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Ao redor... (Revista Sábado)

Sonhar (Ao redor…; Sábado; 15.06.2021)

Imagino que o magnético verbo – sonhar – vos estimule a evocação de alguns sonhos, mais ou menos significativos, mais ou menos repetidos. Imagino-o, tal qual imagino que cada uma ou um de nós tenha, em algum momento, sonhado que voava. Como a Gillette e a Maizena são marcas de produtos e, ao mesmo tempo, se tornaram “produtos em si”, voar poderia sê-lo para o sonhar porque, além de sonharmos voar, sonhar, literal ou figuradamente, é sempre voar, de um eu para outro eu, de um acontecimento para outro acontecimento, de uma realidade para outra realidade. O sonho e a possibilidade de sonhar, guiam-nos.

Pensemos no “I have a dream” [Eu tenho um sonho], conceito base feito título do mais marcante discurso de Martin Luther King e reflictamos se não é um ousado plano de voo. Pensemos em quando marcamos aquele golo no último lance de um jogo com um estádio a abarrotar gritando o nosso nome, quando recebemos aquele prémio que todas e todos queriam ou quanto encontramos a solução para o mais complexo dos complexos problemas do Mundo. Ou pensemos quando nos sonhos lúcidos percebemos que estamos a sonhar e por isso temos um papel mais activo nos sonhos. Ou, simplesmente, nos “sonhos pandémicos”, conforme foram definidos, que podemos ter sonhado e que reflectem o sofrimento partilhado e o medo do contágio, em quando caminhamos num espaço público sem roupa ou quando caímos depois daquele passo em frente num precipício; “voares” que partilhamos colectivamente nos nossos sonhos com pessoas de idades, culturas e experiências diferentes das nossas. Sonhar é voar, aqui como em qualquer outro lugar do Mundo.

E porque, como seres humanos que somos, procuramos, invariavelmente, um outro “eu”, sonhar é voar, projectando-nos. Permitindo que nos experimentemos, que nos rejeitemos e rejeitemos outras e outros. Que nos aceitemos e aceitemos outras e outros. Que com e pelo sonho resolvamos problemas, reparemos, sejamos criativos e nos inspiremos, como Paul McCartney na melodia da canção Yesterday surgida num sonho seu. Mas, um pouco como a pandemia que vivemos nos demonstrou com a COVID-19 e os seus impactos, se todas e todos podemos sonhar, nem todos e todas temos as mesmas condições para o fazer.

Essa viagem, esse “daqui para ali”, implica sempre o contexto em que ocorre, a energia disponível e o atrito que se lhe coloca. Três condições base que são determinantes na construção de quaisquer veículos, desde um carrinho de rolamentos para pequenas, simples e divertidas deslocações a um foguetão para grandes, complexas e transformadoras deslocações. Assim é com a possibilidade de sonhar, em tudo dependente do seu contexto, das características culturais e sociais do mesmo, da experiência da ou das pessoas e do suporte existente. Em tudo dependente da energia feita impulso e motivação, nomeadamente os recursos que a pessoa possui, a confiança, a segurança e saúde psicológica que lhe garanta competências e capacidade de resiliência para se adaptar a potenciais desafios que se coloquem no percurso. Em tudo dependente da coesão social e do seu papel na redução de atritos como as iniquidades, os obstáculos e as discriminações muitas vezes profundamente injustas e longitudinalmente impactantes.

O filme “Inception” (estranhamente, “A Origem” em Portugal) começa com um Di Caprio feito “engenheiro de sonhos” com fins pouco lícitos a “falhar” um objectivo num construído sonho dentro de outro sonho. Escrito e dirigido por Christopher Nolan, que 10 anos antes já tinha escrito e realizado o “Memento” (acerca da memória), o filme gira em torno da arquitectura e ciência dos sonhos (um campo ainda com muito espaço de investigação por explorar e até há pouco tempo fortemente estereotipado, mas em forte expansão), das emoções e da resposta dada a uma pergunta do início do filme: “Qual o parasita mais resiliente? Uma bactéria? Um vírus? Uma ideia… resiliente e altamente contagiosa”.

“I have an idea” [Eu tenho uma ideia]. O estudo “A Saúde dos Portugueses – Um BI em Nome Próprio” pergunta “que espaços de melhoria em saúde podemos estar a perder ao não sugerir o sonho?”, afirmando ser necessário dar “forma e cor ao sonho” na relação das portuguesas e dos portugueses com a sua saúde. A minha ideia é que aspiremos a um sonho dentro de um sonho, um sonhar podermos todas e todos sonhar um sonho que nos impelisse ao florescimento e à possibilidade de cumprimento e de propósito. Que nos permitisse voar na ou nas direcções de um espaço de significado, de saúde e de bem-estar. Um sonho lúcido, onde controlássemos (mais) e pudéssemos prever (melhor).

