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Reconhecer

Reconhecer é um verbo poderoso. “Relevante em várias áreas científicas”, acompanha-nos “em momentos significativos da nossa vida pessoal, profissional e em sociedade”, sendo “essencial na forma como nos relacionamos connosco, com as outras pessoas e com o que nos rodeia.”

“Reconhecer”, 84º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da afirmação do quão relevante é o reconhecimento individual. “Sentirmo-nos ou não reconhecidas/os pelo que somos, pelo nosso valor e valores e pelo que conseguimos, impacta a visão que temos sobre nós próprios e, nesse sentido, a construção da nossa identidade, auto-estima (…) e a nossa saúde e bem-estar.” Sublinha, também, que “num nível interpessoal, o auto e heteroreconhecimento promove uma maior compreensão, entendimento e uma atitude, tendencialmente, mais empática face às outras pessoas (…) apoiando a nossa identificação em sociedade, a validação e o entendimento mútuo.”

Defende, depois, que “a validação e o entendimento mútuo são, por sua vez, pilares essenciais ao reconhecimento mútuo e este decisivo na construção de uma visão partilhada sobre direitos, deveres e desafios societais das pessoas, (…) bem como à coesão, desenvolvimento e prosperidade social e factor protector face a formas de resolução de conflitos não construtivas” para afirmar que é da percepção da necessidade desse reconhecimento mútuo, também político, que também resulta a proposta de dois Estados para a partilha da Palestina da ONU.

Continua afirmando que “infelizmente, com fases e momentos históricos apesar de tudo distintos, mas com momentos tenebrosos, como os ataques terroristas inqualificáveis, perpetrados pelo Hamas, em Israel, a 7 de Outubro do ano passado e os crimes e atrocidades cometidas pelo exército de Israel, em Gaza daí até hoje, nunca os dois Estados foram reconhecidos pela totalidade ou quase totalidade dos países, entre si e, também por isso, nunca a paz foi verdadeiramente cumprida.”

“Pese embora os enormes desafios que se colocam e que determinam que este reconhecimento não seja consensual, é hoje claro que, conforme o não reconhecimento de pessoas e comunidades as impacta significativamente, o não reconhecimento do Estado da Palestina contribui para um quadro de incerteza e de confusão, por vezes propositada, entre organizações terroristas e o povo palestiniano. Contribui, também, para a diminuição das condições e contexto para que a Palestina possa criar e desenvolver as suas instituições, preservar a sua segurança, oferecer horizontes de esperança e futuro à sua população, no seu país e, com isso, fortalecer a prevenção do terrorismo.”

“Reconhecermos é uma ferramenta poderosa, ao alcance de todas/os, local e globalmente, para construirmos mais relação connosco, com as outras/os e em comunidade. É, também, uma ferramenta para validar, para caminharmos para uma sociedade de direitos, deveres e de maior equidade. Para nos acolhermos e construirmos paz. Comecemos por reconhecer.”

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Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar (Ao redor…; 22.05.2024)

Lembro-me muito bem da primeira vez que saí de comboio na impressionante Estação do Oriente para, depois de uma caminhada, entrar nesse outro Mundo que foi a “Expo 98” para um rapaz de 14 anos que crescia fora de um grande centro urbano. Se pensar um pouco, a Estação, embora hoje mais envelhecida, não mudou muito. Como não mudou a linha do Norte e o comboio regional que me levou do Entroncamento ao Oriente. Já ser um/a adolescente de 14 anos em Portugal mudou significativamente.

Como todas as pessoas adultas, mais ou menos jovens, já tiveram 14 anos esta afirmação será das poucas que hoje não gera na sociedade um debate polarizado. Todas e todos os que temos bastante mais do que 14 anos sabemos que se tivéssemos vivido essa idade com o acesso às tecnologias, à internet e às redes sociais hoje existente; com as fotos e vídeos permanentemente a guardarem momentos e a serem partilhadas e comentadas; ou se tivéssemos vivido com a pressão da felicidade, do mérito, da voragem da competitividade e da necessidade permanente de adaptação a transformações muito rápidas teríamos, certamente, vivido uma adolescência muito diversa e experimentado um conjunto muito diferente de desafios, experiências e possibilidades. Também entenderíamos, talvez de forma mais sentida, o enorme paradoxo desta ser a época de maior abundância em termos de recursos, acesso, literacia, possibilidades de diversão e entretenimento e, simultaneamente, uma das épocas onde, pelo menos desde que existem registos e indicadores robustos, diferentes condições e problemas de saúde mental são mais e mais cedo prevalentes e desafiam e impactam o quotidiano e o bem-estar nestas idades.

