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3 Tina(s)

Três Tina(s). Base do artigo “O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações” que escrevi para o livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal” e base da minha intervenção na sua apresentação, na passada semana.

Tina 1: Tina Fey. Actriz vencedora de um Emmy. Fez a sua formação na “The Second City”, escola onde se procura, activamente, o desconforto, enquanto elemento essencial à improvisação, mudança e desenvolvimento pessoal. No fundo, como acontece com a igualdade de género, que, em contextos de segurança (psicológica), de confiança interpessoal e de transparência, quando intencionalizada, activamente promovida e legal e socialmente estimulada, é essencial, mesmo quando provoca potenciais desconfortos, à improvisação e capacidade de resolução de problemas, à adaptação e mudança e ao desenvolvimento e florescimento das pessoas, das organizações e da sociedade.

Tina 2: Tina Turner. “Eu não existia. Mas sobrevivi.” Relato da violência prolongada que sofreu na sua relação conjugal (e profissional) até à sua separação que resultou numa tremenda insegurança financeira, antes de superar estas condições, com os resultados que (re)conhecemos. A não exposição a situações de violência (explícita, mas também implícita) e a liberdade económica são, além de direitos, necessidades fundamentais ao bem-estar e factores fundamentais à equidade social e de poder de pessoas e grupos na sociedade. Para tal é essencial promover apoio psicológico e social, protecção social, regulamentação na área do trabalho, educação psicológica deliberada e literacia na área da igualdade de género e do bem-estar nas organizações, algo fulcral, também, na mudança de crenças erróneas que condicionam meninas, raparigas e Mulheres, particularmente as relativas à “genialidade de género” (percepção do maior talento de Homens face a Mulheres, mesmo perante actividades onde existe melhor desempenho de Mulheres).

Tina 3: There is no alternative. Expressão recentemente recuperada para o dicionário político e social. Não há alternativa a um caminho de maior equidade na sociedade e igualdade de género nas organizações. Não apenas porque de um Direito Humano se trata e porque é um dos ODS (5), impactando muitos outros. Também porque, essencial, à produtividade e sustentabilidade das organizações, mas não sem riscos que decorrem, por exemplo, da integração da Inteligência Artificial e dos seus vieses próprios, das crises que nos esperam num Mundo complexo e volátil e que impactam mais significativamente as meninas, raparigas e Mulheres ou dos 10 últimos anos de crescimento de governos autoritários no Mundo com consequente perda de Direitos.

Por tudo isto creio essencial que inscrevamos (conforme José Gil define) este tema na sociedade. O livro para isso contribui. Volto a agradecer às coordenadoras (Susana Almeida Lopes e Margarida Couto) o convite e a confiança, à Helena Pita Soares o acolhimento e à Paula Valente (Editora d’Ideias) a sua edição.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher Política Psicologia

Menina – Rapariga – Mulher (Sábado; Ao redor…; 23.11.2022)

“Alcançar a igualdade de género e empoderar todas as mulheres e raparigas”. Penso em nomes, em todos os nomes. Penso na minha família, nas meninas, depois raparigas, hoje Mulheres. A promoção da igualdade de género é o objectivo 5 dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) mas… “o que significa [hoje] ser Mulher?”, interpela-nos a sinopse do Woman, documentário dirigido por Yann Arthus-Bertrand e Anastasia Mikova. Na resposta, que no fundo é também o próprio documentário, agradecem às 2000 Mulheres de 50 países que “corajosamente partilharam a sua história”, que poderia ser a história de outras tantas cujo nome e história conheço. Na segunda década do século XXI partilhamos um Mundo onde Mulheres necessitam coragem, por vezes física, para se fazerem ouvir, contarem a sua história e ousarem direitos iguais aos dos Homens. Partilhamos um Mundo onde em 2019 é provavelmente mais necessária esta coragem que há alguns anos, senão em todo, em muitos dos seus países.

