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pela não complacência…

Começo esta semana com uma proposta: que se juntem a mim numa reflexão e num apelo à não complacência.

Posto isto… Apesar de estarmos em pleno Carnaval, também pela inexistência de hábitos de comemoração nos EUA (com a extraordinária excepção do Mardi Gras de Nova Orleães) e na Rússia, não consta que a conversa (não, não foi uma entrevista) de Tucker Carlson com Putin tenha sido uma “brincadeira” típica deste período. Em sentido inverso, foi um exemplar exercício de complacência, com naturais consequências, perpetrado por um Tucker Carlson mas que juntou, em bom rigor, duas pessoas que fazem da mentira e do desrespeito pelas regras de convivência e pelas outras e outros veículos da sua afirmação.

De complacência, digo. Palavra que deriva de uma palavra latina – complacentia – que, curiosamente, significa satisfação, prazer, querer agradar a outras e outros. Curiosamente porque a definição, hoje, apesar de remeter para uma aceitação sem crítica de comportamentos ou acções de outras pessoas, não deixa de ser sensível a essa história da palavra porque, muitas vezes, a complacência relaciona-se com uma componente de auto-satisfação ou de bem individual como mais importantes que o bem colectivo, sendo isso gerador da falta de acção critica e mobilização perante riscos potenciais.

Ora, creio que o vemos no exemplo que acima descrevo. Creio, também, que o vemos frequentemente agora no espaço público português quando, por exemplo, permitimos que pessoas, sem contraditório, usem da não factualidade e da mentira, desrespeitem outras pessoas ou as “regras do jogo”. De debates sobre ciência a debates políticos, não raras vezes com a complacência de quem neles participa nas diversas condições (incluindo, por vezes, jornalistas, cujo dever de mediação lhes confere uma responsabilidade acrescida), de quem a eles assiste e de quem os comenta. Há dias, um comentador quando confrontado com a forma como o líder do partido Chega participa em debates, aprontou-se a dizer que mente ele e mentem todas e todos (o que mesmo sendo verdade não o legitimava), procurando comparar a mentira reiterada, intencional e desconsiderante desse líder com erros, falhas e lapsos que qualquer pessoa, particularmente com o nível de exposição e escrutínio que as e os líderes partidários hoje têm, pode cometer. Procurar comparar para, não sem cinismo, ser complacente, justificá-lo e procurar promover a nossa complacência.

Por isso, pelo momento que vivemos e por exemplos diverso das consequências (vejamos no Brasil, EUA, Polónia ou na Hungria), deixo este repto. Não compactuemos com estas situações e não sejamos complacentes. Nem nas conversas privadas. Nem nas participações públicas, em formato monólogo. Nem nos debates, quaisquer que sejam. Muito menos com a possibilidade de assunção de responsabilidades decisivas e de governação por quem, verdadeiramente, mente, desrespeita as regras de convivência e as outras e outros, afirmando as suas ideias, ideias e a si próprio por essa via.

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