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Desafios da Psicologia Emergência Climática Psicologia

Dia da sobrecarga – 2021

A semana termina com a humanidade a já ter consumido a totalidade de recursos disponíveis no planeta para todo o ano. “Se tivéssemos necessidade de ser alertados da emergência climática e ecológica com que estamos confrontados, o dia da sobrecarga da terra encarrega-se disso” disse Susan Aitken, presidente da Câmara Municipal de Glasgow que regerá a COP26. Dia que, após chegar 3 semanas mais tarde em 2020, volta à sua preocupante e perigosa trajectória (29.12 1970; 04.11 1980; 11.10 1990; 23.9 2000; 7.8 2010; 29.07 2021). Em 2021 precisávamos de 1,7 planetas Terra para satisfazer as necessidades da população mundial, afirmou a ONG responsável pelo indicador que resulta do (des)equilíbrio entre a pegada ecológica da actividade humana e a “biocapacidade” do planeta.

Uma semana antes a TSF promoveu um Fórum (“O que devemos fazer perante as alteações climáticas? Agir é preciso.”) que, sucedâneo às graves inundações no Centro da Europa, nos confronta com o nosso papel na emergência climática. Já por aqui escrevi sobre isso no momento da organização com a APA de uma Summit que, sobre este tema, reuniu em Portugal organizações representativas de mais de 1 milhão de psicólogas e psicólogos de todo o Mundo.

Na minha participação no Fórum sublinhei a importância da literacia e saliência deste tema e da reflexão sobre os “incentivos” e “obstáculos” que se colocam à mudança, para que sobre uns e outros possamos agir, reduzindo os atritos para promover e facilitar as difíceis e exigentes mudanças – “tem que ser fácil reciclar, comprar produtos locais, movimentarmo-nos de bicicleta, utilizar menos plástico” e para isso devemos utilizar “incentivos, mobilizadores e normas sociais e até o papel que as crianças e jovens podem ter na mudança de comportamentos”.

Abordei também a forma como a saúde psicológica e identidade (social) condicionam a mudança e o impacto da crise climática na própria saúde psicológica, quer no que se refere às pessoas e comunidades que se confrontam com perdas, lutos e trauma resultantes de situações de catástrofe, quer da própria “eco-ansiedade”. Refiro, ainda, a necessidade e urgência de se trabalhar com as comunidades mais expostas a estes fenómenos, formas de organização e resposta a situações de crise e catástrofe, promovendo a resiliência individual e social.

Sabendo-se que “a informação pessoal, mais imediata, concreta e local é mais eficaz que as estatísticas globais (as cheias da Alemanha também são as do nosso Tejo; os incêndios dos EUA os nossos incêndios rurais)” devemos utilizá-la, promovendo um consumo mais consciente de recursos e o reforço da empatia com as comunidades que mais sofrem com esta grave crise, sempre tendo presente que devemos procurar mudanças com as pessoas e não contra as pessoas, pelo bem-estar e não contra o bem-estar. Mudanças para que precisemos apenas de 1 planeta, de 1 planeta com futuro.

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Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade

Balada da Escassez

O termo “balada” remete no binómio música-literatura para uma música ou canção com forte carga sentimental e para uma forma narrativa poética de lendas. A “Balada do lado sem luz”, composta por Gilberto Gil e interpretada por Maria Bethânia (que vos convido a ouvir) é um excelente exemplo de uma balada de nome balada que o sintetiza na metáfora (“lado sem luz” vs “lado com luz”) e na mensagem de que devem as pessoas do lado sem luz, “subterrâneos gelados do eterno esperar (…) navegar, descobrir outro dia, outro sol”.

“Balada da Escassez”, 12º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) parte da ideia de balada “à boleia” dos filmes Urso de Ouro (longa e curta-metragem) no Festival de Berlim de 2016 – Fogo no Mar, Gianfranco Rosi (Itália), sobre as interfaces e a vivência das e dos habitantes da ilha de Lampedusa e das e dos migrantes que chegam à ilha, em condições de enorme vulnerabilidade, através de travessias do Mediterrâneo; Balada de um Batráquio; Leonor Teles (Portugal), sobre um fenómeno que nos confronta com mal-entendidos e discriminação dissimulada, mas nem por isso menos ostensiva e normalizada, acerca da comunidade cigana a partir de uma superstição feita barro distribuído por montras e portas país fora – os desconcertantes sapos verdes que não mais pretendem que assinalar quem é e não é bem-vinda e bem-vindo.

O artigo (que vos convido a ler) reflecte sobre o que une as e os migrantes que “arriscam” a travessia do mediterrâneo – a escassez – para procurar pensar as suas implicações: impelir a pessoa a viver em exclusivo o momento presente, condicionando o bem-estar e qualidade de vida; ocupar a “largura de banda cognitiva” disponível da pessoa condicionando significativamente a sua capacidade cognitiva e o controlo executivo, impactando a tomada de decisão e de planeamento.

