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COVID-19 Psicologia Tomada de Decisão

“Não podemos estigmatizar os que têm dúvidas legítimas sobre as vacinas”

Alfa, Beta, Gama, Delta e, agora, Ómicron. As 5 variantes mais relevantes do vírus responsável pela pandemia que vivemos e que, pelos seus múltiplos e significativos impactos, resulta(rá) numa divisão do tempo de um Mundo pré-pandemia (antes da COVID-19), em pandemia e pós-pandemia. Variantes que confirmam, apesar de longos meses de medidas de saúde pública restritivas e de desenvolvimentos da ciência, o contexto de imprevisibilidade e de incerteza que vivemos. Ontem o Director-Geral da OMS citou Albert Camus (“A Peste”) na abertura da Assembleia Mundial da Saúde: “as pragas e as guerras continuam a surpreender-nos”. Assim era em 1947, é-o hoje e sê-lo-á no futuro.

A este propósito, em entrevista à Sábado, afirmei a necessidade da adopção de uma “postura conciliadora” com pessoas e grupos que hoje se manifestam na Europa a propósito da nova “onda” de restrições decidida por autoridades de diversos países. “Não podemos estigmatizar os que têm dúvidas legítimas sobre as vacinas”, disse, sintetizando a necessidade dessa postura conciliadora quando existem hoje muitas pessoas “que reconhecem o perigo da pandemia e até se vacinaram, mas que chegaram a um estado de saturação pandémico que as leva a demonstrarem a sua indignação” e que não “se tratam [apenas] de negacionistas”.

Na peça foco quatro aspectos que julgo essenciais na compreensão de imagens de protestos que há meses consideraríamos improváveis: a fadiga pandémica e a exaustação das restrições; a vulnerabilidade emocional e a maior irritabilidade, irascibilidade e dificuldade de autorregulação das pessoas; a baixa percepção de risco; e o aproveitamento por pessoas e grupos com objectivos políticos/ideológicos da desconfiança.

Procuro, também, reforçar a importância de investirmos na (boa) comunicação, protegendo a confiança e a coesão social, desde logo comunicação personalizada e próxima junto de quem tem dúvidas (legitimas) sobre as vacinas (e outras medidas), “não alienando ou estigmatizando essas dúvidas, sob pena de contribuirmos para maior polarização e menor adopção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais”.

Finalmente, abordo o papel das normas sociais e da observação do comportamento das outras pessoas na tomada de decisão e os riscos que se correm de, a médio e longo prazo, termos mais dificuldades na promoção da responsabilidade, vacinação e adopção de comportamentos de protecção pelas pessoas se optarmos por medidas como a vacinação obrigatória ou o vedar sem alternativa dos locais públicos às e aos não-vacinados, por oposição a medidas que procurem, empatizando e promovendo a conexão com estas pessoas, perceber as suas motivações e estimular a mudança voluntária, tendo presente que num contexto de incerteza como o que vivemos, as medidas devem considerar o presente mas também o futuro e, nesse sentido, a procura do reforço da confiança e da coesão social, principais garantes da compreensão e aceitação da necessidade de mudança quando nos deparamos com novos factos ou desafios.

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Ao redor... (Revista Sábado) Emergência Climática Psicologia

COP365 (Ao redor…; Sábado; 17.11.2021)

Há 339 anos, Tiago, um jovem nascido no Portugal do meio do século XVII, deslocou-se ao local do seu novo trabalho no Campo de Santa Clara em Lisboa. Participaria nesse 1682 do reinício da construção da Igreja de Santa Engrácia. Seria impossível a Tiago prever como seria a vida em Lisboa e no Mundo em 2021, como seria improvável prever que a obra em cuja construção participava apenas terminasse e fosse inaugurada em 1966, quase 400 anos depois do seu início (1568), já como Santa Engrácia – Panteão Nacional.

Tal como aquele Tiago, não tenho pretensões de imaginar como será a vida em Portugal ou no Mundo em 2360, quais serão os desafios da sociedade na segunda metade do século XXIV ou sequer como será a sociedade. Não tenho, portanto, quaisquer pretensões a escrever-vos sobre o que seria uma potencial COP365 (considerando que haveria uma a cada ano e que não sucederia algo como em 2020), antes a reflectir sobre como, transformar cada COP num projecto de cada dia de cada ano, é o que mais nos pode projectar para uma acção climática urgente e proteger de uma dinâmica tipo obra de Santa Engrácia, conforme popularmente definimos o que consideramos que vai demorar muito tempo ou nunca chegar a ser concluído.

Senti-o profundamente em Glasgow na passada semana. Ali estive, na pequena equipa que representou a Global Psychology Alliance na COP26, aliança de 70 associações de psicologia e de psicólogas/os dos cinco continentes criada na sequência da “International Summit on Psychology and Global Health: A Leader in Climate Action” (Novembro de 2019, Lisboa). Senti que – a par da profunda onda de preocupação, particularmente significativa quando cara a cara se ouve e sente a história e as histórias de pessoas e comunidades já hoje fortemente impactadas pelas alterações climáticas resultantes da acção humana – cresce uma onda de reconhecimento do problema e das suas consequências e da necessidade e formas de acção para a mudança. Senti que a decepção face aos (pequenos) passos e compromissos políticos assumidos resulta da esperança das (grandes) acções que se querem construídas e implementadas já hoje. Senti que o desencanto pela ausência de figuras de vulto resulta da crescente percepção da crise climática como veículo de outras crises, um desafio societal complexo que, também simbolicamente, tem que valer mais que qualquer outro problema estrutural ou conjuntural que justifique a não presença de figuras cimeiras de executivos, como aconteceu com diversos países, incluindo o nosso, numa curiosa e inquietante interpretação do programa de governo que, apesar de apresentar como primeiro de quatro desafios estratégicos “combater as alterações climáticas”, não resulta na priorização para comparência e intervenção do nosso primeiro-ministro em Glasgow.

