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Colaborar e comunicar em tempos de mudança e incerteza (ISPA; 26.05.2020)

Rui Marques, presidente do Instituto Padre António Vieira e da Academia Ubuntu, referiu-se recentemente à Era que vivemos e que no dia-a-dia construímos, como a “Era do risco”. Vivemos, diz, “sucessivos ciclos de medo, ora da invasão de estrangeiros, ora do terrorismo, ora agora da pandemia”.

Vivemos na, mas também, da incerteza. Incerteza em grande medida resultante dos que hoje são os grandes desafios societais da “Era do risco” e da mudança particularmente veloz resultante, também, da actual revolução tecnológica.

Com este cenário, creio que a todas/os resulta evidente a importância que a ciência psicológica assume e assumirá na compreensão destes fenómenos e no apoio aos processos de adaptação que deles, necessariamente, resultarão.

Assim, e em plena vivência de uma pandemia que levou, literalmente, meio mundo ao confinamento, creio difícil imaginar um contexto mais pertinente a uma reflexão sobre como “Colaborar e comunicar em tempos de mudança e incerteza”, a partir da Psicologia (da sua investigação, da sua prática).

Debate promovido pelo ISPA, aqui disponível: https://lnkd.in/dd26JGV

Obrigado Pedro Almeida, pelo convite, pelo estímulo e pelo interessante painel e reflexão.

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Entrevista Revista Psis21 – Especial COVID-19

Passam hoje 80 dias da formalização da criação do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses, por mim coordenado. 80 dias, uma “volta ao mundo” no emblemático romance sobre o qual recentemente escrevi. 80 dias, tempo também para um balanço que fiz em entrevista na PSIS21 especial COVID-19 que aqui partilho: https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/psis21_especial_covid.pdf

Entrevista que toca a criação do gabinete de crise, os seus objectivos e estratégias adoptadas. Que reflecte o que já foi feito e os fundamentos e impactos dessa acção. Que pensa as parcerias desenvolvidas e o papel da ciência psicológica e das/os psicólogas/os no desafio que vivemos. Que olha a equipa OPP e uma “lição” que guardarei: “quando existem competências (instaladas) e recursos (internos, de cada trabalhador/a; e externos, com as ferramentas disponibilizadas e o reforço do trabalho em equipa)” temos “mais e melhores condições de cumprir o papel que penso competir a uma associação pública profissional de Psicologia num desafio de saúde pública como o que enfrentamos… Guardarei esta equipa, as suas competências, resiliência, energia e empenho e, com ela, um exemplo concreto da importância da prevenção e da promoção de desenvolvimento e competências, objecto maior da Psicologia”.

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PanMemória

PanMemória. Artigo que partilho com o Miguel Ricou, publicado no Observador, que procura pensar como olharemos 2020.

Parte da ideia de que é hoje “difícil acreditarmos que nos próximos anos possamos considerar algo em 2020 como mais marcante para a humanidade que a COVID-19”. Recorda que isso decorre da inexistência de distanciamento histórico e de uma “visão clara do que sucederá nos próximos meses e anos relativamente ao vírus, às consequências sócio-económicas e psicológicas do isolamento (..), aos impactos nas democracias e organizações internacionais e (…) aos impactos da introdução de sistemas de monitorização e rastreabilidade de contactos entre cidadãos”. Reflecte sobre estes sistemas e o que poderão implicar no “modelo ético” de sociedade, nas pessoas e nas suas instituições”. Conclui que poderão “quando olharmos 2020 com distanciamento histórico, competir com a COVID-19 em torno do seu impacto na humanidade”, algo incompatível com a “volatilidade e falta de clareza na discussão/decisão” relativamente ao seu desenvolvimento e gestão.

Artigo parte de um conjunto de reflexões por nós publicados onde se incluem o “PandÉtica” (https://lnkd.in/gu8ANgB),o “PanDemocracia” (https://lnkd.in/g6AQJD5) e o “PanResposta” (https://lnkd.in/gptF9ZJ).

Disponível aqui.

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Caça-Mitos: Álcool e COVID-19 (TSF; Sem medo do Medo; 08.04.2020)

Em tempos dados a memórias – de tantas pessoas nos lembramos nos dias que correm – socorro-me do imaginário da minha geração e apelo a uma memória de um jovem Bill Murray na pele de Dr. Venkman sentado numa escadaria de garrafa de licor na mão. Garrafa esta partilhada com o Dr. Stantz enquanto discutem a criação de uma nova startup – Ghostbusters (Caça-Fantasmas). Um pequeno pormenor que, pouco lembrado, é significativo num filme que a todos toca.

