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Democracia Desafios da Psicologia Política

Teorias da conspiração – uma perspectiva da psicologia (Público; 19.08.2021)

As teorias da conspiração não são uma novidade no nosso Mundo. Aliás, parecem sempre ter existido.  Remetem para tentativas de explicação das causas últimas de eventos políticos ou sociais relevantes já acontecidos ou por acontecer, baseadas na acusação de alguém ou de algum grupo visto como um inimigo poderoso e malévolo. São, normalmente, explicações curtas e simples para grandes e complexos problemas; são, regra geral, apelativas ao apresentarem soluções também elas simples e, sobretudo, definitivas para problemas das pessoas e da sociedade; são, finalmente, propagáveis porque usam e abusam da dimensão emocional e muitas vezes de mentiras e manipulações pelo que, com ou sem intenção, são facilmente disseminadas pelas pessoas junto de outras pessoas.

Então porquê esta preocupação agora? Porque é hoje tão importante compreender as bases deste problema? Diríamos por três motivos fundamentais: (1) porque, com o desenvolvimento das redes sociais digitais e da sua arquitetura, o impacto é hoje muito maior. Posições minoritárias têm agora um eco muito maior, pela lógica de “bolhas” e de facilidade de disseminação da informação e, particularmente, da desinformação (até 6 vezes mais rápida segundo alguns estudos). Isto pode potenciar a utilização das teorias da conspiração para fins menos claros de manipulação das pessoas, seja para se obterem ganhos económicos diretos, através das partilhas das publicações, seja como forma de fragilizar o poder e as instituições em sociedades democráticas; (2) porque vivemos um período sério de crise (veja-se a pandemia COVID-19), onde as teorias da conspiração tendem a ser mais eficazes. Preenchem “vazios” e oferecem “controlo”, compensando uma menor confiança nas autoridades, instituições e comunicação social e beneficiando da crescente diluição de mediadores; (3) porque, enfim, podemos. Temos hoje uma vasta evidência científica, particularmente uma ciência psicológica mais desenvolvida, que nos pode ajudar a compreender, prevenir e mitigar o fenómeno e as suas amplas consequências.

Apesar de todas e todos sermos suscetíveis a acreditar e/ou disseminar desinformação, é cientificamente relevante a maior propensão de algumas pessoas para acreditarem em teorias da conspiração. A ciência parece mostrar que as pessoas que acreditam numa determinada teoria da conspiração têm tendência para acreditar noutras, que muitas vezes são até contraditórias entre si. Este facto sublinha a existência de traços (ou pelo menos características) partilhados por estas pessoas, pelo que é fundamental observar as dimensões psicológicas associadas às pessoas mais vulneráveis a estes fenómenos.

Logo à partida parece clara a utilização das teorias da conspiração numa procura por sensações de controlo e de segurança. Segurança de que a pessoa sabe o que se passa, de que detém um conhecimento superior face aos outros e às narrativas oficiais. Consegue, deste modo, responder à incerteza, à imprevisibilidade e ao contraditório, um pouco à semelhança do que acontece quando se usam crenças paranormais ou superstições. Neste sentido, estarão mais vulneráveis pessoas mais alienadas ou revoltadas face à organização social vigente. Igualmente, pessoas com menor capacidade de regulação emocional e que, por isso, utilizam mais automatismos e estão mais expostas a viés deles decorrentes nos seus processos de tomada de decisão.

Além do controlo e segurança, vários estudos têm também demonstrado que as teorias da conspiração são particularmente apelativas junto de pessoas com outras necessidades psicológicas por satisfazer como a auto-estima. Ao explicarem o desconhecido, as teorias da conspiração permitem às pessoas uma sensação de satisfação por conseguirem explicá-lo, fazendo-as sentirem-se especiais e resultando em acréscimos de auto-estima. Não será por isso estranho que o narcisismo, pautado por maior individualismo, centração em si e por uma extrema necessidade da pessoa afirmar a sua superioridade e de se considerar melhor do que a maioria das pessoas, se constitua como uma predisposição para adotar teorias conspirativas que colocam a culpa noutras pessoas ou grupos. Associando este fator aos comuns traços de impulsividade nestas pessoas e à sensação de angústia, desespero e mau estar psicológico, viver num Mundo com “pessoas malévolas” pode ser de algum modo “reconfortante”, pois fornece uma explicação para as suas emoções mais “negativas” como o medo, a raiva ou o ódio. Poderá ainda ser mais reconfortante pela associação a um grupo especial, que consegue perceber coisas que os outros não são capazes de compreender, o que será ainda mais reforçado com a diabolização de outros grupos. Este fenómeno gera maior polarização e tribalismo e ajuda a explicar também porque pessoas socialmente mais vulneráveis poderão ter uma maior tendência de identificação com estes grupos.

Resta assim claro que as teorias da conspiração promovem prejuízos sérios, uma vez que contribuem para a diminuição da confiança e para a dicotomização e polarização das opiniões e consequente incapacidade para encontrar soluções equilibradas (veja-se, por exemplo, o impacto na saúde pública dos movimentos anti-vacinas alimentados por teorias da conspiração).

