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Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade Tomada de Decisão

Não há combate à pobreza sem promoção da saúde mental dos mais vulneráveis

“Não há combate à pobreza sem promoção da saúde mental dos mais vulneráveis”.

Ontem, dia da 1ª iniciativa de recolha de contributos de psicólogas/os no âmbito da campanha “.Final à Pobreza” da Ordem dos Psicólogos Portugueses (integrada nos Trilhos da Psicologia; Ilha do Pico), foi publicada uma entrevista minha no Expresso, conduzida e assim titulada pelo Bernardo Mendonça.

Nela reflectimos os contributos da psicologia para o combate à pobreza em Portugal. Desde evidência, parte dela da ciência psicológica, que apoia compressão das causas e consequências das situações de pobreza: da que confirma “a associação forte e cíclica entre problemas de saúde psicológica, nomeadamente a ansiedade, a depressão e o stresse e a precariedade, a exclusão e a pobreza”; ao impacto potencial de um “maior conhecimento e literacia de como se processam estes fenómenos” na forma como poderemos minimizar a estigmatização e culpabilização das pessoas associada a situações de pobreza”.

Abordamos, ainda, a situação da psicologia, as iniquidades e dificuldades de acesso da população (mais vulnerável) e a necessidade de que as “palavras (de decisoras/es) passem à concretização”. Discutimos (boas) práticas nesta área e o que pode ser a concretização da ideia de “não deixar ninguém para trás”. Tratamos, ainda, o papel potencial da intervenção psicológica, não apenas nos contextos de saúde, mas também em maior proximidade, das pessoas, nas comunidades, e de quem decide, na informação e apoio às políticas públicas.

Finalmente, distinguimos pobreza extrema de relativa e abordamos exemplos de como a última impõe pressão, potencial sofrimento e stresse a quem a vive – como num/a estudante do ensino superior que tem durante um período de tempo de não acompanhar a atividade letiva, por exemplo, por um problema de saúde, podem ser distintos os níveis em estudantes dependentes de bolsas de estudo, sucessivamente dependentes de resultados escolares, face a estudantes não dependentes de bolsas de estudo e como poderíamos encontrar centenas de situações ao longo da nossa vida em que um erro, uma falha, um azar, têm um impacto completamente distinto entre quem vive numa situação de pobreza, ainda que relativa, face a quem não vive nessa situação. No fundo, como a pobreza é “geradora de desigualdade e de iniquidades, pode condicionar a participação e acesso, o suporte social e a saúde e bem-estar da pessoa.”

Partilho a entrevista… Partilho o pedido de contributo no portal da campanha. Partilho, finalmente, a crença de que Portugal (e o Mundo) podem efectivamente terminar com a pobreza (particularmente a pobreza extrema), que isso depende de todas e de todos e que as psicólogas e os psicólogos podem dar um contributo decisivo.

Por “um país com mais oportunidades de autodeterminação, de florescimento e de bem-estar, logo com mais saúde mental… Por um país, portanto, com potencial de maior de equidade e coesão social e, também por isso, menos desigual.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Tomada de Decisão

Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo

“Nós, os povos das Nações Unidas”. Assim se inicia o preâmbulo e, com ele, a Carta das Nações Unidas aprovada em São Francisco fez ontem 77 anos. Dia sempre (e bem) recordado, pela sua importância, a par do 24 de Outubro, quando, também em 1945, muitos países ratificaram a Carta. Há, no entanto, uma data menos conhecida no processo cujo simbolismo me interpela: as negociações que conduziram aos 26.06 e 24.10, começaram a 25 de Abril de 1945 e, quer a Carta das Nações Unidas, quer a revolução que mudou (o regime em) Portugal, procuraram dar centralidade à equidade, à liberdade, à utilização do conhecimento (científico), à participação e ao envolvimento das pessoas.

“Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo”, 35º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como “precisamos e podemos ter cidades mais “inteligentes”, mais funcionais, responsivas às necessidades e expectativas das pessoas, mais flexíveis e inclusivas e, com elas, um Mundo melhor”. Como tal também depende de “mais pessoas e entidades da cidade se fazerem ouvir, se envolverem e se mobilizarem na discussão e construção da mudança”, do “planeamento e decisão política integrarem a ciência, o conhecimento e a melhor evidência científica disponível, incluindo a proveniente da ciência psicológica, para melhor compreensão do comportamento e dos processos de tomada de decisão das pessoas e grupos” e de “estimularmos e facilitarmos as mudanças necessárias, não as obstaculizando”, testando e pilotando soluções para os desafios. Também, “quanto mais confiarmos na mudança, na possibilidade da mudança e nos activemos para a operar”.

Mas, não podemos esquecer que mudar é difícil, sublinho no artigo. Cá, é certo, mas também noutro lugares do Mundo, onde poderíamos pensar mais simples – em Oslo, por exemplo, onde uma Associação de Comerciantes apelidou de “Muro de Berlim” um conjunto de pilaretes que tornaram maioritariamente pedonal ou de mobilidade ligeira parte significativa do centro da cidade. “Mudar é muito difícil. Vencer a resistência à mudança inerente à condição humana e a inércia (social) associada a estas alterações conceptuais na forma de organização das cidades, é sempre difícil, em qualquer lugar do Mundo, quaisquer que sejam as suas circunstâncias.”

