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Legislativas 2022 – Que papel da psicologia?

Faltam poucas horas para o encerramento da campanha eleitoral e “momentos extraordinários exigem um texto diferente”. Um texto sobre “contributos da psicologia para soluções para os desafios das pessoas e da sociedade e de como os programas dos partidos e, principalmente, um debate político o reflectem”.

“Legislativas 2022: A Psicologia a contribuir para soluções nos programas e no debate político”, 25º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte de um debate (20.01) entre representantes de 8 dos 9 partidos/grupos parlamentares representados na Assembleia da República no início da última legislatura, organizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) e moderado pela jornalista Maria Flor Pedroso. Debate assente num contributo científico da OPP que procurou compilar um conjunto de propostas para as Legislativas 2022 no sentido da tomada de decisão e do desenho de políticas públicas que promovam a saúde psicológica, factores de competitividade e resiliência, o bem-estar, o desenvolvimento das pessoas e do país e a coesão social.

Nos programas e no debate três constantes: a saliência, a relevância e a importância da saúde mental, hoje consensual na sociedade portuguesa, do “Presidente da República ao cidadão mais comum”; a importância das/os psicólogas/os nela, conforme resulta claro do seu empenho, dedicação e “trabalho ao longo da pandemia”; e a necessidade imperiosa de melhorar o acesso das pessoas aos seus serviços, em diversos contextos, ao longo de todo o ciclo de vida, de forma simples, rápida e próxima e não apenas no sentido da remediação de problemas, mas, particularmente, da prevenção e da promoção de saúde e bem-estar”. Constantes a que se soma uma inquietação: “a necessidade de, ao fim da pandemia, não corresponda o fim desta saliência e relevância da saúde mental, porque fundamental para as pessoas sempre, mas também porque os tempos da “saúde sanitária”, são distintos dos mais distendidos tempos da crise económica e, particularmente, social que a acompanha e lhe sucede e, mais ainda, do tempo dos problemas de saúde psicológica (por ela agravados) e das perturbações das pessoas dela decorrentes (as novas e as que se aprofundaram).”

Do debate sobressai o “papel da psicologia nos objectivos do desenvolvimento sustentável e da saúde mental como factor fundamental de desenvolvimento humano”.

“Que o país e que quem se propõe governá-lo, saiba as/os 25 mil psicólogas/os preparadas/os, empenhadas/os e motivadas/os para contribuir para comunidades, cidades e um país com mais bem-estar, equidade e de maior coesão social.” Como saiba que, promover a participação implica que, quem (pode) vota(r), “se sinta representada/o, envolvida/o e que o seu voto conta e possibilita a construção de soluções partilhadas para os seus problemas e de oportunidades para cumprir as suas expectativas”.

Votemos, pelo presente e pelo futuro.

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Desafios da Psicologia Psicologia

Direito a Confiar

Invistamos… “Como um mineral precioso do tempo que vivemos, que (ainda) temos em Portugal e que escasseia e está em risco Mundo fora. Como um recurso que, porque base para parte significativa das concretizações que podem contribuir para mitigar e resolver problemas das pessoas, das organizações e das sociedades, pode ser diferenciador das nossas organizações e do nosso país, valorizando-as e valorizando-o hoje e para o futuro.”

Invistamos… “A partir das organizações enquanto estímulo e exemplo para o país e a partir de Portugal enquanto estímulo e exemplo para o Mundo. Para o Mundo e por um Mundo que continue a evoluir e a garantir maior possibilidade de bem-estar, de equidade e de paz para todas e todos.”

Invistamos… Na confiança. No direito a confiar. Preservemo-los, como recurso do país.

A convite da Rita Saldanha, a quem volto a agradecer a confiança, propus-me pensar, a partir da “Palavra do Ano de 2021 – Vacina”, sobre a confiança em artigo de opinião para a Líder – Ideias que fazem futuro. Artigo que intitulei de “Direito a Confiar” por oposição a uma ideia do “confiar” como dever, em si.

No artigo que agora partilho, parto do papel que a “capacidade de relação, de abstracção e de envolvimento em torno de ideias não claramente tangíveis como a amizade, o amor, o passado e o futuro ou a ideia de comunidade nos permitiram num caminho de evolução”, desde à centenas de milénios com as primeiras e primeiros homo sapiens à sociedade como hoje a conhecemos, com o que de bom e de menos bom tem. Como, tudo, “ciência, cultura, direitos humanos, futuro assenta nessa nossa capacidade de nos relacionarmos (e na capacidade sucessiva que temos de empatizar com outras e outros) e de abstração (e na capacidade sucessiva que temos de confiar)” e como são a empatia e a confiança “fundamentais à adopção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais (…) garantes em período de crise e pilares da coesão social” e base, por exemplo, de processos complexos que respondem às necessidades das pessoas e das sociedades, como é exemplo o processo de vacinação contra a COVID-19 em Portugal.

