Categories
Ao redor... (Revista Sábado)

Pai Motorista (Ao redor…; Sábado; 21.09.2021)

Como viveremos juntos? A pergunta que a tantas e tantos inquieta é o mote da 17ª Bienal de Arquitectura de Veneza, a primeira pós-COVID-19 que decorre até Novembro próximo. A Bienal trata a arte e a arquitectura, ingredientes fundamentais à experimentação e à contemplação, e permite um contexto de questionamento propício à reflexão sobre o que (e como) vivemos e o que (e como) viveremos. O seu curador, Hashim Sarkis, afirma que lhe parece igualmente válida a questão “e se?” face às questões “como?” e “por que?” enquanto, ao sublinhar que “um contrato espacial pode ajudar a inspirar um contrato social”, estimula as arquitectas e arquitectos a “imaginarem espaços em que possamos viver de forma generosa e juntas e juntos”.

Penso-o movendo-me do complexo e desafiante mote da Bienal para o “Pê de pai”, livro escrito por Isabel Minhós Martins, belissimamente ilustrado por Bernardo Carvalho e que, de forma simples e desconcertante, mas não menos simbólica, aborda a relação de pais com filhas e filhos, convidando a “descobrirem-se juntos, ao virar de cada página”. Ao virar de cada página, como ao virar de cada esquina, de cada espaço. Aos “pê de pai avião” e de “pai travão”, de “pai sofá” e de “pai boia”, de “pai carrossel” e de “pai túnel” do livro, acrescento, o pê de pai motorista.

A arte e nossa construção e/ou “confronto” com ela, permite-nos, a partir das novas leituras da realidade que proporciona, nomear e, por vezes, (re)significar o que sentimos. Nos últimos dias, com poucas horas de diferença, permaneci à porta de uma Unidade de Saúde aquando de um exame do meu filho mais novo e à porta da Escola aquando da reunião de preparação deste ano lectivo do meu filho mais velho. Neste meu “confronto” com as regras destes espaços e as suas consequências em mim e na minha família, outro “confronto”, este com a arte, ajudou-me a nomear o que sinto (a tal ideia de pai motorista) e, particularmente, a significar o que sinto (a forma como o contrato e as regras dos espaços condicionam e influenciam o contrato social).

Não esqueço que vivemos um momento ainda muito desafiante e que, pese embora todos os avanços (na imunização da população face ao vírus SARS CoV-2 e até no tratamento da COVID-19, na disponibilização e acesso mais simples a equipamentos de protecção individual, na melhor preparação dos espaços e na literacia da população relativa a comportamentos pró-saúde e pró-sociais), a pandemia ainda determina a necessidade de, em termos comportamentais, assumirmos cuidados de auto e hetero-protecção. Tal qual nos impõe perguntas para as quais não temos e não existe resposta definitiva e nos brinda com incertezas, dúvidas e até inseguranças face ao futuro próximo e menos próximo. Mas também não posso esquecer que estas minhas inquietações não são exclusivas do momento que vivemos, bastantes são prévias à pandemia, como é exemplo, para referir apenas um que muito me impactou, o facto de não me ter sido permitido estar as duas primeiras noites de vida do meu primeiro filho a seu lado e ao lado da sua mãe.

Sinto que, pré-pandemia, em pandemia e quando sairmos desta pandemia, temos o dever de, enquanto sociedade, garantir que as regras e contratos espaciais, particularmente os relativos aos espaços e serviços públicos, promovem o que consideramos mais importante do contrato social, ainda que isso nos coloque dificuldades de gestão e, por vezes, até exponha as organizações ou instituições a maiores exigências e riscos (desde que devidamente “controlados”). Sinto que, se defendemos uma sociedade que promova a equidade e combata as desigualdades (de género, pertença comunitária ou cultural, nacionalidade, idade, …) e que promova a coesão social e o desenvolvimento de relações e vínculos entre pessoas, temos que ter regras para o espaço público e para o acesso a serviços públicos que disso sejam facilitadoras.

Se isto é verdade sempre, creio que todas e todos percebemos a sua urgência no momento que vivemos e viveremos. Momento em que, compreendendo-se as restrições ainda necessárias, é fundamental um especial empenho e esforço para intencionalizarmos a promoção da possibilidade de relação como factor fundamental à saúde psicológica e bem-estar, presente e futuro. Nas Escolas, nas Unidades de Saúde, nas Casas de Acolhimento de crianças e jovens, nos Centros de Dia ou nas ERPI (Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas). Onde quer que uma pessoa esteja, e onde quer que a parentalidade e o cuidar das outras e dos outros se expresse, a segurança, o cumprimento de necessidades básicas e os laços que se estabelecem são essenciais e isso deve ser encorajado e não obstaculizado. Isso é um factor fundamental na promoção de saúde psicológica e bem-estar de crianças e jovens, e comprovadamente preventivo de riscos de problemas físicos (como a obesidade, por exemplo) e psicológicos (ansiedade, por exemplo). Isso é um factor fundamental na promoção de saúde psicológica e bem-estar de adultas e adultos mais velhos, e comprovadamente preventivo de riscos de problemas físicos (como problemas cardíacos, por exemplo) e psicológicos (perdas cognitivas, por exemplo). Isso é um factor fundamental na promoção de saúde psicológica e bem-estar de mães, pais, cuidadoras e cuidadores, pela possibilidade de acompanhamento de marcos fundamentais do desenvolvimento das pessoas a seu cuidado e de não retrocedermos num caminho que deve ser acelerado e aprofundando de partilha de responsabilidades nas famílias.

