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Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia Tomada de Decisão

o medo persistente de que o declínio seja inevitável…

Temos de nos mobilizar contra o “medo persistente de que o declínio seja inevitável e da próxima geração ter que diminuir as suas aspirações”. Assim o disse Obama, no seu discurso de tomada de posse para o seu primeiro mandato, em Janeiro de 2009.

Era, apesar de tudo, um Mundo diferente do de hoje. Mas este receio pairava nos EUA. Pairava numa parte significativa do Mundo. Receio que, ao invés de haver diminuído, provavelmente se agudizou com os desafios que se colocaram aos países e ao Mundo no período que dista daquele discurso a hoje, mais particularmente nesta terceira década deste nosso século XXI.

Por cá estávamos entre a publicação da Lei que criara a Ordem dos Psicólogos Portugueses em 4 de Setembro de 2008 e a nomeação da sua comissão instaladora que aconteceria, apenas, em Abril de 2009. Com ela, e com o contributo de tantas e tantos psicólogos, houve também a afirmação (e um reconhecimento e valorização) da psicologia, enquanto ciência e prática fundamental no apoio às pessoas, particularmente em situações de maior vulnerabilidade e/ou sofrimento e enquanto ciência e conhecimento fundamental ao desenho de políticas (públicas) e ao contributo para transformações sociais fundamentais à possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação. Fundamentais à equidade e coesão social.

Este relevante caminho, e a perspectiva de que se possa continuar e aprofundar, motiva-me e, mesmo perante desafios significativos na sociedade, anima-me no presente e para o futuro. Como me anima o compromisso da EFPSA (European Federation of Psychology Students’​ Associations) com este propósito, expresso, por exemplo, em duas iniciativas para as quais dei um singelo contributo há meses e há dias:

a) A “Call to Action – Students Building Community Psychology”, que advoga por mais sensibilização e formação das e dos estudantes de psicologia na Europa na área da Psicologia Social e Comunitária e para contributos da psicologia nos principais desafios societais | http://efpsa.org/wp-content/uploads/2022/08/Call_to_Action_Paper_EFPSA.pdf

b) O seu 37º Congresso cujo tema “Information is transformation: Unravelling Psychology’s role in policy-making” [Informação é transformação: Desvendando o papel da psicologia no desenho de políticas (públicas)], onde os contributos da psicologia na área da pobreza e da exclusão foram discutidos e onde tive oportunidade de voltar a estar e discutir com o inspirador Eldar Shafir.

Temos de nos mobilizar contra o “medo persistente de que o declínio seja inevitável… Disse-o Obama, há 14 anos. Dizemo-lo hoje, juntos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Política Psicologia Tomada de Decisão

Habitação, Saúde e Bem-estar e Democracia

A habitação “é, hoje, uma preocupação central e transversal da sociedade portuguesa, da população mais jovem à menos jovem e não apenas das pessoas e famílias com menores rendimentos.” A crise da habitação relaciona-se “com outros importantes desafios do país, que vão desde a crise demográfica e de natalidade à dificuldade de colocação de diferentes profissionais ou fixação de populações em algumas cidades, das migrações à saúde mental, do ensino superior aos problemas da solidão e isolamento.” É assim fundamental “ampliarmos a relevância do tema na sociedade e mobilizarmos participação cívica e contributos da sociedade civil e compromissos de decisores sobre as dificuldades e desafios nesta matéria.”

“Habitação, Saúde e Bem-estar e Democracia”, 55º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado; link abaixo) aborda o quão central a habitação é nas nossas vidas, considerando que nela vivemos parte significativa dos 80 a 90% de tempo de vida que se estima que passemos em ambientes construídos. É um dos “factores principais na análise do bem-estar das pessoas e dos países” e elemento-chave aos sentimentos de pertença, privacidade, segurança, identidade e de suporte social essenciais à qualidade de vida. É, ainda, fulcral nas dimensões da saúde e da saúde mental, porquanto as “más condições habitacionais aumentam consideravelmente a probabilidade de mortalidade precoce a níveis próximos de doenças como a hipertensão ou a obesidade” e a instabilidade ou precariedade habitacional, “com a pressão dos valores das rendas, ausência de controlo e impossibilidade de personalização da casa-lar, estão relacionadas com problemas como o stresse, a ansiedade e a depressão.”

