
Há palavras e expressões não de língua portuguesa que, também porque as fomos ouvindo e usando no dia-a-dia, temos dificuldade de traduzir em palavras portuguesas capazes de abarcar todo o seu significado. Pensemos em ferry, briefing ou startup. Pensemos em hub. Habitualmente associamo-lo à aviação, porque, com regularidade, vamos ouvindo a expressão “Hub de Lisboa”, associada ao Aeroporto Humberto Delgado, por este se assumir como um centro de conexão e distribuição de passageiros. Apesar da associação mais ou menos automática à aviação, existem outros hubs, por exemplo, de ciência.
Em 2007, John Cacioppo escreveu um importante artigo que tratava os 7 hubs identificados da ciência. O artigo (“A psicologia é um hub de ciência”) termina com uma relevante passagem que sublinha que a “centralidade da ciência psicológica pode ainda não ser totalmente compreendida pelos decisores políticos”, mas que a evidência era já clara, dado que “o mapeamento da ciência demonstra a psicologia como uma disciplina hub com muito a oferecer a outras disciplinas científicas (mas também a aprender)”. Ora, num momento de crescente complexidade dos desafios que se colocam às pessoas e à sociedade (pensemos na incerteza e stresse, na pobreza, na exclusão ou na crise climática), são fundamentais respostas integradas, informadas pela melhor evidência científica disponível e de foro interdisciplinar, com participação e colaboração de diferentes áreas científicas, incluindo a ciência psicológica.
Venho defendendo que, além de um hub de ciência, a psicologia se deve assumir como um hub enquanto profissão. Enquanto grupo profissional com muito a oferecer a outras actividades profissionais (e a aprender, claro está), às pessoas e sociedade no geral. Isto implica que as e os profissionais o assumam e se empenhem em diferentes áreas, reforçando a disseminação e a utilização do conhecimento e contributo da ciência psicológica junto de outros grupos profissionais. Nas equipas multidisciplinares, desde logo, diferenciando e valorizando as respostas com contributo da ciência e dos actos psicológicos. Também na consultoria e apoio às lideranças das diversas organizações, com maior inclusão do conhecimento da área nas práticas e maior sensibilidade às questões relacionadas com a saúde e bem-estar das equipas. Ainda junto das decisoras e decisores políticos, na informação a políticas públicas, promovendo a sua eficácia e eficiência. Na promoção de competências e no desenvolvimento das pessoas ao longo de toda a vida ou, até, nas dimensões de cidadania das psicólogas e psicólogos, nas suas actividades e participações no dia-a-dia além das profissionais. Finalmente, quando também estas e estes profissionais lideram e têm a oportunidade de tomar decisões que influenciem grupos ou comunidades, algo que numa profissão ainda jovem no contexto português tenderá a acontecer mais num futuro breve.
Venho defendendo que tal depende do envolvimento da profissão com as dimensões associadas aos desafios individuais que se colocam a uma pessoa em específico, em complementaridade, com os desafios societais que condicionam os individuais e que podem estimular ou comprometer a possibilidade de saúde (incluindo a saúde mental), bem-estar e autodeterminação das pessoas e a equidade, justiça e coesão social da sociedade. Venho defendendo que isso implica mais ciência psicológica centrada nos desafios societais, melhor disseminação, comunicação e democratização do conhecimento da psicologia junto de diferentes áreas da sociedade civil e que isso deriva da capacidade de, enquanto profissionais, as psicólogas e psicólogos participarem em diferentes processos de participação pública, incluindo junto da comunicação social, e colaborar nas mais diversas iniciativas, incluindo políticas.
Se assim for, considerando o aumento galopante da investigação e da evidência científica disponível a partir da ciência psicológica (700% no período entre 1980 e 2014) e do número de profissionais (estimativa de aumento de 19% no Mundo e 67% em Portugal entre 2014 e 2024), a psicologia, enquanto ciência e profissão, pode ser no Mundo e particularmente em Portugal um importante recurso. Um porto de abrigo. Quando ainda vivemos as consequências de uma pandemia por COVID-19 ainda inacabada; quando aumenta o número de pessoas a viver situações de privação e em situação de pobreza e estamos sentimos uma nova crise socioeconómica; quando vivemos um tempo líquido, marcado pela complexidade, pela incerteza e pela insegurança associada, entre outros, aos novos riscos de guerra(s) ou à crise climática; pensar o presente e o futuro de Portugal deve conduzir-nos à exigência do melhor aproveitamento dos recursos e, nesse sentido, a ser mais estimulado e possibilitado o contributo das/os 26.000 psicólogas e psicólogos e garantidas mais e melhores condições para o mesmo, fazendo jus ao investimento do país e das famílias nas últimas décadas na formação e no desenvolvimento deste grupo profissional inestimável do país.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a psicologia, enquanto hub científico e profissional, é hoje um importante porto de abrigo para as pessoas e para a sociedade. Porto de abrigo, porque protector nos desafios e “tempestades” individuais, no apoio a pessoas e famílias, ao longo de todo o ciclo de vida e numa proximidade fundamental para suporte aquando das adversidades e necessidade de adaptação e desenvolvimento. Porto de abrigo, porque aberto ao Mundo e ao que é a concretização, em Portugal, da carta de direitos humanos e dos objectivos do desenvolvimento sustentável, influenciando e promovendo a compreensão dos desafios e a mudança societal necessária num caminho para uma sociedade de maior equidade, justiça e coesão social. Porto de abrigo, porque capaz de se ir construindo e reinventando, adaptando-se a novas necessidades, a novos desafios ou a novas realidade, nomeadamente as que se relacionam com o crescente papel da tecnologia na sociedade. Porto de abrigo, finalmente, porque em tempos desafiantes, de imprevisibilidade e de menor controlo e segurança, é um recurso confiável e fundamental à promoção da saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas e ao desenvolvimento sustentável do país.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 14.11.2022
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/psicologia–uma-ciencia-e-uma-profissao-recurso-do-pais