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Prevenção (e Promoção)

Recuemos a Novembro de 2018. Apesar do Brexit já ter sido votado, o Reino Unido ainda discutia os termos da sua saída da UE. Boris Johnson ainda não era primeiro-ministro, enquanto Trump presidia os EUA. Não imaginávamos, nos quatro anos que se lhe seguiriam, uma pandemia próxima, uma guerra na Europa e uma crise de inflação e sócio-económica.

Nessa data o Departamento de Saúde e Segurança Social do UK, estrutura de apoio ao governo, publicava o relatório “Prevention is better than cure – Our vision to help you live well for longer” [numa tradução possível: Prevenir é melhor que curar – A nossa visão para a/o ajudar a viver bem por mais tempo].

No sumário executivo do documento destaca-se a necessidade “de priorizar a prevenção e o combate a importantes determinantes da saúde e do bem-estar” [da pobreza à obesidade; da habitação à solidão] e o objectivo de, até 2035, se “viverem pelo menos mais cinco anos extra de uma vida saudável e independente” e de se “diminuir o fosso entre pessoas mais ricas e mais pobres”. Mais, define-se prevenção enquanto o apoio às pessoas no sentido de se manterem “saudáveis, felizes e independentes pelo maior tempo possível”, reduzindo “a possibilidade de emergência de problemas, primeiro, e, quando surgem, apoiar as pessoas na gestão efectiva dos mesmos”. Termina dizendo que a prevenção “é tão importante aos 70 quanto aos 7 anos”.

Por múltiplas e diversas razões (talvez a principal, o quão tarde a ciência psicológica e as e os psicólogos puderam dar o seu contributo ao nosso país), e apesar do caminho percorrido nos últimos anos, a psicologia é ainda, frequentemente, associada a dimensões de intervenção iminentemente remediativas. Ora, enquanto ciência que estuda o comportamento, a tomada de decisão e o que os determina, a psicologia é fundamental nos processos de prevenção e promoção ao longo da vida, nos múltiplos contextos de desenvolvimento e na compreensão e intervenção nos desafios societais e determinantes de saúde e bem-estar.

Isso mesmo é afirmado e sublinhado no regulamento n.º 15/2023, que “aprova o regulamento interno que define os atos dos psicólogos”. No seu artigo 6.º (“Atos dos psicólogos”) a alínea b) refere “As atividades técnico-científicas de intervenção psicológica, incluindo de promoção e prevenção, nos diversos contextos relativos a indivíduos, grupos, organizações e comunidades”.

Uma, mais uma, forma de inscrever este importantíssimo papel das psicólogas e dos psicólogos, a par de outros. Uma, mais uma, forma de informar, clarificar e reforçar o contributo específico da ciência psicológica e das e dos psicólogos para as pessoas e a sociedade.

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Pobreza – Um choque em cadeia (Editorial; PSIS21; N.º27)

Chove lá fora. Um vidro de um carro, embaciado. Um dedo de uma menina desenha uma árvore, fazendo do vidro folha e do dedo marcador. Depois um menino, triste, e outra e depois outra menina e, sempre, o dedo a desenhar o vidro enquanto a mãe Rosie liga do carro-casa para diversos hotéis à procura de um quarto para uma família. A sua família. Não. Não. Não.

O não. O insucesso. A impossibilidade. O problema. A perda. O não cumprimento. No Rosie, filme que assim começa e que retrata dois dias na vida de uma família numa Irlanda que teve recentemente um significativo aumento de pessoas em situação de sem-abrigo. Na vida ao nosso redor, em tantas situações, connosco ou com pessoas cuja história e nome (des)conhecemos.

A pobreza, qual choque em cadeia, todas, todos e tudo impacta. Pessoas em situação de pobreza ou não. A saúde, a educação, o trabalho e a produtividade. As relações na sociedade, a equidade, a confiança e coesão social. Por exequível, mas também porque influencia todos os restantes, a erradicação da pobreza é o primeiro dos objectivos do desenvolvimento sustentável e existe um amplo e diverso campo de contributo da ciência e da prática psicológica nesse sentido.

