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The kids are not all right

Vivemos um momento muito complexo relativo à prevalência de problemas de saúde mental nas crianças e jovens. Em rigor, vivêmo-lo em todas as faixas etárias, mas, muito especialmente, na população mais jovem.

Problema que não é problema apenas em Portugal. Há sensivelmente um ano fiquei profundamente impactado ao assistir a um evento muito a propósito intitulado “The kids are not all right”, sobre o declínio da saúde mental na população jovem nos EUA. Tal qual fico ao reflectir sobre o aumento das perturbações depressivas e de ansiedade na última década na Europa, com países como a França ou o Reino Unido a aumentarem 2 a 4 vezes a incidência. Ou quando observo dados portugueses sobre comportamentos autolesivos ou dados globais sobre suicídio na adolescência. Quando um relatório do Centers for Disease Control and Prevention indica que em 2021 13% das alunas do ensino secundário nos EUA tentaram o suicídio (30% consideraram-no seriamente), 20% se considerarmos o universo das/os estudantes LGBTQ+ (45% consideram-no seriamente), existindo dados consistentes também sobre a maior prevalência em jovens com pertenças comunitárias distintas.

Desigualdade(s). Exclusão. Nas suas antigas e novas formas, enquanto determinantes do passado e presente fundamentais para os problemas referidos, potenciados pelas novas formas de desigualdade e exclusão decorrentes da relação com as outras e outros (também por via das novas tecnologias e de uma sociedade focada no presente, no imediato e numa “ditadura” da felicidade), da pressão das notas e do mérito, da ausência de previsibilidade, controlo e de alguma segurança face ao futuro. Isto a par da carência de suporte e apoio consistente e contingente que acompanhe esta pressão e desafio à saúde mental e o capital social hoje existente que faz com que as/os jovens “exijam”, bem, respostas mais significativas e eficazes neste âmbito.

Sobre isto conversei com a Margarida Gaspar de Matos e a Tânia Monteiro Neves no Encontro Nacional de Psicólogos Ubuntu a 22.06, momento que aqui partilho: https://www.youtube.com/watch?v=qzRJWQvmqBs. Sobre isto conversei, com amigas/os e colegas de sempre, a convite da Cláudia Espiguinha Guerra, no meu primeiro Agrupamento de Escolas, onde estagiei e trabalhei os primeiros 7 anos enquanto psicólogo, reflectindo sobre os “Desafios na promoção da saúde mental de crianças e jovens”.

Sobre isto, finalmente, volto a partilhar o artigo “(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem” que escrevi na rubrica “Ao redor” em Setembro de 2022: https://www.linkedin.com/pulse/rosa-dos-ventos-da-saúde-mental-população-jovem-tiago-pereira/.

Também para lembrar que a pandemia continuou/aprofundou alguns destes problemas, nomeadamente as suas manifestações comportamentais. Apenas continuou/aprofundou, não explica por si o aumento consistente da última década, pelo que há muito mais a fazer que a simples (e importante) recuperação da pandemia.

Para isso, todos contamos. Todos somos fundamentais.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência

“Eis-nos no Verão. Tempo propicio a pensarmos em nós, no nosso corpo e mente, na nossa saúde e bem-estar. Tempo propicio a associarmos o calor, por vezes extremo, a “bom tempo”. Os alimentos orgânicos ou biológicos a algo “mais saudável”. Tudo quanto é natural a algo “que faz bem”, é seguro e eficaz. Nada mais simples. Nada mais, sistematicamente, aprendido. Nada mais errado.”

“A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência”, 61º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a “falácia do apelo pelo natural” e dois riscos dela decorrentes:

  1. A potencial generalização da ideia de que os alimentos / produtos convencionais ou químicos são menos saudáveis ou prejudiciais, algo que poderá conduzir a que sejam menos consumidos / utilizados, penalizando particularmente as pessoas e famílias com maiores dificuldades económicas ou com menor acesso a estes produtos (por ex., também por viveram em zonas mais remotas);
  2. A associação entre o apelo pelo natural e a negação da ciência, muito expressa, por ex., na crescente desconfiança e recusa de terapêuticas químicas (antibióticos e medicação no geral, quimioterapia, …), de terapêuticas baseadas na evidência como a psicoterapia ou outras intervenções psicológicas ou na desconfiança e negação das vacinas, apesar de terem sido e serem algo absolutamente preponderante na melhoria global de bem-estar e qualidade de vida, no aumento da esperança média de vida e diminuição da mortalidade infantil ou na prevenção e erradicação de um conjunto de doenças nas últimas largas décadas.

