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Política Psicologia Tomada de Decisão

Personalização e compromisso – Dos partidos às políticas

Allerweltspartei. Previsivelmente, poucas e poucos conheceremos esta palavra. Original alemão do mais vulgar em inglês catch-all party, significa (tradução minha) partido (político) “onde todas e todos cabem”. Partido “de massas”. Conceito sempre problematizado, explanado por Kircheimer em 1966 para descrever partidos que, por serem de largo espectro e menos ideológicos, procuravam atrair o maior número possível de pessoas. Partidos actualmente, embora a ritmos diferentes, em perda e quebra um pouco por toda a Europa face a partidos políticos que, mais individualizados e singularizados, se centram em causas e se dirigem a grupos específicos de pessoas, originando maior fragmentação política.

“Personalização e compromisso – Dos partidos às políticas”, 19º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) reflecte sobre esta fragmentação a partir de dois fenómenos que nela considero essenciais: a forma como hoje se produz, dissemina e se contacta com informação e, nesse sentido, com desinformação; a enorme disponibilidade de dados e de algoritmos e ferramentas de tratamento de dados, que, cada vez com mais eficácia e menor custo, preparam e personalizam a informação para cada pessoa e grupo de pessoas. Procura, também, reflectir sobre o impacto destes fenómenos na maior volatilidade das votações; quebra de confiança; e na emergência de lideranças providenciais, salvíficas, populistas e de perfil mais autoritário.

Procura, depois, olhar a “outra face da moeda” e a possibilidade destes fenómenos, se utilizados com outro fim (bem-comum), produzirem efeitos também significativos mas na melhoria da qualidade de vida das pessoas, na sua possibilidade de bem-estar e na coesão social, nomeadamente se utilizados para uma maior personalização das políticas públicas, tornando-as mais contingentes, baseadas nas singularidades das pessoas e, por isso, mais eficientes e eficazes – abordo, com propostas, o exemplo das políticas de emprego estagnadas há décadas no seu modelo. Discuto, ainda, a importância de uma atitude de compromisso entre partidos, pela construção de espaços de entendimento centrados na abertura, na empatia com as pessoas e as e os adversários e no desenvolvimento de competências que permitam entregar e receber melhor críticas construtivas capazes de influenciar o comportamento, a tomada de decisão e as negociações.

Fecho apelando a que a um certo colocar em causa dos Allerweltspartei corresponda um colocar em causa das Allerweltspolitik, políticas catch all. Porque, se o pluralismo e a diversidade das pessoas e das sociedades ameaçam os partidos de massas, o pluralismo e diversidade das pessoas invalidam políticas de massas. Precisamos, de transformar e personalizar as políticas. Personalizar com criatividade, persistência e compromisso. Compromisso entre políticas públicas e pessoas. Entre partidos políticos e pessoas. Entre políticas públicas. Entre partidos. Pela confiança e pelo bem comum, defesas últimas das consequências da fragmentação e polarização das pessoas e sociedades.

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Desafios da Psicologia Emergência Climática Psicologia

Será o ser humano o principal inimigo do nosso planeta? (Podcast; Ouvi Dizer; ANEP)

“(R)Estabelecer confiança”. R é o símbolo matemático relativo aos números reais. António Guterres sabe-o, conforme sabe quão real é a urgência da crise climática que vivemos e quão fulcral é o (r)estabelecimento da confiança a que apelou no G20 que antecedeu a COP26. Restabelecimento que assume depender “de enfrentarmos as principais causas da desconfiança – injustiças, iniquidades e divisão geopolítica”.

A COP é a Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança Climática resultante da ECO-92. A COP1 aconteceu em Berlim (1995) e, depois do Protocolo de Quioto (COP3) e do Acordo de Paris (COP21), a 26ª, adiada de 2020 para 2021, decorre em Glasgow. É momento de discussão dos ténues sinais positivos pós-1992 mas, principalmente, de como poderemos globalmente caminhar o longo e difícil caminho de preservação do planeta, com mudanças que possam em simultâneo promover o bem-estar e o combate às injustiças, iniquidades e divisões geopolíticas, amplificadas com a crise climática. Momento de construir uma resposta enérgica, global, positiva e confiável que não deixe ninguém para trás.