Aborda também a forte e cíclica associação entre pobreza e exclusão e a ausência de saúde psicológica, considerando que as situações de exclusão e pobreza são geradoras de ansiedade, stresse e depressão e que as pessoas com níveis mais elevados destes problemas e dificuldades de saúde psicológica estão mais vulneráveis e por isso mais expostas a situações de precariedade, pobreza e exclusão.

Procura, ainda, pensar a exclusão e sobre como também a ciência, também a psicológica, tem afirmado o seu papel no ciclo de “desaproximação” e de polarização de grupos, gerando mais ciclos de exclusão, de dificuldades de convivência e da ausência de espaço para a criação das importantes penumbras sociais.

Termina reflectindo sobre o momento que vivemos – e como também ele nos fixa ao presente e exponencia desigualdades e o potencial global de pobreza – e sobre como é fulcral responder ao mais básico do mais básico das necessidades dos seres humanos, promovendo-se a confiança nas pessoas e potenciando a sua capacidade, autonomização e inclusão, interrompendo os acantonamentos e os ciclos de reprodução da escassez, exclusão e dos problemas e dificuldades de saúde psicológica.

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Ao redor... (Revista Sábado)

O desafio da natalidade e o cogumelo português (Ao redor…; Sábado; 13.07.2021)

O primeiro jogo eletrónico da colecção “Super Mário” foi lançado em arcade no ano em que nasci. Dois anos depois chegaria às consolas da Nintendo e continuaria a construir o espaço que ainda hoje ocupa no imaginário da minha geração e das seguintes. Estávamos em 1985, exactamente 120 anos após a data da primeira publicação do Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll e esse jogo partilharia com a história uma curiosa particularidade: num e noutro a protagonista e o protagonista crescem com cogumelos, quando chocam com eles no jogo ou comem um dos seus lados no livro.

“O que nós esperamos é uma aproximação da pirâmide etária àquilo a que chamo a imagem do cogumelo da bomba atómica (…) em que a parte central e a base da pirâmide se encolhem acentuadamente e o topo aumenta”. Ana Fernandes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia, disse-o em declarações recentes sobre as mudanças que espera na estrutura populacional em Portugal quando forem revelados os dados do Censo de 2021 e que apontarão a um cogumelo que, contrariamente aos do jogo e do livro, não nos faz crescer. Pelo contrário.

São múltiplas as causas para a rápida transformação da pirâmide etária da população residente em Portugal. Umas francamente positivas, como o grande aumento da esperança média de vida, da escolarização e do período de formação da população e a maior, embora ainda desigual, integração das mulheres no mercado de trabalho. Outras negativas, como o efeito da crise socioeconómica da última década, os níveis de precariedade, a instabilidade laboral e de rendimento económico e a inconstância no saldo migratório do país. Finalmente, uma particularmente desafiante, a natalidade.

Múltiplas causas com denominador comum. Serem, cada uma delas, determinadas também por múltiplos factores e resultarem em impactos significativos nas pessoas e na sociedade. Em suma, a demografia, em Portugal, é hoje e para futuro um desafio societal complexo, como o é, aliás, noutros países de regiões diversas do Mundo, e sendo-o deve o país procurar responder-lhe mobilizando propostas que assentem, também, na forma como as pessoas se comportam, relacionam, tomam decisões e se integram e interagem na e com a sociedade, não podendo ignorar-se os contributos da ciência psicológica.

Vejamos em maior detalhe a natalidade. No próximo ano passarão 40 anos consecutivos em que a fecundidade não permite a substituição de gerações em Portugal (desde 1982) e 13 (desde 2009) com saldo natural negativo (diferença entre o número de nascimentos e mortes). Indicadores que reflectem a queda no número de nascimentos (cerca de 214.000 em 1960; 120.000 em 2000; 84.500 em 2020); do número de filhas e/ou filhos por mulher em idade fértil (3,2; 1,6; 1,4, respectivamente); a idade mais tardia das mulheres aquando da ou do primeiro filho (25; 26,5; 30,7 anos); a duplicação desde 2000 dos agregados familiares monoparentais; e o impacto da crise socioeconómica da última década nos nascimentos (2013 e 2014 são os únicos anos com nascimentos abaixo dos 83.000).

O momento que vivemos, pela sua imprevisibilidade, incerteza e insegurança associada, é propício a uma maior fixação no tempo presente e a um adiamento de decisões com forte impacto no futuro como a maternidade e paternidade. A este fenómeno acresce a crise socioeconómica resultante da pandemia que vivemos com impacto na natalidade hoje (em 2020 o número de nascimentos voltou a baixar face a anos anteriores e o primeiro trimestre de 2021 teve os valores mais baixos desde 2015 – cerca de 18.200 nascimentos) e, previsivelmente, nos próximos anos, tornando ainda mais urgente uma eficaz acção sobre esta matéria que julgo poder ser informada por dois tipos de dados recolhidos no Inquérito de Fecundidade de 2019 do INE.

