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Vinhos com História

Numa recente entrevista ao jornal @PUBLICO, a @Maria João Valente Rosa – uma das demógrafas mais reconhecidas num Portugal onde a demografia é hoje um desafio – dizia que uma das formas que temos para melhor prevenir o isolamento e a solidão é prepararmo-nos para ter uma vida longa procurando, entre outras coisas, fazer e manter amizades com diferentes gerações. “Promover relações intergeracionais”, dizia, para combater um sério problema de saúde pública no presente e para o futuro. Não podia estar mais de acordo. Para combater a solidão e para promover a coesão social.

Este caminho, de construção de uma sociedade de relações mais intergeracionais, que contrarie uma tendência de fechamento em “bolhas” de gostos, ideais, clubes, rotinas, idades e até, por vezes, de géneros, que tendencialmente as novas tecnologias e determinados usos das redes sociais têm exacerbado, faz-se de reconhecimento das outras pessoas, de amizades e de pontes e pontos de encontro. E é aqui que determinados interesses (um hobbie, uma actividade cultural, uma participação cidadã) podem ser decisivos. É aqui que algumas constantes e costumes do nosso país podem, verdadeiramente, fazer a diferença. Permitam-me um exemplo, a que convido.

A @RTP transmitiu recentemente uma série, ainda (?) apenas com 5 episódios, intitulada “Vinhos com História”. Versa a história de determinados vinhos, típicos de determinadas zonas de Portugal e, à volta deles, de relações que se estabelecem entre pessoas e entre pessoas e territórios. Continuidades. E pontos e pontes de encontro, por vezes extraordinários, porque resultam da prática de “fazer o vinho”, de o fazer naquelas condições e com determinadas práticas que passam e se aprimoram de geração em geração e, depois, de o celebrar e dele ser motivo para juntar pessoas, por vezes muito diversas, incluindo nas suas idades.

Mais, representa um país, apesar de tudo com uma profunda identidade construída também na diversidade das suas regiões, práticas e das suas pessoas. Diferenciado. Com história. Se aceitarem o meu convite e se escolherem apenas um dos episódios, convido ao dos “Vinhos do Pico”. Simbólico enquanto retrato de um país bonito, intenso, exigente, sempre por descobrir. Um país de futuro, mesmo quando o futuro parece difícil. Um país que ousa e tenta melhorar dia-a-dia, falhando muitas vezes para acertar outras. Um país que não vira a cara às dificuldades e desafios e com um potencial enorme de possibilidade de bem-estar para as suas pessoas.

Oxalá o consumamos com a moderação com que devemos consumir os seus magníficos vinhos. Oxalá o aproveitemos com o deleite que os seus vinhos nos provocam e provocam a todas as pessoas que decidem sentir o nosso país também a partir deles.

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Vidas da Emergência Pré-Hospitalar – Contexto, equipas e intervenção psicossocial (Prefácio)

“Há alguns anos, uma instituição social que trabalha com crianças pediu-me para desenvolver uma ideia que envolvesse os direitos das crianças (…) Ocorreu-me que uma maneira de abordar algumas das situações complexas e dos problemas sociais que afectam as crianças seria olhar para os quartos de crianças em diferentes circunstâncias”. É assim que James Mollison, um fotografo britânico que procura cruzar esta disciplina artística com a reflexão e acção sobre o Mundo e seus desafios societais, narra o projecto “Where Children Spleep” [Onde Dormem as Crianças], um conjunto significativo de pequenas biografias de crianças muito diversas, de todos os contextos do Mundo, acompanhadas por uma fotografia sua e por uma fotografia do lugar onde dormem. Um projecto interessantíssimo que nos recorda que estando expostos a condições diversas, todas e todos partilhamos muito de comum, ao longo de toda a nossa vida.

Dormimos, desde logo. Fechamos os olhos, respiramos, sonhamos, abrimos os olhos, acordamos. Fazemo-lo, uns dias mais tranquilamente, outros nem tanto. Por vezes com conforto e segurança, outras nem tanto. Brincamos. Rimos. Sofremos. Todas e todos, sofremos, também aqui cada qual com a sua circunstância, conforme a célebre abertura do “Anna Karenina” de Tolstoy: “Todas as famílias felizes são iguais. Cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”

Recordo, como cada pessoa que me lê, diferentes momentos da minha vida em que sofri. Alguns com uma intensidade tal que, ainda hoje ao recordá-los, sou transportado para o momento. Como que sinto a temperatura, os cheiros, os sons, as emoções desse momento. Recordo, dizia, vários, mas evoco um em específico, pelas suas características e pela forma como se relaciona com esta importante obra. Estávamos na primeira metade da década de 1990. Estava na Escola e, um infeliz incidente entre dois colegas, resultou num trágico acidente. Guardo comigo e acompanham-me imagens, sons e sensações desse acontecimento, incluindo da campainha que tocou “para a saída” como se nada tivesse acontecido e da ambulância no interior da Escola.

Passam cerca de 30 anos desse momento. E tanto mudou. Temos hoje outra sensibilidade na sociedade para o impacto destas situações na saúde, incluindo naturalmente na saúde mental, e bem-estar. Impactos para quem vive (directa ou indirectamente) ou observa situações de crise, catástrofe e/ou situações trágicas. Temos hoje profissionais de diversas áreas, em diversos contextos, mais preparadas/os e capacitadas/os para responder e apoiar nestes desafios. Temos hoje, psicólogas e psicólogos nas Escolas, ao contrário do que acontecia naquela e em muitas naquele momento. Temos hoje psicólogas/os nas estruturas de emergência, incluindo pré-hospitalar, e nos agentes de protecção civil. Muito mudou, mas muito caminho há por percorrer.