Perceberíamos, ainda, creio, porque é que o tão relevante – e hoje crescentemente densificado em Lei – “Direito a desligar” e desconectar do trabalho, fora do horário de trabalho, tende a equivaler-se ao “Direito a desligar” e desconectar da internet e das redes sociais por adolescentes, em determinados momentos do seu dia. Como, tais direitos, dependem, tanto do dever das organizações, líderes e da sociedade de legitimarem, respeitarem e promoverem este direito junto de cada trabalhador/a, como do dever de cada organização, pessoa adulta e da sociedade perceberem a importância, promoverem e estimularem esse direito junto dos e das adolescentes.

A este propósito penso muitas vezes no quão seria diferente para mim (talvez mesmo decisivo) a possibilidade, hoje existente, de 24 sob 24 horas, via internet rápida e redes sociais, estar conectado a amigas, amigos, a pessoas conhecidas próximas e não tão próximas. No quão importante foi – perdendo naturalmente outras possibilidades de relação e mecanismos de conexão fundamentais em determinadas situações (pensemos na pandemia por COVID-19 – ter oportunidade para me aborrecer, para, à noite, no meu quarto, casa ou rua, poder estar só, a pensar no que aconteceu naquele dia, a elaborar o que fiz, aprendi ou senti. No quão importante foi não estar sempre em “directo”, numa linguagem jornalística, e no quanto isso me foi permitindo sentir, também, mais previsibilidade, estabilidade e segurança, factores fundamentais ao bem-estar.

Hoje, em particular em dias difíceis, um/a adolescente com um telemóvel no seu quarto, casa ou rua, pode, se com maior dificuldade de autoregulação ou regulação na sua utilização, viver numa espécie de montanha russa sem pausas nas sensações e emoções. Vive permanentemente activada/o, é a cada momento estimulado e invadido com novas informações, dúvidas e sensações que não guardam espaço para elaborar, para descansar, para desligar. Para sair do turbilhão da nova informação, interacção, emoção e organizar e integrar ideias, algo relevante em todos os nossos momentos de vida, mas particularmente relevante numa época como a da adolescência onde tudo é vivido com tremenda intensidade, onde os grupos e a percepção dos pares é tão decisiva na construção da identidade, na percepção das outras, dos outros e do Mundo ao redor e no desenvolvimento da autonomia.

Mais, hoje, somos desafiados por novas adições (jogo online), dependências (smartphone) e problemas (cyberbullying) que nesse 1998 não facilmente imaginaria (embora existissem e permaneçam outras adições, dependências e problemas), conforme hoje não imaginamos novas adições, dependências e problemas com os quais, possivelmente, nos confrontaremos nos próximos anos. Não pensava, também pela perspectiva de cada vez maior participação e empoderamento das meninas, raparigas e mulheres que hoje assistiríamos a um recrudescimento da violência no namoro e doméstica, da desigualdade de género nestas e noutras idades e de um discurso público que, não raras vezes, a legitima ou, no mínimo, não condena veementemente.

Com este cenário e com a perspectiva de potencial aprofundamento desta situação no futuro, desde logo pela evolução da tecnologia e seus impactos, talvez não seja fácil estar optimista. Apesar de tudo, não deixo de assim o sentir. Também.

Porquê? Porque as mesmas tecnologias que são base de alguns dos desafios e dos problemas hoje mais significativos são, também e quando ou se usadas com cuidado e com essa intencionalidade, potenciais ferramentas para outros resultados e para a promoção da equidade e do bem-estar hoje e no futuro.

Porquê? Porque há hoje, apesar de nem sempre ser de qualidade, muito mais compreensão pública do que significa ser adolescente e este período de desenvolvimento. Tal como mais informação, literacia e uma centração da população mais jovem nas questões da saúde, incluindo a saúde mental, e bem-estar que pressionam no sentido de mais respostas nesta área, mais contingentes aos problemas, mais qualificadas, de qualidade e eficientes.