Medidas públicas, com contributos da ciência psicológica e parte delas já experimentadas com sucesso noutros países, que responderiam fundamentalmente ao que os e as respondentes ao inquérito identificam como o que sentiriam ser apoios para si promotores da vontade e capacidade de serem mães e pais, como a existência de creches gratuitas (hoje tema importante no debate das Autárquicas 2021 na cidade de Lisboa), passes gratuitos para todas as crianças e adolescentes em idade escolar (medida já implementada em diversos municípios) e cidades mais “amigas” das famílias e responsivas às suas necessidades. Paris tem investido neste conceito tal como França enquanto país bonifica para efeitos de pensão trabalhadoras com filhas e/ou filhos, outra questão analisada. Também a possibilidade de investirmos em licenças pagas mais longas, mais flexíveis e mais partilhadas com companheiras ou companheiros, conforme acontece, por exemplo, na Dinamarca. A implementação de maior protecção social e de abonos monetários verdadeiramente significativos, conforme a comunidade de Madrid se prepara para implementar, ou de apoios em “géneros” conforme acontece com a “Baby Box”, caixa com produtos e materiais de apoio à maternidade e paternidade dada a todas as famílias com recém-nascidos há cerca de 80 anos na Finlândia. Outro ponto destacado aponta a mais tempo disponível para a vida pessoal, reduzindo o número de horas de trabalho semanal e flexibilizando os horários de trabalho como recentemente a Islândia pilotou com cerca de 1% da sua população activa com resultados que demonstram a maioria dos serviços a manter (ou até aumentar em alguns casos) a produtividade. Finalmente, a promoção de uma mais rápida integração no mercado de trabalho e a promoção da estabilidade de previsibilidade de trabalho e rendimento, até por forma a minimizar o impacto do progressivo aumento da idade do ou da primeira filha.

Mas também medidas que apelido de saúde psicológica e bem-estar, com contributo de psicólogas e psicólogos, respondendo essencialmente às 37% das mulheres que no inquérito referem esperar vir a ter menos filhas e/ou filhos do que desejariam. Não tanto quem não deseja ser mãe ou pai, antes estes 37% de mulheres a que se somarão um conjunto significativo de homens, devem merecer toda a nossa atenção. Aqui, pode contribuir-se de formas muito diversas que vão desde a participação em processos de intervenção e apoio à fecundidade ou procriação medicamente assistida, à promoção de literacia e de competências parentais, ao estímulo para a criação de redes de apoio entre mães/pais, à prevenção e intervenção na depressão pós-parto (estima-se que atinja quase 1 em cada 4 mulheres na Europa e que possa duplicar em contexto de pandemia) e no trauma associado ao parto, elementos com forte impacto na possibilidade de se avançar para nova maternidade ou paternidade. Também na prevenção dos riscos psicossociais associados ao trabalho, nomeadamente nas questões de sobrecarga e stresse, na promoção do equilíbrio entre a vida pessoa e profissional e de opções flexíveis de trabalho ao longo da carreira ou no acompanhamento e apoio à definição e concretização de planos e projectos de vida. Ainda na participação em processos de promoção da igualdade de género e prevenção e mitigação das iniquidades neste âmbito, bem como na promoção de programas de integração de população migrante, algo fulcral ao saldo migratório anual e à própria natalidade (se em 1995 apenas 2,2% dos nascimentos em Portugal correspondiam a mães não portuguesas, em 25 anos este número aumentou mais de 6 vezes para 13,4% em 2020).

A Estratégia Portugal 2030, resultante do Plano de Recuperação e Resiliência, destaca no seu primeiro eixo a sustentabilidade demográfica, propondo-se “mitigar a perda populacional actual projectada para 2030, perseguindo a recuperação dos indicadores de natalidade e reforçando os saldos migratórios”. Creio fundamental que os fundos a ele alocados permitam não apenas medidas do primeiro grupo, mas também as que apelido de saúde psicológica e bem-estar, também atendendo ao seu papel preponderante nestes objectivos. Preponderante e cíclico porque, em simultâneo, importa termos presente que aos impactos da demografia na (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde, segurança social ou justiça, se somam os impactos na saúde psicológica e bem-estar das pessoas que aspiram a ser pai ou mãe e assim não o decidem ou concretizam, por motivos diversos, não tendo oportunidade de se cumprirem e de encontrarem nesse papel um propósito e significado de vida importantes ao seu bem-estar, algo que sucessiva e de forma cíclica acaba por pesar na (in)sustentabilidade dos sistemas e na própria demografia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a demografia partilha com a ciência e o âmbito da psicologia a perspectiva da importância da prevenção e intervenção antes do problema instalado. Tal decorre de, depois de consumado o problema, o “custo” da intervenção ser superior e a intervenção ser mais complexa e com sucesso potencial menor. É, portanto, urgente abraçar o desafio da natalidade, munindo-nos dos recursos disponíveis no país e mobilizando os diversos saberes da sociedade civil e da ciência, incluindo a ciência psicológica, neste importantíssimo desígnio e legado do país para as actuais e próximas gerações. Promover a natalidade e mitigar o “inverno demográfico”, “libertando” o país pela garantia da sua sustentabilidade, conforme o objectivo do Super Mário no jogo. Promover a natalidade e apoiar e viabilizar as condições para ser-se mãe e pai quando isso se deseja, promovendo, como a Alice procura no livro, o cumprimento das expectativas e sonhos das pessoas.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 13.07.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-desafio-da-natalidade-e-o-cogumelo-portugues