A crise climática, além de interrelacionada, teve, tem e terá um papel cada vez mais central noutras crises como a pobreza e exclusão, a desigualdade, a demografia e as migrações, ou o trabalho e bem-estar, algo que acrescenta complexidade a um problema já muito complexo e risco para a coesão social, para a confiança nas pessoas e instituições, para a democracia conforme a conhecemos, e para a paz. É que, como tão bem reflecte Daniel Innerarity, a não resposta aos problemas complexos é uma oportunidade para o crescimento dos populismos, não porque respondam aos problemas, antes porque se substituem à necessidade de resposta, instigando ódios, dúvidas e crescendo na e com a insegurança e a incerteza através de propostas simplistas, salvíficas e não raras vezes pseudocientíficas. Um caminho que já vimos percorrido no passado e do qual temos sinais recentes que nos devem mobilizar para fazermos deste momento ponto de inflexão em favor das pessoas e do planeta.

Há tempo, pela transformação da vontade em mobilização e compromisso, de substituir a inacção, que aprofundará o problema existente, por uma acção firme que produzirá resultados muito positivos, com impacto na mitigação da crise climática e, pelo efeito atrás descrito, noutras crises e desafios societais complexos. Tal depende de contribuirmos, cada pessoa, comunidade e país, para uma visão partilhada do problema, assente na empatia com as e os outros, e para uma visão mais cooperativa das soluções, assente na equidade e compaixão. Depende, também, de melhorarmos os processos negociais, abandonando proclamações a 20, 30 ou 50 anos que pouco contributo aportam (imaginemo-nos em 1971 a traçar metas sobre a implementação da rede 5G no Mundo ou de redução de emissões para 2021), concentrando-nos, antes, em acções imediatas, próximas, concretas e avaliáveis e procurando aprofundar os NDC (contribuições nacionalmente determinadas) de cada país e o estabelecimento de compromissos a cada ano, um dos principais ganhos da declaração final da COP26. Depende, portanto, de lideranças globais, inspiradoras e com visão. Do crescimento do consumo e da utilização de recursos consciente, por oposição ao proibicionismo, da estimulação e motivação da mudança de comportamentos por oposição à sua obstaculização e de transformações sociais. Do desenvolvimento tecnológico e da inovação pelo bem-comum. Depende, finalmente, de usarmos mais do conhecimento sobre o comportamento humano e sobre os processos de tomada de decisão na definição de políticas e na comunicação, na promoção de literacia e na prevenção, mitigação e adaptação às mudanças necessárias e aos impactos das cada vez mais frequentes e intensas catástrofes, já não passíveis de serem chamadas naturais por também comprovadamente resultarem da acção humana.

Bem sei e sabemos que Glasgow, nos últimos dias, está longe de representar a totalidade da população. Ali se concentraram activistas, membros de organizações não governamentais, cientistas e investigadoras/es, jornalistas e decisoras/es com trabalho, interesse ou responsabilidade nesta área. Era, nesse sentido, uma Glasgow com viés, mas por todas e todos sentida como uma Glasgow diferente de uma Madrid em 2019 (COP25) também com viés, ou de Katowice (COP24), Bonn (COP23), Marraquexe (COP22) ou mesmo Paris (21) onde se conseguiu um acordo importantíssimo. Como, apesar de tudo, creio que sentiremos diferentes as próximas COP, já a do próximo ano em Sharm el-Sheikh, apesar da polémica envolta na escolha do Egipto para a sua organização, e depois na previsivelmente não menos polémica COP28 nos Emiratos Árabes Unidos. Viés à parte, assiste-se a uma onda de mudança que tende a envolver mais e mais pessoas, não apenas porque já fortemente impactadas (cada vez mais) pela crise climática, mas porque cada vez mais despertas e cada vez mais envolvidas num processo e estímulo à mudança, com a energia de novas e zangadas (como Obama definiu), mas principalmente mobilizadas, gerações a pressionar decisoras/es e empresas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, não contra, mas com as pessoas, envolvidas em acções com propósito e significado para as suas realidades e necessidades, aproveitemos esta onda de mobilização para fazer a COP e a mudança 365 dias por ano, na nossa rua, no nosso país, no nosso Mundo. Aproveitemos esta onda de mobilização para a mudança e seremos recompensadas e recompensados com inovação, com novas formas de vivência, relacionamento e trabalho, com novas formas de interacção com os lugares e territórios, com novas oportunidades de emprego, de bem-estar e de equidade. Com o reforço da confiança nas pessoas e nas instituições, protegendo a paz e a democracia e globalizando o mote da recente Lei de Bases do Clima Portuguesa: o uso sustentável dos recursos naturais do planeta por um clima estável enquanto património comum da humanidade.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 17.11.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/cop365

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

54 anos das cheias de 1967 e impacto da pandemia nas/os bombeiras/os e outros agentes de protecção civil