Porquê? Porque, finalmente, os desafios e problemas são cada vez menos individuais mas mais geracionais, algo que sensibiliza a sociedade e impele a uma acção preventiva de procura de transformar e mudar o que na sociedade possa estar a concorrer para esta situação, aumentando o debate, entre outros, sobre os impactos e formas de utilização da tecnologia ou a necessidade de se repensar e promover a prática da actividade física, a alimentação saudável, hábitos de sono, competências sócioafectivas e emocionais ou o contacto com as outras e outros e com o meio ambiente, tudo elementos fundamentais à saúde e bem-estar das populações mais jovens.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos observar extraordinários exemplos de envolvimento e participação cívica da população mais jovem que, desejo, serem primeiros passos para o reforço da perspectiva de comunidade e para a construção de propósito. Se assim for, e se investirmos em transformações cirúrgicas e na capacitação e empoderamento de crianças e adolescentes para os desafios que o Mundo e a sociedade se lhes coloca, estarei sempre mais próximo de cumprir este meu optimismo. No que me toca, para isso procurarei contribuir e para isso procurarei que contribuam.

 

Tiago Pereira

Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar

in Sábado (Ao redor…); 22.05.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/ser-adolescente-hoje-e-o-dever-de-ajudar-a-desligar

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One Health to Planetary Health

O Dia da Criança é comemorado em diferentes datas de país para país. Em Portugal, celebramos esse (poder) ser criança a 1 de Junho, continuando a cumprir, por essa via, o apelo que resultou da Conferência Mundial do Bem-Estar das Crianças, que decorreu em Genebra num 1º dia de Junho: reconhecer, globalmente, a importância dos Direitos das crianças e do seu bem-estar.

Estávamos em 1925 e seria tão ousado pensar os Direitos e o bem-estar das crianças conforme eu e, provavelmente, quem me lê os pensamos, conforme talvez será hoje pensar a saúde, a partir dos sistemas de saúde dos países, a partir dos modelos “One Health” [Uma (só) Saúde] e “Planetary Health” [Saúde Planetária].

Neste 1 de Junho de 2024, a partir dos relevantes contributos da literacia em saúde, eu, a Ana Cadete, a Maria João Baptista, o Pedro Teixeira, a Susana Fonseca e o Xavier Teles Canavilhas, com coordenação da Cristina Vaz de Almeida, propomo-nos ousar pensar em como podemos caminhar para a “inscrição” destes conceitos nos sistemas de Saúde, no nosso sistema Saúde.

Fazêmo-lo num tempo em que (ainda) sentimos desafios imensos ao aprofundamento do investimento em prevenção da doença e promoção da saúde em Portugal e à assunção, clara e clarividente, do impacto da degradação dos ecossistemas, da crise climática ou da pobreza e das iniquidades económicas e sociais na saúde e no bem-estar.

Discuti-lo-emos num painel integrado no Cascais International Health Forum, organizado pelo FÓRUM SAÚDE XXI através de uma equipa liderada pelo Adalberto Campos Fernandes.

Que, exactamente 99 anos depois da Conferência Mundial do Bem-Estar das Crianças de 1925, esta nossa conversa possa inspirar-nos e, eventualmente, inspirar alguém mais, para contribuir(mos) para um planeta sustentável e para um Mundo de Direitos, de saúde e de bem-estar. Para as crianças, todas as crianças. Para todas e todos.

Venha daí e participe, também, nesta conversa e neste contributo.

Mais informações e inscrições (gratuitas, mas obrigatórias) aqui.

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VI Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses | XIII Congresso Ibero-Americano de Psicologia.

Faltam agora 4 meses para muitas e muitos de nós, espero, nos reunirmos e encontrarmos no VI Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses que, em virtude da presidência da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP) pelo Bastonário da OPP (Francisco Miranda Rodrigues) decorrerá em simultâneo com o XIII Congresso Ibero-Americano de Psicologia.

Conforme há 10 anos, quando em 2014 se organizou o II Congresso da OPP em simultâneo com o IX Congresso Ibero-Americano, regressamos a Lisboa e ao Centro Cultural de Belém, depois de Congressos da OPP no Porto (2016), Braga (2018) e Aveiro (2022).

Foi exactamente no CCB e, mais especificamente, no caminho José Saramago – personalidade que procurou, também, pensar e discutir uma “sociedade ibero-americana” – que gravei o “vídeo convite” para o Congresso, cujo link abaixo partilho.

Um Congresso que, na linha dos anteriores, se propõe a uma discussão e debate interdisciplinar dos contributos e da colaboração potencial da ciência e da prática psicológica na resposta às necessidades e anseios das pessoas (nos seus mais diversos contextos, circunstâncias e acontecimentos de vida) e comunidades e aos principais desafios societais.

