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Menina – Rapariga – Mulher

“O que significa [hoje] ser Mulher?”, interpela-nos a sinopse do Woman, documentário dirigido por Y. Arthus-Bertrand e A. Mikova. Nele agradecem às 2000 Mulheres de 50 países que “corajosamente partilharam a sua história”, que poderia ser a história de outras tantas cujo nome e história conheço. “Na segunda década do século XXI partilhamos um Mundo onde Mulheres necessitam coragem, por vezes física, para se fazerem ouvir, contarem a sua história e ousarem direitos iguais aos dos Homens. Partilhamos um Mundo onde em 2019 é provavelmente mais necessária esta coragem que há alguns anos, senão em todo, em muitos dos seus países.”

“Menina – Rapariga – Mulher”, 46º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) “viaja” a várias latitudes do Mundo para assinalar exemplos de retrocessos na igualdade de direitos que justificam a afirmação/inquietação anterior, sublinhando quanto a desigualdade de género impacta diversos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável, além ODS5 (Igualdade de Género). “Conforme impacta outras dimensões, porquanto as meninas, raparigas e Mulheres são mais atingidas por problemas de saúde e de saúde mental (ansiedade e depressão, por ex.), mais e diferentemente impactadas em situações de crise (por ex. na pandemia por COVID-19) e mais expostas a formas diversas de discriminação e violência.”

“Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade que condiciona e dificulta a dignidade, o cumprimento integral dos Direitos Humanos e a possibilidade de bem-estar e autodeterminação das Mulheres (…) Em que urge desenvolver contextos protectores e de segurança (também psicológica) para meninas, raparigas e Mulheres, capazes de fomentar a confiança, a autonomia, a liberdade económica e de mitigar iniquidades (…) Também estimular a distribuição equilibrada de tarefas entre géneros, prevenindo a discriminação das Mulheres no mercado de trabalho, promovendo melhores condições para a natalidade e parentalidade e mitigando a reprodução de modelos e papéis junto das novas gerações e, particularmente, das meninas e raparigas. Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade com menor competitividade e desenvolvimento económico sustentável, com maiores desafios demográficos e com menor representatividade e qualidade das suas instituições.”

Termino o texto sugerindo que nos interpelemos, envolvamos e que “enfrentemos o desafio de promover e acelerar a igualdade de género”. Procurei fazê-lo, também, num artigo que escrevi (“O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações”) no livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal”, coordenado por @Susana Almeida Lopes e @Margarida Couto e, cuja apresentação amanhã (29.11) partilharei com a @Helena Pita Soares, @José Sintra e @Paulo Simões (informações/inscrições aqui).

Pois como Baldwin afirmou: “nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado”.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Psicologia – Uma ciência e uma profissão recurso do país (Sábado; Ao redor…; 14.11.2022)

Há palavras e expressões não de língua portuguesa que, também porque as fomos ouvindo e usando no dia-a-dia, temos dificuldade de traduzir em palavras portuguesas capazes de abarcar todo o seu significado. Pensemos em ferry, briefing ou startup. Pensemos em hub. Habitualmente associamo-lo à aviação, porque, com regularidade, vamos ouvindo a expressão “Hub de Lisboa”, associada ao Aeroporto Humberto Delgado, por este se assumir como um centro de conexão e distribuição de passageiros. Apesar da associação mais ou menos automática à aviação, existem outros hubs, por exemplo, de ciência.

Em 2007, John Cacioppo escreveu um importante artigo que tratava os 7 hubs identificados da ciência. O artigo (“A psicologia é um hub de ciência”) termina com uma relevante passagem que sublinha que a “centralidade da ciência psicológica pode ainda não ser totalmente compreendida pelos decisores políticos”, mas que a evidência era já clara, dado que “o mapeamento da ciência demonstra a psicologia como uma disciplina hub com muito a oferecer a outras disciplinas científicas (mas também a aprender)”. Ora, num momento de crescente complexidade dos desafios que se colocam às pessoas e à sociedade (pensemos na incerteza e stresse, na pobreza, na exclusão ou na crise climática), são fundamentais respostas integradas, informadas pela melhor evidência científica disponível e de foro interdisciplinar, com participação e colaboração de diferentes áreas científicas, incluindo a ciência psicológica.

Venho defendendo que, além de um hub de ciência, a psicologia se deve assumir como um hub enquanto profissão. Enquanto grupo profissional com muito a oferecer a outras actividades profissionais (e a aprender, claro está), às pessoas e sociedade no geral. Isto implica que as e os profissionais o assumam e se empenhem em diferentes áreas, reforçando a disseminação e a utilização do conhecimento e contributo da ciência psicológica junto de outros grupos profissionais. Nas equipas multidisciplinares, desde logo, diferenciando e valorizando as respostas com contributo da ciência e dos actos psicológicos. Também na consultoria e apoio às lideranças das diversas organizações, com maior inclusão do conhecimento da área nas práticas e maior sensibilidade às questões relacionadas com a saúde e bem-estar das equipas. Ainda junto das decisoras e decisores políticos, na informação a políticas públicas, promovendo a sua eficácia e eficiência. Na promoção de competências e no desenvolvimento das pessoas ao longo de toda a vida ou, até, nas dimensões de cidadania das psicólogas e psicólogos, nas suas actividades e participações no dia-a-dia além das profissionais. Finalmente, quando também estas e estes profissionais lideram e têm a oportunidade de tomar decisões que influenciem grupos ou comunidades, algo que numa profissão ainda jovem no contexto português tenderá a acontecer mais num futuro breve.

