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Pobreza – Um choque em cadeia (Editorial; PSIS21; N.º27)

Chove lá fora. Um vidro de um carro, embaciado. Um dedo de uma menina desenha uma árvore, fazendo do vidro folha e do dedo marcador. Depois um menino, triste, e outra e depois outra menina e, sempre, o dedo a desenhar o vidro enquanto a mãe Rosie liga do carro-casa para diversos hotéis à procura de um quarto para uma família. A sua família. Não. Não. Não.

O não. O insucesso. A impossibilidade. O problema. A perda. O não cumprimento. No Rosie, filme que assim começa e que retrata dois dias na vida de uma família numa Irlanda que teve recentemente um significativo aumento de pessoas em situação de sem-abrigo. Na vida ao nosso redor, em tantas situações, connosco ou com pessoas cuja história e nome (des)conhecemos.

A pobreza, qual choque em cadeia, todas, todos e tudo impacta. Pessoas em situação de pobreza ou não. A saúde, a educação, o trabalho e a produtividade. As relações na sociedade, a equidade, a confiança e coesão social. Por exequível, mas também porque influencia todos os restantes, a erradicação da pobreza é o primeiro dos objectivos do desenvolvimento sustentável e existe um amplo e diverso campo de contributo da ciência e da prática psicológica nesse sentido.

A actual edição da Psis21 trata-os a propósito do recente retrocesso no caminho de diminuição das diversas formas de pobreza no Mundo e em Portugal e da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, mas, também, do projecto “.Final à Pobreza”, através do qual a Ordem dos Psicólogos Portugueses se compromete com o desenho de uma estratégia e de acções de reforço do contributo da psicologia na área da pobreza e exclusão.

Se o vidro fosse uma folha e o dedo um marcador, a menina escreveria: “alguém faça algo… alguém nos ajude e a crescer, quais árvores.” Contribuamos para esta estratégia e mobilizemo-nos, enquanto ciência e profissão, para que, a cada dia, menos crianças, menos pessoas, tenham de ultrapassar estes momentos. Para uma sociedade que caminhe, decidida e rapidamente, para a erradicação das diversas formas de pobreza e exclusão, obstáculos decisivos à possibilidade de saúde, bem-estar e de autodeterminação de todas as pessoas.

 

Tiago Pereira

Editorial Psis21 N.º27

https://dashboard.mazsystems.com/reader/82279?page=0

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2023

2023. Entramos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio. Momento para pensarmos o ano que temos pela frente e para nos pensarmos nele.

Profissionalmente, a cada ano, faço-o também a partir das tendências da psicologia que a @American Psychological Association publica por estes dias. Resumo as para 2023:

1) ciência psicológica a chegar a mais (e mais diversas) pessoas com 2) investigação inovadora e mais inclusiva; 3) combate à desinformação; 4) promoção do bem-estar de trabalhadoras/es e 5) de lideranças que promovam na gestão a equidade, diversidade e inclusão; 6) foco na promoção da saúde mental de crianças/jovens e na 7) prevenção do suicídio; 8) financiamento significativo de apps de saúde mental e integração da inteligência artificial; 9) crescente abandono de carreiras académicas em psicologia [mais específico dos EUA/Canadá]; 10) maior contributo para a saúde pública, dirigindo intervenções para a promoção da saúde psicológica de toda a população e 11) reforço de parcerias no âmbito dos principais desafios societais.

2023 será, também, o terceiro ano com as minhas actuais responsabilidades e, também na @Ordem dos Psicólogos Portugueses, acompanharemos parte destas tendências, contribuindo na relação com as congéneres internacionais e pela nossa actividade específica. Dela, e da que mais directamente me envolverá/caberá, destaco:

