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COVID-19 Pobreza e Desigualdade Psicologia

Natal em Isolamento…

Da sequenciação da nova variante do SARS-CoV-2 à morte de Desmond Tutu, passando pela fuga de um cidadão português, a África do Sul tem estado em foco no nosso país. Foi assim neste Natal, com o agravamento da incidência e transmissibilidade atribuído, em parte, à variante Ómicron e com muitas pessoas e famílias a verem alterados os seus planos e a não cumprirem a expectativa criada.

A 24.12 conversei com a Marta Atalaya (@SICNoticias) sobre o significado de viver este momento numa situação de isolamento. Oportunidade para reflectir sobre o cansaço das pessoas face a tantos meses de uma incerteza que desafia a capacidade (grande, mas não ilimitada) de adaptação das pessoas, particularmente das expostas a maiores vulnerabilidades. Oportunidade para procurar estimular a naturalização possível do momento, particularmente face a tantas pessoas nossas próximas a viver uma situação semelhante em Portugal ou em países com quem temos fortes relações (a França e o Reino Unido por exemplo que dia após dia têm ultrapassado máximos de casos diários de infecções). Oportunidade para recordarmos quem, ano após ano, por outros motivos, vivencia o seu Natal de forma mais isolada e sofre com a solidão e/ou exclusão, problemas gravíssimos de saúde pública que temos entre nós e com os quais nos devemos sintonizar (e sobre eles actuar) 365 por ano, todos os anos.

Resistimos 21 meses, lembremo-lo. E lembremos a importância de garantirmos o controlo, segurança e a previsibilidade (possíveis) em diversos aspectos da nossa vida, como a relação/conexão com outras e outros. Podemos fazê-lo promovendo novas formas de encontro, como é exemplo uma caminhada com alguém de quem gostamos, realizando actividade física e contactando com a natureza, factores importantes ao nosso autocuidado. Podemos fazê-lo promovendo novos momentos de celebração, intencionalizando a comemoração não apenas de datas mas também de realizações (um novo projecto/trabalho, o fim da pandemia), aumentando a nossa percepção de controlo e, pela partilha, o sentimento de pertença.

Resistimos 21 meses, lembremo-lo. E pensemos que um ano de transição, conforme o apelo do Sr. Presidente da República para 2022, depende de nos projectarmos no futuro e projectarmo-nos no futuro da nossa saúde mental. Na conversa discuto como os problemas de saúde psicológica nos encurralam a um presente amarrado pelo olhar constante ao passado. Como o futuro depende de apoiar pessoas em sofrimento e com problemas de saúde psicológica, nomeadamente com programas específicos de prevenção e intervenção na ansiedade e depressão nos cuidados de saúde primários (próximos das pessoas e contingentes aos seus problemas), junto das 3 em cada 10 pessoas que se estima que dessa intervenção beneficiariam.

“A minha humanidade está ligada à sua pois só juntos podemos ser humanos”, disse D. Tutu. Verdade ontem, hoje e em 2022. Verdade base da nossa possibilidade de vencermos esta pandemia e concretizarmos esta fundamental transição.

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Ao redor... (Revista Sábado) Psicologia

O valor de nada fazer (Ao redor…; Sábado; 13.12.2021)

Hamburgo é a segunda maior cidade da Alemanha. Conta com um importante porto, um dos maiores da Europa, e é habitualmente percebida como centro financeiro e económico da Alemanha. É, no entanto, concomitantemente, uma cidade com uma educação, ciência e cultura vibrantes, com magníficas salas de espetáculo e museus. Um deles (MK&G) recebeu este ano uma exposição intitulada “A escola da inconsequência”, resultante de um projecto que, em 2020, atribuiu as Bolsas “Doing nothing” [Fazer nada] da Universidade de Belas Artes de Hamburgo, às três pessoas que, de acordo com o júri, responderam com as ideias mais relevantes a quatro questões: “O que pretende não fazer?; Quanto tempo pretende não o fazer?; Porque é particularmente importante para si não o fazer?; Porque é que é a pessoa certa para não o fazer?”. As originais bolsas, assentam na perspectiva de desafiar a visão tradicional (em alguns contextos, pecaminosa) da ociosidade e, dessa forma, questionar a percepção social do sucesso.

Ao contrário da obsolescência programada, por estes dias combatida no seio da União Europeia e que visa tornar obsoleto e por isso não funcional um determinado produto, esta ociosidade programada, estimulada e activada, visa a transformação, a mudança de comportamentos e o questionamento do “prestígio social” no sentido de permitir que este se compatibilize com “tempo para sonhar”, “tempo para nada fazer”. Algo que nos confronta, que nos pode inclusivamente “soar estranho”, por ser divergente. Diria, por ser duplamente divergente, se pensarmos que as bolsas são atribuídas por uma Universidade.