Mas nem tudo é negativo. Este fenómeno pode concorrer para acelerarmos e intensificarmos seis mudanças urgentes na sociedade: (1) investir em maior transparência nas ações políticas, questionando as inconsistências de algumas decisões e abrindo a discussão de temas que de outro modo poderiam não ser discutidos; (2) promover a educação, a diversidade e acesso ao contraditório e a literacia das pessoas e da sociedade como antidoto e fator de inoculação face às teorias da conspiração. Em paralelo, influenciar mudanças nos algoritmos utilizados nos motores de busca e redes sociais nesse sentido, permitindo que uma busca de um qualquer tema ou o simples navegar em redes sociais permita acesso ao contraditório e diverso e não apenas a posições reforçadoras das ideias ou crenças de quem procurou; (3) desencadear mecanismos de reforço da confiança, de reforço da coesão e da conexão entre pessoas e grupos (incluindo políticos) por oposição ao extremar ideológico dos mesmos; (4) apostar na promoção da saúde psicológica da população, prevenindo as situações que expõem as pessoas a estes fenómenos, através da promoção da capacidade de adaptação, de resiliência (individual e social) e da crença na possibilidade de bem-estar e num Mundo tendencialmente justo e seguro; (5) investir na literacia digital e na capacitação das pessoas para uma utilização consciente das tecnologias de informação e comunicação e das redes sociais, assente no desenvolvimento de pensamento crítico sobre a informação disponibilizada e da capacidade de distinção entre factos / evidências e opinião; (6) investir no combate às iniquidades, desigualdades e a todas as formas de exclusão.

Bem sabemos quão longo, complexo e desafiante é este caminho. As desigualdades, as dificuldades económicas e sociais, a vulnerabilidade a abusos e as sensações de injustiça são um combustível ótimo para as pessoas embarcarem neste conforto de se sentirem parte de algo importante e poderoso. Parecem poder acabar com o mal do Mundo, punir os culpados e, enfim, sentirem-se compensados de todos os males sofridos. As psicólogas e os psicólogos podem ter um papel importante no trabalho com estas pessoas pelo seu papel na facilitação do desenvolvimento de mecanismos mais funcionais que as possam ajudar a lidar com as suas dificuldades. A ciência psicológica pode contribuir com evidência para a compreensão do fenómeno e para ajudar quem decide a desenvolver políticas que o possam prevenir e mitigar. Enquanto sociedade, temos a responsabilidade de valorizar a diversidade e de sermos mais inclusivas e inclusivos e promotores de pontes entre as pessoas, diminuindo a sua marginalização e vulnerabilidade às teorias da conspiração e a outros fenómenos que impactam significativamente a sua possibilidade de bem-estar.

 

Miguel Ricou e Tiago Pereira

Jornal Público; 19.08.2021

https://www.publico.pt/2021/08/19/sociedade/opiniao/teorias-conspiracao-perspetiva-psicologia-1974559

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Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia

Impaciência do Coração

Já havia escrito a propósito da (feliz) coincidência da estreia do programa “Impaciência do coração” ter acontecido num dia para mim impossível de esquecer, porque nele “tive” o que de mais significativo posso esperar na minha vida.

Volto ao programa hoje para convidar, a quem possa interessar, a ver (ou rever) o episódio ontem transmitido na RTP2 no qual converso com a Gabriela Moita sobre questões em torno da informação e da desinformação.

Uma conversa, superiormente conduzida pela Gabriela Moita e para mim muito estimulando, onde procuro com a minha reflexão dar um pequeno contributo para, na linha do slogan de um projecto jornalístico que acompanhei (até deixar de ter a sua versão internacional), percebermos um pouco melhor porque o que está a acontecer está a acontecer e não apenas sabermos ou percebermos que está a acontecer.

Uma conversa sobre os pressupostos da desinformação, os seus impactos e consequências, o que sabemos e não sabemos e o que podemos fazer. Uma conversa também em torno das questões da confiança e da polarização e dos contributos (e desafios também eles complexos nesta matéria) da ciência psicológica e do conhecimento de como as pessoas se comportam e tomam decisões para compreender, prevenir e mitigar estes fenómenos.

 

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática

Menos

“Passei centenas de vezes naquele portão preto (…) que “separava” o interior do recinto daquela escola primária da minha rua. Nele brinquei e brincámos em dias de semana e ao fim de semana, durante o dia e a noite (…) até que um dia o lado sempre aberto do portão encontrou o lado sempre fechado e assim permaneceu, criando uma barreira e fazendo daquele recinto escolar uma ilha apenas utilizável num pequeno período de tempo, por um pequeno grupo de pessoas. Espaço anulado enquanto espaço de todas e todos, enquanto bem-comum.”

“Menos”, 14º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) começa com esta minha recordação de infância e procura abordar a necessidade de juntarmos um terceiro “R” ao “Reciclar” e “Reutilizar”, o “Reduzir”. Não apenas reforça a sua evidente necessidade para mitigar a emergência climática resultante da acção humana – aliás sublinhada pelos recentes e muito mediatizados dados disponibilizados pelo Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas (IPCC) – como, a propósito de uma recente afirmação de David Adjaye (“Gosto de estruturas híbridas. Não quero uma igreja que sirva apenas uma vez por semana. Para mim, um edifício bem-sucedido é um edifício de utilização permanente”), procura afirmar que “há espaço para que, dia-a-dia, integremos que menos pode ser mais; que menos, será mais”.

