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pela não complacência…

Começo esta semana com uma proposta: que se juntem a mim numa reflexão e num apelo à não complacência.

Posto isto… Apesar de estarmos em pleno Carnaval, também pela inexistência de hábitos de comemoração nos EUA (com a extraordinária excepção do Mardi Gras de Nova Orleães) e na Rússia, não consta que a conversa (não, não foi uma entrevista) de Tucker Carlson com Putin tenha sido uma “brincadeira” típica deste período. Em sentido inverso, foi um exemplar exercício de complacência, com naturais consequências, perpetrado por um Tucker Carlson mas que juntou, em bom rigor, duas pessoas que fazem da mentira e do desrespeito pelas regras de convivência e pelas outras e outros veículos da sua afirmação.

De complacência, digo. Palavra que deriva de uma palavra latina – complacentia – que, curiosamente, significa satisfação, prazer, querer agradar a outras e outros. Curiosamente porque a definição, hoje, apesar de remeter para uma aceitação sem crítica de comportamentos ou acções de outras pessoas, não deixa de ser sensível a essa história da palavra porque, muitas vezes, a complacência relaciona-se com uma componente de auto-satisfação ou de bem individual como mais importantes que o bem colectivo, sendo isso gerador da falta de acção critica e mobilização perante riscos potenciais.

Ora, creio que o vemos no exemplo que acima descrevo. Creio, também, que o vemos frequentemente agora no espaço público português quando, por exemplo, permitimos que pessoas, sem contraditório, usem da não factualidade e da mentira, desrespeitem outras pessoas ou as “regras do jogo”. De debates sobre ciência a debates políticos, não raras vezes com a complacência de quem neles participa nas diversas condições (incluindo, por vezes, jornalistas, cujo dever de mediação lhes confere uma responsabilidade acrescida), de quem a eles assiste e de quem os comenta. Há dias, um comentador quando confrontado com a forma como o líder do partido Chega participa em debates, aprontou-se a dizer que mente ele e mentem todas e todos (o que mesmo sendo verdade não o legitimava), procurando comparar a mentira reiterada, intencional e desconsiderante desse líder com erros, falhas e lapsos que qualquer pessoa, particularmente com o nível de exposição e escrutínio que as e os líderes partidários hoje têm, pode cometer. Procurar comparar para, não sem cinismo, ser complacente, justificá-lo e procurar promover a nossa complacência.

Por isso, pelo momento que vivemos e por exemplos diverso das consequências (vejamos no Brasil, EUA, Polónia ou na Hungria), deixo este repto. Não compactuemos com estas situações e não sejamos complacentes. Nem nas conversas privadas. Nem nas participações públicas, em formato monólogo. Nem nos debates, quaisquer que sejam. Muito menos com a possibilidade de assunção de responsabilidades decisivas e de governação por quem, verdadeiramente, mente, desrespeita as regras de convivência e as outras e outros, afirmando as suas ideias, ideias e a si próprio por essa via.

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Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência (Ao redor…; 30.01.2024)

Estou a ler um livro cuja epígrafe é dedicada “aos professores de humanidades, que, seguindo os passos de Ulisses, nos protegem dos lotófagos e do esquecimento”. A ilha dos “lotófagos” é uma construção de Homero acerca de um povo que, ingerindo a flor de lótus, viveria em permanente estado de amnésia induzida, mas, simultaneamente e por via desse estado, sempre com possibilidade de “começar de novo”. Uso parte dessa epígrafe para a epígrafe do artigo: que Ulisses nos proteja dos lotófagos e do esquecimento, permitindo que se torne urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência dos Hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

As sucessivas “urgências” no SNS e, mais especificamente, nos seus Serviços de Urgência, não têm permitido, há anos, que a urgente modernização e reestruturação do seu modelo e valorização dos seus profissionais possa ser planeada, implementada e avaliada com a participação e contributo das diferentes áreas e intervenientes – decisoras/es políticos, gestoras/es, profissionais, entidades parceiras e utentes. Fazê-lo e assumirem-se os sucessos, mas, também, os naturais erros e falhas destes processos para, em consequência, se melhorar, progressiva e incrementalmente, adaptando e aproximando os Serviços às necessidades e expectativas das pessoas e potenciado a sua articulação eficiente e eficaz com os diversos níveis do sistema.