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COVID-19 Desafios da Psicologia

Estado da Nação, 2021

Estado da Nação 2021. Neste final de tarde passam 500 dias sobre o momento em que a Presidência da República informou que o Presidente da República permaneceria duas semanas em isolamento profilático depois de uma turma de uma Escola de Felgueiras ter participado na iniciativa “Artistas no Palácio de Belém”. Estávamos num Domingo (8 de Março de 2020) e tínhamos apenas ainda cerca de 30 casos positivos de COVID-19 confirmados em Portugal (incluindo na referida turma) e, este acontecimento, vinha reforçar a narrativa do “vírus democrático”, que a todas e todos podia infectar. Assim era e é, embora exista cada vez mais diferença no nível de protecção entre diferentes pessoas. Assim não era, não é e não será para os impactos da crise pandémica que vivemos, nas suas múltiplas consequências, onde pela desigualdade e vulnerabilidade, pessoas e grupos populacionais são muito mais e muito mais duradouramente impactados.

500 dias. Cerca de 6 vezes menos dias face aos que passam (3063) desde 2 Março de 2013. Aí vivíamos, também um fim de semana (mas um Sábado), onde um pouco por todo o país muitos milhares de pessoas (mais de um milhão, segundo quem organizou) saíram às ruas do país para demonstrarem o seu descontentamento com a grave crise socioeconómica que vivíamos e os impactos, também eles desiguais, no presente e para o futuro que comportavam. Foi um momento, por simbólico, marcante do desafio que o país vivia.

Duas impactantes crises e dois grandes desafios em duas décadas essenciais ao Estado (actual) da Nação. Também dois, mas (importantes) estudos – “Portugal, Balanço Social” de uma equipa da Nova que sublinha que “os grandes agregados macroeconómicos refletem o impacto sem precedentes da pandemia na economia Portuguesa”; e “Governar em Estado de Emergência” de uma equipa do ISCTE que assinala o acentuar das desigualdades e de “discursos pouco democráticos” mas também a “capacidade de adaptação dos serviços (públicos)” – foram recentemente apresentados e auxiliam o momento de reflexão (Debate do Estado da Nação 2021) que está a terminar na Assembleia da República.

Momento a que me associo para, também pela experiência da primeira crise que vivi enquanto ainda jovem adulto, desejar que: 1) ao contrário dessa crise, nesta não se descure o papel da saúde psicológica e da recuperação das pessoas no país (alguém se lembra dessa dimensão ser debatida e investida aquando dessa crise?); 2) reforçar o combate aos factores promotores e reforçadores das iniquidades e desigualdades enquanto garante de coesão social e resiliência pessoal e social; 3) reforçar e promover a confiança nas pessoas, nas instituições e na sociedade; 4) termos sempre presente que 3) não é possível sem 2) e 2) não é possível sem 1).

Sem as pessoas, as instituições e sem coesão social não se ultrapassam crises e desafios societais. Sem confiança das pessoas nas pessoas, das instituições nas pessoas e das pessoas nas instituições não se ultrapassam crises e desafios societais.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Psicologia

O desafio da natalidade e o cogumelo português.

O “Super Mário Bros” chegou às consolas da Nintendo e ao imaginário da minha geração e das seguintes em 1985, 120 anos após a data da 1ª publicação de Alice no País das Maravilhas. O jogo partilharia com a história uma particularidade: num e noutro a protagonista e o protagonista crescem com cogumelos, quando chocam com eles (jogo) ou comem um dos seus lados (livro). Portugal também tem um cogumelo nas vividas palavras de Ana Fernandes, presidente da Ass. Portuguesa de Demografia, quando descreve as mudanças que espera na estrutura populacional com os dados do Censo 2021: “uma aproximação da pirâmide etária àquilo a que chamo a imagem do cogumelo da bomba atómica (…) em que a parte central e a base da pirâmide se encolhem acentuadamente e o topo aumenta”. Um cogumelo que, contrariamente aos do jogo e do livro, não nos faz crescer. Pelo contrário.

“O desafio da natalidade e o cogumelo português”, 11º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) reflecte sobre as causas para a rápida transformação da pirâmide etária da população residente em Portugal, das francamente positivas (por ex., aumento da esperança média de vida) às negativas (efeito da crise socioeconómica da última década) passando por uma particularmente desafiante: a natalidade.