Um recurso precioso… que “implica que métricas que procurem aferir valor e produtividade de organizações incluam a necessidade de avaliar e validar a “abstracção” confiança como garante de capacidade de resposta a problemas e desafios e como factor diferenciador e protector no presente e de futuro”.

Um recurso precioso… que implica, também, que “a cultura organizacional verdadeiramente assuma a confiança como valor maior a defender, estimular e disseminar, não apenas, mas também, a partir das suas lideranças”.

Um recurso precioso… que entenda “a confiança como um direito (de todas e todos) e não como dever (de alguns e algumas)”.

Um recurso precioso… essencial ao desenvolvimento de outros [além do dinheiro] poderosos “sistemas pluralistas de confiança mútua” como a ciência, a democracia, os direitos humanos e até a paz.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia

Debater, construir (não destruir), ganhar (não perder) (Ao redor…; Sábado; 11.01.2022)

Debater, destruir (adversárias/os), ganhar. A narrativa dominante à preparação e à análise ao debate é hoje – porque condicionada e como resposta às novas formas de acesso à informação e à velocidade, falibilidade e ferocidade das redes sociais – particularmente centrada em emoções “ditas negativas” (a raiva, o ódio, por vezes o medo) e assente na forma como se pode e se se conseguiu destruir as ideias, propostas e, por vezes, a pessoa ou pessoas com quem se debate. É, portanto, particularmente baseada em quatro características que empobrecem (se extremadas, que colocam em risco) a democracia: a simplificação e generalização excessivas, promotora de populismos; a polarização, promotora de antagonismos; o tratamento das e dos adversários como inimigas ou inimigos; a obstaculização dos espaços de diálogo, compromisso e partilha.

Próximo da década de 60 do século passado, Lawrence Kohlberg desenvolveu uma das mais relevantes, discutida e, portanto, criticada teoria do desenvolvimento moral com um forte contributo de um conjunto significativo de análises de respostas ao dilema de Heinz. Dilema que explora a forma como pessoas, como cada um/a de nós, justificam e racionalizam as suas acções com base na moralidade a partir da situação que aqui resumo: “Deveria ou não ter Heinz assaltado um laboratório farmacêutico, como fez, para roubar o único medicamento que poderia salvar a sua esposa da morte, por não ter reunido dinheiro suficiente para o comprar por fortemente inflacionado o seu preço?”  A resposta a este dilema e a um conjunto de perguntas a ele associadas (por exemplo, “E se não amasse a sua esposa?” ou “E se fora para uma pessoa sua desconhecida?”) e, particularmente a justificação dada para a acção, permite sustentar os três níveis base de moral da teoria – pré-convencional, orientado para a punição, obediência ou interesse próprio; convencional, orientado para acordos interpessoais, para a conformidade e para a manutenção da ordem social; pós-convencional, orientado para o contrato social e para os princípios éticos e de direitos universais.

No momento particular que vivemos, creio interessante pensarmos numa questão também dilemática relacionada com eleições e candidatas/os (chamemos-lhe o dilema da Democracia): “Imagine que ganhava umas eleições democráticas e justas, mas que sabia que governando, nas condições que teria, enfraqueceria a democracia e esta poderia ser a curto/médio prazo colocada em risco. Governaria ou abdicaria?”. Pensemos esta questão e – porque evidentemente a resposta ao dilema não é simples nem generalizável a diferentes tempos, enquadramentos ou contextos – mais do que as potenciais respostas de quem lhe responderia, as justificações e racionalizações que poderiam ser dadas por quem lhe respondesse. Pensemos nela, se quisermos, não no contexto português, onde os riscos para a democracia estão por enquanto mais mitigados, mas no contexto da França, dos Estados Unidos da América ou da Hungria.

Defender a democracia implica usar as ferramentas da democracia para a aprofundar e não para a enfraquecer. Implica, por exemplo, utilizar os debates (democráticos) para construir e não para destruir. Sucessivamente implica que se possa ganhar, construindo e não apenas destruindo o que, por sua vez, implica que mediadoras e mediadores (comentaristas, jornalistas, líderes societais e comunitários) não nos deem, também nas questões políticas, apenas aquilo que queremos, conhecemos e/ou nos conforta, mas também oportunidade de contactar com o que necessitamos, desconhecemos e/ou nos confronta. Implica que as pessoas, e a sociedade no geral, valorizem e validem a construção, incentivando-a, apoiando-a e nela participando.

Debater, construindo, implica que questões complexas como são as dilemáticas atrás colocadas, mas, particularmente, desafios societais como a pobreza, a desigualdade, as migrações, a crise climática ou a(s) justiça(s) não vivam de inadequadas simplificações, excessivas generalizações e de “medos” e certezas absolutas, promotoras de demagogia e de populismos destrutivos.