Venho defendendo que tal depende do envolvimento da profissão com as dimensões associadas aos desafios individuais que se colocam a uma pessoa em específico, em complementaridade, com os desafios societais que condicionam os individuais e que podem estimular ou comprometer a possibilidade de saúde (incluindo a saúde mental), bem-estar e autodeterminação das pessoas e a equidade, justiça e coesão social da sociedade. Venho defendendo que isso implica mais ciência psicológica centrada nos desafios societais, melhor disseminação, comunicação e democratização do conhecimento da psicologia junto de diferentes áreas da sociedade civil e que isso deriva da capacidade de, enquanto profissionais, as psicólogas e psicólogos participarem em diferentes processos de participação pública, incluindo junto da comunicação social, e colaborar nas mais diversas iniciativas, incluindo políticas.

Se assim for, considerando o aumento galopante da investigação e da evidência científica disponível a partir da ciência psicológica (700% no período entre 1980 e 2014) e do número de profissionais (estimativa de aumento de 19% no Mundo e 67% em Portugal entre 2014 e 2024), a psicologia, enquanto ciência e profissão, pode ser no Mundo e particularmente em Portugal um importante recurso. Um porto de abrigo. Quando ainda vivemos as consequências de uma pandemia por COVID-19 ainda inacabada; quando aumenta o número de pessoas a viver situações de privação e em situação de pobreza e estamos sentimos uma nova crise socioeconómica; quando vivemos um tempo líquido, marcado pela complexidade, pela incerteza e pela insegurança associada, entre outros, aos novos riscos de guerra(s) ou à crise climática; pensar o presente e o futuro de Portugal deve conduzir-nos à exigência do melhor aproveitamento dos recursos e, nesse sentido, a ser mais estimulado e possibilitado o contributo das/os 26.000 psicólogas e psicólogos e garantidas mais e melhores condições para o mesmo, fazendo jus ao investimento do país e das famílias nas últimas décadas na formação e no desenvolvimento deste grupo profissional inestimável do país.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a psicologia, enquanto hub científico e profissional, é hoje um importante porto de abrigo para as pessoas e para a sociedade. Porto de abrigo, porque protector nos desafios e “tempestades” individuais, no apoio a pessoas e famílias, ao longo de todo o ciclo de vida e numa proximidade fundamental para suporte aquando das adversidades e necessidade de adaptação e desenvolvimento. Porto de abrigo, porque aberto ao Mundo e ao que é a concretização, em Portugal, da carta de direitos humanos e dos objectivos do desenvolvimento sustentável, influenciando e promovendo a compreensão dos desafios e a mudança societal necessária num caminho para uma sociedade de maior equidade, justiça e coesão social. Porto de abrigo, porque capaz de se ir construindo e reinventando, adaptando-se a novas necessidades, a novos desafios ou a novas realidade, nomeadamente as que se relacionam com o crescente papel da tecnologia na sociedade. Porto de abrigo, finalmente, porque em tempos desafiantes, de imprevisibilidade e de menor controlo e segurança, é um recurso confiável e fundamental à promoção da saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas e ao desenvolvimento sustentável do país.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 14.11.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/psicologia–uma-ciencia-e-uma-profissao-recurso-do-pais

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COVID-19 Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Um estado completo?

“Um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”.

Esta definição de saúde, amplamente disseminada e reconhecida, é anterior à publicação por Watson e Crick do artigo onde é descrita uma (nova) “estrutura de espiral dupla”, por eles apelidada de “chave da vida”. A definição data da constituição da @World Health Organization em 1946 (75 anos) sendo, portanto, anterior a 1953, ano em que essa descoberta do DNA revolucionou a saúde (e a nossa vida), considerando a sequenciação do genoma humano que se seguiu e a nova medicação e vacinas que possibilitou, por exemplo na pandemia por COVID-19.

Apesar de datada, a definição frisa um “não apenas a ausência” fundamental a compreendermos a saúde em toda a sua amplitude e a saúde mental, particularmente na sua relação com o bem-estar. No entanto, o “estado de completo” parece não-conforme o que sentimos dia-a-dia, as naturais oscilações no nosso bem-estar “físico, mental e social” pelo que, recentemente, Bircher apresentou uma proposta de reformulação mais ajustada ao que hoje sabemos (e vivemos): “um estado dinâmico de bem-estar, caracterizado por um potencial físico e mental que satisfaz as necessidades vitais de acordo com a idade, cultura e responsabilidade pessoal”.