“No próximo ano passarão 40 anos consecutivos em que a fecundidade não permite a substituição de gerações em Portugal e 13 com saldo natural negativo”. O momento que vivemos, além de resultar em nova crise socioeconómica, pela sua imprevisibilidade, incerteza e insegurança associada, é propício a uma maior fixação no tempo presente e a um adiamento de decisões, impactando a natalidade.

“A Estratégia Portugal 2030, resultante do PRR, destaca a sustentabilidade demográfica, propondo-se “mitigar a perda populacional actual projectada para 2030, perseguindo a recuperação dos indicadores de natalidade e reforçando os saldos migratórios”. No artigo descrevo como fundamental que os fundos permitam não apenas “medidas públicas” (assim apelido) mas também medidas que apelido de “saúde psicológica e bem-estar”. Creches mas também literacia e competências parentais. Cidades “amigas das famílias” mas também apoio à fecundidade, procriação medicamente assistida e prevenção/intervenção na depressão pós-parto. Equilíbrio entre vida pessoal e profissional mas também promoção da igualdade de género e da integração e inclusão da população migrante.

Apoios cíclicos porque, em simultâneo, impactam na demografia na (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde ou segurança social mas também na saúde psicológica e bem-estar das pessoas que aspiram a ser pai ou mãe não tendo oportunidade de se cumprirem e de encontrarem nesse papel um propósito e significado de vida, algo que por si pesa na (in)sustentabilidade dos sistemas.

Investir neste desafio, também pela ciência psicológica, é “libertar” o país via sua sustentabilidade, conforme objectivo do Super Mário. É viabilizar o cumprimento dos sonhos, conforme Alice procura.

 

 

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COVID-19 Psicologia Tomada de Decisão

A vacinação nas e nos jovens.

“Nós, os de então, já não somos os mesmos.” Verso do poema 20 do livro “20 poemas de amor e uma canção desesperada” escrito aos 20 anos por Pablo Neruda. No dia do seu nascimento (1904) evoco-o trazendo a memória da forma como olhava a irrequietude transformadora (em certa medida utópica) da juventude, o seu potencial e a sua complexidade.

“Nós, os de então, já não somos os mesmos”, não precisamos do mesmo, da mesma forma, no mesmo momento. Entendê-lo, aceitando-o, é fundamental para compreendermos a forma como nos comportamos, relacionamos e tomamos decisões em diferentes momentos. É fundamental para compreendermos que o que necessitamos (também na promoção da adesão a determinados comportamentos) se altera ao longo da nossa vida.

Sobre isto tenho procurado reflectir. Escrevi um artigo/ensaio intitulado “Pessoas que não cumprem medidas ou medidas (e comunicação) que não cumprem as pessoas?” e contribuo, sempre que possível, em diversos fóruns, junto de decisores, de colegas e profissionais de outras áreas, e da sociedade civil, também através da comunicação social.

No Sábado foi publicada a peça da @Mariana Caeiro da agência LUSA (aqui) sobre a vacinação na população mais jovem. Nela reforço que, sendo a hesitação da vacinação um desafio complexo (1 das 10 ameaças globais à saúde segundo a OMS já pré-pandemia), Portugal é um dos países com melhores indicadores a este nível, tendo um Plano Nacional de Vacinação de referência e com impacto significativo na saúde e bem-estar da população. Conforme o é o Plano de Vacinação contra a COVID-19, também com resultados relevantes e forte impacto na população.

Em todo o caso, noto que o plano é, na sua comunicação e logística, “desaproximado dos mais jovens”, por ter sido essencialmente desenhado para faixas etárias mais prioritárias, sugerindo que procuremos: 1) prevenir a sua complacência, lembrando benefícios para todas e todos do processo mas também os impactos no presente – por ex. os “custos” de um isolamento profilático no Verão e do que isso implica para esta faixa etária em termos de sofrimento psicológico; 2) promover a conveniência, aproximando a comunicação (clara,  personalizada e pensada também para redes sociais) e a logística dos espaços, saindo com segurança dos pavilhões e utilizando espaços associados ao seu bem-estar (de encontro, lazer e iniciativas), usando da experiência de sucesso das campanhas nas áreas das doenças sexualmente transmissíveis ou consumos; 3) promover a confiança no processo sendo essencial “não só que toda a gente seja vacinada, mas que toda a gente queira ser vacinada, confiando que isso é o melhor”.

Tudo, confiando (mais uma vez), nas autoridades e nos e nas jovens. “Empatizando ao invés de [embarcando] num discurso negativo”, em nada gerador de confiança (ainda outra vez), adesão às recomendações ou coesão.

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Ao redor... (Revista Sábado)

O valor da amizade (Ao redor…; Sábado; 29.06.2021)

No tempo incerto que vivemos, entramos no Verão de 2021 no 15º mês de uma complexa e duradoura pandemia e com o Campeonato Europeu de Futebol de 2020 (!) a decorrer. Competição atomizada por 11 cidades europeias e marcada por improváveis restrições e por cada vez menos improváveis, mas nem por isso menos inquietantes, posições do organismo que a organiza em torno de assuntos que remetem para direitos, liberdades e equidade. Ainda assim, como em qualquer grande competição internacional de equipas, é bastante provável que no próximo 11 de Julho a selecção vencedora comemore a vitória ao som do “We are the champions”, música composta por Freddie Mercury para funcionar como “um jogo de diálogo” entre os seus Queen no palco e os “nós” na plateia.