Um congresso que contou com cerca de 700 submissões já analisadas num enorme e extraordinário trabalho de uma comissão científica superiormente presidida pela Isabel Soares e que tem uma call específica associada ainda aberta (ver link abaixo) para submissões para a revista científica da OPP. Um congresso que conta com um espaço específico de apresentação para as e os mais jovens – Espaço Jovem. Um congresso que procura uma nova e reforçada experiência de relação com o espaço, com outras/os congressistas nacionais e internacionais, com expositores e com patrocinadores. Um congresso, finalmente, que potencia a colaboração com um conjunto de entidades, incluindo a American Psychological Association, num evento colaborativo dentro do próprio congresso sobre novas tecnologias, inteligência artificial, contributos da psicologia e potenciais desafios e impactos na sociedade.

Com cerca de dois terços dos bilhetes presenciais já vendidos, nos próximos dias começaremos a conhecer o programa que, creio, estimulante e um contributo importante para pensar a psicologia em Portugal e no espaço Ibero-Americano.

Quando a 26.09.2010 caminho José Saramago foi inaugurado pela sua filha, ela disse sentir pena por “ele não estar aqui [lá] para ver”. No 2º dia do Congresso passarão 14 anos dessa dia e espero que esteja lá para ver. Para ver e contribuir para se construir um grande Congresso e, com ele, um importante contributo para a sociedade.

Link Congresso

Link Call Revista

Link Vídeo

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Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar

“Hoje, em particular em dias difíceis, um/a adolescente com um telemóvel no seu quarto, casa ou rua, pode, se com maior dificuldade de autoregulação ou regulação na sua utilização, vive numa espécie de montanha russa sem pausas nas sensações e emoções.”

“Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar”, 83º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa o quão diferente é ser-se um/a adolescente de 14 anos hoje face a 1998 (ou há alguns, não tantos, anos) e o quanto, os hoje mais velhos, “sabemos que se tivéssemos vivido essa idade com o acesso às tecnologias, à internet e às redes sociais hoje existente; com as fotos e vídeos permanentemente a guardarem momentos e a serem partilhadas e comentadas; ou se tivéssemos vivido com a pressão da felicidade, do mérito, da voragem da competitividade e da necessidade permanente de adaptação a transformações muito rápidas teríamos, certamente, vivido uma adolescência muito diversa e experimentado um conjunto muito diferente de desafios, experiências e possibilidades”.

“Perceberíamos, ainda, creio, porque é que o tão relevante – e hoje crescentemente densificado em Lei – “Direito a desligar” e desconectar do trabalho, fora do horário de trabalho, tende a equivaler-se ao “Direito a desligar” e desconectar da internet e das redes sociais por adolescentes, em determinados momentos do seu dia. (…) Hoje, em particular em dias difíceis, um/a adolescente com um telemóvel no seu quarto, casa ou rua, pode, se com maior dificuldade de autoregulação ou regulação na sua utilização, vive numa espécie de montanha russa sem pausas nas sensações e emoções. Vive permanentemente activada/o, é a cada momento estimulado e invadido com novas informações, dúvidas e sensações que não guardam espaço para elaborar, para descansar, para desligar. Para sair do turbilhão da nova informação, interacção, emoção e organizar e integrar ideias, algo relevante em todos os nossos momentos de vida, mas particularmente relevante numa época como a da adolescência onde tudo é vivido com tremenda intensidade, onde os grupos e a percepção dos pares é tão decisiva na construção da identidade, na percepção das outras, dos outros e do Mundo ao redor e no desenvolvimento da autonomia.”

“Com este cenário e com a perspectiva de potencial aprofundamento desta situação no futuro, desde logo pela evolução da tecnologia e seus impactos, talvez não seja fácil estar optimista”, refiro no artigo, dizendo que, “apesar de tudo, não deixo de assim o sentir. Também.”

Explico depois porquê e termino sublinhando que se “investirmos em transformações cirúrgicas e na capacitação e empoderamento de crianças e adolescentes para os desafios que o Mundo e a sociedade se lhes coloca, estarei sempre mais próximo de cumprir este meu optimismo.”

“No que me toca, para isso procurarei contribuir e para isso procurarei que contribuam.”

