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O jogo instantâneo (“raspadinha”) e Portugal

Certamente já vimos crianças, animadamente, a jogar com familiares. Já vimos, em estabelecimentos, fotocópias gigantes de prémios tão relevantes quanto excepcionais, chamarizes da atenção que complementa o boca-a-boca do prémio “grande” que, muito quando em vez, lá sai no bairro, na aldeia, na cidade. Todas e todos conhecemos quem jogue, sabemos de quem jogue com regularidade e, possivelmente, de alguém “dependente” das lotarias instantâneas. Da raspadinha.

De 1995 aos dias de hoje, este jogo tornou-se um fenómeno cultural de acesso praticamente generalizado, naturalizado e muito simples. Tornou-se, também, por isso e pelas suas características “aditivas”, um problema para muitas pessoas. Não deixa de ser curioso que uma das múltiplas modalidades deste jogo seja o “100X” quando um muito importante estudo, promovido pelo @Conselho Económico e Social, estima serem cerca de 100 mil as pessoas que apresentam problemas relacionados com este tipo de jogo e 30 mil as que apresentam doença instalada, nomeadamente “perturbação de jogo patológico”.

Mas mais, este jogo, também pelas suas singularidades e forma de disponibilização, nomeadamente pelos canais de venda, impacta negativa e desproporcionalmente as pessoas com mais baixos rendimentos e níveis de escolaridade e que apresentam problemas associados à saúde mental, nomeadamente stresse, ansiedade e/ou depressão.

Sobre estas questões, sobre o enquadramento do fenómeno deste jogo e sobre as iniquidades que espelha, procurei disponibilizar o meu contributo e reflexão. Também sobre o que podemos fazer para, com os dados do estudo e com a evidência científica sobre o comportamento humano e tomada de decisão, regular de outra forma o funcionamento do jogo, protegendo as pessoas, nomeadamente acrescentando a possibilidade de autoexclusão, limitação de valores mensais de jogo ou de limites temporais que previnam comportamentos mais emocionais e “compulsivos”. Foquei, ainda, o quão paradoxal é a facilidade de acesso ao jogo, particularmente por pessoas com determinadas vulnerabilidades, quando comparada com a dificuldade de obterem apoio psicológico e social ou o facto de quem, em Portugal, promove (e como o promove) este jogo.

Fi-lo na Antena Aberta da @Antena 1 (a partir dos 24m15s), na @Rádio Renascença, na @CNN Portugal e no @Correio da Manhã.

Fi-lo como contributo para que este jogo não seja um “Tesouro da selva”, curiosamente outra das suas múltiplas modalidades, sobretudo para a parte da população que vive situações que mais potencialmente as privam da possibilidade de bem-estar.

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A confiança, uma vez mais…

Quem por aqui me vai acompanhando sabe-me fascinado por pormenores e pelo simbólico. O não tangível que partilhamos e aquilo em que precisamos de acreditar, juntos, para que exista. Da democracia ao dinheiro passando pelas instituições, é o facto de acreditarmos (ou não) neles que os (des)legitima e lhes dá (ou não) valor.

Nesse acreditar, a confiança é essencial. Confiança que vai sendo desafiada, ora pela quebra dos mediadores formais no acesso à (des)informação na sociedade contemporânea, ora por pessoas, organizadas ou não, com fins políticos ou económicos.

Quem por aqui me vai acompanhando sabe também que julgo que a confiança (em nós, nas/os outras/os e nas instituições) é um valor essencial a promover e preservar porque influencia a nossa possibilidade de bem-estar e a coesão social. Sabe, ainda, que defendo que acompanhemos as tendências da confiança da população, como fonte de informação sobre os factores que as determinam e para a tomada de decisão informada.

Nesse sentido, numa equipa coordenada pelo Miguel Ricou e que envolveu na 1ª fase a Sílvia Marina, a Helena Patrícia Pereira e o Ricardo Picoli e depois o Hugo Rodrigues Fernandes, promovemos dois pequenos estudos acerca da confiança em grupos profissionais no período da pandemia por COVID-19. O 1º publicado em Março de 2021 [COVID-19 Pandemic: Effect on Confidence Levels of Portuguese Towards People of Different Professions]. O 2º há dias [Trends in trust of professional groups in Portugal during COVID-19].