O artigo propõe “que o debate que decorre na sociedade seja mais cientificamente informado, incluindo pela ciência psicológica, e que proporcione mais insight, literacia (…) e agência neste tema”. Que se “reforcem e complementem outros programas existentes de recuperação e reparação do edificado, minimizando constrangimentos que impactam a saúde e (…) se apoiem pessoas e famílias, particularmente também quando em processos de transição”. Ainda, que se criem condições, e também se necessário apoios mais substanciais, para acesso à “habitação inicial” para a população jovem e um estímulo a soluções que se adaptem a novas necessidades de maior alteração, mobilidade e migração (incluindo interna), nomeadamente de co-living (viver “conjuntamente”) e co-working (trabalhar “conjuntamente”). Finalmente que se associem medidas na área da habitação à promoção de competências transversais nas pessoas e, quando necessário, de suporte emocional e apoio psicológico, permitindo maior resiliência em períodos de maior incerteza e instabilidade.

Hoje, “investir na habitação é mais que investir no edificado. É e será investir nas pessoas e nas famílias, no nosso SNS, na nossa Segurança Social, na nossa Economia. É e será investir na equidade, na coesão social, na Democracia e, portanto, no nosso futuro.”

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Ao redor... (Revista Sábado) COVID-19 Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia Tomada de Decisão

COVID-19, 20, 21, 22, 23, … (Ao redor…; 20.03.2023)

Acordamos um dia para, tão somente, mais um dia como tantos outros na nossa vida. Mas eis que algo significativo nele sucede e o terminamos a sentir que o Mundo desabou. Sei que sabem do que escrevo. Já o sentimos, certamente. É que, ao contrário das transformações positivas na nossa vida, normalmente incrementais, morosas e sem “uma data”, há mudanças e/ou perdas bruscas que decorrem de um acontecimento muitas vezes imprevisto, datado. Com dia, hora e até local.

E, se assim é com cada uma e um de nós, assim é com o Mundo e com o que dele nos chega, particularmente via comunicação social e redes sociais. Como a prosperidade e as melhorias não têm, normalmente, data e não se compadecem com a actualidade do dia-a-dia, chega-nos, desequilibradamente, mais informação sobre acontecimentos negativos súbitos que processamos e integramos, também, através de mecanismos de generalização e considerando e focando mais a nossa atenção em factos ou aspectos negativos face a positivos, algo que configura o apelidado “viés da negatividade”.

Tudo isto ajuda a explicar porque nos é tão simples de evocar ou ter presente datas de acontecimentos negativos significativos. Como recordamos onde estávamos, por vezes até o que estávamos a fazer, quando soubemos dos atentados nos Estados Unidos da América em 11 de Setembro de 2001 ou dos incêndios de 15 de Outubro de 2017 em Portugal. Como recordamos as datas relativas aos primeiros casos confirmados, à primeira morte ou ao primeiro dever de recolhimento obrigatório em Portugal em virtude da COVID-19 em 2020.

Passaram três anos e recordo cada um destes momentos, colectivos, e um outro, muito próximo. Sexta-feira, 13 de Março de 2020, dia da criação do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses e dia em que fui nomeado seu coordenador. Sabia e sabíamos, por essa altura, que algo significativo aí viria, mas era-me e era-nos, creio, impossível nesse momento perspectivar claramente os múltiplos impactos que a pandemia teria no Mundo, em Portugal e em cada uma e um de nós. Nessa altura e, em bom rigor, talvez ainda hoje na sua totalidade.

Nos três anos que decorreram entre esse dia e a passada segunda-feira 13 de Março, dia em que terminou a estrutura do gabinete de crise e em que, formalmente, deixei as funções de seu coordenador, muito mudou. No Mundo, onde se interrompeu a descida progressiva da percentagem de pessoas com fome e em pobreza extrema. Em Portugal, onde assistimos a uma diminuição da esperança média de vida à nascença, algo que já não sucedia desde 1996, e onde a COVID-19 irrompeu como responsável por entre 5 e 10% das mortes totais nos anos de 2020, 2021 (o pior, com 9,6%) e 2022, num total de mais de mais de 26.000 mortes a que se junta um número indeterminado, mas muito significativo, de complicações sucessivas e/ou doenças agravadas na população. Onde, também por isto, pela crise socioeconómica decorrente da pandemia e pelas fortes restrições e alterações aos padrões de vida, aumentou consideravelmente o sofrimento psicológico e, em alguns casos e particularmente junto de grupos populacionais em situação de maior vulnerabilidade, aumentou a prevalência de dificuldades de saúde mental ou mesmo de doença mental, particularmente associadas ao stresse, à ansiedade e à depressão. Onde, ainda e por muito relevante, muitas crianças e jovens, também particularmente em situação de maior vulnerabilidade, viram impactados e prejudicados os seus percursos escolares e educativos em virtude do encerramento das Escolas e de outras actividades, com perdas significativas e de exigente (para alguns, impossível) recuperação. Perdas que agravam a já de si grave crise na área da saúde mental da população mais jovem, não apenas resultante da pandemia, manifesta, por exemplo, nos dados que demonstram o aumento do mal-estar (físico e psicológico), da insatisfação com a vida e dos comportamentos auto lesivos.