Creio feliz o termo partes. Países parte de um todo, o Mundo. Contributos de cada área científica e sociedade civil parte de um todo, a necessidade de decisões informadas pela ciência e encorajadas por uma ideia comum de futuro do Mundo. Partes das quais faz parte a ciência e a prática psicológica. Ciência que estuda a tomada de decisão, o comportamento e as suas causas e consequências. Profissão que – ao longo de todo o ciclo de vida e nos diversos contextos de vida – procura promover a autodeterminação de todas e todos e garantir mais oportunidade de bem-estar, equidade e de coesão social. Ciência e profissão que deve assumir papel central de contributo nesta crise.

Sobre este (nosso) papel e sobre esta (nossa) responsabilidade, conversei com a Adriana Soeiro Rosa e a Beatriz Sanguedo para o Podcast da ANEP “Ouvi Dizer” partindo do mote “Será o ser humano o principal inimigo do nosso planeta?” Conversa que partilho e onde discuti a forma como a psicologia contribui para a explicação e compreensão do fenómeno, para a sua prevenção e mitigação e para o apoio à preparação e adaptação das pessoas. Discuti, ainda, a relação entre a crise climática e a saúde psicológica (das questões associadas à incerteza e à ansiedade a este propósito até à importância das intervenções pós-catástrofes) e o nosso funcionamento, nomeadamente o papel dos enviesamentos na tomada de decisão. Também, o papel da percepção de risco, da comunicação e dos contributos da ciência psicológica no desenho de políticas públicas e implementação de projectos neste âmbito.

Se os seres humanos podem ser o principal inimigo podem, também, ser os principais protectores do nosso planeta. Unindo-se e actuando em Glasgow, em Sharm El Sheikh em 2022, a cada dia e em cada lugar hoje e no futuro. Unindo-se e actuando, não deixando ninguém para trás e promovendo bem-estar de todas e todos.

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Desafios da Psicologia Educação Psicologia

Da não-complacência com o bullying…

…porque

“possível não significa provável”.

J. Steinberger foi uma das autoras do 6º relatório do IPCC. Tem-se destacado por um activismo muito próprio em torno da crise climática, porque, diz, o “nosso vocabulário revela-se insuficiente para descrever a perigosidade e urgência do nosso presente” e a mudança, sendo “possível não significa [que seja] provável”.

O seu exemplo e a importância que atribui às palavras, estimula a minha reflexão sobre áreas em que penso a distância de uma atitude “não-x” a uma atitude “anti-x” (aqui o escrevi sobre o racismo). Também nas práticas agressivas ou, mais especificamente, no bullying em crianças e jovens o podemos reflectir. Também aqui, o vocabulário que usamos não descreve normalmente a sua perigosidade e as mudanças que devem ainda acontecer, pese embora melhorias até 2019, não tornam esse possível em provável. Pelo contrário, os recentes encerramentos das Escolas e o seu impacto no desenvolvimento de competências sócio-emocionais, os perigos e desafios associados ao cyberbullying, os maiores problemas e dificuldades de saúde psicológica nas crianças/jovens e a hoje maior desigualdades e exclusão devem mobilizar-nos para uma atenção preventiva ao fenómeno e para a sua priorização ao nível da sociedade civil. Impelir-nos a atitudes “activas” face ao fenómeno e não “indiferentes”.

Isso procurei frisar no meu contributo que partilho no Bom Dia Portugal da RTP do passado dia 20.10, Dia de Combate ao Bullying. Sublinhando a importância das respostas concertadas ao nível de toda a Escola (não exclusivas das vítimas, agressoras/es e observadoras/es) e a criação de uma cultura de não-complacência (não aceitação) das práticas de bullying, que enquadrei nos seus 3 componentes-chave: repetição; desequilíbrio de forças e de poder; e intencionalidade clara de provocar sofrimento na(s) outra(s) ou outro(s). Procurei, também, assinalando sinais a que devemos estar atentas/os e frisando a importância da comunicação, aprofundar o papel das observadoras e observadores na atitude de não-complacência (actuando para não validar junto de quem agride a agressão e de quem é vítima a inexistência de apoio), das mães, pais e cuidadoras/es no geral (considerando sempre estes fenómenos e não atribuindo bondade aos mesmos – “fazem parte do desenvolvimento”).