Escrevia o Francisco Mendes da Silva, há dias, num artigo sobre imigração em Portugal – mas, acrescento eu, podia dizer sobre os Serviços de Urgência – que não existe um debate, antes “uma simulação de debate. Uma vozearia desordenada, uma espécie de ruído branco provocado por gente que trata o tema a partir de conclusões, não de premissas”. Conclusões lotófagas, quase sempre assentes numa ideia preconcebida, não raramente ideológicas e pouco suportadas na melhor evidência disponível, sempre influenciadas por casos específicos, desde as dificuldades de resposta sazonais ou picos de crise, a casos trágicos e/ou mediáticos. Conclusões pautadas por uma espécie de amnésia sobre as causas que aprofundam os problemas, causas que, em grande medida, em Portugal e em parte significativa do Mundo com o qual para estes fins nos procuramos comparar, apenas têm piorado (falta de profissionais de saúde, particularmente de médicas e médicos e de valorização dos profissionais existentes, por exemplo) e piorarão com o passar dos anos (envelhecimento da população e carga de doença/medicação, maior complexidade das doenças, …).

Estas conclusões são ainda pautadas pelo esquecimento do fundamental do que há a fazer, do quão existe conhecimento e qualificação no país para o fazer e confiança dos cidadãos no SNS que, apesar de todas as situações menos positivas dos últimos anos, continua a ser um serviço que no quadro dos países da OCDE é avaliado pelos portugueses como mais positivo do que a avaliação média dos cidadãos dos países da OCDE face aos seus serviços de saúde públicos. Como acima escrevi, Homero atribuía aos lotófagos esta esperança, sob a forma de uma eterna possibilidade de começar de novo.

O processo de reforma em curso, baseado na portaria “Resposta de proximidade às necessidades assistenciais em situação de urgência”, recentemente em consulta pública, representa uma nova esperança e oportunidade de mudança e melhoria. Como qualquer processo desta natureza, qualquer um/a de nós alteraria, retiraria e acrescentaria elementos. Como qualquer processo desta natureza, beneficia de debate público e de contributos, particularmente os que resultem da experiência de quem dia-a-dia enfrenta os desafios que se colocam, hoje, aos Serviços de Urgência. Beneficia da melhor evidência disponível e da observação e reflexão de diferentes experiências, desde as que demonstram resultados às que os não demonstraram. Necessita, pois, de ser faseado e particularizado, em virtude não apenas da importância da experimentação, mas, particularmente, do quão diferentes são as realidades de necessidades e recursos de Hospital para Hospital e de região para região.

Processo que pode e deve ser suportado na utilização das transformações em curso como estímulo e não obstáctulo. Dos investimentos na digitalização na área da saúde, previstos no PRR, ao potencial da inteligência artificial e dos avanços na realidade virtual e aumentada, passando pela nova organização da Direcção Executiva do SNS, pelos níveis crescentes de literacia da população e, até, apesar dos riscos da desinformação e desconfiança na ciência e instituições, dos elevados níveis de vacinação da população e de adesão a comportamentos pró-saúde se promovidos pelas autoridades.

Nesta transformação há espaço para o contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos. Desde logo, para uma melhor organização, compreensão, comunicação e avaliação do sistema, envolvendo quem o utiliza, incluindo em situações que, como se esperam, irão implicar o deslocamento de utentes e acompanhantes para outras unidades de saúde e/ou momentos de atendimento. Também, no necessário reforço da promoção da literacia em saúde, elemento fulcral à prevenção e promoção de saúde, ao auto e heterocuidado e à melhor utilização dos serviços e recursos disponíveis. Ainda na definição de percursos e comunicação do que deve esperar a/o utente e acompanhante/s no Serviço de Urgência, promovendo-se previsibilidade, segurança e percepção de controlo, fundamentais a uma melhor gestão de expectativas, estabilidade e bem-estar especialmente em momentos particularmente sensíveis.

