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Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Magazine – Quando, Como e Porquê?

“Senhores espectadores, boa noite! Vamos apresentar a 1ª edição do Telejornal da RTP constituída por noticiário e actualidades do país e do estrangeiro”. Estávamos em 1959 e foram estas as palavras com que Mário Pires abriu o 1º Telejornal em Portugal, um “programa” inspirado no Telegiornale da RAI Italiana que se iniciara 5 anos antes.

Passaram 61 anos, vivemos outro tempo e outros desafios, um sistema político diferente e com outras possibilidades e direitos no acesso à informação e liberdade. 61 anos sempre com os Telejornais como modelo procurado por milhões de pessoas para acesso ao “noticiário e actualidades”.

Procurando aumentar as formas disponíveis para acesso à informação sobre a OPP, tornando-a mais acessível e presente junto de todas/os as/os psicólogas/os, a Ordem dos Psicólogos Portugueses, num trabalho exclusivamente realizado pela sua equipa, disponibilizou um novo Magazine Informativo (“Quando, Como e Porquê”) que vos convido a ver e que pretende resumir “notícias e actualidades” da associação de todas/os as/os psicólogas/os e do que a rodeia.

É mais uma forma de estarmos cada vez mais próximos e de estando mais próximos sermos uma OPP cada vez mais forte e com maior capacidade de responder aquilo que o país, as pessoas e as/os psicólogas/os dela esperam.

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COVID-19 Pobreza e Desigualdade Psicologia

Odemira…

A 22.10.2014 deixamos o concelho de Odemira onde vivêramos os anos anteriores. Nesse dia nasceria uma das filhas de uma amiga e um amigo que são do que melhor guardamos desse período e viajaríamos no “popular” IC1 com o nosso 1º filho a 7 semanas de nascer. A 24.04.2021, a 7 semanas da data prevista para o nascimento do nosso 2º filho, Odemira era o concelho com maior taxa de incidência de casos COVID-19 e sabemos o que se seguiu.

“Pareto, Penumbras e Prevenção – 3 “P” para Odemira”, 7º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) centra-se no facto de no “pára-arranca de casos” o país se ter confrontado com o problema social complexo que Odemira vivencia.

Nele proponho 3 “P”: Pareto – perseguir uma economia de bem-estar assente na eficiência de Pareto, visando a melhor alocação de recursos possível e um sistema que não permita que “uma das partes melhore” se tal implicar que “outra piore”; Penumbras – o seu crescimento entre grupos (de interacções e das sombras delas resultantes), diminuindo preconceitos e potenciando a empatia; Prevenção – da desumanização, adaptação e dessensibilização, fadiga de compaixão e “normalização” do que não é nem pode ser o esperado ou sequer o possível.

Singelo contributo sobre tão complexo e impactante desafio de um território tão significativo para mim

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COVID-19 Psicologia

17.5

Neste 17.5, dia muito importante para a minha família, comemora-se o Dia Internacional de Luta contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia. Nele celebra-se o caminho percorrido pela não discriminação e pelos direitos LGBTIQ enquanto direito humano fundamental. Com ele celebram-se, também, todos os direitos humanos na sua universalidade e a aspiração da cabal concretização dos mesmos junto de cada pessoa em cada circunstância ou lugar deste Mundo.

Este dia e as conquistas nesta matéria, importantes ainda que insuficientes, resultam em parte de uma ligação entre o activismo social e político com o aprofundar do conhecimento e evidência da ciência.

Sobre a necessidade de nos activarmos e de não “normalizarmos” o que não é nem pode ser o esperado, conversei com a Margarida Alpuim para o trabalho “Que apatia é esta que andamos a sentir?” onde reflectimos sobre o continuum entre um certo “definhamento” e o florescimento – enquanto capacidade de nos cumprirmos e de cumprirmos o nosso potencial – adaptação, autocuidado e ajuda profissional e a necessidade de termos objectivos, propósitos, algum controlo e previsibilidade.

Também sobre a necessidade de nos activarmos escrevi um artigo para a minha rubrica (Ao redor…) da Revista Sábado a propósito de Odemira que aqui partilharei em breve.