Este livro ajuda-nos a pensar esta mudança, o caminho percorrido e o caminho por percorrer. Porque reúne um conjunto significativo de pessoas que fazem parte desta história, desta mudança, que dia-a-dia, muitas vezes em condições particularmente exigentes e complexas, construíram a resposta pré-hospitalar de apoio às populações, também a partir do contributo específico, integrado multidisciplinarmente, da ciência e prática psicológica. Porque estas pessoas, de certa forma representando outras, partilham as suas experiências, contribuindo, para uma maior sensibilidade a estes temas e para a capacitação de psicólogas, psicólogos e outros profissionais. Porque, ainda, nos desafiam a pensar o futuro, assinalando caminhos para a melhoria de práticas e do seu enquadramento, visando uma melhor preparação das pessoas, das comunidades e melhores respostas. Muito obrigado a todas e a todos.

Este livro ajuda-nos a pensar esta mudança, o caminho percorrido e o caminho por percorrer, dizia. Também porque a sua coordenadora, a Ana Oliveira, além de personagem participante activa desta história, fez este muito desafiante percurso, desde o seu interesse, atitude e disponibilidade para nesta área contribuir com o seu tempo e intervenção como cidadã primeiro e depois como psicóloga, à feliz ideia de reunir esta diversidade de pessoas e contributos, organizando-os e concretizando-os nesta obra. Devemos-lhe, por isso e pela dificuldade disso, um agradecimento especial. Devo-lhe eu, um duplo, por ter tido ainda a gentileza de confiar em mim e me permitir estar associado a este seu esforço, a este grupo de pessoas e a este trabalho.

Permitam-me uma palavra final sobre mim, aqui. Desde há anos, em diferentes funções, tenho procurado contribuir para que as áreas de intervenção psicológica em situação de crise e catástrofe e dos primeiros socorros psicológicos se disseminem na formação inicial e contínua de todas e todos os psicólogos, contributo que me parece essencial para maior possibilidade de intervenção e resposta de cada profissional, em cada contexto, em momentos particularmente sensíveis da vida das pessoas, apoiando processos de estabilização emocional e prevenindo, numa primeira linha, o desenvolvimento de problemas psicológicos mais complexos. Mais, quando a Ana Oliveira me fez este convite era ainda coordenador do ainda existente Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Foram, sabemos todas e todos, e em particular quem trabalha nas áreas que encontrarão detalhadas nas páginas seguintes, momentos absolutamente excepcionais e particularmente difíceis. Sabemos o quão requereu de nós, mas, em simultâneo e assim foi comigo, o quão significativo e o quão marcante pelo propósito que representou, também para tantas pessoas e para tantos profissionais, o seu contributo. Sabemos, finalmente, que teremos enquanto país e comunidade que enfrentar catástrofes e outras situações de crise no futuro e que as enfrentaremos com maior preparação se parte de uma comunidade sensibilizada e unida para estes temas, com estruturas de resposta estabelecidas, papéis definidos, profissionais capacitadas/os, organizadas/os em diferentes níveis de intervenção e especialização. Ora, as páginas que se seguem, creio, contribuem para tudo isto. Orgulho-me de fazer parte delas e também o devo a uma pessoa que muito contribuiu para a sensibilidade que tenho face a estes temas e que me e nos falta todos os dias.

 

 

Tiago Pereira

Vidas da Emergência Pré-Hospitalar – Contexto, equipas e intervenção psicossocial (Prefácio)

Pactor [2024]

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54 dias.

54 dias.

“Podemos pensar e perguntar-nos sobre o que poderia ter acontecido de diferente, com comportamentos e decisões diferentes das tomadas, entre a data possível de confirmação do primeiro caso de COVID-19 em Wuhan a 01.12.19 (data referida por entidades e organizações internacionais, mas não confirmada, sendo mesmo negada pelas autoridades da China) e o dever de recolhimento obrigatório decretado nesta região 54 dias depois, em 23.01.20.”

“A desconfiança, a negatividade, a ética e os próximos 54 dias”, 74º artigo da rubrica “Ao redor” trata os próximos 54 dias que nos levarão às eleições legislativas e termina acrescentando ao anterior que “podemos pensar de que forma podemos, enquanto pessoa e enquanto parte de uma comunidade, chamar a este tempo mais ciência, evidência, respeito, ética e centralidade às instituições, à Constituição e aos Direitos Humanos, contribuindo para 54 dias que reforcem a confiança, a esperança, o compromisso e a ética. Para 54 dias que promovam um foco, também, no  bem-estar de todas e todos e no bem-comum. Que nos permitam ver outras e outros ao redor, em Portugal e no Mundo, e ter presente, sempre, o legado e a justiça intergeracional para com as gerações que nos sucederão.”

No artigo reflicto, também, sobre a sociedade hoje, particularmente, num ano com um número “de eleições impressivo, com crescimento de partidos/personalidades populistas e radicais, menor tolerância ao erro, mais elevadas expectativas e rápidas e profundas alterações sociais, culturais e demográficas. Isso em “plena “crise da confiança” e de menor proximidade percebida dos maiores partidos (“catch all parties”) às pessoas, suas necessidades, desejos e expectativas.”

Discuto, também, as consequências destas situações serem “estímulo para uma tentativa de maior controlo do ambiente mediático e político”, “incentivo para “tudo se prometer”, independentemente da capacidade ou possibilidade para se cumprir, “fulanizando” as campanhas e diminuindo a capacidade de atração de eleitoras/es pela adesão ao projecto, reforçando-se a atração por “repulsa” aos adversários.

É “também por isso que todas e todos […] temos um papel fundamental nestes 54 dias que nos levarão às eleições. O de prevenir que se utilize a desconfiança, a negatividade e a ética apenas com intuitos políticos e populistas, desconsiderando-os efectivamente. O de utilizar o conhecimento disponível sobre como nos comportamos e tomamos decisões como antidoto para este impulso e como força para combatermos uma política de ressentimento, de medo, de ódio, de promoção da impossibilidade de construção conjunta e de debate e conflito construtivo e salutar.”

