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O Hub Psicologia: Uma ciência e uma profissão ao serviço das pessoas e da resposta aos principais desafios societais

“Esse cientista de depois de amanhã terá um escrúpulo especial pela sua própria vida interior.” Excerto do Livro do Desassossego (Bernardo Soares), mote (final) da conversa de ontem, a propósito de como a complexidade, a incerteza e os desafios individuais e societais do tempo que vive(re)mos implicam maior interdisciplinariedade e beneficiam de uma psicologia porto de abrigo.

“O Hub Psicologia: Uma ciência e uma profissão ao serviço das pessoas e da resposta aos principais desafios societais” foi o título da conferência e mesa (com a Dora Pereira) do “II Congresso dos Psicólogos da Madeira | Resiliência e Superação – A Psicologia na construção da paz, do bem-estar e da coesão social”. Conferência que resulta (muito agradeço pela confiança e oportunidade) do convite do Renato Gomes Carvalho e da equipa da Delegação Regional da Madeira, que tem desenvolvido um especialmente meritório e impactante trabalho na sociedade da RA da Madeira, conforme foi reconhecido e valorizado pelos Presidente da Câmara do Funchal, do Governo Regional e da Assembleia Legislativa da Madeira.

A conferência partiu do que atrás referi, do artigo do J. Cacioppo (“Psychology as a hub science”) e de 3 constatações suas: desde 2005 a psicologia é considerada um dos 7 hubs de ciência; enquanto ciência e prática é muito mais que a visão que dela existia, muito baseada no Dr. Phil; embora não totalmente compreendida, tinha já muito a oferecer (e a aprender) a/com outras áreas científicas. Tocou ainda o crescimento exponencial da investigação em psicologia (700% de 1980 a 2014) e do número de psicólogas e psicólogos no Mundo (+19%) e em Portugal (+67%), previsto para a década 2014-2024.

Passou pelo símbolo de infinito, não pelo crescimento potencial futuro, antes pelo pensamento sobre a relação passado-presente-futuro e a perspectiva de diferentes momentos de intervenção da psicologia. De complementariedade entre a procura da mudança individual (muitas vezes com intervenções clínicas, remediativas e individuais) e da mudança societal (macro), particularmente sobre os determinantes da possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação das pessoas e de equidade, justiça e coesão social.

Terminei com 6 pistas para um hub profissão: equipas multidisciplinares; consultoria a lideranças; trabalho com decisoras/es; capacitação e desenvolvimento das pessoas; psicólogas/os cidadã(o)s; assunção de papéis de liderança e tomada de decisão. Tudo num caminho de uma psicologia porto de abrigo, como recurso fundamental do país e espaço de apoio às pessoas nos seus desafios individuais e à sociedade nos desafios societais. Porto de abrigo que implica que cada psicóloga e psicólogo, cada dia e em cada contexto, reforce a identidade, o reconhecimento (de erros) e aprendizagem, a confiança, a valorização e desenvolvimento profissional e o auto e heterocuidado.

Assumamo-nos – com determinação, motivação e empenho, com responsabilidade e competência – porto de abrigo no presente e futuro.

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Tenho uma “memória profissional” com cerca de 5 anos que dificilmente esquecerei. Uma reunião (com a Isabel Trindade) com responsáveis da área dos seguros, onde procurávamos uma colaboração que permitisse maior sensibilização às seguradoras para a inclusão de actos na área da saúde mental, incluindo a psicologia. Pior que a ausência de abertura, foi o desconhecimento demonstrado sobre o trabalho das psicólogas e psicólogos e a desconsideração de algo com relevância social e ligação à saúde e bem-estar. Penso nisso e penso na forma como recordarão essas pessoas a reunião e a sua atitude.

Penso como terão visto a hoje maior seguradora na saúde em Portugal lançar em 01.11.2021 uma cobertura compreensiva na área da saúde mental, que inclui actos das/os psicólogas/os, nas suas diversas áreas de actividade, numa perspectiva de prevenção e promoção. Que os inclui através de uma rede e de um sistema de reembolso de 50% do valor das sessões (até 300€/ano) de profissionais fora da rede. Como terão visto que a seguradora tenha investido, também, na promoção do bem-estar, da literacia em saúde e saúde mental e no desenvolvimento de programas específicos para acontecimentos de vida, valorizando, na rede, as e os psicólogos especialistas com um valor/sessão melhorado.

Falo da Multicare. E falo de um trabalho de colaboração com a Ordem dos Psicólogos Portugueses que acompanhei e acompanho de forma próxima e que começou no início da pandemia por COVID-19. Colaboração com diversos marcos. A consultoria ao desenho da abordagem compreensiva à saúde mental e os primeiros artigos publicados. A simbólica (porque pela primeira vez a saúde mental foi tema neste evento da Fidelidade) participação que tive no “Pensar Maior – Saúde”, no Dia Mundial da Saúde, na sessão que partilho, onde estive com a Inês Pimenta de Castro.