Contributo para a construção de locais de trabalho saudáveis, com prevenção e gestão dos riscos psicossociais e sensibilização das lideranças para as questões da equidade, diversidade, inclusão e bem-estar nas organizações; parceria com entidades e organizações diversas (incluindo seguradoras) no sentido melhorar o acesso da população (e a equidade de acesso) a serviços de psicologia; a criação de mais e melhores condições (incluindo para as/os profissionais) de prevenção, promoção e intervenção na área da saúde mental, particularmente nas crianças/jovens; processos de desenvolvimento profissional e especialização em psicologia e valorização dos actos e das/os profissionais; promoção da literacia em saúde psicológica e da ciência com evidência; contributo da psicologia para a saúde pública e para desafios societais complexos como a crise climática, demográfica, as migrações e…

Como o Presidente da República ontem disse na comunicação ao país, 2022 trouxe o “agravamento da pobreza e das desigualdades sociais”. Antes havia dito que “haver menor desigualdade e menor pobreza” era um dos três “grandes desejos e votos” do Presidente para 2023. Diria de todas e todos. Uma parte significativa do meu ano será a procurar contribuir para a definição (e concretização) da estratégia, que a partir do https://finalapobreza.pt, procurará estimular um maior e mais decisivo contributo da psicologia e das/os psicólogas/os para este desígnio. Para um país com menos pessoas em situação de pobreza, menos exclusão e desigualdade.

Venha de lá 2023. Que ele nos aproxime, aqui e fora daqui.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Psicologia Tomada de Decisão

A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres (Sábado; Ao redor…; 07.12.2022)

“Não há provas. Não há testemunhas. Mas para uma pessoa, não existe dúvida.” É esta a frase de apresentação do filme “A dúvida” realizado por J. Shanley e baseado numa peça de teatro por si escrita, que lhe valeu o prémio Pulitzer Drama em 2005. A peça (“Dúvida: Uma parábola”) tinha um nome que reflectia uma dimensão visual da dúvida, associada ao seu dinamismo e à forma como, diferentes momentos e circunstâncias, podem produzir diferentes olhares sobre algo. Dúvida, elemento poderoso nas dimensões cognitivas, emocionais e de comportamento das pessoas, triângulo estruturante da vida, das relações connosco e com as outras e os outros e da sociedade.

Embora por vezes útil e até oportuna face a algumas situações, não por acaso a dúvida é explorada, da indústria à política. Do memorando, outrora secreto, da indústria tabaqueira que afirmava que “a dúvida é o nosso produto”, estimulando o financiamento de campanhas (e até de “ciência”) que introduzissem dúvidas nas cada vez mais evidentes nocivas consequências do consumo de tabaco, à forma como políticas/os, como é exemplo Donald Trump, têm procurado suscitá-la face aos processos democráticos dos seus países. No seu caso, abundam exemplos, desde a legitimação de grupos violentos como os Proud Boys, à frase aquando da sua aceitação da nomeação para recandidatura a Presidente na Convenção Republicana de Agosto de 2020 (“A única forma que eles [Partido Democrata] têm de nos retirar a eleição é através de eleições fraudulentas”) ou à forma como nos últimos dias pediu a “extinção da Constituição” e, mais uma vez, a anulação das eleições presidenciais de 2020. Lá, nos EUA, mas também na Europa ou até em Portugal, onde é crescente um discurso de estímulo e legitimação da desconfiança sobre pessoas, grupos, instituições e até dados oficiais, porquanto líderes partidários afirmam, por exemplo, “desconfiar da informação sobre a criminalidade que tem sido divulgada nos Relatórios Anuais de Segurança Interna” ou que “vemos, sistematicamente, a população a desconfiar destes relatórios” existindo agora “um grupo parlamentar que também desconfia destes relatórios”.

Este movimento, com exemplos históricos com décadas e de consequências nefastas para os Direitos Humanos, para o respeito por todas e por todos e para a convivência e acção conjunta dos povos face aos desafios globais, tende a legitimar a violência e a desumanização, caucionando-a e limitando as possibilidades de actuação sobre a mesma das instituições e autoridades do Estado. Ao paulatinamente desacreditarem as instituições e os pilares da vida democrática, estes movimentos e partidos pretendem espaço de crescimento e propagação do seu ideário utilizando a percepção de injustiça e da perda de qualidade de vida de algumas pessoas, o medo do desconhecido e diverso, a revolta ou o ódio à outra e ao outro. Pretendem minar a confiança, introduzindo desconfiança e questionamento de dados, da ciência, da racionalidade. Dos factos, inclusivamente.