Que o façamos. Por todas e todos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia Tecnologia Uncategorized

Onde estavas na transição digital? (Ao redor…; 06.09.2023)

Seja por via do original – a pergunta que Baptista-Bastos fazia a quem entrevistava nas suas “Conversas secretas” – seja por via da personagem humorística nele inspirada e interpretada por Herman José, a pergunta “onde estava no 25 de Abril?” entrou no nosso imaginário e é hoje utilizada para diversas situações. Todavia, não creio provável, ainda que no futuro, que nos perguntemos “onde estava/s na transição digital?”, mas…

Não creio porque, desde logo, é um fenómeno claramente distinto do que representou e impactou o 25 de Abril para as pessoas e sociedade portuguesa. Mas também não nos lembraremos dele como nos recordamos de onde estávamos quando tivemos conhecimento dos acontecimentos relativos ao 11 de Setembro de 2001 ou quando decorria a final do Campeonato Europeu de Futebol de 2016. Não, porque ao contrário destes momentos, a transição digital não tem uma data e não se constitui como acontecimento significativo. É, antes, um processo, com poder transformador e que, queiramos ou não, será profundamente significativo na nossa vida presente e futura.

Um processo, em rigor, em curso há décadas, e que se projecta, exponencialmente, aquando de momentos de introdução e/ou generalização de novas tecnologias ou possibilidades, capazes de rapidamente transformarem processos de educação ou trabalho e a forma como vivemos em sociedade. São disso exemplo, a internet, os computadores pessoais, os smartphones, a realidade virtual ou, mais recentemente, a inteligência artificial generativa (por exemplo, o ChatGPT). Será disso exemplo a possibilidade, defendida por múltiplos especialistas, de atingirmos a “superinteligência artificial”, ou seja, um sistema não-humano ultrapassar a inteligência humana.

Apesar de ser um processo em curso, penso ser fundamental reflectirmos o momento actual como particularmente relevante neste percurso. Todas e todos intuímos que, com a evolução rápida da realidade virtual e, particularmente, da inteligência artificial generativa, existirão alterações profundas e visíveis no nosso dia-a-dia e que isso requererá da parte de cada pessoa, grupos e comunidades, a par do desenvolvimento de novas competências, a necessidade de uma rápida adaptação e de gestão dos impactos emocionais e no bem-estar desta transformação.

Até hoje, a transição digital, além da famosa “eliminação do papel”, trouxe-nos impactos positivos, mas, também, necessariamente desafios e impactos menos positivos, que permitem comunicarmos muito mais rapidamente e com menor custo, acedermos mais facilmente a informação e cultura, podermos preparar e prever viagens ou entregas ou podermos realizar acções de educação / formação ou mesmo intervenções terapêuticas à distância. Com este ponto de partida, perspectivemos os impactos do actual crescimento exponencial e do momento que vivemos ter uma característica estruturalmente diferente dos anteriores que o torna o crucial. Verdadeiramente, é a primeira vez que a tecnologia vem, de certa forma, apropriar-se, potenciar e generalizar partes de uma competência tipicamente humana, a cognição. O ChatGPT está para os processos cognitivos como a memória, a linguagem, o processamento de informação ou a criatividade como os primórdios dos motores de busca estão para a Google hoje ou como o primeiro Iphone está para as redes sociais hoje.

E, se esses primórdios, já significam resumos automáticos de reuniões segundos depois do seu fim ou produções de código ou texto com alguma complexidade, numa ferramenta gratuita e generalizada, podemos pensar (mesmo que não consigamos prever com acuidade) o que poderá ser a evolução destas ferramentas e o que permitirão. A forma como tenderão a contribuir para a substituição ou diminuição de necessidade de determinadas tarefas e uso de competências, mas, também, como nos ajudarão a descrever e prever fenómenos e como isso pode apoiar acções preventivas e prescritivas, permitindo, por exemplo na área da saúde, acções de prevenção e intervenção precoce e personalizada, algo que será relevantíssimo em áreas como o cancro ou nas doenças degenerativas.

Fazendo-o com a cognição humana, terá ainda muitas limitações a poder fazê-lo em dimensões mais emocionais, ainda que as impactando. Mas o que poderá acontecer com a utilização da computação quântica, algo previsível no futuro e que mudaria (mudará?) significativamente a capacidade de tratamento de dados e possibilitará maiores aproximações, inclusivamente, à reprodução da forma como o cérebro humano funciona? É este o contexto que levou a que um conjunto de personalidades relevantes na área, lideradas por Geoffrey Hinton, um psicólogo por vezes apelidado “pai da inteligência artificial”, publicasse um manifesto apelando a que “mitigar o risco de extinção (humana) devido à inteligência artificial deve ser uma prioridade global conjuntamente com outros riscos como as pandemias e a guerras nucleares”.

Efectivamente os desafios e riscos hoje existentes implicam desenvolvimentos suportados em dimensões éticas e sociais, alinhando a tecnologia com os valores da humanidade. Apenas orientações que o impliquem, em conjunto com o reforço do multilateralismo, poderão, com sucesso, contribuir para que estes riscos sejam mitigados e para que esta transformação contribua para o desenvolvimento e para a redução das iniquidades a uma escala global, com instrumentos e ferramentas globais.