Debater, construindo, implica prevenir que recuemos 2500 anos à “guerra entre os opostos” que, segundo Heraclito, filósofo considerado o “pai da dialética”, dava sentido à realidade. Implica que a afirmação de ideias e de propostas não viva exclusivamente da oposição a outras ideias e da criação de antagonismos face a outras pessoas, partindo de verdades absolutas que polarizam e que, como Lerner afirma, são imediatamente contrariadas por outras verdades absolutas, igualmente polarizadoras.

Debater, construindo, implica, por outro lado, recuar 115 anos e ter presente a frase que Evelyn Beatrice Hall (como S. G. Tallentyre) escreveu na biografia que publicou de Voltaire: “Desaprovo o que dizeis, mas defenderei até a morte o seu direito a dizê-lo.” Que existam adversárias e adversários e não inimigas ou inimigos, não tribalizando, preservando o espaço comum de entendimento que representa a democracia.

Debater, construindo, implica, finalmente, prevenir o encerramento e a “autopolinização” exclusiva em prol da “polinização cruzada”. Implica promover espaços de diálogo, compromisso, partilha e crescimento, conjunto.

Para tal, é fundamental considerar a importância do conflito (não violento), da crítica (construtiva) e da capacidade de estabelecer conversas e diálogos (desafiantes). Da capacidade de se avançar de um “ou” para um “e” e de um “deveria” para um “poderá”, também transformando narrativas individuais e societais sobre decisores e decisoras. De se ser proactivo, de se procurar baixar as tensões, encontrar espaços de entendimento, estabelecer objectivos realistas e concretizáveis e de se melhorar a comunicação, escuta activa e o feedback de todos e todas as intervenientes. Tudo isto não se prepara, apenas, no momento imediatamente anterior ao debate. Desenvolve-se ao longo de toda a vida. Desde logo garantindo a mães, pais, cuidadoras e cuidadores oportunidades (competências, quando necessitário) de relação, cuidado e de acompanhamento de menores, desde a primeira hora. Depois nos contextos de educação, formal e não formal, e no processo contínuo de desenvolvimento de competências sócio-emocionais e relacionais e de construção de valores de cidadania das crianças e jovens. Finalmente, promovendo nas e nos jovens e adultos a abertura ao e à outra, ao Mundo, à diversidade e à cidadania e o interesse pelo seu redor, com especial enfoque pela história que nos permite reflectir sobre o passado, pensar o presente e projectar o futuro.

Debater, assim, é ganhar. O debate, a democracia. Confiança e futuro. Quem debate, assim, garante-nos a empatia necessária à compreensão e inclusão das e dos outros, a humildade necessária para reflectir e construir com outras ou outros, a capacidade de reconhecimento de quem não dispõe de todas as respostas para todos os problemas e que procurará, de acordo com a informação, evidência e recursos disponíveis, as melhores e mais personalizadas soluções para cada um dos problemas. Garante-nos integridade, ética, consistência, motivação para a cooperação e uma certa abnegação tendente à consideração do futuro e não apenas do tempo imediato e à defesa dos direitos universais e do contrato social se sobrepor à sua dimensão individual e/ou pertença partidária ou comunitária. Garante-nos bons e boas fazedoras de políticas públicas e nossas e nossos representantes numa democracia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o reforço da confiança e da coesão social, pilares fundamentais da democracia, depende da possibilidade de construção de soluções conjuntas e partilhadas para os problemas das pessoas e da sociedade. A democracia vive da diversidade e da pluralidade e a consideração de adversárias como inimigas ou a destruição de adversários conduz ao empobrecimento e destruição da democracia e do espaço comum de construção destas soluções. Por isso, particularmente no momento que vivemos, é fundamental promover a crítica construtiva e a possibilidade de debater, construindo (ao invés de destruindo) e, ainda assim, ganhando (ao invés de perder). Tal depende, é certo, de quem prepara os debates, debate e comenta. Tal depende porém, também, de todas e todos e da valorização que fazemos deste importante instrumento democrático e do investimento que fazemos no desenvolvimento das pessoas para que possamos ter um futuro com mais construção, mais soluções, mais confiança e mais democracia.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 11.01.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/debater-construir-nao-destruir-ganhar-nao-perder

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COVID-19 Desafios da Psicologia

17.000km

Tonga é um dos países do planeta mais distantes de Portugal. Partilha com Samoa e com as ilhas Phoenix (Kiribati) o fuso horário GMT+13 que fez deles dos primeiros países do Mundo a chegar a 2022 (às nossas 11h da manhã de 31.12). Apesar disso, a erupção do vulcão Hunga no arquipélago e o tsunami que se lhe seguiu, além de significativos danos nas suas diversas ilhas, foi sentido a mais de 17.000 km de distância e 18h depois, na costa portuguesa. Tsunami que impactou mais o país, sentindo-se no Mundo. Um vírus que impactou mais o Mundo, sentindo-se no país (Tonga teve desde o início da pandemia apenas 1 caso confirmado de COVID-19 na sua população o que, ainda assim, levou a um “confinamento” da sua maior ilha). Fenómenos que nas suas causas, na sua imprevisibilidade e nas suas consequências nos lembram como o Mundo se faz de dependências. DE dependências muito sensíveis. Senão vejamos…

Recuemos dois anos. A 18.01.2020 o epidemiologista Neil Fergunson dizia que a sua preocupação relativa ao “novo vírus” estava a crescer e que era bastante improvável que os apenas 60 casos confirmados na China à data pudessem gerar 3 casos que se haviam confirmado fora da China. Já J. Farrar assumia que existindo ainda incerteza sobre o vírus e lacunas na informação, era já certa a existência de algum nível de “transmissão de pessoa para pessoa”.

