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Trabalho a Tempo Inteiro

Na passada quinta-feira, o programa “Linha da Frente” da @RTP tratou um tema muito relevante e paradigmático da sociedade hoje: a crescente necessidade de pessoas acumularem mais que um emprego / ocupação profissional, em virtude da obrigação de cumprir diversas necessidades financeiras.

Fê-lo apresentando um conjunto de dados, particularmente significativos nas gerações mais jovens, e reflectindo a partir da marcante experiência e realidade de três incríveis Mulheres – a Anabela Maia, a Madalena Teixeira e a Rita Dias. Três incríveis Mulheres que vos convido a conhecer e sentir e que representam muitas mais e muitas outras pessoas que em Portugal, também como elas, trabalham muito mais que as 35 ou 40 horas semanais que seriam expectáveis.

A reportagem conta, ainda, com contributos do economista Ricardo Paes Mamede e com um conjunto de contributos da minha responsabilidade. Estes focam, essencialmente:

  1. A relação entre a ansiedade económica e financeira e o stresse crónico e como este tipo de ansiedade é, portanto, altamente prejudicial para a vida das pessoas, impactando dimensões como o sono, a conciliação entre vida pessoal/familiar e profissional e as nossas relações, condicionando a nossa qualidade de vida e bem-estar;
  2. O quão “tremenda” é a importância de parar, de descansar. E o quão importante é, enquanto sociedade, nos organizarmos, dando oportunidade para que todas as pessoas, independentemente da sua condição, possam ter momentos de pausa e possibilidade de desligar dos factores e elementos stressores;
  3. O facto da nossa sensação de previsibilidade e controlo ser limitada perante situações de insegurança financeira e aquando de dúvidas em torno da possibilidade de assumirmos todos os nossos compromissos, algo que nos activa no sentido menos positivo no que se refere à nossa saúde mental;
  4. A relação do stresse (particularmente do stresse crónico) com fenómenos como a hipertensão e destes com doenças cardiovasculares, a principal causa de morte na população adulta em Portugal, hoje.

Palavra, última, para sublinhar o que creio ser um excelente trabalho e contributo de uma equipa de reportagem liderada pela jornalista @Marta Jorge. Particularmente num momento em que se discute o papel do jornalismo e do seu financiamento (pelo motivo infeliz da situação que se vive nos meios de comunicação social integrantes da Global Media), espero que este trabalho nos estimule a reflectir sobre a importância deste e de outros trabalhos e de uma profissão (de jornalista) sólida, independente e empoderada.

Link para o programa completo: https://www.rtp.pt/play/p12768/e740390/linha-da-frente

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Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica (Ao redor…; 02.01.2024)

 Creio não errar muito ao assumir que, para quem habitualmente cumpre esta tradição, este não terá sido um ano especialmente complexo para se pensar em 12 desejos, tais os desafios pessoais, profissionais e societais com que estamos, no geral, confrontados. Também não o é para cumprir esta minha pequena tradição de partilhar convosco um desejo para o novo ano que agora começa.

Poderiam, naturalmente, ser vários, incluindo o que partilhei para 2022 (“Construirmos mais Paz”[i]), poucas semanas antes do início da actual fase da invasão da Ucrânia pela Federação Russa, Guerra que persiste até hoje, a par de outras, incluindo civis, e, agora, da trágica situação no Médio Oriente. Ou o que partilhei para 2023 (“Promovermos mais bem-estar para todas e todos”[ii]), de actualidade premente, quando assistimos a movimentos sociais/políticos em ascensão que questionam o caminho de progressão das últimas décadas no sentido de maior equidade e do cumprimento dos direitos das crianças e humanos. Poderia desejar em torno da pobreza, da desigualdade, da crise climática ou das migrações. Tudo questões fundamentais, mas, o meu desejo para 2024 é caminharmos no sentido de termos um país mobilizado contra a violência doméstica.

Em 2023, no dia do meu aniversário, assisti a um concerto com os meus dois filhos, onde a cantora mostrou e leu um conjunto de nomes. Letras escuras em folhas brancas, um após o outro. Nomes de mulheres assassinadas em 2022, em Portugal. 28 Mulheres no total, 22 cujas vidas foram violentamente terminadas no contexto de relações de intimidade. 28 que somam a milhares de vidas, primeiro condicionadas, depois interrompidas, e a que se juntaram, até 15 de Novembro deste ano, 25 outras Mulheres.

Por cada morte, dezenas de episódios de violência são comunicados às autoridades (8443 apenas no terceiro trimestre de 2023) onde, muito maioritariamente, as Mulheres são vítimas. Mas, todas e todos sabemos, por cada ocorrência comunicada muitas outras passam por algo “não violento”, são “desculpadas” ou, muitas vezes, simplesmente escondidas, durante um tempo que invariavelmente conduz à vez sucessiva, à repetição, à cristalização. A violência doméstica, em particular no contexto das relações de intimidade, é um sério problema de saúde pública e condiciona decisivamente a vida e o bem-estar das pessoas que a vivem, directa e indirectamente, afectando a sua possibilidade de desenvolvimento e o desenvolvimento social e económico do país.

