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COVID-19 Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

13.03.2020 – 13.03.2023

Hoje passam 3 anos da criação do gabinete de crise COVID-19 da @Ordem dos Psicólogos Portugueses e da minha nomeação para seu coordenador. Hoje terminará, formalmente, o gabinete de crise COVID-19 da OPP e eu deixarei (formalmente) a sua coordenação.

Quem habitual ou ocasionalmente me lê sabe-me palavroso. Hoje, neste momento, não o serei. Quero apenas escrever, e com palavras dizer: Obrigado, obrigado, obrigado!

Ao @Francisco Miranda Rodrigues que confiou em mim e me confiou esta enorme tarefa e desafio.

À equipa, do gabinete e da OPP, incluindo todas as pessoas dos órgãos eleitos, comissões e grupos de trabalho, que, num contexto particularmente exigente, deu uma resposta excepcional, de envolvimento, de empenho e de vínculo com os valores da organização e com o seu (importante) papel social e de especial interesse público num momento de grave crise.

A quem, desapegadamente, se envolveu na actividade e no contributo da OPP ao longo da pandemia, particularmente nos momentos mais críticos. Foram centenas de psicólogas e psicólogos (e não apenas) e jamais esquecerei alguns dos muitos telefonemas que recebi, particularmente nos primeiros dias, com tantas e tantos colegas a disponibilizarem-se para o que pudesse ser necessário naquele momento.

Foram cometidos erros, certamente. Cometi erros, certamente. Mas orgulho-me, orgulho-me, orgulho-me.

Orgulho-me do contributo no período de pandemia, primeiro, das psicólogas e dos psicólogos a partir dos seus contextos de trabalho, por vezes com e em condições particularmente difíceis. Orgulho-me do contributo da OPP e da forma como, mantendo a sua actividade e as suas atribuições, procurou apoiar as pessoas, as famílias e o país (e não apenas). Finalmente, permitam-me, orgulho-me do meu próprio contributo naquele que foi, também certamente, o meu maior desafio profissional até hoje.

Orgulho-me, muito, muito, muito.

Agradeço, muito, muito, muito.

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Desbloquear o acesso bloqueado (Newsletter OPP)

Há três anos confirmavam-se os primeiros casos de infecção por COVID-19 em Portugal. Sabíamos, por essa altura, que algo muito significativo aí viria. Não sabíamos, porém, toda a dimensão e todas as implicações da pandemia. “Adivinhar o futuro é muito duro, é muito duro”, assim começa a canção “Acesso bloqueado”.

Chegamos a 2020 com marcas significativas dos atrasos de desenvolvimento económico, social e educacional da população portuguesa, em muito resultantes da ainda não total recuperação de indicadores que trazíamos do período do Estado Novo. Também muito penalizados pela grave crise socioeconómica que culminou e se desenvolveu a par do último programa de assistência financeira a Portugal e do não investimento na saúde mental, com o total incumprimento do Programa Nacional de 2007. Marcas que redundavam num baixo nível de literacia em saúde mental, num significativo sofrimento psicológico e num conjunto de determinantes sociais que pressionavam a saúde e saúde mental da população que, conjugadas com enormes dificuldades (e iniquidades) de acesso a serviços de Psicologia e saúde mental, faziam de Portugal um dos países da Europa com maior prevalência de perturbações nesta área e com maior consumo per capita de psicofármacos.

Os últimos três anos trouxeram algumas alterações. Conversar sobre saúde mental naturalizou-se, tal a relevância social do tema hoje. O estigma é, também por isso, menor e, ainda que possamos e devamos continuar a melhorar a literacia em saúde psicológica (também neste sentido lançaremos brevemente a campanha “Ciência com Evidência”), a expectativa de resposta às necessidades terá aumentado, particularmente, na população mais jovem. Há hoje mais respostas, e mais respostas públicas disponíveis, nomeadamente com o retomar do Cuida-te + (população jovem), com a criação da Resposta de Apoio Psicológico (vítimas de violência doméstica), com o crescimento significativo de psicólogas e psicólogos no Sistema Educativo e, não tão significativo, nas Autarquias, Empresas e Organizações ou nos Centros Hospitalares.