Recuemos um ano. A 18.01.2021, António Costa, no final de um conselho de ministros extraordinário que aprovou novas medidas restritivas (apenas 5 dias após outras medidas), assumiu que estávamos “a viver o momento mais grave da pandemia” (167 mortes; 6702 novas infecções; 5165 pessoas internadas, 664 em unidades de cuidados intensivos por COVID-19 nesse dia). Hoje sabemos que estes números haveriam ainda de crescer para depois descer e para, com a actual variante, apenas as novas infecções ultrapassarem estes números.

Dois anos muito desafiantes, muito duros. Mas serão apenas dois os anos? Umas das diferenças da pandemia COVID-19 face a (outras) catástrofes prende-se com a incerteza da sua evolução e indefinição temporal. Outra com a generalização e globalização das suas consequências, nomeadamente pela alteração de comportamentos e rotinas (sociais) e dificuldades ou problemas de saúde mental no curto, médio e de longo prazo.

Tal qual nos lembram as (já pequenas) ondas que chegaram à nossa costa, é fundamental, para melhor enfrentarmos as (ainda) incertezas e indefinições, reflectirmos e investirmos na promoção na capacidade de controlo e de agenciamento das pessoas, particularmente as mais vulneráveis, apoiando a sua auto-regulação comportamental e emocional. Como é na reparação e reforço do contrato social, fulcral em momentos prolongados de crise(s), direcionando-o à possibilidade de florescimento e bem-estar de todas e todos, conforme preconiza a carta de Geneva do Bem-estar.

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Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia

Resoluções…

Fascina-me pensar o comportamento humano, a sua diversidade (mas também as suas tendências) e os factores que o determinam. Ainda que com reflexão crítica, interessa-me o estudo de (grandes) dados que o permitem e que permitem formular pistas para a sua compreensão, particularmente numa base temporal ou pré/pós-acontecimentos. Uma ferramenta que o possibilita, não sem limitações, é o “Google Trends” utilizado nos estudos de Seth Stephens-Davidowitz (que já aqui abordei) ou do “Behavior Change for Good Initiative”. Três das suas investigadoras, partiram de pesquisas dos termos “dieta”, “visitas ao ginásio” ou “como cumprir objectivos”, observando-os como mais frequentes no início da semana/mês, depois de férias/aniversários e, principalmente, no início de um novo ano, descrevendo o “fresh start effect” e como marcos temporais podem motivar mudanças de comportamento. Sendo assim (assim sentimos), sabemos que parte destas mudanças se perdem (umas nunca concretizadas; outras que, concretizando-se, não conseguimos manter). Ora, de várias estratégias que podemos mobilizar para melhor concretizarmos as mudanças a que aspiramos destaco 2: sermos realistas e “mudarmos” com outras pessoas e não “sós”.

Conforme a psicologia contribui com este conhecimento, é importante que o utilizemos na própria psicologia. Assim, e porque creio realista mas só possível se numa mudança “não só”, aqui partilho a base da minha intervenção na abertura da Psicarreiras On.Summit (OPP; 02.12.2022) focada em como o presente desafia “passados” da psicologia (a dúvida na escolha das áreas das e dos psicólogos na Academia; os limites da intervenção à distância; o foco na intervenção mais micro, individualizada e remediativa face a intervenções mais macro, comunitárias e promotoras/preventivas; o fechamento face à interdisciplinaridade) e numa proposta de mudança de paradigma. Uma mudança de uma psicologia que, enquanto ciência e prática, se afirma numa determinada área para uma psicologia que, como ciência e prática, se concretiza, no contributo das suas áreas e em relação com outras disciplinas, numa dificuldade/problema de uma pessoa ou num desafio societal. Da psicologia clínica à crise associada aos níveis de depressão da população mundial. Da psicologia da educação à necessidade de promoção do bem-estar de estudantes. Da psicologia comunitária aos complexos desafios da erradicação da pobreza ou da inclusão. Da psicologia do trabalho e das organizações ao desafio da conciliação da vida pessoal -profissional. Uma psicologia sempre próxima das pessoas. Uma psicologia proactiva e interventiva, contribuidora para os complexos desafios societais.