É um problema de saúde pública e, apesar disso, invariavelmente, tendemos a ser complacentes com este problema, enquadrando-o como de “duas pessoas” e não da sociedade. Partindo de um suposto equilíbrio, quase sempre inexistente, que pressupõe que cada decisão tomada no âmbito dessa relação seria totalmente livre, negligenciando perigos e potenciais intervenções sobre os mesmos, também de mitigação de riscos, e culpabilizando muitas vezes a pessoa mais vulnerável por “não resolver a situação”, quando carece de recursos internos e externos que lhe permitissem fazê-lo.

É um problema de saúde pública e, apesar disso, invariavelmente, tendemos para algum cinismo, não o discutindo publicamente e não lhe dando a visibilidade que merece e que permitiria, verdadeiramente, uma discussão e acção com potencial de alteração colectiva de comportamentos e atitudes sobre o mesmo. Em Espanha, por exemplo, é hoje assunto permanente na sociedade, não deixando ninguém indiferente, presente em debates políticos e envolvendo diversas entidades da sociedade civil mesmo quando os números são mais baixos se considerados proporcionalmente face a Portugal.

Por isso necessitamos de um país mobilizado contra a violência doméstica. Capaz de produzir mudanças definitivas nas normas culturais, sociais e religiosas que, por vezes, ainda concorrem para a minimização, para uma cultura de tolerância ou de não aplicação de Leis na violência, particularmente na violência doméstica. Um país mobilizado para mudar a cultura de medo e estigma ainda persistente e dar passos firmes no sentido da verdadeira igualdade de género, também nas matérias que envolvem a violência, em todas as suas formas. Mobilizado para mudar também na e pela Educação, prevenindo precocemente ciclos de reprodução geracional destes comportamentos, da violência nas relações de namoro às relações na idade adulta, sejam de intimidade ou profissionais.

Tudo isto é fundamental num país em que, apesar de tudo, parte das forças políticas parece desperta para esta realidade e tem procurado actuar, quer via legislação (a violência doméstica é crime público já desde 2000), quer via mecanismos de apoio social e casas de abrigo para vítimas ou mesmo das importantíssimas respostas de apoio psicológica para crianças e jovens vítimas de violência doméstica, operacionalizadas durante a pandemia, período particularmente sensível para as vítimas. Onde, também localmente, as Autarquias têm investido recursos e dado saliência ao fenómeno (veja-se o memorial construído pelo Município de Cascais) e onde associações profissionais e profissionais têm dado um contributo na consciencialização, literacia, prevenção e na intervenção junto deste problema (veja-se o “Memorial Mapa – Lembrar as Vítimas do Homicídio em Violência Doméstica”, criado pelo psicólogo António Castanho).

Mas muito mais há a fazer, incluindo não retroceder em algumas das conquistas e progressos nesta área. Tal implica mais e melhor educação e consciencialização. Mais e melhor sociedade civil, actuante e não complacente com esta matéria. Tal implica o combate a ideias e forças políticas que, cinicamente, criam condições para a perpetuação de desigualdades que estruturalmente determinam estes problemas. Forças políticas como o “Partido Chega” que, além de votarem declaradamente contra medidas de apoio a pessoas vítimas de violência (veja-se a proposta de atribuição de subsidio de desemprego a pessoas vítimas de violência doméstica e a justificação “moralista” e duplamente estigmatizante do voto contra – se “não se tiver cuidado poderá levar a que tudo seja vítima de violência doméstica” pelo que as pessoas têm que justificar “como são vítimas”, diria depois o seu líder parlamentar), procuram usar de transformações no sentido da maior equidade para, “utilizando” a percepção de perda de poder e controlo de determinados grupos na sociedade, o “acicatarem” com fins políticos, visando ganhos eleitorais momentâneos e desconsiderando as implicações sociais e políticas no presente e futuro do uso do medo, do ódio e do nós vs. outras/os.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, mobilizarmo-nos contra a violência doméstica é uma forma de promovermos a liberdade, aumentando as condições para cada ser humano, mas muito particularmente as Mulheres que mais sofrem, se procurar cumprir, também nas suas relações. “Metermos a colher”, sim, também porque muito do sofrimento que resulta de um país com indicadores sociais e económicos e de problemas de saúde mental muito preocupantes, decorre de anos e anos de violências várias e cíclicas e do sofrimento que delas resulta, sofrimento que uma acção concertada e mobilizada do país pode, verdadeiramente, mitigar, melhorando vidas de pessoas e criando outros futuros. Que 2024 veja essa acção. Que 2024 seja o ano que precisamos.

 

[i] https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz

[ii] https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2023-promovermos-mais-bem-estar-para-todas-e-todos

 

 

Tiago Pereira

Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica

in Sábado (Ao redor…); 02.01.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2024-um-pais-mobilizado-contra-a-violencia-domestica

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Ciência e Evidência na Administração e Políticas Públicas

Ontem, com os discursos de encerramento do congresso do PS e da cerimónia de formalização da AD, ouvimos os principais candidatos a primeiro-ministro.