É momento de investirmos na melhor compatibilização e conciliação de medidas sanitárias com medidas de promoção da saúde psicológica, afirmava a Ordem dos Psicólogos Portugueses já no Verão de 2020 defendendo “equilíbrio (e proporcionalidade) entre as medidas sanitárias, essenciais ao controlo epidemiológico, e os impactos psicológicos e emocionais dessas mesmas medidas”. Era, é tempo e será no futuro, também como preconiza o Plano 21|23 Escola+, criado com “vista à recuperação das aprendizagens e procurando garantir que ninguém fica para trás” e que tem no “investimento no bem-estar social e emocional” e no “envolvimento de toda a comunidade educativa” dois dos seus objectivos estratégicos. Envolvimento este fundamental no desenvolvimento competências sociais e emocionais, abordadas num recente trabalho da OCDE que comprova, não apenas a sua importância e os seus impactos longitudinais relevantes para os desafios que se colocarão às pessoas no futuro, mas também o papel do envolvimento parental no seu desenvolvimento.

É, portanto, necessário fazer mais e melhor. É possível fazer mais e melhor. É tempo de fazer mais e melhor.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, promover a participação de todas e todos nos processos educativos e de cuidado implicará revisitar os contratos espaciais hoje definidos que impactam os contratos sociais, a saúde psicológica e a possibilidade de bem-estar. Hoje e amanhã, num contexto de “maior divisão (política) e de desigualdade económica (crescente)” como refere Hashmin Sarkis, necessitamos de arquitectas e arquitectos, mas também de decisoras e decisores e de cidadãs e cidadãos a “imaginar(em) espaços em que possamos viver de forma generosa e juntas e juntos”. “E se” for mais difícil? “E se” falta(re)m condições e recursos? Ainda assim. Numa priorização e exigência que tem que ser de todas e todos e de estímulo e apoio à participação de todas e todos. Para que mais que pê de pai motorista sejamos “pai motor”, como no livro.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 21.09.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/pai-motorista

Categories
Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade Psicologia

Mafalda, hoje.

Uma menina, cara redonda e cabelo escuro com um laço, pergunta ao pai se é um bom pai, se é o melhor pai do Mundo. Há 57 anos, um jornal Argentino publicava as primeiras tiras (esta e outra em que parte um bico de um lápis enquanto desenha uma casa e desabafa que “estas coisas acontecem apenas neste país [Argentina]) de uma inquieta e inconformada Mafalda. Sabemos a história que se lhe seguiu, sendo hoje uma das figuras mais reconhecidas globalmente da Banda Desenhada e deixando-nos (Quino) muitas tiras que ainda nos “inquietam e “jogam” com o nosso inconformismo. Partilho uma que o faz comigo.

A reflexão sobre as “raízes” do que somos, quem somos e dos nossos problemas é algo muito importante e que creio que todas e todos fazemos quando à nossa volta temos alguém que nos é querido em sofrimento, particularmente quando este sofrimento é emocional, psicológico. Por múltiplas razões que vão da ainda baixa literacia em saúde psicológica (que leva ao não reconhecimento ou aceitação do problema e, depois, à assunção da impossibilidade de recuperação – “eu sou assim, sempre fui assim, sempre serei assim”) a determinantes sociais (isolamento, solidão, precariedade, exclusão, …), o importante não se torna urgente. E esta realidade, quando aliada, à ainda gritante falta de acessibilidade e equidade na acessibilidade a ajuda profissional continuada e de qualidade neste âmbito, contribui para a existência à nossa volta tantas pessoas (e famílias e amigas e amigos que as rodeiam) que, com a ajuda certa, no momento certo, não sofreriam o muito que hoje sofrem.

Esta realidade acaba por criar uma nova urgência nesta área, tamanha que é a prevalência hoje de situações de pessoas a necessitarem de apoio especializado que faz com que a discussão do importante – o que podemos e devemos fazer e investir a montante – se faça mas acabe por pouco produzir e por resultar em insuficientes respostas. Ocupamo-nos e ocupamos os nossos parcos recursos a reparar as fugas de gás, algumas fugas de gás. Procuramos pouco as suas raízes.

É neste contexto que o debate em torno da utilização de tecnologia e big data na área da saúde mental se vem fazendo numa parte pequena do Mundo e chegando a Portugal (parte pequena porque uma grande parte não pode ou ousa sequer discutir a saúde e a possibilidade de bem-estar das suas populações – não o esqueçamos nunca!), desde a Apple que com a Biogen e a UCLA está a procurar desenvolver um algoritmo que permita que os aparelhos que transportamos nos “diagnostiquem” aos biliões de dólares que Escolas, particularmente Americanas, investem hoje em softwares (Gaggle, …) que monitorizam as actividades online de jovens estudantes em busca de indicadores que possam aparentar sofrimento ou perigo (de fazerem mal a si próprios, por exemplo).