Mudança realista mas, só possível, se conjunta. Mudança que beneficia de outra estratégia de promoção da efectividade das resoluções: a partilha das mesmas, algo que aqui faço convosco que, muitas vezes sem o sentirem, tanto me ajudam a reflectir e a procurar, com humildade, contribuir para pequenas mudanças que julgo socialmente relevantes.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Psicologia

A democracia e os debates (democráticos)

Há poucos dias passou um ano de um triste e, até há pouco tempo, impensável acontecimento: a invasão do Capitólio aquando do processo de ratificação da eleição do actual presidente dos EUA. “Colocaram uma faca no pescoço da democracia americana”, disse Biden numa intervenção que assinalou a data e num momento onde se debatem mudanças na legislação, que condicionam direitos de voto de minorias, e se verifica uma profunda polarização da sociedade americana que coloca em causa a confiança nas instituições, nas eleições e o “chão comum” da democracia. Como aqui chegamos e que reflexões para democracias com riscos para já mais mitigados como a Portuguesa?

“Debater, construir (não destruir), ganhar (não perder)”, 24º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da narrativa hoje dominante à preparação e análise aos debates: “Debater, destruir (adversárias/os), ganhar”. Narrativa que responde às novas formas de acesso à informação e à velocidade, falibilidade e ferocidade das redes sociais, particularmente centrada em emoções “ditas negativas” (raiva, ódio ou medo). Narrativa tendente em 4 características que empobrecem (se extremadas, que colocam em risco) a democracia: a simplificação e generalização excessivas, promotora de populismos; a polarização, promotora de antagonismos; o tratamento das e dos adversários como inimigas ou inimigos; e a obstaculização dos espaços de diálogo, compromisso e partilha.

No artigo enquadro estas questões e afirmo que “defender a democracia implica usar as ferramentas da democracia para a aprofundar e não para a enfraquecer”, portanto, “utilizar os debates (democráticos) para construir e não para destruir” podendo ganhar-se. Tal implica que “mediadoras e mediadores (comentaristas, jornalistas, líderes societais) não nos deem, também em questões políticas, apenas aquilo que queremos, conhecemos e/ou nos conforta, mas também oportunidade de contactar com o que necessitamos, desconhecemos e/ou nos confronta. Implica que as pessoas, e a sociedade no geral, valorizem e validem a construção, incentivando-a, apoiando-a e nela participando.”

No artigo realço a importância “do conflito (não violento), da crítica (construtiva) e da capacidade de estabelecer conversas e diálogos (desafiantes)” e de que melhorar a comunicação e as formas de entendimento depende de investirmos no desenvolvimento das pessoas, das suas competências (nomeadamente relacionais e sócio-emocionais) e da sua “abertura ao e à outra, ao Mundo, à diversidade e à cidadania e o interesse pelo seu redor, com especial enfoque pela história que nos permite reflectir sobre o passado, pensar o presente e projectar o futuro”. Factores hoje fulcrais porque, no momento complexo que vive(re)mos, o reforço da confiança e da coesão social, pilares fundamentais da democracia, depende da possibilidade de construção de soluções conjuntas e partilhadas para os problemas das pessoas e da sociedade e não da destruição do espaço comum de entendimento que representa a democracia.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia Política

Um desejo para 2022? Construirmos mais Paz (Ao redor…; Sábado; 30.12.2021)

Há palavras e expressões cuja definição mais comummente utilizada é a ausência do seu contrário. É assim com a saúde mental. Muitas pessoas definem e entendem saúde mental como um estado em que não se tem uma doença mental. Nunca como no ano que agora termina – em contexto pessoal e profissional, em privado ou nas oportunidades que tive de o fazer em contexto público – tantas vezes procurei afirmar que a saúde mental vai muito além da ausência de doença mental, correspondendo aos recursos (internos e externos) que cada pessoa tem para lidar e se adaptar aos seus acontecimentos de vida e à sua possibilidade de florescimento e de bem-estar global. 2021 foi (mais) um ano muito desafiante relativamente à saúde mental da população portuguesa e mundial, mas terá permitido que mais pessoas tenham reflectido sobre a sua importância e impacto em tantas dimensões da sua e nossa vida e sociedade, conforme o próprio Presidente da República afirmou nos últimos dias.

Conforme sucede com a saúde mental, também a paz é comummente definida como a ausência de guerra. Creio que 2022 será um ano particularmente desafiante no que à paz diz respeito e que, também por isso, será importante que pessoal ou profissionalmente, em contexto privado ou público, conversemos sobre ela e disseminemos que, indo muito além da ausência de guerra, a paz representa a harmonia, a civilidade entre pessoas e comunidades e a serenidade, e que compreendê-lo será fundamental para a promovermos. Para a promovermos em Portugal, na Suíça ou nos Estados Unidos da América, não apenas na Síria, em Myanmar ou na fronteira da Ucrânia com a Rússia.