Partilho, a esse propósito, duas reflexões sobre o pensar da política pública no momento que vivemos:

a) Continuamos a ter dificuldade para, enquanto país e comunidade, conforme nos mobilizamos para responder a desafios, estabelecermos planos e medidas de resposta às consequências dos mesmos. Isto penaliza grupos específicos, a justiça intergeracional, o legado e a equidade. Foi assim com a geração que viveu a Guerra Colonial. Foi assim com o impacto da crise socioeconómica do início da década passada, cujas consequências são visíveis hoje na demografia, trabalho ou nos problemas de saúde mental da população. Parece ser assim com as consequências da COVID-19 nos processos de desenvolvimento de bebés/crianças em situação de maior vulnerabilidade, com consequências graves para o seu (e nosso, comunidade) futuro. Todos os estudos o comprovam mas convido a ouvirem as equipas de intervenção precoce que, em muito difíceis condições e com uma falta de recursos gritante, acompanham monte a monte, lugar a lugar, apartamento a apartamento estes bebés e crianças. No Reino Unido, também a caminho de eleições, é um assunto central da campanha e dos partidos, pensando-se o presente, projectando-se o futuro (ver aqui). Será assim, desta vez, em Portugal?

b) Estas relevantes iniciativas carecem de incorporação de ciência e evidência. Fala-se, e bem, de transferência de ciência, conhecimento e tecnologia para as empresas. Fala-se, menos, da sua transferência e incorporação nas práticas da administração e nas políticas públicas. Isso é essencial para evoluirmos, verdadeiramente, de práticas assistencialistas (acesso) nas dimensões sociais para práticas de promoção da equidade, inclusão e capacitação (acesso + qualidade, eficiência e eficácia). É necessário, possível, crucial, que ao crescimento da possibilidade de acesso à creche (importantíssima) se associe a melhoria da qualidade da educação dos 0-3 anos; que à dinamização de mais e mais variadas respostas de acompanhamento de pessoas idosas se associe qualidade nas práticas; que aos processos de desinstitucionalização se associe a capacitação a qualificação das respostas de proximidade; que ao reconhecimento do estatuto de cuidador/a informal se associe a possibilidade de autocuidado e desenvolvimento de competências de cuidadoras/es.

Fazendo-o estaremos mais próximos de responder a necessidades e expectativas das pessoas, num quadro democrático, de confiança nas instituições, pessoas e ciência. Fazendo-o criaremos antídoto para o crescimento de forças que colocam em causa a democracia, a confiança nas instituições, pessoas (todas) e ciência.

Aqui e em qualquer lugar do Mundo isso é e será decisivo para defendermos uma sociedade de coesão e direitos humanos, capaz de promover a possibilidade de bem-estar e de autodeterminação de todas as pessoas.

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Trends

Ontem voltei a Évora para reflectir com cerca de 200 jovens o conceito de trabalho e o que ele significa hoje e poderá significar no futuro. Manhã cedo, na viagem, pensei sobre a “falácia do trabalho árduo” e a ideia que permanece, culturalmente intrincada, que se nos esforçarmos e dedicarmos mais seremos capazes. Não me entendam mal, o compromisso, a dedicação e o empenho são muito importantes e, quem me conhece reconhecerá que são elementos fundamentais no que sou enquanto pessoa e profissional. Mas, o “trabalho árduo” não permite tudo, não resolve tudo e, fundamentalmente, não torna abordagens/práticas inadequadas correctas. A ideia do “trabalho árduo” pode ser uma enorme falácia.

Sermos com isto consequentes, creio, implica termos capacidade de nos questionar, de olhar ao redor e, essencialmente, de estarmos abertos a mudar. Sermos com isto consequentes, creio, implica também percebermos tendências e compararmos como se alteram de contexto para contexto e tempo para tempo. Por estes dias fiz este exercício com as “Top Psychology Trends” da American Psychological Association, anualmente publicadas desde de 2018, comparando as desse ano com as de 2024 (que aqui partilho) e como se relacionam com os desafios/características da psicologia em Portugal.

Ora, se para 2018 se considerava a psicologia como “mais popular que nunca”, em 2024 assume-se “a elevada procura de cuidados em saúde mental e como podem novas práticas clínicas e a tecnologia apoiar na resposta a esta maior procura”, bem como o “crescimento das psicólogas e psicólogos em contexto escolar” e no “ensino superior”. Se em 2018 se salientava “o custo e impacto de locais de trabalho não saudáveis”, em 2024 sublinha-se o papel da psicologia na promoção de locais de trabalho garantes de “propósito, significado e estabilidade”. Se em 2018 se referia o crescimento do impacto da “psicologia aplicada” e o foco na “defesa, desenvolvimento e abertura da ciência”, em 2024 destaca-se o papel da psicologia “no combate à desinformação em ano eleitoral”, na intervenção junto do “uso de substâncias” e no “desenvolvimento cerebral e promoção do envelhecimento saudável”.