Noutro prisma, a integração de psicólogas/os nas equipas das urgências resulta num melhor apoio à gestão de situações de dor, stresse ou ansiedade agudas, de crise, emergência ou sofrimento intenso e na garantia de suporte emocional a utentes, acompanhantes e, em algumas situações, aos próprios profissionais. Resulta, também e em equipa multidisciplinar, num contributo para processos mais eficazes e personalizados de comunicação de informações clínicas e/ou de más notícias, considerando os impactos emocionais das mesmas. Parte destes contributos pode ser observado in loco no Hospital de São João onde, desde 2021 e com a integração de um/a psicóloga/o na equipa do Serviço de Urgência, tem sido desenvolvido um projecto, amplamente reconhecido como uma prática relevante e com impactos positivos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é imprescindível tornar urgente a reestruturação dos Serviços de Urgência em Portugal, país com maior número de episódios de urgência anuais per capita da OCDE, onde mais de 40% desses episódios são classificados como não urgentes e onde essas urgências não têm permitido a urgência dessa transformação. Como é imprescindível que esta reestruturação parta da compreensão dos factores psicológicos, comportamentais e organizacionais que determinam os indicadores anteriores e seja capaz de alterar os estímulos e obstáculos que se colocam às mudanças, também pela facilitação e melhoria do acesso e da equidade de acesso às verdadeiras portas de entrada de maior proximidade do sistema – o SNS24 e os cuidados de saúde primários. Para todo este processo, todas as pessoas e profissionais são relevantes e devem (poder) assumir os seus papéis e disponibilizar os seus contributos, incluindo as psicólogas e psicólogos e a ciência que ajudam a produzir, que tanto informa sobre como decidimos e nos comportamos.

 

Tiago Pereira

Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência

in Sábado (Ao redor…); 30.01.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/como-tornar-urgente-o-que-as-urgencias-nao-permitem-ser-urgente-nos-servicos-de-urgencia

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Preço Certo…

Ontem, ao final do dia, ouvi o “Postal do Dia”, programa do Luís Osório, agora na Antena 1. Era sobre o Fernando Mendes, histórico apresentador do “Preço Certo” da RTP, e partia da “história e segredos de Fernando Mendes para liderar há vinte anos as audiências em Portugal” e da pergunta: “O que nos leva a nele estarmos sintonizados?”.

Pergunto eu, o que me leva, tantos anos depois, a estar sintonizado com o Luís Osório e o seu trabalho? Principalmente, diria, duas experiências marcantes num momento marcante da minha vida: a) uma entrevista “dura” sua ao seu pai, José Manuel Osório, no programa “Portugalmente”. Teria, talvez, uns 15/16 anos e… Não esqueço; b) os muitos episódios de “Conversa Privada” onde, com a Ana Drago e o Daniel Sampaio, pensava e conversava sobre pessoas, a sociedade e os seus desafios. Conversava(m) comigo, também, quando e enquanto procurava respostas para perguntas que fazia e nem sempre tinha pessoas com quem conversar sobre elas. Ouço-o e leio-o, ainda hoje, como uma pessoa significativa para mim.

Como tantas e tantos vêem e ouvem o Fernando Mendes, “a maior de todas as figuras populares da televisão portuguesa”, como refere no bonito texto que ouvi por si dito. “Todos os dias, o país real que chega das fábricas e dos campos, senta-se um bocadinho para se rir com ele; Todos os dias, as televisões dos lares em Portugal estão nele sintonizadas; Todos os dias, as pessoas em convalescença em quartos de hospital, ficam nele por ser o que mais se aproxima do que gostariam de recuperar; Todos os dias, mulheres e homens comuns chegados do trabalho, só querem descansar um bocadinho, fazer uma pausa antes do jantar e de tudo o que se segue na noite; Fernando Mendes é a pausa entre os empregos ou a solidão e a aproximação dos problemas que a noite traz.” Vêem-no e ouvem-no como uma pessoa significativa.

Porque… “É genuíno; Trata bem toda a gente, faz com que as pessoas se sintam em casa, como se fizesse parte das suas vidas e a qualquer momento pudesse tocar às suas portas para comer um chouriço assado, um cabrito de fim-de-semana ou um medronho.” Porque “Fernando Mendes abraça quando abraça” e “preocupa-se com as pessoas.” Mas, também, porque as pessoas encontram nesse momento do seu dia e na figura do Fernando Mendes e da sua equipa segurança, conforto, previsibilidade, companhia amizade e relação. Porque é bom para elas e porque esse bom resulta de alguém bom.

Obrigado, Luís. Obrigado, Fernando. Pelo que dão, pela forma como se dão e pelo que significam e proporcionam a tantas pessoas, já há tantos anos.

Link para o episódio: https://antena1.rtp.pt/programas-antena-1/o-segredo-de-fernando-mendes-e-o-seu-preco/

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Blitz…

Depois da ocupação da França pela Alemanha dirigida e governada pelo Partido Nazi, a partir 7 de Setembro de 1940 e durante cerca de 8 meses, centenas de aviões da Luftwaffe, brigada das Forças Aéreas Alemães, utilizaram cerca de 80.000 bombas para destruir centenas de milhares de edifícios na região de Londres e noutras cidades do Reino Unido.