Esta não-conformidade, simbolicamente, elucida um possível binómio entre conformismo e originalidade. Entre o conformismo de fazer, continuando a fazer, e a originalidade de não fazer, não continuando a fazer. Permite-nos reflectir sobre como aceitar que não fazer algo pode ser um primeiro passo e uma oportunidade de espaço e tempo para uma mudança, para (fazer) algo diferente, potencialmente gerador de outras respostas a um mesmo problema ou desafio ou de maior potencial de bem-estar. Como esta originalidade pode ter valor face a um conformismo que nos mantém, imperturbáveis, a fazer, fazer e fazer, não guardando oportunidade para ousar mudar. Como o nada fazer pode gerar instabilidade, por oposição a inércia (que de tão humana se reforça a si própria) e criar condições, pelo pensamento, pela reflexão e pela transformação, para a originalidade, a liberdade, a junção, passo a passo, do que permite e contribui para a possibilidade de sermos criativos, de construirmos criatividade e de lhe darmos significado.

De múltiplas formas, o momento que vivemos demonstra-nos a sua importância. Porque, nas crianças, obstaculiza há muito o brincar e a sua expressão livre, não dirigida e espontânea, fundamental à possibilidade de imaginação e construção de cenários alternativos e de se colocar em papéis diferentes. Porque a criatividade beneficia da abrangência de interesses e de experiências e o momento que vivemos propicia menos diversidade e mais “encerramento”. Porque, sendo cada vez mais óbvia a importância da pausa e da (boa) conciliação entre diferentes papéis de vida, esse conhecimento não é por si suficiente, sendo necessária a sua prática, bem como a sua promoção e estimulação.

Também aqui, esta necessidade de parar (e do momento e forma de parar) depende, não apenas, de pessoa para pessoa no que toca às suas características e interesses, como principalmente depende das suas condições para tal e, a partir delas, da possibilidade de desenvolver capacidades criativas e reflexivas associadas. Estas condições, que mais que nunca devem ser investidas (nas e pelas famílias; na educação pelos e pelas educadoras; nas organizações e instituições pelas suas lideranças), podem ser organizadas em torno de quatro dimensões: 1) importância de estarem cumpridas necessidades básicas de segurança e conforto, pois a criação e a reflexão é condicionada em situações de escassez ou incerteza que impactam na dimensão emocional e cognitiva das pessoas; 2) importância da existência de contextos encorajadores da criação e reflexão, lugares cuja dimensão material o estimule e cuja dimensão imaterial o promova, nomeadamente redes e organizações que funcionem como ambientes seguros onde o erro é possível e onde as relações e as lideranças suscitem oportunidades de reflexão, de co-criação e de resolução criativa de problemas e desafios; 3) importância do desenvolvimento de valores associados à reflexão e de competências, também pelo treino e prática, de criação que, entre outros, incluam a capacidade de sonhar[i] e de se projectar no futuro; 4) importância da saúde psicológica, da existência de recursos internos e externos de adaptação e resiliência, de capacidades e oportunidades de relação com as outras e os outros e com o que nos rodeia e de autocuidado.

Ao contrário de uma visão mistificada – e apesar dos pontos de contacto entre (alguma) disrupção e criatividade e (alguma) doença mental – a capacidade de criação depende do não confronto permanente com o sofrimento (como ser criativa/o muito tempo se nos sentirmos sempre em sofrimento?) e do não esgotamento de recursos, nomeadamente emocionais. A criação não acontece na ausência de condições, mas criando condições para ela, garantindo a possibilidade de equilíbrio entre a disrupção necessária à inovação e originalidade com a concentração e foco fundamental ao selecionar do essencial para concretização ou operacionalização. Mesmo aquando da excepcionalidade associada à genialidade de artistas, desportistas ou cientistas creio legitimo que nos perguntemos não apenas se Cobain, Munch, Plath, Biles ou Newton poderiam ser quem foram/são noutras condições, mas também no que (ainda) mais poderiam ter dado/dar ao Mundo com outras condições e com mais saúde e saúde psicológica.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, conforme afirma Natalia Ginzburg, “quando somos felizes, a nossa fantasia tem mais força; quando somos infelizes, então é a nossa memória que age mais vivamente”. Nada fazer pode não ser fácil, pode ser contraintuitivo, pode até não merecer atenção ou granjear prestígio social e ainda assim ser um caminho para maior possibilidade de bem-estar e para fortalecer a nossa fantasia, a nossa capacidade de sermos criativos e, por nos permitir o exercício e usufruto da nossa liberdade, a nossa autodeterminação. Aproveitemos o momento e a época do ano que vivemos para reflectirmos sobre a possibilidade de parar, de pausar, de nada fazer sem nos culpabilizarmos, intencionalizando uma ociosidade positiva essencial ao nosso florescimento, à diversidade e, através dela, à riqueza. Aproveitemos o momento para desafiar e questionar o prestígio e sucesso conforme o conhecemos e conforme nele nos reconhecemos.

