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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Política Psicologia

NPD – Normalização, polarização, democracia (Sábado; Ao redor…; 12.10.2022)

Uma nota prévia: O que em seguida se pode ler comporta sete simplificações que julgo importantes e que procuro serem cuidadosas e simples, mas não simplistas.

Vigotsky nasceu ainda no século XIX numa cidade da actual Bielorrússia. Viveu menos anos do que os que eu já vivi (37) mas, quando em 1934 faleceu, deixou uma importante e transformadora obra, parte dela apenas integrada no conhecimento científico décadas mais tarde, também devido à censura de que foi alvo. Foi um psicólogo pioneiro na teorização da importância da comunicação e das relações e condições sociais no desenvolvimento infantil. Entre outros contributos, deixou-nos o importante conceito de zona de desenvolvimento próxima, enquanto potencial de desenvolvimento que uma criança/pessoa possui a cada momento, a partir do seu desenvolvimento real e se apoiada em relação com alguém mais “desenvolvido”. Grosso modo (simplificação 1), o espaço que dista entre o desenvolvimento real (A) e o desenvolvimento potencial (B), sendo que A e B, a cada momento do desenvolvimento, se vão alterando. Deixou-nos, ainda, o conceito de mediação, que elabora no seu trabalho enquanto elemento intermédio e fundamental no binómio estímulo-resposta, sublinhando, também, a importância da linguagem e do simbólico na mediação.

A agressão física de Will Smith a Chris Rock na cerimónia dos Óscares e o crescimento e ascensão a posições de decisão de partidos populistas, radicais ou extremistas, são apenas dois exemplos no debate em torno da normalização da violência, num caso, ou de ideais e propostas políticas cuja prioridade e quadro de valores não assentam nos direitos humanos ou justiça social. A zona de desenvolvimento próximo de Vygotsky oferece-nos duas importantes pistas (simplificações 2 e 3) para pensarmos este fenómeno, hoje particularmente relevante. O papel de outras e outros nos processos de “normalização”, num tornar real o que apenas era potencial, por exemplo no admitir, no legitimar, no considerar, por alguns e algumas, como “bela e romântica” a agressão física como resposta. O facto de quando o outrora apenas potencial se torna real, automaticamente se criar outro potencial, mais distante. Quando se torna “real” Trump e outras e outros próximos, Maduro e outras e outros próximos, criam-se, automaticamente, “novos potenciais”, cada vez mais distantes do outrora real, porque o desenvolvimento e a sociedade, como as ideias e os ideais são vorazes – embora, protectoramente, possamos pensar o contrário, podem sempre ir mais longe.

“Sei que um grande número dos nossos compatriotas votaram hoje por mim, não por me apoiarem, mas para fazerem barreira à extrema-direita”, disse Macron aquando das últimas eleições presidenciais Francesas. Cada vez mais assistimos (sentimos?) uma participação pública e política menos motivada pela mobilização e adesão a projectos, e mais pelo “combate” e barreira a outros, em simultâneo com a utilização de emoções como a raiva, o ressentimento ou o ódio a outras e outros como estímulo. A mediação e a importância das condições sociais, conforme reflectidas por Vygotsky, oferecem-nos três importantes pistas (simplificações 4, 5 e 6) para pensarmos este fenómeno, hoje particularmente relevante. A primeira, a forma como a quebra de mediadores externos e sociais (jornalistas, por exemplo) “entrega” a intermediação do estímulo–resposta à linguagem e simbólico de cada pessoa ou, quando muito, de cada grupo de pertença, seja ele uma associação ou clube, ou, hoje, de uma rede social. As segunda e terceira, a forma como as condições de vida e aspectos sociais o influenciam, nomeadamente a forma como as redes sociais determinam o fluxo de informação e influenciam a formação de opiniões e, até, identidades. Bem como a forma como a quebra generalizada de confiança (nas e nos outros, nos e nas decisoras e nas instituições) desafia a saudável separação entre factos e opiniões, questiona a ciência e factualidade, dificulta a discussão construtiva e a mobilização das pessoas para a causa pública.