Mais, há hoje um caminho integração e consideração da Psicologia pelas principais seguradoras, iniciado em 2021 pela que tem a maior cobertura e continuado este ano pela segunda maior. Ambas, em colaboração com a Ordem dos Psicólogos Portugueses, desenvolveram modelos compreensivos que consideram, também, as dimensões de prevenção e promoção da saúde mental e actos nas diversas áreas de actividade da Psicologia, quer via reembolso directo aos clientes que procuram psicólogas/os fora da rede ou com preços de rede, com uma das seguradoras a diferenciar já os montantes de pagamento a psicólogas/os especialistas, valorizando-os.

Há, finalmente, uma resposta ímpar, inclusivamente na realidade internacional. O serviço de aconselhamento psicológico do SNS24 que permite, sem barreiras e 24h por dia / 7 dias por semana, o acesso a aconselhamento psicológico gratuito, realizando desde Abril de 2020 cerca de 210.000 atendimentos.

210.000 atendimentos, serviços “cheios” e listas de espera, a contrariar a “ideia zombie” de que é o estigma, e não a inacessibilidade, que impede as pessoas de procurarem apoio. Porque, em rigor, a inacessibilidade persiste. Apesar do atrás referido, e apesar das psicólogas e psicólogos reportarem aumento da quantidade de trabalho, o aprofundamento do sofrimento psicológico, o agravamento dos determinantes sociais com a pandemia, a Guerra ou a crise da inflação e a crescente procura de serviços, não acompanhada pelo reforço significativo de recursos em todas as áreas e, especialmente, nos cuidados de saúde primários, resultam em dificuldades graves de acesso a serviços de Psicologia por parte da população. Dificuldades de acesso e desigualdade no acesso, considerando as iniquidades decorrentes de parte da população não ter recursos que possibilitem priorizar a saúde mental e procurar serviços não públicos nesta área.

Continuaremos, consigo que dia a dia constrói a Psicologia a partir do seu trabalho no seu contexto, a advogar e a contribuir para o progressivo desbloquear deste acesso bloqueado. Reforçamos, pois, o nosso compromisso e empenho por mais equipas e serviços de Psicologia, mais contingentes, capacitados, empoderados e com mais recursos. Mais eficazes, equitativos e acessíveis para todas e todos os cidadãos.

 

Tiago Pereira

Desbloquear o acesso bloqueado

in Newsletter Ordem dos Psicólogos Portugueses (02.03.2023)

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Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais

“Não há atribuições colectivas de culpa em Portugal, Senhor Deputado”. A generalização induz que experiências ou conhecimentos focados ou limitados sobre um determinado tema sejam processadas como se referindo ao total das situações, influenciando a tomada de decisão e conduzindo a erros e ao reforço de estereótipos e preconceitos” (…) Já a heurística da disponibilidade explica porque percebemos como mais provável um acontecimento se tivermos presente um evento semelhante próximo e porque tantos debates são autorreferenciados (…) A desconfiança está associada aos conflitos sociais, à diminuição da participação social e pública e à falta de coesão social.

“Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais”, 53º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) discute como tantas vezes são estes os “princípios-chave na reflexão sobre a criação, revisão ou regulamentação de Leis. “O peso que um “caso” tem na percepção de que tudo é igual, que “algo que nos aconteceu” ou que “conhecemos” tem na nossa percepção de uma situação/problema e que a desconfiança impõe, prejudicam gravemente o debate público e a construção de soluções legislativas mais simples, ágeis, responsivas e personalizadas.”

“Temo-lo assistido em diversas situações. Voltamos a assistir no debate em torno da proposta de alteração ao Regime Jurídico das Ordens Profissionais. Muitas e muitos dos que critica(ra)m o Sr. Deputado (e bem!) pela permanente generalização e atribuição de culpas colectivas debatem as Ordens Profissionais em Portugal usando da generalização e tratando 20 Ordens muito diferentes como se tudo e todas fossem iguais.”