Neles encontramos resultados que apontam para o aumento da confiança em grupos profissionais cuja actividade se baseia na ciência neste período, particularmente, em médicas/os, enfermeiras/ou e investigadoras/es, e uma tendência contrária em jornalistas e decisoras/es políticas/os, algo que, creio, merece reflexão.

“Em 1964 73% das/os Republicanas/os dizia confiar que o governo federal faria o melhor sempre ou quase sempre. Hoje esse número desceu para 9%. Podemos ver a mesma tendência para os media, as Escolas ou Universidades públicas ou as vacinas. Não podemos compreender o Partido Republicano hoje sem compreender o colapso total da confiança nas instituições”, dizem-nos a abrir uma conversa com Katharine Ham’s sobre a “rampa deslizante” para a desconfiança nos EUA.

Ouço-o e evoco o Cormac McCarthy que no seu “A Estrada” tratou a confiança máxima entre pai e filho num contexto de desconfiança máxima, num Mundo pós-apocalíptico, com a civilização e as suas bases em colapso. Nele escreveu: “Tu tens de carregar o fogo. | Eu não sei como. | Sim, sabes sim. | O fogo é real? | O fogo? Sim, é. | Onde está? Eu não sei onde está. | Sim, sabes. Está dentro de ti. Sempre esteve lá. Eu consigo vê-lo.”

A confiança está dentro de nós. Que a carreguemos e que façamos, juntos, por a ver e nela acreditar.

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Desenrascanço

Estamos a horas do último fim de semana de Julho. Há dias escrevi aqui sobre como, uma certa quebra de rotina neste período, nos pode permitir “activarmo-nos para procurarmos mais quem e o que nos rodeia”, sugerindo falarmos e interagirmos com pessoas que nos são desconhecidas. Volto hoje, mas para reflectir sobre como podemos pensar o que nos rodeia, sejam objectos ou comportamentos, nos seus detalhes, histórias e “funções”.

Sobre como podemos, a partir dessas descobertas, pensar no que move ou não a nossa resposta a problemas, da inércia à força colectiva das comunidades, sempre na relação da ou das pessoas com o espaço e com desafios.

Deixo-vos um estímulo. Usem 4 dos vossos minutos e sintam o pequeno vídeo da Joana Astolfi para a Monocle que partilho. Visa, com uma beleza invulgar, também resultado de uma simplicidade conjugada com intensidade e intencionalidade, apresentar ao Mundo uma forma de resolver problemas que tendemos a atribuir/ver em Portugal: o desenrascanço.

Esse “desprender-se da rede” expandido ao “desprender-se do problema”, de forma simples e “esperta”, com os recursos à nossa volta, não raras vezes criativamente, não raras vezes sob a forma de improviso. A Joana Astolfi mostra-nos e mostra-se num expoente do desenrascanço, o Cais Palafitico da Carrasqueira, local que muito gosto e gostamos e que vos convido a visitar. Mostra-nos, também, na abertura de uma cerveja e recorda-me quando na construção civil brincávamos dizendo (e testando) que a esponja era a única “ferramenta” com a qual não era possível abrir.

Fá-lo lembrando-nos, porém, que o desenrascanço tem tanto de bom e belo como pode ter de menos bom, por menos rigoroso.

Se olharmos com atenção à nossa vamos vê-lo muitas vezes. No espaço, na sua utilização. Nos detalhes. No comportamento das pessoas. A “abordagem de última hora” como lhe chama a Joana Astolfi, por oposição a um planeamento atempado e rigoroso, que procura preparar potenciais problemas com planos a, b e c. O “português MacGyver”, por oposição a um potencial português Hippodamus de Miletus.

Mas belo, sempre belo. E mais belo quando o desenrascanço contempla a/o outra/o e o cuidado e impacto com ela/e. Quando comtempla uma ideia de colectivo, de equidade e de sustentabilidade, também ambiental, com o que se encontra ao nosso redor. Quando foca uma ideia de promoção do bem-estar individual, mas, também, colectivo, presente, mas, também, futuro, considerando gerações vindouras. Quando acontece, mais livremente e seguro, por as respostas aos problemas/desafios mais estruturais estarem asseguradas, essas sim, na antítese do desenrançando. No planeamento, no rigor, na ciência.