Mas mais, se em 2018 se destacava a urgência que a “igualdade de género” representava para a psicologia, em 2024 sublinha-se como a psicologia pode apoiar a promoção da “inclusão e equidade” nos contextos de trabalho ou nas políticas públicas. Ou, se em 2018 se destacavam “os determinantes (sociais) da saúde e bem-estar”, o papel da psicologia numa ideia de “saúde mais global” e se pensava a “personalização de intervenções” e como a “tecnologia revolucionaria as práticas”, em 2024 aborda-se o impacto e papel da psicologia na “Inteligência Artificial generativa” e como “serão valorizadas, também monetariamente, as tecnologias e aplicações em saúde mental”.

Questionarmo-nos, olharmos ao redor e mudar, quando mudarmos nos aproxima de um melhor contributo.

Venha daí 2024 e obrigado por nos irmos encontrando, aqui e/ou noutro lugar.

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Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica

Depois de aqui ter desejado “Construirmos mais Paz” em 2022 (https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz) e “Promovermos mais bem-estar para todas e todos” em 2023 (https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2023-promovermos-mais-bem-estar-para-todas-e-todos)…

“Um desejo para 2024? Um país mobilizado contra a violência doméstica”, 73º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte da memória de um concerto que assisti no dia do meu aniversário de 2023 onde a cantora leu cada nome de cada Mulher assassinada em Portugal em 2022. Por cada nome, centenas de outras ocorrências comunicadas e outras tantas não comunicadas. “A violência doméstica, em particular no contexto das relações de intimidade, é um sério problema de saúde pública e condiciona decisivamente a vida e o bem-estar das pessoas que a vivem, directa e indirectamente, afectando a sua possibilidade de desenvolvimento e o desenvolvimento social e económico do país.”

“Por isso necessitamos de um país mobilizado contra a violência doméstica. Capaz de produzir mudanças definitivas nas normas culturais, sociais e religiosas que, por vezes, ainda concorrem para uma cultura de tolerância ou de não aplicação de Leis na violência, particularmente na violência doméstica. Um país mobilizado para mudar a cultura de medo e estigma ainda persistente e dar passos firmes no sentido da verdadeira igualdade de género. Mobilizado para mudar também na e pela Educação, prevenindo precocemente ciclos de reprodução geracional destes comportamentos.”

“Tudo isto é fundamental num país em que, apesar de tudo, parte das forças políticas parece desperta para esta realidade e tem procurado actuar, quer via legislação, quer via mecanismos de apoio social, casas de abrigo ou de respostas de apoio psicológica para crianças e jovens vítimas de violência doméstica (…) Onde associações profissionais e profissionais têm dado um contributo na consciencialização, literacia, prevenção e na intervenção junto deste problema (veja-se o “Memorial Mapa” do António Castanho).”

“Mas muito mais há a fazer, incluindo não retroceder em progressos nesta área (…) Tal implica o combate a ideias e forças políticas (como o “Partido Chega”) que, cinicamente, criam condições para a perpetuação de desigualdades que estruturalmente determinam estes problemas. Além de votarem declaradamente contra medidas de apoio a pessoas vítimas de violência (…) “utilizam” a percepção de perda de poder de determinados grupos na sociedade com fins políticos, visando ganhos eleitorais momentâneos e desconsiderando as implicações sociais e políticas do uso do medo, ódio e do nós vs. outras/os.”

“Mobilizarmo-nos contra a violência doméstica é uma forma de promovermos a liberdade, aumentando as condições para cada ser humano se procurar cumprir, também nas suas relações (…) Que 2024 veja essa acção. Que 2024 seja o ano que precisamos.”

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2023 – Odisseia na Pseudociência (Ao redor…; 19.12.2023)

Não posso dizer que cresci rodeado de livros. Mas posso dizer que cresci curioso, com vontade de aprender, de saber, e com acesso a uma enciclopédia “velhinha”, antes, e mais tarde a uma edição, essa já minha, da Nova Enciclopédia Larousse de 22 volumes vermelhos do Círculo de Leitores. Foi, primeiro, muito através dessas enciclopédias, depois também nos diferentes motores de busca e hoje até junto dos novos modelos de linguagem que mais procurei e procuro, quando só, saber o que não sabia ou sei, sabendo que não o sabia ou sei. Pode parecer evidente, assim escrito. Mas é importante sublinhar: temos de saber que não sabemos para procurarmos uma informação ou uma resposta para uma dúvida ou pergunta.

E… Nem sempre o sabemos. Por exemplo, muitas e muitos de nós sabem que não sabem de conceitos ou matérias que não lhes despertam interesse, eventualmente da matemática à química, passando pela física ou engenharia. Porém, a grande maioria de nós não sabe que não sabe de conceitos e matérias que lhes despertam interesse, do futebol à saúde, passando pelo comportamento e pela tomada de decisão das pessoas.

Acresce que a esta característica humana soma-se a ilusão da profundidade explicativa, ou seja, o fenómeno psicológico que explica porque tendemos a crer que entendemos com profundidade conceitos e fenómenos complexos quando, na realidade, não os entendemos ou apenas os entendemos superficialmente. Assim é, do mecanismo de funcionamento do autoclismo aos processos de construção e aprovação de legislação.