O próprio Instituto para a Economia e a Paz publica dois “rankings” que organizam anualmente 163 países: Paz Global [Global Peace Index], classificando a apelidada “paz negativa” (ausência de violência, conflito destrutivo e guerra) e que em 2020 colocou Portugal na 3ª posição (4º em 2021); e Paz Positiva [Positive Peace Index], partindo do reconhecimento de que a paz é mais que a ausência dos indicadores anteriores, ao analisar a civilidade, a cooperação e o cuidado (com outras e outros) e que em 2020 colocou Portugal na 13ª posição, atrás da Noruega (1º), Suíça (4º) ou Alemanha (11º) mas à frente da França (15º), Reino Unido (22º) ou Estados Unidos da América (31º).

Apesar das críticas (parte delas, a meu ver, justas) à forma de recolha e representatividade de indicadores de medida, há algo que creio reflexivamente relevante – a ligação do índice de paz positiva a aspectos (positivos) que são condição fundamental para uma sociedade florescer. Quando se analisa o bom funcionamento do governo, a equidade na distribuição de recursos, o acesso livre e a disponibilidade da informação, as boas relações de vizinhança, os elevados níveis de capital humano, a aceitação e reconhecimento dos direitos de outras/os, os baixos níveis de corrupção e um ambiente de negócio e investimento sólido e estável de países, fazêmo-lo. Como se faz, no Projecto de Sustentabilidade da Paz [Sustaining Peace Project], ao considerarem-se dimensões como a identidade social abrangente entre grupos e comunidades, as suas interconexões e interdependências, a forma como as normas e os valores suportam a paz ou o papel das instituições e das lideranças na promoção do relacionamento entre comunidades. Num e noutro caso, com as limitações inerentes a estes processos de grande complexidade, ponderara-se a possibilidade de bem-estar da população, a promoção da paz e a prevenção da guerra.

Ora, nestes indicadores e dimensões creio que reside um desafio muito relevante para Portugal em 2022. Não que espere que no próximo ano possamos “cair” em guerra. Antes porque creio que, se nada fizermos – considerando o contexto do país, o agravamento das desigualdades, da desesperança, da dificuldade das respostas dos serviços públicos e da quebra de confiança nas e nos decisores e nas instituições – podemos “cair” em paz. Porque, creio, sem investirmos na promoção da paz, podemos involuir em dimensões que sustentam a harmonia e serenidade da sociedade e nos protegem dos conflitos violentos, aprofundando o fosso que já existe entre a nossa posição nos índices de “paz negativa” (4º) e “paz positiva” (13º). Porque me parece fundamental que compreendamos e assumamos que a construção da paz é um processo sempre em curso, tão inacabado quanto urgente, e que depende do nosso contributo individual (enquanto pessoa) e colectivo (enquanto comunidade e sociedade).

Depende de assumirmos, por vezes contraintuitivamente, que todas e todos sem excepção, temos um papel no que recentemente se debateu a propósito das acções de um conjunto de agentes da Guarda Nacional Republicana relativamente a pessoas migrantes a residir em Portugal. Sendo óbvio que são situações decorrentes do comportamento de algumas pessoas, a complacência da sociedade com elas não começa e termina no “julgamento” dessas acções e pessoas concretas e das suas consequências. Antes, na forma como cada um e uma de nós comunica sobre a população migrante, cria e reproduz narrativas e crenças e como isso pode estimular (por vezes até legitimar) algumas emoções, atitudes e comportamentos que, em situações mais extremas, derivam em actos potencialmente criminosos. Ou, como comunicamos sobre as decisoras e os decisores e a forma como a confiança nessas pessoas e nas instituições está em queda acentuada, como recentemente uma equipa de investigação que faço parte observou. Uma sociedade que não compactua com a discriminação e com julgamentos de e por generalização. Que se assume anti-racismo e anti-violência(s), de reconhecimento das e dos outros, particularmente dos e das mais vulneráveis, de boa vizinhança, de confiança, de diálogo, entreajuda e compromisso, de pertença, de penumbras (de encontros entre comunidades e culturas) e de coesão social, constrói-se dia após dia, com contributos múltiplos e desde a mesa do jantar da casa de cada pessoa, até às mesas dos cafés e colectividades, passando pelos locais de trabalho, serviços públicos e pelas autoridades de qualquer tipo.

Podem estar a pensar, sim… Mas o que tem isto que ver com guerra? Saberá ele o que significa a guerra? O que é a guerra? Pois, não sei. Directamente. Não sei porque, enquanto experiência complexa, muito provavelmente só quem a vive pode saber. Mas sinto que, ao contrário do que poderia esperar recuando uma década que fosse, caminhamos no seu sentido. Sinto, sei, que a perda de confiança nas instituições não é um fenómeno português e que por exemplo nos Estados Unidos da América a confiança nunca foi tão baixa (apenas 1 em cada 4 cidadãs e cidadãos confiam nas instituições quando há cerca de 50 anos eram 3 em cada 4). Sinto, sei, que esse é mais um passo para a degradação dos mediadores sociais (a par do jornalismo, cuja investigação que acima referi também sinaliza quebras de confiança) o que conjugado com a forte polarização nos empurra para um ambiente de “tensão civil” – segundo o barómetro da confiança Edelman (2021), 57% das e dos americanos considera que o país está em “guerra civil latente” e que uma guerra civil é possível no seu tempo de vida.