É essa conjugação que tornará o nosso país ainda mais belo, ainda mais delicioso nos detalhes. Façamos por isso, mas, porque disso precisamos também para que para isso possamos contribuir, olhemos à volta e “deixemo-nos surpreender”. Dizia-o, também, há dias antes de terminar como volto a terminar: “No geral, fará e far-nos-á bem.”

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Pobreza e desigualdades (ECP2023)

Quando estou fora de Portugal, num país onde compreendo a língua, alargo a rotina de “olhar” as primeiras páginas dos principais jornais portugueses aos principais jornais do país onde estou. Assim o fiz na passada semana com os jornais do Reino Unido e, apesar do momento que vivemos, apesar dos problemas sociais e económicos que a Europa enfrenta e em semana de comemoração do 75º aniversário de um @NHS (SNS do UK) particularmente desafiado na sua sustentabilidade, não vi as palavras “pobreza” ou “desigualdades” nessas primeiras páginas, mesmo quando fundamentais nestas questões.

Continuamos a falar desproporcionalmente muito pouco de pobreza e de iniquidades face ao quanto são determinantes da saúde (incluindo saúde mental), da educação e do bem-estar. Fazêmo-lo porque enquanto sociedade, erradamente, tendemos a olhar estes problemas como problemas das pessoas que vivem em situação de pobreza ou em risco de pobreza e não como problemas de todas as pessoas, ao perigarem a coesão social e impactarem toda a sociedade. Fazêmo-lo enquanto sociedade e, também de certa forma, enquanto psicólogas/os, quando pensamos apenas estes problemas como parte do “problema”/”circunstância” de um/a cliente específica/o e não enquanto problemas macro, sempre e necessariamente presentes na sociedade.

Assim comecei a minha intervenção inicial no Main Stage Event “Poverty and inequalities and the impact of these on mental health” [Pobreza e iniquidades e seus impactos na saúde mental] do 18º Congresso Europeu de Psicologia, um interessante debate com Bridgette Ricketts, Philip Murphy e Germán Gutiérrez, presidente da IUPsyS, moderado pelo @Jon Sutton.

No dia seguinte, procurei aprofundar este tema no meu Keynote no congresso: “Multiple contributions of psychology to a “Full Stop to Poverty” – The role of psychological science, practice and professional associations” [“Múltiplos contributos para um “.Final à Pobreza” – O papel da ciência e da prática psicológica e das suas associações profissionais”]. Discuti-o na sua centralidade para a psicologia e nos contributos da ciência e da prática das/os psicólogas/os para a sua compreensão e erradicação, a par do papel particularmente importante das associações profissionais no estímulo a que isto possa acontecer.

A fechar, e a partir de uma questão da @Claudia Hammond que me acompanhou no Keynote, afirmei o quão poderá ser diferenciador ter 27.000 psicólogas/os em Portugal nos níveis mais micro (contextos de intervenção profissional) e cívicos (contextos de cidadania) a contribuírem para o aumento de literacia da população e sociedade sobre este tema, para a advocacia no mesmo e para (a necessidade de) intervenções baseadas na evidência e na transferência da ciência para as políticas locais, regionais e nacionais. Mais, o quão poderá ser transformador se aos 27.000 juntarmos, criando comunidade e mobilizando, centenas de milhares na Europa e no Mundo a contribuírem para um .Final à Pobreza.

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European Congress of Psychology 2023

É. Vivemos uma “Era de Paradoxos”. Possivelmente o tempo histórico com mais recursos disponíveis, mas, ao mesmo tempo, desigualdades significativas, grandes (e graves) problemas de saúde mental na população e ameaças críticas à possibilidade de bem-estar de todas as pessoas.

Na próxima semana, com orgulho, mas, principalmente, com sentido de responsabilidade e missão serei um dos Keynote Speakers do 18th European Congress of Psychology (https://ecp2023.eu/scientific-programme/keynote-speakers/).