Estes processos condicionam significativa e negativamente a saúde pública e o bem-estar das pessoas. São hoje relativamente claras as relações existentes entre a liberdade e direitos económicos, sociais e culturais e os indicadores de saúde e bem-estar das populações. Tal qual é claro que a democracia por si, ainda que suportada na capacidade de empoderamento das pessoas, se não for acompanhada de direitos humanos estruturantes como o direito à habitação, à educação de qualidade e a condições equilibradas de subsistência e de satisfação e propósito no trabalho, não resulta eficaz de igual forma.

Esta consciência, e os sinais que temos destes movimentos até em países que porventura consideraríamos a eles mais imunes (e.g. países do Norte da Europa), devem-nos motivar e impelir a uma atitude proactiva de prevenção e mitigação destes fenómenos, considerando a sua importância e o seu papel nas sociedades democráticas, de Direitos e livres. É fundamental que tal dependa, é certo, do reforço da dimensão social que toque e abarque questões fundamentais como a habitação, a precariedade e pobreza ou a educação de qualidade e trabalho digno, mas, também, outras áreas, hoje talvez ainda emergentes, mas que importa acompanhar e desenvolver. Dois exemplos.

A Finlândia introduziu no currículo das suas Escolas a literacia mediática. A invasão da Crimeia pela Federação Russa em 2014 e os níveis de desinformação e de notícias falsas particularmente significativos que se lhe seguiram, conduziram a esta alteração e a um mais intencional investimento no desenvolvimento do pensamento crítico de crianças e jovens. Juntando-se à abordagem à educação mediática, parte já antes do currículo do ensino pré-escolar e elementar, e com os impactos que sabemos que continuam das crianças/adolescentes para as suas famílias/sociedade, segundo o instituto Open Society a Finlândia é hoje o país da Europa mais resistente à desinformação. A Suécia que recentemente criou a “Agência de Defesa Psicológica”, uma estrutura pública que visa organizar e operacionalizar um conjunto de acções de protecção da sociedade democrática e livre e da formação livre de opinião, a partir da identificação, análise e combate à influência da má informação ou desinformação estrangeira direccionada à Suécia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, existem hoje novas e crescentes ameaças às pessoas, sociedades e instituições e estes são dois exemplos concretos de como melhor nos prepararmos para os desafios do presente e do futuro. Para apoiar, também, o que a OCDE define como fundamental para o desenvolvimento da verdade, confiança e reforço da democracia: o combate à má informação e desinformação; uma maior representação e participação das pessoas na vida pública; o assumir de responsabilidades globais e a resiliência à influência externa nas sociedades; a transição verde e digital. Tudo áreas para as quais, também num processo de adaptação e reinvenção constante da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos, aproximando-as dos desafios das pessoas e sociedades, a psicologia pode e deve, a par com outras ciências e profissionais, contribuir. Tudo áreas que devemos valorizar e investir, considerando o quão fulcral é a coesão social e a possibilidade de autodeterminação de todas e todos ao bem-estar e a sociedades democráticas, de Direitos e livres.

 

Tiago Pereira

A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres

in Sábado (Ao redor…); 07.12.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-duvida-a-literacia-e-a-defesa-psicologica-das-sociedades-democraticas-de-direitos-e-livres

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COP27 e as comemorações dos dias Universal dos Direitos da criança e da memória das vítimas da estrada

Quando na principal via de acesso à bonita cidade de Évora olhamos à esquerda, ali o encontramos. Ali, onde tantas vezes passei, a caminho ou no regresso da Escola e bairro onde trabalhei os primeiros (significativos) anos, enquanto psicólogo e coordenador de um projecto. Jardim da memória, memória de tantas vidas interrompidas, brutalmente perdidas na e pela estrada. Bairro e Escola, memória minha de como as circunstâncias, também e ainda em Portugal, desafiam e limitam Direitos das crianças. Ontem, dia final da COP27, comemorou-se o Dia Mundial em memória das vítimas da estrada e o Dia Universal dos Direitos das crianças.