Pelo meio, o artigo também aborda a possibilidade de “desacelerar, desapegar, diversificar, diminuir e reduzir” poder “não apenas ser conciliável com o bem-estar, mas até seu gerador” e desse menos ser um contributo na promoção da partilha e da coesão social e na prevenção da desigualdade e iniquidade. Para tal, precisaremos de “enquanto sociedade, organizar-nos e prepararmo-nos, para mudar, apoiando as e os de nós que possam ter mais dificuldades neste processo”, nomeadamente sublinhando a inércia e alguns viés que conduzem a um “certo egoísmo” do ser humano, muitas vezes não consciente, que nos leva a manter determinados comportamentos e a centrarmo-nos mais em nós (e menos nas e nos outros), no nosso contexto (e menos nos contextos ao nosso redor) e no presente ou futuro de curto prazo (e não no de médio ou longo prazo) quando tomamos decisões.

Discute ainda a importância da mudança ser feita a partir de objectivos com significado e propósito individual e social e com as pessoas e não contra as pessoas, pelo que não apoiada apenas em restrições e proibições, mas numa progressiva maior informação e literacia (consciencialização), que estimule um consumo mais consciente e a possibilidade da mudança incremental e sua avaliação progressiva. Finalmente, reflecte sobre a necessidade do envolvimento de todas e todos, do cidadão comum à decisora, do adulto mais velho às crianças nesta mudança, permitindo um olhar mais amplo sobre as possibilidade de criação de valor e de utilização sustentável dos recursos e sobre o presente, informado pelo passado e pela expectativa de futuro.

 

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COVID-19 Psicologia

Teorias da conspiração: uma perspetiva da psicologia

“Sabia que era errado mas era a única acção que poderia salvar o Mundo.”

A 13 de Agosto, o Observadornoticiou em Portugal um caso com cerca de 48 horas em que um homem (Mattew Taylor Coleman) terá confessado ao FBI ter assassinado os seus dois filhos (2 anos e 10 meses) por acreditar nas teorias da conspiração “QAnon” e “Illuminati” e no facto da mãe dos filhos lhes ter “passado ADN de serpente”.  Nesse exacto dia William Brady, psicólogo que liderou uma equipa da Universidade de Yale no estudo, publicava com a sua equipa na revista Science Advances mais um trabalho que confirma não apenas que os incentivos nas redes sociais mudaram o “tom” da nossa discussão e debate político e que os seus algoritmos intensificam a indignação moral, por serem desenhados para provocarem mais reacções quando esta se manifesta e, logo, por estas publicações serem mais rápida e amplamente disseminadas.

“As teorias da conspiração não são uma novidade no nosso Mundo. Aliás, parecem sempre ter existido”. Assim começa o artigo “Teorias da conspiração: uma perspectiva da psicologia” que partilho e que escrevi com o Miguel Ricou, publicado no final da semana passada no Público que procura responder a três perguntas que consideramos essenciais: Porque devemos estar hoje preocupados com as teorias da conspiração se sempre existiram?; Porque é tão importante compreender as bases do problema?; Para que mudanças que consideramos urgentes na sociedade este fenómeno pode concorrer?

O artigo reflecte sobre potenciais respostas a estas importantes perguntas em torno de um fenómeno que é hoje uma séria ameaça à saúde pública global e procura sustentar o porquê de enquanto sociedade termos “a responsabilidade de valorizar a diversidade e de sermos mais inclusivas e inclusivos e promotores de pontes entre as pessoas, diminuindo a sua marginalização e vulnerabilidade às teorias da conspiração e a outros fenómenos que impactam significativamente a sua possibilidade de bem-estar.”

Este artigo retoma uma “série” escrita pelo Miguel Ricou e por mim sobre questões que nos confrontam e desafiam na sociedade actual – “PandÉtica” (Expresso; 06.04.2020); “PanDemocracia” (Público; 16.04.2020); “PanResposta” (Observador, 23.04.2020); “PanMemória” (Observador; 11.05.2020); “PanLegitimidade” (Visão, 23.05.2020); “PanPopulismo” (Público, 30.06.2020) ; “PanConspirações” (Visão, 05.08.2020); “PanInformação” (Observador; 05.09.2020). Podem, caso vos interesse, encontrá-los na secção artigos deste meu Linkedin.