Estes princípios limitam o debate público e limitaram-nos neste processo em específico. “Permitiriam que se reflectisse mais profundamente a mais-valia das comissões responsáveis pela avaliação dos estágios profissionais serem constituídas, também, por elementos externos à profissão, sem experiência profissional (…) Que limita e discrimina docentes que realizam actividades enquanto psicólogas/os ao prever que o órgão de supervisão, agora proposto, seja constituído por “40% de membros oriundos dos estabelecimentos de ensino superior que habilitem academicamente o acesso à profissão organizada em associação pública profissional, não inscritos na associação profissional” (…) Que é incoerente ao não prever melhores condições, incluindo a possibilidade da mediação ética para algumas situações, para o Conselho Jurisdicionional, nomeadamente a possibilidade de remuneração ou de um regime de faltas justificadas.”

“…É a identificação de particularidades, os dados de qualidade e escrutínio e a confiança mútua que abre espaço ao diálogo e à cooperação, que promove solidariedade e o respeito pelas especificidades e que estimula o envolvimento cívico e político. É a confiança mútua que permite a construção de mais eficazes soluções para os mais complexos problemas.”

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Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia Tomada de Decisão

III Encontro Psicólogos na Administração Local

Comecemos pelo Capitólio. Ali voltei ontem, 3 anos e alguns dias depois de a 16.02.20, para um concerto, o último a que assisti pré-pandemia. Mal sabia. Mal sabíamos com toda a amplitude o que aí viria.

Mas voltei, voltamos, para o III Encontro dos Psicólogos da Administração Local, co-organização da Câmara Municipal de Lisboa e da Ordem dos Psicólogos Portugueses, ponto de encontro, partilha, reflexão e debate de psicólogas e psicólogos das autarquias de todo o país. Voltamos, e o que mudou das edições de 2017 e 2019, com (cada vez) mais psicólogas/os a darem o seu contributo (incluindo mais psicólogas/os júnior) nas estruturas/projectos das autarquias, a partilharem práticas no âmbito do prémio de boas práticas e, não menos relevante, com papéis cada vez mais amplos e diversos, incluindo as/os com posições de liderança e decisão.

Mas, de repente (por uma alteração de última hora, última hora mesmo), ali estava eu e o Gabriel Soares (um dos mentores, com a sua equipa, da iniciativa e que mais se tem a ela dedicado; Obrigado, Gabriel) para procurar estimular a reflexão sobre como pode a psicologia e as psicólogas e psicólogos contribuir para a promoção do bem-estar a partir das autarquias. Para pensar o nosso papel:

a) No desenvolvimento de ciência, a partir da psicologia, que permita afirmar a importância da promoção do bem-estar e o que pode ou não funcionar (what works?) para mediar a “tensão” entre os espaços que idealizamos para viver (com verde e azul, sem ruídos de transportes, com encontro e conexão, com tempo, …) e as cidades actuais;

b) Na advocacia para que a promoção da saúde (mental) e do bem-estar possa verdadeiramente ser prioridade das autarquias e possa ser aspiração das e dos munícipes, valorizando projectos de “cidade” nela centrados e usando do capital social para os influenciar;

c) Nas respostas de proximidade considerando que é nos territórios que os desafios societais (pobreza, migrações, insucesso/abandono escolar, …) ganham nome e história de vida e onde mais eficazes intervenções junto das pessoas e na transformação dos determinantes sociais da saúde e do bem-estar podem acontecer;

d) Na disseminação do conhecimento da psicologia nas diversas áreas da sociedade, no apoio à tomada de decisão e, porque não, com mais psicólogas e psicólogos em posições de responsabilidade, liderança e tomada de decisão.

Volto ao Capitólio porque também me recorda o que aconteceu no dos EUA. Faço-o para, como também disse, partilhar que é a possibilidade de bem-estar de todas e todos e a coesão social que dela resulta que mais nos protege da deterioração da confiança nas instituições, nas outras e outros e na democracia. Que mais nos protege de emoções como a raiva ou o ódio serem dominantes no espaço público e na política, num ciclo que inevitavelmente conduzirá a mais violência e a menor equidade, possibilidade de autodeterminação e de uma vida plena, de bem-estar.

Oxalá vos tenha feito sentido. Para mim foi um gosto. Obrigado.

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

13 anos… E muito (mas nem tudo) mudou…

Passam hoje 13 anos que a perdemos. Que a perdi.