Responsabilidade e missão, pela temática fundamental da intervenção versar a pobreza e ser, desta forma, focada, destacada e reflectida no congresso a partir da comunicação que intitulei de “Multiple contributions of psychology to a “Full Stop to Poverty” – The role of psychological science, practice and professional associations” [“Múltiplos contributos para um “.Final à Pobreza” – O papel da ciência e da prática psicológica e das suas associações profissionais”] e que será moderada pela Claudia Hammond.

Responsabilidade e missão, também, porque permitirá apresentar um projecto que procura reunir um triângulo que creio virtuoso (ciência, prática, associação profissional), procurando um contributo mais assertivo e decisivo da psicologia, nas suas diversas áreas, públicos e contextos de intervenção, para o “combate à pobreza” e para a promoção da saúde, bem-estar e coesão social nesta “Era de Paradoxos”.

Responsabilidade e missão, ainda, porque reflicitirá uma visão para a profissão à escala nacional e global, enquanto ciência hub e prática transversal, capaz de positivamente influenciar outras ciências e práticas e, com elas, colaborar na prossecução da resposta a desafios societais de enorme complexidade, que necessitam de empenho e envolvimento conjunto do micro ao macro.

Responsabilidade e missão, finalmente, porque assentará numa visão do papel de uma associação pública profissional (Ordem dos Psicólogos Portugueses) activa e participativa, que procura estimular, suportar e afirmar o contributo das/os psicólogas/os para os que são os mais relevantes desafios do nosso país e Mundo, particularmente quando tão significativamente impactam a vida das pessoas. Quando condicionam (tão cruelmente), como a pobreza e a exclusão a ela associada o fazem, a dignidade, a saúde (incluindo a saúde mental), o bem-estar e a autodeterminação das pessoas, além da coesão social e prosperidade da sociedade e do Mundo.

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A lã e a neve…

Ferreira de Castro viveu apenas dois meses após o 25 de Abril de 1974. A sua biografia informa, destacando, a sua participação no célebre primeiro 1º de Maio pós-25 de Abril e retenho-me nesse momento, quando o penso a partir do livro “A Lã e a Neve”, que publicou quase 30 anos antes desse dia e que, felizmente, foi recentemente reeditado pela Cavalo de Ferro.

“…Nos olhos do qual ele adivinhava, também, uma nuvem de tristeza.” Uma nuvem de tristeza, mas não apenas, percorre o livro que trata, ficcionada, mas não totalmente, a pobreza de Portugal no período próximo da II Guerra Mundial. Uma pobreza entre a Serra da Estrela (Manteigas, em particular) e a Covilhã. Uma pobreza a partir de um trabalho permanente, constante, entre a pastorícia, as casas, o campo e as fábricas, particularmente as tecelagens, da região. Uma pobreza que coarta a dignidade, que impacta a saúde e a saúde mental, que impossibilita uma ideia mínima de bem-estar, de (auto)cuidado. Uma pobreza que se reproduz, cíclica e socialmente, e que acompanha o desamparo de tudo e de todas as pessoas que, ao mínimo “abalo” ou acontecimento imprevisto, pessoal ou social, treme. Uma pobreza, nuvem de tristeza. Permanente.

80 anos depois, aquela região é bem diferente. O país, a Europa, o Mundo, são bem diferentes. Apesar disso, e com formas de expressão e dimensão (felizmente) distintas, a pobreza e os seus impactos permanece na vida de muitas pessoas e famílias. De demasiadas. Isso mesmo e os contributos da ciência e da prática de psicólogas e psicólogos na minimização dos seus impactos e no combate às diversas formas de pobreza, discutiremos ali bem perto, na Guarda, na próxima sexta-feira (25.5).

O VI Encontro Luso-Espanhol de Psicologia, organização conjunta entre a Ordem dos Psicólogos Portugueses e o Consejo General de la Psicología de España centrar-se-á em dois temas principais, preocupações sociais significativas: a deficiência e a pobreza. Na área da pobreza, além de uma “Oficina Transformadora” a cargo do Alexandre Teixeira com a experiência do projecto “Cais Recicla”, terá uma mesa por mim moderada com a Isabel Soares (referência importantíssima no trabalho no nosso país nestas áreas e pessoa e profissional que muito admiro) e a Laura Vallejo Slocker e o Pedro Rafael Altungy Labrador, importantes referências do trabalho nestas dimensões em Espanha. Mais informações e inscrições, aqui.