Terminei o primeiro paragrafo deste texto com um mas… Mas, porque talvez nos devamos mesmo perguntar, a nós mesmo, “onde estamos na transição digital?”. Como estamos para ela preparadas e preparados, que competências temos e, eventualmente, precisamos desenvolver, como nela estamos a participar e a estamos a influenciar? Foi também este o mote das comemorações, a 4 de Setembro último, do Dia Nacional do Psicólogo, com uma conferência e um conjunto de acções em torno do “Factor Humano na Transição Digital”, reflectindo-se estes temas na profissão, mas, principalmente, com a sociedade, os contributos de uma ciência que, estudando o comportamento humano e o que o influencia, pode ser importantíssima às pessoas, às organizações, ao desenvolvimento das tecnologias e às políticas neste processo de transição digital.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, infelizmente de forma não equitativa, a inteligência artificial generativa disseminar-se-á rapidamente. Não sem riscos, não sem obstáculos, não sem medos, terá o potencial no futuro curto que se pode prever de nos tornar melhores estudantes e profissionais, nas mais diversas áreas, sendo nosso copiloto e ferramenta auxiliar aos processos de tomada de decisão e realização de tarefas, quando e se alinhada com as dimensões éticas e de segurança e com os valores do humanismo e dos direitos humanos. Este alinhamento, não apenas, mas também depende de cada um de nós e de onde estamos e queremos estar na transição digital.

 

Tiago Pereira

Onde estava na transição digital?

in Sábado (Ao redor…); 06.09.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/onde-estava-na-transicao-digital

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Poverty: The oldest challenge of humankind

Há exactamente uma semana, a Fundação Francisco Manuel dos Santos disponibilizou um trabalho da autoria Carlos Farinha Rodrigues intitulado Portugal Desigual. Resumidamente assinala o positivo da recuperação nos indicadores de pobreza (18,4 para 16,4%) e desigualdade (33 para 32% no coeficiente de Gini) em 2021, após em 2020 termos assistido à inversão de um caminho de melhoria destes indicadores. Assinala o negativo, porém, do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento de 2022 (resultante de dados do 1º semestre e, nesse sentido, ainda não incorporando o impacto total da inflação em 2022) assinalar a contração de rendimentos reais pela subida de preços e o aumento de famílias que indicam não ter capacidade para aquecer adequadamente a casa e fazer uma refeição de carne ou peixe no mínimo de 2 em 2 dias.

Quinze dias antes, na rúbrica “O Psicólogo Responde” (colaboração CNN Portugal | Ordem dos Psicólogos Portugueses) que aqui partilho, respondi à pergunta “Existe uma relação entre ter baixos recursos financeiros e a saúde mental?”. “Sim, existe (…) viver em situação de pobreza e de exclusão, tantas vezes a ela associada, é um dos principais determinantes de doença, incluindo doenças mentais. Nesse sentido, a vulnerabilidade económica provoca stresse e sofrimento psicológico e afecta a saúde mental e o bem-estar”. Assim disse, acrescentando que “importa, porém, sublinhar que esta relação não é unidireccional, antes bidireccional (…) conforme a vulnerabilidade económica pode potenciar problemas de saúde mental, também problemas de saúde mental, como o stresse, a ansiedade ou a depressão, podem conduzir a uma maior probabilidade de se viverem situações de precariedade, desemprego ou pobreza” e, atendendo também À urgência dos dados e desafios acima, que “investir na promoção da saúde e da saúde mental também é garantir um mais eficaz combate à pobreza e à exclusão.”

Esta semana, num local particularmente significativo para mim (Póvoa de Varzim), terei participações no 37º Congresso da EFPSA (European Federation of Psychology Students’​ Associations) sobre este ciclo. Primeiro moderando um debate com intervenções do Eldar Shafir, do Francisco Branco e da Raquel Corval com o mote “Poverty: The oldest challenge of humankind”. Depois, dinamizando um workshop sobre contributos da psicologia para um ponto final à pobreza. Congresso em 2023, 20 anos após o de 2003 no Porto, em que participei enquanto estudante de psicologia.

Agradeço, também por isso, à Carolina Garraio (que primeiro me falou de trazer de volta a Portugal o Congresso da EFSPA) e à Gabriela Silva, pelos temas, qualidade e riqueza do programa que construíram e por todo o cuidado e empenho colocado na organização. Nelas, a toda a equipa. Parabéns, obrigado e que seja uma óptima semana de uma EFSPA que nasceu também do impulso de estudantes de psicologia portugueses em 1987 e cujo legado outras/os e as/os actuais procuram manter.

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De número em número até 5.3 mil milhões (Ao redor…; 08.02.2023)

“Portanto… Enfim, é fazer a conta.” Apesar de já longínquo o ano de 1995 e, até, dos “contos” [1000 escudos] mencionados terem dado há muito lugar aos [5] euros, permanece no imaginário colectivo o momento em que António Guterres, então primeiro-ministro, não conseguiu responder rapidamente a um pedido de um jornalista para quantificar quanto significava os 6% do PIB português que havia mencionado.

Eventualmente como noutros países, no Portugal contemporâneo e no debate público presente, os números têm uma enorme presença, permanência e simbolismo. Nas últimas semanas discutimos muito, muitas vezes acaloradamente, um treze, um quinhentos, um quatro ponto dois e um três. Um, o primeiro, referente a um número de pessoas. Os restantes, a milhares e milhões de euros. Neste texto partilho outro, a cujo menor debate de que é e será alvo, não creio corresponder a uma importância menor: cinco ponto três. Cinco mil e trezentos milhões de euros.

Este valor corresponde ao custo estimado em 2022 das perdas directas de produtividade das empresas e organizações portuguesas causadas pelo absentismo e presentismo (quando se trabalha abaixo das reais capacidades), resultantes de stresse e de problemas de saúde psicológica de trabalhadoras e trabalhadores. Este número, que seria consideravelmente superior se envolvesse organizações do sector público e do sector financeiros (sectores não considerados no estudo), corresponde a um aumento de 66% face às perdas estimadas de 3.2 mil milhões de euros em 2020. Aumento este, não apenas, mas em muito resultante dos diversos impactos da pandemia por COVID-19 e das, hoje, permanentes transformações e incertezas associadas ao mundo laboral e das crescentes exigências e desafios de conciliação da vida profissional com a vida pessoal.