“Estamos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio e, num Mundo onde a ciência e conhecimento estão mais acessíveis que nunca, o espaço e o debate público é profundamente influenciado por teorias da conspiração, desinformação ou notícias falas e promessas acientíficas ou pseudocientíficas de resolução dos problemas, dos mais simples aos mais complexos. Como Steven Pinker refere, mesmo para problemas muito complexos e com muito sofrimento associado para pessoas, famílias e comunidades, “o problema é que as pessoas aceitem (e utilizem) as soluções encontradas para os problemas”, vencendo-se o obscurantismo, missão fundamental da sociedade hoje.”

Mais ainda, quando a “falácia do apelo pelo natural” gera um “significativo valor monetário e comercial, vivendo, portanto, dos desafios do presente e para o presente, mas impactando verdadeiramente o futuro de todas as pessoas, seja no fomento do discurso anticiência, seja no fomento da desconfiança, seja no fomento de discursos mais populistas, antipolítica e políticos.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, passou a ser necessário “marchar” pelos factos, como assinalava recentemente um cartaz de um jovem numa manifestação por acções face à crise climática [“I can’t believe in marching for facts”]. Pelos factos, pela saúde pública e por acções contra a falácia do apelo pelo natural e contra a negação da ciência.”

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Pobreza e desigualdades (ECP2023)

Quando estou fora de Portugal, num país onde compreendo a língua, alargo a rotina de “olhar” as primeiras páginas dos principais jornais portugueses aos principais jornais do país onde estou. Assim o fiz na passada semana com os jornais do Reino Unido e, apesar do momento que vivemos, apesar dos problemas sociais e económicos que a Europa enfrenta e em semana de comemoração do 75º aniversário de um @NHS (SNS do UK) particularmente desafiado na sua sustentabilidade, não vi as palavras “pobreza” ou “desigualdades” nessas primeiras páginas, mesmo quando fundamentais nestas questões.

Continuamos a falar desproporcionalmente muito pouco de pobreza e de iniquidades face ao quanto são determinantes da saúde (incluindo saúde mental), da educação e do bem-estar. Fazêmo-lo porque enquanto sociedade, erradamente, tendemos a olhar estes problemas como problemas das pessoas que vivem em situação de pobreza ou em risco de pobreza e não como problemas de todas as pessoas, ao perigarem a coesão social e impactarem toda a sociedade. Fazêmo-lo enquanto sociedade e, também de certa forma, enquanto psicólogas/os, quando pensamos apenas estes problemas como parte do “problema”/”circunstância” de um/a cliente específica/o e não enquanto problemas macro, sempre e necessariamente presentes na sociedade.

Assim comecei a minha intervenção inicial no Main Stage Event “Poverty and inequalities and the impact of these on mental health” [Pobreza e iniquidades e seus impactos na saúde mental] do 18º Congresso Europeu de Psicologia, um interessante debate com Bridgette Ricketts, Philip Murphy e Germán Gutiérrez, presidente da IUPsyS, moderado pelo @Jon Sutton.

No dia seguinte, procurei aprofundar este tema no meu Keynote no congresso: “Multiple contributions of psychology to a “Full Stop to Poverty” – The role of psychological science, practice and professional associations” [“Múltiplos contributos para um “.Final à Pobreza” – O papel da ciência e da prática psicológica e das suas associações profissionais”]. Discuti-o na sua centralidade para a psicologia e nos contributos da ciência e da prática das/os psicólogas/os para a sua compreensão e erradicação, a par do papel particularmente importante das associações profissionais no estímulo a que isto possa acontecer.

A fechar, e a partir de uma questão da @Claudia Hammond que me acompanhou no Keynote, afirmei o quão poderá ser diferenciador ter 27.000 psicólogas/os em Portugal nos níveis mais micro (contextos de intervenção profissional) e cívicos (contextos de cidadania) a contribuírem para o aumento de literacia da população e sociedade sobre este tema, para a advocacia no mesmo e para (a necessidade de) intervenções baseadas na evidência e na transferência da ciência para as políticas locais, regionais e nacionais. Mais, o quão poderá ser transformador se aos 27.000 juntarmos, criando comunidade e mobilizando, centenas de milhares na Europa e no Mundo a contribuírem para um .Final à Pobreza.