A conjugação destes fenómenos ajuda a explicar, em parte, porque é que, muitas vezes, em matérias que remetem para o comportamento humano, tomada de decisão, saúde e bem-estar, não apenas não reconhecemos que não sabemos o que não sabemos como somos suscetíveis à procura de respostas simplistas, imediatas e absolutas para desafios e problemas complexos e por vezes interconectados. Porque somos suscetíveis, mesmo num período de forte desenvolvimento da ciência, a fazer atribuições “místicas”, particularmente face a fenómenos naturais como catástrofes, e à pseudociência.

A pseudociência, presente em diversos contextos, é, por isto, especialmente significativa e impactante no contexto das relações, da saúde, da saúde psicológica e do bem-estar em geral. Corresponde a todo o conjunto de intervenções que se procuram confundir com ciência, procurando apresentar-se como tendo uma base científica e produzindo resultados credíveis e reproduzíveis, quando tal não corresponde à realidade. Enquadram-se, neste conceito, as terapias alternativas e complementares como a homeopatia e pseudo-terapias, incluindo algumas apresentadas como “holísticas” ou mesmo psicológicas, como a aromaterapia. A pseudociência é, na Europa, uma actividade económica com valor já significativo e em expansão, procurada anualmente, segundo estudos recentes, por até 1 em cada 4 cidadãs e cidadãos Europeus (15% no caso da população portuguesa). É um desafio, em algumas situações, para a saúde e segurança das populações, quer pelos seus potenciais impactos directos (desde logo via más práticas e práticas não seguras/regulamentadas), quer pelos impactos indirectos relativos à não procura e à não adesão a respostas com suporte científico, à descredibilização das disciplinas científicas pela confusão que, por vezes intencionalmente, promovem, bem como, e não menos importante, pelo risco que significam para a confiança e para a sustentabilidade dos sistemas de saúde.

O Mundo pós-pandemia por COVID-19; de enorme polarização, complexidade e incerteza; e de informação, desinformação e marketing torrenciais; mas também de maior reconhecimento por parte das pessoas das suas necessidades de saúde, incluindo psicológica, e bem-estar resulta em mais espaço e oportunidade para a pseudociência. Para quem, navegando estes contextos e as inseguranças e vulnerabilidades das pessoas, vende (caro) soluções simplistas, não baseadas na ciência, mas invariavelmente assentes na crença de que “se acreditarmos e quisermos tudo conseguimos”, crença perfeita para a desresponsabilização quando as práticas “não resultam” e, mais grave, para a dupla penalização de quem utiliza estes serviços que, se não resultam, é por “culpa”, inacção ou imperfeição das próprias pessoas.

Quem o faz fá-lo normalmente apelando a falácias associadas à natureza e aos produtos naturais, à ancestralidade e à autoridade, logo não dispensando títulos, incluindo também “pseudoacadémicos”, cores, objectos, histórias e outros simbolismos significativos no contexto da ciência, da história e da natureza. Normalmente usando, também, da heurística da disponibilidade da informação (quem nunca se deparou com uma fantástica história de sucesso de uma terapia alternativa?), de uma confusão comum entre correlação (fiz algo e melhorei) e causalidade (melhorei porque fiz algo) que esconde o “efeito placebo”. Esconde, portanto, o papel que tem a nossa crença em que determinado procedimento/tratamento funcionará connosco, independentemente da sua eficácia comprovada ou, no limite, até de existir. Esconde como esta crença, influenciando a relação entre o nosso corpo e o nosso cérebro, impacta a forma como pensamos e comunicamos o “problema”, como nos sentimos e como pode directamente influenciar sintomas vários como a percepção de dor, a fadiga ou o stresse. O que, claro está, é importantíssimo e cada vez mais usado também nos desenvolvimentos da ciência e ao serviço da saúde e bem-estar das pessoas.

Porém, a “odisseia” da pseudociência que deste efeito usa e abusa comporta riscos significativos que só reconhecidos e só consequentemente considerados se podem prevenir. Isso implica um papel activo e até activista das disciplinas científicas, esclarecendo e prevenindo associações e confusões entre práticas científicas e pseudocientíficas pelos seus profissionais. Também o reforço de investimento na literacia da população. Literacia de informação (onde, o quê e como pesquisar informação fidedigna), científica (como identificar o que é ciência e científico) e em saúde, incluindo saúde psicológica. Ainda, reforçar a protecção de clientes, incluindo a relativa à comunicação e marketing “abusivo” e à necessidade de utilização de consentimentos informados, bem como reforçar a informação à população via sistemas de “what works” (o que – realmente – funciona) junto dos sistemas públicos e a dimensão ética e de cidadania de pessoas e, também, deontológica de profissionais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a “evolução é o processo de tentativa e erro, e o erro é tão importante quanto o sucesso pois é através dele que aprendemos como evoluir”. Conforme Arthur C. Clarke expôs em 1948 no “A Sentinela”, conto base do argumento do “2001 – Odisseia no Espaço” que Stanley Kubrick dirigiria 20 anos depois, a evolução depende deste processo de tentativa e erro, característico da ciência e apenas possível se confiado, co-construído e partilhado entre seres humanos. Típico do que nos pode trazer maior possibilidade de bem-estar e coesão num Mundo que talvez até a fantástica mente de Kubrick teria dificuldade de imaginar e perspectivar.