Comemorações que, creio, podem dar-nos uma importante pista para reflectir sobre os limitados resultados da COP27. “Foi dado um passo muito curto para os habitantes do Planeta” disse Guterres. Apesar da declaração final afirmar finalmente a “necessidade imediata de recursos financeiros novos, adicionais, previsíveis e adequados para ajudar os países em desenvolvimento que são particularmente vulneráveis” às alterações climáticas, não tem avanços significativos (pelo contrário) na redução de emissões de gases com efeito estufa. Acordo e consenso mínimo, na compreensão do problema, seus impactos e da necessidade de reparação. Desacordo na mudança e transformação necessária à redução de emissões, também pela dificuldade em conceber a mudança de foco nos combustíveis fósseis em simultâneo com a promoção da possibilidade de bem-estar.

A pista resulta da forma como estas comemorações demonstram a compatibilidade potencial das mudanças estruturais com a maior possibilidade de bem-estar. Assim foi e é com a progressiva operacionalização da Carta dos Direitos das crianças, quando se coloca o foco, exactamente, nas crianças. Assim foi e é com a redução das vítimas da estrada, particularmente quando se desenham cidades com o foco na pessoa (peões) e não no carro (tráfego).

Em 2019 (2020/21 são anos atípicos) morreram em Portugal 74 pessoas atropeladas. Nos últimos anos, mais de 10 pessoas por ano em média apenas em Lisboa. Também em 2019, Oslo e Helsínquia não tiveram qualquer morte por atropelamento e Londres está a implementar um plano com esse objectivo. Procura mudar o foco da “melhoria do tráfego” para as “pessoas primeiro” e, além de uma redução significativa dos atropelamentos (e mortes), tem resultado na diminuição do número de carros por família, dos crimes na rua e na maior utilização do espaço público para brincar e andar.

Num e noutro caso exemplos de como mudar o foco pode estimular (e não diminuir) a possibilidade de bem-estar. Um e outro caso a fazerem-nos recordar que mudar é difícil, mas possível, particularmente se envolver as pessoas. Que um foco em energias renováveis e nas possíveis e necessárias reduções, com apoio aos países com maiores vulnerabilidades, é exequível e pode, em simultâneo, ser promotor da possibilidade de bem-estar e do desenvolvimento sustentável de cada país e do Mundo.

Pelo que esperamos?

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COP27

Poderemos “vencer” o(s) desafio(s) da crise climática? Sim, podemos.

Datam do ano em que nasci (1983) duas publicações que me ajudam a pensar a crise climática no período que levo de vida:

a) O relatório “Changing climate” [Mudança climática] da Comissão de Avaliação do Dióxido de Carbono que no sumário executivo já dizia/previa: “se um alarme global relativo ao aumento de 3 ou 4 graus acontecer nos próximos 100 anos, é provável um aumento do nível do mar de 70cm (…) devido às enormes incertezas e implicações significativas, é importante confirmar os preditores das alterações climáticas o mais precocemente possível para melhorar a sua precisão (…) e o desenho de programas de monitorização;

b) O artigo de B. Page e R. Shapiro “Effectts of Public Opinion on Policy” [Efeitos da Opinião Pública na Política] que demonstrava o quanto e a forma como a opinião pública pode influenciar a política e as políticas.

 

Sim, podemos. Tornando saliente e prioritária a crise climática e as medidas (e monitorização) para a sua mitigação. Aumentando a informação e literacia da opinião pública e procurando promover atitudes pró-ambientais nas pessoas, que, simultaneamente, estimulem mudanças comportamentais individuais e na sociedade e pressionem governos e organizações para a mudança, valorizando-a e recompensando-a.

 

Sim, podemos. De 2019 a 2022 mantemo-nos “numa auto-estrada para o inferno com o pé no acelerador”, conforme apropriadamente A. Guterres referiu na COP27. Daí para cá, com a “International Summit on Psychology and Global Health – A leader in climate action” (Lisboa; 2019) e com a participação, já através da Global Psychology Alliance resultante da Summit, na COP26 e agora na COP27, temos procurado, mais regular e assertivamente, afirmar o contributo indispensável da psicologia enquanto ciência e profissão neste complexo desafio societal.