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Ao redor... (Revista Sábado)

Autárquicas 2021 – Por um Portugal de ABC (Ao Redor; Sábado; 05.05.2021)

De repente olhamos pela janela e as ruas estavam vazias. A televisão, os telemóveis, os jornais e as revistas mostravam-nos incessantemente imagens de ruas outrora repletas, agora desertas. Os lugares, as cidades em pausa. O impensável concretizava-se às mãos de um vírus e de uma pandemia que nos obriga a repensar e a recuperar. Que nos permite uma, até aqui improvável, rápida mudança que pode concretizar-se já a partir deste 2021.

Com o avançar do ano juntaremos à melhoria da situação sanitária do país – com maior imunização e melhor adaptação das pessoas e da sociedade à (con)vivência com o vírus – o provável início da implementação do plano de recuperação e resiliência, o resultado no Mundo da eleição de Biden (e da derrota de Trump) e a construção, debate e sufrágio dos programas para as autarquias, pela relevante coincidência de 2021 ser ano de eleições autárquicas em Portugal. Creio que a importância destas eleições no momento que vivemos é ainda insuficientemente saliente no debate público, algo desalinhado com o seu papel no repensar e no recuperar a que estamos obrigados e na mudança que daí pode e deve resultar.

O desafio que enfrentamos, também porque expõe mais claramente as vulnerabilidades, as iniquidades e a forma como intrinsecamente se relacionam, reforça a importância da proximidade e a pertinência da adaptação e “personalização” das respostas/medidas em crises às características, necessidades e aspirações das pessoas, grupos e comunidades. Reforça também a importância da intervenção precoce ao surgimento dos problemas e do investimento em agendas de futuro, com resultados a médio e longo prazo. Já a pausa a que fomos forçados permite-nos reiniciar e, ao reiniciar, voltar ao mais básico do que queremos das cidades e dos territórios – a possibilidade de fruição dos mesmos por todas e todos que os habitam ou visitam. Permite-nos, sem tabus, aspirar a um Portugal de ABC – Autarquias de Bem-estar e Coesão social.

As equipas candidatas nas próximas eleições autárquicas têm assim um papel importante no presente e futuro do país e que será tão mais consubstanciado quanto intencionalizem e promovam, com sucesso, a mobilização das populações para participarem neste processo eleitoral. Esta participação deve decorrer, não apenas da possibilidade de serem candidatas ou da participação eleitoral propriamente dita, mas também do envolvimento activo no desenho dos projectos para as autarquias, possibilitando a identificação nos mesmos das expectativas e aspirações das pessoas e promovendo o envolvimento colaborativo futuro para sua concretização. Mais, as equipas candidatas devem potenciar uma dimensão interdisciplinar neste processo, recorrendo a contributos de diversas áreas científicas que apoiem, operacionalizem e complementem o processo de participação atrás referido, entre as quais a ciência psicológica.

A cidade e o território são os espaços micro onde se espalham a realidade macro. É neles que as necessidades, das mais básicas até as que nos permitem cumprirmo-nos integralmente, devem ser preenchidas. É neles que a pandemia ganha nome das pessoas que afecta e a quem impacta. Que a pobreza se expressa. Que a iniquidade se concretiza. Que existem pessoas em abandono escolar, em situação de desemprego ou em situação sem-abrigo. Que se vê e vive a exclusão. Que a crise climática resulta em períodos de seca e alterações ambientais, em inundações ou incêndios florestais de grandes dimensões. É neles que o bem-estar ganha forma e a coesão pode ser impulsionada.

Há muito definida enquanto estado completo de bem-estar, a saúde é absolutamente essencial por ser transversal a estas necessidades e pelo impacto que tem na coesão social, particularmente num país onde o seu Serviço Nacional de Saúde é ainda um dos principais factores de inclusão e de produção de riqueza. Neste sentido, é fundamental que os projectos para as autarquias assentem numa visão de promoção da saúde das populações e prevenção da doença, numa perspectiva em que a saúde não se limite à dimensão física, integrando a dimensão psicológica, condição essencial à saúde física e garante da possibilidade de fruição e da capacidade de adaptação e resiliência (pessoal e comunitária) à adversidade e aos desafios societais e da cidade, presentes e de futuro.