Como foi, ainda, a assinatura do protocolo de colaboração ou a sessão da passada 3ªF, onde, além de intervenção da Alexandra Antunes, com quem tenho partilhado este trabalho, e do Francisco Miranda Rodrigues, participei numa conversa sobre saúde mental com o António Raminhos sob moderação da Isabel Silva. Conversa onde, reforçando a importância desta cobertura, sublinhei a necessidade do reforço urgente de psicólogas e psicólogos nos centros de saúde e outras unidades dos cuidados de saúde primários.

“Aquilo que são os nossos problemas não nos define. Nós não somos os nossos problemas. Nós temos problemas ou não temos problemas e, essencialmente, temos ou não temos recursos para lidar com esses problemas. E temos de ter recursos para lidar com esses problemas”. Assim fechei a intervenção no “Pensar Maior – Saúde”. Aqui está mais um, particularmente relevante. Juntos devemos exigir que os cuidados de saúde primários possam, verdadeira e rapidamente, ser outro. Outro, fundamental.

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20.10.22, Dia Mundial de Combate ao Bullying

“Porque o amor pela vida, gera amor pela vida.” Assim fecha um dos mais interessantes livros que li nos últimos anos. Uma frase muito marcante no contexto do livro e que, parecendo simples, encerra uma enorme complexidade associada ao facto de podermos substituir “amor pela vida” por diferentes e diversas expressões. Dois exemplos: complacência/aceitação do bullying | não-complacência/não-aceitação do bullying.

A forma como conseguimos (ou não) construir uma cultura de Escola e de sociedade que considere, sem qualquer ambiguidade, inaceitável a violência e o bullying em crianças e jovens (tal qual consideramos chover numa sala de aula) é factor preponderante para a prevenção deste grave fenómeno social que impacta significativamente as vítimas (muitas vezes, também no seu futuro), as e os agressores (idem) e os e as observadoras.

Esta foi uma das mensagens que procurei transmitir em entrevista à TSF que partilho a propósito do Dia Mundial de Combate ao Bullying, onde procurei sublinhar a importância das respostas concertadas ao nível de toda a Escola, naturalmente com ênfase e especificidades nas vítimas, mas também nas e nos agressores e observadores, bem como as características distintivas do bullying face a outras práticas agressivas (repetição; desequilíbrio de forças e/ou de poder; e intencionalidade clara de provocar sofrimento na(s) outra(s) ou outro(s)).

Também na entrevista foco o aumento de denúncias caracterizadas pelas forças de segurança como “ameaças e injúrias” (que ocorreu mesmo em anos onde a denúncia de agressões físicas diminuiu), para reforçar que a crescente sensibilização também leva a que hoje se considerem (bem) determinadas práticas como agressão ou violência quando antes assim não se considerariam (ou quem poderia denunciar não percepcionava que pudesse vir a produzir efeitos). Foco ainda o papel que a pandemia por COVID-19 terá tido no aumento de situações reportadas, quer no que se refere a alterações de comportamento resultantes da mesma e de uma intensificação dos problemas de saúde mental na população mais jovem, quer no aumento de situações de cyberbullying pela intensificação da utilização dos meios digitais (já pré-pandemia, mas principalmente com a pandemia). Algo que, conforme referi, comporta um “acréscimo de desafio” ao problema.

Outro desafio, que no mesmo dia mas em 2021 havia procurado sublinhar trata o papel de quem observa, no que aos impactos em si tem mas, particularmente, na baixíssima percentagem de observadoras/es que decide e concretiza a denuncia das situações. Enquanto comunidade, devemos dar segurança para esta denuncia e, essencialmente, dar significado à mesma…

Porque a não-complacência/não-aceitação do bullying, gera não-complacência/não-aceitação do bullying. Porque o seu contrário gera o seu contrário.

Mais informação: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_vamosfalarsobrebullying_documento.pdf

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Dia Internacional da Erradicação da Pobreza

“Continuamos amanhã?”, perguntava ontem a fechar o artigo que escrevi para a @CNNPortugal (ver abaixo) a propósito do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.

“Continuamos amanhã?”, pergunto, porque, nele refiro que “o dia que hoje [ontem] se celebra deve ser o nosso dia-a-dia. Toda e qualquer pessoa, independentemente da idade ou condição socioeconómica, é impactada pela sua situação de pobreza actual, potencial ou pelas situações de pobreza ao seu redor. Toda e qualquer pessoa tem um papel na sua erradicação, algo possível, conforme o caminho percorrido nas últimas décadas no Mundo demonstra, mas que depende de essa ser (a) prioridade das prioridades de todas e todos.”

“Continuamos amanhã?”, pergunto, porque, “ao contrário do futebol, a pobreza não tem um lado que vence e outro que perde ou lados que empatam. Com a pobreza, todas e todos perdem.” Pessoas, sociedade e instituições (democráticas). Também, porque, enquanto país, “previmos, mas podemos prever muito mais [nomeadamente o impacto de medidas na taxa de (risco de) pobreza, não considerada no quadro macroeconómico ou Orçamento do Estado]. Decidimos e aplicamos medidas, algumas delas relevantes, mas podemos decidir e fazer muito mais [particularmente na pobreza infantil e nas pessoas em situação de desemprego, sem apoios sociais]. Desenhamos e publicamos estratégias, mas podemos operacionalizar e concretizar muito mais. Tudo “isto implica priorizarmos o combate à pobreza, intencionalizá-lo e considerá-lo em todas as políticas (públicas). Implica uma atitude de não complacência com a pobreza, com a não utilização e operacionalização dos instrumentos ao nosso dispor para a sua erradicação e com a ineficácia de políticas (públicas) neste âmbito.”