Procurei, neste sentido, contribuir para uma reflexão de não minimização destas situações no presente e futuro das crianças e jovens, desincentivando posturas de inacção e estimulando atitudes preventivas e de construção de espaços de compreensão (embora sem aceitação) das práticas agressivas (para se actuar sobre causas), de empatia e de resolução de conflitos não violenta. Isso terá impacto hoje e amanhã em futuros papéis de vida destas crianças e jovens, nas suas relações de cuidado, de amizade, amorosas ou de trabalho.

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Desafios da Psicologia Psicologia

Air Summit 2021

“Cada vez que um avião [qualquer avião] passava sobre as suas cabeças, o general e os seus companheiros olhavam-no. Não podiam ajudar-se. Obsessivos. O meu tipo de pessoas.”

O último livro de Malcolm Gladwell (The Bomber Mafia) começa com uma nota do autor que termina com esta passagem. Relata um pós-jantar com David Galdfein (Ex-“Chief of Staff” da Força Aérea dos EUA) em que este convidou colegas para se juntaram a Malcolm na “Air House”, espaço próximo do Aeroporto que serve a região de Washington DC. Relata o fascínio, mas também a constante activação destas pessoas, quando “próximas” de aviões, quaisquer que fossem, e “ainda que de passageiros sem nada de potencialmente distinto.” Relata a tal obsessão, a meu ver melhor descrita se com aspas porque, neste caso, mais ligada à dimensão exclusiva desse comportamento (dessa activação) do que propriamente a um diagnóstico mais técnico (e logo mais complexo).

Na passada sexta-feira, estive em Ponte de Sor, na Air Summit 2021, encontro que reúne um conjunto de pessoas que pela sua profissão, área de negócio, hobby ou apenas fascínio, como Galdfein e as e os seus colegas, tende a olhar o céu quando escuta nele um som de um objecto que, antes ali não estaria, mas que as pessoas, desenvolvendo a ciência e ousando corajosamente muitas vezes experimentar, tornaram cada vez mais comum para cada vez mais fins. Que as pessoas tornaram “norma”, sendo por essa “norma” hoje definidas.

Com um “Flying for a new start” como tema, a Air Summit 2021 trouxe a “novidade” de ter um dia de conferências dedicado à saúde psicológica e uma mesa onde participei a convite da Elisabete Santos sobre “O impacto da pandemia na saúde psicológica: ultrapassar os desafios pessoais, profissionais e sociais” e onde estiveram, além da própria Elisabete, o Florentino Serranheira, o Osvaldo Santos e o Paulo Martins, mesa moderada pela jornalista Cristina Esteves.

No meu contributo procurei reflectir exactamente sobre como a forma como definimos a norma acaba por resultar na forma como a norma nos define e como, assim sendo, podemos tornar norma a importância da saúde psicológica e ela nos definir, mais do que hoje nos define a norma de olharmos (apenas) a doença mental ou quanto muito a sua ausência. Isso convida-nos, activa-nos, a olhar o quotidiano dessa forma e a construir uma sociedade e organizações que o considerem, permitindo mais oportunidades para todas e todos de promoção de saúde mental e com elas menos oportunidades de sofrimento para as pessoas (e seu entorno) e perdas para as organizações e sociedades, sob diversas formas. De como se tornar norma este tema, também numa Summit como esta, nos define hoje e definirá amanhã.
Como também disse, quem ainda voou quando se fumava nos aviões comerciais, dificilmente imaginaria que anos depois tal não fosse possível na exacta forma como hoje dificilmente imaginamos que se regresse a esse tempo. Assim poderá e deverá ser com a importância da saúde psicológica, também nesta área.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Saúde Mental | Erradicação da Pobreza: 7 dias de distância

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 dias… Desde 1994, 7 dias separam as comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17.10). 7 dias, uma semana, um ciclo com simbolismo próprio, este ano reforçado pelo tema das comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental ser a “Saúde Mental num Mundo desigual”, a propósito de um Mundo onde “as pessoas mais ricas continuam a enriquecer” coexistindo com “um número de pessoas ainda muito alto que vivem na pobreza”. Poderia, também, o Dia Mundial da Erradicação da Pobreza ter sido dedicado à “Pobreza num Mundo desigual” a propósito de um Mundo onde as pessoas mais ricas têm mais oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental coexistindo com um número ainda muito alto de pessoas pobres e excluídas sem oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental.