O papel da ciência psicológica não se esgota nas dimensões directas da saúde. Para o bem-estar e coesão social, questões como a educação e a forma como aprendemos e aprenderemos no futuro, a habitação, a mobilidade, a demografia, as instituições e suas lideranças, o ambiente, o emprego e a forma como trabalhamos e trabalharemos, a conciliação de papéis sociais das pessoas (vida pessoal-profissional, por exemplos) e dos territórios (relação turismo-habitação, por exemplo), a cultura, a confiança, a capacidade de resposta a crises, a equidade e inclusão ou o desporto são cruciais e áreas onde as autarquias assumem preponderância e onde contributos da ciência psicológica são fundamentais.

Através dela podem compreender-se melhor as motivações que conduzem a vivências significativas dos e nos lugares. Podem facilitar-se os processos de mudança necessários à adaptação das populações a territórios em rápida transformação. Pode promover-se a inclusão de todas e todos, garantindo não apenas que as pessoas são ouvidas aquando dos processos de tomada de decisão, mas que têm a informação e desenvolvem as capacidades e a motivação necessárias à mudança e a uma cidadania activa e plena.

As psicólogas e os psicólogos podem contribuir localmente para o que o país, como um todo, terá que fazer, não deixando “ninguém para trás” e não permitindo que autarquias com menos recursos, densidade populacional ou com desafios específicos sejam preteridas neste processo, penalizando populações já de si penalizadas pelos mesmos factores e prevenindo a lógica de “super-autarquias” que, com mais recursos possam desenvolver projectos que captem mais pessoas e recursos, aprofundando o fosso e reforçando iniquidades neste âmbito.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é tempo de repensarmos as cidades e os territórios envolvendo os cidadãos e de os recuperarmos pela recuperação das pessoas. É tempo de construirmos projectos que lhes permitam florescer para que as pessoas com eles e neles floresçam. Assim se prevenirá o efeito negativo da “urbanidade” e de condições específicas do território na saúde mental e no bem-estar das pessoas. Assim se promoverá, em proximidade e na e pela relação, a sustentabilidade e a resiliência pessoal e comunitária para os desafios e crises que nos esperam e que as autarquias esperam. Assim, com um Portugal de ABC, aproximar-nos-emos de um país de bem-estar e coesão social.

https://www.linkedin.com/pulse/aut%25C3%25A1rquicas-2021-por-um-portugal-de-abc-tiago-pereira

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Psicologia Tomada de Decisão

Escolher.

Escolher.

Vivemos (n)um Mundo de complexidade crescente com mais informação, actividades, produtos, estudos, desafios, artigos, reflexões, comentários.

A cada dia mais possibilidade de escolha, necessidade de escolher e rapidez na informação/confirmação das escolhas, porém:
1) a escolha “infinita”, pela paralisia que provoca ou pela insatisfação associada à escolha vs potenciais outras escolhas, não aumenta o bem-estar, defendendo B. Schwartz que algumas escolhas o provocam mais do que nenhuma ou muitas escolhas possíveis;
2) reforça o “paradoxo do omnívoro” definido por C. Fischer como a incerteza que a possibilidade de escolha introduz na alimentação e o contrassenso de co-existir com pessoas que não têm recursos/condições para escolher… Por vezes para se alimentar.

Escolher “melhor”, como K. Lewin defendeu na década de 1930, pode depender de ousarmos ir além da “força” e, quando forças puxam para lados opostos, não colocar mais força num dos lados mas remover as barreiras que nos impedem de chegar a um dos lados. A uma escolha.

Sendo desafiante, é bom escolher. Usar da possibilidade e da liberdade para, com responsabilidade, escolher. Escolher e, eventualmente, errar, falhar.

Acreditando na possibilidade de reparação. Acreditando, como Beckett, que falharemos melhor depois.

 

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Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade

O bem-estar como bússola…

“A bússola europeia não pode ser o PIB, tem de ser o bem-estar dos cidadãos”.

O bem-estar… Surpreendente – porque significativa, se séria e consequente – afirmação do presidente do Conselho Europeu (Charles Michel) em entrevista que antecede a Cimeira Social Europeia que começa a esta hora do Porto e que visa um novo compromisso e impulso à concretização do Pilar Europeu dos Direitos Sociais.