Por exemplo, no Afeganistão onde as Mulheres deixaram de poder entrar em parques ou feiras populares, frequentar todo o sistema educativo ou ter determinadas profissões. No Irão, onde raparigas e Mulheres são detidas e enviadas para supostos “centros de reeducação” pela não utilização ou “utilização incorrecta” do hijab. Nos Estados Unidos da América, onde uma sociedade profundamente polarizada faz da discussão sobre a (i)legalidade da interrupção voluntária da gravidez, incluindo em situações de especial complexidade (más formações do feto, perigo para a Mulher ou gravidez resultante de abuso sexual), tema, não de saúde pública, mas de política e de afirmação ideológica, quando não de tribalismo. Também na Polónia, onde a interrupção voluntária da gravidez não é hoje permitida, mesmo em situações de malformações ou de doenças incuráveis, ou na Hungria, onde um decreto governamental procura “obrigar” as Mulheres a ouvirem o batimento cardíaco do feto antes de interromperem voluntariamente uma gravidez. Ainda no Reino Unido onde Liz Truss, na sua curta passagem pelo Governo, propôs a dispensa das organizações com menos de 500 trabalhadoras/es de publicarem o seu relatório sobre o “gender pay” (disparidade salarial por género), justificando-o com a necessidade de diminuição de burocracia. Ou, finalmente, em Portugal, onde apesar das Mulheres serem ainda mais expostas a situações de precariedade e pobreza e existir uma enorme desigualdade salarial, o Acordo de Médio Prazo de Melhoria de Rendimentos, recentemente assinado pelo Governo e um conjunto significativo de parceiros sociais, estranhamente exclui a igualdade salarial do seu objecto e das suas metas.

Nesta rápida viagem pelo Mundo creio ficar claro que a desigualdade de género, além do objectivo 5 dos ODS, impacta outros. Da erradicação da pobreza às cidades e comunidades sustentáveis, passando pela redução das desigualdades. Do trabalho digno e crescimento económico à saúde de qualidade. Da paz, justiça e instituições eficazes à educação de qualidade. Conforme impacta outras dimensões, porquanto as meninas, raparigas e Mulheres são mais atingidas por problemas de saúde e de saúde mental (ansiedade e depressão, por exemplo), mais e diferentemente impactadas em situações de crise (conforme aconteceu com a pandemia por COVID-19) e mais expostas a formas diversas de discriminação e violência, conforme se assinalará no próximo dia 25 de Novembro, quando se comemorar o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres.

Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade que condiciona e dificulta a dignidade, o cumprimento integral dos Direitos Humanos e a possibilidade de bem-estar e autodeterminação das Mulheres. Uma sociedade em que urge desenvolver contextos protectores e de segurança (também psicológica) para meninas, raparigas e Mulheres, capazes de fomentar a confiança, a autonomia, a liberdade económica e de mitigar iniquidades.

Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade com menor competitividade e desenvolvimento económico sustentável, com maiores desafios demográficos e com menor qualidade das suas instituições. Uma sociedade que necessita reconhecer o trabalho invisível não remunerado, quer seja doméstico ou de cuidado informal, maioritariamente exercido por Mulheres. Trabalho que, além dos condicionalismos e desafios que comporta para a conciliação de papéis das Mulheres, se considerado, poderia significar um aumento de cerca de 36% no PIB de Portugal, aumento próximo do que tivemos nos últimos 30 anos. Uma sociedade que deve estimular a distribuição equilibrada de tarefas entre géneros, prevenindo a discriminação das Mulheres no mercado de trabalho, promovendo melhores condições para a natalidade e parentalidade e mitigando a reprodução de modelos e papéis junto das novas gerações e, particularmente, das meninas e raparigas. Uma sociedade que deve permitir que mais Mulheres participem em processos de decisão, melhorando a inclusão, diversidade e representatividade das instituições e a sua qualidade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, “acabar com todas as formas de discriminação contra todas as Mulheres e meninas em todos os lugares; eliminar todas as formas de violência contra todas as Mulheres e meninas nas esferas pública e privada, incluindo tráfico, exploração sexual e outros tipos; reconhecer e valorizar o trabalho de assistência e doméstico não remunerado, por meio da disponibilização de serviços públicos, infraestrutura e políticas de proteção social, bem como a promoção da responsabilidade partilhada dentro do lar e da família, conforme os contextos nacionais; e garantir a participação plena e efetiva das mulheres e a igualdade de oportunidades de liderança” são a explanação e operacionalização da igualdade de género enquanto meta dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. São-no, mas são também garantes do cumprimento da dignidade e dos Direitos Humanos de todas as pessoas, particularmente as meninas, raparigas e Mulheres, conheçamos ou não os seus nomes e história, enquanto algo essencial ao bem-estar de cada um e uma de nós e a uma sociedade mais justa e coesa. Interpelemo-nos, envolvamo-nos e enfrentemos o desafio de promover e acelerar a igualdade de género e a não-discriminação pois, como Baldwin afirmou, “nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado”.