“Saúde Mental | Erradicação da Pobreza: 7 dias de distância”, 18º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) pensa a associação forte e cíclica entre a pobreza a exclusão e dificuldades e problemas de saúde psicológica. Ciclo do qual resultam 3 inevitabilidades: não poder existir um avanço significativo ao nível da saúde mental se não existir também a diminuição significativa dos níveis a pobreza e de exclusão, seu importante determinante; não haverá uma diminuição significativa no nível de pobreza e exclusão sem um investimento de recuperação das pessoas com doença mental e da promoção de saúde mental, enquanto factor determinante de resiliência e de possibilidade de adaptação da pessoa aos acontecimentos de vida e de projecção de e no futuro; que investir na saúde mental resultará também na diminuição de factores de vulnerabilidade que conduzem e/ou reforçam situações de pobreza e exclusão e que investir na diminuição dos níveis de pobreza e exclusão resultará no aumento da potencial da saúde mental, pela redução da escassez, promoção de competências transversais de vida e pela maior possibilidade de florescimento e de bem-estar.”

Importa trabalharmos na prevenção e promoção da saúde mental; respeitar a dignidade humana e construir respostas integradas, humanistas e qualificadas que visem a autonomia e a integridade da pessoa em qualquer circunstância; atender ao indicador do bem-estar percebido enquanto objecto de políticas públicas; responsabilizarmos a pessoa por problemas sistémicos e complexos, prevenindo a “dupla culpabilização”.

Termino como terminei ontem uma intervenção a convite da Ana Rodrigues num webinar da EAPN: “Cada um e uma de nós não conseguirá por si mudar o Mundo. Mas poderá – também inspirada na figura e exemplo de Aristides Sousa Mendes [ontem celebrado], intervindo nos determinantes e promovendo saúde mental – contribuir para a mudança de uma ou de um conjunto de pessoas. Mudando o Mundo de cada uma. O Mundo do Ricardo, da Luísa, do Manuel, da Micaela. O deles, o das suas filhas/os, amigos/as, pais e mães. Sentem e sabem do que falo, não sabem? Porque esperamos?

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Ao redor... (Revista Sábado) Futuro da Psicologia

Hiperespecialização: Sim ou Não? (Ao redor…; Sábado; 04.10.2021)

Vivemos tempos em que à complexidade crescente acrescentamos urgência. Como escreve Gonçalo M. Tavares, tempos em que “a vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada.” Tempos de maior conhecimento e maior expectativa. De mais escolha, mais exigência. De novos desafios, exclusões e, até, de novas “pobrezas”.

Adam Smith, não raras vezes apontado como “pai da economia moderna” e responsável pela célebre frase “mão invisível do mercado”, foi um dos primeiros autores a debruçar-se e a defender os benefícios da divisão do trabalho, nomeadamente da sua segmentação e da especialização de trabalhadoras e trabalhadores nas áreas, tarefas ou actividades dela resultantes. Adam Smith defendia que a divisão proporcionava o “aumento da capacidade produtiva” e o “maior progresso da ciência”, resultados do treino e especialização de trabalhadoras e trabalhadores, da poupança de tempo resultante da não necessidade de mudança de tarefas e da possibilidade de automação progressiva de partes do trabalho. Defendeu-o no livro “A riqueza das nações”, publicado há 245 anos numa Londres e num Mundo tão diferente do actual. Pergunto-me se e como o escreveria hoje? Pergunto-me, particularmente, como reflectiria hoje sobre os benefícios da especialização no contexto do trabalho e da ciência?

Nestes mais de dois séculos avançamos da especialização para algo muito próximo da hiperespecialização. E, se esta hiperespecialização pode ser importante e relevante em ambientes de aprendizagem ditos “acolhedores” – caracterizados por feedbacks próximos e imediatos e por uma estabilização das regras e do contexto, onde a prática e o treino intenso tendem a produzir melhores resultados – parece não produzir semelhantes resultados em ambientes de aprendizagem descritos como “inóspitos”. Nestes contextos, onde o feedback é mais irregular e os contextos e até as “regras” são mais voláteis e ambíguas, a hiperespecialização decorrente de um treino intenso e persistente tende a não produzir os mesmos resultados. Ou seja, a hiperespecialização parece resultar menos, por exemplo, em trabalhos mais individuais de criação na área da programação ou cultura ou na educação de crianças (ambientes mais inóspitos) face à prática de um desporto individual em que não existe interacção directa com as adversárias e/ou adversários como o golfe ou quando se é parte de uma linha de montagem numa indústria (ambientes mais acolhedores).