A ideia de dinamismo (e, logo, a possibilidade da sua promoção), de potencial (mobilizado ou não a cada momento), a ponderação da idade e das necessidades a ela ajustadas, além das questões culturais (também da comunidade) e da responsabilidade pessoal (envolvendo a literacia) são elementos fulcrais a pensarmos a saúde e a saúde mental.

Elementos reflecitdos, de forma simples (espero e creio, não simplista) e descontraída (por vezes até divertida), numa conversa que partilho e sobre a qual amanhã passa um mês. Conversei com o António Raminhos, com moderação da @Isabel Silva, na iniciativa de apresentação pública da colaboração entre a @Multicare (@Fidelidade) e a @Ordem dos Psicólogos Portugueses, no âmbito da promoção da saúde e da saúde mental, também pela nova abordagem compreensiva aos temas, com inclusão significativa da psicologia (todas as suas áreas de actividade), enquanto oferta dos seguros de saúde e com foco na prevenção e promoção da literacia (mais informações aqui).

Uma conversa e, essencialmente, um trabalho conjunto que, “qual estrutura de espiral dupla”, afirma a pessoa na relação com o contexto, as dimensões físicas na relação com as dimensões psicológicas e momentos em que a espiral se move em sentido positivo e outros em sentido negativo.

Porque não, nem sempre estamos bem, nem sempre podemos estar (e temos) que estar bem. Porque sim, por vezes necessitamos de ajuda. De nos ajudarmos, cuidando-nos mais. Que nos ajudem, pessoas próximas ou, também por vezes, profissionais capacitadas/os e motivadas/os para tal.

 

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COP27 e as comemorações dos dias Universal dos Direitos da criança e da memória das vítimas da estrada

Quando na principal via de acesso à bonita cidade de Évora olhamos à esquerda, ali o encontramos. Ali, onde tantas vezes passei, a caminho ou no regresso da Escola e bairro onde trabalhei os primeiros (significativos) anos, enquanto psicólogo e coordenador de um projecto. Jardim da memória, memória de tantas vidas interrompidas, brutalmente perdidas na e pela estrada. Bairro e Escola, memória minha de como as circunstâncias, também e ainda em Portugal, desafiam e limitam Direitos das crianças. Ontem, dia final da COP27, comemorou-se o Dia Mundial em memória das vítimas da estrada e o Dia Universal dos Direitos das crianças.

Comemorações que, creio, podem dar-nos uma importante pista para reflectir sobre os limitados resultados da COP27. “Foi dado um passo muito curto para os habitantes do Planeta” disse Guterres. Apesar da declaração final afirmar finalmente a “necessidade imediata de recursos financeiros novos, adicionais, previsíveis e adequados para ajudar os países em desenvolvimento que são particularmente vulneráveis” às alterações climáticas, não tem avanços significativos (pelo contrário) na redução de emissões de gases com efeito estufa. Acordo e consenso mínimo, na compreensão do problema, seus impactos e da necessidade de reparação. Desacordo na mudança e transformação necessária à redução de emissões, também pela dificuldade em conceber a mudança de foco nos combustíveis fósseis em simultâneo com a promoção da possibilidade de bem-estar.

A pista resulta da forma como estas comemorações demonstram a compatibilidade potencial das mudanças estruturais com a maior possibilidade de bem-estar. Assim foi e é com a progressiva operacionalização da Carta dos Direitos das crianças, quando se coloca o foco, exactamente, nas crianças. Assim foi e é com a redução das vítimas da estrada, particularmente quando se desenham cidades com o foco na pessoa (peões) e não no carro (tráfego).

Em 2019 (2020/21 são anos atípicos) morreram em Portugal 74 pessoas atropeladas. Nos últimos anos, mais de 10 pessoas por ano em média apenas em Lisboa. Também em 2019, Oslo e Helsínquia não tiveram qualquer morte por atropelamento e Londres está a implementar um plano com esse objectivo. Procura mudar o foco da “melhoria do tráfego” para as “pessoas primeiro” e, além de uma redução significativa dos atropelamentos (e mortes), tem resultado na diminuição do número de carros por família, dos crimes na rua e na maior utilização do espaço público para brincar e andar.

Num e noutro caso exemplos de como mudar o foco pode estimular (e não diminuir) a possibilidade de bem-estar. Um e outro caso a fazerem-nos recordar que mudar é difícil, mas possível, particularmente se envolver as pessoas. Que um foco em energias renováveis e nas possíveis e necessárias reduções, com apoio aos países com maiores vulnerabilidades, é exequível e pode, em simultâneo, ser promotor da possibilidade de bem-estar e do desenvolvimento sustentável de cada país e do Mundo.

Pelo que esperamos?

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COP27

Poderemos “vencer” o(s) desafio(s) da crise climática? Sim, podemos.