[i] https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/sonhar

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 13.12.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-valor-de-nada-fazer

 

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COVID-19 Pobreza e Desigualdade

Pela voz das crianças…

Há umas horas recebi uma notícia que senti como o “céu a cair-me sobre a cabeça” e, logo em simultâneo, a força de um amparo, apoio e de uma partilha capazes de o começar “a empurrar de volta ao seu lugar”.

Noite dentro, pensei nesta imagem e neste receio que noutras noite, já há muitos anos, lia contado nas histórias de um conjunto de habitantes de uma irredutível aldeia de Gauleses. Um receio, permanente, de algo pensado como não reparável. Diferente, tão diferente do que senti pela não-constância, pelo suporte e pelos recursos que tenho para lidar com a situação. Igual, tão igual ao que sentem pessoas em situação de pobreza ou exclusão prolongadas, isoladas ou com determinadas vulnerabilidades. Pessoas “cujo céu lhes caí sobre a cabeça” a cada dia e sem suporte ou recursos “para o empurrarem de volta ao seu lugar”.

No passado dia 10.12, no âmbito do webinar promovido pela EAPN – European Anti Poverty Network Portugal (A pandemia pela voz das crianças) participei num debate que discutiu os resultados preliminares do estudo com o mesmo nome conduzido pela Cátia Santos, Elizabeth Santos, Fátima Veiga, Paula Cruz, com a supervisão científica da Teresa Silva Dias. Estudo que creio relevantíssimo – também porque “dá voz às crianças”, às e os invisíveis da pandemia, ao partir das suas narrativas e dos seus discursos – na compreensão do agravamento das dificuldades e problemas de saúde psicológica, física, socialização, alimentação, aprendizagem ou do maior risco de abuso e violência, isolamento, ausência de tratamentos regulares e do aprofundamentos e cristalização de situações de pobreza e exclusão social. Tudo vivido, tudo experienciado, tudo, por vezes com tanta simplicidade mas tão profundamente, contado.

Na interessante discussão, com a Beatriz Imperatori, o Manuel Sarmento e a Rosário Farmhouse, falamos de protecção das crianças, particularmente as com maiores vulnerabilidades, do seu bem-estar, da necessidade de reforçar a sua participação e de promover a equidade. Falamos de família, de cuidadoras/es e de que Escola temos. Falamos do que a pandemia revelou mas também do que potencialmente informou para o futuro e para as políticas públicas de futuro.

Astérix – nome que não por acaso deriva do grego “pequena estrela” – fazia das relações, não apenas com Obélix, da sua confiança e da poção mágica que consigo transportava, forças para enfrentar e superar os desafios e se adaptar às adversidades, festejando, partilhando e celebrando as conquistas com toda a comunidade da sua aldeia nos banquetes de final de história.

Tomemos este exemplo e invistamos, hoje, nas relações, no desenvolvimento de competências, da segurança e da confiança, de instrumentos e recursos externos (apoios) de proximidade e contingentes, quando necessários. Invistamos e permitamos mais condições a mais pessoas (a todas as pessoas, potencialmente) para melhor lidarem com as suas (más) notícias, dificuldades e adversidades.

Para as “vencerem” e para o partilharem e celebrarem.

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Política Psicologia

Psicoterapia, sociedade, poder e política – Podcast “Psicoterapia na torre de Babel”

Em 2006 Inãrritu mostrou-nos Babel. Terceiro filme de uma desafiante triologia – Amor cão (2000) e 21 Gramas (2003) – confronta-nos com quatro histórias em tudo distantes (geografia; condições sócio-económicas; expectativas) mas relacionadas entre si na e pelo trágico. “Percebi que o que nos torna felizes como seres humanos pode ser bastante diverso mas que o que nos torna vulneráveis e miseráveis é o mesmo” disse Iñarritu para justificar porque Babel é um filme “sobre o que nos une e não sobre o que nos separa”.

“A psicoterapia na torre de Babel” é um podcast sobre o que nos une… Parte da ideia, do empenho e do entusiasmo da Constança Biscaia e do David Dias Neto (com o apoio da APTCCI – Associação Portuguesa de Terapias Comportamental, Cognitiva e Integrativa) e tem como fim suscitar reflexão a partir de diálogos sobre “as ligações entre a psicoterapia e domínios como a arte, filosofia, ciência.” Um dos episódios/diálogo (que agora partilho) tratou a “Psicoterapia, sociedade, poder e política” e resulta de uma conversa entre mim e o David Dias Neto moderada e estimulada pelo Telmo Mourinho Baptista, duas pessoas com que muito admiro e com quem muito aprendi, aprendo e aprenderei.