Ps. Convido-vos ainda, caso também seja do vosso interesse, a ver uma conversa entre mim e a psicóloga Gabriela Moita para um episódio da série “Impaciência do Coração” sobre informação e desinformação que passa na RTP2 próxima quarta-feira (25.08.2021) um pouco antes das 23h.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Política

Eu julgo, tu julgas, ela/s e ele/s julga/m, nós julgamos (Ao redor…; Sábado; 10.08.2021)

“Não há vestígios de mim no quarto onde a Meredith foi assinada (…) mas tentam encontrar a resposta nos meus olhos, quando a resposta está mesmo ali. Estão a olhar para mim. Porquê? Estes são os meus olhos. Eles não são provas objectivas.” Amanda Knox, jovem Americana duas vezes condenada e outras duas vezes ilibada, a última das quais definitivamente, da participação no violento homicídio da sua companheira de casa em Perugia (Itália) em 2007. Além dos quatro anos que esteve detida e dos oito anos de processo, ainda hoje muitas e muitos a julgam culpada (no mínimo corresponsável) deste crime, não porque existam provas ou sequer indícios nesse sentido, antes pela “inadaptação” do seu comportamento (assim sucessivamente descrito e caracterizado) na fase de investigação que se sucedeu ao crime e pela forma como reagiu a toda a pressão (psicológica) associada à situação e a que foi submetida.

Todas e todos julgamos. Todas e todos tendemos a crer, a supor, a formar juízo, normalmente valorativo, e até a sentenciar outras e outros, conheçamo-los ou não. Fazemo-lo para minimizar a incerteza que nos causa desconforto, particularmente quando estamos ou nos sentimos em situação de maior vulnerabilidade. Fazemo-lo porque assumimos conhecer o ou a outra e a situação, sendo-nos, portanto, possível compreender e expiar, distribuindo culpa e a afirmando a superioridade moral e de comportamento face às ou aos culpados (por vezes grupos). “São as pessoas a projectarem os seus medos. Querem a garantia de que sabem quem são as pessoas más e não são elas”, diz Amanda Knox. Algo tão comum que, em alguns círculos, é não apenas a norma mas identitário, funcionando o julgamento de outros e outras como parte de um todo em que quem o constitui, mais do que se identificar entre si, identifica-se nesse julgar, nesse combater, do e dos inimigos. Do ou dos inimigos, reais ou não, porque muitas vezes estes fenómenos resultam da utilização de desinformação ou mesmo da construção e proliferação de teorias da conspiração.

Isto, apesar da sociedade ter instrumentos democráticos que asseguram direitos às pessoas visadas ou mesmo investigadas, quando se trata de processos formais. Apesar de existirem normativos autorregulatórios sociais, das forças policiais ou de um conjunto de associações profissionais como a minha, cujo código deontológico, por exemplo, convoca os psicólogos e as psicólogas para uma atitude de “não julgamento” face a “outros colegas ou outros profissionais”. Isto, apesar de todos e todas já termos experienciado dúvida – se não mesmo arrependimento – após um julgamento de uma situação, pessoa ou grupo que mais tarde consideramos desadequado ou injusto. Isto, apesar de já todos e todas termos experienciado que detectar uma mentira, conforme inúmeros estudos têm demonstrado (ver, por exemplo, Paul Ekman ou Timothy Levine) nos é difícil (muito mais do que achamos). E isto, finalmente, quando, também ao contrário do que pode parecer, julgar é muito desafiante e difícil.

A conectividade, a velocidade e a globalidade que caracterizam o Mundo, hoje, fazem com que vivamos certamente as décadas em que mais pessoas contactam, por múltiplas razões, com pessoas de si diversas e para si desconhecidas. Viagens, de lazer ou de trabalho, organizações ou eventos multinacionais, redes sociais e outras tecnologias de contacto e conexão fizeram dos últimos 20 anos os 20 anos da história da humanidade em que mais nos relacionamos directamente com outras e outros nossos desconhecidos. Este facto explicará parte da colaboração nos fantásticos desenvolvimentos nos últimos anos nas áreas científica, desportiva ou artística para dar apenas três exemplos, que vivem da riqueza da diversidade e da complementaridade, mas também os mal-entendidos potenciais (não necessariamente problemáticos) quando contactamos com desconhecidos que, ao contrário do que intuitivamente poderíamos esperar (e do que achamos), até podem aumentar com mais contacto. Devíamos, assim, ser humildes e abertos quando contactamos com desconhecidos e desconhecidas. Ao invés, muitas vezes somos certos da “verdade” sobre eles e elas e disponíveis para investir, apenas, na confirmação dessa “verdade”. Certos e preparados para conscientemente não interromper o impulso e… julgar.

