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Emergência Climática Psicologia Tomada de Decisão

Evitar.

Evitar.

Harari defende que devemos conhecer a história não para prever o futuro mas para, com “a libertação do passado”, sermos mais capazes de “imaginar destinos alternativos”. Assume que isso, não significando “liberdade total” (por não podermos evitar a influência do passado) é, ainda assim, muito importante.

Evitar (ou não) o que existiu, existe e existirá ocupa-nos enquanto pessoas e sociedade bastando pensar hoje em Portugal a discussão do passado colonial, a COVID-19 ou a crise climática.

Sustein no seu último livro (Averting Catastrophe) debate uma potencial teoria da decisão para catástrofes a partir de contributos da ciência psicológica e dos conhecidos desconhecimentos e dos ainda desconhecidos desconhecimentos. Reflecte sobre o maximin e em que circunstâncias devemos procurar eliminar o pior dos piores cenários, o seu custo e como enviesamentos (ex optimismo) e heurísticas (disponibilidade) influenciam decisões, sempre partindo de que potencialmente não viveríamos (pessoas) ou decidiríamos (sociedade) se procurássemos, sempre, eliminar o pior dos piores cenários.

Como não podemos evitar a influência do passado, não podemos evitar a influência de como tomamos decisões no presente/futuro. Num e noutro caso reconheçamo-lo para imaginar e construir destinos alternativos.

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Psicologia Tomada de Decisão

Escolher.

Escolher.

Vivemos (n)um Mundo de complexidade crescente com mais informação, actividades, produtos, estudos, desafios, artigos, reflexões, comentários.

A cada dia mais possibilidade de escolha, necessidade de escolher e rapidez na informação/confirmação das escolhas, porém:
1) a escolha “infinita”, pela paralisia que provoca ou pela insatisfação associada à escolha vs potenciais outras escolhas, não aumenta o bem-estar, defendendo B. Schwartz que algumas escolhas o provocam mais do que nenhuma ou muitas escolhas possíveis;
2) reforça o “paradoxo do omnívoro” definido por C. Fischer como a incerteza que a possibilidade de escolha introduz na alimentação e o contrassenso de co-existir com pessoas que não têm recursos/condições para escolher… Por vezes para se alimentar.

Escolher “melhor”, como K. Lewin defendeu na década de 1930, pode depender de ousarmos ir além da “força” e, quando forças puxam para lados opostos, não colocar mais força num dos lados mas remover as barreiras que nos impedem de chegar a um dos lados. A uma escolha.

Sendo desafiante, é bom escolher. Usar da possibilidade e da liberdade para, com responsabilidade, escolher. Escolher e, eventualmente, errar, falhar.

Acreditando na possibilidade de reparação. Acreditando, como Beckett, que falharemos melhor depois.

 

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Ao redor... (Revista Sábado) Política Psicologia Tomada de Decisão

É uma casa! (para as ciências comportamentais) (Ao redor; Sábado; 23.03.2021)

Passava das 23 horas da quarta-feira dia 10 de Outubro de 2018 quando, junto a uma das casas do projecto “É uma casa”, se acordou a reunião da segunda-feira seguinte em que se concretizaria e operacionalizaria uma proposta apresentada pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) ao Secretário de Estado Adjunto e da Saúde (SEAS) para a criação de um programa nacional que, a partir dos contributos das ciências comportamentais, pudesse estudar, monitorizar e testar propostas para a melhoria das políticas públicas de saúde em Portugal.

O SEAS associou-se nesse dia à OPP numa visita à “Crescer” para assinalar o dia Mundial da Saúde Mental e a relevância e custo-efectividade de políticas públicas de promoção da intervenção comunitária de proximidade junto da população com maiores vulnerabilidades neste âmbito. Nesse final de tarde e noite, conhecemos 3 projectos da Associação com o director executivo (Américo Nave) e diferentes técnicas/os da sua empenhada equipa, parte das/os quais psicólogas/os: “É uma rua” que acompanha em proximidade pessoas que consomem substâncias lícitas e ilícitas e que se encontram em situações de extrema vulnerabilidade; “Marhaba” que promove a inclusão social e comunitária de população refugiada através da gastronomia; “É uma casa”, projecto de housing first que promove a inclusão de pessoas em situação sem abrigo, contribuindo para a erradicação das situações crónicas de sem abrigo.