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Violência nas Escolas

Por estes dias, embora não pelos melhores motivos e até sem o melhor e, porventura, mais factual, enquadramento, discutiu-se a temática das práticas agressivas e da violência na Escola. Algo que, por si, tem já um enorme valor pela importância que tem para a prevenção e mitigação destes fenómenos a afirmação cabal da não complacência das Escolas e da sociedade com estas situações e o sublinhar da não inevitabilidade das mesmas.

Na passada quinta-feira, a @Antena 1 dedicou mesmo o seu programa Antena Aberta a este tema e, tendo tido oportunidade de nele participar (contributo que abaixo partilho), procurei:

 

a) Sublinhar o que atrás refiro notando, também, que a violência em contexto escolar, aliás como a doméstica, não é um problema apenas do presente (embora, enquanto seres humanos, tendamos o colocar o foco no presente e nas questões mais negativas, dando-lhes uma atenção mais signficativa face a aspectos mais positivos e/ou antigos), procurando rebater uma ideia que havia sido levantada numa intervenção anterior que procurava defender que há 4 ou 5 décadas não existia violência no namoro e na Escola como hoje, infelizmente, existe;

b ) A necessidade de progressivamente se caminhar para uma alteração na forma como a sociedade olha, pena e classifica a Escola e a sua actuação. “Além do conhecimento, aprendizagem e resultados escolares (naturalmente muito importantes), a escola tem de preparar as crianças e jovens para a sua autorregulação comportamental e emocional, para a abertura ao outro e para a empatia”, e isso é um trabalho das Escolas que tem que ser reconhecido, contribuindo esse reconhecimento para maior envolvimento das Escolas na resposta, na ctuação e na prevenção dos fenómenos de violência;

c) Também o quão fundamental é, para a prevenção destas situações, a forma como a Escola pode (deve) contribuir para a promoção da possibilidade de ocupação com segurança e com propósito de tempos livres;

d) Ainda, que a Escola é hoje, felizmente e ao contrário de outros momentos históricos, para todas e todos, algo que necessariamente comporta desafios pela menor motivação de envolvimento de alguns/algumas estudantes ou pela necessidade de espaços e práticas mais inclusivas, dando apenas dois exemplos.

Finalmente, algo que acabei por não poder referir, mas cuja importância creio relevante. A par de docentes e de técnicas/os especializadas/os, incluindo psicólogas e psicólogos, devemos intencionalizar a participação e o papel do pessoal não docente nestas matérias. Mas, para isso, temos também e enquanto sociedade, de valorizar mais e mais esta função e papel – a todos os níveis – e, particularmente, empoderar estas pessoas para um complemento a cada dia mais essencial numa Escola em profunda transformação.

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A vergonha e a “expressão saudável das emoções” (Ao redor…; 08.05.2024)

A espaços estou a rever a série “Daniel Tigre” que há alguns anos descobri com o meu filho mais velho. Hoje vejo-a com o meu filho mais novo, interessado que está nestes desenhos animados e nas suas músicas que pede que coloquemos, particularmente aquando das nossas deslocações de carro. O argumento da série faz uma síntese honesta entre uma apenas aparente simplicidade e uma total intencionalidade no que pretende fazer sentir, reflectir, transmitir. Faz jus à pessoa e ao programa base da sua génese.

O filme “Um amigo Extraordinário” é uma interessante forma de conhecer essa pessoa e esse programa. Realizado por Marielle Heller, narra a criação e desenvolvimento de uma amizade improvável de um jornalista (Lloyd Vogel), convidado pela Esquire para realizar uma peça perfil sobre Fred Rogers e o seu “Mister Rogers Neighborhood”, programa infantil da televisão americana, extremamente popular na década de 1960. O filme retrata esta improvável amizade entre ambos, que surge a partir dos contactos e entrevistas iniciais de Lloyd a Fred Rogers e mostra-nos, logo no início, uma passagem onde Fred Rogers refere que o seu trabalho e o seu programa pretendem “propor ao Mundo uma forma saudável de lidar com as emoções”. Este programa inspira o mais recente “Daniel Tigre” que procura ajudar crianças, como os meus filhos, mas não apenas crianças, a entenderem e expressarem as suas emoções de forma mais saudável.