“Foi a maior catástrofe do país depois do terramoto de 1755.” Esta noite (e madrugada) passam 54 anos das cheias de 1967. Nessa noite, em alguns concelhos da “Grande Lisboa”, a chuva atingiu 170L/m2/hora (entre as 19h e as 00h a precipitação correspondeu a 1/5 do que choveu em todo o ano de 1967) dizimando aldeias nas zonas mais pobres e “abandonadas” (20.000 casas totalmente destruídas), provocando centenas de mortes (462 “oficiais” embora se estimem 700) e muito sofrimento nas famílias e comunidades. Apesar da onda de apoio (particularmente do movimento estudantil face a um regime “inoperante” que, essencialmente, procurou “esconder” a dimensão da tragédia e as suas causas – a pobreza (extrema) e as condições de vida das populações), o sofrimento estendeu-se a quem naquele e nos dias seguintes procuraram ajudar as “suas pessoas”, aldeias e comunidades com recursos limitados, nomeadamente bombeiras e bombeiros e outros agentes de protecção civil. “Quando vim para baixo a ponte já tinha sido levada pela água e o quartel estava cheio de mortos. Foram 63 só no 1º dia. Passaram-me todos pelas mãos antes de serem levados para o Inst. Medicina Legal”, contava em 2017 à Renascença o à época bombeiro de Odivelas Abílio Silva. Descrição que nos convida a pensar nestas pessoas e profissionais, no seu papel e condições, na incerteza perante e nos impactos do seu trabalho no seu bem-estar.

Coincidentemente, hoje passam 50 dias de uma conversa que aqui partilho no Porto Canal (06.10) a propósito do documento produzido conjuntamente entre a ANEPC (um cumprimento especial ao Bruno Vaz por todo o empenho) e a Ordem dos Psicólogos Portugueses – “Os bombeiros e a saúde psicológica em tempos de pandemia”. Nela reflecti sobre o impacto da pandemia (e o prolongamento desse impacto), mas não apenas, nas e nos profissionais de primeira linha, particularmente bombeiras e bombeiros e outros agentes de protecção civil, em muito devido ao contacto permanente com situações de perda, luto e sofrimento, stresse, a necessidade de mudança de rotinas, protocolos e equipamentos e com a incerteza. Também sobre a importância da literacia, auto-cuidado e conciliação das dimensões pessoais e profissionais com propósito nestas e nestes profissionais ou a necessidade de reforço das redes de apoio entre pares e da ajuda profissional, quando necessária, contingente aos problemas e dificuldades.

As cheias de 1967 impactaram, além das comunidades afectadas, a consciência colectiva, estimulando tensão de mudança na sociedade. De certa forma, espero que as catástrofes/crises dos últimos anos nos impelem a uma reflexão tendente à valorização e apoio às pessoas que, com dificuldade, se dedicam a ajudar outras nestes momentos. Isso e a reflectirmos sobre o que, enquanto pessoas, comunidades e sociedade, podemos fazer para as prevenir, mitigar e vivermos com maior (potencial de) bem-estar para todas e todos.

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Futuro da Psicologia Psicologia

Eagle, Cuida-te +

Eagle. Recentemente a IBM apresentou um novo processador que supera largamente a capacidade dos hoje utilizados por revolucionar o actual sistema binário (0 ou 1) ao acrescentar a possibilidade de sobreposição de estados (0 e 1). Um artigo da revista Science afirma que um problema hoje complexíssimo de criação de números aleatórios cujo melhor computador hoje disponível demoraria cerca de 600 milhões de anos a resolver, poderá sê-lo, com este processador, em 3 minutos. Se a IBM conseguir adaptá-lo a computadores (e dispositivos) como hoje os conhecemos, entraremos na era da computação quântica e abrir-se-á espaço para “desenvolvimentos quânticos” em materiais de construção, tratamento de dados, medicação e outras terapêuticas, transportes, ensino ou inteligência artificial. Um “salto quântico” em potência, apelidado de Eagle (Águia) pela IBM.

Pensei em revoluções, grandes e não tão grandes, e em saltos (quânticos), quando reflectia nas palavras que diria no Kick Off das/os 19 Psicólogas/os Júnior agora afectas/os ao Cuida-te + do IPDJ, resultado de duas parcerias deste instituto público uma com a Ordem dos Psicólogos Portugueses e com a Aventura Social – Associação. Na sessão de ontem – onde estivem a Natacha Torres da Silva, pessoa (e colega) que muito se dedicou a tornar possível este projecto, a Margarida Gaspar de Matos e Tania Gaspar, pessoas (e colegas) que muito estão empenhadas em criar condições para que o projecto possa ser bem sucedido (e avaliados os impactos), além das/os 19 psicólogas/os júnior e orientadoras/es e responsáveis do IPDJ/Aventura Social – procurei discutir sobre porque este projecto e a forma como será concretizado representa esse salto:

1) Pelo significado do IPDJ, no quadro da administração pública (sendo exemplo), investir em anos profissionais júnior permitindo que o primeiro emprego em psicologia destas/es 19 psicólogas/os no quadro do Cuida-te+;

2) Pela abordagem compreensiva, não exclusivamente reactiva e remediativa, antes apostando na prevenção e promoção e centradaa no desenvolvimento das/os jovens e comunidades;

3) pela contingência ao momento que vivemos e aos fortes e amplos impactos (directos e indirectos) da COVID-19 no passado próximo, presente e futuro das/os jovens;

4) pela preparação do que viveremos, tempos em que a incerteza será mais constante e que a complexidade requererá competências sócio-emocionais e resiliência, empatia e compaixão, criatividade, confiança e coesão social em muito dependentes da saúde psicológica e bem-estar individual e societal.

“Não me preocupa que a inteligência artificial permita que os computadores pensem como os humanos. Preocupa-me que as pessoas pensem como os computadores, sem valores ou compaixão, sem se preocuparem com as consequências”, disse Tim Cook, CEO da Apple, num célebre discurso em 2017.

Eu, optimista que julgo ser, penso que assim não será. Eu, realista que também julgo ser, penso que com projectos como este estaremos mais perto que assim não seja.