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, se todas e todos podemos sonhar e até partilhar colectivamente sonhos, a possibilidade de com o sonho voar é, para alguns e algumas, um pesadelo e as 3 horas da manhã “na noite profunda e escura da alma”, conforme Scott Fitzgerald afirmou. Precisamos de um contexto que facilite, promova e suporte o sonho. Precisamos de uma energia baseada na saúde psicológica e da redução dos atritos da iniquidade e da desigualdade para, literalmente, podermos sonhar e com o sonho voar. Que nos contagiemos na criação dessas condições e que possamos sempre sugerir o sonho, por um Mundo melhor, assente na possibilidade de mudança, de “outros eus” e de “outras realidades”. Por um Mundo em que temos direito a sonhar e, com o sonho, a voar.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 15.06.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/crescer-19

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Política Psicologia

Erasmo…

Há dias brincava com o meu filho e… “Rebenta a bolha”, disse-me. Há anos que não escutava esta expressão tão do meu (julgo que do de muitas e muitos) imaginário e que percorreu jogos e brincadeiras na minha infância. Utilizada em forma de “assim não”, interrompia jogos e brincadeiras quando uma regra não era cumprida ou algum facto inesperado acontecia no seu decorrer.

Hoje penso (julgo que muitas e muitos pensamos) noutras bolhas. As conjunturais, relacionadas com a pandemia que vivemos de turmas, de conjuntos de trabalhadoras e trabalhadores ou até de adeptos. As já mais estruturais que, muito potenciadas pelas redes sociais, novas tecnologias e seus algoritmos, nos agregam por crenças, gostos e opiniões e nos polarizam crescentemente. Polarizam, afastando-nos de outras e outros por terem outras crenças, gostos ou opiniões, gerando uma sociedade progressivamente menos assente na confiança, com menor oportunidade de relacionamento e partilha e até, de certa forma, tribalizada.

Também há dias foi apresentado o novo programa Erasmus +. Programa da União Europeia com 3 décadas que movimentou pela Europa já mais de 10 milhões de pessoas – um Portugal de Erasmus. Usa do nome do Teólogo, Filósofo e, essencialmente, Humanista Erasmo que nascido em Roterdão viajou por muitos países da Europa nos séculos XV e XVI, incluindo Portugal, onde este novo programa foi apresentado. Também há anos fui um dos 10 milhões de pessoas que do Erasmus beneficiou, podendo compreender o “poder” de contactar e de me relacionar com outras e outros com crenças, gostos, opiniões e experiências distintas. Podendo experimentar-me noutro contexto e beneficiar da riqueza da diversidade.

Muitas vezes, por muito me interessar, perguntam-me como pode a ciência psicológica informar e contribuir mais para políticas públicas? A investigação em Psicologia tem amplamente demonstrado o poder do que atrás refiro no respeito pela diferença, pelas liberdades e garantias de todas e todos. No tempo que vivemos, o programa Erasmus, como diversos estudos de impacto demonstram, é das políticas da União Europeia com maior impacto na construção de uma identidade Europeia e na promoção dos principais desígnios da União (“a dignidade humana, a igualdade e respeito pelos direitos humanos”), tão postos em causa nos últimos tempos. No tempo que vivemos, o programa Erasmus merece ser saudado e “utilizado” por quem tem essa oportunidade, também para que no futuro outras e outros possam vir a ter essa oportunidade e para que aspiremos a um país, a uma Europa e a um Mundo com menos bolhas.

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Ao redor... (Revista Sábado)

Sonhar

Yesterday, mítica música dos míticos Beatles, trata o passado como um tempo de ausência de problemas ou dificuldades (“all my troubles seemed so far away”) e um tempo em que se pode acreditar (“oh, I believe in yesterday”). Se todas e todos certamente já a ouvimos, parte de nós não saberá que Paul McCartney afirma que a sua melodia surgiu de um sonho seu.

“Sonhar”, 9º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) pensa este magnético verbo – sonhar – e a forma como se associa à possibilidade de “voar” e de nos “guiar” de um eu para outro eu, de um acontecimento para outro acontecimento, de uma realidade para outra realidade. Como permite que nos projectemos, aceitando e rejeitando-nos, aceitando e rejeitando outras e outros. Como permite que “resolvamos problemas, reparemos, sejamos criativos e nos inspiremos”. Mas, também, como é desigual a nossa possibilidade de sonhar, por dependente do contexto, dos recursos, confiança, segurança e logo da saúde psicológica de cada pessoa e da coesão social das sociedades.