A actual edição da Psis21 trata-os a propósito do recente retrocesso no caminho de diminuição das diversas formas de pobreza no Mundo e em Portugal e da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, mas, também, do projecto “.Final à Pobreza”, através do qual a Ordem dos Psicólogos Portugueses se compromete com o desenho de uma estratégia e de acções de reforço do contributo da psicologia na área da pobreza e exclusão.

Se o vidro fosse uma folha e o dedo um marcador, a menina escreveria: “alguém faça algo… alguém nos ajude e a crescer, quais árvores.” Contribuamos para esta estratégia e mobilizemo-nos, enquanto ciência e profissão, para que, a cada dia, menos crianças, menos pessoas, tenham de ultrapassar estes momentos. Para uma sociedade que caminhe, decidida e rapidamente, para a erradicação das diversas formas de pobreza e exclusão, obstáculos decisivos à possibilidade de saúde, bem-estar e de autodeterminação de todas as pessoas.

 

Tiago Pereira

Editorial Psis21 N.º27

https://dashboard.mazsystems.com/reader/82279?page=0

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2023

2023. Entramos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio. Momento para pensarmos o ano que temos pela frente e para nos pensarmos nele.

Profissionalmente, a cada ano, faço-o também a partir das tendências da psicologia que a @American Psychological Association publica por estes dias. Resumo as para 2023:

1) ciência psicológica a chegar a mais (e mais diversas) pessoas com 2) investigação inovadora e mais inclusiva; 3) combate à desinformação; 4) promoção do bem-estar de trabalhadoras/es e 5) de lideranças que promovam na gestão a equidade, diversidade e inclusão; 6) foco na promoção da saúde mental de crianças/jovens e na 7) prevenção do suicídio; 8) financiamento significativo de apps de saúde mental e integração da inteligência artificial; 9) crescente abandono de carreiras académicas em psicologia [mais específico dos EUA/Canadá]; 10) maior contributo para a saúde pública, dirigindo intervenções para a promoção da saúde psicológica de toda a população e 11) reforço de parcerias no âmbito dos principais desafios societais.

2023 será, também, o terceiro ano com as minhas actuais responsabilidades e, também na @Ordem dos Psicólogos Portugueses, acompanharemos parte destas tendências, contribuindo na relação com as congéneres internacionais e pela nossa actividade específica. Dela, e da que mais directamente me envolverá/caberá, destaco:

Contributo para a construção de locais de trabalho saudáveis, com prevenção e gestão dos riscos psicossociais e sensibilização das lideranças para as questões da equidade, diversidade, inclusão e bem-estar nas organizações; parceria com entidades e organizações diversas (incluindo seguradoras) no sentido melhorar o acesso da população (e a equidade de acesso) a serviços de psicologia; a criação de mais e melhores condições (incluindo para as/os profissionais) de prevenção, promoção e intervenção na área da saúde mental, particularmente nas crianças/jovens; processos de desenvolvimento profissional e especialização em psicologia e valorização dos actos e das/os profissionais; promoção da literacia em saúde psicológica e da ciência com evidência; contributo da psicologia para a saúde pública e para desafios societais complexos como a crise climática, demográfica, as migrações e…

Como o Presidente da República ontem disse na comunicação ao país, 2022 trouxe o “agravamento da pobreza e das desigualdades sociais”. Antes havia dito que “haver menor desigualdade e menor pobreza” era um dos três “grandes desejos e votos” do Presidente para 2023. Diria de todas e todos. Uma parte significativa do meu ano será a procurar contribuir para a definição (e concretização) da estratégia, que a partir do https://finalapobreza.pt, procurará estimular um maior e mais decisivo contributo da psicologia e das/os psicólogas/os para este desígnio. Para um país com menos pessoas em situação de pobreza, menos exclusão e desigualdade.