Este diálogo (nós com outras ou outros), também pela sua dimensão simbólica, é uma poderosa ferramenta e um traço distintivo dos seres humanos. Foi-o para o homo neanderthalensis (Neondertal) há dezenas de milhares de anos que, mesmo em condições de sobrevivência exigentes, desenvolvia rituais sociais diversos e até fúnebres (por exemplo enterrando corpos em posição fetal), demonstrando uma vantagem evolutiva fundamental – a consciência de si aliada à capacidade de imaginar, celebrar e eternizar-se enquanto ser de uma comunidade (social), portanto mais capaz de lidar com os imensos obstáculos e sacrifícios que enfrentava no seu dia-a-dia, pela possibilidade de poder projectar-se no futuro e aspirar a um amanhã diferente lhe conferir significado e propósito ao tempo presente.

Como o foi há dezenas de milhares de anos, é-o hoje num tempo em que as relações e os vínculos que estabelecemos são um factor importantíssimo na possibilidade de bem-estar, no desenvolvimento de competências e da resiliência e na capacidade de nos adaptarmos à adversidade e aos acontecimentos de vida. Como o foi há dezenas de milhares de anos e é-o hoje, sê-lo-á no futuro porque por mais que os avanços na inteligência artificial possam aspirar aproximar-se da possibilidade de “copiar” a rede neuronal humana (no limite, o cérebro humano), será muito mais complexo traduzir artificialmente o que resulta da interacção e comunicação (da linguagem e do simbólico) entre duas ou mais pessoas e essa apaixonante triangulação humana entre emoção, cognição e comportamento. Será muito mais complexo (re)criar esse diálogo entre estruturas artificialmente construídas e (re)produzir o efeito de uma relação como uma relação de amizade na qual “podemos confiar”, conforme também Freddie Mercury nos sugeriu quando há precisamente 35 anos cantou pela primeira vez a música “Friends will be friends”.

Além do seu papel no bem-estar e na capacidade de adaptação aos acontecimentos de vida, as relações e as amizades, no presente e para o futuro, são decisivas noutros aspectos fundamentais da vida em sociedade. Observemos dois exemplos com bastante actualidade.

O equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional e a forma como, mesmo tendo alguns trabalhadores, trabalhadoras e organizações observado e experimentado benefícios do teletrabalho, existindo condições para o mesmo, ele tenderá a ser sempre balanceado com tempos e períodos de trabalho presencial. Isto, considerando não apenas a importância do alinhamento de valores e princípios entre a organização e as suas trabalhadoras e trabalhadores, mas também e particularmente a importância das relações que se estabelecem no sentido de pertença, bem-estar e produtividade e o facto dos contextos de trabalho serem contextos por excelência de socialização na idade adulta.

A prevenção da desconfiança e do tribalismo que decorre da polarização da sociedade e da forma como se cria, partilha e dissemina (des)informação, considerando que mitigar esta polarização depende da criação de espaços de relação e compromisso entre polos mais do que da apresentação de factos e de informação, normalmente subvertida e contraposta por outros dados e outra (des)informação. Mais, porque os grupos, particularmente quando com fins sociais ou políticos exploram o medo e promovem a desconfiança, o combate a estes fenómenos deve assentar na sua compreensão e na adopção de uma postura contrária à desumanização das pessoas que os constituem, procurando espaços de relação com elas, criando as importantes penumbras sociais que em artigo anterior nesta rúbrica referi. Conforme Troy Campbell tão bem afirma, “uma das formas mais poderosas de inocular as pessoas da informação falsa é ser amiga/o delas”, criando espaços de comunicação e de confiança que funcionando como “campos electromagnéticos” potenciam órbitas que limitam o afastamento e previnem a polarização, mesmo quando não se concorda e se diverge em crenças, opiniões, gostos ou experiências.

