Não evitar, mas sim, promover conversas difíceis. “A chave para ter experienciado o que experienciei não foi a minha estupidez, mas não saber o que procurar fora e para onde dirigir a minha atenção.” Alexandra Stein, hoje especialista em psicologia social e mais especificamente em fenómenos de extremismo, foi durante cerca de 10 anos membro do “The 0”, um “culto” (porque grupo clandestino, com um líder carismático e com um ambiente de controlo total dos membros) declarado por quem nele participou, incluindo pela própria, como “bizarro” e responsável por “experiências dolorosas e traumatizantes”. Não saber o que procurar fora e para onde dirigir a minha atenção…
Da gestão da pandemia às migrações, da política à religião, todas e todos já nos vimos perante situações cuja sensibilidade dos temas redundam em conversas difíceis, seja junto de pessoas amigas, familiares, colegas de trabalho ou de equipa. Um estudo da American Psychological Association de Novembro de 2020, mês das últimas eleições presidenciais dos EUA, revelou que 40% da população americana adulta considera que as diferentes e diversas posições políticas causam tensões junto de pessoas da sua família. Não conhecendo estudos semelhantes para o contexto português, todas e todos sabemos existirem em muitas famílias pessoas que, quando se aproximam celebrações ou convívios familiares, tentam ou mesmo planeiam evitar conversas difíceis sobre assuntos sensíveis. No entanto, não evitar, mas sim, promover conversas difíceis é essencial à relação com outras e outros, ao não afastamento e à promoção de diferentes pontos de vista, sendo, por isso, importante que tenhamos presentes algumas pistas para melhor gerir estas conversas.
Procurar pontos de convergência e entendimento, mesmo em temas em que não se concorda, aceitando que podemos divergir de pessoas que consideramos ou gostamos. Sermos respeitantes, empáticos e abertos às perspectivas das outras pessoas, adoptando posturas de conexão, validação, aceitação e escuta activa, evitando “ataques” pessoais, atribuição de intenções e prosseguindo propósitos e objectivos com a conversa baseados na tentativa proactiva de entendimento. Procurarmos escolher momentos e contextos adequados, manter a racionalidade e a calma, também porque as nossas emoções influenciam e são influenciadas pelas das outras pessoas, e promover a não escalada na tensão, sabendo como e quando fazer uma pausa ou mesmo terminar a conversa, se necessário. Procuramos, também, questionar, reflectir, e, quando necessário, concordar em discordar. Não evitar, mas sim, promover conversas difíceis e confrontar-nos com estas dificuldades pode permitir definir relações de maior entendimento, reconhecimento e benefício mútuo.
Neste processo importa que tenhamos sempre presente os muito humanos viés da sobrevalorização e a ansiedade face ao desconhecido. O primeiro, com impacto na avaliação de diferentes situações / competências, algo que tende a verificar-se também na forma como podemos considerar a priori como mais desconfortável determinada conversa sobre um tópico sensível, face ao que depois se verifica. O segundo, implicando que tenhamos capacidade de lidar e gerir esta ansiedade, permitindo-nos ultrapassar a sensação de “ameaça”, possibilitando a “experimentação” de outras opiniões e a abertura à possibilidade de com elas ou através delas mudarmos. Também a propósito destes fenómenos psicológicos e do mal-estar potencial deles resultantes, é fundamental criar ambientes seguros do ponto de vista psicológico para relações e conversas livres, para a divergência, para a discussão de erros e “arrependimentos” e para o conflito não violento, algo fundamental para o encontro de pessoas, famílias, grupos e sociedade com a diferença e a construção da polis assente na diversidade e na riqueza dela resultante em termos de segurança, criatividade, prosperidade, desenvolvimento e paz. Também aqui, importa não evitar, antes promover espaços de encontro, de diálogo, de sobreposição e de penumbra (social), porquanto as relações, quer a nível individual, quer a nível grupal ou social, são feitas de luzes e sombras, de pontos de encontro e de conhecimento e de experiências pessoais que, por vezes, se sobrepõem a ideias, ideais ou crenças prévias.
Ao contrário de promover, evitar conversas difíceis e conflitos construtivos pode ser destrutivo. Pode permitir que uma “má ideia ou prática” floresça e vingue sem contraditório e sem ser questionada, quer seja essa ideia política ou social ou essa prática relativa à parentalidade ou a um local de trabalho. O medo do conflito estende-se, criando-se hábitos e práticas que o dificultam, com impacto na perda de confiança, na diminuição da crença na mudança e promovendo o fechamento quando a vida colectiva, como a pandemia acaba de demonstrar e os enormes e complexos desafios societais que viveremos exigirão, determina que as nossas acções e os seus resultados vivem e dependem das de outras e outros e vice-versa.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, vivemos um tempo em que “cada pessoa quer promover a sua ideia de verdade”, conforme afirmou Steven Pinker em entrevista a um jornal nacional publicada no início desta semana – semana de lançamento, ainda que condicionado, da rede social “Truth Social” [Verdade Social] criada por uma empresa de Donald Trump, rede em que cada post [publicação] é apelidado de truth [verdade]. Também por isso, e numa sociedade crescentemente polarizada e que procura soluções simplistas, por vezes acientíficas e até salvíficas para problemas complexos, devemos prepararmo-nos e mobilizarmo-nos, bem como preparar e estimular outras e outros, particularmente crianças e jovens, para o importante desígnio de não evitar, mas sim, promover, construir e experimentar conversas difíceis. Mantê-las, com resiliência e optimismo, é um extraordinário compromisso com a e o outro, pelo futuro e pelo bem-comum. É um extraordinário contributo para maior florescimento próprio e dos outros e outras, para a relação e para a edificação da igualdade, da não discriminação e de ambientes psicológicos seguros para a diversidade. É um extraordinário contributo para a confiança, para a coesão e para a construção da paz.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 22.02.2022