Sublinho, ainda, que “quem habita a cidade, ao contrário de penalizar medidas “apelidadas” de ecológicas, verdes ou de transição, valoriza-as, tendo crescido o apoio a partidos, movimentos e pessoas que mais as advogam e promovem e existindo hoje mais propostas deste tipo nos programas dos diversos partidos e movimentos. Lá (na Noruega), como cá, é possível e as pessoas valorizam a mudança. Lá, como cá, país de recursos fantásticos, as boas e eficazes ideias e soluções são contagiosas. Acreditemos, confiemos e envolvamo-nos na mudança. Das nossas cidades. Do nosso Mundo”, para, conforme continua o preâmbulo da Carta das Nações Unidas, “promovermos o progresso social e a qualidade de vida com mais liberdade”.

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Comportamento Desafios da Psicologia Tomada de Decisão

Planeta Azul…

A 7 de Dezembro de 1972 o Apollo 17 saiu da órbita terrestre a caminho da Lua. Nesse dia, de costas para o Sol, a sua tripulação teve a iluminação perfeita para fazer a primeira fotografia (a cores) integral do Planeta Terra, fotografia icónica que estimulou a ideia do “Planeta Azul”. Passavam exactamente 960 dias do primeiro “dia da Terra”, quando a 22.04.1970 mais de 20 milhões de pessoas haviam respondido ao apelo do senador (e activista ambiental) Gaylord Nelson, juntando-se nas ruas para um enorme fórum nacional que Gaylord ambicionava “educativo e generalizado” aos EUA. Para alguns meios é, ainda hoje, considerada a maior manifestação de um único dia de sempre. Sendo-o ou não, originou o importante “Dia da Terra” (do Planeta Azul) que a 22 de Abril último cumpriu 50 anos.

A inscrição “colectiva” destes momentos é importante à reflexão do passado, presente e à projecção do futuro, particularmente em áreas e desafios societais em que a dimensão intergeracional de acção é fundamental – como acontece com a crise climática. Destes momentos, como parte da “construção colectiva” dos desafios e da resposta aos mesmos.

No último magazine da EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), reflicto sobre esta ideia a partir de contributos da psicologia e de duas participações minhas: a) na COP26 de Glasgow onde integrei a comitiva que representou a Global Psychology Alliance, abordando o tema dos contributos de cada país (incluindo Portugal), ciência (incluindo a psicológica) e pessoa (da e do decisor ao e à cidadã comum) a partir da ideia das partes (COP = Conferência das Partes) para a crise climática (https://efpa.magzmaker.com/march_2022/climate_change); b) na 5ª Conferência da EFPSA (European Federation of Psychology Students’​ Associations) “Breaking walls, Building bridges” (“Quebrando muros, Construindo pontes”) abordando a forma como a ciência psicológica – a par de outras áreas profissionais/científicas – podem ser parte e contribuir para as políticas sociais, a intervenção comunitária e como a compreensão do comportamento humano e da tomada de decisão é, hoje, essencial ao desenho de políticas públicas dirigidas aos principais desafios societais (https://efpa.magzmaker.com/march_2022/efpa_s_corner).

Da “impaciência” de Saramago à “insurreição” de Frei Bento Domingues contra “tudo o que está mal”, importa mobilizar todas as “partes” e usar do sentido de urgência do momento. A psicologia é parte, parte importante. A consciência (colectiva) e a inspiração também. Porque problemas complexos e sem fronteiras precisam de respostas congregadoras, transnacionais e inspiradoras… Conforme é o Dia da Terra, a foto do Planeta Azul e a missão Apollo-Soyuz que, comemorando o fim das missões Apollo (com a 17ª), teve como objectivo afirmar a relação pacífica entre EUA e URSS, com tripulações de duas naves dos “blocos” a visitaram a “outra” nave/bloco, trocando presentes, galhardetes e sementes de cada país. Congregando-se. Inspirando-se.

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Política Psicologia Tomada de Decisão

Direito a Confiar (Revista Líder – 24.01.2022)

Pensemos no dinheiro. Y. N. Harari convida-nos a pensá-lo como “o sistema mais pluralista de confiança mútua já existente”. Como, usando e mediatizando abundante conhecimento, nos convida a reflectir sobre como a nossa capacidade de relação, de abstracção e de envolvimento em torno de ideias não claramente tangíveis como a amizade, o amor, o passado e o futuro ou a ideia de comunidade nos permitiram um caminho de evolução. Foi assim ao longo de centenas de milénios, desde as primeiras e os primeiros Homo sapiens. Foi assim nos últimos séculos, com a emergência e desenvolvimento da ciência e da cultura, com forte impacto na quantidade e qualidade de vida. Foi assim nas últimas décadas, com a emergência e desenvolvimento dos direitos humanos, com forte impacto na possibilidade de bem-estar e de equidade. É-o assim hoje.

Pensemos – através da pandemia COVID-19 que ainda vivemos, mas com olhos nos complexos desafios societais que se avizinham e que incluem a crise climática e demográfica, as migrações ou a transição digital – em tudo quanto aqui nos trouxe, à sociedade como hoje a conhecemos, com o que de bom e de menos bom tem. Tudo, ciência, cultura, direitos humanos, futuro assenta nessa nossa capacidade de nos relacionarmos (e na capacidade sucessiva que temos de empatizar com outras e outros) e de abstração (e na capacidade sucessiva que temos de confiar).