Recentemente a Organização Mundial da Saúde lançou o Mythbusters (Caça-Mitos) como contributo para o combate à desinformação paralelo ao combate à pandemia COVID-19. Entre caricatos mitos (“se conseguir suster a respiração 10 segundos sem tossir não tem COVID-19”; “tomar um banho quente ou comer alho previne a COVID-19”), surge a resposta factual para o mito que associa o consumo de álcool a uma propensa protecção contra o vírus: “beber álcool não protege contra o vírus…” acrescentando “…e pode ser perigoso”. E, se pode ser perigoso em quaisquer circunstâncias, pode sê-lo especialmente quando consumido em excesso ou sem controlo aquando de uma pandemia baseada num vírus com forte poder de propagação e infecção que por estes dias nos ‘obriga’ a um isolamento quase generalizado.

Ao contrário do referido mito, a evidência científica disponível indica que a imunidade diminui com o consumo excessivo de álcool, tornando a pessoa mais susceptível ao vírus e às suas consequências (nomeadamente ao nível respiratório). Depois, as situações de crise e de isolamento e os sentimentos de incerteza e solidão que podem despoletar, surgem associados ao aumento do consumo e do consumo excessivo de álcool. Consumo este, por sua vez, associado a fenómenos como a violência doméstica, problemática também especialmente sensível em situações de confinamento. Finalmente, os muitos portugueses com consumos problemáticos de álcool estão entre os grupos populacionais mais vulneráveis no enfrentar da pandemia. Parte deles mais velhos e alguns muito isolados, podem vivenciar este momento com significativa ansiedade, com perda de suporte social ou com síndromes de abstinência, por dificuldade de acesso, que acrescem às restantes consequências da pandemia. Em todas estas situações é essencial o apoio e a não estigmatização da família, cuidadores e comunidade, a promoção da ajuda a partir de canais de comunicação simples e eficazes com profissionais de saúde / serviço social (por exemplo a Linha 1414) e um compromisso ético-profissional de manutenção da relação de apoio e suporte quando já existente.

Noutro prisma, importa sublinhar que alguma evidência parece apontar para que quem tem consumos de álcool esporádicos e de baixo risco (tipicamente, uma unidade nas Mulheres e cerca de duas nos Homens) possa beneficiar da manutenção desse comportamento em período de isolamento. Não que quem habitualmente não beba o deva passar a fazer ou que quem esporadicamente o faça deva passar a fazê-lo regularmente, ainda que em quantidades de baixo risco. Antes, que potenciais consequências do isolamento como a tensão, a raiva, a exaustão emocional ou o stresse possam ser ligeiramente atenuadas, com consumos esporádicos e de baixo risco em pessoas que já o faziam e que mantêm autorregulação desse comportamento na situação que vivemos onde factores externos podem condicionar a percepção de risco e controlo relativamente ao consumo. Portanto, se por vezes brindamos com amigos ou em família, que o mantenhamos controladamente e respeitando o isolamento actual, quem sabe se para ‘selar’ a startup CovidBusters.

Álcool, um pequeno pormenor que, pouco lembrado, é significativo na COVID-19 que a todos toca e que, juntos e só juntos, venceremos.

TSF (Sem medo do Medo); 08.04.2020; Áudio aqui

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Instinto do Medo (Sem Medo do Medo; TSF; 26.03.2020)

Por estes dias em que se recomendam leituras, ler o “Factfulness”, do especialista em saúde internacional Hans Rosling, pode ser algo paradoxal. Ao excelente exercício que nos propõe de confronto com estereótipos, preconceitos, falhas de informação e de processamento que justificam a proposta de 10 instintos que distorcem a nossa perspectiva da realidade, contrapõe-se um subtítulo de livro desafiador ao momento que vivemos – “Dez razões pelas quais estamos errados acerca do mundo – E porque as coisas estão melhor do que pensamos”. Um destes 10 instintos é o do medo.

O medo, emoção hoje intensamente parte do nosso quotidiano, que partilhamos com outros na nossa casa, na nossa rua, na nossa cidade, no nosso país, em grande parte do nosso mundo. O medo, enquanto padrão de reacção emocional semelhante ao padrão do vírus, que viaja e contagia, conforme Danielle Ofri descreveu aquando da gripe H1N1.

O medo que nos permite activar ‘defesas’, cumprir recomendações das autoridades e adoptar comportamentos pró-saúde. Que motiva a alteração de comportamentos ou hábitos (como os de etiqueta respiratória) ou a aceitação de perdas (como as decorrentes do distanciamento ou isolamento social).

Mas também, o medo que nos impele a não considerarmos os factos (agindo com irracionalidade) e a assumirmos como ponto de partida o ‘menos bom dos outros’, o seu egoísmo. Que motiva que pessoas (por exemplo, portadoras de um vírus ou vítimas de violência) escondam factos para não serem estigmatizadas, desprotegendo quem, também por medo, as estigmatiza. Que motiva reacções como a acusação (e agressão) a professores em missão de cooperação em Baucau (Timor-Leste), por supostamente serem responsáveis pela existência de casos no país, desprotegendo quem acusa pois poderão ‘perder’ estes professores.