Venha de lá 2023. Que ele nos aproxime, aqui e fora daqui.

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Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Que especialidades para a psicologia?

Abraham Lincoln e Franklin Roosevelt foram, respectivamente, o 16º e 32º presidente dos EUA. Presidentes marcantes, com elementos que os ligam (desde logo terem falecido no exercício da sua presidência), a quem são atribuídas, também respectivamente, estas frases: “a melhor forma de prever o futuro é criá-lo” | “nem sempre conseguimos construir um futuro para as e os nossos jovens, mas podemos construir os e as jovens para o futuro”. Evoco-as no sentido de pensarmos uma sua possível síntese. Um aceitar que não podemos criar o futuro, mas que para ele podemos contribuir e nos preparar.

Quem comigo vai falando ou, por exemplo aqui, me lê, sabe que assim o penso no que se refere à psicologia e ao seu contributo no e para o futuro. Que assim o penso relativamente à formação, desenvolvimento profissional e especialização no seio da profissão. Um equilíbrio, portanto, entre a influência possível no futuro e um respeito pela história, experiência e diversidade de caminhos de desenvolvimento na profissão e a necessidade de maturidade e melhoria incremental dos seus sistemas.

Assim chego ao tempo de reflexão sobre sobre as especialidades profissionais de psicologia, compromisso da direcção da Ordem dos Psicólogos Portugueses visando a revisão do seu regulamento que agora se inicia. Organizado em cinco fases (Potenciar; Expandir; Amadurecer; Sustentar; Transformar), procura promover o envolvimento de todas e todos, num debate, necessariamente exigente e complexo sobre o caminho percorrido e a percorrer, que espero e esperamos que possa ser intensamente participado na procura das melhores e mais adequadas soluções.

Integrado no conjunto de iniciativas da primeira fase, realizou-se um debate (“O passado, presente e futuro das especialidades”) que partilho e que reuniu actuais e anterioras/es presidentes dos conselhos de especialidade (David Dias Neto, Sofia Mendes, em representação do Leandro Almeida, Susana Monteiro, Miguel Ricou, Marisa Carvalho e Jaime Ferreira da Silva), apresentado pela Sofia Ramalho e por mim moderado.

Conversa estimulante sobre a profissão, o que significam os quase 10 anos (e que 10 anos…) corridos sobre o início da discussão da criação das especialidades e os 6 anos da eleição dos primeiros conselhos de especialidade. Momento que reuniu, também, parte da restante equipa envolvida, por vezes menos visível, mas não menos importante, que inclui conselhos consultivos, comissões técnicas e a equipa interna da OPP, inicialmente coordenada pela Ana Faria, hoje pela Ana Sofia Nobre.

Deixo, apelando à reflexão e participação, link para informações e formulário de contributos, bem como, permitam-me, uma sugestão de leitura de um texto que escrevi em OUT21 (Hiperespecialização: Sim ou Não?)

Envolvamo-nos no e pelo futuro.

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Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Placebo.

“Dava-lhe um litro de gasolina com açúcar.” Ontem, no seu programa e comentando a notícia de um acidente causado por um “camião que perdeu os sentidos”, Ricardo Araújo Pereira brincava assim com o lapso na notícia. Brincava com o “copo de água com açúcar”, muito presente no meu (nosso, imagino) passado. Muito presente, ainda, como conversava com amigas/os há dias, nas Escolas, onde serve o propósito de cuidar de uma dor nas costas ou braço, de uma má notícia ou angústia.

Vem isto a propósito da reflexão que me acompanha sobre o “efeito placebo”. Esse curioso e estimulante (de reflexão) “efeito psicológico” que pode ter um “comprimido que não é comprimido” ou uma “intervenção inexistente” sobre problemas e sobre a qualidade de vida da pessoa, a partir da convicção ou no acreditar pela pessoa nos seus efeitos. Como a expectativa de um resultado pode induzir/activar mecanismos cerebrais que resultam mesmo, por exemplo, na diminuição da dor.