A empatia influencia e é influenciada pela confiança num diálogo essencial à coesão e ao propósito das sociedades, elementos fulcrais em contexto de prolongada incerteza como o que vivemos e que resulta da convivência com uma pandemia que, além da imprevisibilidade que comporta, implicou e acelerou significativas transformações e revelou e aprofundou também significativas vulnerabilidades. A empatia e a confiança são fundamentais à adopção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais de cada pessoa e à adesão a recomendações, complementares a medidas restritivas e logo assentes no comportamento individual, como o distanciamento físico, a (boa) utilização de equipamentos de protecção individual e a vacinação. Estes comportamentos, com especial destaque para o exemplar (porque por muitos países estudado e desejado) processo de vacinação português, permitem-nos, ao dia de hoje, ser um dos países da Europa com menores medidas restritivas e que mais faz depender a resposta ao momento ainda difícil da pandemia do comportamento de cada cidadão e cidadã.

Por isso, pelo que representa e significa, não nos surpreendemos que “vacina” seja “palavra do ano”, superando a muito badalada segunda posicionada – “resiliência”. No futuro, quando recuarmos à palavra do ano de 2021, espero que lembremos quanto a confiança (nas vacinas) e o quanto a empatia e relação, por oposição à estigmatização ou exclusão (também de quem tem dúvidas legitimas sobre o processo de vacinação), foram garantes neste período de crise e pilares da coesão social. Em como estas fundamentais abstrações se concretizaram num processo complexo, que respondeu a um problema das pessoas e da sociedade.

E, se assim é na resposta à COVID-19, com os resultados cuja democrática distinção entre factos e opiniões e entre ciência e não-ciência tornam evidência, é-o também com outros desafios societais e com desafios e problemas complexos de organizações, do presente e para o futuro. Aqui, a relação, a empatia e, principalmente, a confiança são base para a concretização de projectos, programas ou acções que respondem a problemas concretos do seu dia-a-dia, como foi a necessidade de passagem ao teletrabalho ou a manutenção da actividade em período de pandemia ou são e serão os desafios da digitalização e automação, transição energética, os crescentes riscos psicossociais do trabalho, a conciliação vida pessoal-profissional e o bem-estar das pessoas.

Ser consequente com esta consideração implica que métricas que procurem aferir valor e produtividade de organizações incluam a necessidade de avaliar e validar a “abstracção” confiança como garante de capacidade de resposta a problemas e desafios e como factor diferenciador e protector no presente e de futuro. Implica, também, que a cultura organizacional verdadeiramente assuma a confiança como valor maior a defender, estimular e disseminar, não apenas, mas também, a partir das suas lideranças. Que se desenhem processos, procedimentos, construam relações e se invista (também recursos), primeira e prioritariamente com base na confiança e não na desconfiança, porque mais empoderador. Que se use do conhecimento de que as pessoas tendem a envolver-se mais no que se sentem auto-eficazes e quando sentem consequente a sua participação, criando agenciamento sobre a confiança na organização, valorizando ao invés de penalizar, quem confia e promove a confiança. Que, afinal, se entenda a confiança como um direito (de todas e todos) e não como dever (de alguns e algumas).

Se assim for – como quando investem em locais de trabalho saudáveis e na promoção do bem-estar das pessoas – as organizações estarão simultaneamente a ganhar valor, a cumprir-se, a preparar o futuro e a contribuir significativamente para a coesão social e para a equidade. E porque, como desconfiança gera desconfiança, mas confiança também gera confiança, para o desenvolvimento de outros poderosos “sistemas pluralistas de confiança mútua” como a ciência, a democracia, os direitos humanos e até a paz.

Voltemos às vacinas. Aquando do último fórum do G20, António Guterres referiu-se-lhes afirmando que “ciência está sobre ataque e a solidariedade desaparecida” pela hesitação face às mesmas e pela dificuldade da sua disseminação a todo o Mundo, sublinhando que “um surto de desconfiança e de desinformação está a polarizar as pessoas e a paralisar as sociedades”. Desinformação que Roberta Metsola, no primeiro discurso como nova presidente do Parlamento Europeu, afirma “alimentar um cinismo fácil e soluções baratas de nacionalismo, autoritarismo, proteccionismo e isolacionismo”. É, assim é, com as consequências que conhecemos.

Invistamos na confiança e no direito a confiar como recurso do país. Como um mineral precioso do tempo que vivemos, que (ainda) temos em Portugal e que escasseia e está em risco Mundo fora. Como um recurso que, porque base para parte significativa das concretizações que podem contribuir para mitigar e resolver problemas das pessoas, das organizações e das sociedades, pode ser diferenciador das nossas organizações e do nosso país, valorizando-as e valorizando-o hoje e para o futuro. Preservemos e invistamos na confiança a partir das organizações enquanto estímulo e exemplo para o país e a partir de Portugal enquanto estímulo e exemplo para o Mundo. Para o Mundo e por um Mundo que continue a evoluir e a garantir maior possibilidade de bem-estar, de equidade e de paz para todas e todos.

 

Tiago Pereira

Revista Líder

Direito a Confiar

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COVID-19 Psicologia Tomada de Decisão

“Não podemos estigmatizar os que têm dúvidas legítimas sobre as vacinas”

Alfa, Beta, Gama, Delta e, agora, Ómicron. As 5 variantes mais relevantes do vírus responsável pela pandemia que vivemos e que, pelos seus múltiplos e significativos impactos, resulta(rá) numa divisão do tempo de um Mundo pré-pandemia (antes da COVID-19), em pandemia e pós-pandemia. Variantes que confirmam, apesar de longos meses de medidas de saúde pública restritivas e de desenvolvimentos da ciência, o contexto de imprevisibilidade e de incerteza que vivemos. Ontem o Director-Geral da OMS citou Albert Camus (“A Peste”) na abertura da Assembleia Mundial da Saúde: “as pragas e as guerras continuam a surpreender-nos”. Assim era em 1947, é-o hoje e sê-lo-á no futuro.

