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LL – Longlife

Tendo eu nascido na primeira metade da década de 80, pertenço a uma geração capaz de descrever, trautear, repetir um conjunto de anúncios de publicidade a marcas e serviços que ouvimos e vimos, alguns ainda a preto e branco, e que pertencem ao nosso imaginário. Lembro, como tantas e tantos outros acredito, o coelhinho de uma marca de pilhas que “durava” sempre mais, em actividade. Vivíamos o tempo de promoção das pilhas longlife, das pilhas LL.

Lembrei-as a propósito da ligação literacia-liderança que a Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde promove por estes dias através do seu “Programa de Liderança” que propõe pensar e responder à pergunta “O que é preciso para ser um jovem líder na saúde?”.

Pergunta desafiante, mas, particularmente, tema muito relevante à formação e ao desenvolvimento, pessoal e profissional, de jovens estudantes e profissionais das mais diversas áreas da saúde. Sobretudo num tempo e num Mundo onde a complexidade dos problemas, exige ampla literacia e capacidade de leitura e mobilização de recursos junto de nós mesmo, de outras pessoas, da sociedade. Num tempo e num Mundo onde a complexidade dos problemas, exige lideranças cada vez mais preparadas, com propósito e com valores.

O programa (que convido a descobrir/participar) é concretizado através de sessões com jovens líderes, de diferentes áreas da saúde, tendo ontem decorrido a sessão dinamizada pelo Sérgio Alves, presidente da ANEP (Associação Nacional de Estudantes de Psicologia), hoje referência junto das e dos estudantes de psicologia em Portugal e um inspirador e muito promissor líder. A convite da Cristina Vaz de Almeida e com o apoio da Vânia Lima (a ambas muito agradeço), coube-me o enquadramento do tema e a apresentação do Sérgio.

Nessa curta intervenção falei de literacia e da sua importância, da liderança e dos caminhos de influência, inspiração e mobilização no sentido de um objectivo comum. Abordei o papel da confiança e da segurança psicológica nesse caminho. Reflecti sobre a importância da comunicação, mas, também, sobre o quão imperativo (ético) é o autocuidado e o desenvolvimento pessoal e profissional. Discuti, finalmente, como cada uma destas iniciativas representa como que “água” que deve encher “barragens”, permanecendo disponível e alimentando-nos, também de energia. E de como temos o dever, a cada dia, de cuidar com justiça do legado que deixamos e, logo, de quem vem depois de nós, contribuindo para que cada uma dessas pessoas encontre a sociedade e as instituições mais e melhor capacitadas do que nós encontramos, conforme eu e nós encontramos face à geração que nos antecedeu.

Longlife à (promoção da) literacia e liderança, com propósito e com valores. Longlife a esta e a estas iniciativas.

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Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas

“Ontem levei o meu filho mais novo à Creche de pijama”. Assim começo referindo-me a anteontem, explicando, depois, que para comemorar “com as amigas e amigos mais um Dia Nacional do Pijama e, em simultâneo, mais um aniversário da (quase universalmente ratificada) Convenção sobre os Direitos da Criança.”

“Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas”, 70º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre o facto de, apesar de alguns indicadores terem melhorado nos últimos anos e de termos hoje compromissos políticos significativos, persistirem em Portugal “níveis de pobreza e exclusão, na primeira infância e juventude, que condicionam decisivamente o cumprimento da Convenção, os direitos e a possibilidade de desenvolvimento integral, qualidade de vida e bem-estar de muitas crianças e jovens.”

Defende, também, que “cumprir a Convenção deve ser nosso desígnio” e apresenta “humilde mas comprometidamente quatro propostas para aprofundarmos e sermos mais efectivos nesse caminho”. A saber:

 

  1. Uma estratégia, ancorada em políticas de promoção da natalidade e sociais, que aponte aos primeiros 1000 dias de vida de um bebé (…) que permita eficazmente a redução da exposição a condições de pobreza e exclusão no período da gravidez e primeiros dois anos de vida do bebé, acompanhadas de suporte emocional e de desenvolvimento de competências parentais, disponíveis para todas as famílias;

2. A revitalização do modelo de intervenção precoce na infância e do conjunto de intervenções educativas, sociais e de saúde que permitam responder, precocemente e de forma contingente, a primeiras necessidades de bebés, crianças e famílias;

 

3. Ao objectivo de generalizarmos a possibilidade de acesso a contextos educativos de bebés e crianças dos 0 aos 3 anos, juntarmos o importante objectivo de garantirmos a qualidade dos ambientes educativos (ver o trabalho do @ProChild, presidido pela @Isabel Soares, recentemente agraciado pela Assembleia da República com o Prémio Direitos Humanos de 2023 (em conjunto com a P.A.J.E.) e promotor do “Pacto para a Infância”);

4. Investir em programas de formação e desenvolvimento profissional da classe docente, fortemente comprometidos com a redução das desigualdades (ver o trabalho do Ambition Institute (UK), que tem como Director Associado o @Miguel Herdade).

 

Quatro propostas assentes na ciência e evidência, que melhorariam e tornariam mais efectivas as políticas públicas. Quatro propostas que sedimentariam o desígnio de cumprirmos a Convenção sobre os Direitos das Crianças e minimizar obstáculos e barreiras que se colocam à equidade e ao desenvolvimento futuro de crianças e jovens expostos a contextos de pobreza, exclusão ou marginalização, com foco intergeracional e de investimento para o desenvolvimento económico e coesão social futura do país.