Com ela fui, em 2004, a primeira vez aos Açores. Visitamos três das nove ilhas do arquipélago e viajamos por cada recanto da ilha de S. Miguel. De Ponta Delgada ao Nordeste e às Sete Cidades… Das Furnas, a Mosteiros e a Rabo de Peixe. Nos já quase 19 anos que passam desse momento, voltei algumas vezes aos Açores e a S. Miguel. Todas já sem ela, na minha vida. Não apenas mas também por isso, diferente e com outra visão e reflexão sobre o meu “ao redor”. Consciente de que muito mudou nestes anos, mas de que muitos desafios se mantêm, incluindo os fenómenos associados à iniquidade de oportunidades, de exclusão, da vivência em situação de pobreza e da reprodução, geracional, da mesma.

No final da passada semana voltei aos Açores e a S. Miguel. Voltei para (mais) uma sessão de recolha de contributos para o projecto https://finalapobreza.pt e, ainda, para um debate. Debate que, a propósito da comemoração do Dia Mundial da Justiça Social, juntou a Ordem dos Psicólogos Portugueses (eu e o Marco Santos, presidente da nossa Delegação Regional dos Açores), aos colegas Hélder Fernandes e Pedro Gomes, da Associação Novo Dia e da Associação para Públicos Jovens, e, ainda, às colegas Cristina Canto Tavares, Vereadora da Câmara Municipal de Ponta Delgada e Tânia Moreira da Fonseca, Vogal do Conselho Diretivo do Instituto de Segurança Social dos Açores.

“Se me dissessem há 20 anos que aqui estaria hoje, entre psicólogas e psicólogos, a discutir o nosso contributo para os desafios da pobreza não acreditaria”, diria um colega já perto do final da sessão. Penso o mesmo… Há 20, há 19 quando fui a primeira vez aos Açores, e, até, há muito menos anos. E que importante é conversar-se sobre este tema.

Além da importante reflexão, já por si significativa, a sessão permitiu a comunicação do tema a partir dos contributos da ciência e prática psicológica para a sociedade (por exemplo com a reportagem da RTP Açores), além do pedido e do compromisso para um contributo da OPP para a “Estratégia Local Integrada de Combate à Pobreza e Exclusão Social” de Ponta Delgada, conforme aqui noticiado.

Passo a passo, momento a momento, caminhamos para um maior contributo da psicologia no combate à pobreza e à exclusão. Passo a passo, momento a momento, procuramos afirmar que este caminho é, necessariamente, ligado também à saúde mental e, logo, à necessidade de reforço das psicólogas e psicólogos nos diversos serviços públicos, quer seja nas dimensões de prevenção e promoção, quer seja na intervenção junto das pessoas com problemas na área da saúde mental, e à necessidade de maior envolvimento da ciência psicológica no desenho de estratégias/políticas nesta área.

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Natália…

Indomável, imprevisível, ousada. Assim foi Natália Correia, figura ímpar da literatura e do século XX português, que perdemos fará no próximo mês 30 anos e cujo centenário do seu nascimento se assinalará em Setembro.

Recordo-me do um Polígrafo feito a seu respeito. Verificava se seriam verdadeiras (e confirmava serem) umas frases a si atribuídas datadas do ano do seu desaparecimento: “As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis… Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo (…) O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de abril, o Estado social e a independência nacional sofrerão gravíssimas ruturas (…) Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e comida. A esperança média de vida cairá. Espoliada a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres.”

Algumas pessoas olha(ra)m para estas palavras como premonitórias. Fernando Dacosta, que as confirma, refere que Natália sofria ao ver o Mundo “da cultura, dignidade, liberdade, criatividade e afetuosidade ruir”, conforme entendia. Ruína para si muito decorrente da desigualdade e da abundância de situações de pobreza e exclusão. Condicionantes que entendia fundamentais e que privavam pessoas da dignidade e da possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação.