O medo, emoção hoje intensamente parte do nosso quotidiano, que, também paradoxalmente, nos protege e nos desprotege.

Que o medo que nos protege vença.

Tiago Pereira; Sem Medo do Medo (TSF); 26.03.2020

Com áudio aqui: https://www.tsf.pt/programa/sem-medo-do-medo/instinto-do-medo-11987719.html

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Chape, chapinha.

Fechemos os olhos. Pensemos no rio da nossa infância e numa pedrinha. Braço atrás e splash, círculo grande; splash, círculo pequeno.

Efeito concêntrico que tão bem descreve a causa-efeito de uma decisão, de um acto.

Ontem passaram 16 anos do atentado de Atocha. Dele também resultou a traumatização de profissionais de saúde que, voluntariosos mas sem preparação (formação, protocolo) e sem medidas de autocuidado, se deslocaram ao local para ajudar. Caos, consequências.

Em 2014 a OPP organizou uma bolsa hoje com 1200 psicólogos formados para intervir em situações de catástrofe, com protocolo definido e por activação pela ANEPC (Incêndios, 2017). Estes psicólogos receberam hoje informação de que podem reforçar a linha SNS24 por iniciativa da SPMS para aumentar a capacidade de resposta sobre a actual pandemia, atendendo ao estado emocional de quem procura informação.

Hoje, dia em que o governo anunciará medidas adicionais para a sua contenção, sendo o encerramento de Escolas possível.

De um lado,mais saliente, tudo fazer para diminuir as possibilidades de contágio.

De outro, menos saliente, milhares de crianças/jovens sem a única refeição quente do dia e maior indisponibilidade de profissionais (de limpeza,saúde, bombeiros) agora fulcrais.

Efeitos concêntricos das nossas decisões, acções.

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TotoVírus

“Dou-te 20 valores; és um 13 no Totobola”.

Parte do “brilhozinho nos olhos” (Sérgio Godinho), toca no meu imaginário também ao referir-se ao emblemático 1Xis2 do jogo que permite escolher uma tripla garantindo à partida o acerto numa das 13 apostas.

Ao Totobola associo o que chamo ‘atitude Totovírus´ de algumas pessoas face ao COVID-19.

Pela abordagem de jogo (não-científica) à situação, confundindo prevenção com contenção (ex. mortes por AVC vs COVID-19), comparando os seus efeitos com os de outros vírus com vacina ou utilizando acriticamente médias, negligenciando grupos vulneráveis (ex. seniores).

Porque utilizam leituras 1X2 (ganhas à partida) face às medidas implementadas: se a situação vier a ter pouco impacto, foram excessivas; se vier a ter muito impacto, foram insuficientes/tardias; se forem um sucesso, não foram mais do que a ‘obrigação’ das autoridades.

Precisamos de adoptar uma atitude de fairplay social: optimismo factual, comportamentos de segurança e autocuidado (também emocional) e de heterocuidado (amigos, familiares, outros cidadãos).

Precisamos mutuamente de nos proteger e de confiar e cuidar de quem, pessoas como nós, tem hoje a dura missão de, dia-a-dia, transferir e aplicar o conhecimento (científico) do vírus e da sua propagação para a resposta a este grande desafio.

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Crise da Psicologia?

Um sentir mais pessoal sobre o (para alguns ainda menor) papel da psicologia.

A leitura do desafiante Psychology in Crisis em torno da crise da replicação da investigação em psicologia (open science collaboration).

Duas experiências dos meus últimos dias que alicerçam um desejo para a psicologia em 2020: pensarmos e trabalharmos num reforço da sua identidade, conforme o Miguel Ricou defende, assente numa definição clara do seu objecto e objectivo enquanto ciência e profissão, capaz de sustentar a sua diversidade – hoje, simultaneamente, uma das suas principais virtudes e fragilidades.

Só com mais identidade responderemos à “cultura de flexibilidade metodológica” e ao HARKing (hipótese pós-resultados) identificados no livro, acrescentando maior associação (crescendo amostras), mais partilha (melhorando dados) e mais presença científica (pelo rigor/qualidade e não apenas pela quantidade).

Só com mais identidade conseguiremos transmitir mais confiança e segurança na nossa ciência e prática e estaremos mais preparados para responder às enormes expectativas que recaem em nós: assumirmo-nos como ciência liderante na área do comportamento; investigarmos e trabalharmos no apoio à resolução dos principais desafios societais, em prol de maior equidade e bem-estar.

Todos somos poucos nesta tarefa.