No meu último artigo nesta rubrica – Propósito e os 50 anos do 25 de Abril – referi-me a um certo e inquietante “vazio”, também de comunidade e propósito, que tende a “ser ocupado por grupos ou ideias mais fundamentalistas e/ou populistas, quer eles sejam religiosos (como assistimos em muitas parte do Mundo e a partir das mais diversas religiões), quer sejam políticos (como assistimos em muitas parte do Mundo e em Portugal), quer eles resultem da combinação de ambos, numa procura de associação das pessoas a algo que as transcende e a um horizonte de transformação e poder na sociedade, que lhes devolva uma sensação de pertença a algo maior, de poder, segurança, previsibilidade e algum controlo.” Grupos e ideais que proclamam estes vazios, vivendo deles, e que, não raras vezes tendo como móbil o ressentimento e o ódio, tendem para a legitimação de atitudes e comportamentos, particularmente junto de grupos minoritários ou em situação de maior vulnerabilidade, não-enquadrados em dimensões de valores socialmente maioritários. Para a legitimação e para a anulação, entre outras, de uma emoção cuja complexidade e valor para a vivência em sociedade e para a coesão social nem sempre são reconhecidos – a vergonha.

Por estes dias temos vivido, a maioria de nós creio com significativa apreensão, os inenarráveis acontecimentos numa freguesia da cidade do Porto na madrugada da passada sexta-feira, onde um conjunto de pessoas se reuniram para, violentamente, agredirem um conjunto de outras pessoas que em comum, aparentemente, tinham apenas a condição de habitarem na mesma casa e serem imigrantes a residir em Portugal. Inenarráveis acontecimentos que apenas merecem repúdio veemente, mas que não anularam espaço para, como atrás referia, alguns grupos, com diferentes fins, os relativizarem ou, no mínimo, procurarem enquadrar comportamentos não enquadráveis em qualquer contexto de Direitos Humanos.

Estas atitudes, primeiro presumidas pelos grupos que perpetuam este tipo de actos e violência, depois concretizadas, a par de outras atitudes e comportamentos em áreas chave e modelo da sociedade, particularmente para a população mais jovem – da política ao futebol, passando pela cultura e pelo ambiente online – criam condições óptimas para que um conjunto de atitudes negativas e de emoções fortes face aos outros (sejam esses outros, outros porque adversários políticos ou desportivos, porque provenientes de um outro país ou porque de uma outra religião ou orientação sexual) terminem em comportamentos de conflito destrutivo, agressivos, violentos, discriminatórios ou mesmo xenófobos ou racistas.

Esta “passagem ao acto”, normalmente em grupo, decorre, desde logo, da incapacidade de uma expressão das emoções de forma saudável e da mobilização das mesmas no sentido de formas assertivas de procura de resolução, construtiva, dos conflitos e dificuldades. Decorre, também, da “perda” de vergonha ou de formas de projecção não elaboradas da vergonha em comportamentos conflituantes e/ou violentos, que potenciam a disrupção que, podendo ter tanto de positivo – pela possibilidade de afirmação, mudança e minimização das consequências potencialmente negativas, incluindo nas dimensões da saúde mental,  – como de negativo, quando permite ultrapassar a sensação de “inadequação pessoal” que dela resulta, possibilitando romper com as convenções sociais e comporta processos de justificação ou legitimação de comportamentos atentatórios, por exemplo, de bens ou pessoas em sociedade. Decorre, finalmente, de uma consideração quase exclusiva do presente e do curto prazo, estimulando comportamentos cujas consequências mais a médio, longo prazo e no legado face às novas gerações podem ser profundamente negativas, valendo isso pouco face aos potenciais ganhos de causa para determinados grupos e objectivos no curto prazo.

É também por isso que o sentido de comunidade e propósito, como aqui referi no último artigo, têm um papel importantíssimo para uma vivência plena dos Direitos Humanos em sociedade. Enquanto seres sociais, vemo-nos, também, a partir do olhar de quem nos rodeia e construímo-nos em relação, connosco, com os outros e com o que nos rodeia. Em momentos de maior incerteza, de mudança mais significativa, mais rápida e mais imprevisível existem tensões para a polarização e para o tribalismo que tornam ainda mais urgente o reforço desse sentido de comunidade e propósito. Até porque, como um dos mais reconhecidos psicólogos e humanistas também de apelido Rogers (Carl) afirmava, curiosa e paradoxalmente, “é quando nos aceitamos como somos que podemos mudar.” Aceitação. Mudança.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental investirmos e educarmos para a expressão saudável das emoções enquanto base da convivência, do respeito e promoção da diversidade e da coesão social. Enquanto base, também, da aceitação e da possibilidade de mudança. Como Fred Rogers defendia esta é uma responsabilidade individual e colectiva. Minha, certamente. E de cada um/a de nós.