“Continuamos amanhã?”, porque, conforme terminei a conversa de Sábado com a @Carla Rocha (Quarto do Fundo; Renascença) há, felizmente, “muitas pessoas e organizações sensibilizadas para esta problemática” e para um contributo para um ponto final à pobreza, título do projecto da @Ordem dos Psicólogos Portugueses (https://finalapobreza.pt) que visa um maior contributo da psicologia enquanto ciência e profissão para este complexo, mas possível, desafio societal.

“Continuamos amanhã?”, porque, pela relação cíclica e forte existente, conforme terminei a intervenção (que partilho) na Antena Aberta (@Antena 1) de ontem, o combate à pobreza depende de priorizarmos o apoio económico às pessoas em situação de escassez e maior vulnerabilidade, mas também de priorizarmos a promoção da saúde mental e bem-estar e apoiarmos de forma próxima e contingente as pessoas em sofrimento psicológico ou com doença mental.

Continuamos hoje, amanhã e depois?

Que o façamos pois, juntas e juntos, podemos contribuir para um ponto final à pobreza.

…

“7-0 ao FMI mas que resultado no combate à Pobreza?” [CNN Portugal: 17.10.2022]

 

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NPD – Normalização, polarização, democracia

Algumas semanas após Marcelo Rebelo de Sousa o ter solicitado, conhecemos em simultâneo com a proposta de Orçamento do Estado (OE), o cenário macroeconómico previsto pelo Governo para 2023. Contém perspectivas sobre o PIB, a inflação, o mercado de trabalho, financiamento e pressupostos como taxas de juro ou preço do petróleo. Nem nele, nem no próprio OE, constam indicadores (e sua variação) sociais como a pobreza e desigualdade ou psicológicos como o bem-estar. Se infelizmente ainda assim é, creio que assim não será sempre e que, indicadores fulcrais como estes para aferir as condições e qualidade de vida, serão mais considerados nas decisões políticas, respondendo-se mais a necessidades e expectativas das pessoas, algo fundamental à preservação da democracia.

“NPD – Naturalização, polarização, democracia”, 43º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) faz uso de 7 simplificações (“que julgo importantes e que procuro serem cuidadosas e simples, mas não simplistas”) para, a partir do trabalho pioneiro de Vygotsky, pensar a relação entre processos de normalização, polarização e (ameaças à) democracia. Democracia, “sistema que, apesar das suas vulnerabilidades, mais permite e promove o envolvimento de todas e todos, procura o desenvolvimento de uma sociedade inclusiva e aberta, assente na equidade e na coesão social e na promoção de saúde, incluindo saúde mental, bem-estar e possibilidade de desenvolvimento e autodeterminação.”

O artigo discute e exemplifica o “papel de outras e outros nos processos de normalização, no tornar real o que apenas era potencial” e o “facto de quando o outrora apenas potencial se torna real, automaticamente se criar outro potencial, mais distante.”

Pensa “a forma como a quebra de mediadores externos e sociais (jornalistas, por ex.) “entrega” a intermediação do estímulo–resposta à linguagem e simbólico de cada pessoa ou, quando muito, de cada grupo”. A forma como “as redes sociais determinam o fluxo de informação e influenciam a formação de opiniões e, até, identidades”. Como “a quebra generalizada de confiança (nas e nos outros, nos e nas decisoras e nas instituições) desafia a saudável separação entre factos e opiniões, questiona a ciência e factualidade, dificulta a discussão construtiva e a mobilização das pessoas para a causa pública.”

“Tudo a concorrer para a fragilização dos princípios democráticos e das democracias, enquanto sistema que vive da partilha de princípios comuns fundamentais.” Tudo a exigir que “compreendamos, escutemos e empatizemos com quem vota. Que criemos, em conjunto e com compromisso, políticas que respondam às necessidades e expectativas e atendam às vulnerabilidades económicas, sociais e psicológicas das pessoas. Que façamos da saúde mental e do bem-estar prioridades globais” contribuindo “para a confiança, credibilidade das instituições e qualidade da democracia” garantindo, assim, melhores condições para a promoção da saúde e para a possibilidade de bem-estar de todas e todos.”