Datam do ano em que nasci (1983) duas publicações que me ajudam a pensar a crise climática no período que levo de vida:

a) O relatório “Changing climate” [Mudança climática] da Comissão de Avaliação do Dióxido de Carbono que no sumário executivo já dizia/previa: “se um alarme global relativo ao aumento de 3 ou 4 graus acontecer nos próximos 100 anos, é provável um aumento do nível do mar de 70cm (…) devido às enormes incertezas e implicações significativas, é importante confirmar os preditores das alterações climáticas o mais precocemente possível para melhorar a sua precisão (…) e o desenho de programas de monitorização;

b) O artigo de B. Page e R. Shapiro “Effectts of Public Opinion on Policy” [Efeitos da Opinião Pública na Política] que demonstrava o quanto e a forma como a opinião pública pode influenciar a política e as políticas.

 

Sim, podemos. Tornando saliente e prioritária a crise climática e as medidas (e monitorização) para a sua mitigação. Aumentando a informação e literacia da opinião pública e procurando promover atitudes pró-ambientais nas pessoas, que, simultaneamente, estimulem mudanças comportamentais individuais e na sociedade e pressionem governos e organizações para a mudança, valorizando-a e recompensando-a.

 

Sim, podemos. De 2019 a 2022 mantemo-nos “numa auto-estrada para o inferno com o pé no acelerador”, conforme apropriadamente A. Guterres referiu na COP27. Daí para cá, com a “International Summit on Psychology and Global Health – A leader in climate action” (Lisboa; 2019) e com a participação, já através da Global Psychology Alliance resultante da Summit, na COP26 e agora na COP27, temos procurado, mais regular e assertivamente, afirmar o contributo indispensável da psicologia enquanto ciência e profissão neste complexo desafio societal.

 

Sim, podemos. Com maior compreensão de como as pessoas se comportam e tomam decisões e do que pode estimular mudanças assentes nas comunidades, na solidariedade e no bem-estar. Com mais investimento nos processos de adaptação e promoção de resiliência individual e comunitária para responder às incertezas e iniquidades que advirão. Com mais e mais eficaz suporte emocional às pessoas vítimas de catástrofes. Com mais políticas públicas informadas pela ciência (também psicológica). Cuidando, particularmente na população mais jovem e com maiores vulnerabilidades, das consequências na saúde mental e bem-estar da interiorização e do confronto no presente e para o futuro com os problemas ambientais.

 

Sim, Podemos. E sim, devemos reforçar o contributo de cada um/a para tal.

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Psicologia, porto de abrigo.

Ferry, briefing ou start-up. ”Há palavras e expressões não de língua portuguesa que, também porque as fomos ouvindo e usando no dia-a-dia, temos dificuldade de traduzir em palavras portuguesas capazes de abarcar todo o seu significado.” Hub.

 

Venho defendendo que, além “de um dos sete hubs de ciência”, a psicologia “se deve assumir um hub enquanto profissão. Enquanto grupo profissional com muito a oferecer a outras actividades profissionais (e a aprender, claro está), às pessoas e sociedade no geral.”

 

“Psicologia – Uma ciência e uma profissão recurso do país”, 45º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) sublinha-o, reforçando que tal depende “da disseminação e utilização do conhecimento e contributo da ciência psicológica junto de outros grupos profissionais”, nas equipas multidisciplinares (…) na consultoria e apoio às lideranças (…) e junto das decisoras/es políticos.” Também “na promoção de competências e no desenvolvimento das pessoas ao longo de toda a vida (…), nas dimensões de cidadania das psicólogas e psicólogos, nas suas actividades e participações no dia-a-dia além das profissionais (…) e quando também lideram e têm a oportunidade de tomar decisões que influenciem grupos ou comunidades”.

 

Venho defendendo que, “quando ainda vivemos as consequências de uma pandemia por COVID-19 ainda inacabada; quando aumenta o número de pessoas a viver situações de privação e em situação de pobreza e estamos sentimos uma nova crise socioeconómica; quando vivemos um tempo líquido, marcado pela complexidade, pela incerteza e pela insegurança associada, entre outros, aos novos riscos de guerra(s) ou à crise climática; pensar o presente e o futuro de Portugal deve conduzir-nos à exigência do melhor aproveitamento dos recursos e, nesse sentido, a ser mais estimulado e possibilitado o contributo das/os 26.000 psicólogas e psicólogos e garantidas mais e melhores condições para o mesmo.”

 

Venho defendendo que “a psicologia, enquanto hub científico e profissional, é hoje um importante porto de abrigo para as pessoas e para a sociedade. Porto de abrigo, porque protector nos desafios e “tempestades” individuais, no apoio a pessoas e famílias, ao longo de todo o ciclo de vida e numa proximidade fundamental para suporte aquando das adversidades e necessidade de adaptação e desenvolvimento. Porto de abrigo, porque aberto ao Mundo e ao que é a concretização, em Portugal, da carta de direitos humanos e dos objectivos do desenvolvimento sustentável, influenciando a mudança societal necessária a maior equidade, justiça e coesão social. Porto de abrigo, porque capaz de se ir construindo e reinventando, adaptando-se a novas necessidades, novos desafios ou a novas realidades. Porto de abrigo, finalmente, porque em tempos desafiantes, de imprevisibilidade e de menor controlo e segurança, é um recurso confiável e fundamental à promoção da saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas e ao desenvolvimento sustentável do país.”