 

Tiago Pereira

A vergonha e a “expressão saudável das emoções”

in Sábado (Ao redor…); 08.05.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-vergonha-e-a-expressao-saudavel-das-emocoes

 

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Hawkins, IA e o que estamos a fazer e podemos fazer

Por estes dias, olhamos ao nosso redor e não é difícil que, face a certos acontecimentos e fenómenos sociais, sintamos uma certa “repetição da história” e um regresso a situações que, porventura, julgávamos “impossíveis de repetir”. Da Guerra na Europa, a um certo discurso de ódio, passando por um certo recrudescimento da violência e desigualdade de género, para dar apenas alguns exemplos. Tudo a lembrar-nos que não há futuro sem passado, passado este que importa ter sempre presente e “inscrito” para um melhor futuro.

Penso-o, hoje, a propósito do vertiginoso avanço da inteligência artificial e da recente disponibilização do ChatGPT 4o, face mais visível e reconhecida de uma série de ferramentas que, a cada dia, passamos a dispor e/ou impactam a nossa vida. Em rigor, que algumas pessoas, e apenas algumas pessoas – por razões diversas, desde o conhecimento e literacia, aos receios, medos e resistência e, naturalmente, às desigualdades sociais e económicas – têm ao seu dispor, mas que impactam, significativamente, a vida de todas as pessoas.

E penso-o evocando Stephen Hawkins a partir do artigo que partilho, que publicou no “The Independent” com colegas há 10 anos (4 anos antes do seu desaparecimento). Parte da pergunta base se “estamos mesmo a levar a sério as implicações da inteligência artificial?”, alertando que é um erro (talvez “o maior erro da história humana”) pensarmos que máquinas superinteligentes sejam “mera ficção científica” quando os avanços na inteligência artificial são (eram já) tão velozes.

Hawkins escrevia-o quando surgiam as primeiras experiências de condução autónoma ou de assistentes como a Siri, portanto distante ainda do potencial que hoje reconhecemos noutras ferramentas, mas suportado nos “investimentos sem precedentes nesse desenvolvimento” e nas fundações “conceptuais e teóricas sólidas” que o faziam crer (como hoje testemunhamos) que o desenvolvimento seria tremendamente impactante e rápido.

Hawkins afirma que a IA podia ser o mais transformador acontecimento na história humana e ter, porventura, “potencial de erradicar a guerra, a pobreza ou a(s) doença(s)” mas, ao mesmo tempo, dois enormes riscos: a) de atingirmos a superinteligência e tecnologias que possam “desconstuir mercados financeiros, manipular líderes humanos ou desenvolver armas que não podemos sequer compreender”; b) de fazermos pouco para, pela investigação, preparação e regulação, influenciar positivamente estas mudanças (sobre isto, partilho este meu pequeno contributo).

Estávamos a “levar a sério” há 10 anos? E estamos hoje? Penso que não totalmente e que podemos, pensando e inscrevendo o passado, fazer mais no presente (com o contributo e reivindicação de cada um/a de nós) para um futuro. Melhor.

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A vergonha e a “expressão saudável das emoções”

“Propor ao Mundo uma forma saudável de lidar com as emoções”. É assim que Fred Rogers, criador e apresentador do “Mister Rogers Neighborhood” (programa infantil da década de 1960 que inspira a série “Daniel Tigre”), descreve o intuito do seu trabalho e contributo.

A vergonha e a “expressão saudável das emoções”, 82º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura sublinhar como “grupos e ideais” usam de vazios e “não raras vezes tendo como móbil o ressentimento e o ódio, tendem para a legitimação de atitudes e comportamentos, particularmente junto de grupos minoritários ou em situação de maior vulnerabilidade, não-enquadrados em dimensões de valores socialmente maioritários. Para a legitimação e para a anulação, entre outras, de uma emoção cuja complexidade e valor para a vivência em sociedade e para a coesão social nem sempre são reconhecidos – a vergonha.”