A este propósito, em entrevista à Sábado, afirmei a necessidade da adopção de uma “postura conciliadora” com pessoas e grupos que hoje se manifestam na Europa a propósito da nova “onda” de restrições decidida por autoridades de diversos países. “Não podemos estigmatizar os que têm dúvidas legítimas sobre as vacinas”, disse, sintetizando a necessidade dessa postura conciliadora quando existem hoje muitas pessoas “que reconhecem o perigo da pandemia e até se vacinaram, mas que chegaram a um estado de saturação pandémico que as leva a demonstrarem a sua indignação” e que não “se tratam [apenas] de negacionistas”.

Na peça foco quatro aspectos que julgo essenciais na compreensão de imagens de protestos que há meses consideraríamos improváveis: a fadiga pandémica e a exaustação das restrições; a vulnerabilidade emocional e a maior irritabilidade, irascibilidade e dificuldade de autorregulação das pessoas; a baixa percepção de risco; e o aproveitamento por pessoas e grupos com objectivos políticos/ideológicos da desconfiança.

Procuro, também, reforçar a importância de investirmos na (boa) comunicação, protegendo a confiança e a coesão social, desde logo comunicação personalizada e próxima junto de quem tem dúvidas (legitimas) sobre as vacinas (e outras medidas), “não alienando ou estigmatizando essas dúvidas, sob pena de contribuirmos para maior polarização e menor adopção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais”.

Finalmente, abordo o papel das normas sociais e da observação do comportamento das outras pessoas na tomada de decisão e os riscos que se correm de, a médio e longo prazo, termos mais dificuldades na promoção da responsabilidade, vacinação e adopção de comportamentos de protecção pelas pessoas se optarmos por medidas como a vacinação obrigatória ou o vedar sem alternativa dos locais públicos às e aos não-vacinados, por oposição a medidas que procurem, empatizando e promovendo a conexão com estas pessoas, perceber as suas motivações e estimular a mudança voluntária, tendo presente que num contexto de incerteza como o que vivemos, as medidas devem considerar o presente mas também o futuro e, nesse sentido, a procura do reforço da confiança e da coesão social, principais garantes da compreensão e aceitação da necessidade de mudança quando nos deparamos com novos factos ou desafios.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia Tomada de Decisão

Personalização e compromisso – Dos partidos às políticas (Ao redor…; Sábado; 02.11.2021)

Allerweltspartei. Original alemão do vulgarizado e famoso conceito em inglês catch-all party, significa partido (político) “onde todas e todos cabem”. Tradução minha – insuficiente, mas possível – do conceito explanado em 1966 por Otto Kircheimer para descrever partidos maioritariamente surgidos pós fim da II Guerra Mundial que, pelo seu largo espectro e por serem menos ideológicos, procuravam atrair o maior número de pessoas e de eleitoras e eleitores possível assumindo-se como partidos de massas. Apesar do conceito per si ter sempre sido bastante discutido e problematizado, creio ser perceptível que um pouco por toda a Europa, e embora a ritmos diferentes, estes partidos estão actualmente em perda face ao surgimento ou crescimento de partidos políticos mais centrados em causas e mais dirigidos a grupos específicos de pessoas e de eleitoras e eleitores. Também em Portugal temos, e, previsivelmente, continuaremos a ter 9 (senão mais – no início da presente legislatura eram 10) partidos representados no Parlamento pós, as cada vez mais previsíveis, Legislativas de 2022 – algo demonstrativo da fragmentação política recente e de um caminho de progressiva transferência de votos de partidos generalistas e mais abrangentes para (mais) partidos mais assentes em singularidades, menos abrangentes e mais individualizados. Sinto relevante que no presente e para o futuro, pensemos no porquê desta fragmentação e no porquê dos “grandes” partidos políticos ficarem hoje longe das grandes maiorias do passado.

Considero que um dos fenómenos que contribui para esta situação refere-se à forma como hoje se produz, dissemina e se contacta com informação e, também nesse sentido, com a desinformação. O acesso é mais rápido e mais amplo, desafiando os limites da privacidade e, pelas suas características, tende a “enclausurar” as pessoas junto de outras pessoas que percepcionam o Mundo e os seus desafios da mesma forma. Isso é reforçador da pertença identitária a grupos, da polarização e da fragmentação. Outro fenómeno trata da enorme disponibilidade de dados e de algoritmos e ferramentas de tratamento de dados, incluindo as de aprendizagem automática que, cada vez com mais eficácia e menor custo, permitem a adequação das mensagens a dimensões cognitivas (crenças) e emocionais de cada pessoa, funcionado como “alfaiates” da informação, preparando-a e personalizando-a à medida para cada pessoa e grupo, nas suas causas (por vezes também inseguranças). Paralelamente, estes dois fenómenos promovem a mutação, mobilidade e mudança que redunda em maior volatilidade nos votos face a alguma continuidade que antes existia (até entre gerações de famílias). Resultam, também, numa quebra de confiança nas e nos políticos e nas instituições e num ambiente de “passa culpas” e julgamentos que legitimam o mal-estar próprio, impactando mais os partidos de massas. Resultam, ainda e porque reflectem normalmente questões de elevada complexidade e urgência, na procura de respostas simplistas e securizantes que estimulam a emergência de lideranças pautadas por uma ideia de providencialismo, salvíficas e populistas (bem presentes aquando de contextos de crise), ameaçando as dimensões democráticas, obstaculizando a participação de correntes divergentes dentro dos partidos e favorecendo partidos que partem da individualização, da unicidade em causas e de lideranças com perfil mais autoritário.