Tudo num caminho de maior normalização do que antes nos parecia distante. Tudo a polarizar, a criar um nós vs. outras/os e a afastar-nos. Tudo a concorrer para a fragilização dos princípios democráticos e das democracias, enquanto sistema que vive da partilha de princípios comuns fundamentais, assentes no reconhecimento de direitos (e deveres) partilhados. Tudo a colocar em causa o sistema que, com as suas vulnerabilidades, mais permite e promove o envolvimento de todas e todos e procura o desenvolvimento de uma sociedade inclusiva e aberta, assente na equidade e na coesão social e promotora de saúde, incluindo saúde mental, bem-estar e possibilidade de desenvolvimento e autodeterminação. Tudo a justificar porque, há já mais de uma década, mas com especial incidência nos últimos anos, invertemos o caminho de maior disseminação da democracia e das garantias de liberdade e direito no Mundo e caminhamos para um maior encerramento, nacionalismo e para mais autoritarismo.

Normalização, polarização, democracia. NPD. Sigla pela qual, em inglês, é conhecida a perturbação narcísica de personalidade. Independentemente se ao nível de “perturbação” (simplificação 7), não raras vezes, quem tem este objectivo e promove estes movimentos, fá-lo a partir de uma aura salvífica capaz de respostas cabais, simplistas e imediatas para todo e qualquer problema, independentemente de serem, por vezes, complexos e multidimensionais. Não raras vezes pessoas que, vivendo da necessidade permanente de reconhecimento, se consideram melhores que outras e outros, se sentem incompreendidas no seu valor e que assumem papéis de liderança de projectos que, mascarando vulnerabilidades, procuram a polarização e a normalização. Que usam das vulnerabilidades e dos receios de algumas pessoas para legitimar, quando não promover, posições contrárias ao reconhecimento de outras e outros, da sua possibilidade de participação e autodeterminação, dos pilares do sistema democrático.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, devemos reflectir sobre os processos de normalização e de como dependem de todas e todos nós. Como conduzem à polarização e ameaçam os princípios democráticos. Como, a coesão social e a defesa dos valores democráticos, dependem de travarmos “avanços de A para B que criam sucessivos C e D”. Compreendamos, escutemos e empatizemos com quem vota. Criemos, em conjunto e com compromisso, políticas que respondam às necessidades e expectativas e atendam às vulnerabilidades económicas, sociais e psicológicas das pessoas. Façamos da saúde mental e do bem-estar prioridades globais, conforme o mote do Dia Mundial da Saúde Mental comemorado a 10 de Outubro. Se o fizermos estaremos, também, a contribuir para a confiança, para a credibilidade das instituições e qualidade da democracia e, dessa forma, a garantir melhores condições para a promoção da saúde e para a possibilidade de bem-estar de todas e todos.

 

NPD – Normalização, polarização, democracia

in Sábado (Ao redor…); 12.10.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/npd—normalizacao-polarizacao-democracia

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Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

É ou não é / Pobreza (RTP1, 25.10.2022)

“Ainda bem que estamos aqui hoje a conversar sobre isto, mas nós conversamos muito pouco sobre pobreza. A pobreza é o principal determinante da saúde, educação, da área social em Portugal e está normalmente ausente daquilo que é o debate público a não ser quando surgem alguns dados… É pouco presente no debate público, portanto, apelo a que um dos pontos da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza (ENCP), que é exactamente tornar esta matéria um desígnio nacional, possa ser endereçado e abraçado e isso implica que toda a sociedade se mobilize no combate a este enorme problema social que impacta todas as pessoas”.

Foi esta a minha última intervenção no programa “É ou não é” (RTP; abaixo) sobre pobreza. Antes enquadrei o https://finalapobreza.pt e o contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos nesta área, particularmente: 1) melhor informação e literacia sobre as causas e consequências do fenómeno, contribuindo para a diminuição do estigma e compreensão de que é um problema que afecta todas as pessoas (particularmente, mas não apenas, quem vive em situação de pobreza); 2) contribuir para o desenho e implementação de políticas públicas mais eficazes e eficientes.

A propósito do 2º ponto, evocando o que não aconteceu aquando da crise sócio-económica do início da década passada (reforço da área da saúde mental), afirmei a associação cíclica e forte entre problemas de saúde mental (stresse, ansiedade e depressão) e pobreza e exclusão, sublinhando não poder haver prioridade no combate à pobreza sem promoção da saúde mental e vice-versa. Abordei, ainda, os “1000 dias” e o impacto no desenvolvimento das estruturas neurológicas e biológicas nos bebés que nascem em contextos de maior adversidade (exclusão e pobreza), devido ao stresse, má nutrição, entre outros. Estes têm, desde ainda antes do nascimento, um gap negativo (desvantagem) de desenvolvimento, que se intensifica ao longo da vida, justificando-se políticas mais assertivas nesta área, também pela injustiça social que representa.