Se pensarmos em períodos férteis da inovação científica como o do final do século XIX e início do século XX e em seus expoentes como Marie Curie, Max Planck ou Albert Einstein encontraremos formações e interesses díspares e nada unidisciplinares. Aliás, a par com o próprio Adam Smith (que partiu da filosofia para a economia), esta e estes cientistas são exemplos da importância das humanidades, das ciências sociais e das artes ao enquadramento da ciência (especialidade) por si construída no Mundo (cultura). São exemplo de que a resposta para maior complexidade ou competição nem sempre é maior especialização, mas mais flexibilidade. São exemplo de que a diversidade e o contacto com diferentes contextos, estímulos, pessoas ou áreas comporta riqueza e versatilidade, essenciais à colocação de (novas) hipóteses e à construção de (novas) propostas para resolução de (novos) problemas.

A complexidade e urgência que vivemos pedem uma experiência que resulte de diversidade e não de uniformidade, de flexibilidade e não de rigidez, de versatilidade e não de constância. Pedem novas visões que resultem do aumento da possibilidade do simbólico e da abstracção e não da permanência única no concreto. Pedem novas respostas que resultem da expansão e não do entrincheiramento cognitivo. Pedem grupo e não apenas individualidade. Pedem mais prática, treino e experiência multidisciplinar precoce e ao longo da vida e não, em exclusivo, mais e maior hiperespecialização precoce e/ou ao longo da vida como algum discurso vigente e algumas áreas da sociedade ainda favorecem. Destaco três.

Desde logo a forma como o ensino superior está estruturado, parecendo responder ao aumento da volatilidade na sociedade com maior especialização (precoce), fazendo tábua rasa da ciência que demonstra que é o conhecimento conceptual e transferível que melhor se coaduna com estas circunstâncias e dinâmicas, que é essencial desenvolver capacidade de planeamento de curto prazo e não apenas de médio ou longo prazo (para rapidamente e com menos impacto nos adaptarmos a mudanças de direcção, se e quando necessárias) e que os resultados escolares sob a forma de classificações têm associação muito baixa com a capacidade crítica, também ela fulcral em ambientes inóspitos de aprendizagem, conforme os que os e as futuras profissionais tenderão a encontrar.

Ainda, e neste quadro, para continuarmos um caminho de progresso global na possibilidade de bem-estar e de coesão social, vencermos os desafios globais complexos que se nos afiguram e promovermos a paz, será essencial que organizações e entidades da sociedade invistam na compatibilização de processos de especialização e hiperespecialização com a experimentação e abertura à diversidade. Devemos ter presente que o grupo, quando com as condições certas, é mais capaz e mais racional que as mais capazes e racionais pessoas que o constituem. Acrescenta perspectivas face a lideranças individuais, previne enviesamentos e, mais importante, acrescenta a possibilidade de construção de caminhos alternativos, normalmente alheados da decisão quando individualizada pela dificuldade de desafio à autoridade (vejam-se, por exemplo, os estudos de Solomon Asch).