“Todas as pessoas julgam e por isso não estamos aqui para mudar a mente das pessoas e dizer que não julguem (…) antes para tornar a informação disponível em ambiente seguro para que possam tomar decisões, esperamos, mais informadas”. Palavras de Ronnin Abergel, fundador e Director da Humam Library (Biblioteca Humana) criada em 2000 com o lema “Unjudge someone” (Não-julgues alguém) e cujo objectivo último visa a criação de espaços permanentes de conversação sobre a diversidade, baseados não em julgamentos impulsivos (automáticos) mas racionais (ponderados) após contacto com alguém que sabe, conhece ou vive a situação em apreço, permitindo a discussão de assuntos desafiantes e o colocar “à prova” os nossos estereótipos. Um projecto cujo fim último é relevantíssimo para a coesão social, qualidade de vida e vida em sociedade de todas e todos e que usa da transposição da biblioteca (de livros para humana), do ditado popular “não julgues um livro pela capa” (de um livro para uma pessoa) e da arte enquanto veículo primordial para a compreensão, aceitação e para a ideia de não julgamento – “Don´t let me be misunderstood” (Não me deixes ser mal-entendida), cantava Nina Simone.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, devemos promover estes contactos e diálogo na diversidade com relação, segurança e com confiança nas e nos outros, como forma de construirmos uma sociedade não baseada numa atitude permanente de julgamento, de trincheira e de estereótipos e preconceitos. Aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos, também pela promoção da saúde psicológica, da empatia, da abertura, da aceitação, da resolução não violenta de conflitos, da mediação e da negociação, afirmar a honestidade e a confiança por defeito como princípios humanos e valores humanistas, enfrentando os reveses de quando se comprova que assim não é, mas prevenindo os que resultam de uma atitude em que, por princípio, assim nunca é. Aqui e ali, no Mundo ao redor, ganhemos, desta forma, mais tempo e energia para nos (re)centrarmos no que controlamos, investindo em nós, no nosso autocuidado e na promoção de competências que nos permitam crescer e contribuir para um Mundo tendencialmente justo e seguro e enquanto espaço possível de bem-estar para todas e todos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, reflictamos na situação vivida por Amanda Knox e nas suas palavras – “Há quem acredite na minha inocência. E há quem acredite na minha culpa. Não há meio termo. E, se sou culpada, isso significa que sou derradeira figura a temer. Porque não sou a óbvia. Mas, por outro lado, se sou inocente, isso significa que todos somos vulneráveis e esse é o pesadelo de todos” – buscando o efeito tranquilizador de sabermos que o erro de não condenar (nas múltiplas aceções da palavra) quem o mereceria tem um valor (democrático e de direitos humanos) claramente distinto do de condenar quem não o mereceria.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 10.08.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/eu-julgo-tu-julgas-elas-e-eles-julgam-nos-julgamos

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COVID-19 Desafios da Psicologia

1 milhão

Ao contrário das adeptas e dos adeptos do FCPorto e de futebol no geral, muitas pessoas recordam João Pinto, ex-jogador de futebol, quase exclusivamente por uma resposta a uma pergunta em que lhe era pedia a antevisão de um jogo: “Prognósticos? Só no fim do jogo.” Uma “adaptação” ao fenómeno desportivo da “dificuldade de fazer previsões, particularmente sobre o futuro” algo particularmente verdadeiro quando essas previsões dependem da conjugação de múltiplas, algumas delas incertas, variáveis, e cuja pandemia COVID-19 é um exemplo. Neste grande desafio societal global foi a ciência (que muito rapidamente lhe respondeu) que, também ao permitir a decisão informada das autoridades, introduziu a previsibilidade possível e necessária às populações num momento de incerteza.

O trabalho do @André Manuel Correia do Expresso recorda a capa do jornal no dia 29.02.2020 onde a Directora Geral de Saúde admitia que num dos cenários com que se estava a trabalhar se estimava a infecção de 10% da população, cerca de 1 milhão de pessoas. Esta manchete, num momento em que não existiam ainda casos de COVID-19 confirmados em Portugal, foi muito discutida e demonstrava que além de ser difícil fazer previsões, é difícil comunicar previsões (e não apenas) e explicá-las. Hoje já ultrapassamos esse cenário que, conforme a evolução da pandemia e do conhecimento foi ajustado e já aponta para outro valor, e é muito mais perceptível para toda a população.

No meu contributo para esta peça foco-me na dimensão das dificuldades e problemas de saúde psicológica que sugiram ou se aprofundaram com a pandemia e com o que dela resultou e resultará. Usando da analogia anterior, creio hoje mais evidente para todas e todos, a importância da saúde psicológica no bem-estar (e também na coesão social) e a prevalência de problemas a este nível (porque assim estamos ou temos pessoas próximas nesta situação e porque há hoje mais consciência e literacia na sociedade que permite o seu reconhecimento e que sobre isso se fale e discuta). Reforço também o papel que a ajuda (nomeadamente o apoio psicológico) contigente pode desempenhar em momento de maior vulnerabilidade das pessoas – “Quando enfrentamos uma dificuldade, uma crise, um desemprego, um divórcio ou um luto, é muito importante ter um apoio, até pode ser pequeno desde que seja próximo” – o que convoca o país e toda a sociedade para se organizar no sentido de procurar garantir este apoio e o suporte emocional de que necessitamos.

Se assim for, a previsão, ainda que com as incertezas, será sempre melhor para cada um e uma de nós, país e Mundo fora.

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Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade

20 anos de CRESCER

Iniciei a minha formação em Psicologia no primeiro ano do novo milénio. Nesse 2001 um conjunto de profissionais da área da intervenção comunitária (parte hoje colegas), criava a “Crescer na Maior”, hoje @CRESCER. Associação que, ao longo destes 20 anos, cresceu da intervenção com crianças/jovens numa área geográfica reduzida para um conjunto amplo de geografias e de situações de vulnerabilidade: prevenção, redução de riscos e minimização de danos em consumidoras e consumidores de substâncias psicoactivas; prevenção do abandono escolar precoce, suporte a percursos de re(inserção) do mercado de trabalho e promoção da empregabilidade; apoio à inclusão de pessoas em condição crónica ou em situação de sem abrigo; apoio à inclusão social e comunitária de refugiadas e de refugiados; e apoio a pessoas em situação de maior vulnerabilidade (que acumulam várias das condições anteriores).