Na 2ª intervenção, com uma excelente entrevista ao Eldar Shafir pelo meio, reforcei que é possível erradicar a pobreza, sublinhei que a complexidade do desafio implica que sejamos exigentes (dando o exemplo da ENCP não ter ainda o plano de acção 22-25) e que capacitemos e demos condições às organizações e serviços públicos que trabalham nesta área. Abordei ainda a importância da oportunidade (contexto) para a par da conhecimento e motivação, podermos mobilizar comportamentos e a forma como o stresse, a ansiedade, o insucesso escolar (muito presente) e o estigma afectam crianças e jovens, com impacto ao longo da vida.

Reforcei, finalmente, o estigma e auto-estigmatização e seu o impacto, por ex., no facto de algumas pessoas não recorrerem aos apoios sociais por esse motivo, condicionado a sua eficácia.

 

https://www.rtp.pt/play/p9816/e-ou-nao-e-o-grande-debate (parte I)

https://www.rtp.pt/play/p9816/e649260/e-ou-nao-e-o-grande-debate/1096150 (parte II)

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Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

E  você, qual julga que pode ser o contributo da psicologia enquanto ciência e profissão para um ponto final à pobreza?

“Ter mais informação sobre como constituir uma associação ou cooperativa (…) Desenvolver estratégias de trabalho informal na comunidade em benefício das relações de proximidade (…) Investir na promoção da literacia em saúde e em justiça social (…) Promoção de grupos de intervisão profissional na área do combate à pobreza (…) Disponibilizar formação profissional contínua de psicólogas e psicólogos na área a pobreza e introduzir conteúdos desta área na formação inicial da/o psicóloga/o júnior (…) Estimular a formação dos órgãos de gestão e das lideranças de instituições a partir de contributos da psicologia (…) mapeamento de projectos e intervenções de sucesso e contributo para a sua adaptação e implementação em Portugal (…) contribuir para uma metodologia de construção de políticas públicas que considerem a pobreza em todas as políticas (…) reforço da investigação em torno da eficácia das políticas públicas nesta área que incluam, também, dimensões de saúde e bem-estar (…) investir em programas específicos de competências parentais e socioemocionais junto de populações com maiores vulnerabilidades (…) (…) (…)”

E  você, qual julga que pode ser o contributo da psicologia enquanto ciência e profissão para um ponto final à pobreza? De que sente necessidade? O que lhe seria importante e útil? E como podemos reforçar o contributo da psicologia e das psicólogas e dos psicólogos neste importantíssimo desafio social?

Colabore em https://finalapobreza.pt. Participe na construção da estratégia e do plano de acção nas suas quatro dimensões (profissão, sociedade civil, decisoras/es e cooperação nacional e internacional).

Juntas e juntos vamos contribuir para um ponto final à pobreza.

http://https://www.youtube.com/watch?v=ymK5UDmPyrc&feature=emb_logo

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia Política Psicologia

NPD – Normalização, polarização, democracia

Algumas semanas após Marcelo Rebelo de Sousa o ter solicitado, conhecemos em simultâneo com a proposta de Orçamento do Estado (OE), o cenário macroeconómico previsto pelo Governo para 2023. Contém perspectivas sobre o PIB, a inflação, o mercado de trabalho, financiamento e pressupostos como taxas de juro ou preço do petróleo. Nem nele, nem no próprio OE, constam indicadores (e sua variação) sociais como a pobreza e desigualdade ou psicológicos como o bem-estar. Se infelizmente ainda assim é, creio que assim não será sempre e que, indicadores fulcrais como estes para aferir as condições e qualidade de vida, serão mais considerados nas decisões políticas, respondendo-se mais a necessidades e expectativas das pessoas, algo fundamental à preservação da democracia.

“NPD – Naturalização, polarização, democracia”, 43º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) faz uso de 7 simplificações (“que julgo importantes e que procuro serem cuidadosas e simples, mas não simplistas”) para, a partir do trabalho pioneiro de Vygotsky, pensar a relação entre processos de normalização, polarização e (ameaças à) democracia. Democracia, “sistema que, apesar das suas vulnerabilidades, mais permite e promove o envolvimento de todas e todos, procura o desenvolvimento de uma sociedade inclusiva e aberta, assente na equidade e na coesão social e na promoção de saúde, incluindo saúde mental, bem-estar e possibilidade de desenvolvimento e autodeterminação.”

O artigo discute e exemplifica o “papel de outras e outros nos processos de normalização, no tornar real o que apenas era potencial” e o “facto de quando o outrora apenas potencial se torna real, automaticamente se criar outro potencial, mais distante.”