Finalmente, a pandemia impactou significativamente o bem-estar de forma geral. Hoje mesmo, Dia Internacional da Felicidade, a Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas publicou o relatório da felicidade mundial (2020-2022) onde Portugal mantém o 56º lugar, 22 lugares abaixo do 34º de 2019, numa análise que engloba as dimensões do rendimento disponível, do apoio social, da esperança de vida com saúde, da liberdade, generosidade e da percepção da corrupção, todas directa ou indirectamente influenciadas pela pandemia.

Pandemia que, mais que transformar, acelerou mudanças “sem data” e enfatizou iniquidades e vulnerabilidades. Mudanças na forma de comunicar, de aprender ou de trabalhar. Mudanças na ciência e na utilização do seu conhecimento, por exemplo na produção de vacinas. Mudanças no reconhecimento da importância da literacia em saúde e em ciência ou da prevenção do obscurantismo e da desinformação. No reconhecimento, ainda, da importância da confiança nos sistemas e em decisores e mediadores, incluindo jornalistas e profissionais de saúde. Enfatizou que “não estamos todas e todos no mesmo barco”, tal qual trouxe mais certeza da incerteza, das vulnerabilidades das pessoas e sistemas e de futuras crises de saúde pública.

Pandemia que, também mais que transformar, tornou mais consciente a importância da saúde mental, particularmente da população mais jovem, e da resiliência de pessoas e comunidades. Reforçou a necessidade de mitigar a precariedade, a pobreza e a exclusão social, promovendo a coesão social e factores protecores. A necessidade de reforçar a equidade, a proximidade e a contingência do apoio na área da saúde mental e de priorizar a possibilidade e a oportunidade de bem-estar para todas as pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a pandemia juntou, por via das funções que assumi, o enorme desafio pessoal de adaptação à realidade que impôs ao meu maior desafio profissional. Trouxe-me desafio, mas envolvimento, comprometimento e propósito ao que foi o meu contributo, pequeníssima parte do contributo maior (será ainda maior em futuras crises) da ciência psicológica e, particularmente, das psicólogas e psicólogos junto de pessoas, organizações e no apoio à tomada de decisão. “…viu-o lá fora, na viela, por trás da cerca alta. Um homem possante, um gigante escondido por trás da cerca de um metro e oitenta, a pá despontando de tempo a tempos, devolvendo a neve ao céu”, excerto do “A primavera há-de chegar, Bandini”. Primavera que chega hoje. Oportunidade para “devolvermos a neve ao céu” e de nos mobilizarmos para que a “Primavera” chegue a e para todas as pessoas.

Tiago Pereira

COVID-19, 20, 21, 22, 23, …

in Sábado (Ao redor…); 20.03.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/covid-19-20-21-22-23-

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Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia Tomada de Decisão

A habitação… A habitação…

 

“É um princípio. É uma sensatez. É uma saúde.” Assim termina um texto de Miguel Esteves Cardoso sobre o debate público em curso em torno da habitação. Assim começou, também, a minha primeira intervenção na iniciativa “Os problemas da Habitação e do Arrendamento”, promovida pela Associação dos Inquilinos Lisboneses, onde debati, sob moderação da jornalista Filomena Lança, com o Francisco Louçã, o Gonçalo Antunes e a Sónia Alves.

Um princípio, considerando que a habitação (e o acesso à habitação) é hoje uma preocupação central e transversal da sociedade portuguesa, dizendo respeito a todas as pessoas e famílias, e não apenas a uma determinada faixa etária ou àquelas com rendimentos mais baixos.