Tendo este peso e esta importância, creio não podermos ficar indiferentes a alguns reveladores dados recolhidos pelo Estudo dos Valores Europeus 2017-2020. Apresentado há dias em Portugal, demonstra que os portugueses e as portuguesas têm valores muito baixos de confiança interpessoal, dos mais baixos quando comparados com os restantes países europeus, algo que segundo o relatório do estudo revela “a sua convicção de que o capital cívico da sociedade [portuguesa] é baixo” e se assume como um “obstáculo à cooperação”. Menos de 1 em cada 5 portuguesas e portugueses (17%) respondem poder confiar-se à pergunta “De uma forma geral, acha que se pode confiar na maioria das pessoas ou, pelo contrário, acha que todo o cuidado é pouco?”, valor consideravelmente abaixo da média dos países europeus e que corresponde a cerca de metade da percentagem de população de Espanha e entre um terço e um quarto da população dos países normalmente apelidados de nórdicos. Dados e comparativo que ilustram bem a premência de investirmos nas relações e de promovermos a confiança interpessoal em Portugal, com benefício para todas e todos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, com um futuro pautado pela incerteza e pela volatilidade, importa intencionalizarmos e ritualizarmos as relações e a amizade. Importa sermos amigas e amigos e nisso investirmos. Importa permitir e até reforçar quem investe em ser nossa amiga ou amigo. Importa, pela relação e pela confiança das amigas e amigos, reforçarmos o diálogo entre nós e as outras e os outros, promovendo a empatia e exponenciando a nossa possibilidade de bem-estar e as redes de cooperação nas comunidades e na sociedade. A música “Friends will be friends” foi e é um dos singles do álbum “A kind of magic”. Permitamos que a amizade faça magia e que, todas e todos em conjunto com a sociedade, beneficiemos do seu imenso valor.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 29.06.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-valor-da-amizade

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Democracia Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

A impaciência do coração…

Na sua autobiografia (“O mundo de ontem”), Stefan Zweig escreve, com uma simplicidade desconcertante face à complexidade da sua reflexão (e percurso), que os dias mais importantes da vida têm um brilho maior que os dias comuns. Assim sabemos ser. A 16 de Junho vivi um desses dias, daqueles que sabemos que, aconteça o que acontecer, será sempre dos mais importantes da minha vida e que nele conteve os dois polos: provavelmente o melhor e mais intenso que a vida nos pode trazer; mas também uma perda com significado e tudo quanto ela implica.

Os 2 acontecimentos que assim fazem o meu 16.06.2021, numa feliz coincidência, coexistiram e coexistirão na minha memória com a estreia do programa da RTP2 Impaciência do coração”, que contou com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Programa que começou a ser imaginado e construído há alguns anos (algo que reforça a feliz coincidência) e que tive oportunidade de acompanhar desde a ideia até vê-lo na televisão. Um programa onde uma sempre excelente Gabriela Moita conversa com psicólogas e psicólogos sobre comportamentos “sociais, afectivos e quotidianos” e que “pretende refletir e partilhar o saber disponível sobre diversas dimensões do comportamento e a sua relação com áreas de intervenção, como a saúde, a educação, o trabalho, entre outras”, conforme a sua apresentação. Um programa semanal que tratou em conversas com o David Dias Neto, Miguel Ricou e o Luís Fernandes a mudança, a relação corpo-mente e a justiça e o “desvio” nos primeiros episódios e que hoje trará a conversa com Constanca Paúl sobre envelhecimento (https://www.rtp.pt/play/p8960/impaciencia-do-coracao). Um programa que continuará com outros temas e que terá um episódio-conversa onde participei sobre informação e desinformação e seus impactos nas pessoas e na sociedade.

Beware of pity (“Cuidado com a pena que sentes”), publicado em Portugal como “Coração impaciente”, é um livro escrito por Zweig num ano que não esqueceria – 1939. Ano em que vivenciou os tais dois polos: casou com a sua esposa Charlotte com quem viveu e, literalmente, morreu anos mais tarde; ano em que viu eclodir a II Guerra Mundial, acontecimento importante no seu crescente desânimo e sofrimento pelo crescimento e expansão da intolerância e autoritarismo no Mundo, conforme escreveu já próximo do final da sua vida. Um ano com impacto numa vida que impactou a sociedade e a confrontou na sua reflexão. Estimo e espero que o “A impaciência do coração” seja um outro contributo, necessariamente distinto, para nos pensarmos, pensarmos o comportamento humano e reflectirmos sobre a nossa sociedade e os desafios que se lhe e nos colocam.

Ps. Um abraço ao Duarte Zoio, pessoa particularmente envolvida neste projecto e que acabou por ver a sua estreia já num novo projecto profissional. Que o programa também sirva o propósito de o fazer sentir o quanto contribuiu ao longo de anos para um melhor conhecimento e reconhecimento da Psicologia e das psicólogas e dos psicólogos na sociedade.

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Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Eu sinto.me – Programa online

As últimas décadas – e também as próximas, podemos imaginar – foram fortemente impactadas pelo desenvolvimento e generalização da world wide web (www), um sistema de documentos, em diversos formatos, interligados e executados na internet. Este sistema assemelha-se muito a um outro que nos influencia de forma ainda mais determinante há milhões de anos – o wood world web, rede subterrânea florestal onde árvores de diferentes espécies, interconectadas através de fungos e de bactérias, partilham recursos pelas suas raízes. O wood world web influencia-nos ao ponto de ser “raiz” da existência da sociedade como a que hoje conhecemos que, com os seus desafios societais complexos e iniquidades, se organiza também em torno da interconexão das pessoas e da partilha de recursos entre elas. Uma sociedade onde nos “contagiamos”, não apenas dos hoje tão falados vírus, mas também de comportamentos, de pensamentos ou cognições, de sentimentos ou emoções. Uma sociedade de relação.