Continuo, por estes dias, em iniciativas que cruzam os contributos da ciência e da prática da psicologia com o enorme desafio societal que representam os fenómenos da pobreza e da exclusão. Há uma semana, na ilha da Madeira, discuti a temática com colegas, recolhi contributos para o projecto https://finalapobreza.pt e procurei via comunicação social um contributo para a mediatização e discussão no espaço público do tema e, mais particularmente, da pobreza infantil, conforme partilho exemplo: https://www.rtp.pt/madeira/sociedade/acompanhamento-psicolgico-desde-a-infncia-uma-forma-de-reduzir-impacto-da-pobreza-udio_111756

Já amanhã, volto a recolher contributos para o projecto, agora em S. Miguel (Açores), sessão que decorrerá exactamente no Centro Cultural Natália Correia e que, numa parceria entre e @Ordem dos Psicólogos Portugueses e a @Câmara Municipal de Ponta Delgada, terá posteriormente um debate sob o tema “A Intervenção Psicológica no combate à pobreza e na promoção da equidade social”, que assinalará o Dia Mundial da Justiça Social celebrado a 20 de Fevereiro (informações e inscrições aqui: https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/noticia/4483).

Porque, conforme Natália, precisamos ousar… Na literatura. Na crítica (social). No combate à pobreza e à exclusão, com maior contributo das psicólogas e psicólogos e fazendo dele desígnio de todas as pessoas nos Açores, no país e no Mundo.

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Democracia Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Psicologia

Ice Merchants e o nosso Mundo…

Uma imagem bonita, feita como que de esquissos. Pensada com sentido e significado. Desenhada com uma estética com eles compatível e, particularmente, impactante. Abaixo da varanda da casa da montanha, um baloiço baloiça com um menino nele sentado. Quem viu o trailer (ou toda a curta), que nos enche de orgulho pela recente nomeação para os Óscares, sabe que falo do filme de João Gonzalez, “Ice Merchants”. Quem não viu, convido a olhar a imagem abaixo…

O baloiço daquela imagem, signo de um resquício de infância, de diversão, de liberdade, lembra-me os “baloiços”, como chamava e chamávamos ao único parque infantil da aldeia onde cresci. Nele existiam dois como aquele junto com outros equipamentos e ali brinquei e joguei primeiro, me encontrei, conversei e me escondi depois. Ali, mais tarde, ouvi música, li. Entre os outros equipamentos havia um velhinho (parece que sempre foi velhinho) escorrega metálico que, não sendo exactamente idêntico, me lembra o da imagem que também partilho abaixo e que…

Nos parecia, invariavelmente, que à descida, mais rápida inicialmente, correspondia um abrandamento no final, por vezes “como se levantássemos” antes de chegar ao chão. Mas sempre, sempre, a caminho do chão. Penso-o exactamente assim a propósito do caminho que se vem realizando na erradicação da pobreza extrema no Mundo onde, à descida consistente (mesmo que não tão rápida e em todos os lugares como gostaríamos) de 80 para 8% da população, correspondeu um aumento em 2020. Um aumento que sinaliza o caminho ainda a percorrer até ao chão e, particularmente, alerta para que apenas com envolvimento, compromisso e com a conjugação de vontades e saberes (científicos) se combate a pobreza extrema e a pobreza e exclusão no geral.

Na @Ordem dos Psicólogos Portugueses continuamos a fase de visitas a instituições e projectos com contributos nas áreas da pobreza e exclusão e com sessões de discussão da temática e recolha de contributos para a estratégia https://finalapobreza.pt junto de psicólogas e psicólogos. Na passada semana, em Évora, conforme também o Diário do Sul (abaixo) reportou. Hoje no Funchal (informações e inscrições aqui) no âmbito de uns Trilhos da Psicologia e no próximo dia 23.2 em S. Miguel (informações e inscrições aqui), no âmbito de um evento nesta área.

O “Ice Merchants”, porque pensado com sentido e significado, permite múltiplas reflexões. Do isolamento à família, das relações ao trabalho e sua relevância, das rotinas, do quotidiano, do binómio pobreza–riqueza, além da dimensão (importantíssima para as pessoas em situação de pobreza) monetária. Muitas, mais uma outra, a ausência de um elemento, sempre presente, porém. Uma não completude, um não preenchimento que, mais ou vez, qual escorrega, me lembra quem vive em situação de pobreza e de exclusão e o nosso dever de colocar a nossa ciência e a nossa prática mais e mais ao serviço do seu fim.