Pensa “a forma como a quebra de mediadores externos e sociais (jornalistas, por ex.) “entrega” a intermediação do estímulo–resposta à linguagem e simbólico de cada pessoa ou, quando muito, de cada grupo”. A forma como “as redes sociais determinam o fluxo de informação e influenciam a formação de opiniões e, até, identidades”. Como “a quebra generalizada de confiança (nas e nos outros, nos e nas decisoras e nas instituições) desafia a saudável separação entre factos e opiniões, questiona a ciência e factualidade, dificulta a discussão construtiva e a mobilização das pessoas para a causa pública.”

“Tudo a concorrer para a fragilização dos princípios democráticos e das democracias, enquanto sistema que vive da partilha de princípios comuns fundamentais.” Tudo a exigir que “compreendamos, escutemos e empatizemos com quem vota. Que criemos, em conjunto e com compromisso, políticas que respondam às necessidades e expectativas e atendam às vulnerabilidades económicas, sociais e psicológicas das pessoas. Que façamos da saúde mental e do bem-estar prioridades globais” contribuindo “para a confiança, credibilidade das instituições e qualidade da democracia” garantindo, assim, melhores condições para a promoção da saúde e para a possibilidade de bem-estar de todas e todos.”

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Democracia Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política

O desafio societal da pobreza no 5º Congresso da OPP

Terminou na 6ªF o 5º Congresso da @Ordem dos Psicólogos Portugueses. Com o mote “Tempo da Psicologia”, cerca de 1500 pessoas, parte significativa psicólogas e psicólogos, encontraram-se em Aveiro para discutirem, reflectirem e pensarem conjuntamente o país e o Mundo, nos seus desafios e complexidades, e os contributos da ciência e prática da psicologia para as pessoas e sociedade. Eu fui mais uma dessas pessoas.

Entre outros contributos (que aqui discutirei noutro momento), participei/dinamizei três iniciativas dedicadas ao complexo desafio societal da pobreza e, de certa forma, associadas ao projecto https://finalapobreza.pt: uma conversa com a @Maria João Marques que cruzou Economia e Psicologia – “Pobreza: um círculo vicioso ou viciado?”; a apresentação/moderação do keynote do @Eldar Shafir – “A pobreza e a escassez mental”; a sessão prática de recolha de contributos para a estratégia “.Final à Pobreza”.

Além do significativo de podermos num congresso da OPP aprofundar o tema, a presença no Congresso do @Eldar Shafir resultou em importantes peças na comunicação social que permitiram que o tema pobreza, normalmente pouco saliente por pouco glamoroso (como a @Maria João Marques bem definiu), fosse abordado e notícia: “Há algo cómico quando nos preocupamos com o bife que um pobre come” (@PÚBLICO) ou “A mentalidade da escassez ou como um bom cockpit faz um bom piloto” (@CNN Portugal).

Destes três momentos, e das conversas sucessivas, guardo cinco reflexões: a) A ciência, só por si, não é suficiente pois, a cada vez mais clara percepção das causas e das consequências da pobreza, não tem sido suficiente na mudança de percepção da sociedade sobre o fenómeno e na definição de políticas (públicas); b) À (promoção da) mudança individual pelas psicólogas e psicólogos é fundamental associar-se a (promoção da) mudança societal; c) É fulcral reforçarmos o contributo da psicologia na dimensão macro do fenómeno da pobreza e, não apenas, nos impactos da mesma no micro observado nas diversas áreas de intervenção da psicologia; d) Outras áreas científicas reconhecem cada vez mais e melhor o contributo da psicologia e, pessoas e sociedade, “exigem-lhe” um contributo maior; e) Além de justo, é possível solucionar este complexo desafio. É possível uma sociedade sem (ou com níveis residuais de) pessoas em situação de pobreza, investindo na mudança societal e na promoção da saúde mental de pessoas e comunidades.

Cinco reflexões a que junto entusiasmo e a determinação de me associar a tantas outras pessoas no contributo (singelo) para um ponto final à pobreza e o orgulho de ver tantas e tantos colegas a identificarem-se e comprometerem-se enquanto cidadãs e cidadãos e psicólogas e psicólogos. Obrigado, mobilizemo-nos.