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A dúvida e o regresso aos outros (Ao redor…; 08.11.2023)

O Mundo em que vivemos é desafiador e complexo. Sabemo-lo, muitas vezes de forma desconcertante, por vezes de forma irónica, outras vezes, infelizmente, com muito sofrimento. Cada um de nós tem exemplos disso e não faltam histórias que o tratam, na nossa memória colectiva, umas reais, outras ficcionadas. Pensemos, por exemplo, no Titanic e na forma como a “White Star Line”, sua promotora, o promovia com uma narrativa assente numa suposta “inafundabilidade”, questionada pelas consequências sobejamente conhecidas do embate num iceberg meros quatro dias após o início da sua primeira viagem. Pensemos, por exemplo, no conto do “Patinho Feio” de Hans Christian Andersen e de como a narrativa evolui da ostracização e rejeição de um suposto “patinho” para o mais deslumbrante cisne do lago.

Sendo o Mundo em que vivemos desafiador e complexo, a dúvida é hoje, para muitas pessoas e usando das metáforas anteriores, um “patinho feio” e a ausência de dúvida, responsável por embates que as e nos afundam. Há diversas razões que o justificam. Da polarização, causa e consequência, também, da maior ausência de dúvida, à sobrecarga de informação e facilidade e rapidez de acesso à mesma, que estimula uma maior passividade na aceitação da informação. Passando pela forma como as redes sociais e os seus algoritmos tendem para a amplificação das crenças e opiniões próximas de quem procura informação ou pelo efeito descrito como Dunnig-Kruger, relacionado com a forma como os conhecimentos limitados das pessoas sobre determinados fenómenos podem conduzir, paradoxalmente, a crenças fortes e a uma confiança injustificada da pessoa nas suas próprias capacidades de compreensão desse fenómeno. Como um menor conhecimento sobre algo pode, ao invés de suscitar dúvida e estimular a curiosidade e procura de mais informação, gerar certezas e encerramento nas mesmas.

Estes factores contextuais potenciam-se e potenciam estas características profundamente humanas, às quais acrescem, ainda, a nossa necessidade de pertença e enquadramento num grupo social e um conjunto de heurísticas (por exemplo de disponibilidade, que nos conduz a considerar como mais provável um evento que facilmente podemos evocar face a outros não tão automáticos) e de vieses (por exemplo de confirmação e ancoragem, respectivamente a forma como procuramos ou damos mais atenção a informação que confirme as nossas crenças e opiniões e como confiamos na primeira informação, informação âncora, que recebemos sobre um determinado fenómeno) que, ao simplificarem e automatizarem processos cognitivos e mentais geram, muitas vezes, erros sistemáticos no pensamento e na tomada de decisão.

Os nossos abundantes “nunca” e “sempre” navegam os ventos deste Mundo desafiador e complexo em que vivemos onde a dúvida parece não ter lugar. Rigidificam e limitam opções, diálogos e processos de adaptação no dia-a-dia e ao longo da vida. Afastam-nos de pessoas e de opiniões, polarizando-nos. Promovem a desconfiança que, essa sim e ao contrário da dúvida, floresce com consequências severas na diminuição da coesão social e da qualidade das instituições e da democracia.

É neste quadro que cultivar a dúvida, a possibilidade de não estarmos (sempre) certos, é um contributo fundamental para respondermos aos desafios contextuais que se nos colocam. Devemos fazê-lo ao longo da vida e conjugá-lo com o desenvolvimento da capacidade de escuta, de relação e de competências socio-emocionais, que garantam níveis de auto-estima e auto-confiança. Devemos fazê-lo com a promoção do interesse, da curiosidade e de literacia científica e capacidade de pesquisa, organização e interpretação da informação e, ainda, com a promoção de contextos que promovam a segurança psicológica e uma comunicação aberta. Fazermo-lo pode, mesmo, ser um antídoto para interpretações, decisões e comportamentos automáticos e precipitados associados a processos como os de desinformação, de oposição e destruição e do extremar de posições. Pode, ainda e nesse sentido, ser fundamental a um questionamento essencial ao progresso social e científico, ser gerador de espaço de construção e co-criação, de um espaço de entendimento entre polos e posições diversas, permitindo mais crítica construtiva, colaboração e potenciado melhores e mais participadas respostas aos problemas e desafios mais significativos.

Deixo um exemplo, também porque curioso, o “RTO – Return to Office” [Regresso ao Escritório]. Com o irromper do teletrabalho, necessariamente exponenciado pela pandemia que recentemente enfrentamos, muitas pessoas, incluindo “especialistas”, afirmaram que as transformações no mercado de trabalho e no modo de trabalhar seriam, sem dúvida, permanentes. Sabemos que, no geral, os seres humanos não são bons a prever o futuro mas, ainda que o saibamos, não deixa de ser assinalável que em 2023 as maiores empresas, incluindo consultoras ou tecnológicas como a “Zoom” (cujo negócio principal é exactamente a disponibilização de ferramentas que permitem e facilitam o trabalho à distância), estejam a solicitar aos e às trabalhadoras que, com algumas condições, regressem ao trabalho presencial, ao menos em parte do tempo de trabalho, considerando, entre outros, os impactos que o teletrabalho em exclusivo demonstra ter na vinculação, qualidade de trabalho e produtividade de equipas. Que este “RTO”, possibilitado pela dúvida, informado pela ciência e respeitando a diversidade de trabalhadoras e trabalhadores, seja estímulo para um outro “RTO”, o “Return to Others” [Regresso às Outras e Outros].