Oxalá a Mafalda venha a estar errada no seu perentório “como sempre: o urgente não deixa tempo para o importante”. Por estes dias, por aqui e nestes problemas em particular creio que (ainda) não está.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia

Pai motorista

Há dias, com poucas horas de diferença, permaneci à porta de uma Unidade de Saúde aquando de um exame do meu filho mais novo e à porta da Escola aquando da reunião de preparação do ano lectivo do meu filho mais velho. Socorro-me do mote da Bienal de Arquitectura de Veneza de 2021 (“Como viveremos juntos?”) e da frase do seu curador Hashim Sarkis (“um contrato espacial pode ajudar a inspirar um contrato social”) para significar o que senti – como as regras dos e nos espaços podem condicionar o contrato social existente. Como me socorro do belíssimo livro “pê de pai” para, acrescentando o pê de pai motorista, aos pê de “pai avião, pai travão, pai sofá, pai boia, pai carrossel e pai túnel” do livro, nomear o que senti. O “confronto” com a arte, em duas formas distintas mas simbólicas, a permitir-me nomear e (re)significar o que senti.

“Pai motorista”, 16º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) procura reflectir sobre o nosso dever de, enquanto sociedade, “garantir que as regras e contratos espaciais, particularmente os relativos aos espaços e serviços públicos, promovem o que consideramos mais importante do contrato social, ainda que isso nos coloque dificuldades de gestão e, por vezes, até exponha as organizações ou instituições a maiores exigências e riscos (desde que devidamente “controlados”)”. Procura fazê-lo, não esquecendo o momento ainda muito desafiante que vivemos e que, pese embora todos os avanços, “ainda determina a necessidade de, em termos comportamentais, assumirmos cuidados de auto e hetero-protecção”, ressalvando, todavia, que esta questão se coloca para períodos pós e de pandemia, conforme já se colocava pré-pandemia – não esqueço, nem esquecerei, não me ter sido permitido estar as duas primeiras noites de vida do meu primeiro filho a seu lado e ao lado da sua mãe.

Sinto, portanto, e isso procuro discutir, que, se defendemos uma sociedade que promova a equidade e combata as desigualdades (de género, pertença comunitária ou cultural, nacionalidade, idade, …) e que promova a coesão social e o desenvolvimento de relações e vínculos entre pessoas, temos que ter regras para o espaço público e para o acesso a serviços públicos que disso sejam facilitadoras, sendo especialmente necessário hoje um “empenho e esforço para intencionalizarmos a promoção da possibilidade de relação como factor fundamental à saúde psicológica e bem-estar, presente e futuro, nas Escolas, Unidades de Saúde, Casas de Acolhimento de crianças e jovens, Centros de Dia ou nas ERPI. “Onde quer que uma pessoa esteja, e onde quer que a parentalidade e o cuidar das outras e dos outros se expresse, a segurança, o cumprimento de necessidades básicas e os laços que se estabelecem são essenciais e isso deve ser encorajado e não obstaculizado.”

“E se for mais difícil? E se falta(re)m condições e recursos? Ainda assim. Numa priorização e exigência que tem que ser de todas e todos e de estímulo e apoio à participação de todas e todos. Para que mais que pê de pai motorista sejamos “pai motor”, como no livro.”

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Tomada de Decisão

A feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19 (Ao redor…; Sábado; 07.09.2021)

São raras as situações na nossa vida onde algo que funciona num determinado momento, contexto e com determinada pessoa ou grupo funciona igualmente noutro momento, contexto ou com outra pessoa ou grupo de pessoas. O passar dos dias mostra-nos, muitas vezes com perda e sofrimento associados, que assim é. Também é isso que nos revela estudar e compreender a ciência psicológica – não há uma “receita para todas e todos”, instrumentos de avaliação e modelos de intervenção psicológica são tão mais eficazes quanto adaptados ao momento, contexto, pessoa ou grupo de pessoas.

Devemos, pois, cuidar e atender a transferências, deduções e generalizações que podem ser abusivas e resultar inapropriadas. Devemos também e em todo o caso, procurar reflectir sobre possibilidades de transferência, dedução e generalização de situações. Um exemplo possível é pensarmos em como os modelos de intervenção psicológica em contexto de crise e na comunidade nos podem ajudar a pensar o momento social que vivemos.

Daniel Caplan foi um dos precursores daquilo a que hoje podemos chamar saúde mental comunitária, enquanto possibilidade de bem-estar e florescimento das pessoas de uma e numa determinada comunidade. Dedicou parte da sua vida à inovadora teorização de modelos preventivos associados à saúde pública e revisitou a intervenção da saúde mental comunitária, contribuindo decisivamente para que passasse a considerar o contexto imediato e se centrasse nas pessoas e na relação estabelecida com elas, promovendo não apenas a sua humanidade, mas também a sua eficácia e eficiência. Caplan é também responsável por um modelo, ainda hoje amplamente referenciado, que descreve em quatro fases o processo pessoal de reacção à crise, onde o suporte emocional surge como ferramenta fundamental de adaptação. Modelo base para outros que se lhe seguiram e que viriam a sublinhar a importância do rápido acesso das pessoas à ajuda e da intervenção ser contingente ao problema, a maior abertura à mudança da pessoa em crise ou a necessidade de exploração das possibilidades alternativas e compromisso face a elas, central a modelos actuais como o preconizado pela Organização Mundial da Saúde.

As crises individuais não são equivalentes às crises societais mas os modelos referidos dão-nos pistas que, com as devidas adaptações, podem informar a situação que vivemos hoje com a pandemia COVID-19 e as suas consequências. Sublinham a importância da prevenção, proximidade, conhecimento, relação, suporte, contingência, abertura à mudança, exploração de possibilidades e compromisso, elementos que considero fulcrais no processo de resposta à actual crise.