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Educação Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política

1000 dias (Sábado; Ao redor…; 26.10.2022)

“Há mais 256 mil pessoas em Portugal a viver em risco de pobreza e exclusão” em 2021, face a 2020, de acordo com os dados do inquérito às condições de vida e rendimento do Eurostat. Mais 256.000 pessoas, em grande parte, resultado da pandemia por COVID-19, que contribuiu decisivamente para a interrupção de um período de decréscimo entre 2014 e 12019 deste e de outros indicadores relacionados com a pobreza, risco de pobreza e exclusão. Ouvimos e revimo-nos neste aumento do número de pessoas e famílias expostas a situações de escassez e pobreza. Também a exclusão e privação material e social, que também aumentou, tal como a desigualdade. Revimo-nos, porque o sentimos, grande parte de nós nas nossas famílias, todos na sociedade. Revimo-nos porque muitas vezes lhes acrescentamos nomes e situações concretas. Isto, pese embora, como o economista Carlos Farinha Rodrigues bem disse num debate em que participei a propósito do tema da pobreza, quando olhamos estes dados, “olhamos sempre pelo espelho retrovisor”.

Há? Havia, porque, em Outubro de 2022, quando conhecemos estes dados relativos a 2021, considerando agora os efeitos da crise socioeconómica resultante da maior inflação das últimas três décadas, podemos intuir que o número de pessoas nestas situações será, certamente, bem diferente dos números que discutimos e resulta num aumento de situações de privação, muitas vezes de desespero, em muitas famílias. E, importando olhar os dados, ainda que retrospectivamente, pensar a actual situação implica olhar prospectivamente o que poderemos esperar de consequências deste exigente momento. Destaco, além do risco potencial de quebra de equidade e coesão social, duas que podem contribuir para uma maior dificuldade de saída desta situação no futuro e a consolidação e reprodução de ciclos geracionais de situações de pobreza nos mesmos agregados familiares.

A primeira toca o sofrimento psicológico resultante do actual contexto e a forma como ele pode potenciar o stresse, mas também situações de ansiedade e depressão. Estes problemas de saúde mental relacionam-se de forma cíclica e forte com fenómenos sociais complexos como a precariedade, a exclusão e a pobreza, algo que determina que a probabilidade do seu desenvolvimento é até três vezes superior em crianças e adultos de contextos com os mais baixos rendimentos. Assim, é possível prever que, caso suceda o que sucedeu na crise socioeconómica do início da anterior década, quando não houve reforço do apoio na área da saúde mental às pessoas em maior vulnerabilidade, esta situação resulte num aumento e agravamento dos problemas de saúde mental. E, consequentemente, numa maior probabilidade de manutenção ou queda destas pessoas em situação de precariedade, exclusão ou pobreza. Este ciclo resultará em níveis superiores de sofrimento, conduzirá a uma menor disponibilidade emocional das pessoas para o processo de recuperação (económica) que se sucederá à crise e a custos superiores no potencial apoio à saúde mental destas pessoas mais tarde, pela maior complexidade da intervenção se o problema se instalar e cristalizar. Neste sentido, importa, no presente, além de priorizar o apoio económico às pessoas com maior vulnerabilidade, priorizar também a disponibilização de apoio em proximidade e contingência na área da saúde mental, preferencialmente reforçando com urgência o número de profissionais da área da saúde mental associados aos centros de saúde e restantes unidades de cuidados de saúde primários e investindo no desenvolvimento de competências sócioemocionais, particularmente, mas não apenas, junto de crianças e jovens.

A segunda toca um conceito que tem ganho maior densidade, a partir de um conjunto cada vez mais significativo de investigação: os 1000 dias. Por 1000 dias entende-se o período dos 9 meses de gestação de um bebé e os seus primeiros dois anos de vida (extrauterina), período particularmente sensível no desenvolvimento e que corresponde, em simultâneo, a uma janela de oportunidade ou de vulnerabilidade com impacto ao longo de toda a vida, porquanto impacta o desenvolvimento neurológico (cerebral) e biológico. Ora, a investigação tem demonstrado com acutilância a forma como o stresse que chega ao bebé em gestação, associado ao facto de mães viverem a gravidez em contexto de escassez, exclusão e/ou pobreza, tem um impacto significativo no desenvolvimento do bebé. Estes bebés, no seu dia 0 de vida, têm já um gap negativo, uma desvantagem, face a bebés cuja gestação decorre noutro tipo de contextos com menor exposição à adversidade e ao stresse dela resultante. Este processo é, muita vezes, continuado e aprofundado nos primeiros dois anos de vida quando se mantém este stresse e, a ele, não raras vezes, se associam dificuldades de alimentação e má nutrição, falta ou uma menor estimulação e a ausência de capacidade ou oportunidade de mobilização de competências parentais por parte das cuidadores e dos cuidadores, resultando numa desvantagem no final dos 1000 dias já particularmente significativa entre crianças expostas a contextos com níveis de adversidade distintos. Esta desvantagem impacta todo o processo de desenvolvimento, a educação e a saúde ao longo de todo o ciclo de vida, conforme estudos longitudinais têm demonstrado.