“Só uma casa o permite”. Foi depois de visitarmos uma das então 34 casas deste projecto – onde havíamos ouvido que “ao início, não conseguia dormir deitado na cama do meu novo quarto” e a explicação “viva” que “quase 14 anos de rua são quase 14 anos de necessidade de vigilância constante e de impossibilidade de segurança” – que se acordou a reunião da segunda-feira seguinte. Acontece que – como também quase 14 anos antes quando a OPP esteve a dias de ser criada e tal só aconteceu 3 anos depois (2008) pela dissolução da Assembleia da República (2005) – na manhã desse domingo (14.10.2018) foi anunciada uma remodelação no Governo e a substituição do então Ministro da Saúde. Com a sua saída, saiu o SEAS e, também neste tema ficávamos a dias de algo que, curiosamente, também apenas 3 anos depois aconteceria pela insistentemente proposta e apenas recentemente constituída (Despacho 3027/2021) task force de ciências comportamentais aplicada ao contexto da pandemia de COVID-19. Conforme nos fora dito, “só uma casa o permite”.

É certo que daquele Outubro ao actual Março não distam apenas 850 dias. Naquele Outubro, mesmo quem tivesse visto o hoje mediático vídeo de 2015 de Bil Gates (“O próximo surto – Não estamos preparados”), não preveria que vivêssemos hoje há mais de um ano numa pandemia com impactos múltiplos e significativos (incluindo já mais de 2.700.000 mortes no Mundo e mais de 16.700 em Portugal) na qual o comportamento das pessoas assume um papel fundamental. Hoje é mais claro, para decisoras/es e não apenas, a importância de estudar e compreender quais os factores que influenciam a tomada de decisão e o comportamento das pessoas e quão relevante para apoiar a tomada de decisão e o desenho de políticas podem ser indicadores desta natureza, bem como testar as melhores abordagens que favoreçam, facilitem e removam obstáculos da população à adopção de comportamentos que vão muito além da hoje indispensável correcta utilização da máscara ou da toma da vacina de inoculação do vírus que provoca a COVID-19. O SEAS reconhecia-a já em 2018 e talvez isso ajude a compreender porque o Centro Hospitalar de São João, a cujo conselho de administração hoje preside, seja apontado como exemplo na resposta à pandemia em Portugal, tenha um Serviço (autónomo) de Psicologia – superiormente coordenado pelo Eduardo Carqueja e exemplo na resposta aos utentes e profissionais (incluindo os de saúde) nesta grave crise – ou desenvolva hoje um inovador projecto piloto que permite a existência em permanência de um/a psicóloga/o no Serviço de Urgência, tão importante na estabilização emocional e comunicação com utentes e cuidadoras/es nos episódios de urgência.

A visão da importância das ciências comportamentais era já então (2018) partilhada por um conjunto de actores da sociedade civil. A OPP tinha constituído um think tank com psicólogas/os e outros profissionais para reflectir sobre as possibilidades da sua utilização em diferentes contextos e desafios da sociedade portuguesa e organizou já em 2019, com a Fundação Calouste Gulbenkian e com a Secretaria de Estado da Modernização Administrativa, um workshop para dirigentes de diferentes áreas da administração pública sobre benefícios e formas de utilização deste conhecimento. Alguns exemplos em Portugal de uma realidade que crescia e percorria o Mundo, desde a equipa que trabalhou a partir de 2009 na administração Obama, às equipas da Comissão Europeia e Banco Mundial, passando pela Behavioral Insights (BI) Team, inicialmente ligada ao governo britânico, a cuja equipa pertence o António Silva que connosco dinamizou esse workshop e que havia conhecido em 2017 na Sede desta equipa em Londres. A BI Team era (é ainda) um dos principais exemplos da utilização deste conhecimento em colaborações com governos e administrações em áreas como a Educação, Emprego ou Saúde e países como a Austrália, Canadá ou UK mas também em projectos de prevenção da corrupção na Colômbia, Nigéria ou Tanzânia ou de promoção da credibilidade das eleições no Bangladesh, apenas para dar alguns exemplos concretos de milhares de intervenções desta equipa Mundo fora que em 10 anos estimam, pela promoção da eficácia nas políticas públicas, impactos de cerca de 6 mil milhões de libras (“6 unicórnios”). Intervenções normalmente simples, cientificamente sólidas, testadas antes de escaladas, que contribuíram no Reino Unido para a redução de consumos de energia, prevenção do insucesso escolar ou das faltas a consultas agendadas, três exemplos claros de áreas em que em Portugal poderíamos melhorar significativamente com pequenos e muito custo-efectivos investimentos a partir da experiência e conhecimento das ciências comportamentais.