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COVID-19 Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Tempo da Psicologia

Estamos a minutos do início do 5º Congresso da @Ordem dos Psicólogos Portugueses. “Quatro anos após o 4º Congresso e com uma pandemia por COVID-19, uma Guerra no continente europeu e uma nova crise socioeconómica no horizonte.” Os mesmos quatro anos que passaram entre as eleições de 2018 e de Domingo em Itália e entre os 4% e os 26% do partido de direita nacionalista “Irmãos de Itália” (…) que confirmam o caminho de progressiva implementação e “normalização” de ideias e ideais anti-imigração, do questionamento de direitos humanos, da ciência e das instituições e do crescimento do autoritarismo, com consequente diminuição da liberdade e das garantias Mundo fora. Quatro anos que confirmam a velocidade e volatilidade deste tempo, a complexidade e globalidade dos desafios, a enorme incerteza que vive(re)mos.”

“Tempo da Psicologia”, 42º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata o mote do congresso, enquadrando-o no tempo que vivemos. “Mas porquê?”, pergunto no texto. “Porque, efectivamente, apesar das condições de vida em quase todo o Mundo terem melhorado substancialmente nas últimas décadas, os níveis de incerteza, precariedade, pressão e desigualdade constituem hoje factores de stress particularmente significativos. A eles, juntam-se, também em Portugal, níveis de literacia em saúde psicológica superiores (ainda que baixos), níveis de estigma inferiores (ainda que altos) e, particularmente, um capital social que faz com que as pessoas se mobilizem, bem, e pressionem por respostas para os seus problemas (e para os das pessoas ao seu redor), também de saúde mental, exigindo, bem também, mais possibilidade de autodeterminação, saúde e bem-estar, independentemente da sua condição. Acresce, depois, maior percepção e compreensão, de decisoras e decisores e das lideranças, do papel e contributo da psicologia no desenho de processos, de políticas e de interfaces, no desenvolvimento, consultoria e formação das pessoas e no apoio à mudança (social e individual) e promoção da inclusão, equidade e justiça social.”

“Mas há muito caminho por percorrer, muitas conversas para ter, muita interdisciplinariedade por co-construir.” No congresso procurá-lo-emos, discutindo temas desafiantes e inovando na sua sustenatabilidade e na relação com a comunidade local, incluindo visitas a projectos e actividades a si abertas, como o festival de cinema Mente.morfose.

É que, “na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor (…) a psicologia tem hoje um capital de conhecimento e uma força de trabalho capaz de oferecer garantias, às cidadãs e cidadãos e aos governos, de actuação nas consequências dos problemas e acontecimentos de vida significativos das pessoas, mas também, a montante, nas causas (muitas delas sociais) desses problemas. Com responsabilidade, procuraremos, hoje, amanhã e depois, discutir como o podemos fazer melhor, com todas e todos. Com empenho e foco nas pessoas, procuraremos mobilizar a profissão para um presente e futuro que se afigura desafiante, em Portugal e no Mundo.”

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Congresso Democracia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Giorgia Meloni e o 5º Congresso da OPP

Portugal joga amanhã com Espanha a passagem à fase seguinte da Liga das Nações tal como jogou, em Junho de 2004, a passagem à fase seguinte do Euro 2004, que Portugal organizou. Muitas e muitos de nós recordam esse jogo que vi em Turim (Norte de Itália).

Ali vivi(a) enquanto estudante Erasmus e dali viajei, várias vezes, rumo a outras cidades italianas, muitas no Sul. Viagens num país lindíssimo e diverso. Num país com muitos países (e dialectos) dentro e de diferenças significativas entre Norte e Sul, diferenças que ajudam a compreender as eleições de ontem.

Meloni conduziu o Irmãos de Itália, partido de direita nacionalista, a força política mais votada. Independentemente do Governo que se constituir, da sua consistência (Itália teve 45 governos desde 1945) e do que será Meloni líder de Governo, é paradigmático que o partido cresça de 4 para 26% entre as eleições de 2018 e as de 2022. Há, como sempre existem, múltiplas razões que podem justificá-lo em Itália. Como existem para o comunicado do Chega que defende “que estes ventos de mudança [chegarão] a Portugal” e levarão “a uma reconfiguração política da Europa”.

Meloni faz da defesa da meritocracia, escola. Diz que o “mérito é o carburante do Mundo”, que tudo “reside na vontade, sacrifício e paixão” e que “não se devem aceitar limites impostos pelos outros”. Discurso motivacional, com ressonância, mas que choca com o discurso anti-imigração e o seu apego à “teoria” da “grande substituição” que torna seu objectivo evitar a “extinção dos Italianos”. O contrassenso continua quando afirma que a “segurança das cidades italianas está fora de controlo” pelas “políticas migratórias dos últimos anos”, apesar da taxa de criminalidade ter caído significativamente de 1990 a 2019 (a de homicídios 72%). Contrassenso aqui, coerência no desconsiderar dos factos, da ciência, dos valores democráticos e direitos humanos (veja-se a posição sobre pessoas LGBTI+) ou da preservação do Planeta (e sobre crise climática).

