
Estou a ler um livro cuja epígrafe é dedicada “aos professores de humanidades, que, seguindo os passos de Ulisses, nos protegem dos lotófagos e do esquecimento”. A ilha dos “lotófagos” é uma construção de Homero acerca de um povo que, ingerindo a flor de lótus, viveria em permanente estado de amnésia induzida, mas, simultaneamente e por via desse estado, sempre com possibilidade de “começar de novo”. Uso parte dessa epígrafe para a epígrafe do artigo: que Ulisses nos proteja dos lotófagos e do esquecimento, permitindo que se torne urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência dos Hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
As sucessivas “urgências” no SNS e, mais especificamente, nos seus Serviços de Urgência, não têm permitido, há anos, que a urgente modernização e reestruturação do seu modelo e valorização dos seus profissionais possa ser planeada, implementada e avaliada com a participação e contributo das diferentes áreas e intervenientes – decisoras/es políticos, gestoras/es, profissionais, entidades parceiras e utentes. Fazê-lo e assumirem-se os sucessos, mas, também, os naturais erros e falhas destes processos para, em consequência, se melhorar, progressiva e incrementalmente, adaptando e aproximando os Serviços às necessidades e expectativas das pessoas e potenciado a sua articulação eficiente e eficaz com os diversos níveis do sistema.
Escrevia o Francisco Mendes da Silva, há dias, num artigo sobre imigração em Portugal – mas, acrescento eu, podia dizer sobre os Serviços de Urgência – que não existe um debate, antes “uma simulação de debate. Uma vozearia desordenada, uma espécie de ruído branco provocado por gente que trata o tema a partir de conclusões, não de premissas”. Conclusões lotófagas, quase sempre assentes numa ideia preconcebida, não raramente ideológicas e pouco suportadas na melhor evidência disponível, sempre influenciadas por casos específicos, desde as dificuldades de resposta sazonais ou picos de crise, a casos trágicos e/ou mediáticos. Conclusões pautadas por uma espécie de amnésia sobre as causas que aprofundam os problemas, causas que, em grande medida, em Portugal e em parte significativa do Mundo com o qual para estes fins nos procuramos comparar, apenas têm piorado (falta de profissionais de saúde, particularmente de médicas e médicos e de valorização dos profissionais existentes, por exemplo) e piorarão com o passar dos anos (envelhecimento da população e carga de doença/medicação, maior complexidade das doenças, …).
Estas conclusões são ainda pautadas pelo esquecimento do fundamental do que há a fazer, do quão existe conhecimento e qualificação no país para o fazer e confiança dos cidadãos no SNS que, apesar de todas as situações menos positivas dos últimos anos, continua a ser um serviço que no quadro dos países da OCDE é avaliado pelos portugueses como mais positivo do que a avaliação média dos cidadãos dos países da OCDE face aos seus serviços de saúde públicos. Como acima escrevi, Homero atribuía aos lotófagos esta esperança, sob a forma de uma eterna possibilidade de começar de novo.
O processo de reforma em curso, baseado na portaria “Resposta de proximidade às necessidades assistenciais em situação de urgência”, recentemente em consulta pública, representa uma nova esperança e oportunidade de mudança e melhoria. Como qualquer processo desta natureza, qualquer um/a de nós alteraria, retiraria e acrescentaria elementos. Como qualquer processo desta natureza, beneficia de debate público e de contributos, particularmente os que resultem da experiência de quem dia-a-dia enfrenta os desafios que se colocam, hoje, aos Serviços de Urgência. Beneficia da melhor evidência disponível e da observação e reflexão de diferentes experiências, desde as que demonstram resultados às que os não demonstraram. Necessita, pois, de ser faseado e particularizado, em virtude não apenas da importância da experimentação, mas, particularmente, do quão diferentes são as realidades de necessidades e recursos de Hospital para Hospital e de região para região.
Processo que pode e deve ser suportado na utilização das transformações em curso como estímulo e não obstáctulo. Dos investimentos na digitalização na área da saúde, previstos no PRR, ao potencial da inteligência artificial e dos avanços na realidade virtual e aumentada, passando pela nova organização da Direcção Executiva do SNS, pelos níveis crescentes de literacia da população e, até, apesar dos riscos da desinformação e desconfiança na ciência e instituições, dos elevados níveis de vacinação da população e de adesão a comportamentos pró-saúde se promovidos pelas autoridades.
Nesta transformação há espaço para o contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos. Desde logo, para uma melhor organização, compreensão, comunicação e avaliação do sistema, envolvendo quem o utiliza, incluindo em situações que, como se esperam, irão implicar o deslocamento de utentes e acompanhantes para outras unidades de saúde e/ou momentos de atendimento. Também, no necessário reforço da promoção da literacia em saúde, elemento fulcral à prevenção e promoção de saúde, ao auto e heterocuidado e à melhor utilização dos serviços e recursos disponíveis. Ainda na definição de percursos e comunicação do que deve esperar a/o utente e acompanhante/s no Serviço de Urgência, promovendo-se previsibilidade, segurança e percepção de controlo, fundamentais a uma melhor gestão de expectativas, estabilidade e bem-estar especialmente em momentos particularmente sensíveis.
Noutro prisma, a integração de psicólogas/os nas equipas das urgências resulta num melhor apoio à gestão de situações de dor, stresse ou ansiedade agudas, de crise, emergência ou sofrimento intenso e na garantia de suporte emocional a utentes, acompanhantes e, em algumas situações, aos próprios profissionais. Resulta, também e em equipa multidisciplinar, num contributo para processos mais eficazes e personalizados de comunicação de informações clínicas e/ou de más notícias, considerando os impactos emocionais das mesmas. Parte destes contributos pode ser observado in loco no Hospital de São João onde, desde 2021 e com a integração de um/a psicóloga/o na equipa do Serviço de Urgência, tem sido desenvolvido um projecto, amplamente reconhecido como uma prática relevante e com impactos positivos.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é imprescindível tornar urgente a reestruturação dos Serviços de Urgência em Portugal, país com maior número de episódios de urgência anuais per capita da OCDE, onde mais de 40% desses episódios são classificados como não urgentes e onde essas urgências não têm permitido a urgência dessa transformação. Como é imprescindível que esta reestruturação parta da compreensão dos factores psicológicos, comportamentais e organizacionais que determinam os indicadores anteriores e seja capaz de alterar os estímulos e obstáculos que se colocam às mudanças, também pela facilitação e melhoria do acesso e da equidade de acesso às verdadeiras portas de entrada de maior proximidade do sistema – o SNS24 e os cuidados de saúde primários. Para todo este processo, todas as pessoas e profissionais são relevantes e devem (poder) assumir os seus papéis e disponibilizar os seus contributos, incluindo as psicólogas e psicólogos e a ciência que ajudam a produzir, que tanto informa sobre como decidimos e nos comportamos.
Tiago Pereira
Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência
in Sábado (Ao redor…); 30.01.2024
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/como-tornar-urgente-o-que-as-urgencias-nao-permitem-ser-urgente-nos-servicos-de-urgencia