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Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento

“Nós, enquanto seres humanos, somos no geral pouco eficazes a prever o futuro.” Ainda assim, acompanho o CEO da Apple quando, na recente apresentação do “Vision Pro”, referiu que, como os computadores pessoais e, mais tarde, os computadores portáteis, os computadores espaciais, conforme o definiu, representarão uma “nova era”.

“Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento”, 60º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como um dispositivo que “permite aceder ao “Mundo digital” sem ecrãs físicos e interagir com o computador sem dispositivos “extra-humanos” como teclados, ratos ou superfícies”, imergindo totalmente o “Mundo digital” no real a partir apenas de uns óculos”, pode ser disruptivo, transformar-se e revolucionar a forma como se “projecta em Engenharia ou Arquitectura”, como se assistirá a espectáculos ou eventos desportivos e como se prestam serviços de Educação e Saúde.”

“Se as reuniões, a formação e o treino e intervenção à distância, aprofundadas na pandemia, melhoraram consideravelmente o quadro antes existente, particularmente para quem vive/trabalha em locais mais remotos, tudo tenderá a evoluir rapidamente para novas e potentes ferramentas que permitirão, através de experiências imersivas em tempo real cada vez mais simples e satisfatórias, o encontro de pessoas no “Mundo digital” a partir do seu “Mundo real”.

Assistiremos, potencialmente, a mudanças na forma de “formarmos (inicial e continuamente) profissionais de saúde, de treinarmos tarefas específicas, de realizarmos processos de articulação e intervisão interpares e de melhoria significativa da prestação de serviços (incluindo especializados), particularmente em contextos de difícil acesso e mais remotos. Na psicologia, juntar-se-á à evolução da utilização da realidade virtual e aumentada em intervenções psicológicas e psicoterapêuticas em diversas áreas (hoje já bastante testada e utilizada nas fobias), na complementaridade de intervenções (por exemplo, possibilitando experiências imersivas que potenciem a empatia), na realização de avaliação psicológica ou na assistência por parte de tradutores/interpretes em processos de intervenção.”

“Poderá, também, ter um positivo impacto nos serviços públicos e, até, em fenómenos particularmente relevantes em Portugal como a solidão/isolamento, a perda de população e serviços no interior ou a emigração. Mas pode, também e noutro prisma, se não utilizados responsavelmente, representar um conjunto de riscos também na questão da solidão/isolamento, na estigmatização/marginalização, na desinformação, na cibercriminalidade e, no limite, nos fenómenos de Guerra e conflito entre países.”

Deve, portanto, “para o bem da Humanidade, atender às evidências da ciência psicológica” e concorrer para “mais, mais próxima, personalizada e eficaz psicologia ao serviço das pessoas, do planeta, da prosperidade e da equidade.”

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Junho, “bom tempo”…

Estamos a viver o Junho mais quente no Mundo desde que existem registos meteorológicos e o primeiro Junho em que ultrapassamos o importante 1,5º Celsius acima da temperatura média esperada.

Dados atrás de dados a confirmar as alterações climáticas decorrentes da crise climática que vivemos. Fenómenos atrás de fenómenos, novos ou “antigos” mais intensos e/ou frequentes, a confirmar o seu impacto na vida de comunidades e na saúde e bem-estar das pessoas.

O “bom tempo” – conforme o “narramos”, considerando que permite pelo aumento de temperatura, a quem dele gosta e pode usufruir, uma extensão do período típico de “Verão” para outros momentos do ano – tem múltiplas e perigosas consequências no presente e no futuro. Deixo dois grupos de exemplos, de duas entidades com trabalho e especial envolvimento nesta área:

a) O IPCC no seu sexto relatório de avaliação, publicado em Março deste ano, destaca os efeitos do aumento da temperatura e dos fenómenos de calor extremo no aumento da mortalidade e morbilidade (vejam-se os dados em Portugal), na maior propagação de doenças transmissíveis, na deslocação e migração força de comunidades e, entre um conjunto significativa de outros elementos, no aumento de problemas de saúde mental, incluindo questões de stresse e trauma face a eventos particularmente significativos;