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Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Psicologia

Cidades Verdes…

A partir de hoje contaremos 6 semanas até mudarmos de ano e chegarmos a 2022. Terminarmos (mais) um ano de muitas semanas com fortes restrições e limitações à nossa espontaneidade, à nossa forma de interagir e nos relacionarmos com o espaço e com as outras e os outros e de um significativo sofrimento para um grande número de pessoas. Mas terminaremos um ano em que, mais uma vez, resistimos e demos prova de confiança nas instituições e de coesão que, entre outros, nos permite ser líderes mundiais no importantíssimo processo de vacinação relativo à COVID-19. Terminaremos um ano em que, mais uma vez, se aprofunda e generaliza o reconhecimento da importância de promover a literacia em saúde (psicológica), a prevenção e a saúde psicológica como forma de enquanto indivíduos e sociedade estarmos mais preparados para nos adaptarmos às mudanças necessárias e respondermos à incerteza. Um ano de reconhecimento e sensibilização para a necessidade de melhorarmos a qualidade de vida e bem-estar das pessoas.

Comportando ainda incerteza, 2022 trará, apesar de tudo, um novo momento societal que coabitará na Europa com o “Ano Europeu das Cidades Verdes” que prevê a mobilização da Europa para a criação de espaços urbanos mais verdes visando benefícios “não apenas ambientais, mas relativos à saúde, cultura e educação” e, logo, com forte impacto no bem-estar.

No final da semana passada, a convite da APPP-FN, participei na conferência “Cidades Verdes – Mais saudáveis, mais sustentáveis” do projecto “Green Cities Europe” e discuti os importantes contributos da psicologia (ciência e prática) para cidades de bem-estar, sustentabilidade e coesão social. Procurei reflectir a partir da definição de Calvino (“as cidades como os sonhos são feitas de desejos e medos”) o binómio entre querer mudar mas receá-lo e a cidade como micro (o local, a pessoa) do macro (o global, a sociedade), onde os desafios societais complexos da exclusão, pobreza ou população em situação sem abrigo são os problemas da Rita, da Joana ou do António.

Onde a poluição do ar, o ruído, a temperatura e o os estilos de vida de quem as habita impactam em indicadores de saúde, retiram anos de vida saudável e provocam mortes prematuras.

Onde, contributos da psicologia, sob a forma de 1) evidências científicas e promoção da literacia; 2) informação de políticas públicas de saúde e de sustentabilidade; 3) promoção da mudança e da adaptação com bem-estar; e 4) unidades de ciências comportamentais que apoiem intervenções efectivas e com resultados, podem concorrer para a mitigação e prevenção destes problemas.

Onde, finalmente, a construção de cidades verdes, com contributo da psicologia, pode ser essencial à prevenção, promoção de saúde (psicológica) e bem-estar, biodiversidade e de importantes determinantes sociais e comportamentais da sustentabilidade e da coesão social, como são a resiliência, a conciliação da vida pessoal/profissional e autocuidado, a intergeracionalidade e a inclusão.

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Ao redor... (Revista Sábado) Emergência Climática Psicologia

COP365

Nos últimos dias notícias abordaram a possibilidade de um “confinamento total” da cidade de Deli e um número de mortes em 2019 de cerca de 6mil em Portugal e 307mil na UE. Motivo? O mesmo e – por estes dias, por associar “mortes” e “confinamentos” – contraintuitivo: poluição atmosférica.

Sem pretensão de pensar o Mundo, a sociedade e os seus desafios daqui a 339 anos (numa potencial COP365), o que hoje sabemos, sentimos e o que nos rodeia deve impelir-nos a transformar cada COP num projecto de cada dia de cada ano.

“COP365”, 20º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa a necessidade de abandonarmos “proclamações a 20, 30 ou 50 anos que pouco contributo aportam” e de nos concentrarmos “em acções imediatas, próximas, concretas e avaliáveis”, aprofundando os NDC (contribuições nacionalmente determinadas) de cada país e o estabelecimento de compromissos a cada ano, um dos principais ganhos da declaração final da COP26. Também sobre como “há tempo, pela transformação da vontade em mobilização e compromisso, de substituir a inacção, que aprofundará o problema existente, por uma acção firme que produzirá resultados muito positivos, com impacto na mitigação da crise climática” (e noutras crises/desafios societais) e de como isso depende “de contribuirmos, cada pessoa, comunidade e país, para uma visão partilhada do problema, assente na empatia com as e os outros, e para uma visão mais cooperativa das soluções, assente na equidade e compaixão”.

Como depende “do crescimento do consumo e da utilização de recursos consciente, por oposição ao proibicionismo, da estimulação e motivação da mudança de comportamentos por oposição à sua obstaculização e de transformações sociais”. Ou “do desenvolvimento tecnológico e da inovação pelo bem-comum e de usarmos mais do conhecimento sobre o comportamento humano e sobre os processos de tomada de decisão na definição de políticas e na comunicação, na promoção de literacia e na prevenção, mitigação e adaptação às mudanças necessárias e aos impactos das cada vez mais frequentes e intensas catástrofes, já não passíveis de serem chamadas naturais por também comprovadamente resultarem da acção humana”.