Por tudo isto desejo para 2022 que construamos mais paz.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, construir futuro e construir futuro com possibilidade de bem-estar depende de construirmos harmonia, civilidade e de cooperarmos. Dependente de desenvolvermos a partilha, a pertença e a gratidão. De pensarmos que não há individual sem colectivo e colectivo sem individual. De integrarmos que não confiar nas e nos outros e nas instituições em democracia é, antes de mais, não confiarmos em nós, nas pessoas que fazem as instituições e os governos. Depende, pois, de investirmos na paz e na sua promoção e de fazermos do cuidado com as outras e os outros o principal cuidado connosco. 2022 é tempo para nos juntarmos, relacionarmos e para construirmos mais paz.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 30.12.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz

 

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COVID-19 Desafios da Psicologia

Incerteza(s)

Voltaremos hoje a vacinar (contra a COVID-19) crianças em Portugal, conforme acontece por estes dias em diversos países. Isto acontece inúmeros passos depois de um momento simbólico – a 1ª aprovação pela FDA (USA) da vacina da Pfizer para jovens adolescentes (12-15 anos) a 10.05.2021. Nesse mesmo dia, o Mundo perdia J. Kagan, um dos principais precursores da Psicologia do Desenvolvimento e do estudo da forma como as experiências, as relações e os processos desenvolvimentais no geral na infância e adolescência contribuem para o que somos (o que sentimos, pensamos e como nos comportamos) e quem somos (identidade) ao longo de toda a vida, sublinhando, sempre, o papel do contexto ao longo de todo o ciclo de vida. A este propósito, disse em 1972 que somos “bombardeados com incerteza no nosso dia-a-dia” e que uma das “motivações primárias das pessoas é resolver [anular, ultrapassar, diminuir] essa incerteza”.

As vacinas foram (são) um importantíssimo recurso das sociedades (infelizmente não de todas, da mesma forma) face à grave crise de saúde pública que enfrentamos há muito tempo. Em todo o caso, e talvez ao contrário da expectativa de parte significativa da população e das e dos decisores, não “anularam” (por vezes, nem diminuíram) aquele que é um dos principais desafios à saúde psicológica e bem-estar das pessoas – a incerteza, particularmente quando prolongada; a incerteza, que acresce imprevisibilidade à imprevisibilidade expectável da nossa vida.

“Mais um ano de pandemia e de tanta incerteza? Não sei se aguento”, 2º episódio do Podcast “Comum dos Mortais” do PQ produzido pela @Madremedia. Episódio assente em 2 diálogos da @Margarida Alpuim com a @Ana Rita Caldeira e comigo sobre o porquê da incerteza associada a esta pandemia ser distinta de outra(s) incerteza(s). Falamos de vidas “ioiô”; de restrições, oscilações e instabilidade; de uma “incerteza colectiva”, que a globaliza, intensifica e prolonga no tempo; de hipervigilância e ausência de espontaneidade; de cansaço; de um dia-a-dia também feito de experiências que nos reactivam momentos e experiências menos positivas e de como, ainda que neste contexto, podemos garantir algum controlo, segurança e previsibilidade, essenciais ao bem-estar. De como estes são fulcrais na nossa capacidade de auto-regulação e resiliência, essenciais à nossa saúde e saúde psicológica.

Mas falamos, também, do papel da aceitação da incerteza e imprevisibilidade como parte da vida. Construímos um diálogo que espero estímulo para reflectirmos sobre a incerteza que sentimos e como nos sentimos com e na incerteza. Para activarmos níveis de auto-compaixão que nos permitam vivenciá-la pessoalmente e de hetero-compaixão, empatia e de coesão social que nos permitam vivenciá-la colectivamente.

Estímulo para que resistamos, para que procuremos (e encontremos) propósito(s) e significado(s), para que estejamos “juntas e juntos”.

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2022

“Apesar dos passos positivos, há um longo caminho a percorrer” pelo que devemos comprometer-nos a “trabalhar conjuntamente e com urgência e propósito para assegurar cuidados de qualidade na área da saúde mental a todas as pessoas em qualquer lugar do Mundo.” A. Guterres, ao assinalar o Dia Mundial da Saúde Mental (10.10), sinalizou a grande preponderância, visibilidade e reconhecimento da saúde mental, para o qual contribuiu um 2º ano (2021) de forte incerteza, perdas diversas e de aprofundamento de desigualdades, consequência de uma pandemia que acresce desafio aos já enormes e complexos desafios societais contemporâneos, bem como o facto de persistir um longo caminho por fazer nesta matéria.