Finalmente, esta realidade ultrapassa o quadro das organizações, tocando também áreas científicas e profissões. Abel Salazar, num momento em que o atraso científico do país era gritante e o governo do Estado Novo promovia o obscurantismo, perseguindo cientistas e cerceando áreas científica (como a psicologia), ousou afirmar que uma médica ou um médico que “apenas sabe medicina, nem medicina sabe”. Aforismo iminentemente válido hoje e noutras áreas científicas, em particular na minha. Porque a psicologia, conforme outras áreas, necessita de ser praticada por psicólogos cidadãos e psicólogas cidadãs, capazes de, nos seus diversos papéis de vida, expandirem e amplificarem o seu contributo para uma maior possibilidade de autodeterminação e bem-estar de todas e todos e para mais equidade e coesão social. Porque a ciência psicológica, conforme outras áreas científicas, para apoiar a resposta aos desafios complexos da sociedade e anseios das pessoas, necessita de um grupo de psicólogas e psicólogos, com identidade definida e partilhada, antes da soma de conjuntos de psicólogos e psicólogas hiperespecializadas em áreas, por vezes hiperespecíficas, da psicologia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a complexidade presente e futura determina que, não diabolizando os importantes processos de especialização, não sobrevalorizemos a hiperespecialização face à versatilidade e o talento individual face ao talento de grupos. A hiperespecialização não pode, portanto, ser um fim em si, antes ponderada e utilizada com parcimónia. Sabemos, por vezes com perda e sofrimento associado, no que pode resultar economias excessivamente dependentes de uma área de actividade ou recurso, organizações de apenas um ou uma líder ou políticas de apenas um partido ou de uma personalidade. Poderá ser bom para algumas e alguns, poucos, mas raramente para todas e todos e para um bem-comum que exige flexibilidade, versatilidade, diversidade e grupo.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 04.10.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/hiperespecializacao-sim-ou-nao

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

“Não é um problema só para os outros.”

Araquibutirofobia, triscaidecafobia ou pogonofobia. Quaisquer fobias têm como base medos irracionais com impacto significativo no quotidiano e qualidade de vida das pessoas. Em todo o caso, existem fobias que provocam sofrimento a muitas pessoas e nos parecem, por menos comuns, ainda mais irracionais. Aos medos de que algo pastoso se cole ao céu da boca, do número correspondente ao dia de hoje (13) e de barbas (acima respectivamente nomeados), junto a optofobia, o medo irracional de abrir os olhos.

Quem sofre de optofobia, ou de qualquer outra fobia ou problemas de saúde mental, merece toda a atenção e cuidado da parte de cada pessoa e da sociedade. Merece que “abramos” os olhos a esta realidade e que reconheçamos o quão fundamental é hoje investirmos na promoção da saúde mental e apoiar as pessoas que hoje sofrem de problemas de saúde psicológica para recuperarmos o país e uma ideia de futuro das pessoas, famílias e comunidades baseadas numa real aspiração de bem-estar e cumprimento. O quão fundamental é, para que tal suceda, conseguirmos, enquanto sociedade, dar significado ao que as pessoas sentem, sublinhando que existem saídas possíveis e tratamento disponível para os seus problemas, bem como é possível prevenir este tipo de dificuldades.

Assim comecei um diálogo (que aqui partilho) no Dia Mundial da Saúde Mental na TVI24 que partiu da importante premissa que serão hoje, considerando a prevalência pré-pandemia e o agravamento potencial da mesma nos últimos dois anos, entre 2 a 3 milhões as pessoas em Portugal que necessitam de apoio psicológico urgente. Perguntou-me (Interpelou-me), bem, o José Gabriel Quaresma “como pode uma sociedade desenvolver-se de forma saudável quando não olha para estes problemas da sua população?” Perguntou-me (Interpelou-me), também bem, se, “dado que há décadas falamos destes temas”, eu acreditava mesmo “que estes problemas se podem resolver”.

Falamos de causas, de consequências da insuficiência das respostas, dos impactos da pandemia. Falamos de respostas possíveis. Falamos finalmente, optimista que sou, de que só se podem resolver, porque não há bem maior em que se possa investir (com retornos múltiplos) que não as pessoas, principal recurso do país; porque temos recursos disponíveis, preparados e motivados para tal; porque, como a Maria João Marques hoje afirma num importante e corajoso artigo no Público, este “não é um problema só para os outros”.

Não abramos os olhos só para a doença mental. Não tenhamos receio de o fazer com a saúde mental. Uma política humana e sustentável nesta área depende de não investirmos apenas na recuperação, aguardando mais e mais pessoas a necessitarem de ser recuperadas. Depende da conciliação da recuperação com a promoção da resiliência, prevenindo sofrimento e necessidade de recuperação no futuro, criando condições de bem-estar e, através dele, de equidade e coesão social.

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Desafios da Psicologia Psicologia

10.10.2021

Este Dia Mundial da Saúde Mental de 2021 tem uma dimensão pessoal muito significativa para mim. Como tantas e tantos, resultado não apenas da pandemia, tenho pessoas que me são muito importantes a sofrerem e a viverem “aprisionadas” a um presente que não lhes permite vislumbrar caminhos para um futuro de bem-estar. Em simultâneo partilho os meus dias com os meus filhos, um dos quais cuja idade ainda contamos em semanas, que nos “puxam” para nos projectarmos no futuro.