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Ao redor... (Revista Sábado) Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política

De número em número até 5.3 mil milhões

“Portanto… Enfim, é fazer a conta.” Permanece no imaginário colectivo o momento em que António Guterres, então primeiro-ministro, não conseguiu responder rapidamente a um pedido de um jornalista para quantificar quanto significava 6% do PIB português. 6% em 1995, treze (pessoas), quinhentos (milhares de euros), quatro ponto dois e três (milhões de euros), mais recentemente. “Discutimos muito, muitas vezes acaloradamente” números, números aos quais acrescento um que merecerá menor debate mas a que não “creio corresponder a uma importância menor: cinco ponto três. Cinco mil e trezentos milhões de euros.”

“De número em número até 5.3 mil milhões”, 51 º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado; link abaixo) destaca o “custo estimado em 2022 das perdas directas de produtividade das organizações portuguesas causadas pelo absentismo e presentismo (quando se trabalha abaixo das reais capacidades), resultantes de stresse e de problemas de saúde psicológica de trabalhadoras e trabalhadores. Número que seria consideravelmente superior se envolvesse organizações do sector público e do sector financeiros (sectores não considerados no estudo) e que corresponde a um aumento de 66% face às perdas estimadas de 3.2 mil milhões de euros em 2020.

Este impactante número é detalhado no relatório “Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações – Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica
no Trabalho, em Portugal” e resulta dos 8 dias de trabalho que em 2022 cada trabalhador/a em média perdeu e dos 15,8 dias que, também em média, trabalhou mas abaixo das suas capacidades reais, por razões associadas ao stresse e a problemas de saúde psicológica (em conjunto, mais de 10% do seu tempo anual útil de trabalho).

“Objectivamente, a prevenção dos riscos psicossociais, a par da promoção da saúde psicológica e do bem-estar, se baseadas em projectos e iniciativas com base e evidência cientifica e na mobilização de toda a organização (incluindo o empenho e compromisso da gestão e liderança), é um investimento de enorme retorno para a prosperidade e sustentabilidade das organizações, particularmente se aos custos directos anteriormente assinalados juntarmos outros resultantes, por exemplo, da prevenção de erros e acidentes de trabalho (…) Pode, ainda, reduzir significativamente o sofrimento e mal-estar individual e os custos com ele relacionados para sistemas como o de saúde e segurança social e produzir melhorias na produtividade e economia do país”.

“Portanto… Enfim, é fazer a conta”, disse Guterres. Digo-o agora a líderes, a gestoras e gestores, mas também a decisoras e decisores a quem o compete estimular: Enfim, é fazer a conta a tudo quanto de bom pode significar investir na prevenção dos riscos psicossociais e na promoção da saúde psicológica e do bem-estar de trabalhadoras e trabalhadores.

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Policrise.

Policrise. Ouvimos a expressão amiúde a propósito da pandemia por COVID-19. Foi agora amplamente referida no “Global Risks Report 2023” do World Economic Forum.

Nele, além da ideia fundamental de que “crises presentes profundamente interconectadas e a menor resiliência aumentam o risco de uma policrise de riscos ambientais, geopolíticos e socioeconómicos relacionada com a procura de recursos naturais”, trata-se a percepção dos principais riscos do Mundo a 2 e 10 anos. E, se a 10 anos os principais surgem associados à crise climática (o primeiro é a “incapacidade de mitigação das alterações climáticas”), a 2 anos o primeiro é a “crise do custo de vida” e o quinto a “erosão da coesão social e polarização da sociedade”.

Se os pensarmos para Portugal, e olhando o último Eurobarómetro que aqui referi recentemente, encontramos percepções próximas. Um potencial de conjugação de crises que desafiam a sociedade, a equidade e a possibilidade de bem-estar de todas as pessoas. Há dias, num excelente artigo no Público, Ricardo Arroja discutia-o com clarividência. Partindo de dados do INE que contrariam a ideia zombie (apesar de não factual, permanece no imaginário/debate público como verdadeira) de que as pessoas em situação de pobreza têm mais filhas/os, permitia pensarmos como o desafio da pobreza (e exclusão) no nosso país se relaciona com a crise demográfica, com as iniquidades na área da educação e formação e com o próprio desenvolvimento económico e social do país.