b) O World Economic Forum publicou recentemente um trabalho sobre consequências menos óbvias que as anteriores, mas relevantes das alterações climáticas, que incluem o aumento até ao triplo dos incidentes aéreos relacionados com forte e inesperada turbulência; a perda significativa do peso médio de animais como as cabras e redução da diversidade de sexos de animais como os lagartos ou as tartarugas, com consequências no ecossistema; o aumento das erupções vulcânicas; mais tempestades e relâmpagos e a diminuição brusca de um grão que muito aprecio, o café.

Mais ou menos óbvias, as consequências são impactantes já no presente e sê-lo-ão, muito, no futuro. Este é um desafio, portanto, que a todas e todos convoca e convocará… Desafio enorme, e cujo envolvimento, nas diversas formas, pode, por si, ser promotor de bem-estar e de dimensões psicológicas como a confiança e a auto-estima.

Desafio enorme, mas possível e possível num quadro de melhoria do bem-estar global.

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Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo… (Ao redor…; 13.06.2023)

…porque haveria de considerar-se incapaz de realizar actos próprios de diferentes profissões e de escolher pessoas habilitadas, preparadas e competentes para junto de si realizarem determinados actos, sejam de índole jurídica, contabilística ou psicológica?

A “YouGov” é um grupo que se propõe recolher e disponibilizar dados que estimulem a reflectirmos como o “Mundo pensa”. Num seu recente estudo, uma em cada três das mais de 20.000 pessoas dos EUA que nele participaram referem sentirem-se “algo ou muito confiantes” em que conseguiriam aterrar um avião comercial, apenas com indicações da torre de controlo. Quase um em cada dois se considerarmos apenas os homens. Estes dados, numa tarefa de enormíssima complexidade e cuja probabilidade de sucesso é, de acordo com as/os especialistas, virtualmente 0, correspondem a um excelente exemplo de como o “Mundo pensa” e do excesso de confiança que pessoas, sem determinada competência e experiência para a realização de uma tarefa ou de um acto, têm sobre a sua capacidade de realizarem com sucesso essa tarefa ou acto. Trata-se do efeito descrito como “Dunning-Kruger”, fenómeno que, com maior ou menor consciência de cada um de nós, a todos impacta.

Felizmente, na grande maioria das situações, o seu impacto resume-se a discussões enviesadas, a impossibilidades como a grandíssima maioria das pessoas se considerar um/a condutor/a acima da média (algo estatisticamente impossível) ou a erros sem consequências graves. Porém, se pensarmos no pilotar de um avião comercial ou em possíveis exemplos das três áreas profissionais acima referidas, as consequências podem ser muito graves e impactar decisiva e significativamente os direitos, a segurança, a saúde ou até a vida de pessoas. Podem impactar o interesse público e o bem-comum.

Não se tratando de situações decididas por mais sorte ou azar, falamos de competência, incompetência e da capacidade de reconhecimento das mesmas por cada pessoa, em cada momento, face a cada situação. Falamos do quão potencialmente graves podem ser os seus efeitos quando patentes em pessoas “com poder”, formal ou não, sobre outras pessoas, sem (possibilidade de) controlo por pares, situações possíveis em actividades profissionais em que existe a percepção por parte de clientes de que estão perante um/a especialista na área em que procuram ajuda. Clientes estes, muitas vezes, em situação de vulnerabilidade a propósito do próprio pedido de ajuda e/ou de desequilíbrio de informação e conhecimento potencial face à pessoa que procuram.

A acrescentar complexidade à situação somemos à sobrevalorização das nossas competências o viés do optimismo, ou seja, a tendência também comum nos seres humanos para sobrestimarmos a possibilidade de vivenciarmos situações positivas no futuro. A eles, a “ditadura da autorreferenciação”, pela qual as pessoas tendem a generalizar as suas experiências, percepcionando-as como “a realidade” única. Ainda um momento e contexto onde o acesso à informação é simples e rápido e em que a exposição, por via por exemplo de séries ou filmes, às mais diversas situações nos permitem percepcionar como próximas, simples e com “finais felizes” determinadas circunstâncias complexas (quem nunca viu um filme de um potencial desastre aéreo de final feliz e herói/heroína improvável?). Tudo a reforçar a sobrevalorização das nossas competências particularmente em áreas que nos despertam interesse mas que não conhecemos com profundidade, a partir da formação, treino, experiência e realidade.