 

Tiago Pereira

2023 – Odisseia na Pseudociência

in Sábado (Ao redor…); 19.12.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/odisseia-na-pseudociencia

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(Prefácio) Carreira em Psicologia num Mundo Imprevisível – Pistas para Navegar com Confiança e Adaptabilidade

Tudo a lembrar-nos que o passado conta, que o passado “não está morto”, que “nem sequer é passado”, como escreveu Faulkner. Isto escrevi no prefácio do primeiro volume desta colecção, intitulado “Ser Psicólogo – O Início da carreira em Psicologia Pistas para que está a dar os primeiros passos numa carreira em Psicologia”. Palavras que aqui recupero, convidando, também, à sua leitura e evocando-o na relação com este segundo volume desta colecção de “Artigos PsiCarreiras da Ordem dos Psicólogos Portugueses”.

Numa relação que diria estreita, pois escrevi-o, lembrando os enormes e complexos desafios que vivemos e sublinhando “a necessidade da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos, sistematicamente, se desenvolverem e adaptarem a novos desafios e realidades, para melhor lhes responderem”. Reforçando, portanto, o quão fundamental resulta a forma como, cada psicóloga e psicólogo, individual, mas também colectivamente, pensa e projecta a sua carreira e o desenvolvimento pessoal e profissional e como a confiança e a adaptabilidade são factores chave neste processo.

Numa relação estreita, também porque a confiança e a adaptabilidade são chave no início como em toda a carreira e, arrisco, sê-lo-ão ainda mais no futuro, particularmente num contexto em que a incerteza, a imprevisibilidade e a rápida mudança contemporâneas se agudizem, Mundo fora. Num contexto em que a ciência psicológica, qual hub de ciência, e a prática de psicólogas e psicólogos, cresçam em relevância e impacto na medida da complexidade dos desafios que se colocam e colocarão à saúde, ao bem-estar e à possibilidade de autodeterminação das pessoas. Que se colocarão ao respeito pela diversidade de diferentes pessoas e comunidades. Que se colocarão à equidade, à justiça e coesão social de sociedades.

Estamos perante, portanto, um volume que, valendo por si, é parte de um todo mais amplo, em construção permanente a partir de múltiplos e relevantes contributos de tantas e tantos psicólogos que dia-a-dia apoiam pessoas, comunidades e a sociedade e a quem, enquanto psicólogo, mas também enquanto cidadão, muito agradeço. O seu contributo é fundamental na construção e desenvolvimento da identidade da profissão e de cada um e uma das profissionais que a compõem.

Nas páginas seguintes encontrarão espaço de encontro, de reflexão e estímulos vários à partilha e à criação de comunidade. Comunidade que, a par da confiança e da adaptabilidade, nos pode proteger e preparar para o que enfrentamos e enfrentaremos e suporte para o contributo importante, quiçá decisivo, que lhe e nos é reservado.

 

Tiago Pereira

(Prefácio) Carreira em Psicologia num Mundo Imprevisível – Pistas para Navegar com Confiança e Adaptabilidade

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_ebook_carreiraempsicologianummundoimprevisivel.pdf

DEZ; 2023

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Psicologia

2023 – Odisseia na Pseudociência

Recentemente recebi um convite para realizar uma “Masterclass” no âmbito dos Mestrados em Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (agradeço a confiança do Ricardo Barroso que primeiro me contactou). Pediram-me que tratasse o tema da “Pseudociência e Psicologia”, algo que fiz na 4ªF passada. Aí comprometi-me com quem participou que, ao invés de deixar uma lista de artigos, livros ou um power point, me comprometia a procurar traduzir o conteúdo partilhado num artigo de opinião e, logo, num contributo para o tema reflectido, para que pudessem “confrontar” a apresentação e discussão com esse modelo de conteúdo.

“2023 – Odisseia na Pseudociência”, 72º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) é o resultado desse exercício. Nele começo por tratar como duas características profundamente humanas (a dificuldade de reconhecermos que não sabemos de algo de que não sabemos em temas que nos despertem interesse e a ilusão da profundidade explicativa) “ajudam a explicar, em parte, porque é que, muitas vezes, em matérias que remetem para o comportamento humano, tomada de decisão, saúde e bem-estar (…) somos suscetíveis à procura de respostas simplistas, imediatas e absolutas para desafios e problemas complexos e por vezes interconectados. Porque somos suscetíveis, mesmo num período de forte desenvolvimento da ciência, a fazer atribuições “místicas”, particularmente face a fenómenos naturais como catástrofes, e à pseudociência.”

Procuro, depois, enquadrar o conceito e nele “as terapias alternativas e complementares como a homeopatia e pseudo-terapias, incluindo algumas apresentadas como “holísticas” ou mesmo psicológicas, como a aromaterapia”, destacando que a pseudociência é uma “actividade económica com valor já significativo e em expansão” e um desafio, em algumas situações, para a saúde e segurança das populações.

Abordo o contexto que determina “mais espaço e oportunidade para a pseudociência” e para quem o navegando, usa das inseguranças e vulnerabilidades das pessoas, vendendo (caro) soluções simplistas, não baseadas na ciência, mas invariavelmente assentes na crença de que “se acreditarmos e quisermos tudo conseguimos”, apelando a um conjunto de falácias (associadas à natureza, à ancestralidade ou à autoridade), heurísticas, confusões entre correlação e causalidade e escondendo o “efeito placebo”.