Numa possível “fotografia” portuguesa do tema, participei num trabalho da Clara Soares e da Mariana de Almeida Nogueira (Revista Visão) intitulado “Ansiedade, depressão, fobias: A epidemia escondida na saúde mental” e numa peça da Sónia Bento (Sábado) intitulada “Celebridades fazem da saúde mental um negócio” que, contribuindo e resultando (em simultâneo) da visibilidade descrita, pensa o crescente interesse de celebridades, marcas e “negócios” em torno da saúde mental e bem-estar, com o bom e o menos bom que isso pode comportar, conforme procuro reflectir. Uma e outra peça a sinalizar, também, que “apesar dos passos positivos, há um longo caminho a percorrer” e uma transição a cumprir, conforme há dias referido e defendido pelo Presidente da República. Uma e outra peça a sublinhar o papel da psicologia no momento que vivemos e nesta transição, justa, necessária e urgente.

Mas, também aqui (na visão do contributo da psicologia) e estando nós a iniciar um novo ano, creio importante sublinhar que “apesar dos passos positivos, há um longo caminho a percorrer”. Que, apesar da maior percepção hoje do seu papel na prevenção, na promoção de saúde mental e na intervenção em problemas neste âmbito, há um longo caminho para o reconhecimento mais amplo (e respectiva consequência) do papel desta ciência do comportamento em dimensões mais vastas da saúde, bem-estar e qualidade de vida, do relacionamento e da cooperação, da educação e investigação, do trabalho e da economia, da gestão de (grandes) dados, comunicação ou mudança, da equidade e coesão social e do desenho de políticas (públicas). De reconhecimento, mais amplo, do seu contributo ímpar para os objectivos do desenvolvimento sustentável.

Da minha parte, neste 2022, assumo-o como objectivo e compromisso: tendo oportunidade, contribuir para o papel da nossa Ordem dos Psicólogos Portugueses no aprofundar dos passos positivos na área da saúde mental, mas, também, para avançarmos no caminho a percorrer, particularmente no papel que a psicologia pode (e tem como dever) assumir no caminho de erradicação da pobreza, de combate a todas as formas de exclusão, de resposta à complexa crise climática e de promoção da Paz.

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2022, tempo de construirmos mais paz

Chegamos às últimas (difíceis) horas de um 2021 desafiante para todas e todos, dificílimo para muitas e muitos. Muitas vezes, ao longo do ano, aqui, convosco, procurei sublinhar que a saúde mental é muito mais que a ausência de doença mental, correspondendo aos recursos (internos e externos) que cada pessoa tem para lidar e se adaptar aos acontecimentos de vida e à sua possibilidade de florescimento e bem-estar global. Termino o ano a pensar que em 2022 o farei com a paz, sublinhando ser muito mais que a ausência de guerra, representando a harmonia, civilidade entre pessoas e comunidades e serenidade e que compreendê-lo é fulcral para a promovermos.

“Um desejo para 2022? Construirmos mais paz”, 23º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) trata a necessidade da promoção da paz, não apenas na Síria ou na fronteira da Ucrânia com a Rússia, mas em Portugal ou nos EUA. Reflecte sobre o fosso no posicionamento de Portugal nos índices de Paz Global/Negativa (ausência de violência, conflito destrutivo e guerra; 3ª posição em 2020 e 4ª em 2021) e Paz Positiva (civilidade, cooperação e cuidado com outras e outros; 13ª em 2020). Também sobre um 2022 de condições desafiantes da paz em Portugal, pelo agravamento das desigualdades, da desesperança, da dificuldade da resposta dos serviços públicos e da quebra de confiança nas e nos decisores e nas instituições. Não espero que possamos “cair” em guerra, mas creio pudermos “cair” em paz, involuindo em dimensões que a sustentam pelo não investimento na promoção da paz e não assunção do “nosso contributo individual (pessoa) e colectivo (comunidade e sociedade).

No artigo penso a forma como a quebra de confiança, cá como noutras partes do Mundo, contribuirá para o acelerar da degradação dos mediadores sociais e como, em conjugação com a forte e crescente polarização social, isso nos “empurra para um ambiente de (potencial) tensão civil”, com impacto no comportamento das autoridades, incluindo de segurança, decisoras/es e num dado inquietante: 57% das e dos americanos considera que o país está em “guerra civil latente” e que uma guerra civil é possível no seu tempo de vida.

Também por isso, em 2022, precisamos de construir futuro e construir futuro com possibilidade de bem-estar depende de construirmos harmonia, civilidade e de cooperarmos. Precisamos de desenvolver a partilha e a pertença, de gratidão e de pensar que não há individual sem colectivo e colectivo sem individual. De integrar que não confiar nas e nos outros e nas instituições em democracia é, antes de mais, não confiarmos em nós, nas pessoas que fazem as instituições e governos. De investir na paz e na sua promoção e de fazermos do cuidado com as outras e os outros o principal cuidado connosco.

Estou-vos grato por me lerem, questionarem e por conferirem propósito e significado ao que procuro reflectir e contribuir.

Que 2022 seja tempo para nos juntarmos, relacionarmos e para construirmos mais paz, juntas e juntos. Tudo de bom.