 

Tiago Pereira

Menina – Rapariga – Mulher

in Sábado (Ao redor…); 23.11.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/menina—rapariga—mulher

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Agnotologia

Agnotologia: um termo desaparecido para descrever a produção cultural da ignorância (e o seu estudo). Este é o título do 1º capítulo do livro “Agnotologia: a construção e a desconstrução da ignorância”, escrito por R. Proctor e L. Schienbinger a partir, também, da reflexão sobre o potencial impacto na saúde pública das práticas da indústria do tabaco. Discute-se um memorando de 1979, primeiro secreto, hoje público, que reúne um conjunto de iniciativas de empresas – “O tabagismo e a proposta de saúde”. Nele assumia-se que “a dúvida é a melhor maneira de competir com o volume de informação que existe na mente do público em geral” e ser fundamental promover e financiar (também usando a ciência) a dúvida e intencionalizar a “criação de controvérsia” sobre os “impactos nocivos do consumo de tabaco”. Sendo este um caso “extremo” creio que temos presente que, também em 2022, talvez nunca com tantos recursos e de forma tão estrutural e complexa, a agnotologia é estimulada e alimentada, com profundas consequências na sociedade, nas relações entre pessoas e comunidades, na resposta aos principais desafios societais e na saúde (pública) e bem-estar.

E, se este movimento ocorre em muito patrocinado por organizações, empresas e até países que pretendem que os seus produtos / matérias-primas continuem a ser vendidos/utilizados, também decorre no seio político, na procura de agregação de pessoas a grupos/ideais políticos, não raras vezes usando a dúvida e as dimensões emocionais (como a raiva ou o ódio a outras/os) como força de mobilização. Num Mundo com complexidade e incerteza crescente e com redes sociais que permitem (e estimulam) a propagação “supersónica” da informação (particularmente a movida a emoções, dúvidas e “polarizadora”), creio fundamental o termos presente e, individual e colectivamente, contribuirmos para mitigação da agnotologia, algo só possível com mais e melhor ciência (inclusive nas políticas públicas), mais e melhor transferibilidade da ciência (inclusive junto das políticas públicas), mais e melhor comunicação da ciência (inclusive junto de decisoras/es) e mais e melhor informação e literacia científica da sociedade, possibilitando a reflexão consciente e a prevenção dos efeitos de grupo e massas, pela mudança de atitudes e comportamentos através da informação.

Por isso quem, por exemplo aqui, me lê/ouve sabe que, na medida das minhas possibilidades, o procuro fazer. Sabe, também, que estimulo, particularmente, psicólogas e psicólogos a fazerem-no mais, a partir da nossa ciência e prática. Sabe, ainda, que o procuro fazer junto de problemas societais complexos que muito influenciam a sociedade e a possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação das pessoas. Partilho um exemplo, uma entrevista à Revista Visão (13.11) que toca estes pontos – um singelo contributo meu, focando a pobreza e a saúde mental; um estímulo a outras e outros para o fazerem/fazermos mais).

Mais e mais, individual e colectivamente. Por todas e por todos. Sim?

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Comportamento Desafios da Psicologia Dia Internacional da Mulher Educação Política Psicologia

Menina – Rapariga – Mulher

“O que significa [hoje] ser Mulher?”, interpela-nos a sinopse do Woman, documentário dirigido por Y. Arthus-Bertrand e A. Mikova. Nele agradecem às 2000 Mulheres de 50 países que “corajosamente partilharam a sua história”, que poderia ser a história de outras tantas cujo nome e história conheço. “Na segunda década do século XXI partilhamos um Mundo onde Mulheres necessitam coragem, por vezes física, para se fazerem ouvir, contarem a sua história e ousarem direitos iguais aos dos Homens. Partilhamos um Mundo onde em 2019 é provavelmente mais necessária esta coragem que há alguns anos, senão em todo, em muitos dos seus países.”

“Menina – Rapariga – Mulher”, 46º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) “viaja” a várias latitudes do Mundo para assinalar exemplos de retrocessos na igualdade de direitos que justificam a afirmação/inquietação anterior, sublinhando quanto a desigualdade de género impacta diversos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável, além ODS5 (Igualdade de Género). “Conforme impacta outras dimensões, porquanto as meninas, raparigas e Mulheres são mais atingidas por problemas de saúde e de saúde mental (ansiedade e depressão, por ex.), mais e diferentemente impactadas em situações de crise (por ex. na pandemia por COVID-19) e mais expostas a formas diversas de discriminação e violência.”

“Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade que condiciona e dificulta a dignidade, o cumprimento integral dos Direitos Humanos e a possibilidade de bem-estar e autodeterminação das Mulheres (…) Em que urge desenvolver contextos protectores e de segurança (também psicológica) para meninas, raparigas e Mulheres, capazes de fomentar a confiança, a autonomia, a liberdade económica e de mitigar iniquidades (…) Também estimular a distribuição equilibrada de tarefas entre géneros, prevenindo a discriminação das Mulheres no mercado de trabalho, promovendo melhores condições para a natalidade e parentalidade e mitigando a reprodução de modelos e papéis junto das novas gerações e, particularmente, das meninas e raparigas. Uma sociedade ainda assente nesta desigualdade é, necessariamente, uma sociedade com menor competitividade e desenvolvimento económico sustentável, com maiores desafios demográficos e com menor representatividade e qualidade das suas instituições.”

Termino o texto sugerindo que nos interpelemos, envolvamos e que “enfrentemos o desafio de promover e acelerar a igualdade de género”. Procurei fazê-lo, também, num artigo que escrevi (“O bem-estar psicológico como promotor da igualdade de género nas organizações”) no livro “Igualdade de Género nas Organizações em Portugal”, coordenado por @Susana Almeida Lopes e @Margarida Couto e, cuja apresentação amanhã (29.11) partilharei com a @Helena Pita Soares, @José Sintra e @Paulo Simões (informações/inscrições aqui).

Pois como Baldwin afirmou: “nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado, mas nada pode ser mudado enquanto não for enfrentado”.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Psicologia – Uma ciência e uma profissão recurso do país (Sábado; Ao redor…; 14.11.2022)

Há palavras e expressões não de língua portuguesa que, também porque as fomos ouvindo e usando no dia-a-dia, temos dificuldade de traduzir em palavras portuguesas capazes de abarcar todo o seu significado. Pensemos em ferry, briefing ou startup. Pensemos em hub. Habitualmente associamo-lo à aviação, porque, com regularidade, vamos ouvindo a expressão “Hub de Lisboa”, associada ao Aeroporto Humberto Delgado, por este se assumir como um centro de conexão e distribuição de passageiros. Apesar da associação mais ou menos automática à aviação, existem outros hubs, por exemplo, de ciência.

Em 2007, John Cacioppo escreveu um importante artigo que tratava os 7 hubs identificados da ciência. O artigo (“A psicologia é um hub de ciência”) termina com uma relevante passagem que sublinha que a “centralidade da ciência psicológica pode ainda não ser totalmente compreendida pelos decisores políticos”, mas que a evidência era já clara, dado que “o mapeamento da ciência demonstra a psicologia como uma disciplina hub com muito a oferecer a outras disciplinas científicas (mas também a aprender)”. Ora, num momento de crescente complexidade dos desafios que se colocam às pessoas e à sociedade (pensemos na incerteza e stresse, na pobreza, na exclusão ou na crise climática), são fundamentais respostas integradas, informadas pela melhor evidência científica disponível e de foro interdisciplinar, com participação e colaboração de diferentes áreas científicas, incluindo a ciência psicológica.

Venho defendendo que, além de um hub de ciência, a psicologia se deve assumir como um hub enquanto profissão. Enquanto grupo profissional com muito a oferecer a outras actividades profissionais (e a aprender, claro está), às pessoas e sociedade no geral. Isto implica que as e os profissionais o assumam e se empenhem em diferentes áreas, reforçando a disseminação e a utilização do conhecimento e contributo da ciência psicológica junto de outros grupos profissionais. Nas equipas multidisciplinares, desde logo, diferenciando e valorizando as respostas com contributo da ciência e dos actos psicológicos. Também na consultoria e apoio às lideranças das diversas organizações, com maior inclusão do conhecimento da área nas práticas e maior sensibilidade às questões relacionadas com a saúde e bem-estar das equipas. Ainda junto das decisoras e decisores políticos, na informação a políticas públicas, promovendo a sua eficácia e eficiência. Na promoção de competências e no desenvolvimento das pessoas ao longo de toda a vida ou, até, nas dimensões de cidadania das psicólogas e psicólogos, nas suas actividades e participações no dia-a-dia além das profissionais. Finalmente, quando também estas e estes profissionais lideram e têm a oportunidade de tomar decisões que influenciem grupos ou comunidades, algo que numa profissão ainda jovem no contexto português tenderá a acontecer mais num futuro breve.