Conhecimento que – quando utilizado no melhor interesse e, portanto, quando promotor da autodeterminação das pessoas e comunidades (for good) e não sob a forma de “engenharia social”, conforme por vezes se pretende utilizar – é uma poderosa e muito estudada ferramenta para melhorar o envolvimento dos cidadãos e a qualidade das políticas públicas. A criação em Portugal desta task force e a nomeação de uma equipa competente e motivada (que bem conheço e a quem desejo felicidades) para disponibilizar este conhecimento de forma planeada e organizada aos decisores é, a par do aumento da importância da literacia em saúde psicológica, do reforço das/os psicólogas/os nas Escolas e da criação do Serviço de Aconselhamento Psicológico na Linha SNS24, uma excelente notícia neste ano tão carregado de desafios e dificuldades. Uma boa notícia no presente e para futuro porque “é uma casa” para as ciências comportamentais. Uma casa, segura, sustentável, sem retrocesso… Porque, aqui e ali, no Mundo ao redor, existem hoje e no futuro desafios societais complexos onde o comportamento é essencial. Para lhes responderemos necessitaremos de decisoras/es mais informados pelas ciências comportamentais, particularmente a ciência psicológica, e de políticas (públicas) eficientes, eficazes e responsivas às pessoas, geradoras de confiança e promotoras da equidade, bem-estar e da coesão social.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 23.03.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/e-uma-casa-para-as-ciencias-comportamentais

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Behavioural Insights Comportamento Política Psicologia Tomada de Decisão

Comportamento. Tomada de decisão. Futuro? [Challenges of Government Conference 2019]

“Parabéns pelo dia sem Escola!”

Foi este o primeiro cumprimento que Kate Forbes, Ministra das Finanças Públicas e Economia Digital do Governo da Escócia, recebeu de um membro do Parlamento Escocês quando assumiu funções como Ministra. Tinha 28 anos e ali sentiu aquilo que já sabia. Que sendo jovem (e mulher) teria que mostrar sempre mais (provar) para ser respeitada naquelas funções.

Ao lado de Syed Saddiq, 26 anos, Ministro da Juventude e do Desporto da Malásia, foi este o primeiro estímulo que Kate Forbes deu a quem como eu e o meu colega Duarte Zoio teve oportunidade de participar na Challenges of Government Conference 2019 promovida pela Blavatnik School of Government da Universidade de Oxford para reflectir sobre as novas gerações, as políticas de envolvimento e o papel das/os jovens, hoje, nas (e fora das) instituições governamentais.

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Batool Asadi considera que “não é nada de mais” ser a primeira mulher Assistant Comissier no Paquistão, sublinhando sentir que tem atributos que não apenas ser mulher. Sim, tem. Mas, é claramente algo, ‘algo de mais’. É um ponto de viragem. Um ponto de viragem, como o que estamos a começar a discutir relativo à forma de governo e à acção nos principais desafios societais que enfrentamos, onde o comportamento e a tomada de decisão são chave para o futuro. Onde a identidade, a sua procura e a sua construção são fundamentais. Mas de que futuro falamos quando…

“No meu país há 1 milhão de novos jovens a entrar no mercado de trabalho a cada mês.”