Este impactante número é detalhado no relatório “Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações – Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica
no Trabalho, em Portugal”, recentemente publicado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, e resulta dos 8 dias de trabalho que em 2022 cada trabalhador/a em média perdeu e dos 15,8 dias que, também em média, trabalhou mas abaixo das suas capacidades reais, por razões associadas ao stresse e a problemas de saúde psicológica. Considerando que um ano tem cerca de 250 dias úteis e se a este número descontarmos o período de férias, temos que, em média, cada trabalhador/a ou não trabalhou ou trabalhou abaixo das suas capacidades mais de 10% do seu tempo anual útil de trabalho por razões associadas ao stresse e à sua saúde psicológica.

Ora, num país onde apesar das melhorias em 2022, a produtividade das e dos trabalhadores é entendida como um problema grave da economia, e onde durante muito anos nos afastamos da média Europeia (em 2019 eramos o 6º país da Europa com menor produtividade), é fundamental que reflictamos sobre estes dados. Sobre os dados e sobre como investir na avaliação, prevenção, gestão e intervenção nos riscos psicossociais e promover a saúde psicológica no trabalho pode, não apenas reduzir significativamente o sofrimento e mal-estar individual e os custos com ele relacionados para sistemas como o de saúde e segurança social, como resultar na mitigação das perdas e, logo, em mais prosperidade e sustentabilidade para as organizações e melhorias na produtividade e na economia do país.

Objectivamente, a prevenção dos riscos psicossociais, a par da promoção da saúde psicológica e do bem-estar, se baseadas em projectos e iniciativas com base e evidência cientifica, é um investimento de enorme retorno para as organizações, particularmente se aos custos directos anteriormente assinalados juntarmos outros resultantes, por exemplo, da prevenção de erros e acidentes de trabalho, no envolvimento com as organizações dos e das trabalhadoras e na sua capacidade de comunicação, relação, produção/realização e resolução de problemas. É, no entanto, um investimento que depende, em muito, da mobilização de toda a organização, incluindo o empenho e compromisso da gestão e da liderança, na procura de co-construção de uma cultura de bem-estar e de uma ideia de local de trabalho saudável.

Ideia, aliás, fortemente relacionada com o conceito de segurança psicológica dos locais de trabalho, ou seja, com o desenvolvimento de uma cultura organizacional onde cada trabalhador/a sinta espaço, segurança e conforto para partilhar preocupações e sugestões de melhoria, contribuir com ideias e propostas para processos de trabalho e outros aspectos da organização e se sinta respeitada/o e valorizado nos seus contributos e especificidades. Esta cultura, por sua vez, tende a tornar a organização mais resiliente porquanto promove dimensões como a inclusão, a inovação e, até, a integridade, fundamentais aos processos de adaptação e à mobilização para resposta a desafios / crises.

Há dias, um dos autores de um estudo representativo da “população empregada” dos Estados Unidos, explicava como a relação entre o “gostar do trabalho” e este “se relacionar bem com a vida e valores da pessoa” é um muito relevante elemento para compreender o que liga um/a trabalhador/a a uma organização e a um projecto de trabalho. Ou, noutra perspectiva, como a ausência de bem-estar no trabalho e o desalinhamento entre valores de vida e da organização faz perigar o envolvimento com o trabalho e as perspectivas de continuidade e desenvolvimento profissional de um ou uma trabalhadora no seio de uma organização.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a saúde psicológica e o bem-estar são elementos essenciais para que as pessoas possam colocar as suas capacidades e competências ao serviço das organizações e do seu desenvolvimento e sustentabilidade. Em 1995, aquando do episódio atrás referido, António Guterres falava com jornalistas a propósito do investimento em saúde, referindo que “desejavelmente deveríamos poder atingir num prazo tão curto quanto possível um nível na ordem dos 6% do PIB em despesa de saúde”. Diria, depois, “portanto… Enfim, é fazer a conta.” Digo-o agora a líderes, a gestoras e gestores, mas também a decisoras e decisores a quem o compete estimular: Enfim, é fazer a conta a tudo quanto de bom pode significar investir na prevenção dos riscos psicossociais e na promoção da saúde psicológica e do bem-estar de trabalhadoras e trabalhadores.

 

Tiago Pereira

De número em número até 5.3 mil milhões

in Sábado (Ao redor…); 08.02.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/de-numero-em-numero-ate-53-mil-milhoes

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A chuva voltou e o que aí vem…

A chuva voltou. Como que a relembrar o fim de mais um Agosto que desafia o conceito “silly season” (política). Se em 2020 estávamos nos primeiros 6 meses de uma “não-esperada” pandemia, com muitas incertezas, mas fortes consequências sócio-económicas; em 2022 estamos nos primeiros 6 meses de uma “não-esperada” Guerra, com muitas incertezas, mas fortes consequências sócio-económicas. Uma crise de saúde pública que acelerou transformações; uma crise humanitária, alimentar e energética, que se somam à crise climática e que aceleram transformações.

“O momento em que vivemos parece estar estruturado por uma série de crises graves (…) Acredito que aquilo que estamos a passar trata-se de uma grande mudança (…) o fim da abundância”. Excertos de um marcante discurso de E. Macron, em conselho de ministros, neste Agosto de 2022. Discurso em que apelou à “sobriedade voluntária” das pessoas face às limitações nas matérias-primas, energia e água.

Os próximos meses trarão uma realidade (de crise(s), de escassez de matérias-primas, de questionamento) que até há bem pouco tempo na Europa parecia temporalmente distante – do passado e de um futuro distante. Mas aqui estamos. Ouvimos Duarte Cordeiro anunciar medidas de racionamento para Portugal. Ouvimo-las em França ou na Alemanha.

Acontece, porém, que o “fim da abundância” só é possível para alguns (países) e algumas pessoas (dentro dos países) que vive(ra)m a “abundância”. Tal qual a “sobriedade voluntária” apenas é possível para alguns (países) e algumas pessoas (dentro dos países) que podem não ser “sóbrias”. “Abundância” que, também nestes países, não foi suficiente (mesmo que com melhorias) para erradicar a pobreza e, ainda menos, diminuir as fortes desigualdades (ver imagem).