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a dúvida, ao invés de uma demonstração de fraqueza ou de vulnerabilidade, é virtuosa. Assume um papel muito relevante, protegendo-nos de heurísticas, vieses e de um contexto que nos rodeia que periga a sua utilização e utilidade, cristalizando-nos e polarizando-nos. A dúvida, particularmente se assente em princípios de confiança e não de desconfiança, é elemento central de construção de soluções em áreas muito diversas, incluindo o respeito e a paz, de aproximação de comunidades e de progresso da sociedade, dependendo isso de que, dia-a-dia, nos nossos diferentes papéis, pratiquemos e utilizemos pensamento crítico e a dúvida construtiva… Dúvida que nos permite melhores tomadas de decisão, sobre as quais versará o próximo texto deste “Ao redor”.

 

Tiago Pereira

A dúvida e o regresso aos outros

in Sábado (Ao redor…); 08.11.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-duvida-e-o-regresso-aos-outros

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Mental Talks, Lo(u)cotorio

Contribuir para uma comunidade mais informada em saúde mental e participativa no combate ao estigma associado à doença mental. É esta a relevante visão (missão, acrescento) do “Lo(u)cotório”, projecto de literacia em saúde mental, promovido pela ARTAC na Região Autónoma dos Açores.

Do conjunto das iniciativas previstas fazem parte três debates televisivos designados de Mental Talks, incidindo, exactamente, sobre a promoção da informação e literacia, combate ao estigma e de identificação de factores protectores, de risco e de estratégias de actuação (precoce e contingente) individuais, comunitárias e societais no âmbito da promoção e protecção da saúde mental e prevenção da doença mental.

Sob uma activa moderação do jornalista Rúben Medeiros, gravei ontem o primeiro destes três debates com o Daniel Rijo e com a Marta Bulhões. Neste “(Des)equilíbrios em Saúde Mental”, exploramos e reflectimos, com o enquadramento específico da realidade específica da RAAçores, os determinantes sociais de saúde/doença mental, qual a sua importância, como a literacia e o estigma impactam e por vezes determinam a saúde mental e a relevância das emoções, comportamentos e estilos e hábitos de vida na saúde mental. Apresentamos e discutimos, ainda, projectos e estratégias concretas e como podem as pessoas, as comunidades, as organizações da sociedade civil, os serviços públicos e as políticas públicas contribuir para mais oportunidades de saúde, bem-estar e autodeterminação para todas as pessoas.

Fizemo-lo num debate “com tempo”, também motivado por uma interessante reportagem inicial onde participa o Nuno Pavão Nunes. Num primeiro de três debates, dizia, os seguintes dedicados a “(Des)construir a identificação e o tratamento da doença mental” e a “(Des)stressar e (con)viver com a ansiedade” e num contexto de um projecto cientificamente sólido – conta com a coordenação científica da Célia Maria Barreto Carvalho – e superiormente coordenado e produzido pela Sara Ponte e pelo Filipe Tavares, respectivamente, e em boa hora apoiado por um conjunto de entidades diversas, que inclui o @Governo Regional dos Açores, a RTP Açores, a Fundação Gaspar Frutuoso e a FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Um projecto com uma imagem forte, com qualidade, pertinência, seriedade e, creio, impacto. Um projecto a seguir, a continuar e com potencial de inspiração para a acção de outras pessoas e entidades, de outros territórios, nesta importante área.

Aqui e a vós voltarei quando, muito em breve, a RTP Açores transmitir o debate. Hoje agradeço à equipa o empenho, o convite que me fizeram e o facto de sentirem como potencialmente útil o meu contributo. Oxalá tenha correspondido.

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Oh Lord, please don’t let me be misunderstood

“Oh Lord, please don’t let me be misunderstood”. Vivemos dias, mais uns, de enorme imprevisibilidade. Incredibilidade, até. Mundo fora e em Portugal. Dias onde a complexidade e múltiplas nuances – não se coadunando com simplificações, julgamentos e preconceitos sempre presentes – estimulam incompreensões, mal-entendidos, polarizações.

Por estes dias lia Bob Dylan, um dos prémios Nobel da literatura mais incompreendidos. No seu “A filosofia da canção moderna” (que recomendo) escreve sobre um conjunto de canções que inspira(ra)m o seu percurso. Entre elas, uma, interpretada por uma cantora (Nina Simone) também bastante incompreendida. Falo da “Don´t let me be misunderstood”, canção que Bob Dylan apresenta como “de mal-entendidos e ideias falsas”, sublinhando que “o problema de ser mal interpretado é que diminui o prazer da vida”. E a possibilidade de (co-)construção, acrescento eu.

Também há dias, embora há já mais alguns, participei num trabalho da @Rádio Renascença, onde procurei disponibilizar um conjunto de informações e reflexões que, espero, contribuam para prevenir “mal-entendidos e ideias falsas” sobre o ano profissional júnior (estágio profissional) da @Ordem dos Psicólogos Portugueses, particularmente reforçando o seu enquadramento enquanto um “primeiro ano de prática profissional supervisionada”, acompanhada e enquadrada num plano de formativo e de desenvolvimento profissional.