Jorge Amado disse sobre Ferreira de Castro que “com a arma da literatura ajudou a transformar o Mundo (…) [Foi] coveiro de um Mundo caduco, de um tempo podre, parteiro de um Mundo novo, de um tempo alegre e livre”.  Que este Encontro e que os debates que dele decorram seja (mais) um contributo e, particularmente, estímulo a que com a “arma da psicologia” ajudemos “a transformar o Mundo”, pela possibilidade de um “tempo alegre e livre”, para todas e para todos.

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1, 2, 3, 4, 6 e… 7

1, 2, 3, 4, 6 e… 7. Ou, quando a aleatoriedade de um jogo nos desafia.

Esta sequência incompleta foi a chave do 37º concurso de 2023 do Totoloto, uma de 24.789.492 combinações possíveis. Quase sequência que, embora tão possível como qualquer outra chave, gerou surpresa e questionamento. Como nela faltou esse número, partilho 5 reflexões sobre o tema a propósito de uma peça e explicador da @Cristina Nascimento e do @Pedro Mesquita (@Radio Renascença), para as quais contribui.

  1. Percebemos como mais (ou menos) prováveis determinados acontecimentos ou eventos do que realmente são por via dos nossos, humanos, vieses cognitivos. Ou seja, pela nossa tendência para interpretarmos o mundo, tomarmos decisões e/ou nos comportarmos de forma irracional em consequências de erros no processamento de informação;
  2. É por isso natural que uma chave assim nos desafie, como dizia. Que automaticamente foque a nossa atenção, que seja “notícia” e suscite conversas e debates.
  3. O que deixa de ser natural, digamos racional, é que, quando depois reflectimos sobre ela, não concluamos sobre a sua igual possibilidade face a outras e, antes, desconfiemos dela. São diversos os motivos que podem a isto conduzir, mais ou menos conscientes ou intencionais, entre eles a susceptibilidade das pessoas à dúvida, a insegurança e ambiguidade ou a dificuldade em “lidar” com cenários de incerteza e, consequente, necessidade de controlo.
  4. Os ambientes digitais, onde o comportamento se altera e emoções como a raiva, a zanga ou o ódio são “dominantes”, é particularmente propicio e incrementa este tipo de situação de dúvida. Também, muito, porque facilita a resolução de ambiguidades por via de vieses de atribuição e confirmação, ao suscitar que as pessoas comuniquem a sua visão como a certa/verdadeira e ao ligar pessoas que “acreditam no mesmo”, o que neste caso permitiu a emergência e reforço de exemplos/comentários relativos, por exemplo, a eventuais investigações em curso ou ao célebre momento em que saiu um número não possível (0), para suscitar dúvidas sobre o jogo.
  5. Tudo isto seria não tão importante quanto é se se cingisse a esta chave do Totoloto. Infelizmente, não é assim. Nos 4 pontos anteriores estão pistas importantes para percebermos a desconfiança e as teorias da conspiração. Da origem da COVID-19, aos objectivos das vacinas. Dos “Pizzagte” ou “QAnon”, à “Grande Substituição” ou ao suposto “peso” para a Segurança Social da população imigrante em Portugal. Tudo a lembrar-nos a importância de reflectirmos sobre como interpretamos o Mundo e tomamos decisões… Sobre os efeitos das redes sociais e novas tecnologias e a justificar a necessidade de reforçarmos a confiança e a literacia digital e em ciência de toda a população.
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A arte…

Uma das passadeiras que mais vezes atravessei nos últimos anos fica próxima da minha casa e tem uma particularidade. Não sendo propriamente insegura (as velocidades são habitualmente baixas), quando a atravesso no sentido da minha casa é frequente os veículos não pararem para eu passar, algo que não sucede quando a atravesso no outro sentido. Quem de quem me lê sabe onde moro, sabe também porque é que isto acontece e porque é simples não ficar “incomodado” com esta situação quando, nos conseguindo colocar no lugar da/o outra/o, percebemos o estímulo de chegados a uma vila, olharmos um monumento impactante e bonito, que nos capta a atenção e desfoca, até, da tal passadeira e de quem a pretende utilizar.