Esta operação, apelidada de Blitz (provém de “Blitzkrieg“- Guerra Relâmpago), é, ainda hoje, alvo de particular interesse histórico, também pela forma como a sociedade britânica se procurou “adaptar” às circunstâncias e resistir ao medo, à destruição e à perda, sendo célebres a forma como, por exemplo, o comércio e os estabelecimentos de rua em Londres se mantiveram a funcionar e os famosos cartazes “More open than usual” [(Ainda) mais aberto que habitualmente], numa referência aos estabelecimentos continuarem a trabalhar e a “servir”, muitas vezes sem fachadas, telhados, vidros…

Um exemplo de resiliência colectiva, claro está, mas resultante de uma “união muito forte” e de mobilização conjunta, sem polarizações, num momento em que todas e todos, independentemente da classe social, do partido, do clube, (…) se uniram para, antes de mais, vencerem o medo, o desânimo, a incerteza e, depois, o inimigo.

Mais de 80 anos volvidos, dizia há pouco, permanece como um caso de estudo, caso de estudo que penso devermos evocar. Com as naturais e expressivas diferenças, a população mais jovem, hoje profundamente desafiada na sua saúde mental e bem-estar, olha o futuro e a sua complexidade com significativos receios… E, também aqui, duas notas:

a) A união, a relação, a construção de propósito são os principais antídotos para vencer o medo, o desânimo, a incerteza e, depois, os inimigos, aqui corporizados nas dificuldades que a população mais jovem enfrenta hoje e enfrentará no futuro mais próximo e mais de médio e longo prazo;

b) A necessidade de promovermos pensamento, reflexão e perspectiva (incluindo histórica) também como fundamentos centrais para a população mais jovem pensar e garantir alguma segurança, controlo e a previsibilidade possível (fundamental ao bem-estar) face aos desafios hoje e no futuro mais próximo e mais de médio e longo prazo.

Ainda há semanas, após um simpático convite de uma colega e amiga, estive numa Escola de Évora, com um conjunto de turmas de 9º ano, para assinalar o início simbólico do Programa de Desenvolvimento Vocacional de um Agrupamento de Escolas a pensar estes temas. Estive, portanto, com jovens a olhar o passado, o presente e a procurar pensar o futuro, em torno da forma como tomamos decisões (e o que também o influencia), como nos comportamos e como tendemos a olhar-nos, a olhar as outras e os outros e o Mundo.

No fundo, a procurar reforçar (e a contribuir nesse sentido, espero) como precisamos, hoje, de estar “more open than usual” e unidas/os.

Todas e todos.

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10 resoluções de Ano Novo para salvar a democracia Americana

“1. Torne-se um/a activista para nos assegurarmos que Trump não é eleito.

2. Não sucumba à tentação da complacência ou do cinismo. Os riscos são demasiado elevados.

3. Confronte as mentiras e falsidades com verdades e factos.

4. Não aceite a intolerância e o ódio.

5. Não recorra a insultos, bullying, intimidação, violência ou qualquer outra táctica que as/os apoiantes de Trump podem estar a usar.

6. Seja compassiva/o com as/os apoiantes de Trump mas firme na sua oposição.

7. Não perca tempo e energia a compadecer-se com pessoas que já concordam consigo.

8. Não decida ficar de fora desta eleição ou votar num candidato de um terceiro partido só porque não gosta especialmente de Biden e está cansada/o de votar no “menor de dois males”.

9. Manifeste-se, mas não esqueça que a acção política é mais que a manifestação.

10. Não se distraia com a mais recente publicação ou história sensacionalista do ou sobre o Trump.“

Partilho uma tradução possível das “10 resoluções de Ano Novo para salvar a democracia Americana”, partilhadas num artigo de Robert Reich, passa hoje 1 mês.

Com e face a Trump, mas…

Algo a retermos, a reflectirmos, quando, em Portugal, mais uma sondagem, ontem, confirmava uma força política com slogan “Limpar Portugal” como terceira força política em Portugal, eventualmente a caminhar para o mais alto resultado de sempre de uma terceira força política, nas eleições legislativas de Março próximo. Algo a retermos, a reflectirmos, quando, em Portugal, amanhã, está agendada para Lisboa uma XXXXXXXX [por favor escolher o nome] de pessoas com o mote “Contra a islamização da Europa”.