20 anos a crescer e a ousar cruzar conhecimentos e experiência que dia-a-dia a equipa adquiriu no trabalho e na relação com as pessoas que beneficiavam da sua intervenção, com a melhor evidência científica, também da ciência psicológica, suportando projectos inovadores: das equipas de rua (“É uma rua”), à metodologia housing first (“É uma casa”), aos Marhaba, “É um restaurante” e “É uma mesa”.

20 anos de resiliência numa área (intervenção comunitária) onde todas e todos sabemos (eu de experiência própria) cujos resultados não estão à distância de um estalar de dedos. Numa área onde persiste uma visão, muitas vezes das autoridades e de decisoras/es, tendente a que as pessoas que nela trabalham não necessitam de “muitas condições” porque ainda muito associada às importantes (mas insuficientes, não continuadas e muitas vezes pouco conectadas com a evidência científica) intervenções voluntárias. Numa área em que precisávamos de um Deus Grego que não o Chronos ou o Kairós para descrever o “tempo da intervenção comunitária” e os hiatos entre a necessidade do apoio, a sua disponibilidade e a sua efectivação, com tudo o que isso impacta em perda no resultado potencial da intervenção e, principalmente, em sofrimento e exclusão das pessoas.

20 anos de empenho e compromisso e de, no quadro de “frustrações” e de desafios muito complexos, existir sempre um sorriso e confiança na outra ou o outro, seja ela ou ele quem for. Um sorriso, um confiar e um braço que procura ligar, quem assim o deseja e no respeito mais integro dos seus direitos humanos (e da sua história e experiência), a uma relação, grupo e comunidade. Um braço que lá está também por cada um ou uma de nós e para cada uma ou um de nós e que representa fielmente a promoção da coesão social e da autodeterminação e do bem-estar de todas e todos – afinal, o que me fez e faz ser psicólogo.

20 anos onde a sua zona de conforto, conforme a campanha que lançaram, sempre foi “abaixo do radar (mediático)” mas em que o desconfortável foi (é e será) “não poder ajudar”. Conheçam. Envolvam-se. Muito obrigado, Crescer.

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Ao redor... (Revista Sábado) Psicologia

Eu julgo, tu julgas, ela/s e ele/s julga/m, nós julgamos

“São as pessoas a projectarem os seus medos. Querem a garantia de que sabem quem são as pessoas más e não são elas”.

Palavras de Amanda Knox, jovem Americana 2 vezes condenada e outras 2 vezes ilibada, a última das quais definitivamente, da participação no violento homicídio da sua companheira de casa em Perugia (Itália) em 2007. Muitas e muitos, volvidos 14 anos e depois de uma mediática investigação e de diversos tribunais, a julgam culpada (no mínimo corresponsável) deste crime, não porque existam provas ou sequer indícios nesse sentido, antes pela “inadaptação” do seu comportamento (assim sucessivamente descrito e caracterizado) na fase de investigação que se sucedeu ao crime e pela forma como reagiu a toda a pressão (psicológica) associada à situação e a que foi submetida.

“Eu julgo, tu julgas, ela/s e ele/s julga/m, nós julgamos”, 13º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) procura pensar e reflectir sobre o porquê de todas e todos, assumindo conhecer a ou o outro ou outros e as diversas situações, tendermos a julgar. Isto quando existem na sociedade instrumentos (democráticos), normativos sociais e até autorregulatórios que o previnem, quando já todas e todos experimentados dúvida (ou até arrependimento) sobre um julgamento que fizemos, quando nos é tão difícil, como a investigação comprova, detectar mentiras e quando nos é tão desafiante julgar.

No entanto, o julgamento cumpre invariavelmente um papel. Preenche vazios, permite a expiação, a distribuição de culpas, a identificação e a formação de grupos. Também por isso diminui a confiança nos e nas outras e nas instituições da sociedade, polariza, entrincheira. “Devíamos, assim, ser humildes e abertos quando contactamos com desconhecidos e desconhecidas”, escrevo, quando “ao invés, muitas vezes somos certos da “verdade” sobre eles e elas e disponíveis para investir, apenas, na confirmação dessa “verdade”. Certos e preparados para conscientemente não interromper o impulso e… julgar.”