Com este quadro de referência, e mesmo considerando o aumento global da literacia das populações em áreas diversas, creio restar clara e compreensível a necessidade de organização e regulação profissional em áreas com impacto significativo nas pessoas e no interesse público. De um quadro comum base de necessidade de uma (“boa”) formação académica, complementada com treino, experiência e formação (específica) profissional, com compromisso e responsabilização com a excelência das práticas assentes num quadro ético e deontológico, numa atitude de desenvolvimento profissional contínuo, potenciados por processos de validação e melhoria conjunta entre colegas da mesma profissão e no quadro de equipas e trabalhos multidisciplinares.

Por tudo isto, e pelo seu reforço, devíamos mobilizar-nos enquanto sociedade, coesa. Acontece, porém, como aqui escrevi no início de Março (Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais), que debates públicos assentes na disponibilidade restrita de informação, na generalização e na desconfiança são “limitados” e não permitem “promover solidariedade, respeito pelas especificidades” e “construir mais participadas e equilibradas respostas, logo soluções melhores que beneficiariam a sociedade e o interesse público”. Assim tem sido com o “debate” em curso das propostas de alteração aos estatutos das Ordens Profissionais, modelo em que o Estado delega, sob sua tutela e supervisão, competências e atribuições diversas a um conjunto de associações públicas profissionais por ele legitimadas.

O presente “debate” é caracterizado pela desconfiança e pela narrativa de “corporativismo” das Ordens, nada mais injusto para parte delas, cujos órgãos são muitas vezes pressionados nesse sentido pelos seus membros, mantendo, porém, o foco no contributo para mais equitativo acesso a melhores serviços dos seus profissionais pela população e no desenvolvimento da profissão com vista ao interesse público. Diminui-se, assim, o envolvimento cívico, a construção conjunta, e abre-se espaço para, à boleia de resultar num potencial crescimento económico, assistirmos a propostas de maior desregulação da actividade profissional em áreas que envolvem direitos fundamentais, desprotegendo a sociedade e as pessoas, particularmente as em situação de maior vulnerabilidade ou impossibilitadas de decisões totalmente informadas e em liberdade. Urge que nos questionemos se os valores em que assenta este “debate” são os adequados a mudanças com impacto no presente e no futuro e se, ainda que se concretizando os benefícios económicos estimados com a desproteção das pessoas, isso resultaria em aumento do seu bem-estar, fim último que creio que decisores e a sociedade prosseguem com o objectivo de crescimento económico.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a ideia feita do “declínio moral” das pessoas pode ser uma “ilusão” percebida como verdade ao longo dos últimos 70 anos (!), conforme um importante estudo recente demonstra. Cabe, pois, a quem nos governa, estimular a reflexão, a construção conjunta, projectar o futuro e decidir, procurando prevenir os enviesamentos e os efeitos do momento e do contexto que ajudam a explicar o comportamento e tomada de decisão de pessoas individuais. Cabe serem, também, responsivos à expectativa das pessoas de ter instituições de proximidade que reforçam a confiança mais empoderadas e uma sociedade civil mais forte e participativa no sentido do bem-comum. Confiemos mais. Co-construamos mais. A sociedade não se faz “num dia” e é imensamente perigoso o caminho de muito pôr em causa por uma vitória, num processo ou num “irritante”. Pirro, o Rei de Epicuro e da Macedónia, teria certamente algo a dizer sobre isso.

 

Tiago Pereira

Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

in Sábado (Ao redor…); 13.06.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/se-uma-parte-relevante-de-nos-se-julga-capaz-de-aterrar-um-aviao-comercial-numa-emergencia-apenas-com-o-apoio-da-torre-de-controlo

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A morte da COVID é manifestamente exagerada

O jornal Inevitável desta semana volta ao tema da pandemia e dedica a sua edição a pensar e a reflectir o momento actual da COVID-19 e os diversos e múltiplos impactos da pandemia. Sob o mote “A morte da COVID é manifestamente exagerada”, reúne um conjunto de contributos, incluindo uma conversa/entrevista minha com a jornalista @Sónia Peres Pinto, que abaixo partilho.