 

Sim, podemos. Com maior compreensão de como as pessoas se comportam e tomam decisões e do que pode estimular mudanças assentes nas comunidades, na solidariedade e no bem-estar. Com mais investimento nos processos de adaptação e promoção de resiliência individual e comunitária para responder às incertezas e iniquidades que advirão. Com mais e mais eficaz suporte emocional às pessoas vítimas de catástrofes. Com mais políticas públicas informadas pela ciência (também psicológica). Cuidando, particularmente na população mais jovem e com maiores vulnerabilidades, das consequências na saúde mental e bem-estar da interiorização e do confronto no presente e para o futuro com os problemas ambientais.

 

Sim, Podemos. E sim, devemos reforçar o contributo de cada um/a para tal.

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O Hub Psicologia: Uma ciência e uma profissão ao serviço das pessoas e da resposta aos principais desafios societais

“Esse cientista de depois de amanhã terá um escrúpulo especial pela sua própria vida interior.” Excerto do Livro do Desassossego (Bernardo Soares), mote (final) da conversa de ontem, a propósito de como a complexidade, a incerteza e os desafios individuais e societais do tempo que vive(re)mos implicam maior interdisciplinariedade e beneficiam de uma psicologia porto de abrigo.

“O Hub Psicologia: Uma ciência e uma profissão ao serviço das pessoas e da resposta aos principais desafios societais” foi o título da conferência e mesa (com a Dora Pereira) do “II Congresso dos Psicólogos da Madeira | Resiliência e Superação – A Psicologia na construção da paz, do bem-estar e da coesão social”. Conferência que resulta (muito agradeço pela confiança e oportunidade) do convite do Renato Gomes Carvalho e da equipa da Delegação Regional da Madeira, que tem desenvolvido um especialmente meritório e impactante trabalho na sociedade da RA da Madeira, conforme foi reconhecido e valorizado pelos Presidente da Câmara do Funchal, do Governo Regional e da Assembleia Legislativa da Madeira.

A conferência partiu do que atrás referi, do artigo do J. Cacioppo (“Psychology as a hub science”) e de 3 constatações suas: desde 2005 a psicologia é considerada um dos 7 hubs de ciência; enquanto ciência e prática é muito mais que a visão que dela existia, muito baseada no Dr. Phil; embora não totalmente compreendida, tinha já muito a oferecer (e a aprender) a/com outras áreas científicas. Tocou ainda o crescimento exponencial da investigação em psicologia (700% de 1980 a 2014) e do número de psicólogas e psicólogos no Mundo (+19%) e em Portugal (+67%), previsto para a década 2014-2024.

Passou pelo símbolo de infinito, não pelo crescimento potencial futuro, antes pelo pensamento sobre a relação passado-presente-futuro e a perspectiva de diferentes momentos de intervenção da psicologia. De complementariedade entre a procura da mudança individual (muitas vezes com intervenções clínicas, remediativas e individuais) e da mudança societal (macro), particularmente sobre os determinantes da possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação das pessoas e de equidade, justiça e coesão social.

Terminei com 6 pistas para um hub profissão: equipas multidisciplinares; consultoria a lideranças; trabalho com decisoras/es; capacitação e desenvolvimento das pessoas; psicólogas/os cidadã(o)s; assunção de papéis de liderança e tomada de decisão. Tudo num caminho de uma psicologia porto de abrigo, como recurso fundamental do país e espaço de apoio às pessoas nos seus desafios individuais e à sociedade nos desafios societais. Porto de abrigo que implica que cada psicóloga e psicólogo, cada dia e em cada contexto, reforce a identidade, o reconhecimento (de erros) e aprendizagem, a confiança, a valorização e desenvolvimento profissional e o auto e heterocuidado.

Assumamo-nos – com determinação, motivação e empenho, com responsabilidade e competência – porto de abrigo no presente e futuro.