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Tempo da Psicologia (Ao redor…; Sábado; 28.09.2022)

Faltam poucos dias para passarem quatro anos sobre esse 10 de Outubro de 2018. Nesse dia Mundial da Saúde Mental visitávamos um conjunto de projectos da Associação CRESCER. Acompanhamos uma equipa do “É uma rua” a um dos espaços da cidade de Lisboa onde intervém, de acordo com a metodologia de Redução de Riscos e Minimização de Danos. Como naquele dia, ouço-o contar-nos a sua história, que incrivelmente poderia ser a de quase todas e todos nós, como havia entrado e logo saído de diversas respostas e como acumulava diversas condições de vulnerabilidade: as suas dependências, particularmente de álcool e drogas, a sua condição de pessoa sem-abrigo, a sua solidão e problemas de saúde (significativos) variados. Ouço-o, como vejo, uma pessoa com especiais responsabilidades políticas que nos acompanhava, com uma sensibilidade que me impressionou, olhar a medicação que este senhor trazia num saco e mais tarde comentar, apenas connosco, que ali estavam muitas centenas, senão milhares, de euros investidos. Nesse e noutros momentos desse final de dia e noite de visita a outros projectos e pessoas apoiadas pela CRESCER, a clareza, pela realidade, do quão socialmente determinada é a saúde e do quão, sem promoção integrada da saúde e da saúde mental e sem apoio e integração social e comunitária das pessoas, não podemos aspirar a intervenções eficazes e à melhor utilização dos recursos disponíveis. Do quão pode ser relevante a psicologia, enquanto ciência e profissão, para a saúde e bem-estar das pessoas e para a sustentabilidade dos sistemas públicos.

Tempo da Psicologia. É este o mote que reúne em Aveiro, a partir de hoje, cerca de 1500 pessoas, maioritariamente psicólogas e psicólogos, para o 5º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Também quatro anos após o 4º Congresso e com uma pandemia por COVID-19, uma Guerra no continente europeu e uma nova crise socioeconómica no horizonte. Os mesmos quatro anos que passaram entre as eleições de 2018 e de Domingo em Itália e entre os 4% e os 26% do partido de direita nacionalista “Irmãos de Itália”, liderados pela provável futura chefe de governo, Giorgia Meloni, que confirmam o caminho de progressiva implementação e “normalização” de ideias e ideais anti-imigração, do questionamento de direitos humanos, da ciência e das instituições e do crescimento do autoritarismo, com consequente diminuição da liberdade e das garantias Mundo fora. Quatro anos que confirmam a velocidade e volatilidade deste tempo, a complexidade e globalidade dos desafios, a enorme incerteza que vive(re)mos.

Enquanto países como a Austrália – que segundo um relatório da Equipa de Planeamento do Serviço Nacional de Saúde Mental (NMHSPF), apenas consegue hoje preencher 35% dos 7787 lugares de psicólogas/os disponíveis por falta de profissionais – se vêm forçados a investimentos urgentes na formação e “captação” destes profissionais, em Portugal decorre um concurso, iniciado também há quatro anos, em que mais de 3000 psicólogas/os, muitas e muitos com especialidade em Psicologia Clínica e da Saúde e a trabalharem já no SNS, procuram um dos 40 lugares para os cuidados de saúde primários. O estado e as famílias portuguesas investiram significativamente nas últimas quatro décadas na formação de profissionais de psicologia e, confrontados que estamos com problemas e desafios que as e os requerem e com o avanço da sua ciência, hoje com contributos em diversas áreas da sociedade e do ciclo de vida das pessoas, é tempo de apostarmos nas psicólogas e psicólogos e de lhes darmos mais oportunidades e condições de trabalho, particularmente no SNS.

Mas porquê? Porque, efectivamente, apesar das condições de vida em quase todo o Mundo terem melhorado substancialmente nas últimas décadas, os níveis de incerteza, precariedade, pressão e desigualdade constituem hoje factores de stress particularmente significativos. A eles, juntam-se, também em Portugal, níveis de literacia em saúde psicológica superiores (ainda que baixos), níveis de estigma inferiores (ainda que altos) e, particularmente, um capital social que faz com que as pessoas se mobilizem, bem, e pressionem por respostas para os seus problemas (e para os das pessoas ao seu redor), também de saúde mental, exigindo, bem também, mais possibilidade de autodeterminação, saúde e bem-estar, independentemente da sua condição. Acresce, depois, maior percepção e compreensão, de decisoras e decisores e das lideranças, do papel e contributo da psicologia no desenho de processos, de políticas e de interfaces, no desenvolvimento, consultoria e formação das pessoas e no apoio à mudança (social e individual) e promoção da inclusão, equidade e justiça social.