Robert Reich diz também no artigo: “Se quer fazer algo positivo, use a sua energia para combater a possibilidade de voltarmos a ter Trump como presidente”.

Com o final da semana à porta, aconselho, vivamente, o artigo e a reflexão de como devemos usar a nossa energia para combater a possibilidade de voltarmos a ter… Isso e recordarmo-nos, sempre, do quanto devemos a tantas e tantos que, abnegadamente e por nós, lutaram e arriscaram muito (por vezes a réstia de liberdade, outras mesmo a vida) para que em Abril próximo possamos comemorar 50 anos do 25 de Abril.

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Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência

“Que Ulisses nos proteja dos lotófagos e do esquecimento, permitindo que se torne urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência (SU) dos Hospitais do SNS”, passagem que, baseada na epígrafe do livro que me encontro a ler, escolhi para epígrafe do…

“Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência”, 75º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) que reflecte como “as sucessivas “urgências” no SNS e, mais especificamente, nos seus SU, não têm permitido, há anos, que a urgente modernização e reestruturação do seu modelo e valorização dos seus profissionais possa ser planeada, implementada e avaliada, com a participação e contributo das diferentes áreas e intervenientes.”

Explicando porque entendo que esquecimentos e conclusões “lotófagas”, “quase sempre assentes numa ideia preconcebida, não raramente ideológicas e pouco suportadas na melhor evidência e sempre influenciadas por casos específicos” não o permitem. Mas na “ilha dos lotófagos” de Homero, além da amnésia auto-induzida, existia esperança, “sob a forma de uma eterna possibilidade de começar de novo.”

“O processo de reforma em curso, baseado na portaria “Resposta de proximidade às necessidades assistenciais em situação de urgência”, recentemente em consulta pública, representa uma nova esperança e oportunidade de mudança e melhoria. Como qualquer processo desta natureza, onde qualquer um/a de nós alteraria, retiraria e acrescentaria elementos” (…), beneficia (entre outros, detalhados no artigo) da observação e reflexão de diferentes experiências e das transformações em curso na área da saúde, nomeadamente da digitalização e de outros avanços tecnológicos.

Beneficia, ainda, do contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos:

  1. Para melhor organização, compreensão, comunicação e avaliação do sistema, envolvendo quem o utiliza;
  2. No reforço da promoção da literacia em saúde, elemento fulcral à prevenção e promoção de saúde, ao auto e heterocuidado e à melhor utilização dos serviços e recursos disponíveis;
  3. na definição de percursos e comunicação do que deve esperar a/o utente e acompanhante/s no SU, promovendo-se previsibilidade, segurança e percepção de controlo;
  4. no apoio à gestão de situações de dor, stresse ou ansiedade agudas, de crise, emergência ou sofrimento intenso e na garantia de suporte emocional a utentes, acompanhantes e, em algumas situações, aos próprios profissionais;
  5. no contributo para processos mais eficazes e personalizados de comunicação de informações clínicas e/ou de más notícias, considerando os impactos emocionais das mesmas.

“Parte destes (importantes) contributos pode ser observado in loco no Hospital de São João onde, desde 2021 e com a integração de um/a psicóloga/o na equipa do SU, tem sido desenvolvido um projecto, amplamente reconhecido como uma prática relevante e com impactos positivos.”

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Maria Lamas

Muitas e muitos de nós andamos em Escolas com nomes de personalidades que admiramos. Assim foi comigo. Estudei no meu terceiro ciclo e secundário numa Escola com o nome de uma Mulher, minha conterrânea, essencial na história e compreensão do feminismo e do desenvolvimento e progresso social em Portugal – Maria Lamas.

Foi jornalista, escritora, investigadora, tradutora, fotógrafa e, fundamentalmente, uma activista, lutadora pelos direitos cívicos e humanos, quando sê-lo se “pagava” com a liberdade (foi presa pelo Estado Novo três vezes), com o exílio (como tantas e tantos, viveu exilada em França) e, por vezes, com a vida.

Apesar deste importantíssimo contributo, o seu trabalho não é amplamente conhecido e acessível. Felizmente o @PUBLICO recentemente disponibilizou uma edição da sua obra principal – “As Mulheres do Meu País”, um livro que publicou entre 1948 e 1950 em 15 fascículos para “fugir” dessa forma à censura. Livro que resulta do seu trabalho, de base etnográfica, de documentação da vida de Mulheres portuguesas, procurando expor, por um lado, as desigualdades sociais e económicas daquele Portugal e, por outro, as fortíssimas disparidades de género e o quanto isso implicava na possibilidade de liberdade, saúde e bem-estar das Mulheres. Livro “marco” na luta pela igualdade de género e pela justiça social naquele e nos períodos que se lhe seguiram.