Antes de terminar com Kubrick e a sua eventual “dificuldade de imaginar e perspectivar” o Mundo hoje, penso a forma de prevenir os impactos negativos destas práticas. A necessidade de um “papel activo e até activista das disciplinas científicas”, da promoção da literacia da população e do reforço da “protecção de clientes, incluindo relativamente à comunicação/marketing “abusivo” e à necessidade de utilização de consentimentos informados”. Penso, finalmente, a importância do reforço da “informação à população via sistemas “what works” e da dimensão ética e de cidadania de pessoas e, também, deontológica de profissionais”.

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All in the Mind

meiro apenas na rádio @BBC 4, hoje ainda nesta rádio e em podcast, o “All in the Mind” será um dos programas que semanalmente tratam temas da psicologia com maior longevidade no Mundo, indo a caminho dos 20 anos de edições.

Aprendi e pensei muito, portanto, a partir de vários dos seus episódios, particularmente desde que, via podcast, é mais simples seguir e acompanhar o programa. Foi por isso com uma certa emoção que conheci a sua actual apresentadora (@Claudia Hammond) em Julho, quando apresentou o meu keynote no European Congress of Psychology 2023 (Brighton, UK), conforme aqui havia referido: https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_quando-estou-fora-de-portugal-num-pa%C3%ADs-onde-activity-7084070839926628353-UPqL?utm_source=share&utm_medium=member_desktop

Foi também com emoção que, fará amanhã 15 dias, ouvi um dos seus episódios, apresentado pela @Claudia Hammond e produzido pela @Lorna Stewart. Episódio cujo link partilho e que conta com um contributo meu a propósito do papel da psicologia enquanto ciência e prática para um “ponto final à pobreza”, a partir da estratégia da @Ordem dos Psicólogos Portugueses que venho coordenando, conjuntamente com um grupo de colegas. Episódio cuja sua descrição refere a forma como procuro sublinhar como “as psicólogas e psicólogos estão numa posição fulcral para comunicar acerca das causas e consequências da vivência em situação de pobreza e para usar essa informação para exigir mudanças e contribuir para melhores políticas públicas”.

Na conversa com a @Claudia Hammond procuro também reflectir o porquê deste contributo ser diferenciador e como podem as psicólogas e psicólogos, dia-a-dia, nos seus diversos contextos de intervenção, também contribuir para este gigante mas tão importante desafio societal, salientando o seu papel na promoção da transformação social e a forma como, nas suas intervenções, nos seus últiplos contextos, devem considerar a especificidade das dimensões sócio-económicas e adaptar as intervenções, procurando ser mais sensíveis a estas dimensões e, logo, potencialmente mais eficazes e efectivas/os nos seus objectivos. Procurei, ainda, tratar as questões dos impactos da pobreza na infância e dos ciclos intergeracionais de pobreza, bem como explicitar o período específico (e a janela de oportunidade) que constitui os (primeiros) “1000 dias”, conceito e abordagem que neste artigo há meses desenvolvi: https://www.linkedin.com/pulse/1000-dias-tiago-pereira/

Termino, como terminei. Perguntou-me se estava optimista que as psicólogas e psicólogos poderiam “erradicar a pobreza”. Respondi que não, certamente que não, mas… Que estou optimista que, se isso for nossa prioridade, enquanto sociedade podemos efectivamente caminhar para a erradicação da pobreza e que será sempre mais simples fazê-lo se usarmos mais o conhecimento da ciência psicológica e o contributo da prática das psicólogas e psicólogos.

Assim o disse. Assim o sinto. Assim o espero que o sintam.

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Sozinho na Organização: Segurança Psicológica, bem-estar e potencial humano (Ao redor…; 05.12.2023)

Vivemos um momento do Mundo que nos recorda a cada dia, não necessariamente pelos melhores motivos, que a história se pode repetir. Ou, pelo menos, conforme a frase que se atribui a Mark Twain, que a história, não se repetindo, rima. Penso várias vezes nesta frase quando me confronto com os mesmos problemas base em algumas sociedades ou organizações que se manifestam, depois, de formas diversas. Não, de facto não se repetem, rimam porém.

Senão vejamos. Pensemos em dois nomes: George Floyd e Rodney King. Ambos cidadãos norte americanos, brutalmente espancados por polícias numa situação banal das suas vidas (após conduzirem uma viatura). Ambas situações filmadas, partilhadas publicamente e desencadeadoras de impressionantes e, por vezes, violentas manifestações. Manifestações como as do movimento “Black Lives Matter” que, como a tantas outras pessoas, estou certo, muito me impactaram. Ou como os “Distúrbios de Los Angeles de 1992”, parte do meu imaginário, também documental, pós-absolvição em tribunal dos polícias envolvidos na agressão a Rodney King e que conduziram a mudanças significativas, incluindo um novo julgamento que resultou na condenação de dois dos polícias envolvidos e a uma frase profundamente impactante do advogado de King: “Finalmente conseguimos filmar o Monstro do Lago Ness.”