Pensamos a “contradição” entre uma intervenção que visa a mudança (individual) e praticada junto do individuo no seu papel de interacção com a sociedade e o que isso significa na necessidade da sua disseminação e maior acessibilidade, também pela reflexão sobre princípios psicoterapêuticos, pela intervenção em contextos e com públicos que o facilitem e pelo reforço da identidade e da solidez dos princípios éticos e deontológicos da intervenção. Falamos como a personalização, o significado, a literacia e o poder influenciam a acção das e dos decisores políticos nesta área. Como a eficácia e eficiência das intervenções é essencial e como temos que investir em demonstrá-las e generalizar esse conhecimento e continuar um caminho de fazer transformar a dictomia assente no modelo biomédico de doença vs ausência de doença (mental) para uma ideia de bem-estar e de florescimento. De liberdade, responsabilidade (auto-contenção, hetero-contenção e auto-regulação), ganho de autonomia e empoderamento. De crescimento, crise e transformação, também nas organizações. De aceitação, abertura à e ao outro e à possibilidade de mudança. De equidade, de coesão social e dos riscos do populismo. Terminamos com os contributos da ciência psicológica para uma “melhor sociedade” e com a necessidade de assumirmos o “poder” que pode(mos) ter nesse processo partindo da auto-confiança e de uma ideia de “poder empático”, assente em auto-crítica.

Uma conversa que foca como diferentes línguas se intersectam numa complexidade que, também como no filme, nos desafia.

Ps. Deixo a nota de que existem outros episódios do podcast já disponíveis (Psicoterapia e meios de comunicação social; Psicoterapia e arte; Psicoterapia e corpo; e Psicoterapia e culturas) e outros vêm a caminho.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Nada fazer… Que valor?

O que pretende não fazer?; Quanto tempo pretende não o fazer?; Porque é particularmente importante para si não o fazer?; Porque é que é a pessoa certa para não o fazer? Estas questões foram mote para os projectos cujo júri da Universidade de Belas Artes (Hamburgo) apreciou para atribuição das originais bolsas “Doing nothing” [Fazer nada] que desafiam a visão tradicional (em alguns contextos, pecaminosa) da ociosidade e, dessa forma, questionam a percepção social do sucesso. Ao contrário da obsolescência programada, propõem algo como uma “ociosidade programada” que, estimulada e activada, potencia a transformação, a mudança de comportamentos e o questionamento do “prestígio social” no sentido de permitir que este se compatibilize com “tempo para sonhar”, “tempo para nada fazer”.

“O valor de nada fazer”, 22º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) trata o que nos confronta a atribuição de uma bolsa a uma pessoa e projecto para “nada fazer”. Trata esta não-conformidade e o que ela, simbolicamente, elucida sobre um possível binómio entre conformismo (fazer, continuando a fazer) e originalidade (não fazer, não o continuando a fazer). Estimular a reflexão sobre “aceitar que não fazer algo poder ser um primeiro passo e uma oportunidade de espaço e tempo para uma mudança, para (fazer) algo diferente, potencialmente gerador de outras respostas a um mesmo problema ou desafio ou de maior potencial de bem-estar.” Finalmente, fá-lo, num momento especialmente importante, onde o brincar na sua expressão livre, espontânea e não dirigida das crianças se encontra há muito obstaculizado e há um “encerramento” das pessoas no sentido da menor abrangência e diversidade e especiais desafios à conciliação de papéis.

Mas, esta necessidade de parar depende de pessoa para pessoa e necessita de condições, que mais do que nunca devem ser investidas, que organizo (e detalho) em quatro dimensões: 1) estarem cumpridas necessidades básicas de segurança e conforto; 2) existência de contextos encorajadores da criação e reflexão; 3) desenvolvimento de valores associados à reflexão e de competências de criação; 4) importância da saúde psicológica e da existência de recursos internos e externos de adaptação e resiliência.

Como N. Ginzburg descreve (“quando somos felizes, a nossa fantasia tem mais força; quando somos infelizes, então é a nossa memória que age mais vivamente”) ao contrário de uma visão mistificada – e apesar dos pontos de contacto entre (alguma) disrupção e criatividade e (alguma) doença mental – a capacidade de criação depende do não confronto permanente com o sofrimento e do não esgotamento de recursos. Aproveitemos o momento e a época do ano que vivemos para reflectirmos sobre a possibilidade de parar, de pausar, de nada fazer sem nos culpabilizarmos, intencionalizando uma ociosidade positiva essencial ao nosso florescimento, à diversidade e, através dela, à riqueza. Aproveitemos o momento para desafiar e questionar o prestígio e sucesso conforme o conhecemos e conforme nele nos reconhecemos.”