Mas há muito caminho por percorrer, muitas conversas para ter, muita interdisciplinariedade por co-construir. Este 5º congresso procurá-lo-á. Discutirá temas desafiantes, com psicólogas e psicólogos junto com profissionais de outras áreas e/ou decisoras e decisores, como a morte medicamente assistida, o rendimento básico incondicional, a semana de quatro dias e a necessidade ou não do aumento das penas máximas de prisão ou da legalização da prostituição ou trabalho sexual. Eu participarei em sessões nas áreas da pobreza, COVID-19 e promoção da saúde mental no ensino superior. Outras e outros, noutros desafios societais como a crise climática, a saúde pública, as migrações, a paz, as relações com a tecnologia e a inteligência artificial e promoção de locais de trabalho saudáveis, além dos mais variados contextos de actuação da psicologia e dos desafios da sua prática no presente e para o futuro. Isto num congresso que procura inovar na sustentabilidade (realizado em diversos espaços “caminháveis”, com utilização mínima de recursos substituídos por uma aplicação que garante a informação e interacção entre participantes) e na relação com a comunidade, promovendo visitas a espaços e projectos da cidade e actividades abertas, como o Mente.morfose, festival de cinema (e conversas) associado ao congresso e seus temas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, como o responsável político que mencionei reconhece(u), o investimento feito naqueles medicamentos apenas pode ser eficaz se complementado com outras intervenções, sistémicas. A psicologia tem hoje um capital de conhecimento e uma força de trabalho capaz de oferecer garantias, às cidadãs e cidadãos e aos governos, de actuação nas consequências dos problemas e acontecimentos de vida significativos das pessoas, mas também, a montante, nas causas (muitas delas sociais) desses problemas. Com responsabilidade, procuraremos, hoje, amanhã e depois, discutir como o podemos fazer melhor, com todas e todos. Com empenho e foco nas pessoas, procuraremos mobilizar a profissão para um presente e futuro que se afigura desafiante, em Portugal e no Mundo.

 

Tempo da Psicologia

in Sábado (Ao redor…); 28.09.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/tempo-da-psicologia

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O desafio societal da pobreza no 5º Congresso da OPP

Terminou na 6ªF o 5º Congresso da @Ordem dos Psicólogos Portugueses. Com o mote “Tempo da Psicologia”, cerca de 1500 pessoas, parte significativa psicólogas e psicólogos, encontraram-se em Aveiro para discutirem, reflectirem e pensarem conjuntamente o país e o Mundo, nos seus desafios e complexidades, e os contributos da ciência e prática da psicologia para as pessoas e sociedade. Eu fui mais uma dessas pessoas.

Entre outros contributos (que aqui discutirei noutro momento), participei/dinamizei três iniciativas dedicadas ao complexo desafio societal da pobreza e, de certa forma, associadas ao projecto https://finalapobreza.pt: uma conversa com a @Maria João Marques que cruzou Economia e Psicologia – “Pobreza: um círculo vicioso ou viciado?”; a apresentação/moderação do keynote do @Eldar Shafir – “A pobreza e a escassez mental”; a sessão prática de recolha de contributos para a estratégia “.Final à Pobreza”.

Além do significativo de podermos num congresso da OPP aprofundar o tema, a presença no Congresso do @Eldar Shafir resultou em importantes peças na comunicação social que permitiram que o tema pobreza, normalmente pouco saliente por pouco glamoroso (como a @Maria João Marques bem definiu), fosse abordado e notícia: “Há algo cómico quando nos preocupamos com o bife que um pobre come” (@PÚBLICO) ou “A mentalidade da escassez ou como um bom cockpit faz um bom piloto” (@CNN Portugal).

Destes três momentos, e das conversas sucessivas, guardo cinco reflexões: a) A ciência, só por si, não é suficiente pois, a cada vez mais clara percepção das causas e das consequências da pobreza, não tem sido suficiente na mudança de percepção da sociedade sobre o fenómeno e na definição de políticas (públicas); b) À (promoção da) mudança individual pelas psicólogas e psicólogos é fundamental associar-se a (promoção da) mudança societal; c) É fulcral reforçarmos o contributo da psicologia na dimensão macro do fenómeno da pobreza e, não apenas, nos impactos da mesma no micro observado nas diversas áreas de intervenção da psicologia; d) Outras áreas científicas reconhecem cada vez mais e melhor o contributo da psicologia e, pessoas e sociedade, “exigem-lhe” um contributo maior; e) Além de justo, é possível solucionar este complexo desafio. É possível uma sociedade sem (ou com níveis residuais de) pessoas em situação de pobreza, investindo na mudança societal e na promoção da saúde mental de pessoas e comunidades.

Cinco reflexões a que junto entusiasmo e a determinação de me associar a tantas outras pessoas no contributo (singelo) para um ponto final à pobreza e o orgulho de ver tantas e tantos colegas a identificarem-se e comprometerem-se enquanto cidadãs e cidadãos e psicólogas e psicólogos. Obrigado, mobilizemo-nos.

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Tempo da Psicologia

Estamos a minutos do início do 5º Congresso da @Ordem dos Psicólogos Portugueses. “Quatro anos após o 4º Congresso e com uma pandemia por COVID-19, uma Guerra no continente europeu e uma nova crise socioeconómica no horizonte.” Os mesmos quatro anos que passaram entre as eleições de 2018 e de Domingo em Itália e entre os 4% e os 26% do partido de direita nacionalista “Irmãos de Itália” (…) que confirmam o caminho de progressiva implementação e “normalização” de ideias e ideais anti-imigração, do questionamento de direitos humanos, da ciência e das instituições e do crescimento do autoritarismo, com consequente diminuição da liberdade e das garantias Mundo fora. Quatro anos que confirmam a velocidade e volatilidade deste tempo, a complexidade e globalidade dos desafios, a enorme incerteza que vive(re)mos.”