Cimeira que se inicia precisamente 24h depois da minha participação numa oficina da EAPN – European Anti Poverty Network com o estimulante título de “Saúde Mental como Direito Universal”. Nela reflecti a propósito da dictomia universalismo vs relativismo, reforçando o sistemático universalismo da saúde mental ou psicológica na saúde (por oposição ao relativismo do direito à saúde enquanto direito à saúde física e à consideração da saúde mental apenas em períodos de crise como o que vivemos) e a centralidade do conceito na possibilidade de bem-estar e na coesão social.

Também por isso – se sério e consequente o pressuposto #timetodeliver da Cimeira – é fulcral que o 16º dos 20 Direitos Sociais (Saúde), incluindo a saúde mental ou psicológica, seja considerado universal e nuclear na resiliência pessoal e social e na sua dimensão preventiva, como bem referido na carta dos direitos sociais.

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Política Psicologia

Que cidade e território queremos?

“Autárquicas 2021 – Por um Portugal de ABC”, 6º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado), centrado na feliz coincidência de 2021 ser ano de Autárquicas e do seu potencial papel “no repensar e no recuperar a que estamos obrigados e na mudança que daí pode e deve resultar”.

Ao expor “vulnerabilidades, iniquidades e a forma como intrinsecamente se relacionam”, a pandemia reforçou “a importância da proximidade e a pertinência da adaptação e personalização das respostas em crises às características, necessidades e aspirações das pessoas, grupos e comunidades”. Noutro prisma, permitiu-nos reiniciar e “voltar ao mais básico do que queremos das cidades e dos territórios (a possibilidade de fruição dos mesmos por todas e todos que os habitam ou visitam) e aspirar a um Portugal de ABC – Autarquias de Bem-estar e Coesão social”.

Considerando-o, o artigo é um singelo estímulo para que as equipas candidatas promovam a participação activa da população neste processo (do desenho de projectos considerando as suas necessidades/aspirações à sua concretização futura) e nele recorram a contributos de diversas áreas científicas, nomeadamente da ciência psicológica.

A vós que, ao ler-me, me estimulam a reflectir, pergunto: que cidade e território querem? O que podem(os) fazer para a/o tornar possível?

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Psicologia

Honestidade

Declaro que as palavras que em seguida partilho resultam do meu pensamento e da minha leitura da investigação da ciência comportamental sobre um tema muito complexo, multifactorial e que impacta significativamente a sociedade, a honestidade. Pretendendo, com elas, suscitar reflexão sobre algumas das suas dimensões. Asssinado: Tiago Pereira.

“Qual é o primeiro passo para curar e recuperar [as pessoas, para recuperar o país]?”, perguntaram-me num programa de rádio onde recentemente participei. Num segundo, o mais emergente em mim: “o primeiro passo é retomarmos uma dimensão de confiança em nós e nos outros”. Após, continuei: “recuperarmos a confiança em nós e isso nos ligar aos outros é muito importante para o futuro até porque isto não é algo novo (…) há uma crise de confiança [nas instituições, nas outras e nos outros] que se instalou já pré-pandemia e que pode ser preocupante”.  Todas e todos, mais presentes, já passados ou até perspectivados, teríamos diferentes, mas múltiplos exemplos do que pode contribuir para esta crise de confiança, sejam situações mais ou menos específicas ou exemplos (casos) mais ou menos mediáticos.

Quando se vivem crises colectivas ou mesmo globais, a confiança, sempre importante, torna-se essencial e decisiva. É ela que previne o deslaçar das relações em sociedade, a desfragmentação e o potencial “passa culpas” entre grupos populacionais, quer seja pela sua pertença comunitária, etária, partidária ou sócioeconómica. Por isso, construir confiança nas instituições e nas autoridades e suas recomendações é essencial e, para que tal suceda, a verdade e a honestidade devem sempre nortear a comunicação com a população.