Venho defendendo que tal depende do envolvimento da profissão com as dimensões associadas aos desafios individuais que se colocam a uma pessoa em específico, em complementaridade, com os desafios societais que condicionam os individuais e que podem estimular ou comprometer a possibilidade de saúde (incluindo a saúde mental), bem-estar e autodeterminação das pessoas e a equidade, justiça e coesão social da sociedade. Venho defendendo que isso implica mais ciência psicológica centrada nos desafios societais, melhor disseminação, comunicação e democratização do conhecimento da psicologia junto de diferentes áreas da sociedade civil e que isso deriva da capacidade de, enquanto profissionais, as psicólogas e psicólogos participarem em diferentes processos de participação pública, incluindo junto da comunicação social, e colaborar nas mais diversas iniciativas, incluindo políticas.

Se assim for, considerando o aumento galopante da investigação e da evidência científica disponível a partir da ciência psicológica (700% no período entre 1980 e 2014) e do número de profissionais (estimativa de aumento de 19% no Mundo e 67% em Portugal entre 2014 e 2024), a psicologia, enquanto ciência e profissão, pode ser no Mundo e particularmente em Portugal um importante recurso. Um porto de abrigo. Quando ainda vivemos as consequências de uma pandemia por COVID-19 ainda inacabada; quando aumenta o número de pessoas a viver situações de privação e em situação de pobreza e estamos sentimos uma nova crise socioeconómica; quando vivemos um tempo líquido, marcado pela complexidade, pela incerteza e pela insegurança associada, entre outros, aos novos riscos de guerra(s) ou à crise climática; pensar o presente e o futuro de Portugal deve conduzir-nos à exigência do melhor aproveitamento dos recursos e, nesse sentido, a ser mais estimulado e possibilitado o contributo das/os 26.000 psicólogas e psicólogos e garantidas mais e melhores condições para o mesmo, fazendo jus ao investimento do país e das famílias nas últimas décadas na formação e no desenvolvimento deste grupo profissional inestimável do país.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a psicologia, enquanto hub científico e profissional, é hoje um importante porto de abrigo para as pessoas e para a sociedade. Porto de abrigo, porque protector nos desafios e “tempestades” individuais, no apoio a pessoas e famílias, ao longo de todo o ciclo de vida e numa proximidade fundamental para suporte aquando das adversidades e necessidade de adaptação e desenvolvimento. Porto de abrigo, porque aberto ao Mundo e ao que é a concretização, em Portugal, da carta de direitos humanos e dos objectivos do desenvolvimento sustentável, influenciando e promovendo a compreensão dos desafios e a mudança societal necessária num caminho para uma sociedade de maior equidade, justiça e coesão social. Porto de abrigo, porque capaz de se ir construindo e reinventando, adaptando-se a novas necessidades, a novos desafios ou a novas realidade, nomeadamente as que se relacionam com o crescente papel da tecnologia na sociedade. Porto de abrigo, finalmente, porque em tempos desafiantes, de imprevisibilidade e de menor controlo e segurança, é um recurso confiável e fundamental à promoção da saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas e ao desenvolvimento sustentável do país.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 14.11.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/psicologia–uma-ciencia-e-uma-profissao-recurso-do-pais

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COVID-19 Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Um estado completo?

“Um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”.

Esta definição de saúde, amplamente disseminada e reconhecida, é anterior à publicação por Watson e Crick do artigo onde é descrita uma (nova) “estrutura de espiral dupla”, por eles apelidada de “chave da vida”. A definição data da constituição da @World Health Organization em 1946 (75 anos) sendo, portanto, anterior a 1953, ano em que essa descoberta do DNA revolucionou a saúde (e a nossa vida), considerando a sequenciação do genoma humano que se seguiu e a nova medicação e vacinas que possibilitou, por exemplo na pandemia por COVID-19.

Apesar de datada, a definição frisa um “não apenas a ausência” fundamental a compreendermos a saúde em toda a sua amplitude e a saúde mental, particularmente na sua relação com o bem-estar. No entanto, o “estado de completo” parece não-conforme o que sentimos dia-a-dia, as naturais oscilações no nosso bem-estar “físico, mental e social” pelo que, recentemente, Bircher apresentou uma proposta de reformulação mais ajustada ao que hoje sabemos (e vivemos): “um estado dinâmico de bem-estar, caracterizado por um potencial físico e mental que satisfaz as necessidades vitais de acordo com a idade, cultura e responsabilidade pessoal”.