Se a abundância não o permitiu, desafiante mas possível é, o seu fim, corresponder, como defendi em Agosto de 2021, a um “desacelerar, desapegar, diversificar, diminuir e reduzir a caminho de um menos que, conforme Adjaye preconiza, pode ser mais. De um menos que pode não apenas ser conciliável com o bem-estar, mas até seu gerador. De um menos que previne a desigualdade e iniquidade e que promove a partilha e a coesão social.” (“Menos”)

Macron também disse que “a nossa liberdade, o regime de liberdade no qual nos habituámos a viver, tem um custo”, sendo essencial que as políticas e as e os políticos respondam às pessoas, particularmente as com maiores vulnerabilidades.

Isso e que nunca esqueçamos que os melhores garantes de desenvolvimento sustentável e da possibilidade de bem-estar para todas e todos são um planeta viável, de paz e direitos humanos e sociedades democráticas, inclusivas e de equidade.

A mudança, por mais exigente que venha a ser, pode contribuir neste sentido. Assim nos unamos, queiramos e nos mobilizemos.

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Falemos, pois.

A fonte, a luz e, particularmente, os imponentes claustros do Colégio do Espírito Santo (Évora) são parte do meu imaginário. São, também, parte do “roteiro Eborense” do livro “Aparição” de Vergílio Ferreira. Escritor importante e que me permitiu e nos permite pensar o século XX Eborense, além de outras cidades deste país, na triangulação pessoas / binómio lugar-tempo / relações.

Vergílio Ferreira que, com uma lucidez desconcertante (porque há largas décadas), disse podermos afirmar “com energia o disparate que quisermos”, acabando sempre “por encontrar quem acredite em nós”. E, se isso era verdade há décadas, é-o também hoje, com maior impacto, num Mundo onde parte da conexão (relação) e da comunicação (das pessoas) usa de redes (sociais) que aceleraram a forma como a informação se propaga, também (ou mesmo particularmente) quando “disparatada”.

Curiosamente (ou talvez não) a necessidade que, enquanto seres humanos, temos de nos relacionar com outras pessoas, podendo parecer uma vulnerabilidade, permite-nos desenvolver as dimensões de compaixão, de compreensão mútua e as capacidades de empatia, centrais no que ao longo de milénios vem permitido a continuidade dos seres humanos e a sua possibilidade de desenvolvimento. Mas, em algumas situações, conduz a processos de identificação e polarização (tipo “eu/nós vs. tu/vós”) em muito responsáveis pela fragmentação da sociedade, por violências e discriminações várias (implícitas ou explicitas) e pela perda de confiança nas pessoas, instituições e na ciência.

Aqui chegados, é importantíssimo que, além das (ou também nas) redes sociais, realmente conversemos com outras pessoas. Iniciemos conversas, particularmente junto de quem não conhecemos ou totalmente concordamos, usando da compreensão mútua, empatia e compaixão, procurando não extremar posições pela construção de pontes de entendimento. A construção a este nível também passa por procurarmos complicar e complexificar narrativas (para não discutirmos de forma redutora e simplista os temas, particularmente os complexos), conforme trabalhos que relacionam a ciência psicológica com o jornalismo têm procurado desenvolver.

Questões que permitam discutir, sempre com os devidos cuidados, algumas contradições (“como decidiu que esta informação era confiável?”) e motivações (“porque é que isto é tão importante para ti/si?”). Questões que permitam expor outras pessoas a outras ideias (“o que acha(s) que outro grupo de pessoas pretende?”) ou questões que permitam ouvir e compreender melhor (“o que sente(s) ao contar essa história?”).

Nos últimos dias participei de conversas muito relevantes. Sobre o mote “a psicologia está aqui” e sobre temas de especial complexidade (e importância, creio) como a crise climática, a saúde mental em crianças e jovens, a equidade, diversidade e inclusão ou a ciência e uso da tecnologia.

Criticar, construtivamente, não resolve tudo. Mas pode ajudar, muito. Conversar não resolve tudo. Mas pode ajudar, muito.

Falemos, pois.

 

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Pelo futuro e pelo bem comum – evitar ou promover conversas difíceis? (Ao redor…; Sábado; 22.02.2022)

Não evitar, mas sim, promover conversas difíceis. “A chave para ter experienciado o que experienciei não foi a minha estupidez, mas não saber o que procurar fora e para onde dirigir a minha atenção.” Alexandra Stein, hoje especialista em psicologia social e mais especificamente em fenómenos de extremismo, foi durante cerca de 10 anos membro do “The 0”, um “culto” (porque grupo clandestino, com um líder carismático e com um ambiente de controlo total dos membros) declarado por quem nele participou, incluindo pela própria, como “bizarro” e responsável por “experiências dolorosas e traumatizantes”. Não saber o que procurar fora e para onde dirigir a minha atenção…

Da gestão da pandemia às migrações, da política à religião, todas e todos já nos vimos perante situações cuja sensibilidade dos temas redundam em conversas difíceis, seja junto de pessoas amigas, familiares, colegas de trabalho ou de equipa. Um estudo da American Psychological Association de Novembro de 2020, mês das últimas eleições presidenciais dos EUA, revelou que 40% da população americana adulta considera que as diferentes e diversas posições políticas causam tensões junto de pessoas da sua família. Não conhecendo estudos semelhantes para o contexto português, todas e todos sabemos existirem em muitas famílias pessoas que, quando se aproximam celebrações ou convívios familiares, tentam ou mesmo planeiam evitar conversas difíceis sobre assuntos sensíveis. No entanto, não evitar, mas sim, promover conversas difíceis é essencial à relação com outras e outros, ao não afastamento e à promoção de diferentes pontos de vista, sendo, por isso, importante que tenhamos presentes algumas pistas para melhor gerir estas conversas.