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Comportamento Psicologia

Natal e saúde psicológica (e financeira)

A 24 de Novembro – 1 mês antes da noite de Natal – uma sonda da NASA iniciou uma viagem de aproximadamente 1 ano com um objectivo extraordinário: embater num asteroide a 11 milhões de km do planeta Terra com o intuito de se estudar a possibilidade de alteração da sua rota e utilizar essa informação para desenvolver potenciais soluções para situações futuras de asteroides em rota de colisão com a Terra. O DART representa um empreendimento colectivo com vista a garantir maior controlo sobre algo profundamente incerto (rotas de asteroides), procurando-se maior previsibilidade e segurança para o planeta.

Pensei no DART quando conversei com a jornalista Sara Dias de Oliveira para a sua peça que partilho intitulada “Preparativos e compras de Natal – A contagem decrescente começou”, trabalho publicado na Notícias Magazine de 04.12, onde também participa a Susete Lourenço.

Assentando no documento produzido e disponibilizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, o artigo disponibiliza um conjunto de informações sobre “como manter a saúde psicológica e financeira” no período do Natal. No meu contributo procuro focar questões essenciais que, conforme o DART, se baseiam no reforço da segurança e da previsibilidade: a importância do estabelecimento de expectativas (e orçamento) realistas; da organização, preventiva da impulsividade; do controlo; da necessidade de equilíbrios que deem menos espaço à emergência de situações geradoras de stresse e ansiedade, típicas de acontecimentos significativos como o Natal; da necessidade, finalmente, de aproveitarmos o momento para reforçar o sentimento de pertença e de partilha.

Aproveitei também esta oportunidade para afirmar que o Natal de cada um/a de nós é diferente e, por vezes, muito desafiante, procurando naturalizar o facto de que nem sempre (para todas as pessoas) o Natal é um momento (apenas) feliz e que muitas sentem duplamente este facto: 1) porque, por algum motivo (perdas, lembranças, separações, religiosos, outras dificuldades) pode ser um período exigente; 2) porque não se cumpre com a ideia colectiva de período de alegria onde parece só existir espaço de validação desse sentimento.

“Não temos de sentir culpa ou peso quando se acha que no Natal não é tudo bom”, disse, procurando que nestes dias (em rigor, como em todos os outros dias), valorizemos e respeitemos a diversidade e naturalizemos diferentes reacções e estados emocionais, validando-os. Que nestes dias promovamos o auto e hetero-cuidado e contribuamos para transformar culturas de não cuidado em culturas de cuidado. Se assim for senti-lo-emos também duplamente: 1) reforçaremos a nossa conexão, atenção e cuidado com outras/os, factores protectores da nossa saúde psicológica e bem-estar; 2) mitigaremos a importância de questões mais materiais associadas ao Natal (prendas e não apenas), prevenindo situações potencialmente geradoras de ansiedade e stresse.

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Pessoas, ciência, políticas, instituições – Confiança (Ao redor…; Sábado; 02.12.2021)

Por um momento imaginemo-nos com menos sete anos e a sermos convidados para escrever o guião para um filme que ficcionasse tensões políticas em países com democracias consolidadas. E que, por absurdo, o nosso guião começava num discurso do Estado da Nação nos Estados Unidos da América (EUA) e, que procurando afirmar a polarização, ficcionávamos a entrada de um presidente dos EUA que deixa de mão estendida (sem a cumprimentar) a presidente da Câmara dos Representantes e que esta, no final do discurso do presidente, ao invés de o aplaudir como habitualmente sucede, rasga de pé e nas suas costas as folhas desse discurso escrito. Continuava o guião com uma entrevista a um deputado e candidato a Presidente da República em Portugal que começava com a seguinte pergunta do jornalista: “…há dias escreveu esta frase nas redes sociais: Deus confiou-me a difícil, mas honrosa, missão de transformar Portugal; Quando é que isso aconteceu?”. E que, também por absurdo, o guião terminava com a invasão do Capitólio por apoiantes do candidato derrotado nas Eleições Presidenciais no dia da ratificação da vitória do candidato eleito presidente dos EUA.

Ficção que porventura consideraríamos inopinada há sete anos, realidade entre Fevereiro de 2020 e Janeiro de 2021. Realidade num tempo inferior a 12 meses, em dois países com Eleições Presidenciais nesse período e a braços com uma pandemia que, de forma abrupta e disruptiva, implicou fortíssimas restrições e alterações ao seu quotidiano e um pouco por todo o Mundo. Realidade num período de complexidade e ambiguidade crescente e de desafios societais (globais) significativos e urgentes. Período de emergência de uma crise de confiança, que trespassa várias áreas da sociedade desde as suas instituições (políticas, da sociedade civil ou da comunicação social), às políticas (migrações ou equidade), à ciência (vacinas ou alterações climáticas da responsabilidade da acção humana), às pessoas (de idades e/ou proveniências sociais ou culturais distintas, decisoras e decisores políticos ou jornalistas).