Ao destaque da capa do jornal (“A ansiedade e os ataques de pânico aumentaram muito nas crianças e jovens”), a partir de um relato meu do que as colegas psicólogas e psicólogos referem relativamente às questões da saúde mental na população mais jovem, junta-se o destaque do interior da entrevista (“Não regressámos todos ao que éramos em 2019”), reflexão minha sobre a forma (diversa) e o tempo (diverso) do regresso à “normalidade” (dos eventos, das comemorações, do trabalho, …).

Além destes destaques, a entrevista foca outros aspectos, como são exemplo a ideia de que “o regresso a determinas as rotinas é um momento de celebração e de partilha”, fundamental à nossa identidade, ao bem-estar e à saúde mental ou a de que “não há hoje um psicólogo no SNS que tenha tempo para receber mais pessoas”, discutindo a necessidade de um investimento mais significativo e assertivo do Serviço Nacional de Saúde no reforço de profissionais de saúde mental, também porque as “pessoas com menos recursos são as que têm maior dificuldade em aceder-lhes”.

A quem possa interessar, partilho links para a entrevista completa nos sites Jornal i e Nascer do Sol.

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Presidência da República

9 de Março de 2021. Marcelo Rebelo de Sousa toma posse para o segundo mandato enquanto Presidente da República. No seu discurso, perante um país há um ano em pandemia, refere ser uma das suas prioridades a reconstrução “da vida das pessoas”. Diz ser “tudo ou quase tudo – emprego, rendimentos, empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos. É mais, muito mais do que recuperar.”

Ontem passou um mês sobre uma sua audiência a uma comitiva que integrei da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Nela abordamos esta “reconstrução maior que uma recuperação”. Sentimos interesse na profissão e nas/os profissionais, mas, também, o reconhecimento do seu rápido crescimento e impacto crescente. Falamos do seu papel e contributo e dos desafios da sua prática em diferentes contextos, da educação à saúde, passando pela área social, comunitária e do trabalho. Reflectimos sobre melhorias no acesso a serviços de psicólogas/os em diferentes áreas e por diversos tipos de prestadores e da participação dos profissionais em equipas multidisciplinares. Reforçamos a necessidade de aprofundar e acelerar este caminho, particularmente no SNS e na área social, junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Discutimos, ainda, a presidência portuguesa da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP) e os seus temas em torno do contributo da psicologia nas questões da pobreza e exclusão social, temas também fundamentais do VI Congresso da OPP/XIII Congresso IberoAmericano de Psicologia que decorrerá em Lisboa (SET 2024) e que conta com o seu Alto Patrocínio (informações/inscrições: https://congresso.ordemdospsicologos.pt).

“Só haverá, porém, verdadeira reconstrução se a pobreza se reduzir, os focos de carência alimentar extrema desaparecerem, as desigualdades se esbaterem, a exclusão diminuir, a clivagem entre gerações e entre territórios for superada”, dissera também na tomada de posse. Sabe o Sr. Presidente que o país pode contar, nestes e noutros desígnios, com o contributo das psicólogas e psicólogos e da sua associação pública profissional, tal como sabemos que o Sr. Presidente o reconhece e valoriza.

Simbolicamente, horas depois, receberíamos a proposta do Governo de revisão do Estatuto da OPP. Proposta que teve tanto de surpreendente como de inaceitável e que, a cumprir-se, representaria um retrocesso na protecção dos cidadãos, do interesse público e no acesso a serviços de psicologia de qualidade, pela desregulação da profissão e fim das suas especialidades profissionais.

Um conjunto de acções, a par da forte mobilização de psicólogas/os e não apenas, permitiram que se acordassem alterações que esperamos ver “formalmente” espelhadas na proposta final aprovada (e confirmada) em Conselho de Ministros, que muito em breve conheceremos. Resta, depois, trabalhar junto da Assembleia da República com o propósito último de podermos prosseguir o nosso papel e (importante) contributo enquanto profissão fundamental ao país e às pessoas.

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Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

“Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

…porque haveria de considerar-se incapaz de realizar actos próprios de diferentes profissões e de escolher pessoas habilitadas, preparadas e competentes para junto de si realizarem determinados actos, sejam de índole jurídica, contabilística ou psicológica?”