Na peça, focando também a necessidade de crescimento rápido para resposta às necessidades da população do número de profissionais no SNS, destaco que apesar do número crescente de psicólogas/os em Portugal (27.000, resultado de uma profissão ainda recente e com elevado crescimento anual), “nos últimos anos, houve uma melhoria do acesso dos profissionais a atividades na área da psicologia”. Para tal junta-se ao “impulso forte da OPP no advogar pela melhoria de acesso a serviços de psicologia nas mais diversas áreas e contextos, a procura cada vez maior por parte dos cidadãos” fazendo com que “tanto os serviços públicos como alguns privados estejam cheios e com listas de espera”, logo “subdimensionados face à procura”.

Isso reflecte-se, e refiro-o na peça, na diminuição da taxa de desemprego e aumento da procura de serviços reportada e no aumento significativo de novos anos profissionais júnior (2021 e 2022 foram dois dos anos com mais novas/os psicólogas/os júnior e 2023 será também um ano excepcional).

Há, no entanto, e como em qualquer assunto com complexidade, desafios pela frente, associados, desde logo, às alterações legislativas em curso. Também há, porém, oportunidades significativas, nomeadamente pela ainda elevada “capacidade de absorção de novos profissionais”, pelo aumento das possibilidades de estágio profissional em serviços públicos e, ainda, pelas novas áreas profissionais em forte expansão e “reforço de profissionais a trabalharem temáticas emergentes”, com significativo “benefício para a sociedade e para as pessoas”.

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“A psicoterapia nasce e realiza-se tipicamente num espaço individual. Mas esse encontro é estritamente ligado a uma história e a um contexto social, cultural e até político. A psicoterapia é um produto da nossa sociedade, mas também a molda. Certas ideias, que nascem ou são fortemente influenciadas pelas concepções da psicoterapia, invadem positivamente o espaço social. Os quatro exemplos discutidos são o papel da infância e da parentalidade, o enquadramento da sexualidade, a dimensão representacional dos comportamentos e afectos, e o princípio da equidade no acesso ao cuidado.

O capítulo aborda ainda a dimensão de poder que permeia as relações sociais e que, dessa forma, também está presente na psicoterapia. São refletidos os cuidados éticos que tal implica no sentido da vivência do poder nas relações de uma forma saudável. Tal como no tema anterior, procura discutir-se a relação circular entre a psicoterapia e sociedade e em que medida tal pode inspirar novas e mais positivas formas de encarar o poder socialmente.

A interacção conceptual entre a psicoterapia e a sociedade é benéfica para ambas. Por um lado, sociedade molda os clientes e a intervenção. Os pedidos e objetivos presentes não são idênticos aos motivos que traziam as pessoas à psicoterapia no passado ou noutros contextos. Por outro lado, a psicoterapia promove autonomia, autodeterminação, assertividade e respeito pelos outros – qualidades de um cidadão activo. A psicoterapia (e intervenção psicológica no geral), é por isso central na construção de uma polis de pessoas envolvidas e enquanto comunidade que procura deliberadamente o bem-estar geral.

“

Resumo do Capítulo: Psicoterapia, sociedade, poder e política: Entre o privado do encontro e o público da possível polis [@David Dias Neto e @Tiago Pereira]

Livro: A psicoterapia na Torre de Babel [Constança Biscaia e @David Dias Neto]

Colecção: Psicologia e Psicoterapia [@Telmo Mourinho Batista]

Editora: @Edições Silabo

….

A partir do Episódio | Psicoterapia, sociedade, poder e política: https://lnkd.in/d99qQA3d [@David Dias Neto, @Telmo Mourinho Baptista e @Tiago Pereira]

Podcast | A psicoterapia na Torre de Babel: https://lnkd.in/dimudiRw [@APTCCI]

 

……

Psicoterapia e Sociedade, Poder e Política:

Entre o privado do encontro e o público da possível polis

(Excerto)

Psicoterapia e Sociedade, Poder e Política

A ideia de existir uma relação entre a psicoterapia e a sociedade é uma ideia simultaneamente evidente e estranha. Evidente no sentido em que é claro que a psicoterapia é uma prática criada, desenvolvida e implementada no seio de uma sociedade e como resposta às circunstâncias, necessidades e expectativas das pessoas que a fazem. Estranha, por ser um processo, embora relacional, eminentemente individual, em espaço reservado por oposição a processos sociais públicos que ajudam a entender a sociedade. No entanto, são vários os exemplos desta relação e do seu carácter circular. Talvez menos evidente e mais estranha, é a ligação com a política, enquanto processo de ação, de tomada de decisão e de construção e interação entre grupos envolvendo relações de poder. Afinal, a psicoterapia é vista como uma forma de ajudar pessoas e não de promoção de uma ação social. Neste capítulo abordaremos e reflectiremos as pouco evidentes, estranhas, mas profundas, interligações entre a psicoterapia e a política, enquadradas em diferentes tempos da sociedade e nas sempre presentes relações de poder.

(…)

As ideias perigosas que partem da psicoterapia para a sociedade

(…)

A psicoterapia e a ideia de saúde mental participam também no processo de transformação e densificação dos valores humanistas. Neles também decorre a emergência dos direitos humanos e dos objectivos globais (e.g., do desenvolvimento sustentável). Aquilo que as teorias que subjazem à psicoterapia trazem, em diferentes momentos e, por isso, de formas distintas, é uma clarificação do que está na base e do conjunto de circunstâncias que conduzem ao sofrimento humano e de potenciais contributos para o superar.