Porque, complementarmente à música Yesterday, creio que devemos construir possibilidades para um futuro de florescimento, cumprimento e propósito (um tempo em que se pode acreditar), afirmo no artigo a necessidade de se desenvolver um contexto que facilite, promova e suporte o sonho baseado na saúde psicológica e na redução dos atritos baseados nas iniquidades e desigualdades. “Por um Mundo [melhor] em que temos direito a sonhar e, com o sonho, a voar.”

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Psicologia Tecnologia Tomada de Decisão

Ética, Psicologia e Tecnologia em 3 Harris

Ed Harris – Actor que, pelas feições e pela voz, dificilmente esquecemos. Não creio possível que quem viu tenha ficado indiferente a como interpretou e realizou o filme Pollock onde nos mostra o pintor referência do expressionismo abstracto e autor do “A chave” que aqui partilho. O abstracto, tão empolgante na arte, não pode ser trazido para o contexto das novas tecnologias e isso é uma das chaves para a ética nas e das mesmas.

Sydney J. Harris – Jornalista e Escritor, afirmou que o real “perigo não era que os computadores começassem a pensar como seres humanos mas que estes viessem a pensar como computadores”. Uso-o para, dizendo-o de outra forma, me associar à defesa de que toda a nova tecnologia deve considerar, em desenvolvimento e implementação, os seus impactos nas pessoas e na sociedade. Afirmo-o alertando para a necessidade de uma atitude ética neste processo e para o contributo da ciência psicológica na mesma e faço-o num momento especialmente relevante porque o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida passou a ter como Conselheiro o Miguel Ricou, representando a Ordem dos Psicólogos Portugueses e as psicólogas e psicólogos portugueses.

Tristan Harris – Co-fundou e dirige o Centro de Tecnologia Humana e reflecte sobre os impactos de uma tecnologia que “nos conhece melhor do que nos conhecemos a nós próprios”. Quando assim é, a Psicologia é fulcral. Digo-o eu e di-lo a psicóloga A.Sethumadhavan que na Microsoft dirige uma unidade centrada na experiência dos Utilizadores, IA,Ética e Sociedade. Recentemente explicava como a sua Unidade trabalha para garantir que, no desenvolvimento de novos produtos, são considerados 6 pilares éticos (inclusão, justiça, privacidade/segurança, transparência, confiança e prestação de contas), dando exemplos de como trabalhava não apenas questões importantíssimas (mas hoje mais óbvias) relacionadas com dimensões sociais e culturais, mas também aspectos relacionados com a personalidade. Explicava como, por ex., tratavam o binómio extroversão/introversão das utilizadoras e utilizadores, não apenas numa dimensão de literacia e desmistificação de preconceitos junto das equipas (nomeadamente a valorização normalmente atribuída à extroversão – a este propósito leia-se o excelente artigo da Raquel Raimundo | https://www.publico.pt/2021/05/06/impar/noticia/extrovertido-nao-qualidade-introvertido-nao-defeito-1961095), mas como investigavam formas de tornar a tecnologia mais inclusiva de pessoas mais introvertidas, garantindo maior responsividade dos produtos ao maior tempo de reflexão para reacção que necessitam face às e aos mais extrovertidas.

Um exemplo apenas de um amplo conjunto de conhecimento e de evidência científica que pode ser mobilizada para junto das equipas que desenvolvem/implementam novas tecnologias e que, quem sabe, pode ser “chave” para uma tecnologia mais ética e responsiva às pessoas e por isso mais promotora de bem-estar e coesão social.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Educação

Crescer-19 (Ao redor…; Sábado; 01.06.2021)

“É como se tivesse aqui [apontando para o peito] um balão que se vai enchendo, enchendo, enchendo.” Recordo esta frase de uma menina que, com os seus 9 anos, procurava, através de uma imagem, descrever aquilo que sentia e que as palavras que possuía não podiam descrever. Trabalhava então numa Escola – pequena de tamanho, mas grande em diversidade, complexidade e riqueza humana – e ainda no início do meu percurso profissional experienciava a importância da literacia em saúde psicológica e o quão fundamental é darmos um nome ao que sentimos (reconhecendo, do ponto de vista psicológico e até físico, as nossas emoções) para o organizar, compreender e para melhor lhe respondermos.

Recordo-as (a menina, a conversa, a Escola e a comunidade) a propósito de um testemunho de Abier Almasri da Human Rights Watch que afirma “precisarmos de um novo dicionário para descrever o que sentimos e o impacto psicológico” a propósito da situação que se vive(u) na Faixa de Gaza onde, às perdas diversas das pessoas e famílias, se associam “feridas emocionais” de quem sobrevive(u). Human Rights Watch que, poucos dias antes em relatório, apresentou dados que indicam que 9 em cada 10 crianças e jovens em idade escolar em todo o Mundo viram prejudicada a sua educação devido à pandemia que vivemos.