Uma sensatez, considerando que as pessoas passam até 90% do seu dia em média em ambientes construídos (a maioria desse tempo em casa) e os riscos para a saúde (e saúde mental) e bem-estar associados aos lugares onde se vive.

Uma saúde, considerando a importância da previsibilidade, do controlo e da segurança para a saúde mental e bem-estar e a forma como as carências habitacionais, desde logo, e a instabilidade/precariedade habitacional impactam a saúde física e mental (particularmente questões associadas ao stresse, ansiedade e depressão), bem como penalizam processos de transição e adaptação em situações de adversidade ou aquando de acontecimentos de vida significativos.

Tal como havia referido em conversa com a @Helena Lins para uma recente reportagem da CNN Portugal, também neste debate procurei afirmar como o desafio da habitação se relaciona com outros desafios do país, nomeadamente a crise demográfica, a precariedade, pobreza e exclusão, as migrações ou, até, os significativos problemas de saúde pública associados ao isolamento/solidão e aos problemas de saúde mental. Tal qual procurei reflectir sobre como investir em habitação é, de certa forma, investir e melhorar a sustentabilidade de diversos serviços/sistemas da área da saúde, à segurança social, passando pelas áreas da educação, formação e emprego.

Ontem na Assembleia da República e hoje em Conselho de Ministros, Deputadas/os e Governo, aprova(ra)m medidas no âmbito da Habitação e do programa Mais Habitação. Que quem tem a responsabilidade de decidir o tenha em consideração e pense a habitação de forma ampla, nas suas fortes relações com a saúde (e saúde mental) e bem-estar e em como é essencial à dignidade, à possibilidade de desenvolvimento pessoal e autodeterminação das pessoas. Como é importante a uma sociedade mais coesa e de oportunidades para todas e todos.

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Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia Tomada de Decisão

Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais

“Não há atribuições colectivas de culpa em Portugal, Senhor Deputado”. A generalização induz que experiências ou conhecimentos focados ou limitados sobre um determinado tema sejam processadas como se referindo ao total das situações, influenciando a tomada de decisão e conduzindo a erros e ao reforço de estereótipos e preconceitos” (…) Já a heurística da disponibilidade explica porque percebemos como mais provável um acontecimento se tivermos presente um evento semelhante próximo e porque tantos debates são autorreferenciados (…) A desconfiança está associada aos conflitos sociais, à diminuição da participação social e pública e à falta de coesão social.

“Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais”, 53º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) discute como tantas vezes são estes os “princípios-chave na reflexão sobre a criação, revisão ou regulamentação de Leis. “O peso que um “caso” tem na percepção de que tudo é igual, que “algo que nos aconteceu” ou que “conhecemos” tem na nossa percepção de uma situação/problema e que a desconfiança impõe, prejudicam gravemente o debate público e a construção de soluções legislativas mais simples, ágeis, responsivas e personalizadas.”

“Temo-lo assistido em diversas situações. Voltamos a assistir no debate em torno da proposta de alteração ao Regime Jurídico das Ordens Profissionais. Muitas e muitos dos que critica(ra)m o Sr. Deputado (e bem!) pela permanente generalização e atribuição de culpas colectivas debatem as Ordens Profissionais em Portugal usando da generalização e tratando 20 Ordens muito diferentes como se tudo e todas fossem iguais.”

Estes princípios limitam o debate público e limitaram-nos neste processo em específico. “Permitiriam que se reflectisse mais profundamente a mais-valia das comissões responsáveis pela avaliação dos estágios profissionais serem constituídas, também, por elementos externos à profissão, sem experiência profissional (…) Que limita e discrimina docentes que realizam actividades enquanto psicólogas/os ao prever que o órgão de supervisão, agora proposto, seja constituído por “40% de membros oriundos dos estabelecimentos de ensino superior que habilitem academicamente o acesso à profissão organizada em associação pública profissional, não inscritos na associação profissional” (…) Que é incoerente ao não prever melhores condições, incluindo a possibilidade da mediação ética para algumas situações, para o Conselho Jurisdicionional, nomeadamente a possibilidade de remuneração ou de um regime de faltas justificadas.”

“…É a identificação de particularidades, os dados de qualidade e escrutínio e a confiança mútua que abre espaço ao diálogo e à cooperação, que promove solidariedade e o respeito pelas especificidades e que estimula o envolvimento cívico e político. É a confiança mútua que permite a construção de mais eficazes soluções para os mais complexos problemas.”