A velocidade e a forma de acesso e disseminação de (des)informação, a par da crescente polarização da e na sociedade, forçam uma forte e circular associação das crises de confiança nas pessoas, na ciência, nas políticas e nas instituições. Associação que gera maior fragmentação na sociedade, pelo foco e reforço sistemático do que funciona menos bem (face ao que funciona bem), dos problemas (por oposição às soluções), da irracionalidade e obscurantismo (por oposição à racionalidade e factualidade) e de posturas de confronto (por oposição às de cooperação) e de estigmatização (por oposição à compreensão, empatia e compaixão).

Esta realidade é transversal a parte significativa do Mundo e, sendo já visível em diversos indicadores e áreas pré-pandemia, está hoje, também por ela, exacerbada (ou, pelo menos, mais mediatizada). Da hesitação na vacinação, já considerada uma das dez maiores ameaças à saúde global pela Organização Mundial da Saúde, às enormes desigualdades dentro de países e entre países pré-pandemia, a pandemia agravou e revelou iniquidades e desconfianças. Portugal, pese embora alguns factores protectores, não está ou é imune a esta grave crise.

Apesar do que a ciência, por exemplo através do plano nacional de vacinação, trouxe na melhoria extraordinária de indicadores de saúde, sociais e de bem-estar da população nas últimas cinco décadas e do papel desse impacto na elevada aceitação da vacinação (COVID-19, mas não apenas) no nosso país; do que políticas públicas têm representado para tantas pessoas em termos de possibilidade de bem-estar, desde políticas relativas ao combate ao abandono e insucesso escolar, de acesso ao ensino superior ou, mais recentemente, relativas ao direito dos e das trabalhadoras a desligar e o dever dos empregadores e empregadoras a promover essa desconexão; do papel de diferentes instituições públicas e da sociedade civil ao longo dos anos em políticas reconhecidas e internacionalmente valorizadas nas áreas da educação, saúde, prevenção da toxicodependência ou das migrações; de diversas portuguesas e portugueses serem, em Portugal e no estrangeiro, reconhecidas e reconhecidos como pessoas e profissionais de excelência, desempenhando com sucesso cargos de enorme responsabilidade ou demonstrando-se excepcionais em diferentes áreas; Portugal enfrenta e enfrentará enormes desafios na manutenção da confiança e da coesão social em virtude das suas vulnerabilidades, de desafios persistentes na pobreza, precariedade, exclusão e igualdade de oportunidade e pela emergência de discursos assentes em respostas simples para os seus problemas complexos e do aproveitamento dos mesmos com fins de afirmação de pessoas, movimentos, partidos e ideologias que não privilegiam o bem-comum e a equidade.

Confrontar-nos com as nossas vulnerabilidades, enquanto pessoas, comunidades e país, deve sobressaltar-nos para nos envolvermos nas diferentes dimensões da sociedade, para nos mobilizarmos e para desenvolvermos relação e confiança, com pessoas, com a ciência, as políticas e as instituições. Para, enquanto pessoas, não julgarmos, priorizarmos o desenvolvimento de competências sócio-emocionais e para criticarmos (construtivamente) e conflituarmos, mas não violentarmos ou estigmatizarmos. Para, com literacia, envolvimento e investimento, melhorarmos a ciência e o seu (re)conhecimento, procurando nela o suporte para a resposta aos desafios que se nos colocam. Para, com mais testagem e melhor utilização do conhecimento das ciências comportamentais, do comportamento humano e da tomada de decisão, melhorarmos a eficácia e eficiências das políticas públicas e da sua comunicação. Para, com lideranças participadas e líderes empáticas/os, competentes, motivadas/os e criativas/os, desenvolvermos as instituições, tornando-as mais resilientes e responsivas aos contextos, necessidades e expectativas das pessoas. Para que, enfim, reconheçamos que a ciência, as políticas e as instituições dependem de nós como nós dependemos delas.