Dizia no mesmo painel, Snigdha Poonam. 12 milhões de novos jovens trabalhadores a cada ano nesse país (mundo) que é hoje a Índia, com mais de 1300 milhões de habitantes e que se estima que a partir de 2022 passe a ser o país com mais habitantes do Mundo, ultrapassando a China.

Como pensar a identidade num mundo em mudança? Num mundo crescentemente impactado pela tecnologia, onde num ano se guardam tantos bits de dados quantos grãos de areia existem em todas as praias do mundo (estima-se que 1 elevado a 22)? Num mundo crescentemente impactado com ´novos nacionalismos´ e ´tribalismos´? Num mundo em que países antes liderantes parecem ter encontrado ´novos muros´, também no que se refere aos tradicionais indicadores de desenvolvimento, nomeadamente económicos (salário médio não sobe nos EUA desde os anos 70) ou de saúde (a esperança média de vida nos homens nos dos EUA desceu nos últimos três anos, com um contributo significativo das doenças crónicas, do consumo de drogas e do suicídio).

Mas, e o que esperar da juventude e das novas gerações?

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Peter Frankopan autor do “The new silk roads” trouxe-nos pistas para pensar nesta questão ao reflectir sobre o papel das/os jovens ao longo da história, desde os antigos impérios construídos por jovens “que correram riscos” (pensemos em Júlio César, por exemplo), aos não tão antigos ´impérios´ também eles em muito dependentes de jovens (as médias de idades dos participantes no congresso Bolchevique em 1917, no congresso que lançou o partido Nazi Alemão ou dos recrutados pelo ISIS são todas inferiores a 30 anos). E pensando na contemporaneidade, em que parte da inovação e da irreverência juvenil se concentra em Silicon Valley, poderemos reflectir como a norma social de comportamento das/os jovens tem moldado o futuro e como o poderá fazer também ao nível da governação e dos seus modelos.

“E quando tudo parece impossível?”

Perguntou uma jovem do Zimbabwe a Chuka Umunna membro do parlamento e candidato pelos LibDems às próximas eleições no Reino Unido, onde o Brexit mais de três anos após o referendo se mantém como tema de debate (único). Quando olhamos para a estrutura da administração pública do Zimbabwe e não encontramos espaço para a mudança… Espaço para a esperança, espaço para jovens como ela?

“Ask yourself what is possible!”

Havia já respondido, antes, Yemi Babington-Ashaye defendendo que devem as/os jovens, em qualquer circunstância, assumir sempre a sua “representação” ainda que numa perspectiva incremental como forma de ultrapassar esta crise de representação.

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A Challenges of Government Conference 2019, dedicada às novas gerações, foi em mim ainda mais impactante pelo ambiente próximo, amigável, ‘aceitante’ de todas/os criado à volta da conferência pela Dean da Blavatnik School of Government Ngaire Woods e sua equipa. Um ambiente, até certo ponto, contrastante com a polarizada sociedade em que vivemos, mesmo no Reino Unido. Durante o curioso continental breakfast organizado para discutir o Brexit no segundo dia da conferência foi mostrada esta imagem…

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…que mostra bem como se polarizou a sociedade e como Londres parece uma ilha no Reino Unido (continental, neste gráfico). E, dentro ou fora das instituições, as/os jovens devem comprometer-se numa mobilização para aproximar e não extremar, não estigmatizando, antes valorizando a diferença e as diferenças.

Envolvimento, identidade, juventude, norma social, crise de representação, mobilização para aproximar e não extremar… Pistas para pensar o presente e o futuro, a juntar ao papel das ciências comportamentais (do comportamento e da tomada de decisão) para o futuro… Para o futuro do(s) governo(s) e das pessoas que os fazem. Porque, vivemos um ponto de viragem.

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Um ponto de viragem como foi a marcha de Selma a Montgomery, também percorrida por Martin Luther King cujo imaginário nos recorda que o (‘bom’, permitam-me) poder não nos é dado, é (por Nós, permitam-me também) conquistado. E assim sendo…