(…)

Os vários modelos da psicoterapia sugerem que muito do que é relevante para o bem-estar (vs. Patologia) resulta ou é condicionado pelos primeiros anos de vida. A psicoterapia, a par de outras contribuições da ciência psicológica, concorre assim decisivamente para que os séculos XX e XXI tornem a infância um foco de atenção da sociedade e se consolide a ideia (e a filosofia) dos direitos das crianças.

(…)

Antes das perspetivas psicológicas subjacentes à psicoterapia, e influenciada pela religião, a sexualidade era, quando não negada, vista de forma desarticulada do resto do funcionamento humano, resquício da nossa animalidade, devendo pois ser coartada ou ignorada. Com a psicoterapia, em primeiro lugar pela psicanálise, a sexualidade começa a ser encarada como uma faceta humana indissociada da relação, que devia ser vivida de forma saudável e plena. Passou a associar-se a coartação da sexualidade ou a sua vivência “desequilibrada” a psicopatologia. Estas ideias foram social e politicamente muito influentes. A ideia de não só descriminalizar a homossexualidade, mas também penalizar a sua discriminação nasce destas ideias. A emancipação da mulher e a igualdade de direitos, independentemente do género ou orientação sexual também é fortemente influenciada por estas ideias de sexualidade e dos seus impactos no comportamento. A sexualidade feminina é equiparada em termos de valor à masculina e o caminho da independência desta da função reprodução é particularmente relevante. A condenação do abuso sexual, independentemente do contexto, é outro exemplo do desvio do foco da censura social.

(…)

Mais uma vez, os modelos psicológicos em que assentam algumas psicoterapias salientam duas dimensões que são importantes como determinantes do comportamento. Primeiro, as representações ou as crenças associam-se a determinados comportamentos. Estas representações envolvem dimensões atitudinais e afetivas que se relacionam com outro tipo de representações (e.g., visão de si, visão dos outros, emoções predominantes) e podem ter como base a falta de literacia. Segundo, a dimensão representativa não ser desligada de aspetos de processo (e.g., perceção, atenção, memória) que influenciam de forma relevante o comportamento

(…)

A quarta ideia tem que ver com a equidade, com o acesso e com uma ideia e um princípio da possibilidade de uma “psicoterapia para todas as pessoas”. A evolução do conceito de saúde para uma visão que inclui a saúde psicológica e o bem-estar, traz à sociedade este desafio referente à possibilidade de permitir acesso a cuidados de saúde psicológica e psicoterapêuticos mais amplos. Este princípio traz à psicoterapia alguma pressão para se repensar no sentido de poder chegar e impactar mais pessoas. Pensar um e outro movimento e esta tensão entre possibilidade, necessidade e justiça apoia a reflexão acerca de novas soluções.

(…)

O Poder na Psicoterapia

Muito se tem escrito sobre a psicoterapia envolver uma relação de poder. Esse poder é influenciado pela natureza da relação, pelas características do contexto e clientes, frequentemente a vivenciar períodos de maior vulnerabilidade. Essa vulnerabilidade aumenta o potencial impacto de más práticas e diminui a capacidade de os clientes as reconhecerem e agirem sobre elas.

(…)

Os psicoterapeutas agem no sentido de promover a mudança dos clientes de formas que não são necessariamente conhecidas ou conscientes para os últimos. Não se trata de um processo de manipulação, porque os objetivos da mudança são definidos pelos clientes no quadro do contrato e relação estabelecidos. Sê-lo-á quando, num registo de má prática, os psicoterapeutas procuram mudar os clientes em dimensões que estes não solicitaram. São abusos de poder, mesmo quando justificados como a interpretação do melhor para os clientes, a promoção de formas particulares de ser, de crenças, de tomadas de decisão específicas ou de formas de relacionar que vão para além dos pedidos.

(…)

Face a estas características, a prática de psicoterapia deve ser pautada por um conjunto relevante de cuidados éticos. Adicionalmente, esses cuidados éticos devem responder à evolução dos pedidos que chegam aos psicoterapeutas e à sociedade nas suas normas formais ou menos formais. Nomeadamente, estes cuidados devem ser acautelados nos processos de formação, desenvolvimento pessoal e enquadramento profissional dos psicoterapeutas. Estes processos são fundamentais na prestação de cuidados nesta área e, por isso, também são social e politicamente determinados porque dependentes de normativos legais. Os referidos cuidados éticos balizam os psicoterapeutas, protegem os clientes e apoiam o bom resultado do processo.

(…)

O exercício do poder no contexto da psicoterapia deve ser consciente, ciente das suas limitações, dos princípios éticos que o norteiam e centrado no respeito da autonomia dos clientes. Para que este objetivo seja cumprido, em termos da relação, o exercício de poder deve ser atento aos outros. Também num registo empático, mas também numa contínua apreciação dos impactos da intervenção ou da posição interpessoal dos psicoterapeutas e da construção da relação no processo psicoterapêutico.

(…)

Se a psicoterapia é o catalizador da mudança nos indivíduos e se os indivíduos fazem a polis – enquanto comunidade de cidadãos ativos – então a psicoterapia pode assumir o seu papel na construção de uma possível polis desejada pelos seus cidadãos.