Em Glasgow “senti que – a par da profunda onda de preocupação, particularmente significativa quando cara a cara se ouve e sente a história e as histórias de pessoas e comunidades já hoje fortemente impactadas pelas alterações climáticas – cresce uma onda de reconhecimento do problema, suas consequências e da necessidade e formas de acção para a mudança” e que aproveitar esta onda resultará numa recompensa em inovação, novas formas de vivência, relacionamento, trabalho e interacção com os territórios, novas oportunidades de emprego, bem-estar e de equidade”. Garantiremos (mais) confiança, coesão e paz. Protegeremos a democracia e contribuiremos para globalizar o mote da recente Lei de Bases do Clima Portuguesa: o uso sustentável dos recursos naturais do planeta por um clima estável enquanto património comum da humanidade.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia Tomada de Decisão

Personalização e compromisso – Dos partidos às políticas (Ao redor…; Sábado; 02.11.2021)

Allerweltspartei. Original alemão do vulgarizado e famoso conceito em inglês catch-all party, significa partido (político) “onde todas e todos cabem”. Tradução minha – insuficiente, mas possível – do conceito explanado em 1966 por Otto Kircheimer para descrever partidos maioritariamente surgidos pós fim da II Guerra Mundial que, pelo seu largo espectro e por serem menos ideológicos, procuravam atrair o maior número de pessoas e de eleitoras e eleitores possível assumindo-se como partidos de massas. Apesar do conceito per si ter sempre sido bastante discutido e problematizado, creio ser perceptível que um pouco por toda a Europa, e embora a ritmos diferentes, estes partidos estão actualmente em perda face ao surgimento ou crescimento de partidos políticos mais centrados em causas e mais dirigidos a grupos específicos de pessoas e de eleitoras e eleitores. Também em Portugal temos, e, previsivelmente, continuaremos a ter 9 (senão mais – no início da presente legislatura eram 10) partidos representados no Parlamento pós, as cada vez mais previsíveis, Legislativas de 2022 – algo demonstrativo da fragmentação política recente e de um caminho de progressiva transferência de votos de partidos generalistas e mais abrangentes para (mais) partidos mais assentes em singularidades, menos abrangentes e mais individualizados. Sinto relevante que no presente e para o futuro, pensemos no porquê desta fragmentação e no porquê dos “grandes” partidos políticos ficarem hoje longe das grandes maiorias do passado.

Considero que um dos fenómenos que contribui para esta situação refere-se à forma como hoje se produz, dissemina e se contacta com informação e, também nesse sentido, com a desinformação. O acesso é mais rápido e mais amplo, desafiando os limites da privacidade e, pelas suas características, tende a “enclausurar” as pessoas junto de outras pessoas que percepcionam o Mundo e os seus desafios da mesma forma. Isso é reforçador da pertença identitária a grupos, da polarização e da fragmentação. Outro fenómeno trata da enorme disponibilidade de dados e de algoritmos e ferramentas de tratamento de dados, incluindo as de aprendizagem automática que, cada vez com mais eficácia e menor custo, permitem a adequação das mensagens a dimensões cognitivas (crenças) e emocionais de cada pessoa, funcionado como “alfaiates” da informação, preparando-a e personalizando-a à medida para cada pessoa e grupo, nas suas causas (por vezes também inseguranças). Paralelamente, estes dois fenómenos promovem a mutação, mobilidade e mudança que redunda em maior volatilidade nos votos face a alguma continuidade que antes existia (até entre gerações de famílias). Resultam, também, numa quebra de confiança nas e nos políticos e nas instituições e num ambiente de “passa culpas” e julgamentos que legitimam o mal-estar próprio, impactando mais os partidos de massas. Resultam, ainda e porque reflectem normalmente questões de elevada complexidade e urgência, na procura de respostas simplistas e securizantes que estimulam a emergência de lideranças pautadas por uma ideia de providencialismo, salvíficas e populistas (bem presentes aquando de contextos de crise), ameaçando as dimensões democráticas, obstaculizando a participação de correntes divergentes dentro dos partidos e favorecendo partidos que partem da individualização, da unicidade em causas e de lideranças com perfil mais autoritário.

Os dois fenómenos que atrás descrevi e que contribuem para os desafios que se colocam aos partidos e à governação, são os mesmos que, utilizados com outro fim (o do bem-comum) poderiam, noutras áreas, produzir efeitos também significativos e impactantes na melhoria da qualidade de vida das pessoas, na sua possibilidade de bem-estar e na coesão social. Um exemplo importante seria o seu uso mais intencional e consciente para uma maior personalização das políticas públicas, contribuindo para a sua eficácia e eficiência. Aumentar a possibilidade de agenciamento das pessoas sobre os acontecimentos de vida com que se deparam e as dificuldades, desafios e vulnerabilidades momentâneas, depende de políticas públicas não abrangentes e de massas, mas personalizadas, contingentes, baseadas nas singularidades e que possam garantir mais eficácia e eficiência. Tal pode acontecer em políticas referentes a apoios sociais, à saúde, à educação. Tal pode também acontecer nas políticas de promoção de empregabilidade junto de pessoas em situação de desemprego, políticas há décadas estagnadas em modelos onde a experimentação não abunda e onde é baixa a permeabilidade ao conhecimento e à evidência científica (por exemplo não considerando as dimensões da saúde psicológica das pessoas em situação de desemprego, a motivação das trabalhadoras e trabalhadores das estruturas que prestam estes apoios / serviços ou a testagem de impactos a médio e longo prazo para melhorar definição dos apoios e incentivos à contratação disponibilizados a entidades empregadoras). Fazê-lo, pelo impacto na confiança nas instituições, seria um contributo para a mitigação de duas das consequências mais importantes acima discutida – a quebra de confiança e a emergência do providencialismo e de lideranças mais autoritárias.