Os dois fenómenos que atrás descrevi e que contribuem para os desafios que se colocam aos partidos e à governação, são os mesmos que, utilizados com outro fim (o do bem-comum) poderiam, noutras áreas, produzir efeitos também significativos e impactantes na melhoria da qualidade de vida das pessoas, na sua possibilidade de bem-estar e na coesão social. Um exemplo importante seria o seu uso mais intencional e consciente para uma maior personalização das políticas públicas, contribuindo para a sua eficácia e eficiência. Aumentar a possibilidade de agenciamento das pessoas sobre os acontecimentos de vida com que se deparam e as dificuldades, desafios e vulnerabilidades momentâneas, depende de políticas públicas não abrangentes e de massas, mas personalizadas, contingentes, baseadas nas singularidades e que possam garantir mais eficácia e eficiência. Tal pode acontecer em políticas referentes a apoios sociais, à saúde, à educação. Tal pode também acontecer nas políticas de promoção de empregabilidade junto de pessoas em situação de desemprego, políticas há décadas estagnadas em modelos onde a experimentação não abunda e onde é baixa a permeabilidade ao conhecimento e à evidência científica (por exemplo não considerando as dimensões da saúde psicológica das pessoas em situação de desemprego, a motivação das trabalhadoras e trabalhadores das estruturas que prestam estes apoios / serviços ou a testagem de impactos a médio e longo prazo para melhorar definição dos apoios e incentivos à contratação disponibilizados a entidades empregadoras). Fazê-lo, pelo impacto na confiança nas instituições, seria um contributo para a mitigação de duas das consequências mais importantes acima discutida – a quebra de confiança e a emergência do providencialismo e de lideranças mais autoritárias.

Também para esse objectivo contribuiria mais participação, abertura, capacidade de integração e uma maior atitude de entendimento e compromisso entre partidos, prevenindo que a fragmentação na representação resulte na esperada instabilidade e incerteza política. Para tal é necessário, como defendem Levitsky e Ziblatt no livro “Como morrem as democracias”, prevenirmos a polarização partidária pelo respeito dos princípios democráticos e pela visão e entendimento dos e das adversárias como adversárias e não como inimigas ou inimigos, a par da não utilização dos instrumentos democráticos para fragilizar a própria democracia, fenómeno a que temos assistido em diversos países e de diversas formas. É também necessário investir na construção de espaços de entendimento e compromisso centrados na abertura, na resposta aos anseios e objectivos das pessoas. É, ainda, necessário melhorar, pelo desenvolvimento de competências que permitam entregar e receber melhor críticas construtivas e permitir que esse feedback influencie o comportamento e a tomada de decisão, os processos de negociação e discussão. Finalmente, é necessário gerar, reforçar e utilizar empatia com as e os adversários, partidos e pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, aproveitemos um certo colocar em causa dos Allerweltspartei para colocar em causa as Allerweltspolitik, políticas catch all. Se o pluralismo e a diversidade das pessoas e das sociedades ameaçam os partidos de massas, o pluralismo e diversidade das pessoas invalidam políticas de massas, incentivando-nos à sua transformação e adequação, também pelos contributos do conhecimento e da evidência científica, no sentido do reforço da sua personalização, singularização e da identificação com as pessoas suas destinatárias e das pessoas com as políticas. Personalização com criatividade, persistência e compromisso. Compromisso entre políticas públicas e pessoas. Entre partidos políticos e pessoas. Entre políticas públicas. Entre partidos. Pela confiança e pelo bem comum, defesas últimas das consequências da fragmentação e polarização das pessoas e sociedades.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 02.11.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/personalizacao-e-compromisso–dos-partidos-as-politicas

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Política Psicologia Tomada de Decisão

Personalização e compromisso – Dos partidos às políticas

Allerweltspartei. Previsivelmente, poucas e poucos conheceremos esta palavra. Original alemão do mais vulgar em inglês catch-all party, significa (tradução minha) partido (político) “onde todas e todos cabem”. Partido “de massas”. Conceito sempre problematizado, explanado por Kircheimer em 1966 para descrever partidos que, por serem de largo espectro e menos ideológicos, procuravam atrair o maior número possível de pessoas. Partidos actualmente, embora a ritmos diferentes, em perda e quebra um pouco por toda a Europa face a partidos políticos que, mais individualizados e singularizados, se centram em causas e se dirigem a grupos específicos de pessoas, originando maior fragmentação política.

“Personalização e compromisso – Dos partidos às políticas”, 19º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) reflecte sobre esta fragmentação a partir de dois fenómenos que nela considero essenciais: a forma como hoje se produz, dissemina e se contacta com informação e, nesse sentido, com desinformação; a enorme disponibilidade de dados e de algoritmos e ferramentas de tratamento de dados, que, cada vez com mais eficácia e menor custo, preparam e personalizam a informação para cada pessoa e grupo de pessoas. Procura, também, reflectir sobre o impacto destes fenómenos na maior volatilidade das votações; quebra de confiança; e na emergência de lideranças providenciais, salvíficas, populistas e de perfil mais autoritário.