Psicoterapia e Sociedade, Poder e Política: Entre o privado do encontro e o público da possível polis in A psicoterapia na Torre de Babel

David Dias Neto & Tiago Pereira

[Outubro de 2023]

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A dúvida e o regresso aos outros

“O Mundo em que vivemos é desafiador e complexo. Sabemo-lo, muitas vezes de forma desconcertante [que o digam estas últimas 48 horas em Portugal], por vezes de forma irónica, outras vezes, infelizmente, com muito sofrimento.” Sendo-o, é preocupante que nos confrontemos com um tempo onde parece não existir espaço para a dúvida.

“A dúvida e o regresso aos outros”, 69º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) detalha e reflecte sobre as causas deste tempo de ausência de dúvida, “da polarização à sobrecarga e facilidade e rapidez de acesso a informação”, das “redes sociais e seus algoritmos” ao efeito descrito como Dunning-Kruger. Das heurísticas e vieses à nossa necessidade de pertença e enquadramento num grupo social.

No fundo, como “os nossos abundantes “nunca” e “sempre” navegam os ventos deste Mundo desafiador e complexo em que vivemos onde a dúvida parece não ter lugar. Rigidificam e limitam opções, diálogos e processos de adaptação no dia-a-dia e ao longo da vida. Afastam-nos de pessoas e de opiniões, polarizando-nos. Promovem a desconfiança que, essa sim e ao contrário da dúvida, floresce com consequências severas na diminuição da coesão social e da qualidade das instituições e da democracia.”

Aborda, depois, a forma como “cultivar a dúvida, a possibilidade de não estarmos (sempre) certos, é um contributo fundamental para respondermos aos desafios contextuais que se nos colocam”, detalhando e reflectindo, mais uma vez, sobre a forma como a podemos promover. Desenvolvendo “capacidades de escuta, relação e competências socio-emocionais”, promovendo “o interesse, a curiosidade e literacia científica e capacidade de pesquisa, organização e interpretação da informação” e contextos de “segurança psicológica” e comunicação aberta.

“Fazermo-lo pode, mesmo, ser um antídoto para interpretações, decisões e comportamentos automáticos e precipitados associados a processos como os de desinformação, de oposição e destruição e do extremar de posições. Pode, ainda e nesse sentido, ser fundamental a um questionamento essencial ao progresso social e científico, ser gerador de espaço de construção e co-criação, de um espaço de entendimento entre polos e posições diversas, permitindo mais crítica construtiva, colaboração e potenciado melhores e mais participadas respostas aos problemas e desafios mais significativos.” Pode ser estímulo para um outro RTO que não o “Return to Office”, o “Return to Others” [Regresso às Outras e Outros].

“A dúvida, ao invés de uma demonstração de fraqueza ou de vulnerabilidade, é virtuosa (…) Particularmente se assente em princípios de confiança e não de desconfiança, é elemento central de construção de soluções em áreas muito diversas, incluindo o respeito e a paz, de aproximação de comunidades e de progresso da sociedade, dependendo isso de que, dia-a-dia, nos nossos diferentes papéis, pratiquemos e utilizemos pensamento crítico e a dúvida construtiva.”

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Chão pegajoso.

“Chão pegajoso.” Eventualmente poderão não estar familiarizadas/os com este conceito, quando não literal e aplicado às dimensões económicas e sociais. A Susana Peralta abordou-o num artigo ontem no @PUBLICO (“Chão pegajoso: nascer pobre é uma fatalidade”), onde, com a evidência disponível (e muito devemos ao seu trabalho e das suas equipas) sublinha o quão a mobilidade social ascendente (de geração para geração, na mesma família), curiosamente conforme a descendente em Portugal é “fraca”.

Problema que, não sendo exclusivo de Portugal é particularmente relvante, muito condicionado as possibilidades de bem-estar das pessoas e o país, considerando a sustentabilidade dos serviços (públicos) e a coesão social. A Susana Peralta, também no artigo, refere que o “chão cola” particularmente em 3 dimensões: nível de educação (veja-se o trabalho/reflexão do @Miguel Herdade que aqui trouxe há semanas); nível de rendimento; e nível de privação mais básico (ausência de possibilidade de uma refeição proteica).

Quem me costuma ler/ouvir sabe que este é um tema de permanente reflexão minha. Regresso a ele porque, sendo os ciclos intergeracionais de pobreza um fenómeno naturalmente complexo, multidimensional e “não solúvel” com uma única acção ou política, sinto que reflectimos (e actuamos) pouco numa das suas principais dimensões: a vivência da infância precoce em situação de pobreza e os impactos desproporcionais dessa adversidade em toda a vida desses bebés e crianças.

A esse propósito, no final da semana em que se comemorou o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, conversei com a @Carla Rocha (a quem agradeço) em mais um “Quarto do Fundo” (que partilho), parceria da @Rádio Renascença com a @Ordem dos Psicólogos Portugueses.

“Como travar a pobreza na primeira infância?” foi o mote de uma conversa que, passando por outros assuntos (a tal multidimensionalidade), se focou no impacto da adversidade relacionada com a pobreza e exclusão nos primeiros anos de vida. Estímulo para pesarmos como intervenções de políticas públicas que a reduzam no período da gravidez e primeira infância são fundamentais a par de investirmos na melhoria da actual geralmente má qualidade dos contextos educativos dos 0-3 anos e em fortalecer a intervenção precoce e as respostas em saúde, educação e área social.