A ideia de um bebé nascer já com uma desvantagem, expressa no desenvolvimento (menor) das suas estruturas biológicas e neurológicas, corresponde a uma gravíssima injustiça social que nos deveria mobilizar. Particularmente num país de baixa natalidade e com desafios exigentes na sua demografia, deveríamos procurar, no presente para não condicionar o futuro de novos cidadãos, respostas assertivas que pudessem proteger e apoiar com maior intensidade os “agregados familiares dos 1000 dias”, reduzindo a sua exposição a situações de escassez, potenciando as licenças de maternidade e paternidade e melhorando o acesso e a qualidade das creches.

Duas áreas de actuação, sustentadas na ciência e que tornadas prioridade e política no presente, garantiriam mais possibilidades de futuro e maior possibilidade de mobilidade social de pessoas e famílias da actual geração e das gerações seguintes. Duas áreas de actuação que apontariam a dois problemas estruturais do país (a elevada prevalência de problemas de saúde mental; a elevada pobreza e a sua reprodução geracional), que condicionam o crescimento económico e o desenvolvimento sustentável, a equidade e a coesão social. Que condicionam a dignidade das pessoas e a sua possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental, conforme objectivo da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 21-30, fazermos da erradicação da pobreza desígnio. Um objectivo exigente, mas possível, conforme o caminho percorrido nas últimas décadas. Um desígnio que exige a participação de todos e que se inicia com as conversas que podemos ter e que devemos promover em diversos contextos. Que se inicia tornando este assunto saliente e presente no espaço público, na acção de diversos grupos profissionais, na investigação de diversas equipas de investigação e no dia-a-dia de lideranças e de decisoras e decisores. Que se concretiza com a mobilização da sociedade civil e com políticas públicas mais informadas pela ciência e, por isso, mais eficazes e eficientes no presente, que contribuam para um futuro melhor para todos.

 

1000 dias

in Sábado (Ao redor…); 26.10.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/1000-dias

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“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.”

“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.”

Ainda na primeira página de “O Amante”, seu romance autobiográfico, Marguerite Duras resume-nos em 8 palavras uma vida. Uma vida mais em que muito cedo era já tarde demais.

Tenho, por diversos motivos, pensado nesta passagem e no que ela significa. E, talvez paradoxalmente, pensado não apenas no que mais automaticamente me (creio nos) suscita (o que cedo nas nossas vidas nos pode impedir de nos cumprirmos, autodeterminarmos, viver em plenitude e com saúde e bem-estar ao longo da vida) mas também no que de estímulo comporta para que possamos cedo, senão muito cedo, agir e intervir para que não se torne tarde ou tarde demais.

Quem aqui me lê, ou quem partilha de forma mais próxima o seu dia-a-dia comigo, sabe que um desses motivos trata a forma como venho reflectido as questões associadas às situações de pobreza e exclusão e a sua relação com outros desafios societais complexos, com a saúde mental e com as políticas públicas. Como impactam toda a vida, de todas as pessoas e da sociedade e como são determinantes fundamentais da educação, saúde e bem-estar ao longo da vida.

Sabe também quem há dias, entre a comemoração do Dia Mundial da Saúde Mental e do Dia Internacional da Erradicação da Pobreza (a 15.10.22), me ouviu conversar com a Carla Rocha no episódio do Quarto do Fundo (parceria da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses) que partilho. O destaque da editora, também em 8 palavras, foca algo essencial: “Investir na saúde mental para prevenir a pobreza”. Refere ainda o papel da promoção do autocuidado, das competências e das relações sociais como fundamental à prevenção da violência, da pobreza e de todo o tipo de processos de exclusão. Cedo, muito cedo, para não ser tarde, tarde demais.

Também procurarei que o saiba quem, na próxima segunda-feira, participe nas II Jornadas do Serviço de Psicologia Centro Hospitalar Universitário de São João, onde, em conferência, abordarei o projecto “.Final à pobreza” (informações/inscrições aqui). Fá-lo-ei a convite do Eduardo Carqueja, a quem muito agradeço, não apenas o convite e confiança, mas a forma como, em conjunto com toda a equipa do Serviço de Psicologia que coordena, dia-a-dia nos demonstra, também ali, as mais-valias de uma organização de serviços de psicologia com autonomia nas estruturas do SNS. Mais-valias na qualidade de resposta aos cidadãos, multidisciplinariedade das intervenções e sustentabilidade da própria organização. No representa, significa e permite de valorização e desenvolvimento profissional às psicólogas e psicólogos que o integram. A quem agradeço por demonstrar que não é muito cedo, mas também não é tarde demais, para generalizarmos o modelo e disso beneficiarem pessoas e sociedade.