Partilho estas palavras convosco, hoje, com duas propostas:

  1. Que, sendo-vos possível, visitem a exposição “As Mulheres do Meu País” que desde sexta-feira está na @Fundação Calouste Gulbenkian e que, apresentando a Maria Lamas, mostra o trabalho fotográfico que acompanhou estas suas viagens por todo o país, recolhendo as imagens e as histórias das Mulheres do seu país. Um retrato incrível do caminho que percorremos e do quanto o temos, apesar de tudo, que louvar e preservar. Mas, um retrato também do caminho ainda por percorrer para cumprirmos a igualdade de género e a equidade social, valores aos quais Maria Lamas dedicou (e pelos quais “arriscou”) a sua Vida;
  2. Que, sendo-vos possível, o façam, como eu tenho a sorte de poder ter feito, com uma das Mulheres fantásticas que o nosso país tem.

Façam-no para continuarmos, todas e todos, o legado das muitas Maria Lamas que tanto deram para que possamos, hoje, ter mais possibilidade de ter “uma vida melhor”.

Ps. A imagem que acompanha esta mensagem é uma fantástica pintura de Maria Lamas feita por Júlio Pomar em 1953 e que pode ser vista na exposição.

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A desconfiança, a negatividade, a ética e os próximos 54 dias (Ao redor…; 16.01.2024)

Este ano que agora começou será particularmente importante para a Democracia no Mundo. Esta minha afirmação resulta, não apenas dos complexos desafios que enfrentamos globalmente, como a crise climática, migratória e da desigualdade ou dos conflitos armados e tensões geopolíticas em diversas regiões. Resulta, também, da sua conjugação com um 2024 com um número de eleições impressivo, com a ascensão de partidos/personalidades populistas e radicais com condições de ganharem ou influenciarem decisivamente eleições, particularmente à direita do espectro político, e, destas, com a crescente polarização da sociedade e utilização do ressentimento, do medo e do ódio, também via redes sociais, como veículos de apelo ao voto e mobilização para acções, nomeadamente de protesto ou confronto, por vezes violentas.

Ruchir Sharma sublinhava há dias no Finantial Times que 2024 será o ano desde que há registos em que mais população será chamada a votar (46% da população mundial, incluindo as legislativas em Portugal e as eleições nos EUA, Índia e Indonésia, três das “maiores” democracias). Paralelamente assinalava também ser um dos momentos históricos em que é mais prejudicial ser-se primeira/o-ministra/o ou presidente em exercício para se ser reeleita/o. É deveras impressionante a mudança dos últimos 20 anos: considerando as 50 maiores democracias, se em 2003, em média, 70% das/os incumbentes ganhava eleições, hoje são apenas 30%, algo que inverte a vantagem que historicamente existia para quem se recandidatava. Mas mais, são também historicamente baixas as taxas de aprovação no geral das/os líderes políticas/os globalmente, sendo a taxa de aprovação de Biden a mais baixa de sempre neste momento do mandato (39%, no último estudo da Gallup), mas comparável às de Kamala Harris e do “Speaker” Mike Johnson (40%), do líder Democrata no Senado (Chuck Schumer, 43%) e superior, ainda assim, à do líder Republicano (Mitch McConnell, 27%).

São diversos, complexos e interrelacionados os motivos desta alteração. Desde logo os acima expostos e sobre os quais nesta rubrica e em diferentes artigos já reflecti. Outros também já aqui tratados como são exemplo a crise da confiança e a menor proximidade percebida dos maiores partidos (“catch all parties”) às pessoas, suas necessidades, desejos e expectativas. Mas há também na sociedade, hoje, uma menor tolerância ao erro, mais elevadas expectativas e rápidas e profundas alterações sociais, culturais e demográficas. Tudo questões centradas ou que impactam no comportamento humano, nos processos de tomada de decisão e que ganham maior importância num tempo em que as novas tecnologias de informação e comunicação influenciam decisivamente como socialmente nos informamos, comunicamos, posicionamos e relacionamos.