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III Encontro Psicólogos na Administração Local

Comecemos pelo Capitólio. Ali voltei ontem, 3 anos e alguns dias depois de a 16.02.20, para um concerto, o último a que assisti pré-pandemia. Mal sabia. Mal sabíamos com toda a amplitude o que aí viria.

Mas voltei, voltamos, para o III Encontro dos Psicólogos da Administração Local, co-organização da Câmara Municipal de Lisboa e da Ordem dos Psicólogos Portugueses, ponto de encontro, partilha, reflexão e debate de psicólogas e psicólogos das autarquias de todo o país. Voltamos, e o que mudou das edições de 2017 e 2019, com (cada vez) mais psicólogas/os a darem o seu contributo (incluindo mais psicólogas/os júnior) nas estruturas/projectos das autarquias, a partilharem práticas no âmbito do prémio de boas práticas e, não menos relevante, com papéis cada vez mais amplos e diversos, incluindo as/os com posições de liderança e decisão.

Mas, de repente (por uma alteração de última hora, última hora mesmo), ali estava eu e o Gabriel Soares (um dos mentores, com a sua equipa, da iniciativa e que mais se tem a ela dedicado; Obrigado, Gabriel) para procurar estimular a reflexão sobre como pode a psicologia e as psicólogas e psicólogos contribuir para a promoção do bem-estar a partir das autarquias. Para pensar o nosso papel:

a) No desenvolvimento de ciência, a partir da psicologia, que permita afirmar a importância da promoção do bem-estar e o que pode ou não funcionar (what works?) para mediar a “tensão” entre os espaços que idealizamos para viver (com verde e azul, sem ruídos de transportes, com encontro e conexão, com tempo, …) e as cidades actuais;

b) Na advocacia para que a promoção da saúde (mental) e do bem-estar possa verdadeiramente ser prioridade das autarquias e possa ser aspiração das e dos munícipes, valorizando projectos de “cidade” nela centrados e usando do capital social para os influenciar;

c) Nas respostas de proximidade considerando que é nos territórios que os desafios societais (pobreza, migrações, insucesso/abandono escolar, …) ganham nome e história de vida e onde mais eficazes intervenções junto das pessoas e na transformação dos determinantes sociais da saúde e do bem-estar podem acontecer;

d) Na disseminação do conhecimento da psicologia nas diversas áreas da sociedade, no apoio à tomada de decisão e, porque não, com mais psicólogas e psicólogos em posições de responsabilidade, liderança e tomada de decisão.

Volto ao Capitólio porque também me recorda o que aconteceu no dos EUA. Faço-o para, como também disse, partilhar que é a possibilidade de bem-estar de todas e todos e a coesão social que dela resulta que mais nos protege da deterioração da confiança nas instituições, nas outras e outros e na democracia. Que mais nos protege de emoções como a raiva ou o ódio serem dominantes no espaço público e na política, num ciclo que inevitavelmente conduzirá a mais violência e a menor equidade, possibilidade de autodeterminação e de uma vida plena, de bem-estar.

Oxalá vos tenha feito sentido. Para mim foi um gosto. Obrigado.

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Sexta-Feira, 24 de Fevereiro – Dia da não-naturalização

Passam agora umas horas desse momento. Recordo-o, por tão marcante. Era madrugada, escrevia como escrevo agora, mas naquele momento com a televisão ligada. Via, em rigor ouvia, a CNN. Um repórter comentava a precipitação de acontecimentos dos últimos anos, meses, emanas, dias. Horas até numa vertiginosa aceleração que… trouxe uma Guerra ampla na Europa. Uma Guerra que vi começar em directo, com o início dos bombardeamentos a Kyiv naquele preciso momento, com o repórter a procurar abrigar-se, colocar capacete, depois mudar de lugar naquele topo de hotel de onde fazia o directo mas, quase sempre, em directo e sem o interromper… O directo de uma Guerra que um ano depois não mostra sinais de ser interrompida.

“Sexta-Feira, 24 de Fevereiro – Dia da não-naturalização”, 52 º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) procura recordar que hoje se cumprem dois aniversários muito relevantes para pensamos a Europa e o Mundo: nove anos do afastamento forçado do governador de Sevastopol (…) concretizando o início da ocupação da Crimeia; Um ano do início da segunda fase de invasão da Ucrânia pela Federação Russa (…) e de uma Guerra que desrespeita o direito internacional e os direitos humanos. De uma Guerra que muito desafia. Mas, como em quase tudo, de uma Guerra que corre o risco de ser naturalizada.