Este efeito, cuja investigação recente parece suportar que é hoje mais forte que há 20 anos, pode explicar em parte como podem intervenções sem evidência científica apresentar resultados positivos para algumas pessoas. Como pode o copo de água com açúcar persistir como resposta, mas, também, como pode este efeito psicológico ter resultados impactantes na redução de sintomas (em alguns casos quase semelhantes) quando comparado com a utilização de alguns medicamentos, por exemplo, junto de algumas pessoas com doença de Parkinson ou Depressão.

O conhecimento desta realidade deve, a meu ver e particularmente quando se consideram pessoas em situação de maior vulnerabilidade, motivar:

a) Cuidarmos este aspecto em intervenções experimentais e inovadoras, reforçando a nossa exigência na discussão de protocolos e resultados – neste sentido saúdo o trabalho e, particularmente, as cautelas e o cuidado expresso por Albino Oliveira-Maia à Inês Chaiça (PUBLICO) relativamente aos resultados promissores (“interessante[s], mas não extraordinariamente entusiasmante[s]”) de estudos sobre a utilização de psilocibina em pessoas com depressão, sublinhando a necessidade de continuarmos a investir nos estudos, melhorar protocolos e investigar formas de mitigação de efeitos secundários;

b) Recordarmos que o efeito placebo se resume a sintomas e é, crescentemente, utilizado como suporte da pseudociência – neste sentido importa prevenir a substituição de acções/terapêuticas que incidem sobre o problema base por outras, sem evidência, focadas nos sintomas e como devemos ser em simultâneo exigentes, mas sabedores das nossas características… Da nossa não permanente racionalidade e da natural (mas não inconsequente) procura de soluções simples e rápidas para problemas complexos.

Na saúde, onde o efeito placebo é hoje muito estudado e (por vezes mal) utilizado… Na sociedade ou política.

Um bom dia internacional da Cobertura Universal de Saúde… Que contribuamos para um “futuro saudável para todas e todos”, conforme seu mote.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Psicologia – Uma ciência e uma profissão recurso do país (Sábado; Ao redor…; 14.11.2022)

Há palavras e expressões não de língua portuguesa que, também porque as fomos ouvindo e usando no dia-a-dia, temos dificuldade de traduzir em palavras portuguesas capazes de abarcar todo o seu significado. Pensemos em ferry, briefing ou startup. Pensemos em hub. Habitualmente associamo-lo à aviação, porque, com regularidade, vamos ouvindo a expressão “Hub de Lisboa”, associada ao Aeroporto Humberto Delgado, por este se assumir como um centro de conexão e distribuição de passageiros. Apesar da associação mais ou menos automática à aviação, existem outros hubs, por exemplo, de ciência.

Em 2007, John Cacioppo escreveu um importante artigo que tratava os 7 hubs identificados da ciência. O artigo (“A psicologia é um hub de ciência”) termina com uma relevante passagem que sublinha que a “centralidade da ciência psicológica pode ainda não ser totalmente compreendida pelos decisores políticos”, mas que a evidência era já clara, dado que “o mapeamento da ciência demonstra a psicologia como uma disciplina hub com muito a oferecer a outras disciplinas científicas (mas também a aprender)”. Ora, num momento de crescente complexidade dos desafios que se colocam às pessoas e à sociedade (pensemos na incerteza e stresse, na pobreza, na exclusão ou na crise climática), são fundamentais respostas integradas, informadas pela melhor evidência científica disponível e de foro interdisciplinar, com participação e colaboração de diferentes áreas científicas, incluindo a ciência psicológica.