A assim ser, manteremos na sociedade níveis de consenso social consentâneos com a necessária mitigação do impacto potencial na confiança de pessoas que usaram, usam e usarão de quaisquer poderes para diminuir outras pessoas, da pseudociência ou do obscurantismo, do ataque, desconsideração e utilização de políticas e/ou da fragilização das instituições para se afirmarem. O impacto de pessoas e grupos que não deixarão de aproveitar contextos de vulnerabilidade e de incerteza para, sem pensar a médio e longo prazo e no bem-comum, julgarem e fragilizarem tudo e todos com o objectivo único de garantirem recompensas imediatas para si ou, quando muito, para o seu grupo. Temos exemplos abundantes disso Mundo fora, mas também no nosso país, bem próximo de nós, em diferentes áreas e organizações da sociedade civil e política.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, também por isso e projetando-nos no presente, mas também para o futuro, cumpre-nos investir no fortalecimento das relações e da confiança nas pessoas, na ciência, nas políticas e nas instituições, enquanto melhor garante e “escudo” em períodos em que grandes desafios societais e a incerteza se nos afiguram como “balas” contra o bem-estar, a equidade e a coesão social. Cumpre-nos, “contra os canhões”, além de “marchar, marchar”, confiar, confiar.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 02.12.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/pessoas-ciencia-politicas-instituicoes–confianca

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COVID-19 Democracia Psicologia

Ciclo Confiança/Desconfiança na Pandemia…

Richard Jewell. 23 anos volvidos sobre os acontecimentos (JO de Atlanta; 1996), Clint Eastwood decidiu, com a habitual acutilância, dirigir um filme que revisitasse a história do segurança que alertou a polícia da existência de uma mochila com explosivos num evento no Parque Olímpico. Jewell foi de “herói nacional” a “principal suspeito” em poucos dias e, apesar de nunca formalmente acusado, a forma como a investigação e, principalmente, a comunicação social abordaram o caso (e as particularidades do segurança) tornaram-no para “sempre responsável” aos olhos de muitas pessoas, mesmo após E. Rudolph confessar a sua responsabilidade. A dado momento do filme diz Jewell: [Depois disto] “qualquer segurança que vir uma mala abandonada deve fugir e não avisar as autoridades (…) pois pode por elas não estar protegido”. Creio-a uma situação histórica relevante para pensarmos o ciclo de criação e perda de confiança, os seus impactos e como a desconfiança gera mais e mais desconfiança.

Ao longo desta pandemia, numa equipa superiormente coordenada pelo Miguel Ricou (que além de mim inclui a Helena P. Pereira, a Sílvia Marina e o Ricardo Picoli), temos estudado, em momentos distintos, o nível de confiança junto de um conjunto de profissionais, partindo de duas preposições base: que momentos de crise (significativa) têm impacto potencialmente significativo nos níveis de confiança com todas as consequências, num e noutro sentido, que daí advêm; que termos mais e mais permanentemente (longitudinal) informação sobre estas oscilações ajudará a suportar acções que previnam a desconfiança e promovam a confiança, enquanto elemento fulcral de coesão das sociedades (fundamental sempre, mas particularmente quando em situações de crise).

O 1º trabalho já publicado (COVID-19 Pandemic: Effect on Confidence Levels of Portuguese Towards People of Different Professions), apresenta e discute dados recolhidos em dois momentos (pré e pós-Verão 2020) e evidencia as e os profissionais de saúde (medicina, enfermagem, farmácia e psicologia), educação (professoras/es e educadores/as) e investigação como profissionais cuja confiança aumentou com a pandemia. Em sentido inverso, nos mesmos períodos, a confiança decresceu nas e nos decisores políticos e jornalistas. No artigo (e na notícia, de forma sintética), discutimos estes dados, mas também o facto de em alguns grupos profissionais, existir uma quebra de confiança significativa face a esse grupo entre o 1º e o 2º momento de recolha de dados, o que nos deixa pistas importantes para outros momentos do estudo e para o segundo trabalho que estamos a preparar.

Ao contrário do que terá afirmado Bismarck sobre Leis e salsichas, cremos fundamental compreender melhor o ciclo confiança/desconfiança em momentos societais distintos e com esse (pequeno, naturalmente) contributo, contribuirmos para uma sociedade (e organizações, políticas e pessoas) mais centrada na confiança e não na desconfiança.

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Psicologia

Palavra(s)…

Era uma vez um rei amigo de um cozinheiro humilde. Cozinheiro que, com vergonha, recusou o convite do amigo rei para o seu casamento. O rei aborrecido escreveu ordenando “Levem-no à forca!”. Uma cedilha ausente, a palavra, a interpretação e (o seu impacto no triângulo) comportamento-sentimento-pensamento.

Este “era uma vez” foi-me contado por um amigo. Um amigo “rei da palavra”. Trabalha com e a partir delas e reflecte (muito e muito bem) sobre o seu significado.

Recordo-a no dia em que passam 20 anos do Conselho da Europa que criou o Dia Europeu das Línguas (hoje comemorado a 26.9) visando a valorização e preservação da riqueza e diversidade linguística da Europa e a promoção da proficiência linguística das pessoas para uma participação efectiva na cidadania democrática. Recordo-a dias depois da morte de Lawrence Weiner, um artista conceptual, amigo do “rei” Julião Sarmento, que ancorou as suas obras artísticas na linguagem e na reflexão que suscitava a partir de palavras impressas como as que partilho (no original [foto] e numa tradução possível e difícil): “Muitas coisas deixadas nas margens de um rio | Inevitavelmente arrastadas na corrente.”