Isso e, a mim, a pensar num texto que li há algum tempo onde se dizia que, se uma planta estiver a murchar, não tendemos a assumir que o problema é da planta (apenas) e procuramos ajudá-la, também, alterando as condições a que está sujeita. A pensar nele e no quanto o creio fundamental nas pessoas, cuidando-se de analisar os determinantes sociais da saúde e bem-estar e de intervir não apenas na pessoa que “sofre” e “murcha” com eles, mas nos próprios determinantes.

Quem me vai lendo (e/ou ouvindo) sabe que é com esta visão e porque a pobreza é um dos (senão o) principais determinantes sociais, que estamos a preparar uma estratégia de (maior) contributo da psicologia para um “.Final à Pobreza”. Nos próximos dias promoverei sessões de discussão e recolha de contributos em Évora (07.02), Funchal (15.02), Ponta Delgada (23.02) e no Porto (11.04) (informações na área das Delegações Regionais respectivas do site da OPP).

Voltemos ao Fórum Económico Mundial que, também este ano, dedicou a conferência de Davos à cooperação num Mundo fragmentado. Pensar a ciência e a prática da psicologia, hoje, implica considerá-lo, de facto, e envolvermo-nos, desde logo, no combate à pobreza e exclusão… Pela dignidade e possibilidade de bem-estar das pessoas e por maior coesão e equidade, juntemo-nos.

Cooperemos.

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Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Mais (possibilidade de) bem-estar…

“Um dos pressupostos da nossa União Europeia é que o bem-estar de cada um de nós depende do bem-estar de todos os outros.” Estávamos em Janeiro de 2020 quando Elisa Ferreira e Frans Timmermans o escreveram. Escreviam, ainda, no artigo “Mecanismo para uma Transição Justa: não deixar ninguém para trás” (em torno da transição climática) que “a nossa solidariedade é um interesse próprio com fundamento racional” e que “nestes tempos de turbulência, é evidente que nenhum Estado pode por si só enfrentar com êxito os grandes desafios”.

Esta interdependência de países e de pessoas face a diversas dimensões e, especificamente, no que à possibilidade de bem-estar diz respeito, é fundamental e foi base de uma recente participação minha no “Quarto do Fundo”, parceira da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses. A temática – “Mais bem-estar para todas e para todos” – derivou, como a Carla Rocha (a quem agradeço a forma como conduz o programa) assinalou no início da conversa, deste texto que escrevi e publiquei alguns dias antes – https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_terminou-um-2022-particularmente-exigente-activity-7017415316045541376-mIbz?utm_source=share&utm_medium=member_desktop

A conversa, que partilho, partiu do artigo e do desafio de, num momento particularmente exigente (com a pandemia, a Guerra na Europa e os desafios sócio-económicos e societais que enfrentamos), podermos pensar em como promover mais possibilidade de bem-estar para cada e para todas as pessoas. Como podemos fazer disso objectivo de todos, potenciando o que de excelentes condições para tal também temos no país (desde logo, algumas das condições que o tornam um destino turístico de excelência e questões como a segurança e, ainda assim, a confiança em pessoas e instituições).

Ainda, como podemos apoiar ou suportar as pessoas com maiores vulnerabilidades, no sentido da promoção do seu bem-estar e da consideração que uma sociedade de maior equidade (também a este nível) resulta uma melhor sociedade para todas e todos. Como podem, também as autarquias, em proximidade e de forma mais personalizada, criar mais condições e possibilidades de bem-estar para as suas populações.

Também o que podemos melhorar em dimensões como os rendimentos, o combate à pobreza e exclusão, a habitação ou no acesso (e equidade de acesso) à saúde e à educação. O que podemos melhorar, finalmente, no apoio contingente, próximo e eficaz em situações de sofrimento psicológico que o justifiquem.

Porque “um dos pressupostos” (…) “é que o bem-estar de cada um de nós depende do bem-estar de todos os outros.”

Episódio disponível aqui