18 anos (desde 2004) ou 4 anos (desde 2018) que nos trouxeram a uma Meloni previsível chefe de governo, demonstração da aceleração e volatilidade do tempo que vivemos e de como, respeitando resultados eleitorais e as/os votantes, devemos mobilizar-nos contra a utilização do ressentimento e ódio como programa político. Um Mundo complexo precisa de respostas sustentadas que tragam esperança às pessoas e “vençam” as soluções simplistas resultantes deste tipo de partidos/coligações, Mundo fora.

Disponibilizar estas soluções exige diálogo e co-construção. Implica conversas interdisciplinares em temas desafiantes. Fá-lo-ei (em torno da pobreza, da COVID-19 e da saúde mental no Ensino Superior) e fá-lo-emos no 5º Congresso da @Ordem dos Psicólogos Portugueses, sob o mote “Tempo da Psicologia”. Com determinação, empenho e consciência dos riscos que enfrentamos, mas com a certeza de que passo-a-passo, com todas e todos e com a ciência (incluindo a psicológica) é possível caminhar no sentido de um Mundo… melhor.

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O SNS e os seus profissionais – Um ditado para Manuel Pizarro (Ao redor…; Sábado; 14.09.2022)

Nas memórias da minha infância cabem um conjunto de ditados e provérbios populares que acompanhavam vivências quotidianas. O “onde alhos há, vinho haverá”, invariavelmente associado à preparação de uma marinada muito utilizada por uma tia minha, é-me particularmente presente, também porque reforçado por uma memória olfactiva. Evoco-o a propósito da indigitação de Manual Pizarro como Ministro da Saúde, dos desafios com os quais se deparará e de uma reflexão sobre os profissionais de saúde que compõem o Serviço Nacional de Saúde (SNS), incluindo as psicólogas e psicólogos.

O novo Ministro da Saúde inicia funções confrontado com um conjunto de problemas instalados. A carência de profissionais das áreas da Medicina e Enfermagem e as dificuldades para o seu recrutamento, por indisponibilidade de candidatas e candidatos, é um deles. Medidas excepcionais e outras estruturais, espera-se, serão brevemente implementadas para responder a este problema estrutural do SNS, cujas causas remontam a acções e/ou inacções do presente, dos últimos anos, mas também de um período mais distante no tempo. Ora, porque “onde alhos há, vinho haverá”, importa que Manuel Pizarro tenha capacidade e motivação para liderar uma equipa capaz de atender a este foco sem esquecer que, inacções noutras áreas ou junto de outros grupos profissionais, podem a médio (ou mesmo curto) prazo resultar em problemas semelhantes. Veja-se o caso das psicólogas e psicólogos.

Portugal investiu consideravelmente na formação destes profissionais. Apesar de ser uma profissão recente em Portugal (maioritariamente a partir da década de 80 do século passado, considerando que a oferta formativa em Portugal se iniciou apenas após o fim do Estado Novo em 1974), existem hoje mais de 26.000 psicólogas e psicólogos (5500 dos quais especialistas em Psicologia Clínica e da Saúde) mas apenas um pouco mais de 1000 (4%) no SNS. Isto, apesar do amplo reconhecimento público, também do ora Ministro da Saúde, da necessidade do crescimento significativo do número de profissionais, em especial nos cuidados de saúde primários (CSP). Reconhecimento que convive com a realidade de um concurso que decorre há quatro (!) anos para a contratação de 40 psicólogas/os para os CSP e com as notícias que informam que um cada vez mais significativo número de profissionais da área optaram por sair do SNS, devido às suas condições de trabalho. Reconhecimento que convive com a situação incompreensível de não equiparação à carreira de “Técnico Superior de Saúde – Ramo Psicologia Clínica” dos e das psicólogas clínicas do SNS com contratos individuais de trabalho, algo que gera situações de desequilíbrio e desigualdade de condições profissionais (de carreira, remuneração e até, imagine-se, de possibilidades de actuação) de profissionais com a mesma formação, perfil técnico e funcional e funções nas estruturas do SNS. Se não queremos, num futuro provavelmente breve, que também na área da Psicologia seja difícil manter e recrutar profissionais, é, além de justo, indispensável, alterar legislação, revendo e agilizando os processos de contratação e criando um percurso comum de progressão e diferenciação profissional, bem como reforçar a autonomia técnico-científica e a valorização deste grupo profissional. É que, “onde alhos há, vinho haverá”.