Elementos a que devemos acrescentar a conjugação. A ideia de que por vezes, pequenas alterações no contexto podem provocar mudanças significativas nos comportamentos e na concretização de necessidades por nós sentidas, sejam elas mais ou menos conscientes. São inúmeros os exemplos que o ilustram, desde o debate sobre o difícil desafio de saúde pública que representa o suicídio e a forma como alterações ao contexto podem apoiar a sua prevenção (veja-se os impactos resultantes da mudança do gás natural distribuído em Londres que quando passou a ser mais limpo de monóxido de carbono permitiu a redução em 1/3 dos suicídios em Inglaterra, a redução significativa dos números no Sri Lanka com a aplicação de leis restritivas ao acesso a pesticidas tóxicos ou a redução resultante da proibição dos militares jovens Israelitas “levarem” consigo armas de fogo em períodos não laborais como fins de semana ou férias)[i] ao debate sobre os fundamentos da recente proibição de venda no interior das Escolas públicas de alguns produtos alimentares, podemos aferir a importância que a conjugação tem no potencial de cumprimento de uma acção.

A aldeia, a vila e a cidade são o resultado da expressão da existência e da relação humana. São também o micro do macro dos desafios societais, onde a pobreza ganha nome, onde as pessoas em situação sem abrigo não são apenas um número, onde a crise demográfica se expressa e se sente no dia-a-dia e onde a crise climática se concretiza em fenómenos adversos pontuais e permanentes. Onde os desafios complexos do presente e do futuro, a cujos objectivos do desenvolvimento sustentável pretendem responder, viajam do papel e do abstracto para se revelarem nos territórios e no concreto das pessoas, dos grupos, dos lugares. São, neste sentido, contextos que necessitam de políticas e políticos que utilizem o conhecimento da ciência psicológica e a prática das psicólogas e dos psicólogos além dos papéis mais tradicionais da sua intervenção. As autarquias são assim espaços que beneficiam não apenas do reforço em número destes profissionais, como de uma maior amplitude do seu papel.

Ora, a conjugação da “crise COVID-19” nas suas múltiplas e amplas consequências com as eleições autárquicas deste mês permite uma importante oportunidade para, como noutro texto desta rubrica defendi (“Autárquicas 2021 – Por um Portugal de ABC”; 05.05.2021), aspirarmos a projectos das Autarquias que se centrem no bem-estar e na coesão social. São as Autarquias que melhor podem, enquanto contexto próximo das cidadãs e dos cidadãos e pelo conhecimento e relação que têm com as populações, permitir uma resposta de suporte contingente aos problemas, mais eficaz porque adaptada e mais geradora de confiança nas instituições. São elas que melhor podem, antecipando desafios e crises futuras e sendo responsivas às necessidades das pessoas, adoptar estratégias de prevenção, de desenvolvimento de competências e de resiliência individual e colectiva. São elas que melhor podem, através da exploração (e experimentação) de possibilidades, corresponder à hoje maior abertura a uma mudança que, no que se refere a estilos de vida e consumo de recursos, a crise climática que vivemos torna indispensável. São elas, finalmente, que melhor podem contribuir para um mais efectivo envolvimento e compromisso de todas e todos nos processos de definição e implementação de políticas públicas.

Defendo que este aprofundamento e que a maior amplitude da utilização do conhecimento resultem, entre outros, na possibilidade da criação de equipas / unidades de ciências comportamentais que apoiem o desenho, a testagem, a implementação e a avaliação de políticas públicas tendo em consideração a forma como as pessoas se comportam e os princípios que assistem à sua tomada de decisão, nomeadamente em políticas cujos objectivos remetam ou requeiram adesão, promoção, manutenção ou alteração de determinadas práticas ou comportamentos, do consumo de água ao absentismo ou abandono escolar precoce. Também pelo investimento na promoção da saúde psicológica enquanto factor essencial nas áreas da saúde, educação, emprego, social, trabalho, justiça, ambiente ou desporto. Ou pelo papel que a ciência psicológica pode desempenhar na promoção da literacia, seja a literacia em saúde e saúde psicológica, a digital, a financeira ou a relacionada com a (des)informação e cidadania, conhecimentos cruciais ao autocuidado, à autodeterminação e à prevenção. Ainda o papel da ciência psicológica e das psicólogas e dos psicólogos nos processos de mudança e adaptação, fundamentais num futuro que os exigirá mais e mais permanentemente e que, se trabalhados e pensados com as pessoas e não contra as pessoas, podem ser concomitantes com a promoção do bem-estar. Finalmente, nos processos de envolvimento das pessoas nos processos de tomada de decisão e planeamento, reforçando a confiança e a relação entre cidadãos, decisoras e decisores e instituições e preservando a paz, enquanto princípio basilar da possibilidade de bem-estar e florescimento individual e colectivo.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, à crise COVID-19 suceder-se-ão novas crises resultantes de um Mundo de incerteza e volatilidade crescentes e de desafios societais complexos. Mundo que em muito beneficiaria de políticas e de decisoras e decisores que façam uso da ciência psicológica e das psicólogas e dos psicólogos e que priorizem a saúde psicológica, o bem-estar e a coesão social. No passado Sábado (04.09) comemorou-se o Dia Nacional do Psicólogo em Portugal, dia que celebra cerca de 25.000 psicólogas e psicólogos que dia-a-dia se mobilizam para um importante (por vezes decisivo) papel junto das pessoas e das organizações e dia que afirma a sua prática como fundamental aos desafios que se colocam ao país, hoje e no futuro. Que a feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19 resulte em projectos políticos que considerem o seu contributo e o incentivem, para em proximidade, relação e procurando a personalização das respostas, promoverem o bem-estar e a coesão social das populações. Estou e estamos aqui, disponíveis, comprometidas e comprometidos, motivados e motivadas. Podemos e queremos contribuir no presente para o futuro do país.