O racismo, portanto, numa das suas expressões. Mas outros exemplos poderia partilhar, de misoginia ou desigualdade de género, homofobia, desrespeito pelas diversas expressões e orientações sexuais, fundamentalismo religioso ou idadismo. Trago, no entanto, outro “monstro”. Por vezes invisível, mas perturbador, impactante, bloqueador, que rima entre tempos e equipas e organizações. A insegurança psicológica.

Falamos em baixos salários, e ainda bem. Em precariedade, e ainda bem. Falamos em desmotivação das equipas, e ainda bem. Em dificuldades de conciliação da vida pessoal, familiar e profissional, e ainda bem. Falamos de cansaço, de burnout, e ainda bem. De modelos de trabalho, e ainda bem. Não falamos, geralmente, da segurança psicológica enquanto elemento fundamental ao bem-estar no contexto de uma equipa ou organização, ao desenvolvimento, ao potencial humano e à produtividade.

Falamos muito pouco de como os nossos contextos, particularmente os de trabalho, são organizados no sentido de estimularem verdadeiramente a inclusão de todas as pessoas quando estão nos seus melhores, mas também nos seus menos bons, momentos. Falamos muito pouco da criação de ambientes seguros para trabalhadores e trabalhadoras expressarem e vivenciarem as suas ideias e a sua identidade, quer seja social, cultural, religiosa ou outra. Como os contextos promovem ou não promovem a possibilidade da pessoa, numa equipa ou numa organização, correr riscos interpessoais, criticar construtivamente, ter abertamente opiniões e assumir posições não maioritárias sem que a percepção da consequência destes actos resulte no seu evitamento ou numa penalização que acometa sofrimento ou outras consequências negativas.

No fundo, de como a segurança psicológica é fundamental à boa comunicação, importantíssima em contextos de e com diversidade. À coesão, fulcral à flexibilidade, honestidade e confiança, tão relevantes, por exemplo, aos modelos de trabalho híbrido e personalizados a cada trabalhador/a. À possibilidade de expressão emocional, de diferentes emoções, de podermos estar sem estar sempre bem, estar com as nossas vulnerabilidades, sentindo-nos apoiados, suportados e não ameaçados e julgados. Como é fundamental ao trabalho em equipa, à aprendizagem e desenvolvimento profissional de trabalhadoras/es e equipas. À boa tomada de decisão, à exploração de cenários, soluções e ao pensamento crítico. À investigação. À criatividade.

Como, ao contrário, a ausência de segurança psicológica obstaculiza o envolvimento, a relação, o auto e heterocuidado. Como promove a desresponsabilização individual e colectiva e a desconfiança.

A segurança psicológica, muitas vezes mais do que aquilo de que quotidianamente falamos e ouvimos ser discutido, é base e suporte de tudo isto e de todas e todos. É base de desenvolvimento, de prosperidade e de produtividade de equipas e organizações, porque empodera as pessoas, potenciando-as. Porque cria verdadeiros caminhos para mais e maior propósito sentimento de pertença e significado. Para maior possibilidade de bem-estar e saúde, incluindo mental, a partir do local de trabalho.

É por ser um elemento central hoje numa organização que julgo relevante sublinhar que a formação e desenvolvimento de lideranças de equipas e organizações deve atender à priorização, intencionalização e a competências, valores e comportamentos chave para a promoção da segurança psicológica. Deve, portanto, apoiar a criação de climas organizacionais inclusivos e positivos, onde cada pessoa possa ser validada e considerada no seu contributo, também por via de estilos de liderança mais suportivos ou participados, onde as emoções e o exemplo sejam parte. Ou, noutro prisma, pela forma como as orientações e processos de trabalho são organizados, co-construidos e partilhados ou como o próprio espaço físico de trabalho permite lugares de interacção e relação securizantes e, logo, pensados e desenhados com essa intenção.

Devemos, neste sentido, caminhar no sentido de mais organizações falarem sobre este tema, se comprometerem com a criação de locais de trabalho promotores da segurança psicológica e, mais importante, serem consequentes com esse compromisso. Prevenindo dessa forma que tenhamos, na vida real das organizações, adaptações de histórias ficcionais clássicas que nos habituamos a ver e rever em período de Natal.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, entramos em Dezembro e com Dezembro chega um imaginário de filmes, músicas, casas e ruas decoradas. Chegam momentos de encontro e reencontro que, infelizmente não para todas as pessoas, trazem conforto, afecto, carinho. Trazem segurança, incluindo psicológica. Que esta época nos inspire a um maior compromisso com a promoção da segurança psicológica nos diversos contextos, equipas e organizações. Que nos inspire a rimar a época ao longo do ano, projectando o conforto, afecto e carinho. Possibilitando mais bem-estar, florescimento e maior potencial de cada pessoa se cumprir com o apoio e suporte de todos nós.

Tiago Pereira

Sozinho na Organização: Segurança Psicológica, bem-estar e potencial humano

in Sábado (Ao redor…); 05.12.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/sozinho-na-organizacao-seguranca-psicologica-bem-estar-e-potencial-humano