 

Creio que todas e todos temos presente que o nosso comportamento e tomada de decisão não são 100% racionais bastando, para tal, que reflictamos sobre o que comemos no sofá em alguns dias das últimas semanas para, imagino, identificarmos comportamentos menos racionais. Quando reflectimos sobre exemplos de irracionalidade em nós e em quem nos rodeia tendemos também a identificar outro tipo de comportamentos – comportamentos desonestos. Importa, porém, que tenhamos presente que a desonestidade não resulta sempre de irracionalidade.

Na realidade muitas e muitos de nós já fomos em alguma situação desonestos e nem por isso deixamos de nos considerar “boas pessoas”. Algo também explicado pelo “fudge factor” (numa tradução possível, mas incompleta – factor de correcção) descrito pela equipa do psicólogo Dan Ariely enquanto factor que permite beneficiarmos com a desonestidade enquanto simultaneamente nos consideramos pessoas honestas e que explica porque algumas e alguns de nós consideramos “aceitável” ver um filme ou um jogo utilizando um stream ilegal, viajar a 130km/hora numa autoestrada ou dizer que um prato estava delicioso quando nem bom estava. Dito de outra forma, explica o hiato máximo (e comportamento) possível através desse efeito de correcção para nos sentirmos bem connosco e beneficiarmos de algo não legal (ilegal) ou não honesto (desonesto). Esse hiato varia de pessoa para pessoa (“um stream ilegal nunca, quando muito um artigo científico”) e, na pessoa, de momento para momento (“130 normalmente… se atrasada 140 km/hora”) e de tema para tema (“a uma peça de roupa sugerida numa loja digo que não gosto quando não gosto mas num restaurante não consigo”). Esta variância e as racionalizações (razões que encontramos) que justificam os nossos comportamentos desonestos, fazem da desonestidade algo não meramente irracional. Antes um fenómeno subjectivo, multifactorial, complexo e com significativo impacto na confiança nas pessoas, na sociedade e na integridade das instituições.

Ao depender da realidade, experiência e motivações, ou seja, da subjectividade de cada pessoa, a honestidade expõe-se particularmente ao tal “fudge factor” e, compreendê-lo, oferece-nos pistas necessárias para prevenirmos a desonestidade, desde a pequena à grande que deslaça sociedades. Diferentes estudos têm invariavelmente apontado para um significativo número de pessoas (por vezes superior a 70%) que podem ter comportamentos desonestos considerando-os legítimos através do factor de correcção. Em todo o caso, grande parte destas pessoas têm comportamentos desonestos de pequena dimensão e é pequena a percentagem de pessoas que têm comportamentos desonestos de grande dimensão. Nos estudos “Matrix” da equipa de Dan Ariely, onde mais de 28.000 pessoas (em 40.000) têm um comportamento desonesto (mentem no número de respostas correctas que dão, valendo cada uma 1 dólar), apenas 20 pessoas demonstram “grande desonestidade” e 28.000 “pequena desonestidade”. O primeiro grupo “custa em desonestidade” 400 dólares (20 em média por pessoa). O segundo mais de 50.000 dólares (um pouco menos de 2 por pessoa). Este dado deve fazer-nos reflectir sobre a quase totalidade de energia e atenção que colocamos no primeiro grupo, deixando pouco espaço para se investir em favorecer, também do ponto de vista comportamental, o comportamento honesto, motivando-o e reforçando-o.