A primeira frase deste texto, título do 59º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado), resulta de um recente estudo da “YouGov”, onde “1 em cada 3 das mais de 20.000 pessoas dos EUA que nele participaram referem sentirem-se “algo ou muito confiantes” em que conseguiriam aterrar um avião comercial, apenas com indicações da torre de controlo (quase 1 em cada 2 se considerarmos apenas os homens)”.

Exemplo que, “numa tarefa de enormíssima complexidade e cuja probabilidade de sucesso é, de acordo com as/os especialistas, virtualmente 0”, demonstra “o excesso de confiança que pessoas, sem determinada competência e experiência para a realização de uma tarefa têm sobre a sua capacidade de a realizarem com sucesso.”

“Somemos à sobrevalorização das nossas competências o viés do optimismo” (…), a “ditadura da autorreferenciação”, (…) um momento e contexto onde o acesso à informação é simples e rápido” e onde existe uma enorme possibilidade de percepcionarmos como próximas e com “finais felizes” situações complexas.

Assim, mesmo considerando o aumento global da literacia, creio “compreensível a necessidade de organização e regulação profissional em áreas com impacto significativo nas pessoas e no interesse público. De um quadro comum base de necessidade de uma (“boa”) formação académica, complementada com treino, experiência e formação (específica) profissional, com compromisso e responsabilização com a excelência das práticas assentes num quadro ético e deontológico, numa atitude de desenvolvimento profissional contínuo, potenciados por processos de validação e melhoria conjunta entre colegas da mesma profissão e no quadro de equipas e trabalhos multidisciplinares.”

A desconfiança e a narrativa de “corporativismo” tem marcado o debate em torno das Ordens Profissionais, “nada mais injusto para parte delas, cujos órgãos são muitas vezes pressionados nesse sentido pelos seus membros, mantendo, porém, o foco no contributo para mais equitativo acesso a melhores serviços dos seus profissionais pela população e no desenvolvimento da profissão com vista ao interesse público”. Diminui-se, assim, “o envolvimento cívico, a construção conjunta, e abre-se espaço para (…) assistirmos a propostas de maior desregulação da actividade profissional em áreas que envolvem direitos fundamentais, desprotegendo a sociedade e as pessoas, particularmente as em situação de maior vulnerabilidade ou impossibilitadas de decisões totalmente informadas e em liberdade.” 

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Nunca?

Nunca?

Ontem perdemos Cormac McCarthy, escritor norte-americano que comigo partilhava o seu mês de nascimento, embora com meio século de diferença (faria no próximo mês 90 anos). E que diferente é ter vivido o (Mundo) que viveu face ao (Mundo) que eu vivi e viverei.

Perdemos alguém que nos deu muito a pensar e reflectir, através da sua vida e da sua escrita. A mim deixa-me a adaptação feita pelos irmãos Coen de um seu livro para o filme “No country for old men”. Deixa-me, mais significativamente ainda, os seus livros, particularmente, o “Meridiano de Sangue” e o “A Estrada”.

Apesar de em 2011, sei exactamente o momento da minha vida em que li este último. Sei de lugares onde o li. E sei, mais, a forma como trata nele a ideia do “nunca”, na perspectiva de nunca ser “imenso tempo” e no questionar “em que é que o nunca que existirá difere do nunca que existiu”? Em quê mesmo?

Soube da sua morte num lugar onde o nunca é, a cada momento, questionado. Onde a ideia da estrada rumo ao “nunca” como lugar ganha outro significado. Também onde o contexto, conforme no “Meridiano de Sangue”, muito determina, com uma força e um poder “até aos ossos”. Em que a fronteira se dilui, existindo, co-existindo e não existindo tudo e quase sempre ao mesmo tempo.

Soube da sua morte num dos lugares mais impressionantes onde já estive. Celebro-o, como neste lugar celebrei ter acontecido o que há tempos seria pensado como improvável, senão impossível, lembrando-o na sua escrita:

“Se quebrares pequenas promessas, quebrarás as grandes”.

Que não o esqueçamos… Que não esqueçamos que nunca é demasiado tempo. Eu, voltarei sempre a ele, para que, neste caso, nunca não seja mesmo demasiado tempo.

Obrigado, Cormac.