Tudo elementos que aprofundam o facto de notícias, informações e experiências negativas terem mais relevância, serem mais recordadas e evocadas por nós e determinarem mais a nossa percepção da realidade e o nosso comportamento face a notícias, informações e experiências positivas. Um fenómeno psicológico chamado “viés da negatividade”, explorado por partidos e personalidades populistas que, ampliando e fazendo uso das causas atrás descritas, as aprofundam. Um exemplo: usam, com fins eleitorais, a desconfiança dos cidadãos nas instituições – algo que, só por si, contribui para mais desconfiança, num ciclo perigoso para a democracia, coesão social e para uma sociedade de bem-estar, direitos e possibilidade de autodeterminação para todas/os.

As consequências desta situação, particularmente (mas não apenas) em quem se recandidata, são também diversas, (potencialmente) complexas, interrelacionadas e reforçadoras destes ciclos. São, desde logo, um estímulo para uma tentativa de maior controlo do ambiente mediático e político, colocando em risco uma mais ampla participação e debate. São um incentivo para “tudo se prometer”, independentemente da capacidade ou possibilidade para se cumprir, desvirtuando programas e ideologias políticas, “fulanizando” as campanhas e diminuindo a capacidade de atração de eleitoras/es pela adesão ao projecto, reforçando-se a atração por “repulsa” aos adversários, geradora de mais conflito não construtivo, de maior volatilidade e menor comprometimento. Provocam, também, mais e maior instabilidade política, menor capacidade de desenvolvimento de políticas públicas com sucesso e desincentivam a participação na política, diminuindo o apelo e a capacidade de atração das funções públicas e, logo, a qualidade potencial média das e dos decisores e da governação.

Mas há mais. Há quem tudo isto use abundantemente e, simultaneamente, se promova, qual cereja no topo do bolo, como o “único” capaz de introduzir ética na política. Isto mesmo quando tudo o atrás é, porventura, o que mais obstaculiza a percepção da associação entre ética e (decisão) política pelas pessoas. Quem o faz, fá-lo, também, recorrendo ao viés na negatividade, explorando a situação, o caso, a dúvida e o facto de hoje, particularmente em Portugal, existir uma associação entre falhas/erros na dimensão ética e questões legais/criminais, nomeadamente com a corrupção (convido a verificarem no Google Trends a evolução do número de pesquisas dos termos e de como hoje, em Portugal, praticamente se equipararem, numa quebra progressiva e significativa das pesquisas por ética e num aumento das pesquisas por corrupção).

Também por isso, todas e todos, candidatas/os ou não, comentadoras/es ou não, jornalistas ou não, cientistas ou não, activistas ou não, temos um papel fundamental nestes 54 dias que nos levarão às eleições. O de prevenir que se utilize a desconfiança, a negatividade e se use o conceito de ética apenas com intuitos políticos e populistas, desconsiderando-os efectivamente. O de utilizar o conhecimento disponível sobre como nos comportamos e tomamos decisões como antidoto para este impulso e como força para combatermos uma política de ressentimento, de medo, de ódio, de promoção da impossibilidade de construção conjunta e de debate e conflito construtivo e salutar.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos pensar e perguntar-nos sobre o que poderia ter acontecido de diferente, com comportamentos e decisões diferentes das tomadas, entre a data possível de confirmação do primeiro caso de COVID-19 em Wuhan a 01.12.2019 (data referida por entidades e organizações internacionais, mas não confirmada, sendo mesmo negada pelas autoridades da China) e o dever de recolhimento obrigatório decretado nesta região 54 dias depois, em 23.01.2020. Podemos perguntar-nos o que mudaria. Como podemos pensar de que forma podemos, enquanto pessoa e enquanto parte de uma comunidade, chamando a este tempo mais ciência, evidência, respeito, ética e centralidade às instituições, à Constituição portuguesa e aos Direitos Humanos, contribuir para 54 dias que nos levem a umas legislativas que reforcem a confiança, a esperança, o compromisso e a ética. Para 54 dias que promovam um foco, também, no bem-estar de todas e todos e no bem-comum. Que nos permitam ver outras e outros ao redor, em Portugal e no Mundo, e ter presente, sempre, o legado e a justiça intergeracional para com as gerações que nos sucederão.

 

Tiago Pereira

A desconfiança, a negatividade, a ética e os próximos 54 dias

in Sábado (Ao redor…); 16.01.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-desconfianca-a-negatividade-a-etica-e-os-proximos-54-dias

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Imprevisibilidade?