A ideia de dinamismo (e, logo, a possibilidade da sua promoção), de potencial (mobilizado ou não a cada momento), a ponderação da idade e das necessidades a ela ajustadas, além das questões culturais (também da comunidade) e da responsabilidade pessoal (envolvendo a literacia) são elementos fulcrais a pensarmos a saúde e a saúde mental.

Elementos reflecitdos, de forma simples (espero e creio, não simplista) e descontraída (por vezes até divertida), numa conversa que partilho e sobre a qual amanhã passa um mês. Conversei com o António Raminhos, com moderação da @Isabel Silva, na iniciativa de apresentação pública da colaboração entre a @Multicare (@Fidelidade) e a @Ordem dos Psicólogos Portugueses, no âmbito da promoção da saúde e da saúde mental, também pela nova abordagem compreensiva aos temas, com inclusão significativa da psicologia (todas as suas áreas de actividade), enquanto oferta dos seguros de saúde e com foco na prevenção e promoção da literacia (mais informações aqui).

Uma conversa e, essencialmente, um trabalho conjunto que, “qual estrutura de espiral dupla”, afirma a pessoa na relação com o contexto, as dimensões físicas na relação com as dimensões psicológicas e momentos em que a espiral se move em sentido positivo e outros em sentido negativo.

Porque não, nem sempre estamos bem, nem sempre podemos estar (e temos) que estar bem. Porque sim, por vezes necessitamos de ajuda. De nos ajudarmos, cuidando-nos mais. Que nos ajudem, pessoas próximas ou, também por vezes, profissionais capacitadas/os e motivadas/os para tal.

 

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COP27 e as comemorações dos dias Universal dos Direitos da criança e da memória das vítimas da estrada

Quando na principal via de acesso à bonita cidade de Évora olhamos à esquerda, ali o encontramos. Ali, onde tantas vezes passei, a caminho ou no regresso da Escola e bairro onde trabalhei os primeiros (significativos) anos, enquanto psicólogo e coordenador de um projecto. Jardim da memória, memória de tantas vidas interrompidas, brutalmente perdidas na e pela estrada. Bairro e Escola, memória minha de como as circunstâncias, também e ainda em Portugal, desafiam e limitam Direitos das crianças. Ontem, dia final da COP27, comemorou-se o Dia Mundial em memória das vítimas da estrada e o Dia Universal dos Direitos das crianças.

Comemorações que, creio, podem dar-nos uma importante pista para reflectir sobre os limitados resultados da COP27. “Foi dado um passo muito curto para os habitantes do Planeta” disse Guterres. Apesar da declaração final afirmar finalmente a “necessidade imediata de recursos financeiros novos, adicionais, previsíveis e adequados para ajudar os países em desenvolvimento que são particularmente vulneráveis” às alterações climáticas, não tem avanços significativos (pelo contrário) na redução de emissões de gases com efeito estufa. Acordo e consenso mínimo, na compreensão do problema, seus impactos e da necessidade de reparação. Desacordo na mudança e transformação necessária à redução de emissões, também pela dificuldade em conceber a mudança de foco nos combustíveis fósseis em simultâneo com a promoção da possibilidade de bem-estar.

A pista resulta da forma como estas comemorações demonstram a compatibilidade potencial das mudanças estruturais com a maior possibilidade de bem-estar. Assim foi e é com a progressiva operacionalização da Carta dos Direitos das crianças, quando se coloca o foco, exactamente, nas crianças. Assim foi e é com a redução das vítimas da estrada, particularmente quando se desenham cidades com o foco na pessoa (peões) e não no carro (tráfego).

Em 2019 (2020/21 são anos atípicos) morreram em Portugal 74 pessoas atropeladas. Nos últimos anos, mais de 10 pessoas por ano em média apenas em Lisboa. Também em 2019, Oslo e Helsínquia não tiveram qualquer morte por atropelamento e Londres está a implementar um plano com esse objectivo. Procura mudar o foco da “melhoria do tráfego” para as “pessoas primeiro” e, além de uma redução significativa dos atropelamentos (e mortes), tem resultado na diminuição do número de carros por família, dos crimes na rua e na maior utilização do espaço público para brincar e andar.