Um momento mais para reflectirmos juntos, espero, que devemos intervir e agir muito cedo, para que não seja tarde… Ou, ao mesmo, cedo para que não seja tarde demais.

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Democracia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política

7-0 ao FMI mas que resultado no combate à Pobreza? (CNN Portugal; 17.10.2022)

Ao contrário do futebol, a pobreza não tem um lado que vence e outro que perde ou lados que empatam. Com a pobreza, todas e todos perdem. As pessoas que a vivem e que são privadas da sua dignidade, da sua possibilidade de saúde e bem-estar, de desenvolvimento e autodeterminação. As pessoas que, neste momento, não a vivendo, são parte da sociedade que a gera, reproduz e, por vezes, a esconde, tornando-se mais desigual, menos justa e coesa e logo menos promotora de equidade e de possibilidades para todas as pessoas. As instituições, particularmente os governos democráticos, que, não a erradicando, se desacreditam e fragilizam, geram desconfiança e menor participação e distanciam-se das necessidades e expectativas das pessoas, particularmente as com maiores vulnerabilidades, alimentando a polarização e o ódio às outras e aos outros. A pobreza, conforme alguns partidos procuram ser, é um fenómeno catch all, “apanha” todas e todos.

Os “7-0”, ironia de António Costa a propósito da maior aproximação das previsões económicas do Governo face às do FMI, não tem paralelo com as previsões do Governo face às de outros organismos a propósito da evolução anual do risco de pobreza e exclusão. A razão? O governo não prevê. Estabelece um objectivo para 2030 (“redução para 10% da população”), expresso no Programa de Governo com remissão para a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 mas, apesar de estimar no quadro macroeconómico e no Orçamento do Estado o PIB, a inflação, a evolução da taxa de desemprego, remunerações médias e até o preço do petróleo não prevê o impacto das medidas a que se propõe e da evolução dos indicadores socioeconómicos na percentagem de pessoas que em Portugal viverão em situação de pobreza (ou risco de pobreza) e exclusão em 2023.

Não o faz. Como, e apesar de ter já implementado um conjunto de importantes medidas que nela constam, não teve ainda oportunidade de nomear a coordenação e a comissão de acompanhamento da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, estratégia aprovada e publicada ainda em 2021 e que prevê, no seu articulado, que até Junho de 2022 essa comissão (ainda inexistente) apresentaria o Plano de Acção 2022-2025. Nem coordenação, nem comissão, nem plano, duas propostas de Orçamento do Estado (2022 e 2023) depois para anos com a maior taxa de inflação das últimas três décadas (2022) e, em previsão, uma das maiores deste período (2023) e quando sabemos que a “inflação real” que incide sobre a população com maior escassez económica é significativamente superior à taxa de inflação (média). Nem coordenação, nem comissão, nem plano, num período em que a trajectória descendente dos indicadores de pobreza, consistente de 2014 a 2019, se inverteu, tendo a taxa de risco de pobreza (após transferências sociais) medida pelo INE aumentado de 16.2% em 2019 para 18,4% em 2020 e a de risco de pobreza ou exclusão social medida pelo Eurostat aumentado de 20% em 2020 para 22,4% em 2021, passando Portugal do 13º para o 8º país da União Europeia com maior percentagem de população nesta situação.

Previmos, mas podemos prever muito mais. Decidimos e aplicamos medidas, algumas delas relevantes, mas podemos decidir e fazer muito mais. Desenhamos e publicamos estratégias, mas podemos operacionalizar e concretizar muito mais. Isto implica priorizarmos o combate à pobreza, intencionalizá-lo e considerá-lo em todas as políticas (públicas). Implica uma atitude de não complacência com a pobreza, com a não utilização e operacionalização dos instrumentos ao nosso dispor para a sua erradicação e com a ineficácia de políticas (públicas) neste âmbito.

Assim pode ser amanhã. Dia que se segue ao dia em que celebramos globalmente o objectivo da erradicação da pobreza e em que, um pouco por todo o Mundo e em Portugal existirão manifestações de intenções, apresentação de propostas e debate público neste domínio. Amanhã e depois podemos concretizar as intenções, implementar as propostas e, particularmente, continuar e aprofundar este debate, tornando-o persistente e saliente, onde hoje é estranhamente ausente, considerando que a pobreza e a pobreza multidimensional (a que não se refere apenas à dimensão económica e que remete para a escassez de acesso à educação, saúde e condições de vida consideradas mínimas necessárias) é um dos principais determinantes da saúde (e da saúde mental), da educação ou da justiça. Amanhã comecemos por mobilizar a sociedade civil e considerar os diversos contributos, porque apenas com todas e todos podemos tornar o combate à pobreza desígnio nacional (conforme a Estratégia bem prevê) e vencer este complexo desafio. Complexo, mas possível, assim o queiramos e assim, com determinação, estimulemos, permitamos e utilizemos o contributo de pessoas e organizações investidas neste objectivo.