Não pretendo comparar os impactos de um conflito com décadas com a pandemia. Mas quero sublinhar que, se nas adultas e nos adultos a crise sócioeconómica concomitante exponencia os impactos da pandemia na saúde psicológica; as crianças e jovens sentem, não apenas as consequências daquele que é o impacto nas cuidadoras e nos cuidadores, mas também as que resultam de dois anos lectivos atípicos que acrescentam dificuldade e desafio à situação e intensificam os problemas de saúde psicológica com impacto na aprendizagem, motivação e comportamento, particularmente naquelas e naqueles com maiores vulnerabilidades. Consequências que abrem espaço a “feridas emocionais” se não organizadas e compreendidas. Se, enquanto sociedade, não lhes respondermos.

“Tens de escrever sobre a urgência nas Escolas (…) vi uma crise de ansiedade como nunca havia visto”, dizia-me uma psicóloga amiga com muitos anos de Escola(s). E depois outra e outro confirmando “a urgência nas Escolas” e as Escolas como lugar micro de uma realidade macro da sociedade. São-no sempre. Senti-o particularmente nos anos da crise sócioeconómica da última década, aquando do episódio que antes descrevi, e como dia-a-dia, entrava na (minha) Escola e impactava as crianças e jovens com quem trabalhava. Senti-o como hoje sentem as minhas e os meus colegas os impactos da pandemia COVID-19 e das suas múltiplas e diversas consequências.

É certo que a década que passou trouxe alterações, algumas positivas. Desde logo há hoje maior sensibilidade na Educação para a importância de desenvolvimento de competências sócioemocionais e para a promoção da capacidade de adaptação e resiliência de crianças e jovens. Há mais reconhecimento da importância da promoção da literacia em saúde e em saúde psicológica, nomeadamente no que se refere à compreensão/reconhecimento das emoções. Há, também, mais psicólogas e psicólogos, de forma mais contínua e regular nos contextos escolares. Psicólogas e psicólogos com papel mais amplo e cientificamente sustentado que, ao invés de apenas centrado em estratégias remediativas, se foca em políticas de prevenção e promoção que abrangem toda a comunidade educativa. Há ainda mais experiência e partilha de trabalho conjunto entre diversos agentes educativos, de uma concepção da educação inclusiva e do objetivo, ainda que não totalmente cumprindo, de “não deixar ninguém para trás”. Há, finalmente, resultados desta acção patentes por exemplo no nível de abandono escolar precoce em queda impressionante (6,5% no 1º trimestre), particularmente porque conjugada com o aumento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano, e que faz jus ao trabalho dos diversos actores e da comunidade educativa.

Apesar disto, estudos no Reino Unido com resultados que em Portugal não surpreenderiam, indicam que quase 8 crianças e jovens em cada 10 revelam sentir impactos da pressão da Escola na “qualidade” da sua saúde psicológica e cerca de 93% dos professores e das professoras consideram que o sistema educativo coloca mais foco (e recursos) na performance académica das e dos estudantes que na sua possibilidade de bem-estar. Outro, em Portugal, que apenas 1 em cada 4 crianças brinca pelo menos 3 horas por dias conforme recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Três indicadores (podiam ser outros) que podem servir-nos de base para entendermos o ciclo vicioso de não envolvimento com a Escola das crianças e jovens, particularmente aqueles e aquelas com maiores vulnerabilidades, que cedo podem sentir e sofrer desfasamentos diversos. São também ponto de partida – no momento que vivemos e no qual à ansiedade se junta o stresse, a agitação e preocupação, ou o medo e a apatia, resultante de períodos de isolamento físico (por vezes, realmente social) com exposição ainda mais significativa a iniquidades contextuais que vão desde as condições físicas das habitações, às oportunidades de relação e estimulação com outras crianças, jovens e adultas e adultos – para a necessidade de estratégias concertadas de recuperação, promoção, desenvolvimento e bem-estar junto de crianças e jovens.

Voltando ao Reino Unido, nos últimos dias de Theresa May enquanto Primeira-Ministra Britânica, foi anunciado um amplo programa de formação para todas as professoras e professores estarem mais sensíveis e capacitados para, precocemente, identificarem dificuldades e problemas de saúde psicológica nas e nos estudantes. Este programa resulta, também, de um debate público que se havia iniciado para um livro verde da prevenção que visa a prevenção “proactiva, preditiva e personalizada” para a saúde no Reino Unido na década de 2020 com enfoque no “desenvolvimento, aconselhamento, apoio e cuidados personalizados às crianças e jovens” e numa “maior protecção contra ameaças futuras”.