Procurar pontos de convergência e entendimento, mesmo em temas em que não se concorda, aceitando que podemos divergir de pessoas que consideramos ou gostamos. Sermos respeitantes, empáticos e abertos às perspectivas das outras pessoas, adoptando posturas de conexão, validação, aceitação e escuta activa, evitando “ataques” pessoais, atribuição de intenções e prosseguindo propósitos e objectivos com a conversa baseados na tentativa proactiva de entendimento. Procurarmos escolher momentos e contextos adequados, manter a racionalidade e a calma, também porque as nossas emoções influenciam e são influenciadas pelas das outras pessoas, e promover a não escalada na tensão, sabendo como e quando fazer uma pausa ou mesmo terminar a conversa, se necessário. Procuramos, também, questionar, reflectir, e, quando necessário, concordar em discordar. Não evitar, mas sim, promover conversas difíceis e confrontar-nos com estas dificuldades pode permitir definir relações de maior entendimento, reconhecimento e benefício mútuo.

Neste processo importa que tenhamos sempre presente os muito humanos viés da sobrevalorização e a ansiedade face ao desconhecido. O primeiro, com impacto na avaliação de diferentes situações / competências, algo que tende a verificar-se também na forma como podemos considerar a priori como mais desconfortável determinada conversa sobre um tópico sensível, face ao que depois se verifica. O segundo, implicando que tenhamos capacidade de lidar e gerir esta ansiedade, permitindo-nos ultrapassar a sensação de “ameaça”, possibilitando a “experimentação” de outras opiniões e a abertura à possibilidade de com elas ou através delas mudarmos. Também a propósito destes fenómenos psicológicos e do mal-estar potencial deles resultantes, é fundamental criar ambientes seguros do ponto de vista psicológico para relações e conversas livres, para a divergência, para a discussão de erros e “arrependimentos” e para o conflito não violento, algo fundamental para o encontro de pessoas, famílias, grupos e sociedade com a diferença e a construção da polis assente na diversidade e na riqueza dela resultante em termos de segurança, criatividade, prosperidade, desenvolvimento e paz. Também aqui, importa não evitar, antes promover espaços de encontro, de diálogo, de sobreposição e de penumbra (social), porquanto as relações, quer a nível individual, quer a nível grupal ou social, são feitas de luzes e sombras, de pontos de encontro e de conhecimento e de experiências pessoais que, por vezes, se sobrepõem a ideias, ideais ou crenças prévias.

Ao contrário de promover, evitar conversas difíceis e conflitos construtivos pode ser destrutivo. Pode permitir que uma “má ideia ou prática” floresça e vingue sem contraditório e sem ser questionada, quer seja essa ideia política ou social ou essa prática relativa à parentalidade ou a um local de trabalho. O medo do conflito estende-se, criando-se hábitos e práticas que o dificultam, com impacto na perda de confiança, na diminuição da crença na mudança e promovendo o fechamento quando a vida colectiva, como a pandemia acaba de demonstrar e os enormes e complexos desafios societais que viveremos exigirão, determina que as nossas acções e os seus resultados vivem e dependem das de outras e outros e vice-versa.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, vivemos um tempo em que “cada pessoa quer promover a sua ideia de verdade”, conforme afirmou Steven Pinker em entrevista a um jornal nacional publicada no início desta semana – semana de lançamento, ainda que condicionado, da rede social “Truth Social” [Verdade Social] criada por uma empresa de Donald Trump, rede em que cada post [publicação] é apelidado de truth [verdade]. Também por isso, e numa sociedade crescentemente polarizada e que procura soluções simplistas, por vezes acientíficas e até salvíficas para problemas complexos, devemos prepararmo-nos e mobilizarmo-nos, bem como preparar e estimular outras e outros, particularmente crianças e jovens, para o importante desígnio de não evitar, mas sim, promover, construir e experimentar conversas difíceis. Mantê-las, com resiliência e optimismo, é um extraordinário compromisso com a e o outro, pelo futuro e pelo bem-comum. É um extraordinário contributo para maior florescimento próprio e dos outros e outras, para a relação e para a edificação da igualdade, da não discriminação e de ambientes psicológicos seguros para a diversidade. É um extraordinário contributo para a confiança, para a coesão e para a construção da paz.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 22.02.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/pelo-futuro-e-pelo-bem-comum—evitar-ou-promover-conversas-dificeis

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Pessoas, ciência, políticas, instituições – Confiança (Ao redor…; Sábado; 02.12.2021)

Por um momento imaginemo-nos com menos sete anos e a sermos convidados para escrever o guião para um filme que ficcionasse tensões políticas em países com democracias consolidadas. E que, por absurdo, o nosso guião começava num discurso do Estado da Nação nos Estados Unidos da América (EUA) e, que procurando afirmar a polarização, ficcionávamos a entrada de um presidente dos EUA que deixa de mão estendida (sem a cumprimentar) a presidente da Câmara dos Representantes e que esta, no final do discurso do presidente, ao invés de o aplaudir como habitualmente sucede, rasga de pé e nas suas costas as folhas desse discurso escrito. Continuava o guião com uma entrevista a um deputado e candidato a Presidente da República em Portugal que começava com a seguinte pergunta do jornalista: “…há dias escreveu esta frase nas redes sociais: Deus confiou-me a difícil, mas honrosa, missão de transformar Portugal; Quando é que isso aconteceu?”. E que, também por absurdo, o guião terminava com a invasão do Capitólio por apoiantes do candidato derrotado nas Eleições Presidenciais no dia da ratificação da vitória do candidato eleito presidente dos EUA.