Os “inenarráveis acontecimentos numa freguesia da cidade do Porto na madrugada da passada sexta-feira, resultam de uma “passagem ao acto”, normalmente em grupo, que tende, também, a decorrer:

a) da incapacidade de uma expressão das emoções de forma saudável e da mobilização das mesmas no sentido de formas assertivas de procura de resolução, construtiva, dos conflitos e dificuldades;

b) da “perda” de vergonha ou de formas de projecção não elaboradas da vergonha em comportamentos conflituantes e/ou violentos;

c) de uma consideração quase exclusiva do presente e do curto prazo, estimulando comportamentos cujas consequências mais a médio, longo prazo e no legado face às novas gerações podem ser profundamente negativas.

“É também por isso que o sentido de comunidade e propósito (…) têm um papel importantíssimo para uma vivência plena dos Direitos Humanos. Enquanto seres sociais, vemo-nos, também, a partir do olhar de quem nos rodeia e construímo-nos em relação, connosco, com os outros e com o que nos rodeia. Em momentos de maior incerteza, de mudança mais significativa, mais rápida e mais imprevisível existem tensões para a polarização e para o tribalismo que tornam ainda mais urgente o reforço desse sentido de comunidade e propósito. Até porque, como um dos mais reconhecidos psicólogos e humanistas também de apelido Rogers (Carl) afirmava, curiosa e paradoxalmente, “é quando nos aceitamos como somos que podemos mudar.” Aceitação. Mudança.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental investirmos e educarmos para a expressão saudável das emoções enquanto base da convivência, do respeito e promoção da diversidade e da coesão social. Enquanto base, também, da aceitação e da possibilidade de mudança. Como Fred Rogers defendia esta é uma responsabilidade individual e colectiva. Minha, certamente. E de cada um/a de nós.”

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Inteligência Artificial e Saúde: Benefícios, Desafios e Limites

Na última Assembleia Geral das United Nations, António Guterres destacou Inteligência Artificial generativa como prioridade e, potencialmente, a mais importante “ferramenta para construir economias e sociedades inclusivas, verdes e sustentáveis”, fundamental na educação, acção climática, alimentação e saúde. Mas…

Foi exactamente aos benefícios da Inteligência Artificial (IA) na Saúde mas, também, aos limites e desafios da sua aplicação, que o Canal S+ dedicou um recente Corpo Clínico, moderado pelo Marco António. Gentilmente convidaram-me a acompanhar a Sofia Couto da Rocha e o Rui Nunes no debate, tendo procurado contribuir com reflexões sobre:

a) A dimensão “humana” no desenvolvimento das novas tecnologias e da IA e os desafios e iniquidades na adaptação das pessoas e da sociedade;

b) A forma como os “riscos” que decorrem dos desenvolvimentos nos devem comprometer com melhores processos de desenvolvimento, que considerem mais a ciência, incluindo a psicológica, e a participação do conjunto dos profissionais impactados, incluindo as psicólogas e psicólogos, no seu desenvolvimento, bem como o cuidado com a necessidade de alinhamento de valores entre as novas tecnologias e os Direitos Humanos;

c) O quão fundamental é a literacia científica e em saúde e a confiança para a equidade no acesso aos benefícios da integração da IA e das novas tecnologias na Saúde;

d) Como pode melhorar o treino e formação de profissionais de saúde (veja-se o VR Ethics desenvolvido pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e HEI-Lab Human Environment Interaction Lab), promover cuidados mais personalizados, a saúde pública, a prevenção e a resposta a crises, a partir da melhor utilização de dados de saúde pública e individual;

e) O surgimento de “novos problemas”, incluindo de saúde (mental), relacionados com as novas tecnologias e as “novas” dependências que, previsivelmente, no futuro, tenderão a aumentar e complexificarem-se, bem como as novas tipologias de problemas, alguns eventualmente ainda não possíveis de prever;

f) A importância decisiva na intervenção multinível na área da saúde mental e a investigação promissora para algumas intervenções e menos promissora para outras;

g) Finalmente, a necessidade de boa informação e transparência na forma e nos objectivos dos desenvolvimentos para que pessoas e sociedade mantenham dimensões mínimas de previsibilidade e controlo, essenciais a adaptações positivas.

“A tecnologia deve reduzir as desigualdades e não reproduzi-las ou colocar as pessoas umas contra as outras”, disse ainda Guterres. Julgo que a psicologia, enquanto ciência e profissão, deve reconhecer o seu importante contributo para tal e ser, com ele, congruente. Aqui o procurei e continuarei a procurar dar o meu – pequeno mas empenhado – contributo para tal.

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