“Tempo da Psicologia”, 42º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata o mote do congresso, enquadrando-o no tempo que vivemos. “Mas porquê?”, pergunto no texto. “Porque, efectivamente, apesar das condições de vida em quase todo o Mundo terem melhorado substancialmente nas últimas décadas, os níveis de incerteza, precariedade, pressão e desigualdade constituem hoje factores de stress particularmente significativos. A eles, juntam-se, também em Portugal, níveis de literacia em saúde psicológica superiores (ainda que baixos), níveis de estigma inferiores (ainda que altos) e, particularmente, um capital social que faz com que as pessoas se mobilizem, bem, e pressionem por respostas para os seus problemas (e para os das pessoas ao seu redor), também de saúde mental, exigindo, bem também, mais possibilidade de autodeterminação, saúde e bem-estar, independentemente da sua condição. Acresce, depois, maior percepção e compreensão, de decisoras e decisores e das lideranças, do papel e contributo da psicologia no desenho de processos, de políticas e de interfaces, no desenvolvimento, consultoria e formação das pessoas e no apoio à mudança (social e individual) e promoção da inclusão, equidade e justiça social.”

“Mas há muito caminho por percorrer, muitas conversas para ter, muita interdisciplinariedade por co-construir.” No congresso procurá-lo-emos, discutindo temas desafiantes e inovando na sua sustenatabilidade e na relação com a comunidade local, incluindo visitas a projectos e actividades a si abertas, como o festival de cinema Mente.morfose.

É que, “na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor (…) a psicologia tem hoje um capital de conhecimento e uma força de trabalho capaz de oferecer garantias, às cidadãs e cidadãos e aos governos, de actuação nas consequências dos problemas e acontecimentos de vida significativos das pessoas, mas também, a montante, nas causas (muitas delas sociais) desses problemas. Com responsabilidade, procuraremos, hoje, amanhã e depois, discutir como o podemos fazer melhor, com todas e todos. Com empenho e foco nas pessoas, procuraremos mobilizar a profissão para um presente e futuro que se afigura desafiante, em Portugal e no Mundo.”

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O SNS e os seus profissionais – Um ditado para Manuel Pizarro (Ao redor…; Sábado; 14.09.2022)

Nas memórias da minha infância cabem um conjunto de ditados e provérbios populares que acompanhavam vivências quotidianas. O “onde alhos há, vinho haverá”, invariavelmente associado à preparação de uma marinada muito utilizada por uma tia minha, é-me particularmente presente, também porque reforçado por uma memória olfactiva. Evoco-o a propósito da indigitação de Manual Pizarro como Ministro da Saúde, dos desafios com os quais se deparará e de uma reflexão sobre os profissionais de saúde que compõem o Serviço Nacional de Saúde (SNS), incluindo as psicólogas e psicólogos.

O novo Ministro da Saúde inicia funções confrontado com um conjunto de problemas instalados. A carência de profissionais das áreas da Medicina e Enfermagem e as dificuldades para o seu recrutamento, por indisponibilidade de candidatas e candidatos, é um deles. Medidas excepcionais e outras estruturais, espera-se, serão brevemente implementadas para responder a este problema estrutural do SNS, cujas causas remontam a acções e/ou inacções do presente, dos últimos anos, mas também de um período mais distante no tempo. Ora, porque “onde alhos há, vinho haverá”, importa que Manuel Pizarro tenha capacidade e motivação para liderar uma equipa capaz de atender a este foco sem esquecer que, inacções noutras áreas ou junto de outros grupos profissionais, podem a médio (ou mesmo curto) prazo resultar em problemas semelhantes. Veja-se o caso das psicólogas e psicólogos.

Portugal investiu consideravelmente na formação destes profissionais. Apesar de ser uma profissão recente em Portugal (maioritariamente a partir da década de 80 do século passado, considerando que a oferta formativa em Portugal se iniciou apenas após o fim do Estado Novo em 1974), existem hoje mais de 26.000 psicólogas e psicólogos (5500 dos quais especialistas em Psicologia Clínica e da Saúde) mas apenas um pouco mais de 1000 (4%) no SNS. Isto, apesar do amplo reconhecimento público, também do ora Ministro da Saúde, da necessidade do crescimento significativo do número de profissionais, em especial nos cuidados de saúde primários (CSP). Reconhecimento que convive com a realidade de um concurso que decorre há quatro (!) anos para a contratação de 40 psicólogas/os para os CSP e com as notícias que informam que um cada vez mais significativo número de profissionais da área optaram por sair do SNS, devido às suas condições de trabalho. Reconhecimento que convive com a situação incompreensível de não equiparação à carreira de “Técnico Superior de Saúde – Ramo Psicologia Clínica” dos e das psicólogas clínicas do SNS com contratos individuais de trabalho, algo que gera situações de desequilíbrio e desigualdade de condições profissionais (de carreira, remuneração e até, imagine-se, de possibilidades de actuação) de profissionais com a mesma formação, perfil técnico e funcional e funções nas estruturas do SNS. Se não queremos, num futuro provavelmente breve, que também na área da Psicologia seja difícil manter e recrutar profissionais, é, além de justo, indispensável, alterar legislação, revendo e agilizando os processos de contratação e criando um percurso comum de progressão e diferenciação profissional, bem como reforçar a autonomia técnico-científica e a valorização deste grupo profissional. É que, “onde alhos há, vinho haverá”.