A compreensão do nosso comportamento e da forma como ele é influenciado pelo contexto determina a necessidade de que o investimento na construção da paz seja permanente. Tal qual determina termos presentes que, sim, o passado pode encontrar formas de se repetir, particularmente quando muitos acreditamos no contrário, a partir exactamente da nossa baixa percepção de risco, geradora de menor envolvimento na preservação das instituições, da civilidade e da paz. Ainda, determina que tenhamos presente que tendemos a naturalizar quase todas as condições humanas, incluindo a Guerra, pelo que activa e empenhadamente temos de o contrariar, não aceitando e não compactuando com as violações de direitos que a mesma comporta.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, talvez seja importante lembrarmos Erasmo de Roterdão que, viajante e construtor de pontes entre povos, escreveu há mais de 500 anos no seu “A Guerra e a queixa da Paz” que se “formássemos um cálculo justo do custo da guerra e o da busca da paz, veríamos que a paz pode ser comprada a um décimo do custo dos cuidados, labores, problemas, perigos, despesas e sangue envolvidos numa guerra.” Buscar a paz era, é e será sempre o caminho que nos aproxima da convivência entre povos e de um Mundo melhor. Lutemos por ela, pelas ucranianas e ucranianos. Por todas e todos nós.

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Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas” (Sábado; Ao redor…; 11.01.2023)

A semana começou com incríveis imagens do Brasil. Dois anos e dois dias depois da invasão do Capitólio por apoiantes de Trump, e com o início de uma Guerra na Europa pelo meio, uma nova invasão das instituições democráticas, agora por apoiantes de Bolsonaro. Dois anos e dois dias e três acontecimentos que desafiam o “fim da história” de Francis Fukuyama, um pretenso não retorno de um caminho de afirmação e generalização das democracias liberais e de impossibilidade de grandes conflitos ideológicos ou transformações históricas.

“Afirmações extraordinárias necessitam de evidências extraordinárias”. Popularizada por Carl Sagan, esta expressão ajuda-nos a reflectir a improbabilidade de um pretenso fim da história, particularmente quando a ciência, a tecnologia e o que se passa ao nosso redor criam constantemente diferentes cenários e alterações à realidade vigente. Ciência esta proveniente de disciplinas que contribuem para a resolução de problemas de elevada complexidade, cada vez mais diluída entre diferentes áreas e com maior reconhecimento de uma parte da sociedade civil e de decisoras e decisores. Uma parte.

É assim com a psicologia com a particularidade de, simultaneamente, contribuir para a compreensão do porquê do “não fim da história” e do conhecimento científico ser apenas legitimado por parte das pessoas e dos decisores e decisoras. A este propósito, reflictamos sobre três exemplos de como os avanços da ciência psicológica questionam algumas “ideias feitas” e como, não raras vezes, esse questionamento não é aceite por todas e todos em simultâneo ou como a mudança pode ser complexa e/ou polarizadora.

“Uma palmada não faz mal a ninguém.” Uma das grandes mudanças societais das últimas décadas resulta da condenação ampla e quase generalizada das várias formas de violência sobre as crianças. Porém, persiste em algumas franjas da população, a perspectiva de que uma “palmada” não provoca qualquer dano, mantendo-se estas práticas enraizadas em diversos países conforme, por exemplo, a UNICEF vem estudando e sublinhando. Nada mais errado. Além da inutilidade e da ineficácia desta acção no sentido da promoção da mudança comportamental (ao não contribuir para a interiorização e inscrição das regras), existem perigos significativos que resultam da utilização da punição física ou de castigos corporais ao invés de acções de disciplina e parentalidade seguras ou positivas. Efeitos negativos que incluem o perigo do aumento, escalada e banalização da agressividade, violência e dos comportamentos anti-sociais, a não aprendizagem do comportamento esperado e a legitimação da violência de grupos sobre outros. Ainda, dificuldades de aprendizagem, auto-regulação e de desenvolvimento de competências cognitivas, sociais e emocionais (no presente e futuro), além de consequências no bem-estar, segurança (também afectiva) e saúde, incluindo saúde mental.