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Inflação e Insegurança Económica

Posto de escuta. A nova rúbrica do jornal PÚBLICO propõe-se partilhar “notícias fora do radar”. Na 2ªF (22.08) apresentou-nos a Afriski, a única estância de esqui de África, situada no Lesoto. Notícia duplamente contraintuitiva por não ser propriamente comum associarmos uma estância de esqui ao período de Verão que vivemos e ao Sul de África.

Li a notícia no dia que seguiu à publicação da peça da Catarina Silva na Notícias Magazine (21.08) intitulada “Guia para lidar com a ansiedade provocada pela inflação”. Tema menos contraintuitivo, diria, face ao momento que vivemos e viveremos e aos impactos do mesmo nas pessoas, particularmente nas com maiores vulnerabilidades sociais e económicas. Tema, no entanto, com uma nuance eventualmente mais contraintuitiva, considerando os significativos impactos da inflação e da crise sócio-económica potencial na população mais jovem, população a quem muitas vezes se atribui uma suposta “ausência de responsabilidade” que, existindo, poderia ser protectora dos seus impactos.

No meu contributo para a peça (que partilho), abordo esta questão específica também a propósito do impacto “da crise socioeconómica do início da década passada” na população mais jovem há época, com “impacto muito grande na ansiedade, depressão e noutros problemas de saúde mental” que ajudam a explicar porque chegamos ao período pré COVID-19 como um dos países da União Europeia com mais carga de doença mental. Foco, também, a associação desta situação à maior precariedade da população jovem e à fase de “criar bases, de tomar decisões, construir família, procurar casa” para concluir que “não me surpreende, assim, que sejam os jovens os mais impactados” por “mais uma crise que vem interromper o seu movimento de autonomia”.

Sobre (problemas de) saúde mental na população jovem volto a escrever em breve, reflectindo mais profundamente “os níveis de stress e ansiedade significativa” que na peça refiro, também, a propósito da “acumulação que vivemos e que inclui a Guerra na Ucrânia e as suas diversas consequências, mas também a crise com a COVID-19”. Acumulação de fenómenos que desafiam a previsibilidade e controlo, importantes ao bem-estar. Acumulação de fenómenos que pode acrescentar medo ao stress, impactando o sono, hábitos alimentares, a prática de actividade física ou conduzir a uma menor “propensão para nos relacionarmos com outras pessoas, numa espiral negativa”.

Contraintuitivamente ou não, nestes períodos, reforçar o autocuidado e o cuidado com outras e outros é algo protector. Como pode ser a “possibilidade de conversar com um/a profissional que dá algum sentido ao que a pessoa está a viver” pois, ao contrário do que muitas vezes consideramos, “a ajuda nem sempre necessita de ser algo muito prolongado no tempo”. Apoiemo-nos neste momento difícil, para que a ele melhor possamos resistir e nos adaptar, recordando outros momentos no passado em que já o fizemos e lutando por um futuro de maior possibilidade de bem-estar para todas e todos.

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Maioridade(s)

Acabo de cumprir o momento do ano em que um segundo, minuto, hora e dia significam (mais) um ano de vida. E, se esse momento significa hoje “apenas” mais um ano de vida, no passado mais um segundo, minuto, hora e dia significaram uma mudança de idade que me garantiu (novos) direitos e deveres.

O meu aniversário de 2022 distou 5 dias da publicação do trabalho da Maria João Bourbon (Fisga; Revista Expresso) focado, exactamente, na questão da maioridade e da recente alteração nessa Lei no Japão (de 20 para 18 anos).

A peça trata a realidade em diferentes países, incluindo Portugal, e procura focar “discrepâncias” entre países e dentro dos países para questões distintas (votar, consumir álcool/tabaco, apostas, conduzir, casar, entre outras). “Discrepâncias” que – digo na peça – considero naturais, afirmando que o que “seria inconsistente com a ciência e o conhecimento disponível seria existir uma idade igual para todas as situações”, particularmente quando os estudos, cada vez mais sólidos, identificam diferentes momentos de maturidade e desenvolvimento que influenciam a idade de maioridade. Nomeadamente “funções mais racionais, cognitivas, de deliberação e de pensamento lógico”, onde, em média. o nível de competência da idade adulta se atinge aos 15/16 anos, e “funções e capacidades mais relacionadas com o autorregulação e a capacidade de controlar determinados impulsos”, onde, em média, se alcança próximo dos 20 anos.