“Unjudge someone” (Não-julgues alguém) é o lema da Biblioteca Humana, projecto criado em 2000 visando a criação de espaços permanentes de conversação sobre a diversidade, baseados não em julgamentos impulsivos (automáticos) mas racionais (ponderados) após contacto com alguém que sabe, conhece ou vive a situação em apreço, permitindo a discussão de assuntos desafiantes e o colocar “à prova” os nossos estereótipos. Devemos promover estes contactos e diálogo na diversidade com relação, segurança e com confiança nas e nos outros, como forma de construirmos uma sociedade não baseada numa atitude permanente de julgamento, de trincheira e de estereótipos e preconceitos. Podemos fazê-lo investindo na promoção da saúde psicológica, da empatia, da abertura, da aceitação, da resolução não violenta de conflitos, da mediação e da negociação, afirmando a honestidade e a confiança por defeito como princípios humanos e valores humanistas também porque “o erro de não condenar (nas múltiplas aceções da palavra) quem o mereceria tem um valor (democrático e de direitos humanos) claramente distinto do de condenar quem não o mereceria.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Balda da Escassez (Ao redor…; Sábado; 27.07.2021)

Em 20 anos desembarcaram cerca de 400.000 migrantes em Lampedusa, ilha Italiana com 20 km quadrados e menos de 7000 habitantes. Assim começa o documentário “Fogo no Mar” de Gianfranco Rosi (2016), assinalando as muitas pessoas que em condições de enorme vulnerabilidade, chegam à ilha depois da travessia do Mediterrâneo (estreito da Sicília). A essas somam-se as cerca de 15.000 que se estima terem nele perdido a vida, mais de 2 pessoas em média a cada dia daqueles 20 anos.

O documentário, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2016, continua com uma imagem de uma cozinha e de uma mulher que poderia ser cada uma de nós ou nossa familiar. Prepara um refogado com os tomates de que conhecemos a cor, o sabor e o cheiro. Ouve uma rádio local de que conhecemos os programas e os sons. A diferença nem está na segunda notícia do noticiário daquele Domingo (o anúncio de cortes na eletricidade na ilha), apenas na língua e na notícia que o abre: mais um barco naufragado com 250 pessoas, mais 204 pessoas “salvas” mas mais 34 corpos recuperados, entre os quais mulheres e crianças, e 12 ainda por recuperar. “Pobres almas”, diz para si a mulher, sozinha na cozinha.

Em Agosto de 2019 todas e todos olhamos as águas de Lampedusa quando nesse Agosto acompanhamos as sucessivas recusas de Matteo Salvini, então Ministro do Interior Italiano, aos pedidos de acostagem do navio “Open Arms” com 147 migrantes resgatadas e resgatados do mar a bordo. Pensamos certamente nas pessoas a bordo e na complexidade da situação. Ouvimos Salvini defender a sua posição voltando à “alma” (“Não me pagam para ser uma boa alma…”) e focando sempre a associação a questões securitárias (“…mas para defender a segurança (…) confirmo, tenho a obsessão pela segurança dos cidadãos”).

Ao contrário da relação que Salvini pretende estabelecer, se há algo que une as diferentes pessoas que arriscam a travessia do Mediterrâneo procurando chegar à Europa, não é certamente o potencial para o crime e para colocar em causa a segurança do continente, antes a escassez. A escassez económica, é certo. Mas, muito e muitas vezes, associada à escassez de liberdade de opinião/religião/orientação sexual. À escassez de paz, inclusão ou de qualquer outro direito universal. À escassez de poder ser-se pessoa, de ter as necessidades mais básicas preenchidas, de se viver com espaço e potencial para se cumprir e aspirar a qualidade e bem-estar.

É a escassez que as une, como é a escassez que une as pessoas que vivem em situação de pobreza e não qualquer marcador genético ou traço de personalidade consoante há décadas era comummente considerado. Numa célebre entrevista no final de 1978, Margaret Thatcher defendeu a “inexistência de pobreza primária no Reino Unido (e nos países ocidentais)” assegurando que os problemas que restavam a este nível resultavam da incapacidade de “gastar o dinheiro”, “gerir orçamentos” e, principalmente, dos “realmente complexos defeitos de personalidade” das pessoas nesta situação. Esta posição reflecte a “individualização” de um problema social sistémico e complexo, além de acentuar que a pobreza resulta de falhas de competências das pessoas, nomeadamente da falta de auto-controlo e de capacidade de planeamento e tomada de decisão. Mais de 40 anos passaram e, embora com matizes, esta é uma posição ainda frequente no debate político e público sobre as questões da pobreza o que redunda numa dupla penalização das pessoas que vivem esta situação – às suas impactantes consequências acresce que se estão em situação de pobreza será por sua responsabilidade, por sua culpa.

Uma posição cientificamente muito pouco sustentada. Particularmente nas últimas duas décadas a evidência científica disponível, muita proveniente da ciência psicológica, demonstra de forma cada vez mais sólida o contrário. Ou seja, ao invés da pobreza resultar de faltas de capacidade de uma determinada pessoa é a falta de capacidade que resulta da situação de pobreza. É a escassez associada à situação de pobreza que impele a pessoa a viver em exclusivo o momento presente, condicionando o bem-estar e qualidade de vida. É a escassez associada à situação de pobreza que, ocupando a “largura de banda cognitiva” disponível da pessoa (tal como quando demasiadas pessoas acedem à mesma banda larga de internet e a sua capacidade, fiabilidade e velocidade diminui), condiciona significativamente a sua capacidade cognitiva e o controlo executivo, impactando a tomada de decisão e de planeamento. Além destas constatações, a ciência tem ainda demonstrado a forte e cíclica associação entre pobreza e exclusão e a ausência de saúde psicológica, considerando que as situações de exclusão e pobreza são geradoras de ansiedade, stresse e depressão e que as pessoas com níveis mais elevados destes problemas e dificuldades de saúde psicológica estão mais vulneráveis e por isso mais expostas a situações de precariedade, pobreza e exclusão.

