
“Não há provas. Não há testemunhas. Mas para uma pessoa, não existe dúvida.” É esta a frase de apresentação do filme “A dúvida” realizado por J. Shanley e baseado numa peça de teatro por si escrita, que lhe valeu o prémio Pulitzer Drama em 2005. A peça (“Dúvida: Uma parábola”) tinha um nome que reflectia uma dimensão visual da dúvida, associada ao seu dinamismo e à forma como, diferentes momentos e circunstâncias, podem produzir diferentes olhares sobre algo. Dúvida, elemento poderoso nas dimensões cognitivas, emocionais e de comportamento das pessoas, triângulo estruturante da vida, das relações connosco e com as outras e os outros e da sociedade.
Embora por vezes útil e até oportuna face a algumas situações, não por acaso a dúvida é explorada, da indústria à política. Do memorando, outrora secreto, da indústria tabaqueira que afirmava que “a dúvida é o nosso produto”, estimulando o financiamento de campanhas (e até de “ciência”) que introduzissem dúvidas nas cada vez mais evidentes nocivas consequências do consumo de tabaco, à forma como políticas/os, como é exemplo Donald Trump, têm procurado suscitá-la face aos processos democráticos dos seus países. No seu caso, abundam exemplos, desde a legitimação de grupos violentos como os Proud Boys, à frase aquando da sua aceitação da nomeação para recandidatura a Presidente na Convenção Republicana de Agosto de 2020 (“A única forma que eles [Partido Democrata] têm de nos retirar a eleição é através de eleições fraudulentas”) ou à forma como nos últimos dias pediu a “extinção da Constituição” e, mais uma vez, a anulação das eleições presidenciais de 2020. Lá, nos EUA, mas também na Europa ou até em Portugal, onde é crescente um discurso de estímulo e legitimação da desconfiança sobre pessoas, grupos, instituições e até dados oficiais, porquanto líderes partidários afirmam, por exemplo, “desconfiar da informação sobre a criminalidade que tem sido divulgada nos Relatórios Anuais de Segurança Interna” ou que “vemos, sistematicamente, a população a desconfiar destes relatórios” existindo agora “um grupo parlamentar que também desconfia destes relatórios”.
Este movimento, com exemplos históricos com décadas e de consequências nefastas para os Direitos Humanos, para o respeito por todas e por todos e para a convivência e acção conjunta dos povos face aos desafios globais, tende a legitimar a violência e a desumanização, caucionando-a e limitando as possibilidades de actuação sobre a mesma das instituições e autoridades do Estado. Ao paulatinamente desacreditarem as instituições e os pilares da vida democrática, estes movimentos e partidos pretendem espaço de crescimento e propagação do seu ideário utilizando a percepção de injustiça e da perda de qualidade de vida de algumas pessoas, o medo do desconhecido e diverso, a revolta ou o ódio à outra e ao outro. Pretendem minar a confiança, introduzindo desconfiança e questionamento de dados, da ciência, da racionalidade. Dos factos, inclusivamente.
Estes processos condicionam significativa e negativamente a saúde pública e o bem-estar das pessoas. São hoje relativamente claras as relações existentes entre a liberdade e direitos económicos, sociais e culturais e os indicadores de saúde e bem-estar das populações. Tal qual é claro que a democracia por si, ainda que suportada na capacidade de empoderamento das pessoas, se não for acompanhada de direitos humanos estruturantes como o direito à habitação, à educação de qualidade e a condições equilibradas de subsistência e de satisfação e propósito no trabalho, não resulta eficaz de igual forma.
Esta consciência, e os sinais que temos destes movimentos até em países que porventura consideraríamos a eles mais imunes (e.g. países do Norte da Europa), devem-nos motivar e impelir a uma atitude proactiva de prevenção e mitigação destes fenómenos, considerando a sua importância e o seu papel nas sociedades democráticas, de Direitos e livres. É fundamental que tal dependa, é certo, do reforço da dimensão social que toque e abarque questões fundamentais como a habitação, a precariedade e pobreza ou a educação de qualidade e trabalho digno, mas, também, outras áreas, hoje talvez ainda emergentes, mas que importa acompanhar e desenvolver. Dois exemplos.
A Finlândia introduziu no currículo das suas Escolas a literacia mediática. A invasão da Crimeia pela Federação Russa em 2014 e os níveis de desinformação e de notícias falsas particularmente significativos que se lhe seguiram, conduziram a esta alteração e a um mais intencional investimento no desenvolvimento do pensamento crítico de crianças e jovens. Juntando-se à abordagem à educação mediática, parte já antes do currículo do ensino pré-escolar e elementar, e com os impactos que sabemos que continuam das crianças/adolescentes para as suas famílias/sociedade, segundo o instituto Open Society a Finlândia é hoje o país da Europa mais resistente à desinformação. A Suécia que recentemente criou a “Agência de Defesa Psicológica”, uma estrutura pública que visa organizar e operacionalizar um conjunto de acções de protecção da sociedade democrática e livre e da formação livre de opinião, a partir da identificação, análise e combate à influência da má informação ou desinformação estrangeira direccionada à Suécia.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, existem hoje novas e crescentes ameaças às pessoas, sociedades e instituições e estes são dois exemplos concretos de como melhor nos prepararmos para os desafios do presente e do futuro. Para apoiar, também, o que a OCDE define como fundamental para o desenvolvimento da verdade, confiança e reforço da democracia: o combate à má informação e desinformação; uma maior representação e participação das pessoas na vida pública; o assumir de responsabilidades globais e a resiliência à influência externa nas sociedades; a transição verde e digital. Tudo áreas para as quais, também num processo de adaptação e reinvenção constante da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos, aproximando-as dos desafios das pessoas e sociedades, a psicologia pode e deve, a par com outras ciências e profissionais, contribuir. Tudo áreas que devemos valorizar e investir, considerando o quão fulcral é a coesão social e a possibilidade de autodeterminação de todas e todos ao bem-estar e a sociedades democráticas, de Direitos e livres.
Tiago Pereira
A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres
in Sábado (Ao redor…); 07.12.2022
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-duvida-a-literacia-e-a-defesa-psicologica-das-sociedades-democraticas-de-direitos-e-livres