Um exemplo, as psicólogas e psicólogos em Portugal e a Ordem dos Psicólogos Portugueses. Considerando os contributos da ciência psicológica nesta área (nomeadamente os impactos da escassez no desenvolvimento, capacidade cognitiva e de planeamento e tomada de decisão) e a associação cíclica e forte entre situações de pobreza e exclusão e problemas de saúde mental (stresse, ansiedade e depressão), a Ordem dos Psicólogos Portugueses encontra-se a promover o projecto .Final à Pobreza, visando um mais intencional e informado contributo da ciência e da profissão para um ponto final à pobreza. Projecto que resultará numa estratégia que visará mais e melhor formação e recursos para a prática de psicólogas e psicólogos nesta área e contributos para a promoção de literacia na sociedade civil sobre este fenómeno, as suas causas, consequências e formas de o mitigar. Projecto que contribuirá para melhor informação para o desenho de políticas públicas nesta área e para promover redes de cooperação nacional e internacional junto do que é, não por acaso, o primeiro dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Tudo porque o dia que hoje se celebra deve ser o nosso dia-a-dia. Toda e qualquer pessoa, independentemente da idade ou condição socioeconómica, é impactada pela sua situação de pobreza actual, potencial ou pelas situações de pobreza ao seu redor. Toda e qualquer pessoa tem um papel na sua erradicação, algo possível, conforme o caminho percorrido nas últimas décadas no Mundo demonstra, mas que depende de essa ser (a) prioridade das prioridades de todas e todos.

Continuamos amanhã?

Tiago Pereira

 

7-0 ao FMI mas que resultado no combate à Pobreza?

in CNN Portugal; 17.10.2022

https://cnnportugal.iol.pt/tiago-pereira/pobreza/tiago-pereira-7-0-ao-fmi-mas-que-resultado-no-combate-a-pobreza/20221017/634d2ca80cf2f9a86ebafb96

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Comportamento Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia Tomada de Decisão

O Hub Psicologia: Uma ciência e uma profissão ao serviço das pessoas e da resposta aos principais desafios societais

“Esse cientista de depois de amanhã terá um escrúpulo especial pela sua própria vida interior.” Excerto do Livro do Desassossego (Bernardo Soares), mote (final) da conversa de ontem, a propósito de como a complexidade, a incerteza e os desafios individuais e societais do tempo que vive(re)mos implicam maior interdisciplinariedade e beneficiam de uma psicologia porto de abrigo.

“O Hub Psicologia: Uma ciência e uma profissão ao serviço das pessoas e da resposta aos principais desafios societais” foi o título da conferência e mesa (com a Dora Pereira) do “II Congresso dos Psicólogos da Madeira | Resiliência e Superação – A Psicologia na construção da paz, do bem-estar e da coesão social”. Conferência que resulta (muito agradeço pela confiança e oportunidade) do convite do Renato Gomes Carvalho e da equipa da Delegação Regional da Madeira, que tem desenvolvido um especialmente meritório e impactante trabalho na sociedade da RA da Madeira, conforme foi reconhecido e valorizado pelos Presidente da Câmara do Funchal, do Governo Regional e da Assembleia Legislativa da Madeira.

A conferência partiu do que atrás referi, do artigo do J. Cacioppo (“Psychology as a hub science”) e de 3 constatações suas: desde 2005 a psicologia é considerada um dos 7 hubs de ciência; enquanto ciência e prática é muito mais que a visão que dela existia, muito baseada no Dr. Phil; embora não totalmente compreendida, tinha já muito a oferecer (e a aprender) a/com outras áreas científicas. Tocou ainda o crescimento exponencial da investigação em psicologia (700% de 1980 a 2014) e do número de psicólogas e psicólogos no Mundo (+19%) e em Portugal (+67%), previsto para a década 2014-2024.

Passou pelo símbolo de infinito, não pelo crescimento potencial futuro, antes pelo pensamento sobre a relação passado-presente-futuro e a perspectiva de diferentes momentos de intervenção da psicologia. De complementariedade entre a procura da mudança individual (muitas vezes com intervenções clínicas, remediativas e individuais) e da mudança societal (macro), particularmente sobre os determinantes da possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação das pessoas e de equidade, justiça e coesão social.

Terminei com 6 pistas para um hub profissão: equipas multidisciplinares; consultoria a lideranças; trabalho com decisoras/es; capacitação e desenvolvimento das pessoas; psicólogas/os cidadã(o)s; assunção de papéis de liderança e tomada de decisão. Tudo num caminho de uma psicologia porto de abrigo, como recurso fundamental do país e espaço de apoio às pessoas nos seus desafios individuais e à sociedade nos desafios societais. Porto de abrigo que implica que cada psicóloga e psicólogo, cada dia e em cada contexto, reforce a identidade, o reconhecimento (de erros) e aprendizagem, a confiança, a valorização e desenvolvimento profissional e o auto e heterocuidado.

Assumamo-nos – com determinação, motivação e empenho, com responsabilidade e competência – porto de abrigo no presente e futuro.