Mas, se prevenção é uma palavra-chave da prática das psicólogas e psicólogos, a procura de compreensão da pessoa, de acordo com modelos que enfatizem a sua dimensão biológica, psicológica e social também o é. Hoje sabemos bem quanto é importante, em saúde, actuar não apenas nas consequências, mas nas causas dos problemas, influenciando e estimulando hábitos e estilos de vida (mais saudáveis), a promoção de competências, a adesão e manutenção de comportamentos ou terapêuticas ou mesmo contribuindo em importantes determinantes sociais como a pobreza ou a exclusão. O compromisso das psicólogas e psicólogos de participação em programas ao longo de todo o ciclo de vida e de intervenções multidisciplinares, bem como de um contributo para a mudança societal, é algo de muito relevante a uma intervenção não exclusiva em fim de linha, tendente à prevenção e à diminuição do “stresse” e da pressão sobre as organizações do SNS, o que pode concorrer para a diminuição do sofrimento ético e para a motivação dos diferentes profissionais. É que, “onde alhos há, vinho haverá”.

Mas, além da prevenção e do modelo biopsicossocial, o foco no trabalho em equipa de psicólogos e psicólogas e o seu conhecimento e contributo possível nas dimensões do comportamento, da tomada de decisão e da relação são diferenciadores. Num momento em que a organização de trabalho e os riscos psicossociais são responsáveis por muitos milhares de dias de trabalho perdidos e de muito sofrimento instalado, além das fundamentais medidas de valorização das e dos profissionais, importa que se estabeleçam planos nas estruturas do SNS de avaliação, prevenção e acção permanente sobre estes riscos e de formação e apoio às lideranças, no sentido da implementação das melhores práticas e de uma actuação cientificamente validada, visando a criação de locais de trabalho inclusivos e saudáveis, com contributo da psicologia. É que, “onde alhos há, vinho haverá”.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, os sistemas de saúde, porque confrontados com níveis elevados de incerteza, de desconfiança, com a maior longevidade da população e com crises de saúde pública diversas, muito beneficiam da psicologia enquanto ciência e profissão na garantia da sua sustentabilidade. Muito beneficiam na promoção da saúde, bem-estar e equidade das populações que servem. Também por isso, Sr. Ministro, saiba a nossa profissão não apenas disponível, como sempre estivemos, mas preparada, motivada e comprometida com o objectivo de um SNS mais próximo das pessoas e mais responsivo às suas necessidades. Creio ser tempo das proclamações políticas, das legitimas expectativas das e dos profissionais e da exigência das populações, redundarem em acções concretas que dêem mais oportunidade e condições às psicólogas e psicólogos para um contributo distinto e distintivo na saúde e bem-estar das populações a partir do SNS e para a sustentabilidade dos serviços públicos em Portugal.

 

O SNS e os seus profissionais – Um ditado para Manuel Pizarro

in Sábado (Ao redor…); 14.09.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-sns-e-os-seus-profissionais–um-ditado-para-manuel-pizarro

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Comportamento Congresso Democracia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Da capilaridade e interdisciplinariedade…

Foi também em Junho (1712) que Rousseau nasceu. Considerado um dos grandes influenciadores da Revolução Francesa e dos seus valores (Igualdade, Liberdade e Fraternidade), o seu mais importante livro (“Do contrato social”) defende que a liberdade, bem-estar e a segurança dos seres humanos depende e é preservada pelo contrato social. Além de sustentar ideias próximas da justiça social e direitos humanos, Rosseau introduziu o conceito de “interesse público”. Deixou-nos um intenso legado quando desapareceu, também, a 2 de Julho (1778).

Foi em Junho (mas de 2022, 310 anos após o seu nascimento) que uma menina perdeu trágica e precocemente a possibilidade de viver e se cumprir. Mês em que a CMTV superou “o recorde de audiências”, conforme assinala a capa do “Correio da Manhã” de 2 de Julho (mas de 2022, 244 depois da morte de Rosseau) e após 10 dias em Junho com uma cobertura inenarrável e deontologicamente questionável desse desaparecimento, com consequências nas pessoas, comunidade e instituições.

Ao contrário do interesse do público, o “interesse público de Rosseau”, resulta da vontade geral das pessoas e, grosso modo, do contrato social. Advogo que o contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos na possibilidade de autodeterminação, de saúde e bem-estar das pessoas se faz com intervenções e apoios directos (às pessoas) mas, complementarmente, com maior capilaridade da psicologia. Capilaridade e interdisciplinariedade, contribuindo para uma sociedade mais sensitiva e responsiva à compreensão do comportamento das pessoas e grupos e dos impactos na saúde (e saúde mental) e bem-estar, presentes e futuros, de determinadas experiências/acontecimentos.

