Certamente já vimos crianças, animadamente, a jogar com familiares. Já vimos, em estabelecimentos, fotocópias gigantes de prémios tão relevantes quanto excepcionais, chamarizes da atenção que complementa o boca-a-boca do prémio “grande” que, muito quando em vez, lá sai no bairro, na aldeia, na cidade. Todas e todos conhecemos quem jogue, sabemos de quem jogue com regularidade e, possivelmente, de alguém “dependente” das lotarias instantâneas. Da raspadinha.
De 1995 aos dias de hoje, este jogo tornou-se um fenómeno cultural de acesso praticamente generalizado, naturalizado e muito simples. Tornou-se, também, por isso e pelas suas características “aditivas”, um problema para muitas pessoas. Não deixa de ser curioso que uma das múltiplas modalidades deste jogo seja o “100X” quando um muito importante estudo, promovido pelo @Conselho Económico e Social, estima serem cerca de 100 mil as pessoas que apresentam problemas relacionados com este tipo de jogo e 30 mil as que apresentam doença instalada, nomeadamente “perturbação de jogo patológico”.
Mas mais, este jogo, também pelas suas singularidades e forma de disponibilização, nomeadamente pelos canais de venda, impacta negativa e desproporcionalmente as pessoas com mais baixos rendimentos e níveis de escolaridade e que apresentam problemas associados à saúde mental, nomeadamente stresse, ansiedade e/ou depressão.
Sobre estas questões, sobre o enquadramento do fenómeno deste jogo e sobre as iniquidades que espelha, procurei disponibilizar o meu contributo e reflexão. Também sobre o que podemos fazer para, com os dados do estudo e com a evidência científica sobre o comportamento humano e tomada de decisão, regular de outra forma o funcionamento do jogo, protegendo as pessoas, nomeadamente acrescentando a possibilidade de autoexclusão, limitação de valores mensais de jogo ou de limites temporais que previnam comportamentos mais emocionais e “compulsivos”. Foquei, ainda, o quão paradoxal é a facilidade de acesso ao jogo, particularmente por pessoas com determinadas vulnerabilidades, quando comparada com a dificuldade de obterem apoio psicológico e social ou o facto de quem, em Portugal, promove (e como o promove) este jogo.
Fi-lo na Antena Aberta da @Antena 1 (a partir dos 24m15s), na @Rádio Renascença, na @CNN Portugal e no @Correio da Manhã.
Fi-lo como contributo para que este jogo não seja um “Tesouro da selva”, curiosamente outra das suas múltiplas modalidades, sobretudo para a parte da população que vive situações que mais potencialmente as privam da possibilidade de bem-estar.