Venho defendendo que, além de um hub de ciência, a psicologia se deve assumir como um hub enquanto profissão. Enquanto grupo profissional com muito a oferecer a outras actividades profissionais (e a aprender, claro está), às pessoas e sociedade no geral. Isto implica que as e os profissionais o assumam e se empenhem em diferentes áreas, reforçando a disseminação e a utilização do conhecimento e contributo da ciência psicológica junto de outros grupos profissionais. Nas equipas multidisciplinares, desde logo, diferenciando e valorizando as respostas com contributo da ciência e dos actos psicológicos. Também na consultoria e apoio às lideranças das diversas organizações, com maior inclusão do conhecimento da área nas práticas e maior sensibilidade às questões relacionadas com a saúde e bem-estar das equipas. Ainda junto das decisoras e decisores políticos, na informação a políticas públicas, promovendo a sua eficácia e eficiência. Na promoção de competências e no desenvolvimento das pessoas ao longo de toda a vida ou, até, nas dimensões de cidadania das psicólogas e psicólogos, nas suas actividades e participações no dia-a-dia além das profissionais. Finalmente, quando também estas e estes profissionais lideram e têm a oportunidade de tomar decisões que influenciem grupos ou comunidades, algo que numa profissão ainda jovem no contexto português tenderá a acontecer mais num futuro breve.

Venho defendendo que tal depende do envolvimento da profissão com as dimensões associadas aos desafios individuais que se colocam a uma pessoa em específico, em complementaridade, com os desafios societais que condicionam os individuais e que podem estimular ou comprometer a possibilidade de saúde (incluindo a saúde mental), bem-estar e autodeterminação das pessoas e a equidade, justiça e coesão social da sociedade. Venho defendendo que isso implica mais ciência psicológica centrada nos desafios societais, melhor disseminação, comunicação e democratização do conhecimento da psicologia junto de diferentes áreas da sociedade civil e que isso deriva da capacidade de, enquanto profissionais, as psicólogas e psicólogos participarem em diferentes processos de participação pública, incluindo junto da comunicação social, e colaborar nas mais diversas iniciativas, incluindo políticas.

Se assim for, considerando o aumento galopante da investigação e da evidência científica disponível a partir da ciência psicológica (700% no período entre 1980 e 2014) e do número de profissionais (estimativa de aumento de 19% no Mundo e 67% em Portugal entre 2014 e 2024), a psicologia, enquanto ciência e profissão, pode ser no Mundo e particularmente em Portugal um importante recurso. Um porto de abrigo. Quando ainda vivemos as consequências de uma pandemia por COVID-19 ainda inacabada; quando aumenta o número de pessoas a viver situações de privação e em situação de pobreza e estamos sentimos uma nova crise socioeconómica; quando vivemos um tempo líquido, marcado pela complexidade, pela incerteza e pela insegurança associada, entre outros, aos novos riscos de guerra(s) ou à crise climática; pensar o presente e o futuro de Portugal deve conduzir-nos à exigência do melhor aproveitamento dos recursos e, nesse sentido, a ser mais estimulado e possibilitado o contributo das/os 26.000 psicólogas e psicólogos e garantidas mais e melhores condições para o mesmo, fazendo jus ao investimento do país e das famílias nas últimas décadas na formação e no desenvolvimento deste grupo profissional inestimável do país.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a psicologia, enquanto hub científico e profissional, é hoje um importante porto de abrigo para as pessoas e para a sociedade. Porto de abrigo, porque protector nos desafios e “tempestades” individuais, no apoio a pessoas e famílias, ao longo de todo o ciclo de vida e numa proximidade fundamental para suporte aquando das adversidades e necessidade de adaptação e desenvolvimento. Porto de abrigo, porque aberto ao Mundo e ao que é a concretização, em Portugal, da carta de direitos humanos e dos objectivos do desenvolvimento sustentável, influenciando e promovendo a compreensão dos desafios e a mudança societal necessária num caminho para uma sociedade de maior equidade, justiça e coesão social. Porto de abrigo, porque capaz de se ir construindo e reinventando, adaptando-se a novas necessidades, a novos desafios ou a novas realidade, nomeadamente as que se relacionam com o crescente papel da tecnologia na sociedade. Porto de abrigo, finalmente, porque em tempos desafiantes, de imprevisibilidade e de menor controlo e segurança, é um recurso confiável e fundamental à promoção da saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas e ao desenvolvimento sustentável do país.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 14.11.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/psicologia–uma-ciencia-e-uma-profissao-recurso-do-pais

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COVID-19 Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Um estado completo?