 

[i] No próximo dia 10.09 assinala-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, desafio que a todas e todos convoca porque cada pessoa pode ser um agente na prevenção deste grave problema de saúde pública com forte impacto nas pessoas, famílias e comunidades. A este propósito, numa situação de crise, ligue 808242424 (Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24). Numa situação de emergência ligue 112 (INEM).

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 07.09.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-feliz-conjugacao-das-autarquicas-2021-com-a-infeliz-crise-covid-19

Categories
Desafios da Psicologia Educação Ordem dos Psicólogos Portugueses

Meu filho…

Quando hoje te deixei na Escola para o teu 1º dia do 1º ano de escolaridade pensei nos 32 anos que separam este momento de quando eu o fiz. Desse Setembro de 1989 ao de 2021, há um conjunto imenso de transformações na nossa sociedade e na nossa Escola.

Com todos os desafios que se lhe colocam e com todo o caminho que há por percorrer, o sistema educativo português é espaço de políticas (públicas) de qualidade e com resultados. Sou-lhes grato e, de certa forma, devedor. Por isso, mas também porque creio que a confiança (em nós, nas outras e nos outros e nas instituições) será decisiva para maior coesão social na resposta aos desafios societais complexos que enfrentaremos, reflticto sobre este simbólico momento.

Avançamos significativamente na escolaridade da população recuperando de um atraso significativo que penalizou gerações e gerações. Implementamos políticas de alargamento progressivo da escolaridade obrigatória, prevenção do insucesso e redução do abandono escolar precoce. Procuramos construir escolas inclusivas, promover competências sócio-emocionais e desenvolver cidadãs e cidadãos mais preparados e responsivos às e aos outros e aos desafios que o futuro nos reserva. Nem tudo se fez bem. Mas muito, por vezes com poucos recursos mas com dedicação e abnegação de muitas pessoas, se conseguiu.

A meio caminho (2005) entre os Setembros de 1989 e 2021, entrei na Escola de 1º ciclo onde fiz o meu estágio curricular e onde trabalhei nos anos subsequentes como psicólogo. Tenho perspectiva sobre o papel da ciência psicológica e da presença de psicólogas e psicólogos nos contextos escolares e da forma como sustentaram a implementação e sucesso destas políticas. Hoje somos imprescindíveis nas Escolas e somos muitas e muitos mais que em 2005. Amanhã teremos que ser ainda mais e, essencialmente, ter recursos para garantir maior eficácia na nossa intervenção, pela maior autonomia, continuidade e compreensão do papel e com melhor articulação de intervenções na Escola, na comunidade e na saúde, com enfoque no SNS e nos cuidados de saúde primários como defendemos no seu 42º aniversário que hoje se cumpre.

Conciliar, com mais exigência, medidas sanitárias com a promoção do bem-estar e da saúde psicológica, deve ser hoje objectivo central. Em 2021 lutamos por uma Escola que responda às iniquidades, promova o bem-estar e acompanhe as expectativas de estudantes e das suas e seus cuidadores. Como lutamos por políticas públicas promotoras de equidade, bem-estar e respondam às expectativas da população, utilizando eficazmente os limitados recursos disponíveis.

Que sintas, na Escola e não apenas, espaço para cresceres, floresceres, desfrutares da relação com as outras e os outros e com o que te rodeia e te sentires bem no que és e desejas ser, meu filho. Hoje. Sempre.

Categories
Política Psicologia

As pessoas procuram ajuda, o problema é se a encontram.

“As pessoas procuram ajuda, o problema é se a encontram.” Na passada 6ªF participei na conferência “A Psicologia e a Administração Local – O que podem fazer as/os psicólogas/os pelo seu município?”, promovida pela DRMadeira da Ordem dos Psicólogos Portugueses integrada nas comemorações do Dia Nacional do Psicólogo.

À sua margem da conferência, em declarações à RTPMadeira discuti como no presente podemos perspetivar o futuro, referindo que mesmo confirmando-se (como todas e todos esperamos) a diminuição progressiva das restrições, “as muitas dificuldades não pesam só no presente e pesarão também para o futuro se estas pessoas não forem apoiadas” e que “há muito trabalho a fazer para recuperar as pessoas para termos um país de bem-estar e coesão social”. Abordei ainda a necessidade da intervenção “estar mais disponível e próxima” e a importância da literacia e reconhecimento da importância da saúde psicológica, alcançado por ser hoje mais “comum as pessoas falarem não apenas porque conhecem [situações] mas porque na comunicação social se fala da psicologia” resultando “num aumento de procura muito significativo”. Na mesma peça o Renato Gomes Carvalho havia abordado o aumento dos problemas de saúde psicológica, sublinhando, bem, que além do agravamento das situações de “ansiedade e depressão”, verificou-se um aumento da “impulsividade, reactividade, agressividade descontrolada e perturbações das dinâmicas familiares”. Falou ainda das autarquias enquanto contexto potencial de intervenção nestas áreas, pela promoção de “locais de trabalho mais saudáveis e produtivos, por exemplo através da avaliação dos riscos psicossociais” mas também do potencial alargamento do papel das e dos psicólogos nestes contextos, sublinhando a necessidade de se desenharem as políticas públicas com base no conhecimento e na evidência científica referindo que não podemos “aplicar uma medida para milhares de pessoas sem ter evidência científica e uma base sólida em termos técnicos e científicos para aplicá-la”.