Vivemos um tempo em que a percepção do impacto da linguagem e da palavra (das que existem e não existem; das que se usam e porque se usam e das que não se usam e porque não se usam) está muito presente nas nossas vidas. Na minha vida.

Não definem todo o pensamento, mas, na relação com os contextos e com as pessoas, através do simbólico, inevitavelmente “arrastam-nos na corrente”. Não definem toda a emoção, mas a palavra condiciona a narrativa emocional (também com a literacia emocional de cada um/a), impactando a dimensão afectiva (a sua partilha, comunicação e interpretação) e a nossa cidadania. Não definem todo o comportamento, mas, na relação connosco, com outras e outros e com o que nos rodeia, impactam-no, bastando observar como em situações de elevada incerteza (por ex. num rapto) a possibilidade de negociação (interacção) com o/a raptor/a pela equipa de negociação aumenta se lhe for sugerido “falar” ao invés de “conversar”.

Vivemos um tempo em que se discute mais a palavra nos processos de reconhecimento e de inclusão/exclusão mas, muitas vezes, sem se atender a que a palavra se concretiza no contexto e na relação sendo, portanto, diversa (e por isso rica) pessoa a pessoa, momento a momento. Tempo em que, não esquecendo a máxima que (alguns) actos (potencialmente) valem mais que mil palavras, devemos reflectir quanto valem milhões de palavras, sempre usadas, sempre repetidas. Tempo de não esquecermos que parte importante da relação e entendimento humano decorre da reparação, pelo diálogo, de mal-entendidos, erros e de dificuldades de comunicação e do que isso representa na construção e nos distingue das máquinas, cuja comunicação sem estes erros, mal-entendidos e sem o incerto não o permite.

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Ao redor... (Revista Sábado) Política Psicologia

Confiar, confiar…

. Permanecer membro da União Europeia ____

. Sair da União Europeia ____

Todo o processo associado ao referendo que resultou no apelidado “Brexit” é, a meu ver, merecedor de atenção e reflexão ao concentrar em si e concretizar três fenómenos com forte impacto na nossa sociedade: 1) a simplificação, normalmente polarizada, de questões complexas, algo que se observa nas “simples” opções de resposta no referendo face à questão complexa relativa à relação do UK com a UE; 2) o julgamento, normalmente polarizador, que pessoas com uma posição assumem face a pessoas com outra posição, assumindo-se como as boas (face as más), as sensíveis (face às insensíveis) ou as morais (face às imorais); 3) o aproveitamento, normalmente alheio ao bem-comum, da incerteza e destas polarizações de pessoas com o fim único de se garantirem recompensas imediatas para si ou, quando muito, para o seu grupo (políticas, ideológicas ou outras), sem pensar nos impactos negativos desse aproveitamento nas instituições ou na sociedade a médio e longo prazo.

“Pessoas, ciência, políticas, instituições – Confiança”, 21º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura discutir a crise de confiança que trespassa várias áreas da sociedade, desde as suas instituições, às políticas, à ciência e às pessoas e como, a velocidade e a forma de acesso e disseminação de (des)informação, a par da crescente polarização da e na sociedade, forçam uma forte e circular associação destas crises de confiança. Uma associação que “gera maior fragmentação na sociedade, pelo foco e reforço sistemático do que funciona menos bem (face ao que funciona bem), dos problemas (por oposição às soluções), da irracionalidade e obscurantismo (por oposição à racionalidade e factualidade) e de posturas de confronto (por oposição às de cooperação) e de estigmatização (por oposição à compreensão, empatia e compaixão).”

Em qualquer momento, mas particularmente em momentos de complexidade e incerteza, o confronto com as “nossas vulnerabilidades, enquanto pessoas, comunidades e país, deve sobressaltar-nos para nos envolvermos nas diferentes dimensões da sociedade, para nos mobilizarmos e para desenvolvermos relação e confiança, com pessoas, com a ciência, as políticas e as instituições”, enquanto “melhor garante e “escudo” em períodos em que grandes desafios societais se nos afiguram como “balas” contra o bem-estar, a equidade e a coesão social.”

Cumpre-nos promover e manter “consenso social consentâneo com a necessária mitigação do impacto potencial na confiança de pessoas que usaram, usam e usarão de quaisquer poderes para diminuir outras pessoas, da pseudociência ou do obscurantismo, do ataque, desconsideração e utilização de políticas e/ou da fragilização das instituições para se afirmarem.

Cumpre-nos, “contra os canhões”, além de “marchar, marchar”, confiar, confiar.