Procura, depois, olhar a “outra face da moeda” e a possibilidade destes fenómenos, se utilizados com outro fim (bem-comum), produzirem efeitos também significativos mas na melhoria da qualidade de vida das pessoas, na sua possibilidade de bem-estar e na coesão social, nomeadamente se utilizados para uma maior personalização das políticas públicas, tornando-as mais contingentes, baseadas nas singularidades das pessoas e, por isso, mais eficientes e eficazes – abordo, com propostas, o exemplo das políticas de emprego estagnadas há décadas no seu modelo. Discuto, ainda, a importância de uma atitude de compromisso entre partidos, pela construção de espaços de entendimento centrados na abertura, na empatia com as pessoas e as e os adversários e no desenvolvimento de competências que permitam entregar e receber melhor críticas construtivas capazes de influenciar o comportamento, a tomada de decisão e as negociações.

Fecho apelando a que a um certo colocar em causa dos Allerweltspartei corresponda um colocar em causa das Allerweltspolitik, políticas catch all. Porque, se o pluralismo e a diversidade das pessoas e das sociedades ameaçam os partidos de massas, o pluralismo e diversidade das pessoas invalidam políticas de massas. Precisamos, de transformar e personalizar as políticas. Personalizar com criatividade, persistência e compromisso. Compromisso entre políticas públicas e pessoas. Entre partidos políticos e pessoas. Entre políticas públicas. Entre partidos. Pela confiança e pelo bem comum, defesas últimas das consequências da fragmentação e polarização das pessoas e sociedades.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Tomada de Decisão

A feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19 (Ao redor…; Sábado; 07.09.2021)

São raras as situações na nossa vida onde algo que funciona num determinado momento, contexto e com determinada pessoa ou grupo funciona igualmente noutro momento, contexto ou com outra pessoa ou grupo de pessoas. O passar dos dias mostra-nos, muitas vezes com perda e sofrimento associados, que assim é. Também é isso que nos revela estudar e compreender a ciência psicológica – não há uma “receita para todas e todos”, instrumentos de avaliação e modelos de intervenção psicológica são tão mais eficazes quanto adaptados ao momento, contexto, pessoa ou grupo de pessoas.

Devemos, pois, cuidar e atender a transferências, deduções e generalizações que podem ser abusivas e resultar inapropriadas. Devemos também e em todo o caso, procurar reflectir sobre possibilidades de transferência, dedução e generalização de situações. Um exemplo possível é pensarmos em como os modelos de intervenção psicológica em contexto de crise e na comunidade nos podem ajudar a pensar o momento social que vivemos.

Daniel Caplan foi um dos precursores daquilo a que hoje podemos chamar saúde mental comunitária, enquanto possibilidade de bem-estar e florescimento das pessoas de uma e numa determinada comunidade. Dedicou parte da sua vida à inovadora teorização de modelos preventivos associados à saúde pública e revisitou a intervenção da saúde mental comunitária, contribuindo decisivamente para que passasse a considerar o contexto imediato e se centrasse nas pessoas e na relação estabelecida com elas, promovendo não apenas a sua humanidade, mas também a sua eficácia e eficiência. Caplan é também responsável por um modelo, ainda hoje amplamente referenciado, que descreve em quatro fases o processo pessoal de reacção à crise, onde o suporte emocional surge como ferramenta fundamental de adaptação. Modelo base para outros que se lhe seguiram e que viriam a sublinhar a importância do rápido acesso das pessoas à ajuda e da intervenção ser contingente ao problema, a maior abertura à mudança da pessoa em crise ou a necessidade de exploração das possibilidades alternativas e compromisso face a elas, central a modelos actuais como o preconizado pela Organização Mundial da Saúde.

As crises individuais não são equivalentes às crises societais mas os modelos referidos dão-nos pistas que, com as devidas adaptações, podem informar a situação que vivemos hoje com a pandemia COVID-19 e as suas consequências. Sublinham a importância da prevenção, proximidade, conhecimento, relação, suporte, contingência, abertura à mudança, exploração de possibilidades e compromisso, elementos que considero fulcrais no processo de resposta à actual crise.

Elementos a que devemos acrescentar a conjugação. A ideia de que por vezes, pequenas alterações no contexto podem provocar mudanças significativas nos comportamentos e na concretização de necessidades por nós sentidas, sejam elas mais ou menos conscientes. São inúmeros os exemplos que o ilustram, desde o debate sobre o difícil desafio de saúde pública que representa o suicídio e a forma como alterações ao contexto podem apoiar a sua prevenção (veja-se os impactos resultantes da mudança do gás natural distribuído em Londres que quando passou a ser mais limpo de monóxido de carbono permitiu a redução em 1/3 dos suicídios em Inglaterra, a redução significativa dos números no Sri Lanka com a aplicação de leis restritivas ao acesso a pesticidas tóxicos ou a redução resultante da proibição dos militares jovens Israelitas “levarem” consigo armas de fogo em períodos não laborais como fins de semana ou férias)[i] ao debate sobre os fundamentos da recente proibição de venda no interior das Escolas públicas de alguns produtos alimentares, podemos aferir a importância que a conjugação tem no potencial de cumprimento de uma acção.