Já em Portugal, neste período (pós-)COVID-19 foi criado um grupo de trabalho multidisciplinar para produção de recomendações no âmbito de um plano de recuperação e consolidação de aprendizagens e, em linha com o pacto europeu para a saúde mental e bem-estar e com um estudo recente que afirma que 37% das e dos jovens entre os 18 e 24 anos solicitam mais acompanhamento na área da saúde mental, o Conselho Nacional de Saúde, a Federação Nacional de Associações Juvenis e a Direcção-Geral da Educação apresentaram recentemente a Agenda da Juventude para a Saúde 2030, que visa um forte impulso às dimensões da saúde psicológica, à prevenção e à promoção de competências. Resta, no entanto, concretizar um “Crescer-19”, uma mudança verdadeira e impactante através de uma agenda de prevenção e do desenvolvimento que, neste 01 de Junho de 2021, nos poderia guiar, impulsionando a “urgência na educação”, a inversão do actual ciclo pela possibilidade de activação e de garantia de propósitos e significados para o que vivemos e que, conforme o projecto do Reino Unido, se assumisse como uma agenda interministerial transversal, relacionando várias áreas e contextos, nomeadamente articulando mais eficaz e eficientemente a acção e os recursos da educação com a saúde, trabalho e segurança social ou desporto e juventude, prolongando e projectando o conjunto de acções além dos tradicionais anos e ciclos lectivos e para os múltiplos contextos de vida das crianças e jovens.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, ao contrário do Dia da Criança que se comemora em dias distintos de país para país, em qualquer lugar do Mundo onde exista uma criança colocam-se desafios ao seu desenvolvimento e bem-estar hoje, devido à pandemia, mais complexos. Desafios que merecem um “Crescer-19”, uma agenda de prevenção e promoção, investimento fundamental para um futuro com crianças, jovens e adultas e adultos com mais possibilidade de se cumprirem, de floresceram e expressarem o seu potencial, com mais saúde psicológica, com maior capacidade de adaptação e resiliência e com maior potencial de bem-estar.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 01.06.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/crescer-19

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COVID-19 Desafios da Psicologia

Foco e relevância…

Li recentemente um excelente trabalho sobre a rotulagem de produtos e o impacto (potencial) da mesma nos processos de tomada de decisão. Um dos exemplos mencionados era o dos rótulos com a pegada de carbono e o facto de parecer não obterem o impacto esperado na decisão de aquisição de produtos. Entre diversos determinantes dessa situação abordados, referia-se o tempo médio de decisão das pessoas (5 segundos) e a percentagem de pessoas (apenas até 7%, de acordo com alguns estudos) que “olhavam” rótulos nos 5 segundos iniciais de contacto com um produto.

Ontem, numa entrevista em que assinalava que há hoje um maior e mais relevante foco na saúde psicológica e no bem-estar, perguntavam-me se esse facto e a mudança de discurso das decisoras e dos decisores neste âmbito seria suficiente. Respondi com o natural “não, não é” mas creio importante que tenhamos bastante presente que esse é, por si, um ganho extraordinário. Hoje mesmo, em relatório, a OCDE vem afirmar “que a pandemia significou que a saúde mental recebeu mais cobertura mediática” em Portugal, realçando, também e entre outros, os recursos de literacia disponibilizados e a criação do serviço de aconselhamento psicológico do SNS24, a sua gratuitidade e o acesso 24h por dia, 7 dias por semana. Sublinha, no entanto, que estamos e continuamos isolados na impossibilidade de “autorreferenciação directa para serviços de apoio na área da saúde mental” e que temos das maiores taxas de necessidades não satisfeitas nesta área por razões financeiras, o que exponencia iniquidades.

A 27.5 participei num debate na Rádio Sintonia Feirense, no âmbito de um interessante projecto de literacia neste âmbito (“Falar (sobre)tudo na Rádio”) promovido pelo Fórum Social da União de Freguesias de S.M. da Feira, Travanca, Sanfins e Espargo e pelo Departamento de Saúde Mental do CH de Entre Douro e Vouga. Nele discutimos os desafios para a saúde mental no pós-confinamento e, muito, um “antes e depois” em torno da relevância e da atenção dada às questões da saúde psicológica na crise que vivemos face à crise sócio-económica da última década, com impactos profundos na região onde decorreu o debate.

Relevância e atenção que não resolve (todos) os problemas, mas que é, por si, um ganho extraordinário. Também e porque, mais do que na tomada de decisão se olhar para a saúde psicológica no 1º, 2º, 3º, 4º ou 5º segundo, importa que a tomada de decisão seja impossível sem a sua consideração.

E hoje, para o bem de todas/os, estamos uns passos mais próximos disso.

 

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COVID-19 Educação

Esta semana…

Termina agora mais uma semana recheada de vigorosos debates públicos. Das novas etapas e regras do “plano de desconfinamento” à saída de Portugal da lista verde do Reino Unido, passando por uma marquise em Lisboa e pelo Plano 21|23 Escola+. Temas bastante diversos mas que confluem, com a pandemia como pano de fundo, na possibilidade de bem-estar e na qualidade de vida.