Sobre a minha conferência propriamente dita e a reflexão sobre o papel e os contributos da psicologia para autarquias de bem-estar e coesão social, partilho dois textos que escrevi para a rubrica “Ao redor… (Sábado)” guardando uma palavra para a sessão de partilha, da tarde deste dia, com colegas de diferentes contextos sobre a vivência da pandemia. Momento de celebração da ciência e profissão, onde se validaram dificuldades pessoais e profissionais e se sentiu como fazemos a diferença na vida de tantas pessoas em contextos tão diferentes. Obrigado a todas e todos.

 

Autárquicas 2021 – Por um Portugal de ABC (05.05.21) | https://www.linkedin.com/pulse/autárquicas-2021-por-um-portugal-de-abc-tiago-pereira/

A feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19 (07.09.21)| https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-feliz-conjugacao-das-autarquicas-2021-com-a-infeliz-crise-covid-19

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Política Psicologia

Conjugação…

Qual a relação entre o facto do gás natural distribuído em Londres a partir de meio do século XX ter passado a ser mais limpo de monóxido de carbono; a aprovação de Leis restritivas do acesso a pesticidas tóxicos no Sri Lanka; e ter deixado de ser possível às e aos jovens militares Israelitas terem consigo armas de fogo fora do período laboral? A diminuição da taxa de suicídio no momento subsequente às mudanças naqueles três contextos. A conjugação, nos exemplos associada ao muito complexo desafio de saúde pública que é o suicídio (ver nota de fim), mas que se verifica noutros exemplos, das lojas em que somos “forçadas e forçados” a “visitar” na totalidade ainda que queiramos um único artigo e o possamos encontrar logo entrada (não raras vezes compramos algo mais) ao debate em torno da proibição de venda no interior das Escolas públicas de alguns produtos alimentares.

“A feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19”, 15º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) trata a conjugação, ou seja, a forma como “pequenas alterações no contexto podem provocar mudanças significativas nos comportamentos e na concretização de necessidades por nós sentidas, sejam elas mais ou menos conscientes” e a oportunidade que resulta do facto do momento actual conjugar a crise COVID-19 com as Autárquicas 2021, que já havia abordado nesta rubrica a 05.05.21.

É que, sendo “a aldeia, a vila e a cidade o resultado da expressão da existência e da relação humana e o micro do macro dos desafios societais, onde a pobreza ganha nome, onde as pessoas em situação sem abrigo não são apenas um número, onde a crise demográfica se expressa e se sente no dia-a-dia e onde a crise climática se concretiza em fenómenos adversos pontuais e permanentes”, o artigo discute a importância das autarquias verem os seus projectos mais informados pela ciência psicológica, as suas equipas reforçadas com psicólogas e psicólogos e a amplitude do seu papel aumentar em seis áreas nele discutidas, para em proximidade, relação e procurando a personalização das respostas, promoverem o bem-estar e a coesão social das populações.

Também porque “à crise COVID-19 suceder-se-ão novas crises resultantes de um Mundo de incerteza e volatilidade crescentes e de desafios societais complexos” e por Portugal ter já cerca de 25000 psicólogas e psicólogos “disponíveis, comprometidas e comprometidos, motivados e motivadas” que podem e querem “contribuir no presente para o futuro do país.”

 

Nota: A 10.09 assinala-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, desafio que a todas e todos convoca porque cada pessoa é agente na prevenção deste gravíssimo problema de saúde pública com forte impacto nas pessoas, famílias e comunidades. A este propósito, numa situação de crise, ligue 808242424 (Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24). Numa situação de emergência ligue 112 (INEM).

Categories
Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Celebrar

Nigel Nicolson é um dos muitos escritores e escritoras que publicaram biografias ou outros textos em torno de uma das mais marcantes e mais complexas figuras da literatura mundial – Virginia Woolf. Filho de Vita Sackville-West, também ela escritora, contactou com Woolf a propósito da sua relação muito próxima com a sua mãe, de quem foi, além de amiga, amante. A certo momento Woolf disse a Nicolson que “nada acontece verdadeiramente até estar escrito”, momento que diz marcante na sua vida.

Penso esta frase numa perspectiva de “inscrição” muito explorada no trabalho e na reflexão de José Gil e no papel que a escrita (no sentido também da reflexão e da partilha) tem nos nossos acontecimentos e nas nossas práticas em vida. Penso-o também 48 horas depois do Dia Nacional do Psicólogo (04.09), ao reflectir sobre a importância da sua “inscrição” pela Assembleia da República em 2018 para celebrar o papel das já quase 25.000 psicólogas e psicólogos que dia-a-dia, com a sua ciência e a sua prática, contribuem para o bem-estar de pessoas e organizações e para a coesão social no nosso país. Penso-o final e curiosamente a propósito da fase de candidaturas para o Prémio Ano Profissional Júnior 2020 que a Ordem dos Psicólogos Portugueses atribui e cujas normas e formulário de candidatura se encontram disponíveis aqui.