Significa isto, digo, “que existe mais capacidade de tomada de decisão, mais precocemente, que envolva uma situação de saúde (se devem ou não ser alvo de um determinado procedimento, por ex.) do que serem capazes de, a conduzir, não avançarem num sinal amarelo ou para controlarem determinados impulsos relacionados com o consumo de álcool ou jogo”.

Ainda assim, refiro que persistem perplexidades na legislação (como a agora corrigida no Japão que permitia o serviço militar a partir dos 18 anos, mas o direito de voto apenas aos 20) demonstrativas de que nem “sempre há a consideração da melhor evidência disponível”. Afirmo, portanto, que a legislação (e quem a faz e aplica) deve ser sensível aos fenómenos sociais e culturais e ao conhecimento científico, também da psicologia, procurando as melhores e mais informadas decisões e estando disponível para produzir alterações, quando convenientes e suportadas, até pela “complexificação muito significativa dos processos de vivência e de escolha” com que as e os jovens se confrontam na sociedade contemporânea.

Tema exemplar onde ciência, sociedade, Lei e tomada de decisão devem “andar de mãos dadas”. Exemplar do quão certeiro é o mote da rubrica Fisga: “Quem sabe tudo é porque anda muito mal informado”. Do quão certeira é a metáfora de Carlos Fiolhais (“Por vezes os cientistas parecem para os governos como os candeeiros para as pessoas alcoolizadas – mais apoio [encosto] que iluminação”) e do quão assim não deverá ser visando o melhor interesse das pessoas, da justiça e da coesão social.

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Negatividade, espaço público e debate político

Ontem, com o meu filho mais novo no colo e na sua rotina pré-banho, dei por mim a fechar a janela do quarto enquanto lhe dizia “mais um dia de vida”. Mas… Mais um dia de vida (vivido) ou menos um dia de vida (por viver)?

Pensei-o, creio, pela coincidência de ter acontecido o debate “Estado da Nação”. A esse propósito, durante o dia, havia lido o trabalho “De zero a 20, As notas para o estado da Nação” onde “O painel do programa “O Vencedor É..”, da Rádio Observador, faz a avaliação dos protagonistas políticos”. Continuava o título, “A escala é de 0 a 20 (mas não há nenhum 20)”, frase “contida” porque, além de não existir nenhum 20, conforme referido, não existe também nenhum 19, 18, 17, 16 ou mesmo 15.

15 pessoas avaliaram 15 personalidades políticas (225 avaliações) e nenhuma tem mais de 14 valores numa escala de 0 a 20. Ou de 0 a 14, no caso, pois existem 0, 1, 2, 3, 4, 5, … todas as avaliações possíveis entre 0 e 14, incluindo um curioso (porque preciso) 9,5. Podemos pensar que tal decorre por ser a avaliação de um governo num período de especial complexidade, com problemas e erros significativos. No entanto, o painel faz a avaliação “Do Governo à oposição. De Belém a São Bento”, avaliando o Primeiro-ministro e 5 Ministras/os, mas também o Presidente da República, da Assembleia da República e as/os líderes dos 7 partidos com assento parlamentar, incluindo o recém-empossado Luís Montenegro. A título de ex., as notas atribuídas por J.M.Fernandes, publisher do Observador, resultam numa média de 7,8 (média mais baixa é 6,5 – Filomena Martins; média mais alta é 9,6 – Júlio Magalhães/Pedro Raínho). Podemos ainda pensar que tal sucede por se tratar do Observador, mas assim não creio. Ainda que não idêntico, imagino algo próximo noutros órgãos de comunicação social e/ou painéis.