Também para esse objectivo contribuiria mais participação, abertura, capacidade de integração e uma maior atitude de entendimento e compromisso entre partidos, prevenindo que a fragmentação na representação resulte na esperada instabilidade e incerteza política. Para tal é necessário, como defendem Levitsky e Ziblatt no livro “Como morrem as democracias”, prevenirmos a polarização partidária pelo respeito dos princípios democráticos e pela visão e entendimento dos e das adversárias como adversárias e não como inimigas ou inimigos, a par da não utilização dos instrumentos democráticos para fragilizar a própria democracia, fenómeno a que temos assistido em diversos países e de diversas formas. É também necessário investir na construção de espaços de entendimento e compromisso centrados na abertura, na resposta aos anseios e objectivos das pessoas. É, ainda, necessário melhorar, pelo desenvolvimento de competências que permitam entregar e receber melhor críticas construtivas e permitir que esse feedback influencie o comportamento e a tomada de decisão, os processos de negociação e discussão. Finalmente, é necessário gerar, reforçar e utilizar empatia com as e os adversários, partidos e pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, aproveitemos um certo colocar em causa dos Allerweltspartei para colocar em causa as Allerweltspolitik, políticas catch all. Se o pluralismo e a diversidade das pessoas e das sociedades ameaçam os partidos de massas, o pluralismo e diversidade das pessoas invalidam políticas de massas, incentivando-nos à sua transformação e adequação, também pelos contributos do conhecimento e da evidência científica, no sentido do reforço da sua personalização, singularização e da identificação com as pessoas suas destinatárias e das pessoas com as políticas. Personalização com criatividade, persistência e compromisso. Compromisso entre políticas públicas e pessoas. Entre partidos políticos e pessoas. Entre políticas públicas. Entre partidos. Pela confiança e pelo bem comum, defesas últimas das consequências da fragmentação e polarização das pessoas e sociedades.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 02.11.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/personalizacao-e-compromisso–dos-partidos-as-politicas

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Desafios da Psicologia Emergência Climática

COP26

 

“Conclui que a única razão para estar viva é para contar o que aconteceu, para que compreendam”, diz K. Imori, a única sobrevivente de uma Escola de Hiroshima à “Little boy”, nome (paradoxalmente) dado à bomba atómica que destruiu a sua comunidade. Depoimento parte do doc. “White light black rain” de 2007, ano da COP13 e da atribuição ao IPCC (a par de Al Gore) do prémio nobel da paz também pelado seu 4º relatório sobre alterações climáticas (para muitas e muitos o documento que 1º traduz o “consenso científico” sobre o papel do ser humano na crise climática).

Viver para contar, conforme Gabriel García Márquez titulou o seu livro de memórias. Contar para compreender e promover a compreensão, garantindo agenciamento, capacidade de acção e, no possível, controlo. Contar para incentivar, partilhar, contagiar. Contar para unir.

Na COP26 ouvi contar… Histórias de quem já hoje, por ex. nas Fiji, sofre significativamente com as alterações climáticas; Ciência por cientistas que, inequivocamente, demonstram os problemas e causas e apresentam soluções possíveis; Iniciativas de jovens e menos jovens, envolvidas/os em ONG em diferentes áreas e/ou activistas pela acção climática; Desafios que decisoras e decisores vivenciam na procura das melhores respostas para um problema complexo e com tantas nuances. Ouvi contar dentro e fora do Centro de Eventos, de “pessoas comuns” a prémios Nobel, em tantas línguas. Ouvi contar, a cada história, a dimensão humana, o comportamento e a tomada de decisão. Ouvi contar como, nesta crise, a psicologia é essencial, em múltiplos e diversos aspectos e momentos da sua resposta.

Ouvi e senti que – conforme a consciência do e envolvimento no problema é fundamental à mudança (do nosso) comportamento – a consciência deste papel da ciência e da prática psicológica traz-nos a imensa responsabilidade de desenvolvermos mais a ciência psicológica e garantirmos práticas de excelência neste âmbito, prevenindo sofrimento e contribuindo para a possibilidade de florescimento das pessoas e sociedades.

A OPP procurou fazê-lo ao organizar com a APA em Portugal (2019) a Summit da qual resultou a Global Psychology Alliance que representei com a Sofia Ramalho e colegas de outros países na COP26. Mobilizar a psicologia para apoiar a mobilização eficaz da resposta para a crise climática, para uma mudança com (e não contra) as pessoas e pelo bem-estar.

No doc., S. Sasamori (outra sobrevivente), diz perguntar-se como teria sido a sua vida “sem a bomba” sabendo “que seria muito diferente”. Com as devidas diferenças, penso como seria a nossa e das futuras gerações sem a crise climática. Diferente mas, talvez, menos boa. Porque vejo sinais de que pode a mudança inevitável que aí vem pode contribuir para um Mundo com mais oportunidades de bem-estar, equidade, coesão social para todas/os. Assim o senti em Glasgow. Que a “onda (gigante) de preocupação” resultará, passo a passo com o objectivo comum, numa “espuma de mudança”. Oxalá assim o sintam, comigo.

“Conclui que a única razão para estar viva é para contar o que aconteceu, para que compreendam”, diz K. Imori, a única sobrevivente de uma Escola de Hiroshima à “Little boy”, nome (paradoxalmente) dado à bomba atómica que destruiu a sua comunidade. Depoimento parte do doc. “White light black rain” de 2007, ano da COP13 e da atribuição ao IPCC (a par de Al Gore) do prémio nobel da paz também pelado seu 4º relatório sobre alterações climáticas (para muitas e muitos o documento que 1º traduz o “consenso científico” sobre o papel do ser humano na crise climática).

Viver para contar, conforme Gabriel García Márquez titulou o seu livro de memórias. Contar para compreender e promover a compreensão, garantindo agenciamento, capacidade de acção e, no possível, controlo. Contar para incentivar, partilhar, contagiar. Contar para unir.