Ficção que porventura consideraríamos inopinada há sete anos, realidade entre Fevereiro de 2020 e Janeiro de 2021. Realidade num tempo inferior a 12 meses, em dois países com Eleições Presidenciais nesse período e a braços com uma pandemia que, de forma abrupta e disruptiva, implicou fortíssimas restrições e alterações ao seu quotidiano e um pouco por todo o Mundo. Realidade num período de complexidade e ambiguidade crescente e de desafios societais (globais) significativos e urgentes. Período de emergência de uma crise de confiança, que trespassa várias áreas da sociedade desde as suas instituições (políticas, da sociedade civil ou da comunicação social), às políticas (migrações ou equidade), à ciência (vacinas ou alterações climáticas da responsabilidade da acção humana), às pessoas (de idades e/ou proveniências sociais ou culturais distintas, decisoras e decisores políticos ou jornalistas).

A velocidade e a forma de acesso e disseminação de (des)informação, a par da crescente polarização da e na sociedade, forçam uma forte e circular associação das crises de confiança nas pessoas, na ciência, nas políticas e nas instituições. Associação que gera maior fragmentação na sociedade, pelo foco e reforço sistemático do que funciona menos bem (face ao que funciona bem), dos problemas (por oposição às soluções), da irracionalidade e obscurantismo (por oposição à racionalidade e factualidade) e de posturas de confronto (por oposição às de cooperação) e de estigmatização (por oposição à compreensão, empatia e compaixão).

Esta realidade é transversal a parte significativa do Mundo e, sendo já visível em diversos indicadores e áreas pré-pandemia, está hoje, também por ela, exacerbada (ou, pelo menos, mais mediatizada). Da hesitação na vacinação, já considerada uma das dez maiores ameaças à saúde global pela Organização Mundial da Saúde, às enormes desigualdades dentro de países e entre países pré-pandemia, a pandemia agravou e revelou iniquidades e desconfianças. Portugal, pese embora alguns factores protectores, não está ou é imune a esta grave crise.

Apesar do que a ciência, por exemplo através do plano nacional de vacinação, trouxe na melhoria extraordinária de indicadores de saúde, sociais e de bem-estar da população nas últimas cinco décadas e do papel desse impacto na elevada aceitação da vacinação (COVID-19, mas não apenas) no nosso país; do que políticas públicas têm representado para tantas pessoas em termos de possibilidade de bem-estar, desde políticas relativas ao combate ao abandono e insucesso escolar, de acesso ao ensino superior ou, mais recentemente, relativas ao direito dos e das trabalhadoras a desligar e o dever dos empregadores e empregadoras a promover essa desconexão; do papel de diferentes instituições públicas e da sociedade civil ao longo dos anos em políticas reconhecidas e internacionalmente valorizadas nas áreas da educação, saúde, prevenção da toxicodependência ou das migrações; de diversas portuguesas e portugueses serem, em Portugal e no estrangeiro, reconhecidas e reconhecidos como pessoas e profissionais de excelência, desempenhando com sucesso cargos de enorme responsabilidade ou demonstrando-se excepcionais em diferentes áreas; Portugal enfrenta e enfrentará enormes desafios na manutenção da confiança e da coesão social em virtude das suas vulnerabilidades, de desafios persistentes na pobreza, precariedade, exclusão e igualdade de oportunidade e pela emergência de discursos assentes em respostas simples para os seus problemas complexos e do aproveitamento dos mesmos com fins de afirmação de pessoas, movimentos, partidos e ideologias que não privilegiam o bem-comum e a equidade.

Confrontar-nos com as nossas vulnerabilidades, enquanto pessoas, comunidades e país, deve sobressaltar-nos para nos envolvermos nas diferentes dimensões da sociedade, para nos mobilizarmos e para desenvolvermos relação e confiança, com pessoas, com a ciência, as políticas e as instituições. Para, enquanto pessoas, não julgarmos, priorizarmos o desenvolvimento de competências sócio-emocionais e para criticarmos (construtivamente) e conflituarmos, mas não violentarmos ou estigmatizarmos. Para, com literacia, envolvimento e investimento, melhorarmos a ciência e o seu (re)conhecimento, procurando nela o suporte para a resposta aos desafios que se nos colocam. Para, com mais testagem e melhor utilização do conhecimento das ciências comportamentais, do comportamento humano e da tomada de decisão, melhorarmos a eficácia e eficiências das políticas públicas e da sua comunicação. Para, com lideranças participadas e líderes empáticas/os, competentes, motivadas/os e criativas/os, desenvolvermos as instituições, tornando-as mais resilientes e responsivas aos contextos, necessidades e expectativas das pessoas. Para que, enfim, reconheçamos que a ciência, as políticas e as instituições dependem de nós como nós dependemos delas.

A assim ser, manteremos na sociedade níveis de consenso social consentâneos com a necessária mitigação do impacto potencial na confiança de pessoas que usaram, usam e usarão de quaisquer poderes para diminuir outras pessoas, da pseudociência ou do obscurantismo, do ataque, desconsideração e utilização de políticas e/ou da fragilização das instituições para se afirmarem. O impacto de pessoas e grupos que não deixarão de aproveitar contextos de vulnerabilidade e de incerteza para, sem pensar a médio e longo prazo e no bem-comum, julgarem e fragilizarem tudo e todos com o objectivo único de garantirem recompensas imediatas para si ou, quando muito, para o seu grupo. Temos exemplos abundantes disso Mundo fora, mas também no nosso país, bem próximo de nós, em diferentes áreas e organizações da sociedade civil e política.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, também por isso e projetando-nos no presente, mas também para o futuro, cumpre-nos investir no fortalecimento das relações e da confiança nas pessoas, na ciência, nas políticas e nas instituições, enquanto melhor garante e “escudo” em períodos em que grandes desafios societais e a incerteza se nos afiguram como “balas” contra o bem-estar, a equidade e a coesão social. Cumpre-nos, “contra os canhões”, além de “marchar, marchar”, confiar, confiar.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 02.12.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/pessoas-ciencia-politicas-instituicoes–confianca