“As palavras não contam, apenas os actos” e “não há racismo estrutural (em Portugal)”. Passa este mês dez anos sobre a publicação, por um hoje deputado à Assembleia da República, do livro “O colonialismo nunca existiu!”. Alguém que assim o defende, junto com colegas de partido que negam também a existência de racismo estrutural em Portugal, desconsiderando factos concretos e estudos de opinião ou barómetros, incluindo os da União Europeia e legitimando, politicamente, esta negação e as suas consequências. As palavras contam. Contam muito. Contavam no final do século XIX, quando se descreveu a drapetomania, uma suposta doença mental responsável, imagine-se, pelo facto de algumas e alguns escravos procurarem fugir da sua condição, algo que, segundo Cartwright, apenas poderia suceder com pessoas em escravidão não saudáveis. Contavam no século XX onde me e nos pediam que pintássemos com “lápis cor de pele”. Contam hoje, na terceira década do século XXI, onde se procuram utilizar expressões como a “ideologia de género” para desconsiderar, denegrir ou ilegitimar condições, pretensões ou direitos de pessoas. Há hoje ampla investigação que demonstra que e como as palavras e expressões podem reforçar e perpetuar cognições ou crenças que influenciam as nossas tomadas de decisões, formação de opiniões e comportamentos. O racismo estrutural existe, em Portugal e no Mundo. Dificilmente esquecerei um estudo que demonstra como nos EUA ser “branco” parece proteger mais da violência policial do que ser um/a menor. Este como outros estudos, em diferentes áreas e países, tornam clara a sua existência, as suas consequências sociais e o seu impacto em dimensões de saúde e bem-estar. Tornam claro como funciona como factor de risco/vulnerabilidade e, potencialmente, de exclusão de pessoas e grupos.

“Os seres humanos são animais racionais”. Desde há quase 2400 anos e de Aristóteles que esta expressão é parte do nosso imaginário. No entanto, a ciência tem demonstrado as suas insuficiências, porquanto é hoje claro que a nossa racionalidade é tendencialmente guiada pelas nossas motivações e emoções e limitada pelos nossos pontos de vista, opiniões e vieses. Ainda que a racionalidade seja fundamental, até porque podemos sempre raciocinar sobre a própria irracionalidade, devemos ter presente que somos “animais racionais não a tempo inteiro”. Que temos falências, vieses. Que cometemos erros e que existem individualmente ou em grupo, momentos e movimentos onde a racionalidade é condicionada por pensamentos, emoções ou influências sociais ou de grupo que condicionam, senão determinam, as nossas tomadas de decisão e comportamentos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a história não tem fim. Mudanças sociais e económicas, hoje particularmente aceleradas e impulsionadas pelos avanços na ciência e na tecnologia, não permitem o fim da história, como não permitem “ideias feitas” como verdades absolutas e intemporais. Não permitem, também, considerarmos permanentemente adquiridas conquistas diversas como a democracia ou os Direitos Humanos ou que é impossível a repetição de acontecimentos ou eventos que julgaríamos jamais repetíveis. Como a história, a ciência também não tem fim e a ciência psicológica deve assumir-se como credível e com respostas, contribuindo para compreendermos o porquê de assim ser, como enquanto seres humanos nos comportamos e tomamos decisões e que é fundamental combater activamente a pseudociência, as fake news ou as teorias da conspiração. Contribuindo, simultaneamente, para transformações pessoais e sociais no sentido da maior possibilidade de saúde e bem-estar e autodeterminação de cada pessoa e para equidade e coesão na sociedade. Para mais e maior cumprimento dos Direitos Humanos e para a promoção e protecção da democracia.

 

Tiago Pereira

Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas”

in Sábado (Ao redor…); 11.01.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/nem-fim-da-historia-nem-fim-da-ciencia-o-contributo-da-psicologia-e-tres-ideias-feitas

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Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia Tomada de Decisão

Prevenção (e Promoção)

Recuemos a Novembro de 2018. Apesar do Brexit já ter sido votado, o Reino Unido ainda discutia os termos da sua saída da UE. Boris Johnson ainda não era primeiro-ministro, enquanto Trump presidia os EUA. Não imaginávamos, nos quatro anos que se lhe seguiriam, uma pandemia próxima, uma guerra na Europa e uma crise de inflação e sócio-económica.