Na COP26 ouvi contar… Histórias de quem já hoje, por ex. nas Fiji, sofre significativamente com as alterações climáticas; Ciência por cientistas que, inequivocamente, demonstram os problemas e causas e apresentam soluções possíveis; Iniciativas de jovens e menos jovens, envolvidas/os em ONG em diferentes áreas e/ou activistas pela acção climática; Desafios que decisoras e decisores vivenciam na procura das melhores respostas para um problema complexo e com tantas nuances. Ouvi contar dentro e fora do Centro de Eventos, de “pessoas comuns” a prémios Nobel, em tantas línguas. Ouvi contar, a cada história, a dimensão humana, o comportamento e a tomada de decisão. Ouvi contar como, nesta crise, a psicologia é essencial, em múltiplos e diversos aspectos e momentos da sua resposta.

Ouvi e senti que – conforme a consciência do e envolvimento no problema é fundamental à mudança (do nosso) comportamento – a consciência deste papel da ciência e da prática psicológica traz-nos a imensa responsabilidade de desenvolvermos mais a ciência psicológica e garantirmos práticas de excelência neste âmbito, prevenindo sofrimento e contribuindo para a possibilidade de florescimento das pessoas e sociedades.

A OPP procurou fazê-lo ao organizar com a APA em Portugal (2019) a Summit da qual resultou a Global Psychology Alliance que representei com a Sofia Ramalho e colegas de outros países na COP26. Mobilizar a psicologia para apoiar a mobilização eficaz da resposta para a crise climática, para uma mudança com (e não contra) as pessoas e pelo bem-estar.

No doc., S. Sasamori (outra sobrevivente), diz perguntar-se como teria sido a sua vida “sem a bomba” sabendo “que seria muito diferente”. Com as devidas diferenças, penso como seria a nossa e das futuras gerações sem a crise climática. Diferente mas, talvez, menos boa. Porque vejo sinais de que pode a mudança inevitável que aí vem pode contribuir para um Mundo com mais oportunidades de bem-estar, equidade, coesão social para todas/os. Assim o senti em Glasgow. Que a “onda (gigante) de preocupação” resultará, passo a passo com o objectivo comum, numa “espuma de mudança”. Oxalá assim o sintam, comigo.

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Ao redor... (Revista Sábado) Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade

Saúde Mental | Erradicação da Pobreza: 7 dias de distância (Ao redor…; Sábado; 19.10.2021)

Desde 1994, 7 dias separam as comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17.10). 7 dias, uma semana, com um simbolismo próprio, este ano reforçado pelo facto de o tema das comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental ser a “Saúde Mental num Mundo desigual”, a propósito de um Mundo onde “as pessoas mais ricas continuam a enriquecer” coexistindo com “um número de pessoas ainda muito alto que vivem em situação de pobreza”. Por vezes, extrema, acrescento. Como acrescento que poderia o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza ter sido também ele dedicado à “Pobreza num Mundo desigual” a propósito de um Mundo onde as pessoas não pobres têm mais oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental coexistindo com um número ainda muito alto de pessoas pobres e excluídas sem oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental.

Uma semana e um ciclo muito próprio. Ciclo sobre o qual já reflecti nesta rubrica, porquanto a pobreza e a exclusão, também dela resultante, têm uma forte e cíclica associação com dificuldades e problemas de saúde mental ou psicológica, como são a depressão, a ansiedade e o stresse. Ciclo sobre o qual é urgente agirmos, porque todas e todos, num determinado momento da nossa vida, vivenciaremos ou poderemos vivenciar dificuldades ou problemas de saúde psicológica ou por eles sermos impactados. Porque todas e todos, num determinado momento da nossa vida, ficaremos ou poderemos ficar expostos a alguma precariedade, vulnerabilidade ou exclusão ou por elas ser impactados. Porque este ciclo significa, sobretudo, o sofrimento de muitas pessoas e comunidades, perda de anos de vida com qualidade e perdas económicas significativas em Portugal, na União Europeia (4% a 5% do PIB Europeu, segundo dados recentes) e no Mundo.

 

Daqui resultam três inevitabilidades. A de que não poderá existir um avanço significativo ao nível da saúde mental da população portuguesa se não existir também a diminuição significativa dos níveis a pobreza e de exclusão, seu importante determinante. A de que não haverá uma diminuição significativa no nível de pobreza e exclusão sem um investimento de recuperação das pessoas com doença mental e da promoção de saúde mental, enquanto factor determinante de resiliência e de possibilidade de adaptação da pessoa aos acontecimentos de vida e de projecção de e no futuro. Finalmente, a de que investir na saúde mental resultará também na diminuição de factores de vulnerabilidade que conduzem e/ou reforçam situações de pobreza e exclusão e que investir na diminuição dos níveis de pobreza e exclusão resultará no aumento da potencial da saúde mental, pela redução da escassez, promoção de competências transversais de vida e pela maior possibilidade de florescimento e de bem-estar.

 

Daqui resulta também a necessidade, não menos urgente, de sermos congruentes com quatro dimensões conceptuais nestas áreas que podem informar decisivamente as políticas e intervenções neste âmbito. Que todas e todos nos encontramos no espaço que existe entre os polos doença e saúde mental, deambulando mais para próximo de um ou outro polo, consoante mudam certos determinantes da nossa vida e vivenciamos e nos adaptamos aos seus acontecimentos, existindo espaço de oportunidade para políticas de prevenção e promoção que considerem este contínuo. Ainda, que em toda a nossa vida e, particularmente, quando expostos a situações de maior vulnerabilidade como a pobreza e exclusão ou como a doença mental, a dignidade é fundamental e que apenas podem existir respostas, numa e noutra área, assentes na dignidade da pessoa, em ferramentas e intervenções com base em evidência científica que suportem a recuperação e a mudança e no desenvolvimento de políticas e respostas integradas, humanistas, qualificadas, visando a autonomia e a integridade da pessoa em qualquer circunstância – quando “bem”, aquando de potenciais dificuldades ou problemas ou em processo de recuperação, apoio ou intervenção.