Num e noutro caso exemplos de como mudar o foco pode estimular (e não diminuir) a possibilidade de bem-estar. Um e outro caso a fazerem-nos recordar que mudar é difícil, mas possível, particularmente se envolver as pessoas. Que um foco em energias renováveis e nas possíveis e necessárias reduções, com apoio aos países com maiores vulnerabilidades, é exequível e pode, em simultâneo, ser promotor da possibilidade de bem-estar e do desenvolvimento sustentável de cada país e do Mundo.

Pelo que esperamos?

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COP27

Poderemos “vencer” o(s) desafio(s) da crise climática? Sim, podemos.

Datam do ano em que nasci (1983) duas publicações que me ajudam a pensar a crise climática no período que levo de vida:

a) O relatório “Changing climate” [Mudança climática] da Comissão de Avaliação do Dióxido de Carbono que no sumário executivo já dizia/previa: “se um alarme global relativo ao aumento de 3 ou 4 graus acontecer nos próximos 100 anos, é provável um aumento do nível do mar de 70cm (…) devido às enormes incertezas e implicações significativas, é importante confirmar os preditores das alterações climáticas o mais precocemente possível para melhorar a sua precisão (…) e o desenho de programas de monitorização;

b) O artigo de B. Page e R. Shapiro “Effectts of Public Opinion on Policy” [Efeitos da Opinião Pública na Política] que demonstrava o quanto e a forma como a opinião pública pode influenciar a política e as políticas.

 

Sim, podemos. Tornando saliente e prioritária a crise climática e as medidas (e monitorização) para a sua mitigação. Aumentando a informação e literacia da opinião pública e procurando promover atitudes pró-ambientais nas pessoas, que, simultaneamente, estimulem mudanças comportamentais individuais e na sociedade e pressionem governos e organizações para a mudança, valorizando-a e recompensando-a.

 

Sim, podemos. De 2019 a 2022 mantemo-nos “numa auto-estrada para o inferno com o pé no acelerador”, conforme apropriadamente A. Guterres referiu na COP27. Daí para cá, com a “International Summit on Psychology and Global Health – A leader in climate action” (Lisboa; 2019) e com a participação, já através da Global Psychology Alliance resultante da Summit, na COP26 e agora na COP27, temos procurado, mais regular e assertivamente, afirmar o contributo indispensável da psicologia enquanto ciência e profissão neste complexo desafio societal.

 

Sim, podemos. Com maior compreensão de como as pessoas se comportam e tomam decisões e do que pode estimular mudanças assentes nas comunidades, na solidariedade e no bem-estar. Com mais investimento nos processos de adaptação e promoção de resiliência individual e comunitária para responder às incertezas e iniquidades que advirão. Com mais e mais eficaz suporte emocional às pessoas vítimas de catástrofes. Com mais políticas públicas informadas pela ciência (também psicológica). Cuidando, particularmente na população mais jovem e com maiores vulnerabilidades, das consequências na saúde mental e bem-estar da interiorização e do confronto no presente e para o futuro com os problemas ambientais.

 

Sim, Podemos. E sim, devemos reforçar o contributo de cada um/a para tal.

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Psicologia, porto de abrigo.

Ferry, briefing ou start-up. ”Há palavras e expressões não de língua portuguesa que, também porque as fomos ouvindo e usando no dia-a-dia, temos dificuldade de traduzir em palavras portuguesas capazes de abarcar todo o seu significado.” Hub.

 

Venho defendendo que, além “de um dos sete hubs de ciência”, a psicologia “se deve assumir um hub enquanto profissão. Enquanto grupo profissional com muito a oferecer a outras actividades profissionais (e a aprender, claro está), às pessoas e sociedade no geral.”

 

“Psicologia – Uma ciência e uma profissão recurso do país”, 45º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) sublinha-o, reforçando que tal depende “da disseminação e utilização do conhecimento e contributo da ciência psicológica junto de outros grupos profissionais”, nas equipas multidisciplinares (…) na consultoria e apoio às lideranças (…) e junto das decisoras/es políticos.” Também “na promoção de competências e no desenvolvimento das pessoas ao longo de toda a vida (…), nas dimensões de cidadania das psicólogas e psicólogos, nas suas actividades e participações no dia-a-dia além das profissionais (…) e quando também lideram e têm a oportunidade de tomar decisões que influenciem grupos ou comunidades”.