Nessa data o Departamento de Saúde e Segurança Social do UK, estrutura de apoio ao governo, publicava o relatório “Prevention is better than cure – Our vision to help you live well for longer” [numa tradução possível: Prevenir é melhor que curar – A nossa visão para a/o ajudar a viver bem por mais tempo].

No sumário executivo do documento destaca-se a necessidade “de priorizar a prevenção e o combate a importantes determinantes da saúde e do bem-estar” [da pobreza à obesidade; da habitação à solidão] e o objectivo de, até 2035, se “viverem pelo menos mais cinco anos extra de uma vida saudável e independente” e de se “diminuir o fosso entre pessoas mais ricas e mais pobres”. Mais, define-se prevenção enquanto o apoio às pessoas no sentido de se manterem “saudáveis, felizes e independentes pelo maior tempo possível”, reduzindo “a possibilidade de emergência de problemas, primeiro, e, quando surgem, apoiar as pessoas na gestão efectiva dos mesmos”. Termina dizendo que a prevenção “é tão importante aos 70 quanto aos 7 anos”.

Por múltiplas e diversas razões (talvez a principal, o quão tarde a ciência psicológica e as e os psicólogos puderam dar o seu contributo ao nosso país), e apesar do caminho percorrido nos últimos anos, a psicologia é ainda, frequentemente, associada a dimensões de intervenção iminentemente remediativas. Ora, enquanto ciência que estuda o comportamento, a tomada de decisão e o que os determina, a psicologia é fundamental nos processos de prevenção e promoção ao longo da vida, nos múltiplos contextos de desenvolvimento e na compreensão e intervenção nos desafios societais e determinantes de saúde e bem-estar.

Isso mesmo é afirmado e sublinhado no regulamento n.º 15/2023, que “aprova o regulamento interno que define os atos dos psicólogos”. No seu artigo 6.º (“Atos dos psicólogos”) a alínea b) refere “As atividades técnico-científicas de intervenção psicológica, incluindo de promoção e prevenção, nos diversos contextos relativos a indivíduos, grupos, organizações e comunidades”.

Uma, mais uma, forma de inscrever este importantíssimo papel das psicólogas e dos psicólogos, a par de outros. Uma, mais uma, forma de informar, clarificar e reforçar o contributo específico da ciência psicológica e das e dos psicólogos para as pessoas e a sociedade.

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Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas

No Domingo voltamos a espantar-nos. “Dois anos e dois dias depois da invasão do Capitólio por apoiantes de Trump, e com o início de uma Guerra na Europa pelo meio, uma nova invasão das instituições democráticas, agora por apoiantes de Bolsonaro. Dois anos e dois dias e três acontecimentos que desafiam o “fim da história” de Francis Fukuyama, um pretenso não retorno de um caminho de afirmação e generalização das democracias liberais e de impossibilidade de grandes conflitos ideológicos ou transformações históricas.”

“Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas”, 49º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa a particularidade da psicologia, simultaneamente, “contribuir para a compreensão do porquê do “não fim da história” e do conhecimento científico ser apenas legitimado por parte das pessoas e dos decisores e decisoras”.

Fá-lo, também, a partir de “três exemplos [detalhados e reflectidos no texto] de como os avanços da ciência psicológica questionam algumas “ideias feitas” e como, não raras vezes, esse questionamento não é aceite por todas e todos em simultâneo ou como a mudança pode ser complexa e/ou polarizadora”:

  1. “Uma palmada não faz mal a ninguém”;
  2. “As palavras não contam, apenas os actos” e “não há racismo estrutural (em Portugal)”;
  3. “Os seres humanos são animais racionais”.

As “mudanças sociais e económicas, hoje particularmente aceleradas e impulsionadas pelos avanços na ciência e na tecnologia, não permitem o fim da história, como não permitem “ideias feitas” como verdades absolutas e intemporais. Não permitem, também, considerarmos permanentemente adquiridas conquistas diversas como a democracia ou os Direitos Humanos ou que é impossível a repetição de acontecimentos ou eventos que julgaríamos jamais repetíveis.

Como a história, “a ciência também não tem fim e a ciência psicológica deve assumir-se como credível e com respostas (…) deve combater activamente a pseudociência, as fake news ou as teorias da conspiração e contribuir para transformações pessoais e sociais no sentido da maior possibilidade de saúde e bem-estar e autodeterminação de cada pessoa e para equidade e coesão na sociedade. Para mais e maior cumprimento dos Direitos Humanos e para a promoção e protecção da democracia.”