Mas, se este colocar-nos no lugar da e do outro, compreendermos, aceitarmos e, talvez até, sorrirmos ao que o justifica, pode ser simples numa situação como esta, sabemos que não o é para todas as pessoas e, particularmente, todas as situações. A abertura às outras pessoas, o fascínio com elas, a curiosidade e o genuíno interesse pelo que é diverso de nós, são elementos preponderantes a uma melhor compreensão e intuição acerca do que nos rodeia e, de certa forma, também de nós próprios, de como nos comportamos, pensamos ou sentimos.

São contributos fundamentais para mais e melhor literacia. Para mais relação, aceitação e/ou impulso para a mudança ou transformação. São factores protectores da saúde mental, factores onde a arte assume um papel preponderante, nas suas múltiplas formas de expressão. Tratando o real ou ficcionando, o passado, o presente ou imaginando futuros.

Penso-o a poucas horas de participar na abertura da 7ª edição do Festival MENTAL (https://mental.pt) que faz da arte, e do cinema em particular, veículo para a promoção da literacia em saúde mental. Festival que tive o privilégio de conhecer ainda apenas como ideia, pela mão da Ana Pinto-Coelho, e que vi acontecer e crescer, ano após ano.

Penso-o a pensar nos “Sete Palmos de Terra”, série que acompanhou e profundamente me marcou no meu percurso de estudante universitário e que do 1º ao último episódio, me fez olhar as outras pessoas, as suas condições e particularidades, enquadrar comportamentos, emoções e tomadas de decisão e manter presente o refrão da música da sequência com que termina: “Sê meu amigo | Segura-me, envolve-me | Revela-me | Eu sou pequena/o e preciso | Aquece-me | Respira-me.” Penso-o a pensar no “olhei à minha volta e comecei a reparar melhor nas outras Mulheres”, com que Maria Lamas, minha conterrânea e “nome” da minha Escola Secundária, abre “As mulheres do meu país”, crónica do ser Mulher em Portugal nos anos 40.

Exemplos de como a arte (sempre a arte) nos permite pensarmo-nos, individual e colectivamente, olhar a outra e o outro com curiosidade e interesse e mobilizar as necessárias transformações individuais e colectivas para vencermos medos, a escuridão do desconhecido ou o sofrimento. Para podermos ser e sermos mais pessoa.

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36,9º

Para quem não conhece, este é o lindíssimo Fluviário de Mora. Um aquário público que, conforme a sua apresentação, se dedica “aos ecossistemas de água doce” e “privilegia o conhecimento da sua diversidade, importância e relação com a humanidade”. Um equipamento educativo único em Portugal, também porque edificado numa vila de pouco mais de 2.200 habitantes, sede de um Município Alentejano com cerca de 4.100 habitantes.

Podia ter sido pelo Fluviário mas Mora foi notícia há dias por outro motivo. Foi na sua estação meteorológica que, a 27 de Abril, foi batido um recorde com 78 anos. 36,9 graus Celsius em Portugal em Abril. Lá, mas podia ter sido batido nesse dia na Amareleja, Alcácer do Sal, Neves/Corvo, Alvalade/Sado ou em Portel, cidades/zonas com mais de 36º nesse dia, valor do anterior recorde (registado a 20 de Abril de 1945 em Alijó).

Isto em Portugal e dias antes das Nações Unidas alertarem para algo a que continuamos a prestar pouca atenção: a necessidade de nos prepararmos e adaptarmos, particularmente pelas características do nosso país, para o “novo pico no aquecimento global” que estamos a viver, para “os recordes de temperatura” que serão batidos e para um novo “El Niño” (aquecimento significativo das águas do Pacífico), cujas consequências, múltiplas e também muito significativas, se esperam sentir mais intensamente em 2024.

Por cá, além das temperaturas, terminamos Março (e o Inverno) com 48% do território em seca e com os distritos de Setúbal e Beja em seca severa. No final de Abril a área ardida em 2023 estava já acima da média para este período e o presidente do IPMA afirmava, há dias, que, não sendo uma “situação dramática”, “a probabilidade de precipitação daqui até ao Verão é baixa e que, portanto, vamos ter tensão em muitas áreas – no ambiente, no abastecimento, nas barragens, nos fogos.” Que temos que “ver as coisas com serenidade, mas com antecipação.”