A saúde mental é um tema complexo e urgente. Tema maior pelo seu impacto em todas as dimensões, papéis e tempos de vida das pessoas. Quando confrontados com temas complexos tendemos para respostas rápidas e securizantes, normalmente encaixadas em pólos. Polarizamos. Face a este tema tende-se, porém, a “errar” num pólo: se de um lado temos a doença mental do outro não temos a ausência de doença mental, antes a saúde mental.

Disse-o ontem num debate com os Bastonários Rui Leão Martinho e Luis Menezes Leitão e com a minha colega Ana Rita Goes a convite da Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos. Entre a saúde mental – capacidade das pessoas se cumprirem, aspirarem a bem-estar e terem as competências e as condições e recursos internos e externos para lidarem e se adaptarem às situações e acontecimentos de vida – e a doença mental há todo um espaço onde muitas pessoas “deambulam” consoante o momento.

Além do reforço, qualificação e humanização das respostas para quem sofre com a doença mental – finalmente previsto no Plano de Recuperação e Resiliência(PRR) – há espaço de intervenção e mudança que possibilitaria que não tivéssemos chegado ao contexto da pandemia com tantas pessoas com vulnerabilidades. Espaço de prevenção e promoção da saúde psicológica e de resiliência social que toca 5 dos aspectos que justificam porque ainda estamos na cauda da OCDE em termos de indicadores de doença mental: a promoção alargada de competências sócio-emocionais, também nas pessoas adultas e nas e nos adultos mais velhos com níveis de escolaridade mais baixos; a promoção de literacia em saúde (psicológica) visando mais agenciamento sobre si e a procura de suporte e apoio quando necessário; o combate a todas as formas de exclusão e de pobreza com forte e cíclica associação aos problemas de saúde psicológica; a mitigação das situações de isolamento e solidão e a qualificação e integração das respostas de promoção do envelhecimento com bem-estar; o acesso e a equidade no acesso, em todas as fases e contextos de vida, próximo e contingente aos problemas, dos cuidados de saúde (primários), às escolas, universidades, locais de trabalho e instituições diversas da sociedade.

Infelizmente, o PRR nesta área é apenas plano de recuperação porque, grosso modo, ignora esta resiliência. Ignora o que nos prepararia para futuras crises, nos “puxaria” para nos projectarmos no futuro e aspirarmos ao bem-estar. Ignora que o pólo oposta da doença mental não é a sua ausência mas a saúde mental.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Psicologia

Hiperespecialização: Sim ou Não?

Vivemos tempos em que à complexidade crescente acrescentamos urgência. Tempos em que “a vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada” (Gonçalo M. Tavares).  Tempos de maior conhecimento e maior expectativa. De mais escolha, mais exigência. De novos desafios, exclusões e, até, de novas “pobrezas”. Tempos que me fazem questionar se hoje, Adam Smith, “pai da economia moderna”, continuaria a defender os benefícios na capacidade produtiva e progresso da ciência da divisão do trabalho, nomeadamente a sua segmentação e a especialização de trabalhadoras e trabalhadores nas áreas, tarefas ou actividades dela resultantes como o fez há 245 anos num Mundo tão diferente do actual.

“Hiperespecialização: Sim ou Não?”, 17º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) pensa os impactos do caminho da especialização até aos actuais processos próximos da hiperespecialização. Fá-lo descrevendo, exemplificando e distinguindo “ambientes acolhedores de aprendizagem”, onde a hiperespecialização parece produzir resultados, de “ambientes inóspitos de aprendizagem” onde tal não sucede. Ambientes inóspitos, comuns ao contexto de volatilidade e incerteza da sociedade presente e futura.