Porque aos desafios que hoje vivemos se sucederão outros, alguns deles particularmente complexos; porque, mais do que nunca, necessitamos de todas e todos a construírem a ciência e a profissão e a trazerem inovação e proximidade às pessoas, à sua linguagem e aos seus acontecimentos de vida mais significativos; porque, precisamos de inscrever práticas para as reflectir e para que partilhadas possam informar, melhorando, outras e possam chegar a mais pessoas; e porque precisamos de celebrar o tanto de bom que dia-a-dia, psicólogas e psicólogos, fazem por vezes em condições particularmente difíceis e exigentes – estimulo todas e todos os colegas que preencham as condições de candidatura a fazerem-no e a todas e todos os outros a acompanharem os projectos candidatos e o projecto vencedor, numa celebração da nossa ciência, da nossa profissão e do contributo que cada uma e um de nós também deu ao que informou aqueles projectos e ao que permitiu o resultado dos mesmos, no benefício de pessoas, organizações e da nossa sociedade.

Construamos e celebremos, sempre, a psicologia. A bem de estar cada vez mais próxima, mais acessível e mais capaz de apoiar as pessoas, os grupos e a sociedade nos desafios societais complexos que enfrentaremos.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Menos (Ao redor…; Sábado; 24.08.2021)

Passei centenas de vezes naquele portão preto. Uma parte sempre fechada e outra sempre aberta que “separava” o interior do recinto daquela escola primária da minha rua, rua da aldeia onde cresci e vivi a primeira metade da minha vida. Brinquei e brincámos naquele recinto, em dias de semana e ao fim de semana, durante o dia e a noite. Brinquei e brincámos até que um dia o lado sempre aberto do portão encontrou o lado sempre fechado e assim permaneceu, criando uma barreira e fazendo daquele recinto escolar uma ilha apenas utilizável num pequeno período de tempo, por um pequeno grupo de pessoas. Espaço anulado enquanto espaço de todas e todos, enquanto bem-comum.

“Gosto de estruturas híbridas. Não quero uma igreja que sirva apenas uma vez por semana. Para mim, um edifício bem-sucedido é um edifício de utilização permanente”, afirmou recentemente David Adjaye, arquitecto responsável pelo projecto do Museu Nacional da História e da Cultura Afro-Americana (Washington, EUA). Diz imaginar “um futuro em que templo e universidade sejam um só”, defendendo múltiplas utilizações do espaço a que acrescento, pelo maior número de pessoas (diversas), de actividades e de tempo possível. Um “templo-universidade”, uma praia para o ano inteiro ou uma escola, pavilhão ou outra infraestrutura a todo o momento disponível e acessível à comunidade. Multiutilizações de espaços e estruturas que, se projectadas de acordo com o resultado do envolvimento activo das cidadãs e dos cidadãos e conscientemente com esse fim, podem fazer jus ao bem-comum criando mais oportunidades e outras dinâmicas com menos.

A crise climática que vivemos desafia-nos e confronta-nos com a urgência de pensarmos o presente e o futuro, considerando o nosso comportamento e estilo de vida e o comportamento e estilo de vida das pessoas que connosco habitam o nosso planeta. Se em parte já significativa do Mundo se tornou prática a reciclagem, temos rapidamente assistido a um impulso para a reutilização de materiais utilizados. Em todo o caso, é também hoje claro – até pelos recentes e muito mediatizados dados disponibilizados pelo Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas (IPCC) – que um terceiro “R” será fundamental para mitigar a emergência climática resultante da acção humana – Reduzir.

Se até as energias renováveis, solução mais evidente para os problemas da utilização de combustíveis fósseis, têm “custos ambientais”; se a população e a pressão sobre os recursos do planeta continua a aumentar; se as florestas e os oceanos estão cada vez mais fragilizados; se continuamos a desperdiçar mais de mil milhões de toneladas de alimentos (cerca de um terço do total produzido) a cada ano; mas também se um determinado comportamento ou prática nos “aprisiona” e nos rouba espaço e oportunidade; e se a repetição e a hiperespecialização, particularmente quando precoce, não nos prepara para um Mundo de complexidade e ambiguidade, a solução tem e terá que ser reduzir. Desacelerar, desapegar, diversificar, diminuir e reduzir a caminho de um menos que, conforme Adjaye preconiza, pode ser mais. De um menos que pode não apenas ser conciliável com o bem-estar, mas até seu gerador. De um menos que previne a desigualdade e iniquidade e que promove a partilha e a coesão social.

No entanto, o caminho para este menos não é nem linear, nem simples, nem imune a perdas, podendo beneficiar de uma progressiva generalização da percepção de que o ser humano e o seu comportamento são influenciados quer pela inércia (conforme definida pela Física), quer por um conjunto de viés que concorrem para um certo “egoísmo”, muitas vezes não consciente, que nos centra em nós (e menos nas e nos outros), no nosso contexto (e menos nos contextos ao nosso redor) e no presente ou futuro de curto prazo (e não no de médio ou longo prazo) quando tomamos pequenas decisões associadas, por exemplo, a consumir algo, a deslocarmo-nos e à forma escolhida para essa deslocação ou a comprar ou não algo. Pode ainda beneficiar de uma mais ampla percepção de que mudar é, pelo questionamento inerente, pela energia que implica e pelo que impacta em nós e no nosso grupo mais próximo, muito difícil e muito desafiante. Difícil e desafiante, mas possível, particularmente quando a mudança resulta de um ou mais objectivos com significado que estabelecemos, incentivados e valorizados por outras, outros e pela sociedade, com propósito individual e social.