Até poucos dias antes de eu nascer foi Ministro de Estado e da Qualidade de Vida Gonçalo Ribeiro Telles, talvez a personalidade que mais pensou o direito à paisagem e o espaço e a sua utilização como relevantes na qualidade de vida. Penso em como ecoaria a polémica marquise na sua reflexão e lembro uma frase sua numa entrevista ao “Expresso” onde “confessava” ter perdido uma filha (ainda jovem) e como isso “ajuda a perceber onde estamos, as fragilidades que temos” e que “todos temos os mesmos problemas e as mesmas dificuldades” embora não se podendo “resolver de igual maneira”. Os mesmos problemas e dificuldades potenciais a necessitarem de apoio / suporte diferenciado algo que, ainda que faltando conhecer em detalhe, é procurado no Plano de investimento para Recuperação das aprendizagens, também pela recuperação do bem-estar das/os alunas/os, apresentado esta semana (o 21|23 Escola+).

Além de ter proposto um “Crescer-19”, no final da semana passada, no 8º Encontro Psicologia em Contexto Educativo organizado pelo Politécnico de Leiria, numa conferência intitulada “Reflexões sobre o passado e as implicações e resposta à pandemia COVID-19 no papel e contributo da Psicologia em contextos educativos”, abordava em 3 “actos” a evolução da percepção e do papel da ciência psicológica e das psicólogas e dos psicólogos na resposta aos desafios do país, comparando os impactos da crise sócioeconómica da última década nos contextos educativos face à pandemia COVID-19 e o quanto se discutiu e recorreu à Psicologia nesse momento face a hoje.
Com tanto caminho ainda por percorrer, o já percorrido foi imenso e com resultados tangíveis – por exemplo no abandono escolar precoce. Como imensos são os desafios pela frente e a responsabilidade que este caminho nos confere (a nós psicólogas/os) num cientificamente sustentado contributo e em equipa para o bem-estar e para a qualidade de vida, sem deixar ninguém para trás.

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Ao redor... (Revista Sábado) COVID-19 Educação

Crescer-19 (Ao redor; Sábado; 01.06.2021)

“Ao contrário do Dia da Criança, que se comemora em dias distintos de país para país, em qualquer lugar do Mundo onde exista uma criança colocam-se desafios ao seu desenvolvimento e bem-estar hoje, devido à pandemia, mais complexos. Desafios que merecem, que exigem, um “Crescer-19”.

“Crescer-19”, 8º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) resulta de um “tens de escrever sobre a urgência nas Escolas (…) vi uma crise de ansiedade como nunca havia visto” dito por uma psicóloga amiga com muitos anos de Escola(s). Por ela e depois por outra, e outra e outro psicólogo confirmando “a urgência nas Escolas” e as Escolas como lugar micro de uma realidade macro da sociedade. Como o “são sempre” e como o senti nos anos da crise sócioeconómica da última década” que, dia-a-dia, entrava na (minha) Escola e impactava as crianças e jovens com quem trabalhava.

No artigo discuto os impactos da pandemia nas crianças e jovens, particularmente nas com maiores vulnerabilidades; a importância da literacia em saúde psicológica e das competências sócio-emocionais; o papel da promoção, do desenvolvimento e do bem-estar e afirmo a necessidade de nos mobilizarmos para um “Crescer-19”… Uma “mudança verdadeira e impactante através de uma agenda de prevenção e do desenvolvimento interministerial e transversal, relacionando várias áreas e contextos, nomeadamente articulando mais eficaz e eficientemente a acção e os recursos da educação com a saúde, trabalho e segurança social ou desporto e juventude, prolongando e projectando o conjunto de acções além dos tradicionais anos e ciclos lectivos e para os múltiplos contextos de vida das crianças e jovens”.

Um investimento fundamental para “um futuro com crianças, jovens e adultas e adultos com mais possibilidade de se cumprirem, de floresceram e expressarem o seu potencial, com mais saúde psicológica, com maior capacidade de adaptação e resiliência e com maior potencial de bem-estar.”