Uma nota final, permitam-me, para reforçar que: a) a pobreza é um problema todos os minutos, horas, dias e não apenas de períodos em que, por via de datas comemorativas ou de um acontecimento tem projecção pública; b) que a pobreza é um problema de todas as pessoas, ainda que impactando mais quem vive em situação de pobreza; c) que é possível progredir na sua erradicação, se esse for um desígnio de todos nós e se todos, a partir dos nossos papéis de cidadania e profissionais, para isso contribuirmos.

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“Competências; Cooperação; Activação Social”. Tema, simultaneamente, arrojado e que nos confronta e convoca. Tema do III Congresso dos Psicólogos dos Açores que, nos dias 19 e 20 deste mês, decorreu em Ponta Delgada.

Lembro-me muito bem das 1ª e 2ª edições. Do impulso, visão e ousadia da equipa que, coordenada pela Luz Melo, então presidente da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses, as pensou, projectou e concretizou. Saúdo a equipa actual (Carla Rocha, Joana Amen, Filipe Fernandes e Paula Domingues), liderada pelo Marco Santos, por continuarem e aprofundarem estas realizações, pelo tema e pela relevância e impacto de um evento que, reunindo, juntando e aproximando colegas, demonstrou o impacto do trabalho de colaboração desenvolvido com o Governo Regional e Secretarias Regionais, conforme bem expresso pelo presidente José Manuel Bolieiro, bem como com os municípios e diferentes projectos e organizações sociais, conforme expresso, por exemplo, pela vereadora do Município de Ponta Delgada (e colega psicóloga) Cristina Canto Tavares.

Saúdo e agradeço a confiança pelo convite que me foi feito para, neste III Congresso e com moderação da Cristina Dutra, realizar uma intervenção com o mote: “Psicologia: Reforçar o envolvimento e a activação comunitária para promover resultados em saúde, bem-estar e equidade”.

Nela falei do papel da psicologia nos processos de transformação social e como foram, são e serão possíveis. Falei de determinantes macro do individual e como, em qualquer área de actividade, os temos que considerar, afirmando o nosso papel potencial neles. Falei de bem-estar, da sua relação com a saúde (e saúde mental) e de factores protectores e de risco. Falei do Mundo hoje e de como podemos melhorar e potenciar a utilização da ciência psicológica. De como a profissão se deve repensar e como pode e deve influenciar a sociedade para responder aos seus desafios e promover maior possibilidade de autodeterminação a cada pessoa. Falei, ainda, de envolvimento e participação. De propósito, pertença e activação comunitária. De agência e co-criação do futuro colectivo. De que podemos começar por fazer algo para, logo, fazer algo mais e, em seguida, melhor.

Pensei-o e partilhei-o, no final com a “Difference” (https://www.youtube.com/watch?v=eSElIhIcHAE) do Benjamim Clementine a acompanhar, qual singelo contributo para o envolvimento na mudança e activação pela saúde, bem-estar e equidade.

Reflecti-o, no final, a partir de uma pergunta da Carla Fernandes, ligando-o à forma como é fundamental reforçarmos a estrutura de projectos e organizações, procurando o por vezes exigente equilíbrio de tempo e foco nas actividades concretas junto do público-alvo e no desenvolvimento da estrutura e envolvimento das equipas no caminho para uma dinâmica que consolide, aprofunde, envolva e torne mais possível e mais fácil para quem se nos segue, continuar, fazendo mais e melhor para o bem comum.

Pois esse é, também, nosso desígnio.

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Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade? (Ao redor…; 17.10.2023)

Sim, estamos. Absolutamente. E, creio, todos somos um pouco responsáveis por esta situação e temos um papel na sua potencial alteração.

Hoje é Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Chegamos a este dia com os últimos dados consolidados a demonstrarem-nos que 1 milhão e 700 mil pessoas no nosso país vivem, mensalmente, com um valor de rendimento agregado inferior a 551€, valor praticamente idêntico ao preço, hoje, da mais actual consola Playstation, apenas ligeiramente superior a um sofá simples de médias dimensões, mas claramente inferior a alguns Smartphones. Estas famílias, estas pessoas, vivem em situação de pobreza e, necessariamente, com os seus direitos humanos e a sua possibilidade de bem-estar condicionados. Como diz a placa inaugurada na Praça dos Direitos Humanos e Liberdades, em Paris, aquando da primeira comemoração deste dia, em 1987, “onde homens e mulheres são condenados a viver na pobreza, os direitos humanos são violados…” Acrescento, e a justiça e coesão social e a confiança nas instituições, na democracia e nas outras e nos outros ameaçadas.

Este é, portanto, um dia que deve ser mobilizador de decisoras e decisores e um pouco de toda a sociedade civil para este desígnio, possível e, até, provável se, enquanto sociedade, nisso investirmos. Dia que devemos usar para advogar por uma melhor compreensão do fenómeno, estímulo para a mudança progressiva de determinados preconceitos e crenças a ele associados e, particularmente, para uma melhor informação das políticas públicas neste âmbito a partir da melhor evidência científica.