Essa mudança beneficiará, também, de uma atitude coerente e congruente com o conhecimento existente, que determina que algumas pessoas podem necessitar de incentivos para a compreensão e aceitação da necessidade de mudar e/ou apoio ao desenvolvimento de competências e oportunidades que permitam a mudança. Daqui resulta que devemos, enquanto sociedade, organizar-nos e prepararmo-nos, para mudar, apoiando as e os de nós que possam ter mais dificuldades neste processo.

Esta mudança, atendendo às dimensões de bem-estar envolvidas, não poderá acontecer “contra as pessoas” e, por isso, não poderá assentar apenas em restrições e proibições, mas numa progressiva maior consciencialização das pessoas, pela informação e literacia, das consequências (individuais e sociais) das suas decisões e comportamentos, nomeadamente nos que remetem para um consumo (mais consciente) e dessa forma para a possibilidade de uma mudança incremental e da avaliação progressiva e contingente de sucessos (individuais e sociais, também).

Esta mudança tem, finalmente, que envolver um grande número de pessoas – das crianças mais pequenas às adultas e aos adultos mais velhos e da “cidadã comum” ao empresário ou à decisora – e ser alimentada e reforçada pelas diversas oportunidades de criação de valor e utilização sustentável dos recursos e de gerações com experiências muito diversas que conseguem projectar memória da vivência em sociedade há quatro, cinco, seis décadas e projectar-se na sociedade nas próximas quatro, cinco, seis décadas, permitindo um olhar sobre o presente informado pelo passado e pela expectativa de futuro.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, há espaço, particularmente em algumas sociedades e contextos, para conciliar a necessidade de desacelerarmos, nos desapegarmos, de diminuir, diversificar e, particularmente, de reduzirmos com a possibilidade de bem-estar. Há espaço para, neste processo, ganharmos proximidade, tempo, foco e energia, logo maior qualidade de vida. Há espaço para mais e melhor relação connosco, com as outras e outros e com o que nos rodeia, promovendo a resiliência e a coesão social. Há espaço para um consumo mais consciente individual e colectivo, para maior partilha e para a tomada de decisão e gestão conjunta dos bens-comuns por todas e todos e para todas e todos, as e os de hoje e as e os de amanhã, garantindo maior justiça social intergeracional. Há espaço para que, dia-a-dia, integremos que menos pode ser mais. Que menos, será mais.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 24.08.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/menos

Categories
COVID-19 Psicologia

Da esperança…

“Hoje é um dia de esperança na batalha contra a COVID”, disse Fernando Araújo no início da semana, aquando da desmontagem do Hospital de campanha, instalado no Centro Hospitalar Universitário de São João desde praticamente o início da pandemia.

Este é um momento que tem uma componente simbólica muito forte e importante. Porque o CHSJ teve, tem e certamente terá um papel relevantíssimo na resposta à pandemia (e ao que ainda viveremos das suas consequências directas e indirectas) e é, não raras vezes, visto como um barítono da resposta do SNS; porque o CHSJ ousou liderar alguns processos de forma visionária, como é exemplo a resposta que o seu serviço de psicologia, em boa hora criado e superiormente dirigido pelo Eduardo Carqueja, teve ao longo deste período; porque, finalmente, este “desmontar” corresponde a um movimento de adaptação que as pessoas, os serviços e a sociedade foram capazes de fazer face a este enorme desafio, muito apoiado na imunização significativa da população, cumprindo-se um dos principais propósitos do esforço colectivo dos últimos longos meses.

A esse dia sucede-se o dia hoje (1.9). Para algumas pessoas dia de fim de férias e para muitas famílias dia em que crianças/jovens retomam algumas actividades (ainda não curriculares) e preparam o novo ano lectivo. Diria, portanto, que toda esta semana é, simbolicamente, uma semana de esperança na batalha contra a COVID-19 e uma semana de regressos. Regressos esses que, sendo muito importantes na necessidade de conciliação de medidas de segurança sanitária com medidas de promoção e protecção da saúde psicológica e do bem-estar das pessoas, nos devem manter “alerta” para a necessidade de apoiarmos aquelas e aqueles de nós que possam neles sentir mais dificuldades, sejam elas por circunstâncias do seu contexto, da sua experiência ou até por vulnerabilidades prévias. Além deste apoio, creio fundamental mantermo-nos também “alerta” para recomendações que ainda existem, nomeadamente no que toca à necessidade de continuarmos a protegermo-nos também protegendo as outras e os outros, dando significado ao esforço e aos resultados que se obtiveram.

Sobre isto conversei com o Rui Gustavo para a peça “Máscara até quando” publicada no Expresso (20.8) que partilho e que abre com uma passagem sobre o “hindsight bias”: “Há um ano era difícil imaginar um mundo em que toda a gente usasse máscara. Agora, é difícil imaginar o mesmo mundo com pessoas a conviverem umas com as outras sem máscara”. Nela reflicto sobre o facto da acessibilidade, experiência e da possibilidade hoje existente do uso de máscara conduzir a que, mesmo quando não obrigatória, o seu uso com múltiplos fins possa persistir, durante algum tempo, junto de algumas pessoas, em algumas situações.

Adpatamo-nos às restrições. Adaptar-nos-emos ao seu levantamento. Num e noutro processo, alguns e algumas de nós com dificuldades que devem, sempre, ser validadas e apoiadas a bem do bem-comum e da possibilidade de bem-estar de todas e todos.