“Um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”.

Esta definição de saúde, amplamente disseminada e reconhecida, é anterior à publicação por Watson e Crick do artigo onde é descrita uma (nova) “estrutura de espiral dupla”, por eles apelidada de “chave da vida”. A definição data da constituição da @World Health Organization em 1946 (75 anos) sendo, portanto, anterior a 1953, ano em que essa descoberta do DNA revolucionou a saúde (e a nossa vida), considerando a sequenciação do genoma humano que se seguiu e a nova medicação e vacinas que possibilitou, por exemplo na pandemia por COVID-19.

Apesar de datada, a definição frisa um “não apenas a ausência” fundamental a compreendermos a saúde em toda a sua amplitude e a saúde mental, particularmente na sua relação com o bem-estar. No entanto, o “estado de completo” parece não-conforme o que sentimos dia-a-dia, as naturais oscilações no nosso bem-estar “físico, mental e social” pelo que, recentemente, Bircher apresentou uma proposta de reformulação mais ajustada ao que hoje sabemos (e vivemos): “um estado dinâmico de bem-estar, caracterizado por um potencial físico e mental que satisfaz as necessidades vitais de acordo com a idade, cultura e responsabilidade pessoal”.

A ideia de dinamismo (e, logo, a possibilidade da sua promoção), de potencial (mobilizado ou não a cada momento), a ponderação da idade e das necessidades a ela ajustadas, além das questões culturais (também da comunidade) e da responsabilidade pessoal (envolvendo a literacia) são elementos fulcrais a pensarmos a saúde e a saúde mental.

Elementos reflecitdos, de forma simples (espero e creio, não simplista) e descontraída (por vezes até divertida), numa conversa que partilho e sobre a qual amanhã passa um mês. Conversei com o António Raminhos, com moderação da @Isabel Silva, na iniciativa de apresentação pública da colaboração entre a @Multicare (@Fidelidade) e a @Ordem dos Psicólogos Portugueses, no âmbito da promoção da saúde e da saúde mental, também pela nova abordagem compreensiva aos temas, com inclusão significativa da psicologia (todas as suas áreas de actividade), enquanto oferta dos seguros de saúde e com foco na prevenção e promoção da literacia (mais informações aqui).

Uma conversa e, essencialmente, um trabalho conjunto que, “qual estrutura de espiral dupla”, afirma a pessoa na relação com o contexto, as dimensões físicas na relação com as dimensões psicológicas e momentos em que a espiral se move em sentido positivo e outros em sentido negativo.

Porque não, nem sempre estamos bem, nem sempre podemos estar (e temos) que estar bem. Porque sim, por vezes necessitamos de ajuda. De nos ajudarmos, cuidando-nos mais. Que nos ajudem, pessoas próximas ou, também por vezes, profissionais capacitadas/os e motivadas/os para tal.

 

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Comportamento Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

(Prefácio) Ser Psicólogo – O Início da carreira em Psicologia Pistas para que está a dar os primeiros passos numa carreira em Psicologia

Uma pandemia por COVID-19 de impacto global, porventura apenas comparável com a pandemia pelo vírus influenza de há um século. Uma Guerra na Europa apenas comparável com Guerras de há várias décadas. Uma crise socioeconómica no horizonte, que a muitas e muitos lembra a crise que vivemos há cerca de uma década. A inversão de um caminho de maior liberdade e democracia, pelo crescimento, nos últimos anos, do autoritarismo.

Tudo a lembrar-nos que o passado conta, que o passado “não está morto”, que “nem sequer é passado”, como escreveu Faulkner. Tudo a lembrar-nos os enormes e complexos desafios que, no presente e para o futuro, se colocam à sociedade e às pessoas e a necessidade da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos, sistematicamente, se desenvolverem e adaptarem a novos desafios e realidades, para melhor lhes responderem.