 

Resulta, também, que o indicador bem-estar percebido pelas pessoas e pelas comunidades deva ser um elemento central na definição de políticas (sociais, de emprego ou de saúde, para referir apenas três exemplos), vector-chave no desenho das mesmas e objecto de avaliação na observação dos seus impactos. Finalmente, que, nem as questões da pobreza e da exclusão, nem as relativas à doença mental, são problemas iminentemente individuais, como muitas e muitos querem fazer supor, antes a sociedade, a sua complexidade e volatilidade e toda a incerteza associada aos desafios actuais e à precariedade de algumas situações, desempenham um papel fundamental nestes problemas, não sendo os mesmos da responsabilidade de cada pessoa ou resolvidos exclusivamente por cada pessoa, e necessário que previnamos que a recente saliência da importância do autocuidado ou da resiliência não resulte em processos de dupla culpabilização decorrente da responsabilização das pessoas que sofrem com estas dificuldades pelas próprias dificuldades.

 

Considerando este ciclo, as inevitabilidades referidas e em congruência quer com o quadro conceptual acima, quer com o papel que interpretamos como essencial de uma associação pública profissional (por estes dias bastante discutido), a Ordem dos Psicólogos Portugueses desenvolverá no próximo ano um amplo debate que conduzirá à definição de uma estratégia de promoção do contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos portugueses para a prevenção, mitigação e erradicação dos fenómenos de pobreza e de exclusão. A estratégia viverá de acções e contributos dirigidos à própria profissão, à sociedade civil, aos e às decisoras e a instâncias internacionais e procurará motivar um relevante e mobilizador questionamento: qual o meu papel e qual o meu contributo junto dos fenómenos da pobreza, da exclusão e da desigualdade?

 

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, cada um e uma de nós não conseguirá por si mudar o Mundo. Mas poderá, intervindo nos determinantes e promovendo saúde mental, contribuir para a mudança de uma ou de um conjunto de pessoas. Mudando o Mundo de cada uma. Mudando o Mundo do Ricardo, da Luísa, do Manuel ou da Micaela. Deles, das suas filhas e filhos, amigos e amigas, pais e mães. Sentem e sabem do que falo, não sabem? Porque esperamos?

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Desafios da Psicologia Emergência Climática Psicologia

Reversibilidade – Psicologia e Crise Climática

“Aquela música faz-me sentir…”

Estou certo que por vezes associa uma música (banda; tipo de música) a um estado emocional. Ouvimo-la e… Ou sentimos e ouvimo-la? Com alguma simplicidade, podemos enquadrar nesta questão a reversibilidade enquanto possibilidade de olhar dois polos opostos: ouvimos aquela música e ela faz-nos sentir tranquilas e tranquilos ou estamos tranquilas e tranquilos e procuramos aquela música? A reversibilidade, num Mundo de questões complexas, é, enquanto competência e no seu simbólico, algo fundamental que deve ser preservado e estimulado numa perspectiva de procura de (mais) caminhos, contributos e soluções ao invés de afunilarmos em visões únicas e sem alternativa.

Por estes dias, e pelo que tem também sido a minha reflexão sobre a questão da crise climática, tenho pensado bastante na reversibilidade. E, de certa forma, por ela comecei (e continuei) uma participação que partilho no programa Esta Manhã da TVI onde conversei com Iva Domingues sobre psicologia e crise climática. 

É que – sendo a psicologia a ciência que estuda o comportamento (causas,  consequências, mudança) e tomada de decisão e a profissão que, ao longo de todo o ciclo e nos diversos contextos de vida, procura promover a autodeterminação de todas e todos e garantir mais oportunidade de bem-estar, equidade e coesão social – quando me perguntam como está ligada à crise climática o meu pensamento vai no sentido de responder como poderia a psicologia não estar ligada a uma crise como a climática se: 1) para a compreendermos e explicarmos precisamos de compreender como as pessoas se comportam e tomam decisões? 2) para a prevenirmos e mitigarmos te(re)mos que mudar a forma como viajamos, comemos, produzimos, consumimos, partilhamos, trabalhamos ou utilizamos os recursos à nossa volta? 3) para nos adaptarmos ao futuro e às mudanças precisa(re)mos de desenvolver resiliência nas pessoas e comunidades, responder à incerteza, à ansiedade, às iniquidades e outros desafios (como as migrações) que trará? 4) precisa(re)mos da intervenção das psicólogas e dos psicólogos no apoio psicológico e suporte emocional às pessoas vítimas de catástrofes mais frequentes e intensas nas próximas décadas? 5) o seu conhecimento é fundamental ao desenho de políticas públicas neste âmbito, à acção na percepção de risco e à comunicação com pessoas e comunidades?

Mais, reversibilidade para não cairmos em inevitabilidades que redundam em inacção e para, apelando à urgência da mudança, não esquecermos os (ainda que ténues) sinais positivos à nossa volta (como dela se falar às 07.50h na TVI). Para não fazer a mudança contra as pessoas, mas com as pessoas. Para lembrarmos que na mudança não há apenas perda de qualidade de vida e que ela pode (co)existir com bem-estar.

A crise climática é um problema social complexo que precisa de uma resposta social, motivada pelas pessoas e comunidades. Uma resposta que não pode deixar ninguém para trás para ser bem-sucedida. Que só pode ser bem-sucedida.