A aldeia, a vila e a cidade são o resultado da expressão da existência e da relação humana. São também o micro do macro dos desafios societais, onde a pobreza ganha nome, onde as pessoas em situação sem abrigo não são apenas um número, onde a crise demográfica se expressa e se sente no dia-a-dia e onde a crise climática se concretiza em fenómenos adversos pontuais e permanentes. Onde os desafios complexos do presente e do futuro, a cujos objectivos do desenvolvimento sustentável pretendem responder, viajam do papel e do abstracto para se revelarem nos territórios e no concreto das pessoas, dos grupos, dos lugares. São, neste sentido, contextos que necessitam de políticas e políticos que utilizem o conhecimento da ciência psicológica e a prática das psicólogas e dos psicólogos além dos papéis mais tradicionais da sua intervenção. As autarquias são assim espaços que beneficiam não apenas do reforço em número destes profissionais, como de uma maior amplitude do seu papel.

Ora, a conjugação da “crise COVID-19” nas suas múltiplas e amplas consequências com as eleições autárquicas deste mês permite uma importante oportunidade para, como noutro texto desta rubrica defendi (“Autárquicas 2021 – Por um Portugal de ABC”; 05.05.2021), aspirarmos a projectos das Autarquias que se centrem no bem-estar e na coesão social. São as Autarquias que melhor podem, enquanto contexto próximo das cidadãs e dos cidadãos e pelo conhecimento e relação que têm com as populações, permitir uma resposta de suporte contingente aos problemas, mais eficaz porque adaptada e mais geradora de confiança nas instituições. São elas que melhor podem, antecipando desafios e crises futuras e sendo responsivas às necessidades das pessoas, adoptar estratégias de prevenção, de desenvolvimento de competências e de resiliência individual e colectiva. São elas que melhor podem, através da exploração (e experimentação) de possibilidades, corresponder à hoje maior abertura a uma mudança que, no que se refere a estilos de vida e consumo de recursos, a crise climática que vivemos torna indispensável. São elas, finalmente, que melhor podem contribuir para um mais efectivo envolvimento e compromisso de todas e todos nos processos de definição e implementação de políticas públicas.

Defendo que este aprofundamento e que a maior amplitude da utilização do conhecimento resultem, entre outros, na possibilidade da criação de equipas / unidades de ciências comportamentais que apoiem o desenho, a testagem, a implementação e a avaliação de políticas públicas tendo em consideração a forma como as pessoas se comportam e os princípios que assistem à sua tomada de decisão, nomeadamente em políticas cujos objectivos remetam ou requeiram adesão, promoção, manutenção ou alteração de determinadas práticas ou comportamentos, do consumo de água ao absentismo ou abandono escolar precoce. Também pelo investimento na promoção da saúde psicológica enquanto factor essencial nas áreas da saúde, educação, emprego, social, trabalho, justiça, ambiente ou desporto. Ou pelo papel que a ciência psicológica pode desempenhar na promoção da literacia, seja a literacia em saúde e saúde psicológica, a digital, a financeira ou a relacionada com a (des)informação e cidadania, conhecimentos cruciais ao autocuidado, à autodeterminação e à prevenção. Ainda o papel da ciência psicológica e das psicólogas e dos psicólogos nos processos de mudança e adaptação, fundamentais num futuro que os exigirá mais e mais permanentemente e que, se trabalhados e pensados com as pessoas e não contra as pessoas, podem ser concomitantes com a promoção do bem-estar. Finalmente, nos processos de envolvimento das pessoas nos processos de tomada de decisão e planeamento, reforçando a confiança e a relação entre cidadãos, decisoras e decisores e instituições e preservando a paz, enquanto princípio basilar da possibilidade de bem-estar e florescimento individual e colectivo.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, à crise COVID-19 suceder-se-ão novas crises resultantes de um Mundo de incerteza e volatilidade crescentes e de desafios societais complexos. Mundo que em muito beneficiaria de políticas e de decisoras e decisores que façam uso da ciência psicológica e das psicólogas e dos psicólogos e que priorizem a saúde psicológica, o bem-estar e a coesão social. No passado Sábado (04.09) comemorou-se o Dia Nacional do Psicólogo em Portugal, dia que celebra cerca de 25.000 psicólogas e psicólogos que dia-a-dia se mobilizam para um importante (por vezes decisivo) papel junto das pessoas e das organizações e dia que afirma a sua prática como fundamental aos desafios que se colocam ao país, hoje e no futuro. Que a feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19 resulte em projectos políticos que considerem o seu contributo e o incentivem, para em proximidade, relação e procurando a personalização das respostas, promoverem o bem-estar e a coesão social das populações. Estou e estamos aqui, disponíveis, comprometidas e comprometidos, motivados e motivadas. Podemos e queremos contribuir no presente para o futuro do país.

 

[i] No próximo dia 10.09 assinala-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, desafio que a todas e todos convoca porque cada pessoa pode ser um agente na prevenção deste grave problema de saúde pública com forte impacto nas pessoas, famílias e comunidades. A este propósito, numa situação de crise, ligue 808242424 (Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24). Numa situação de emergência ligue 112 (INEM).

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 07.09.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-feliz-conjugacao-das-autarquicas-2021-com-a-infeliz-crise-covid-19

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COVID-19 Psicologia Tomada de Decisão

A vacinação nas e nos jovens.

“Nós, os de então, já não somos os mesmos.” Verso do poema 20 do livro “20 poemas de amor e uma canção desesperada” escrito aos 20 anos por Pablo Neruda. No dia do seu nascimento (1904) evoco-o trazendo a memória da forma como olhava a irrequietude transformadora (em certa medida utópica) da juventude, o seu potencial e a sua complexidade.