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Ao redor... (Revista Sábado)

Pareto, Penumbras e Prevenção – 3 “P” para Odemira (Revista Sábado; 18.05.2021)

Quem como eu nasceu na década de 1980 recorda as longas filas que nessa e na década seguinte se formavam no IC1 rumo ao Algarve. Recordo-as por abrirem os telejornais a cada quinzena do Verão. Recordo-as também, muito, por um ano e uma viagem em particular onde, após horas (que pareceram dias) em pára-arranca no IC1 e com uma fila imensa à nossa frente, viramos para onde mais ninguém pareceu virar, seguindo numa estrada sem carros rumo à costa Alentejana e a Sines, nosso destino. Quem, como eu, conheceu Sines na década de 1990, sabe possível num lugar de uma beleza e potencial difícil de definir, coexistirem problemas sociais e ambientais complexos e desafiantes. Nas últimas semanas, no pára-arranca de casos, o “país” virou para onde normalmente não vira e rumou à costa Alentejana e no concelho de Odemira, imediatamente abaixo do de Sines e três décadas depois, encontrou o que dele trago sempre comigo: uma beleza e um potencial difícil de definir que coexiste com problemas sociais e ambientais complexos e desafiantes.

 

Associo-me à feliz caracterização de João Ferrão a propósito da pandemia comportar quatro efeitos importantes que nos ajudam a pensar o território – revelador, expondo vulnerabilidades, debilidades e iniquidades a diversos níveis, por exemplo no emprego, habitação ou acesso a ferramentas digitais; acelerador, porque tornou abruptas tendências como a digitalização na educação ou no trabalho; desordenador, porque, ao precipitar a necessidade de mudanças comportamentais e sociais, provoca o questionamento de opções e modelos de funcionamento, nomeadamente nas formas de deslocação; (potencialmente) disruptor em sentido positivo, porque gerou comportamentos pró-sociais e acções proactivas dos cidadãos, particularmente quanto a grupos profissionais, a grupos mais vulneráveis ou a comunidades.

 

Se a pandemia trouxe estes efeitos ao território, semanas de números elevados de casos positivos por 100.000 habitantes e de decisões e debate, por vezes inflamado e raras vezes focado em soluções, trouxeram estes quatro efeitos à situação da população migrante que trabalha no perímetro de rega do Rio Mira, principalmente na faixa litoral do enorme concelho de Odemira. Revelou, acelerou, desordenou e, esperamos todas e todos, foi disruptivo, no sentido de provocar mudanças que respondam aos diferentes problemas, necessidades e expectativas que confluem por vezes em conflito naquela situação.

 

Esta confluência, a sua intensidade e as múltiplas consequências provoca aquilo que podemos denominar um problema social complexo. Tal como noutros problemas sociais complexos, esta situação não exige uma reposta, mas múltiplas respostas, ou o envolvimento de uma entidade ou organização, mas de múltiplas entidades e organizações. Tal como noutros problemas sociais complexos, não pode ser imediatamente resolvido porque implica acções estruturais e sustentadas no tempo. Também tal como noutros problemas sociais complexos, é fundamental que ao envolvimento das múltiplas entidades e organizações, se associe o da comunidade local e da comunidade científica com objectivos e propósito comuns, incluindo a ciência psicológica cujo conhecimento e evidência podem contribuir com 3 “P” para a mitigação desta situação.

 

“P” de Pareto. Já em 2014 o Pew Research Center nos seus estudos integrados nas “Tendências e Atitudes Globais” identificava que nos EUA e na Europa a preocupação com a desigualdade ultrapassava todas as outras. Como Antonhy Atkinson vem defendendo cumpre traduzir esta crescente preocupação em políticas que combatam a desigualdade, particularmente quando o “trabalho atípico” (conceito ainda insuficientemente abordado no debate público e onde o trabalho sazonal se destaca) ganha cada vez mais terreno também por um crescente número de empresas (negócios) tratar o encargo com trabalhadoras e trabalhadores como custo variável (accionando-os conforme as necessidades a cada momento). Em Odemira, à atipicidade de algum trabalho, juntam-se necessidades da comunidade (nomeadamente económicas) e a inexistência de condições estruturais para lhe responder, que se expressam nas carências de habitação, mas que vão muito além destas e que tocam diversos direitos humanos universais como a liberdade e o bem-estar físico e psicológico, a protecção social e fruição cultural, a liberdade de manifestação religiosa ou a segurança. Esta complexidade implica perseguir uma economia de bem-estar assente na eficiência de Pareto, ou seja visar a melhor alocação de recursos possível e um sistema que não permita que “uma das partes melhore” se tal implicar que “outra parte piore”. Tal depende de um projecto co-construido para o território, participado e partilhado, e de uma liderança visionária que faça do combate à desigualdade, da garantia da igualdade de oportunidades e da partilha de recursos elementos-chave na promoção dos direitos humanos e na prevenção de problemas nas áreas da educação, saúde ou criminalidade.

