carla Rocha para o programa da Radio Renascenca “Quarto do Fundo”. Versando sobre “como as tecnologias podem afectar as pessoas mais velhas”, procurei nela reforçar a ideia anterior. Também sublinhar que os “ecrãs” e a “tecnologia” vai muito além das redes sociais e do telemóvel.

Discutimos benefícios para a saúde e bem-estar das pessoas mais velhas, para a relação, para a conexão, para maior informação sobre saúde e autocuidado e até para a prevenção das demências, através do seu uso adequado e moderado. Tal qual discutimos que usos inadequados e excessivos potenciam os riscos, nomeadamente ao nível de perdas cognitivas, do excesso de preocupação e ansiedade face, por exemplo, a fenómenos sociais decorrentes da visualização sucessiva de notícias, bem como de inactividade, perda de autonomia, dificuldades no sono, maior isolamento e até ao cibercrime.

Terminamos a discutir como podemos equilibrar a utilização dos ecrãs com a presença física junto de pessoas e em actividades, o papel das cuidadoras e cuidadores, formais e informais, neste processo e como todas e todos podemos contribuir para uma melhor sociedade com maior possibilidade de saúde e bem-estar, também através da tecnologia.

Muito obrigado, Carla Rocha.