Assim o é também com a saúde psicológica e com o bem-estar. Na Ordem dos Psicólogos Portugueses temos investido significativamente na promoção da literacia, saúde psicológica e do bem-estar, desenvolvendo e disseminando gratuitamente centenas de recursos baseados na ciência psicológica e e em diferentes formatos, partilhando-os com entidades a quem nos associamos e disponibilizando, desde o Dia Mundial da Saúde de 2021, o portal “eu sinto.me” (https://eusinto.me) que os reúne e disponibiliza de forma simples e acessível.

Na procura de complementar o portal e chegar, de forma mais próxima e com mais impacto a mais pessoas, lançamos recentemente o programa online “eu sinto.me” que em episódios mensais em vídeo, com psicólogas e psicólogos, outros profissionais e cidadãos ou cidadãs aborda temas específicos da saúde psicológica e bem-estar. Os 3 primeiros episódios – autocuidado e bem-estar (https://www.youtube.com/watch?v=XXzwipNKD1U&list=PL1EhLnDjTQMRBgbgn0y_smV1jrv_HRG4z&index=1), ansiedade (https://www.youtube.com/watch?v=GVMSWOkoVu0&list=PL1EhLnDjTQMRBgbgn0y_smV1jrv_HRG4z&index=2) e sono (a disponibilizar este mês) – formam nas temáticas um triângulo fulcral ao bem-estar e saúde psicológica situando-se no autocuidado, hábitos de vida e problemas e dificuldades comuns de saúde psicológica.

Partilho-o para que nos “contagiemos” na saúde psicológica e bem-estar, também assinalando a memória de alguém que perdemos esta semana (mas que muitas e muitos não esqueceremos) – António Coimbra de Matos. Alguém que, além de “inscrever” na sociedade como trazia inscrito na sua pessoa, a Galafura, aldeia onde nasceu, inscreveu na sociedade, por em si inscrito, o papel do humanismo, das relações e dos afectos na saúde mental, sendo uma figura incontornável na promoção da literacia e do conhecimento neste âmbito, em momentos em que o estigma associado à doença mental era ainda mais significativo e a sociedade mais fechada. Obrigado pelo que me deu. Obrigado pelo que nos deu e pelo que nos deixou.

 

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Psicologia

O valor da amizade…

17%. Menos de 1 em cada 5 portuguesas e portugueses respondem que se pode confiar à pergunta: “De uma forma geral, acha que se pode confiar na maioria das pessoas ou, pelo contrário, acha que todo o cuidado é pouco?”. Metade da percentagem relativa a Espanha e apenas entre um terço e um quarto da dos países normalmente apelidados de nórdicos, de acordo com o Estudo dos Valores Europeus 2017-2020 recentemente divulgado e cujo relatório sublinha que este dado revela “a convicção [das portuguesas e dos portugueses] de que o capital cívico da sociedade [portuguesa] é baixo” e se apresenta como um “obstáculo à cooperação”.

“O valor da amizade”, 10º artigo da rubrica “Ao redor…” (REVISTA SÁBADO) procura reflectir, neste tempo incerto que vivemos, sobre a confiança interpessoal e sobre o diálogo “nós – outras ou outros” enquanto poderosa e distintiva ferramenta e traço do ser humano, também pela sua dimensão simbólica. Viaja ao passado para lembrar a vantagem evolutiva que representou. Lembra no presente o seu papel “importantíssimo na possibilidade de bem-estar, no desenvolvimento de competências e da resiliência e na capacidade de nos adaptarmos à adversidade e aos acontecimentos de vida”. E pensa como no futuro será muito complexo para a inteligência artificial, mesmo aproximando-se da “cópia” das redes neuronais e do cérebro humano, “traduzir artificialmente o que resulta da interacção e comunicação (da linguagem e do simbólico) entre duas ou mais pessoas e essa apaixonante triangulação humana entre emoção, cognição e comportamento”.

O artigo procura pensar as relações e, particularmente, a amizade também em dois exemplos de forte actualidade – equilíbrio entre vida pessoal e profissional (contextos de trabalho como contextos por excelência de socialização na idade adulta) e polarização / tribalismo (criação de espaços de comunicação e confiança que como “campos electromagnéticos” potenciem órbitas, limitem o afastamento e previnam a polarização) – e defender a importância de “intencionalizarmos e ritualizarmos as relações e a amizade” para “pela relação e pela confiança das amigas e amigos, reforçarmos o diálogo entre nós e as outras e os outros, promovendo a empatia e exponenciando a nossa possibilidade de bem-estar e as redes de cooperação nas comunidades e na sociedade”.

Ps1. Um profundo e muito grato obrigado às minhas amigas e aos meus amigos;

Ps2. Porque chegamos a um número redondo de artigos na rúbrica “Ao redor…” convido-vos a ler ou reler os 9 anteriores na sua versão completa meu Lkd (secção artigos) ou aqui.