Mais isto é importante quando sabemos que a norma social é um dos principais impulsionadores do “fudge factor”. Se e quando existe a percepção de que “todas/os o fazem” e a atenção mediática é colocada no comportamento desonesto, salientando-o, mais que desincentivá-lo muitas vezes isso legitima-o. Tal como quando ao comportamento desonesto é associada a ideia de que este “não prejudica ninguém” ou é “justo pelo seu fim”, sendo essencial que as consequências indirectas da desonestidade sejam sempre consideradas. Além da possibilidade de contágio a outras/os, a desonestidade pode potenciar mais desonestidade na própria pessoa, pelo impacto na sua identidade e pela sua adaptação, nomeadamente a que resulta das reações emocionais a este tipo de comportamento, diminuindo sucessiva e progressivamente os processos cerebrais que provocam sensações de desconforto aquando do comportamento desonesto. Finalmente, tem-se investigado o papel da ambiguidade, da desmaterialização e da dimensão ética e moral na desonestidade, sendo hoje muito claro que processos mais despersonalizados e/ou ambíguos e com menos clareza oferecem mais espaço para a legitimação da desonestidade e, pelo contrário, que quando se associam os processos a dimensões morais da própria pessoa se promove o comportamento honesto.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o investimento na promoção da honestidade é e será amplamente mais eficaz, menos custoso e, pela confiança que produzirá e pelo impacto positivo na economia, fará mais pela sociedade e sua coesão do que o investimento exclusivo na também importante penalização da desonestidade, particularmente em Portugal onde, segundo o Eurobarómetro de Dezembro de 2019, 94% da população considerava a corrupção generalizada. Isto faz-se intencionalizando a utilização do conhecimento e da ciência, promovendo, salientando e reforçando o comportamento honesto. Isto faz-se, como continuei na resposta ao programa de rádio, recuperando as pessoas porque “as pessoas estarem bem do ponto de vista da saúde psicológica as ajuda a estar mais abertas, empáticas e disponíveis para os outros e isso, por si, reforçará a confiança e os laços”, também pelo contágio emocional que resulta de quando cuidamos de nós, cuidarmos das outras e dos outros, e pelo contágio comportamental que resulta de ao sermos honestos promovermos a honestidade.

 

Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 21.04.2021
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/honestidade
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COVID-19 Psicologia

The first embrace

Recuemos 8 décadas. Pensemos numa Europa devastada pela II Guerra Mundial. Nesse tempo não existia o World Press Photo (WPP) cuja fotografia vencedora em 2021 retrata, segundo o autor, uma “história de amor e esperança em tempos difíceis” e a sua tentativa de sugerir empatia por que sofre através do “plástico de abraços”. Não havia WPP mas existia sofrimento, histórias de amor e esperança em tempos também difíceis e dele sobram 3 reflexões importantes:

1) a relevância atribuída ao estoicismo, na adaptação do conceito com 24 séculos a situações de stress, crise ou caos, enquanto possibilidade de mantermos controlo e operação sobre a nossa vida, fundamentais à resiliência;

2) o receio das autoridades de que a “mentalidade de abrigo” e o recolhimento prolongado redundasse em ansiedade e medo paralisantes que pusessem em causa a reconstrução do país;

3) as situações de stress pós-traumático (PTST) que, anos depois, ainda ou se passavam a manifestar.

Amanhã cumpriremos o 218º dia desde 19.3.20 em estado de emergência. 54% dos nossos últimos 406 dias.

Estoicamente chegamos a este fim.

Abracemos, agora e sem plásticos, a tarefa de apoiar as e os que continuem a sofrer, tenham dificuldade em “sair” ou venham a manifestar PSTP.

Promovamos resiliência. Recuperemos as relações. Reconstruamos o país.

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COVID-19 Psicologia

25.04.1974

“Estava a pensar como seria a vida antes do dia da liberdade”, respondeu. Ontem, quando ouvia(mos) o discurso de 25 de Abril do Presidente da República, olhei o meu filho que olhava o vazio parecendo que procurava compreender aquelas muitas e muito complexas palavras que ouvia e sabia importantes. Perguntei-lhe se o fazia. Não. Pensava…

Reflectia como me parece importante que todas/os façamos a partir desse importante discurso pois, para compreendermos e vivermos o presente, é fundamental termos perspectiva sobre o passado também para projectarmos o futuro.

Sobre este caminho (passado-presente-futuro), a conexão e relação, o humanismo e o papel da cultura (pela possibilidade de fruição e de abertura) na promoção da saúde psicológica, conversei com a Ana Pinto-Coelho em mais uma M-Talk, contributo para a construção de narrativa(s) sobre o período que vivemos.

Quanto ao meu filho, não pensava sobre o que ouvia mas sobre como seria a vida pré 25.04.1974… A sua desconcertante resposta fez-me pensar em tantas/os que antes não podiam ouvir palavras como aquelas que eu e nós podemos ouvir. Em tantas/os que, para que as escutemos, estavam privadas/os de olhar os seus filhos de 6 anos como eu ali fazia.

Pensei, grato. Celebro, sempre, grato.