Mas, se prevenção é uma palavra-chave da prática das psicólogas e psicólogos, a procura de compreensão da pessoa, de acordo com modelos que enfatizem a sua dimensão biológica, psicológica e social também o é. Hoje sabemos bem quanto é importante, em saúde, actuar não apenas nas consequências, mas nas causas dos problemas, influenciando e estimulando hábitos e estilos de vida (mais saudáveis), a promoção de competências, a adesão e manutenção de comportamentos ou terapêuticas ou mesmo contribuindo em importantes determinantes sociais como a pobreza ou a exclusão. O compromisso das psicólogas e psicólogos de participação em programas ao longo de todo o ciclo de vida e de intervenções multidisciplinares, bem como de um contributo para a mudança societal, é algo de muito relevante a uma intervenção não exclusiva em fim de linha, tendente à prevenção e à diminuição do “stresse” e da pressão sobre as organizações do SNS, o que pode concorrer para a diminuição do sofrimento ético e para a motivação dos diferentes profissionais. É que, “onde alhos há, vinho haverá”.

Mas, além da prevenção e do modelo biopsicossocial, o foco no trabalho em equipa de psicólogos e psicólogas e o seu conhecimento e contributo possível nas dimensões do comportamento, da tomada de decisão e da relação são diferenciadores. Num momento em que a organização de trabalho e os riscos psicossociais são responsáveis por muitos milhares de dias de trabalho perdidos e de muito sofrimento instalado, além das fundamentais medidas de valorização das e dos profissionais, importa que se estabeleçam planos nas estruturas do SNS de avaliação, prevenção e acção permanente sobre estes riscos e de formação e apoio às lideranças, no sentido da implementação das melhores práticas e de uma actuação cientificamente validada, visando a criação de locais de trabalho inclusivos e saudáveis, com contributo da psicologia. É que, “onde alhos há, vinho haverá”.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, os sistemas de saúde, porque confrontados com níveis elevados de incerteza, de desconfiança, com a maior longevidade da população e com crises de saúde pública diversas, muito beneficiam da psicologia enquanto ciência e profissão na garantia da sua sustentabilidade. Muito beneficiam na promoção da saúde, bem-estar e equidade das populações que servem. Também por isso, Sr. Ministro, saiba a nossa profissão não apenas disponível, como sempre estivemos, mas preparada, motivada e comprometida com o objectivo de um SNS mais próximo das pessoas e mais responsivo às suas necessidades. Creio ser tempo das proclamações políticas, das legitimas expectativas das e dos profissionais e da exigência das populações, redundarem em acções concretas que dêem mais oportunidade e condições às psicólogas e psicólogos para um contributo distinto e distintivo na saúde e bem-estar das populações a partir do SNS e para a sustentabilidade dos serviços públicos em Portugal.

 

O SNS e os seus profissionais – Um ditado para Manuel Pizarro

in Sábado (Ao redor…); 14.09.2022

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(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem (Ao redor…; Sábado; 02.09.2022)

Se hoje temos mais informação, mais literacia e se temos melhores condições (socioeconómicas), porque temos mais problemas? Conversava sobre saúde mental com um conjunto de estudantes de medicina e, já perto do final da sessão, isto mesmo me perguntaram, a propósito da saúde mental da população jovem, particularmente das e dos estudantes de ensino superior. Questão que julgo merecedora de especial atenção e cuja reflexão procuro estimular a partir dos quatro pontos cardeais.

N(otas). Uma das mais importantes e significativas transformações de Portugal nas últimas décadas prende-se com o aumento da escolaridade da população, especialmente da população mais jovem. De 1981 a 2021, e apesar da diminuição considerável do número de jovens em Portugal, as e os estudantes a frequentarem o ensino superior aumentaram quase 5 vezes de 84 para 412 mil. Hoje, Portugal tem 44% da população entre os 30 e 34 anos com o ensino superior completo, percentagem já superior à média da União Europeia (42%). Este ano, apenas na primeira fase, candidataram-se mais de 61 mil pessoas (para pouco mais de 55 mil vagas), números que reforçam a competição para a entrada, que acresce à competição, “à décima”, para determinados cursos de determinadas instituições.

A centralização nos resultados, medidos pelas classificações internas no ensino secundário e pelas provas de ingresso (exames nacionais), impacta significativamente o período de ensino secundário no que ao bem-estar respeita. O excessivo foco nos exames e nos resultados, com prejuízo do desenvolvimento de outras competências, incluindo as sócio-emocionais, bem como uma lógica que procura premiar o mérito mas que, não raras vezes, desconsidera a falta de oportunidades e as situações de vulnerabilidade prévias de estudantes, acaba por resultar na promoção da competição e competitividade ao invés da colaboração e coesão, importantíssimas à percepção de suporte social enquanto factor protector da saúde mental fundamental nestas idades.