 

Venho defendendo que, “quando ainda vivemos as consequências de uma pandemia por COVID-19 ainda inacabada; quando aumenta o número de pessoas a viver situações de privação e em situação de pobreza e estamos sentimos uma nova crise socioeconómica; quando vivemos um tempo líquido, marcado pela complexidade, pela incerteza e pela insegurança associada, entre outros, aos novos riscos de guerra(s) ou à crise climática; pensar o presente e o futuro de Portugal deve conduzir-nos à exigência do melhor aproveitamento dos recursos e, nesse sentido, a ser mais estimulado e possibilitado o contributo das/os 26.000 psicólogas e psicólogos e garantidas mais e melhores condições para o mesmo.”

 

Venho defendendo que “a psicologia, enquanto hub científico e profissional, é hoje um importante porto de abrigo para as pessoas e para a sociedade. Porto de abrigo, porque protector nos desafios e “tempestades” individuais, no apoio a pessoas e famílias, ao longo de todo o ciclo de vida e numa proximidade fundamental para suporte aquando das adversidades e necessidade de adaptação e desenvolvimento. Porto de abrigo, porque aberto ao Mundo e ao que é a concretização, em Portugal, da carta de direitos humanos e dos objectivos do desenvolvimento sustentável, influenciando a mudança societal necessária a maior equidade, justiça e coesão social. Porto de abrigo, porque capaz de se ir construindo e reinventando, adaptando-se a novas necessidades, novos desafios ou a novas realidades. Porto de abrigo, finalmente, porque em tempos desafiantes, de imprevisibilidade e de menor controlo e segurança, é um recurso confiável e fundamental à promoção da saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas e ao desenvolvimento sustentável do país.”

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Democracia Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.”

“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.”

Ainda na primeira página de “O Amante”, seu romance autobiográfico, Marguerite Duras resume-nos em 8 palavras uma vida. Uma vida mais em que muito cedo era já tarde demais.

Tenho, por diversos motivos, pensado nesta passagem e no que ela significa. E, talvez paradoxalmente, pensado não apenas no que mais automaticamente me (creio nos) suscita (o que cedo nas nossas vidas nos pode impedir de nos cumprirmos, autodeterminarmos, viver em plenitude e com saúde e bem-estar ao longo da vida) mas também no que de estímulo comporta para que possamos cedo, senão muito cedo, agir e intervir para que não se torne tarde ou tarde demais.

Quem aqui me lê, ou quem partilha de forma mais próxima o seu dia-a-dia comigo, sabe que um desses motivos trata a forma como venho reflectido as questões associadas às situações de pobreza e exclusão e a sua relação com outros desafios societais complexos, com a saúde mental e com as políticas públicas. Como impactam toda a vida, de todas as pessoas e da sociedade e como são determinantes fundamentais da educação, saúde e bem-estar ao longo da vida.

Sabe também quem há dias, entre a comemoração do Dia Mundial da Saúde Mental e do Dia Internacional da Erradicação da Pobreza (a 15.10.22), me ouviu conversar com a Carla Rocha no episódio do Quarto do Fundo (parceria da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses) que partilho. O destaque da editora, também em 8 palavras, foca algo essencial: “Investir na saúde mental para prevenir a pobreza”. Refere ainda o papel da promoção do autocuidado, das competências e das relações sociais como fundamental à prevenção da violência, da pobreza e de todo o tipo de processos de exclusão. Cedo, muito cedo, para não ser tarde, tarde demais.

Também procurarei que o saiba quem, na próxima segunda-feira, participe nas II Jornadas do Serviço de Psicologia Centro Hospitalar Universitário de São João, onde, em conferência, abordarei o projecto “.Final à pobreza” (informações/inscrições aqui). Fá-lo-ei a convite do Eduardo Carqueja, a quem muito agradeço, não apenas o convite e confiança, mas a forma como, em conjunto com toda a equipa do Serviço de Psicologia que coordena, dia-a-dia nos demonstra, também ali, as mais-valias de uma organização de serviços de psicologia com autonomia nas estruturas do SNS. Mais-valias na qualidade de resposta aos cidadãos, multidisciplinariedade das intervenções e sustentabilidade da própria organização. No representa, significa e permite de valorização e desenvolvimento profissional às psicólogas e psicólogos que o integram. A quem agradeço por demonstrar que não é muito cedo, mas também não é tarde demais, para generalizarmos o modelo e disso beneficiarem pessoas e sociedade.

Um momento mais para reflectirmos juntos, espero, que devemos intervir e agir muito cedo, para que não seja tarde… Ou, ao mesmo, cedo para que não seja tarde demais.