“Nós, os de então, já não somos os mesmos”, não precisamos do mesmo, da mesma forma, no mesmo momento. Entendê-lo, aceitando-o, é fundamental para compreendermos a forma como nos comportamos, relacionamos e tomamos decisões em diferentes momentos. É fundamental para compreendermos que o que necessitamos (também na promoção da adesão a determinados comportamentos) se altera ao longo da nossa vida.

Sobre isto tenho procurado reflectir. Escrevi um artigo/ensaio intitulado “Pessoas que não cumprem medidas ou medidas (e comunicação) que não cumprem as pessoas?” e contribuo, sempre que possível, em diversos fóruns, junto de decisores, de colegas e profissionais de outras áreas, e da sociedade civil, também através da comunicação social.

No Sábado foi publicada a peça da @Mariana Caeiro da agência LUSA (aqui) sobre a vacinação na população mais jovem. Nela reforço que, sendo a hesitação da vacinação um desafio complexo (1 das 10 ameaças globais à saúde segundo a OMS já pré-pandemia), Portugal é um dos países com melhores indicadores a este nível, tendo um Plano Nacional de Vacinação de referência e com impacto significativo na saúde e bem-estar da população. Conforme o é o Plano de Vacinação contra a COVID-19, também com resultados relevantes e forte impacto na população.

Em todo o caso, noto que o plano é, na sua comunicação e logística, “desaproximado dos mais jovens”, por ter sido essencialmente desenhado para faixas etárias mais prioritárias, sugerindo que procuremos: 1) prevenir a sua complacência, lembrando benefícios para todas e todos do processo mas também os impactos no presente – por ex. os “custos” de um isolamento profilático no Verão e do que isso implica para esta faixa etária em termos de sofrimento psicológico; 2) promover a conveniência, aproximando a comunicação (clara,  personalizada e pensada também para redes sociais) e a logística dos espaços, saindo com segurança dos pavilhões e utilizando espaços associados ao seu bem-estar (de encontro, lazer e iniciativas), usando da experiência de sucesso das campanhas nas áreas das doenças sexualmente transmissíveis ou consumos; 3) promover a confiança no processo sendo essencial “não só que toda a gente seja vacinada, mas que toda a gente queira ser vacinada, confiando que isso é o melhor”.

Tudo, confiando (mais uma vez), nas autoridades e nos e nas jovens. “Empatizando ao invés de [embarcando] num discurso negativo”, em nada gerador de confiança (ainda outra vez), adesão às recomendações ou coesão.

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Psicologia Tecnologia Tomada de Decisão

Ética, Psicologia e Tecnologia em 3 Harris

Ed Harris – Actor que, pelas feições e pela voz, dificilmente esquecemos. Não creio possível que quem viu tenha ficado indiferente a como interpretou e realizou o filme Pollock onde nos mostra o pintor referência do expressionismo abstracto e autor do “A chave” que aqui partilho. O abstracto, tão empolgante na arte, não pode ser trazido para o contexto das novas tecnologias e isso é uma das chaves para a ética nas e das mesmas.

Sydney J. Harris – Jornalista e Escritor, afirmou que o real “perigo não era que os computadores começassem a pensar como seres humanos mas que estes viessem a pensar como computadores”. Uso-o para, dizendo-o de outra forma, me associar à defesa de que toda a nova tecnologia deve considerar, em desenvolvimento e implementação, os seus impactos nas pessoas e na sociedade. Afirmo-o alertando para a necessidade de uma atitude ética neste processo e para o contributo da ciência psicológica na mesma e faço-o num momento especialmente relevante porque o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida passou a ter como Conselheiro o Miguel Ricou, representando a Ordem dos Psicólogos Portugueses e as psicólogas e psicólogos portugueses.

Tristan Harris – Co-fundou e dirige o Centro de Tecnologia Humana e reflecte sobre os impactos de uma tecnologia que “nos conhece melhor do que nos conhecemos a nós próprios”. Quando assim é, a Psicologia é fulcral. Digo-o eu e di-lo a psicóloga A.Sethumadhavan que na Microsoft dirige uma unidade centrada na experiência dos Utilizadores, IA,Ética e Sociedade. Recentemente explicava como a sua Unidade trabalha para garantir que, no desenvolvimento de novos produtos, são considerados 6 pilares éticos (inclusão, justiça, privacidade/segurança, transparência, confiança e prestação de contas), dando exemplos de como trabalhava não apenas questões importantíssimas (mas hoje mais óbvias) relacionadas com dimensões sociais e culturais, mas também aspectos relacionados com a personalidade. Explicava como, por ex., tratavam o binómio extroversão/introversão das utilizadoras e utilizadores, não apenas numa dimensão de literacia e desmistificação de preconceitos junto das equipas (nomeadamente a valorização normalmente atribuída à extroversão – a este propósito leia-se o excelente artigo da Raquel Raimundo | https://www.publico.pt/2021/05/06/impar/noticia/extrovertido-nao-qualidade-introvertido-nao-defeito-1961095), mas como investigavam formas de tornar a tecnologia mais inclusiva de pessoas mais introvertidas, garantindo maior responsividade dos produtos ao maior tempo de reflexão para reacção que necessitam face às e aos mais extrovertidas.

Um exemplo apenas de um amplo conjunto de conhecimento e de evidência científica que pode ser mobilizada para junto das equipas que desenvolvem/implementam novas tecnologias e que, quem sabe, pode ser “chave” para uma tecnologia mais ética e responsiva às pessoas e por isso mais promotora de bem-estar e coesão social.