É que, mais que números e abstrações, é de pessoas, famílias, das suas vidas, histórias e experiências que falamos. Pessoas que vivem em todo o país, ainda que mais em determinados “nichos urbanos”, mas, sobretudo, em meios rurais e nas regiões autónomas. Famílias, muitas vezes, monoparentais ou com mais filhas e filhos. Pessoas em situação de isolamento e mais velhas. Pessoas com baixas qualificações e baixos níveis de escolaridade. São, ainda, pessoas em situação de desemprego. Mas, são, também, pessoas que trabalham e recebem salário. Quase uma em cada três pessoas que trabalham em Portugal não consegue, com o seu salário, sair da situação de pobreza ou contribuir para a retirada do seu agregado familiar de uma situação de pobreza.

Não apenas em Portugal, ter um emprego remunerado não é pois, por si só, suficiente para se não viver em situação de pobreza. O tema, em 2023, das comemorações do Dia Internacional da Erradicação da Pobreza sublinha-o. “Trabalho digno e proteção social: Pôr a dignidade em prática para todos” vem reforçar a necessidade de políticas e de uma governação integrada para responder de forma estruturada e estrutural a um problema complexo, prevenindo tentações discursivas ou opções políticas simplistas, de medidas pontuais e/ou oportunistas, não integradas. São fundamentais políticas que incluam as dimensões do emprego, é certo, mas também as da educação, saúde, habitação, organização dos territórios e mobilidade ou acesso a desporto, cultura e outras oportunidades. Políticas integradas, participadas, sustentadas e mobilizadoras.

Esta governação integrada é fundamental para quebrar os ciclos intergeracionais de pobreza e exclusão e os factores que os determinam. Aqui são essenciais políticas nas áreas da educação e saúde, para redução de iniquidades e desigualdades, mas também na área social, quer nos apoios financeiros, quer na capacidade, qualidade e eficácia da intervenção social realizada pelas instituições, organizações e projectos sociais.

Infelizmente, em Portugal, parte significativa da intervenção social e das próprias entidades que a promovem vive em situação de “precariedade”, fazendo com que a actuação e intervenção junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade seja, ela própria, contraditoriamente, muitas vezes vulnerável. Senão vejamos. Num contexto de trabalho exposto a desafios particularmente significativos e de elevada complexidade e dificuldade, ao invés de termos profissionais mais reconhecidos e valorizados, com maior possibilidade de acesso a autocuidado, mais bem preparados e com formação ao longo da sua vida profissional que acompanhe a evolução da ciência temos, infelizmente e invariavelmente, uma realidade de muito baixos salários, de precariedade, de não investimento, de descontinuidade de trabalho, muitas vezes dependente de projectos, financiamentos e timings. Temos, por isso, a não continuidade das intervenções em contextos onde o conhecimento da realidade e as relações são fundamentais, além, naturalmente, de muita rotatividade pela saída de profissionais quando têm outras oportunidades, condicionando a qualidade, o sucesso e a sustentabilidade da intervenção.

Mas mais. Num contexto de trabalho exposto a desafios particularmente significativos e de elevada complexidade e dificuldade, reitero, temos instituições, organizações, quando não apenas projectos, também eles com dificuldades estruturais. Por vezes com instalações muito precárias, sem capacidade (ou vontade) de ter lideranças técnicas e profissionais empoderadas que não afectas apenas a determinada actividade ou projecto e, por isso, com menos potencial de participação e relação com outras entidades e de promoção de oportunidades de transformação efectiva das práticas e de maior integração do conhecimento e da evidência científica nas mesmas.

Instituições e equipas, depois, que navegam num contexto que estimula a reprodução e cristalização de práticas e princípios, onde a inovação, a experimentação e a transformação – que precisam de bases sólidas – têm muita dificuldade em penetrar. Contexto onde vigora o princípio da desconfiança, conduzindo equipas técnicas a usar parte significativa do seu tempo (se não a maioria) a justificar e registar o que vão fazer, para o poderem fazer, e o que fizeram, para receberem, em reembolso, por vezes, as verbas por o terem feito. Tempo fundamental, com outro ecossistema, à co-construção com as pessoas suas destinatárias das práticas, à efectivação de mudanças e sua avaliação, melhorando-as pela aproximação às necessidades e desejo das comunidades.

Hoje mesmo é apresentado o “Plano de Acção da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2022-2025” que, quando escrevo este artigo, não conheço ainda. A estratégia nacional de combate à pobreza “ganhou” coordenação neste dia em 2022 e ganha agora um plano de acção que comtemplará medidas já em curso. Uma excelente oportunidade para reforçar esta prioridade, a integração das políticas e, espero, garantir recursos e impulso para apoiar mudanças consistentes na realidade da intervenção social, das e dos profissionais e instituições, organizações e projectos. Reduzir a escassez a que estão expostas que tanto condiciona capacidades e impede a exploração das potencialidades.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, falharemos se não investirmos na erradicação da pobreza e na quebra dos seus ciclos intergeracionais. Falharemos se não dermos melhores condições às e aos profissionais e às instituições e organizações sociais para promoverem melhores práticas, mais avaliadas e mais baseadas na melhor evidência científica disponível. A tal placa, inaugurada há 36 anos em Paris, também diz “…Unirmo-nos para garantir que esses direitos sejam respeitados é nosso dever solene.” É esse o tempo. Que o plano hoje apresentado seja motor disso e nos mobilize.

 

Tiago Pereira

Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade?

in Sábado (Ao redor…); 17.10.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/estamos-a-falhar-as-pessoas-em-situacao-de-maior-vulnerabilidade