Há dias, Boris Johnson manifestando o seu apoio a Trump e referindo não acreditar que este, se eleito, retire o apoio à Ucrânia, defendeu que passariam assim a existir “todas as opções para que o Ocidente seja mais forte [com Trump] e para que o Mundo seja mais estável”. Disse, também, que é necessário “um líder Americano que esteja disposto a usar a força e que seja imprevisível para actuar como um dissuasor para os inimigos do Ocidente.” A usar da força e que seja imprevisível…

Imprevisível, portanto.

Num momento de profunda incerteza e de alta volatilidade pretendem, forças e personalidades políticas populistas, que abandonemos quadros de referência, estabilidade e direitos por uma nova “Lei”, baseada na força, na intimidação verticalizada do ou dos mais fortes e na imprevisibilidade. Imprevisibilidade que vai de mudanças drásticas em acordos ou políticas por decisão individual ou pouco transparente a discutir ou debater não cumprindo regras mínimas de civilidade e democracia, da confusão de factos com opiniões, da não aceitação da ciência à promoção do ódio e da desconfiança em pessoas, grupos e/ou instituições, prometendo, pelo caminho, tudo e o seu contrário. Trump, menos polido, sabe-o. Usa-o. Outros, alguns mais polidos, outros nem tanto, cá e noutros países, também.

Imprevisível, portanto.

Também por isso, talvez, 15 dos 27 países da UE têm, hoje, partidos da direita radical, populista ou mesmo da extrema-direita com 20 ou mais por cento de intenções de voto. E como isso impacta e nos impacta, hoje e para o futuro, a nós e a quem nos seguirá. Como impacta a coesão social e esse objectivo maior desta minha profissão, a procura, com os seus contributos, promover a possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas, num quadro de direitos (humanos). Como, parte destes partidos, alguns com responsabilidades governativas, são hoje desfavoráveis aos principais fundamentos da ideia de UE, alguns mesmo, como a AfD (essa referência para personalidades do partido da direita populista português e cujas posições estimularam a manifestação da fotografia da “AP Photo”), onde a líder abertamente aborda a possibilidade de saída da Alemanha da UE, apresentando o “Brexit” como “um modelo para a Alemanha” para ser “possível tomar uma decisão soberana”.

A previsibilidade, o controlo e a segurança (psicológica) são fundamentais à saúde mental e bem-estar. São, também, fundamentais a uma sociedade delas promotora, para todas as pessoas. Já a imprevisibilidade… Pensemos a Polónia, por exemplo, a partir deste texto do Timothy G. Ash (O Mundo deve aprender com a tragédia da Polónia: Restaurar a democracia é ainda mais difícil de que criá-la).

Timothy G. Ash que um dia disse que “precisamos de um idealismo realista e de um realismo idealista”, ambos dependentes do contributo, do empenho e do compromisso de todas e todos. Porque, se precisamos… Se precisamos.

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Pacto, compromisso, consequência.

Tinha acabado de minutos antes concluir a minha intervenção usando de uma fantástica frase do Gonçalo M. Tavares no ensaio “O futuro do clima, o clima do futuro” – “mudar o possível na direccão do excelente”.

Essa intervenção, na “Mental Health in Workplace Summit” e com o título “SP500 – Segurança Psicológica e o seu papel nas organizações” (mais informações aqui) teve como objectivo maior sublinhar a centralidade da segurança psicológica em contexto organizacional como base e suporte de toda e qualquer acção de promoção da saúde mental e bem-estar de trabalhadoras e trabalhadores.

Minutos depois o Frederico Fezas-Vital pediu-me um contributo de apelo à participação de outras organizações, que pudessem e possam somar às já largas dezenas que subscreveram o “Pacto pela Saúde Mental nos Locais de Trabalho”, promovido inicialmente a partir do CRBL da Católica Lisbon School of Business and Economics. Fi-lo conjuntamente com a Katia Almeida, o James Mackie, a Mariana Ribeiro Ferreira e o Filipe Santos. Fi-lo, conforme agora partilho, procurando reforçar ser este o momento para um compromisso, também cívico e societal, das organizações se envolverem e se comprometerem com este tema e com esta dinâmica. Se comprometerem, pela sua produtividade e pelo seu desenvolvimento, claro está, mas também por toda a sociedade.

Fi-lo, depois e finalmente, apelando a que participem, façam parte, mas, essencialmente, sejam consequentes, porque…

Este é o momento de “mudar o possível na direccão do excelente”.

 

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