
Há três anos confirmavam-se os primeiros casos de infecção por COVID-19 em Portugal. Sabíamos, por essa altura, que algo muito significativo aí viria. Não sabíamos, porém, toda a dimensão e todas as implicações da pandemia. “Adivinhar o futuro é muito duro, é muito duro”, assim começa a canção “Acesso bloqueado”.
Chegamos a 2020 com marcas significativas dos atrasos de desenvolvimento económico, social e educacional da população portuguesa, em muito resultantes da ainda não total recuperação de indicadores que trazíamos do período do Estado Novo. Também muito penalizados pela grave crise socioeconómica que culminou e se desenvolveu a par do último programa de assistência financeira a Portugal e do não investimento na saúde mental, com o total incumprimento do Programa Nacional de 2007. Marcas que redundavam num baixo nível de literacia em saúde mental, num significativo sofrimento psicológico e num conjunto de determinantes sociais que pressionavam a saúde e saúde mental da população que, conjugadas com enormes dificuldades (e iniquidades) de acesso a serviços de Psicologia e saúde mental, faziam de Portugal um dos países da Europa com maior prevalência de perturbações nesta área e com maior consumo per capita de psicofármacos.
Os últimos três anos trouxeram algumas alterações. Conversar sobre saúde mental naturalizou-se, tal a relevância social do tema hoje. O estigma é, também por isso, menor e, ainda que possamos e devamos continuar a melhorar a literacia em saúde psicológica (também neste sentido lançaremos brevemente a campanha “Ciência com Evidência”), a expectativa de resposta às necessidades terá aumentado, particularmente, na população mais jovem. Há hoje mais respostas, e mais respostas públicas disponíveis, nomeadamente com o retomar do Cuida-te + (população jovem), com a criação da Resposta de Apoio Psicológico (vítimas de violência doméstica), com o crescimento significativo de psicólogas e psicólogos no Sistema Educativo e, não tão significativo, nas Autarquias, Empresas e Organizações ou nos Centros Hospitalares.
Mais, há hoje um caminho integração e consideração da Psicologia pelas principais seguradoras, iniciado em 2021 pela que tem a maior cobertura e continuado este ano pela segunda maior. Ambas, em colaboração com a Ordem dos Psicólogos Portugueses, desenvolveram modelos compreensivos que consideram, também, as dimensões de prevenção e promoção da saúde mental e actos nas diversas áreas de actividade da Psicologia, quer via reembolso directo aos clientes que procuram psicólogas/os fora da rede ou com preços de rede, com uma das seguradoras a diferenciar já os montantes de pagamento a psicólogas/os especialistas, valorizando-os.
Há, finalmente, uma resposta ímpar, inclusivamente na realidade internacional. O serviço de aconselhamento psicológico do SNS24 que permite, sem barreiras e 24h por dia / 7 dias por semana, o acesso a aconselhamento psicológico gratuito, realizando desde Abril de 2020 cerca de 210.000 atendimentos.
210.000 atendimentos, serviços “cheios” e listas de espera, a contrariar a “ideia zombie” de que é o estigma, e não a inacessibilidade, que impede as pessoas de procurarem apoio. Porque, em rigor, a inacessibilidade persiste. Apesar do atrás referido, e apesar das psicólogas e psicólogos reportarem aumento da quantidade de trabalho, o aprofundamento do sofrimento psicológico, o agravamento dos determinantes sociais com a pandemia, a Guerra ou a crise da inflação e a crescente procura de serviços, não acompanhada pelo reforço significativo de recursos em todas as áreas e, especialmente, nos cuidados de saúde primários, resultam em dificuldades graves de acesso a serviços de Psicologia por parte da população. Dificuldades de acesso e desigualdade no acesso, considerando as iniquidades decorrentes de parte da população não ter recursos que possibilitem priorizar a saúde mental e procurar serviços não públicos nesta área.
Continuaremos, consigo que dia a dia constrói a Psicologia a partir do seu trabalho no seu contexto, a advogar e a contribuir para o progressivo desbloquear deste acesso bloqueado. Reforçamos, pois, o nosso compromisso e empenho por mais equipas e serviços de Psicologia, mais contingentes, capacitados, empoderados e com mais recursos. Mais eficazes, equitativos e acessíveis para todas e todos os cidadãos.
Tiago Pereira
Desbloquear o acesso bloqueado
in Newsletter Ordem dos Psicólogos Portugueses (02.03.2023)