Nada mais correcto. Sem alarmismo, com antecipação mas… com convicção, compromisso, envolvimento de todas as pessoas e com ciência… Ciência que não apenas a importante meteorologia. Ciência comportamental que nos ajude a compreender e (lá está) antecipar os impactos de medidas, de campanhas de comunicação e de estímulos e incentivos a mudanças no comportamento, informando a tomada de decisão e as políticas (públicas) nesta área. Ciência que deve ajudar a que reflictamos, informadamente, sobre como pensamos e narramos este “problema”.

Quando confrontado com outro problema, António Costa, na terça-feira e em Braga, respondeu assim a uma jornalista que lhe perguntou pelo facto de João Galamba não ter agenda nesse dia: “Amanhã já terá. Ontem foi ontem, hoje é um novo dia. Olhe para o céu, está tão bonito. Adeus”. O céu, sim… Mas, e os 32 graus que lá fariam a um 3 de Maio? Mas, e o quanto esta realidade periga os ecossistemas, a sua diversidade, importância e relação com a humanidade?

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Saúde (mental), bem-estar e ESG nas Organizações

Tal qual hoje pensamos duas vezes na compra de um produto que sabemos poder ter sido produzido recorrendo a trabalho infantil… Ou pensamos duas vezes na compra de algo que sabemos não haver cuidado de aspectos relacionados com o meio ambiente… Creio que passaremos a pensar duas vezes antes de comprar um produto ou serviço a uma organização que não cuide da saúde e bem-estar das e dos trabalhadores.

Este pressuposto, a par da visão das pessoas como vector de sustentabilidade e da possibilidade de adaptação a mudanças e crises, suportaram as minhas intervenções no debate “O papel das empresas como promotores de saúde mental e na prevenção da saúde”, integrado na “ESG Week”, iniciativa da APEE – Associação Portuguesa de Ética Empresarial, que debateu a Sustentabilidade a partir domínio “Environmental, Social e Governance”.

No debate (após 23m40s), promovido pela Fidelidade/Multicare, junto com o Alexandre Nilo Fonseca, o Daniel Riscado e o Frederico Fezas-Vital e com a moderadora Inês Pimenta de Castro (a quem agradeço a confiança e o convite), procurei:

. reforçar a importância (mas também os limites) das organizações promoverem a saúde mental e bem-estar de trabalhadoras/es, não se substituindo às respostas nesta área que devem existir, ser reforçadas e assentarem na equidade de acesso e na melhor evidência de eficácia nos âmbitos clínicos e de saúde;

. sublinhar a importância de, como hoje se usa da melhor ciência em diversas áreas, se faça uso também da melhor ciência comportamental e psicológica nas organizações, tendo ou recorrendo a profissionais especializadas/os, a iniciativas baseadas na evidência, a instrumentos de avaliação validados e ao desenvolvimento de culturas de organização que façam destes valores centrais e estruturais de toda a organização, incluindo lideranças;

. pensar as mais valias que daqui decorrem, quer do ponto de vista da produtividade e prosperidade (da organização e do país), quer da capacidade de inovação e criatividade, a partir da criação de ambientes inclusivos e com segurança psicológica;

. sublinhar a importância de falarmos em promoção do bem-estar e não da felicidade e de ser fundamental que as organizações sejam capazes de acolher as pessoas em momentos mais e menos felizes;

. ainda, como devemos atender a vulnerabilidades e a iniquidades nas transições (desde logo na digital), as mais-valias e os desafios que se colocam na digitalização na área da psicologia e como, para sermos consequentes, devemos repensar a utilização de conceitos como a telemedicina ou a medicina online, avançando para telesaúde e saúde online, que incluindo, vão além da telemedicina e medicina online e apontam à promoção e prevenção.

Em suma, procurei sustentar o quão fundamental é considerar as pessoas, o seu valor, a sua saúde e bem-estar e o seu envolvimento/alinhamento com a organização na sua sustentabilidade e como isso pode e deve ser avaliado e valorado.