Este e-book procura, também, reflectir este cenário. Porque parte, e é parte, de uma história, de muitas pessoas e vontades, que desde há anos, empenhada e corajosamente, permitem e suportam o sólido investimento da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) no processo de desenvolvimento profissional e na capacitação de psicólogas e psicólogos para se pensarem nos desafios dos diferentes momentos da sua carreira. Este investimento, em todo o ciclo (desde quando ainda estudantes de psicologia) e com múltiplas e diversificadas iniciativas, tem apresentado resultados significativos (também, mas não apenas, na empregabilidade) e é diferenciador no quadro da acção das associações públicas profissionais. É-o, exactamente porque assenta numa perspectiva de valorização de cada etapa (do passado, presente e futuro), da identidade da profissão e de cada profissional. É-o, porque se liga à necessidade constante de adaptação da ciência e prática a novos desafios, realidades e áreas, apenas possível com o envolvimento permanente, intencional e suportado de cada psicóloga e psicólogo, na gestão do seu percurso profissional.

Que este primeiro volume da colecção de artigos Psicarreiras da OPP, deliberadamente dirigido aos “primeiros passos”, possa ser mais um contributo nesse sentido. Que possam, como eu, rever-se e reflectir, dando dessa forma sentido e significado ao testemunho, partilha e contributo de pares que vive(ra)m desafios próximos. Desafios, mas também o desejo que partilho e partilhamos de enquanto psicólogas e psicólogos contribuirmos com a nossa ciência e com a nossa prática para uma sociedade mais justa, coesa e equitativa e para a saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação de cada uma das pessoas que a constitui.

 

Tiago Pereira

Prefácio | Ser Psicólogo – O início de carreira em Psicologia

https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_ebookpsicarreiras_serpsicologo_oiniciodacarreiraempsicologia.pdf

SET2022

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Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Psicologia, porto de abrigo.

Ferry, briefing ou start-up. ”Há palavras e expressões não de língua portuguesa que, também porque as fomos ouvindo e usando no dia-a-dia, temos dificuldade de traduzir em palavras portuguesas capazes de abarcar todo o seu significado.” Hub.

 

Venho defendendo que, além “de um dos sete hubs de ciência”, a psicologia “se deve assumir um hub enquanto profissão. Enquanto grupo profissional com muito a oferecer a outras actividades profissionais (e a aprender, claro está), às pessoas e sociedade no geral.”

 

“Psicologia – Uma ciência e uma profissão recurso do país”, 45º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) sublinha-o, reforçando que tal depende “da disseminação e utilização do conhecimento e contributo da ciência psicológica junto de outros grupos profissionais”, nas equipas multidisciplinares (…) na consultoria e apoio às lideranças (…) e junto das decisoras/es políticos.” Também “na promoção de competências e no desenvolvimento das pessoas ao longo de toda a vida (…), nas dimensões de cidadania das psicólogas e psicólogos, nas suas actividades e participações no dia-a-dia além das profissionais (…) e quando também lideram e têm a oportunidade de tomar decisões que influenciem grupos ou comunidades”.

 

Venho defendendo que, “quando ainda vivemos as consequências de uma pandemia por COVID-19 ainda inacabada; quando aumenta o número de pessoas a viver situações de privação e em situação de pobreza e estamos sentimos uma nova crise socioeconómica; quando vivemos um tempo líquido, marcado pela complexidade, pela incerteza e pela insegurança associada, entre outros, aos novos riscos de guerra(s) ou à crise climática; pensar o presente e o futuro de Portugal deve conduzir-nos à exigência do melhor aproveitamento dos recursos e, nesse sentido, a ser mais estimulado e possibilitado o contributo das/os 26.000 psicólogas e psicólogos e garantidas mais e melhores condições para o mesmo.”