Isso faz-se, a meu ver, com participação cidadã e profissional de psicólogas/os no “contrato social”, como é exemplo o contributo da Ordem dos Psicólogos Portugueses na “Diretiva para a cobertura informativa televisiva de guerras e conflitos armados” que afirma que “na exibição de declarações de pessoas em manifesta situação de vulnerabilidade física, emocional ou psicológica, deve assegurar-se o seu obrigatório consentimento, preservar a sua identidade e garantir a sua segurança.”

Faz-se, a meu ver, com psicólogas e psicólogos a dinamizarem e se envolverem em conversas com outras disciplinas e em torno dos contributos da psicologia em áreas e desafios diversos, conforme objectivo do nosso 5º Congresso onde se discutirá, por exemplo, o “Jornalismo e desafios societais”. Este e dezenas de outros temas em sessões, incluindo práticas, visitas, debates, entrevistas, cinema… Oportunidades para “sair do dia-a-dia” e apoiar a nossa reflexão enquanto psicólogas/os “contribuidores” para a mudança social.

No congresso ou não, permitamo-nos ir além do nosso dia-a-dia para irmos além do muito que já contribuímos. As pessoas esperam-no. Os desafios societais exigem-no.

 

 

 

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Estado da União 2022 – Saúde mental; pobreza e exclusão

“[O painel de cidadãos] incluiu uma nova iniciativa na saúde mental. Devemos cuidar melhor uns dos outros. E, para muitos que se sentem ansiosos e perdidos, um suporte adequado, acessível e “pagável” pode fazer toda a diferença.”

A passada semana trouxe-nos das instituições europeias duas notícias fundamentais a pensarmos o presente e futuro:

a) O discurso do Estado da União onde Ursula von der Leyen, a propósito da “resposta unida” da União a um conjunto de crises, fez esta declaração sobre uma nova iniciativa na saúde mental que discuti na minha intervenção no Fórum da TSF – Rádio Notícias (que partilho) no dia do discurso. Proposta que parte do painel de cidadãos da Conferência do Futuro da Europa (conclusões aqui) que, como assinalo, procura responder às crises sucessivas que vimos enfrentando (COVID-19, climática; sócio-económicas; …) que impactam as pessoas, particularmente as com maiores vulnerabilidades, ao condicionarem a previsibilidade, a sua percepção (e possibilidade) de controlo e as exporem a mais situações de precariedade, desemprego e exclusão associadas ao stresse, ansiedade e depressão. Iniciativa que resultando da pressão de cidadãs e cidadãos, assenta em três dimensões essenciais – melhor evidência científica disponível (adequada); ser contingente, rápida e acessível (acessível); ser equitativa e não deixar ninguém para trás (“pagável”) – mas que, por si só e mesmo minimizando-os, não resolve uma parte dos determinantes que concorrem para parte destes problemas;

b) Os dados do Eurostat sobre o risco de pobreza ou exclusão social que assinalam o agravamento da situação em Portugal que, de 2020 para 2021, passa do 13º para o 8º país da UE com maior percentagem de população (22,4%) nesta situação. Complementarmente à actuação “nas consequências”, é fundamental uma estratégia concertada nacional e internacionalmente que possa actuar sobre esta terrível realidade, com enormes consequências na saúde, bem-estar e na possibilidade de futuro e autodeterminação de pessoas e comunidades.

Numa e noutra situação, também como discuti no Fórum da TSF, é possível mudar. Pela pressão das pessoas, com novas iniciativas e atitudes em torno da saúde mental. Olhando para os 12 países da UE que, mesmo com a pandemia, progrediram na redução do risco de pobreza e exclusão social.

Finalmente, e também sobre isso reflicto na intervenção, fazê-lo é lutar contra o encerramento, a polarização e radicalização. É prevenir a irracionalidade, o ódio às outras e outros e a procura de soluções simplistas. É responder às necessidades e às legitimas expecativas das pessoas. Se o formos capazes de fazer, juntas e juntos, defenderemos as instituições e os valores democráticos, outra das importantes preocupações do discurso do Estado da União e outra das crises que vivemos, decisiva para no presente e para o futuro.

Fórum TSF – 14.09.2022 / https://www.youtube.com/watch?v=_MHNI2o6s4U