Antes, creio decorrer de alguma falta de consideração da dificuldade do papel e da crescente utilização da dimensão negativa no espaço público e debate político. Independentemente do contexto e apesar de nem sempre assumido, é este o tipo de discurso mais procurado pelas e pelos (e)leitores e espectadores e é o que melhor funciona no estilo comunicacional breve e “sensacionalista” que as redes sociais estimulam e propagam. Assim, os media tendem a promover mais discursos/campanhas negativas, incentivando a sua reprodução, a polarização política e intensificando a associação da “negatividade” à política e às e aos decisores, aumentada pelo viés (da negatividade) que leva as pessoas a considerarem mais (e serem mais impactadas) por informações, factos ou feedbacks negativos (face a positivos).

Ao invés de “fecharmos, abramos janelas” para que, com o país e o Mundo confrontados com desafios societais complexos, com crises de desconfiança e com o autoritarismo a reemergir, possamos ter mais e não menos pessoas disponíveis para dar o seu contributo na política. Mais e não menos pessoas que acreditem nos princípios democráticos e no valor da dignidade e dos direitos humanos.

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European Congress of Psychology

Cachopo. Ouvi esta palavra, certamente, muitas centenas de vezes. Dirigida a outras pessoas também, mas, muitas vezes, a mim. Um equivalente ao gaiato que, mais tarde, quando me mudei do Ribatejo para o Alentejo, passei a ouvir, agora já só dirigido a outras pessoas, a crianças. Moço, rapaz novo, cachopo. Lembrei-me da palavra a propósito de duas situações que marcarão os meus próximos dias:

1. John Cacioppo, hoje Director do “Center for Cognitive and Social Neuroscience (Centro para a Neurociência Cognitiva e Social) da Universidade de Chicago, em 2007 presidente da “Association for Psychological Science (Ass. para a Ciência Psicológica)”. Nesse ano, numa coluna da publicação da Associação, escreveu um artigo (“Psychology is a Hub Science”) onde reflectiu a partir de análise e mapeamento de dados, sobre o facto da ciência psicológica ser, já em 2007 (hoje mais, diria), uma das/os sete “hub sciences” (eixos de ciência). Também já aí, a Neurologia e a saúde pública surgiam entre dois hubs de ciência – a Psicologia e a Medicina. O mapeamento da ciência, efectuado em 2005 e reflectido nesse artigo por Cacioppo, demonstrava já uma Psicologia, que – ainda que pouco compreendida pela sociedade civil e utilizada, particularmente, pelas decisoras e decisores – tinha contributos decisivos para outras ciências e com elas muito crescia.

2. Porque a Psicologia é uma ciência, apesar de em grande e rápido desenvolvimento, ainda “moça”, jovem, em todo o Mundo mas muito em Portugal. Cresce, desenvolve-se, mas não sem enormes desafios que se lhe colocam. Da necessidade de maior afirmação aos processos de especialização e hiperespecialização. Do reconhecimento de erros cometidos, da reparação e da aprendizagem com os mesmos à necessidade de maior identidade, também entre a ciência e prática e além-fronteiras. Da necessidade de rapidez na evolução da ciência (e prática), num Mundo cada vez mais acelerado, ambíguo, sempre em mudança e com desafios societais de complexidade crescente.

Nos próximos dias, eu e várias psicólogas e psicólogos portugueses, estaremos no European Congress of Psychology (https://www.ecp2022.eu). Num momento de particular complexidade do Mundo, ainda a sair de uma pandemia, a viver uma Guerra em território Europeu, num período de rápido retrocesso em diversos indicadores (desde logo na pobreza) e com a crise climática, das migrações e sócio-económica a sinalizarem-no, juntamo-nos a outros e outras psicólogas Europeias com o propósito de contribuir para uma ciência e uma profissão mais ao serviço das pessoas e da sociedade. Eu, com participações na área da saúde pública (COVID-19) e da crise climática, sob o chapéu do tema do congresso (“Psychology as the Hub science: Opportunities & Responsability | Psicologia como o eixo da ciência: Oportunidades e Responsabilidade”) e com a certeza da responsabilidade e dever de contribuir para uma Psicologia mais sem fronteiras a contribuir para os, também sem fronteiras, complexos desafios societais.