O programa do actual governo prevê “avaliar a melhoria a introduzir no acesso ao ensino superior, com vista à separação entre a certificação do ensino secundário e o acesso ao ensino superior”. Algo essencial, ainda pouco discutido em Portugal, apesar da recente aprovação de uma reforma em Espanha que, progressivamente, concretizará a mudança de sistema, com redução das tradicionais provas de acesso (exames) pela introdução de uma prova centrada na “maturidade académica”, nas competências e na interrelação de conteúdos, inspirada no modelo PISA da OCDE. Importa acompanhar esta experiência porquanto é fundamental que Portugal possa vir a ter um sistema mais responsivo ao conhecimento hoje existente (na avaliação, mas também nos processos de ensino-aprendizagem e estudo), melhor prevenindo problemas de saúde mental (nomeadamente stress, ansiedade ou depressão) também resultantes do actual sistema e da pressão associada à (imposta) necessidade de determinado tipo de resultados.

(O)utras e Outros. Um inquérito recente demonstra que 73% de estudantes respondem “sim” quando questionadas/os se procuram “sempre parecer positivas/os e felizes com tudo o que se associe ao seu nome verdadeiro”. Esta constante exigência, especialmente quando as redes sociais, as relações e o reconhecimento no espaço virtual são tão importantes, acrescentam uma pressão significativa às e aos jovens, potencialmente estigmatizante, penalizadora e até violenta para as e os que estão em situação de maior vulnerabilidade, que estão mais tristes, mais tímidas/os, questionadora da sua autoestima e da integração social.

Mais e melhor informação e investigação sobre redes sociais, a sua organização e as suas consequências. Mais e melhor literacia para as crianças, jovens e seus responsáveis sobre a sua utilização consciente e sobre formas de prevenir os seus impactos, incluindo para a saúde mental. Uma nova atitude em torno do sucesso e da sua obstinada associação à felicidade e mérito. Todos elementos essenciais a uma sociedade mais inclusiva, respeitadora da diversidade e de suporte à vulnerabilidade. De uma sociedade mais capaz de apoiar aquando da adversidade, de crises individuais e colectivas e de promover a saúde mental, o bem-estar e a possibilidade de futuro das e dos jovens.

S(uporte). Recentemente um outro estudo apontou a saúde mental como terceira maior preocupação da população jovem, depois do custo de vida e da crise climática. Também a Agenda da Juventude para a Saúde 2030 lhe confere especial enfâse, destacando que “não devem existir barreiras à (…) saúde mental”, que “a promoção do bem-estar psicológico deve ser especialmente considerada em todos os momentos de contacto com os serviços de saúde e deve articular-se agilmente com o meio escolar” e que a “capacitação de jovens em meio escolar para a promoção do bem-estar físico e psicológico deve recorrer a estratégias aliadas à aprendizagem social e emocional”.

É importantíssimo o capital social associado à aspiração da população jovem a uma outra resposta, mais contingente e com mais recursos, aos desafios que a sociedade contemporânea coloca à saúde e à saúde mental. Desde logo para concluir o caminho de diminuição do estigma, visível no facto das respostas que, passo a passo, têm vindo a ser criadas e/ou reforçadas terem elevada procura – veja-se nas Escolas, o sucesso do programa Cuida-te+ ou o facto do Serviço de Aconselhamento Psicológico do SNS24 ser maioritariamente utilizado por população jovem e/ou em situação de desemprego. Mas, também, para um verdadeiro reforço de recursos que perpasse diversas áreas e inclua um real acesso a serviços de psicologia e saúde mental no SNS e nos seus cuidados de saúde primários, o reforço dos recursos nas Escolas, nas Comunidades e no Ensino Superior, neste contexto particularmente dirigidos à prevenção e promoção, conforme o recente programa da FLAD (Saúde Mental no Ensino Superior), que conta com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses, procura estimular e apoiar.

E(stabilidade). Numa fase de constante necessidade de adaptação à transformação e de resposta a desafios e crises sucessivas, de procura e construção de autonomia, de saída de casa e transição, é fulcral que o país possa ter uma estratégia concertada de apoio, procurando garantir mais estabilidade e previsibilidade à população jovem. Tal investimento é essencial ao futuro do país e implica pensar a habitação, a remuneração e reconhecimento no trabalho, os vínculos e o combate à precariedade e a promoção da saúde, saúde mental e do bem-estar. É essencial, porque condiciona significativamente o futuro da população jovem, incluindo a tomada de decisão de manutenção ou não no país, de ter ou não filhas/os e as oportunidades e capacidades de desenvolvimento, florescimento, empreendedorismo e produtividade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, os pontos cardeais são pontos de referência que se associam e complementam. Assim é também com as notas, as outras e outros, o suporte e a estabilidade (ou as suas ausências), elementos essenciais a pensarmos a rosa dos ventos da saúde mental da população jovem e à resposta aos seus problemas e aos seus desafios. Assim é, pois, conforme na rosa dos ventos, “um mínimo desvio inicial torna-se cada vez maior, à medida que vai aumentando a distância”, desvio com forte impacto na saúde e bem-estar da população mas também em alguns dos principais desafios do país, nomeadamente o envelhecimento da população, a (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde e segurança social ou a produtividade.

 

(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem

in Sábado (Ao redor…); 02.09.2022

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