“A complexidade e urgência que vivemos pedem uma experiência que resulte de diversidade e não de uniformidade, de flexibilidade e não de rigidez, de versatilidade e não de constância. Pedem novas visões que resultem do aumento da possibilidade do simbólico e da abstracção e não da permanência única no concreto. Pedem novas respostas que resultem da expansão e não do entrincheiramento cognitivo. Pedem grupo e não apenas individualidade. Pedem mais prática, treino e experiência multidisciplinar precoce e ao longo da vida e não, em exclusivo, mais e maior hiperespecialização precoce e/ou ao longo da vida, como algum discurso vigente e algumas áreas da sociedade ainda favorecem.” Isto afirmo, destacando: a forma como o ensino superior não prioriza o conhecimento conceptual e transferível e a capacidade crítica; a pouca importância dada ao grupo nas organizações (com as condições certas, mais capaz e racional que as pessoas mais capazes e racionais que o constituem); a necessidade de “psicólogas e psicólogos cidadãos, capazes de, nos seus diversos papéis de vida, expandirem e amplificarem o seu contributo para uma maior possibilidade de autodeterminação e bem-estar de todas e todos, mais equidade e coesão social” e de uma prática assente numa “identidade definida e partilhada, antes da soma de conjuntos de psicólogos e psicólogas hiperespecializadas em áreas, por vezes hiperespecíficas, da psicologia”.

“A complexidade presente e futura determina que, não diabolizando os importantes processos de especialização, não sobrevalorizemos a hiperespecialização face à versatilidade e o talento individual face ao de grupos (…) Sendo bom para algumas pessoas, poucas, raramente o é para todas e para um bem-comum que exige flexibilidade, versatilidade, diversidade e grupo.”

 

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RTV Eslovénia

Quando há 15 anos iniciei a minha actividade profissional enquanto psicólogo, fi-lo num contexto de enorme vulnerabilidade, trabalhando com crianças e famílias expostas a dificuldades (por vezes enormes), à pobreza (por vezes extrema) e à exclusão. Contexto em que, a cada momento, algo de inesperado e de significativo acontecia e onde a previsibilidade, tão importante ao bem-estar, não abundava. Com regularidade procurava junto dessa comunidade educativa (mães, pais e outras e outros cuidadores, professoras e professores e outras e outros profissionais) advogar a importância de promovermos relações estáveis e de construir segurança pela relação e pela promoção de confiança. Com mães, pais e cuidadoras e cuidadores procurando trabalhar a necessidade de usar da verdade com as filhas e os filhos e que é ela e não o que se pretende ouvir no seu lugar que, por mais difícil no curto prazo, garante a confiança no presente e para o futuro.

Penso-o a propósito da minha participação e contributo numa reportagem da RTV Slovenija, que aqui partilho. A Eslovénia é, neste momento, o sétimo pior país da UE no registo de população totalmente vacinada (ainda abaixo de 50%), comparando negativamente com a média da UE (63%) e com Portugal (próximo dos 85%). Estes números, as dificuldades sentidas para promover maior taxa de vacinação na sua população e os números em Portugal, justificaram a reportagem assente na pergunta: O que justifica que Portugal apresente estes números e lidere num indicador tão relevante?

Creio que a resposta se situa em 3 áreas abordadas na peça: a) a nossa não complacência, pelo esforço e trabalho colocado pelas organizações, autoridades e pelas pessoas no reforço, não apenas de comportamentos pró-saúde na pandemia, mas também pró-sociais que permite que as pessoas assumam que o seu processo de vacinação visa a sua protecção face à doença mas também na protecção de outras pessoas; b) a conveniência, num esforço de todas e todos, desde a TF da Vacinação às Autarquias passando por outras Autoridades, com contributos das ciências comportamentais, para tornar o processo de vacinação simples, próximo e acessível às pessoas; c) finalmente a confiança… Confiança no SNS, no Plano Nacional de Vacinação e nas e nos profissionais de saúde, tudo elementos essenciais para a aceitação e promoção da vacinação e no esclarecimento das dúvidas legitimas de parte da população mais insegura face ao processo. Confiança que se constrói (ou se destrói) dia-a-dia e que existia em muito pelo papel que o SNS e o Plano Nacional de Vacinação têm tido nas últimas décadas na melhoria dos indicadores de saúde, bem-estar e coesão social do nosso país.

Porque, como em qualquer crise, a resposta tem que ser construída pré-crise. Porque, ainda nesta crise, devemos prepararmo-nos para a(s) próxima(s). Reforçar a confiança em nós, nas outras e nos outros e nas instituições é uma das formas de o fazermos e uma responsabilidade de todas e todos.