Exclusão também retratada no “Balada de um Batráquio” filme também vencedor do Urso de Ouro (mas das curtas-metragens) desse Festival de Berlim de 2016, realizado pela portuguesa Leonor Teles. Curta que começa com uma lenda sobre um “sapo que não foi convidado para a festa porque era feio” e que nos confronta com mal-entendidos e discriminação dissimulada, mas nem por isso menos ostensiva e normalizada, sobre a comunidade cigana a partir de uma superstição feita barro distribuído por montras e portas país fora – os desconcertantes sapos verdes que não mais pretendem que assinalar quem é e não é bem-vinda e bem-vindo. Onde na pobreza surgia a justificação do “traço de personalidade”, nesta exclusão é o “traço físico” e uma pertença comunitária que a define, desaproximando e, conforme a evidência científica tem demonstrado, reforçando o ciclo atrás exposto e polarizando grupos, gerando mais ciclos de exclusão, de dificuldades de convivência e da ausência de espaço para a criação das importantes penumbras sociais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a escassez persiste e é, não raras vezes, complementada e exponenciada por fenómenos de exclusão sobre quem com ela sofre. No momento de imprevisibilidade global que ainda vivemos pela pandemia, com o aprofundamento das desigualdades dele resultante e com o crescimento do risco potencial global de pobreza, é fundamental responder ao mais básico do mais básico das necessidades dos seres humanos, promovendo-se nas instituições e sociedade civil a confiança nas pessoas e promovendo a sua capacidade, autonomização e inclusão, interrompendo os acantonamentos e os ciclos de reprodução da escassez, exclusão e dos problemas e dificuldades de saúde psicológica. Hoje, fixos no presente que estamos também pela incerteza, é tempo de se preparar o futuro. Um futuro com mais ciência, com maior compreensão, com mais empatia e convivência. Um futuro com mais oportunidade de bem-estar e de qualidade de vida para todas e todos. Um futuro com mais coesão social e equidade. Um futuro com menos pobreza, exclusão e escassez.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 27.07.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/balada-da-escassez

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COVID-19 Desafios da Psicologia

Dialécticas…

Chegamos ao Verão de 2021 ainda desafiados pela incerteza e por alguma complexidade no que nos rodeia. O meu aniversário cumpriu-se neste tempo e esse dia teve para mim, simbolicamente, alguma da dialéctica do momento: um dia tranquilo, pacífico, de conforto, junto do que faz de mim parte de um “nós” bonito e, por tudo isso, feliz; um dia em que, ainda assim, “faltaram(-me)” algumas pessoas e em que o Mundo perdeu uma referência da minha formação enquanto pessoa e profissional – Albert Bandura.

Esse meu dia abriu uma semana que terminou com uma participação minha na TVI24 sobre o momento actual da pandemia e os seus impactos nas crianças. Nela, de certa forma, toco também estes três aspectos:

1) a forma como urge mais e melhor equilibrar o que são ainda medidas de protecção sanitária necessárias com medidas de promoção da saúde psicológica, particularmente considerando os grupos de crianças e jovens (e mães, pais e cuidadoras/es) com maiores vulnerabilidades, quer sejam decorrentes de serem previamente vítimas de situações de violência várias, de ansiedade social ou outras. Também e porque, além de resilientes, as crianças, se envolvidas e se confiarem, compreendem bem as normas e regras (e as suas alterações) e conseguem normalmente adaptar-se às mesmas (bastará pensarmos na forma como se “movimentam” bem nas diferenças de regras, por exemplo, no triângulo Casa-Escola-Casa dos Avós);

2) a importância das crianças “faltarem” às outras crianças e da relação e do brincar no seu desenvolvimento, bem-estar e na capacidade de empatizar com a outra e o outro e, portanto, de com pequenos mas intencionais e incrementais passos podermos ir-nos aproximando de uma realidade com mais interacção social e menor isolamento;

3) Bandura e a (“sua”) aprendizagem social, na necessidade de nos experimentarmos com e através das outros e dos outros, aprendendo com os seus comportamentos e com (a expressão) as suas emoções.

Falar ajuda, digo-o também. Por vezes não é suficiente mas ajuda. Como pensar nos ajuda a reflectir sobre o presente, um presente que nos desafia como indico e que tem crianças a sofrer os impactos em áreas diversas de “tantos meses com restrições, máscaras e com a sua espontaneidade diminuída” e do agravamento da desigualdade e do potencial de pobreza. A reflectir e a actuar, espero, para projectarmos um futuro conforme também indico com cidades a pensarem mais o bem-estar e a coesão social (e teremos eleições autárquicas em breve), com trabalhadoras e trabalhadores mais apoiadas e apoiados no equilíbrio entre vida pessoal e profissional (e debatemos por estes dias o livro verde do futuro do trabalho) e com pessoas mais atentas a si – com maior literacia em saúde e saúde psicológica – e à necessidade de cuidar de si e das outras e outros.