 

Venho defendendo que “a psicologia, enquanto hub científico e profissional, é hoje um importante porto de abrigo para as pessoas e para a sociedade. Porto de abrigo, porque protector nos desafios e “tempestades” individuais, no apoio a pessoas e famílias, ao longo de todo o ciclo de vida e numa proximidade fundamental para suporte aquando das adversidades e necessidade de adaptação e desenvolvimento. Porto de abrigo, porque aberto ao Mundo e ao que é a concretização, em Portugal, da carta de direitos humanos e dos objectivos do desenvolvimento sustentável, influenciando a mudança societal necessária a maior equidade, justiça e coesão social. Porto de abrigo, porque capaz de se ir construindo e reinventando, adaptando-se a novas necessidades, novos desafios ou a novas realidades. Porto de abrigo, finalmente, porque em tempos desafiantes, de imprevisibilidade e de menor controlo e segurança, é um recurso confiável e fundamental à promoção da saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas e ao desenvolvimento sustentável do país.”

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Democracia Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.”

“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.”

Ainda na primeira página de “O Amante”, seu romance autobiográfico, Marguerite Duras resume-nos em 8 palavras uma vida. Uma vida mais em que muito cedo era já tarde demais.

Tenho, por diversos motivos, pensado nesta passagem e no que ela significa. E, talvez paradoxalmente, pensado não apenas no que mais automaticamente me (creio nos) suscita (o que cedo nas nossas vidas nos pode impedir de nos cumprirmos, autodeterminarmos, viver em plenitude e com saúde e bem-estar ao longo da vida) mas também no que de estímulo comporta para que possamos cedo, senão muito cedo, agir e intervir para que não se torne tarde ou tarde demais.

Quem aqui me lê, ou quem partilha de forma mais próxima o seu dia-a-dia comigo, sabe que um desses motivos trata a forma como venho reflectido as questões associadas às situações de pobreza e exclusão e a sua relação com outros desafios societais complexos, com a saúde mental e com as políticas públicas. Como impactam toda a vida, de todas as pessoas e da sociedade e como são determinantes fundamentais da educação, saúde e bem-estar ao longo da vida.

Sabe também quem há dias, entre a comemoração do Dia Mundial da Saúde Mental e do Dia Internacional da Erradicação da Pobreza (a 15.10.22), me ouviu conversar com a Carla Rocha no episódio do Quarto do Fundo (parceria da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses) que partilho. O destaque da editora, também em 8 palavras, foca algo essencial: “Investir na saúde mental para prevenir a pobreza”. Refere ainda o papel da promoção do autocuidado, das competências e das relações sociais como fundamental à prevenção da violência, da pobreza e de todo o tipo de processos de exclusão. Cedo, muito cedo, para não ser tarde, tarde demais.

Também procurarei que o saiba quem, na próxima segunda-feira, participe nas II Jornadas do Serviço de Psicologia Centro Hospitalar Universitário de São João, onde, em conferência, abordarei o projecto “.Final à pobreza” (informações/inscrições aqui). Fá-lo-ei a convite do Eduardo Carqueja, a quem muito agradeço, não apenas o convite e confiança, mas a forma como, em conjunto com toda a equipa do Serviço de Psicologia que coordena, dia-a-dia nos demonstra, também ali, as mais-valias de uma organização de serviços de psicologia com autonomia nas estruturas do SNS. Mais-valias na qualidade de resposta aos cidadãos, multidisciplinariedade das intervenções e sustentabilidade da própria organização. No representa, significa e permite de valorização e desenvolvimento profissional às psicólogas e psicólogos que o integram. A quem agradeço por demonstrar que não é muito cedo, mas também não é tarde demais, para generalizarmos o modelo e disso beneficiarem pessoas e sociedade.

Um momento mais para reflectirmos juntos, espero, que devemos intervir e agir muito cedo, para que não seja tarde… Ou, ao mesmo, cedo para que não seja tarde demais.