 

“P” de Penumbras. Apesar de, metaforicamente, associada à escassez e pobreza, o conceito de penumbra corresponde ao ponto de transição da luz para a sombra e é usado para descrever a sombra que resulta da intersecção de dois corpos, por exemplo num eclipse. O conceito de penumbra social tem sido recentemente muito estudado, significando o que resulta da intersecção de dois indivíduos ou grupos sociais diversos, nomeadamente nos impactos nas atitudes políticas ou nas questões de discriminação. Se sabíamos há muito que interacções pessoais, em certas situações e condições, podem ajudar a criar empatia e reduzir o preconceito (por exemplo termos amigas ou amigos emigrantes ou imigrantes), hoje há evidência mais robusta de que o crescimento de penumbras entre grupos (de interacções e das sombras delas resultantes) ao invés de pobreza cria riqueza, diminuindo preconceito e potenciando empatia. Em Odemira, as penumbras sociais não se devem limitar à população migrante, claro está central nesta situação, mas também utilizadas para mitigar preconceitos que possam, de forma semelhante, existir sobre as organizações e empresas do território, sobre a comunidade local, sobre quem visita ou investe no território. Reforçar o contacto, a convivência, a participação e comunicação no espaço público é essencial à construção de pontes por oposição a muros, à maior compreensão mútua e à definição de objectivos e propósitos comuns, mesmo em situações de elevada complexidade.

 

“P” de Prevenção. Pontes essenciais para que não nos desumanizemos pela criação e aprofundamento de um “nós” vs “elas/es” – sejam empresárias/os, arrendatárias/os, decisoras/es ou migrantes. Pontes que existindo devem ser permanentemente atravessadas, prevenindo-se a adaptação às condições existentes e ao nosso papel, quais seres humanos com forte capacidade de adaptação que somos. Prevenindo-se também a fadiga da compaixão e a dessensibilização, processo por vezes muito útil para lidar com o stresse e o desconforto, que deve nos problemas sociais complexos ser contrabalançado pelo activismo nas causas e pelo não aceitar permanente da situação, tornando-a saliente não apenas nos insucessos, mas nos e pelos sucessos que nos validam e levam mais pessoas e grupos a acreditarem e a mobilizarem-se. Prevenindo ainda a normalização daquilo que não é nem pode ser o esperado ou sequer o possível. Prevenindo, finalmente, a desresponsabilização e o “passa culpas” das diferentes partes, colocando o enfoque em soluções.

 

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, não haverá outra Odemira de tão ímpar, bela e desafiante, no seu vasto e diverso território. Mas há hoje, e haverá no futuro, um conjunto de problemas sociais complexos onde a ciência psicológica e as psicólogas e os psicólogos podem ter um decisivo contributo. Na condição de cidadãs e cidadãos, activando-se enquanto agentes de direitos humanos, advogando pela sua centralidade e universalidade. Como cientistas, estudando e reflectindo sobre os fenómenos. Promovendo literacia que permite aproximar pelo conhecimento e empatizar pelo reconhecimento. Testando soluções, escalando as de maior impacto. Como profissionais, trabalhando com pessoas, grupos e comunidades apoiando e suportando a mudança pela promoção de competências e de factores de resiliência pessoal e social. Mediando e facilitando a comunicação entre pessoas e grupos, intervindo nos acontecimentos de vida mais significativos e nas crises. Promovendo confiança… A confiança que tenho que Odemira (tão significativa para mim) caminhará na direcção certa e que no futuro poderá continuar a ser apontada, nesta como noutras questões, como exemplo… A seguir.

 

Tiago Pereira

in Revista Sábado

[18.05.2021]

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/pareto-penumbras-e-prevencao–3-p-para-odemira

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Emergência Climática Psicologia Tomada de Decisão

Evitar.

Evitar.

Harari defende que devemos conhecer a história não para prever o futuro mas para, com “a libertação do passado”, sermos mais capazes de “imaginar destinos alternativos”. Assume que isso, não significando “liberdade total” (por não podermos evitar a influência do passado) é, ainda assim, muito importante.

Evitar (ou não) o que existiu, existe e existirá ocupa-nos enquanto pessoas e sociedade bastando pensar hoje em Portugal a discussão do passado colonial, a COVID-19 ou a crise climática.

Sustein no seu último livro (Averting Catastrophe) debate uma potencial teoria da decisão para catástrofes a partir de contributos da ciência psicológica e dos conhecidos desconhecimentos e dos ainda desconhecidos desconhecimentos. Reflecte sobre o maximin e em que circunstâncias devemos procurar eliminar o pior dos piores cenários, o seu custo e como enviesamentos (ex optimismo) e heurísticas (disponibilidade) influenciam decisões, sempre partindo de que potencialmente não viveríamos (pessoas) ou decidiríamos (sociedade) se procurássemos, sempre, eliminar o pior dos piores cenários.

Como não podemos evitar a influência do passado, não podemos evitar a influência de como tomamos decisões no presente/futuro. Num e noutro caso reconheçamo-lo para imaginar e construir destinos alternativos.