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Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo… (Ao redor…; 13.06.2023)

…porque haveria de considerar-se incapaz de realizar actos próprios de diferentes profissões e de escolher pessoas habilitadas, preparadas e competentes para junto de si realizarem determinados actos, sejam de índole jurídica, contabilística ou psicológica?

A “YouGov” é um grupo que se propõe recolher e disponibilizar dados que estimulem a reflectirmos como o “Mundo pensa”. Num seu recente estudo, uma em cada três das mais de 20.000 pessoas dos EUA que nele participaram referem sentirem-se “algo ou muito confiantes” em que conseguiriam aterrar um avião comercial, apenas com indicações da torre de controlo. Quase um em cada dois se considerarmos apenas os homens. Estes dados, numa tarefa de enormíssima complexidade e cuja probabilidade de sucesso é, de acordo com as/os especialistas, virtualmente 0, correspondem a um excelente exemplo de como o “Mundo pensa” e do excesso de confiança que pessoas, sem determinada competência e experiência para a realização de uma tarefa ou de um acto, têm sobre a sua capacidade de realizarem com sucesso essa tarefa ou acto. Trata-se do efeito descrito como “Dunning-Kruger”, fenómeno que, com maior ou menor consciência de cada um de nós, a todos impacta.

Felizmente, na grande maioria das situações, o seu impacto resume-se a discussões enviesadas, a impossibilidades como a grandíssima maioria das pessoas se considerar um/a condutor/a acima da média (algo estatisticamente impossível) ou a erros sem consequências graves. Porém, se pensarmos no pilotar de um avião comercial ou em possíveis exemplos das três áreas profissionais acima referidas, as consequências podem ser muito graves e impactar decisiva e significativamente os direitos, a segurança, a saúde ou até a vida de pessoas. Podem impactar o interesse público e o bem-comum.

Não se tratando de situações decididas por mais sorte ou azar, falamos de competência, incompetência e da capacidade de reconhecimento das mesmas por cada pessoa, em cada momento, face a cada situação. Falamos do quão potencialmente graves podem ser os seus efeitos quando patentes em pessoas “com poder”, formal ou não, sobre outras pessoas, sem (possibilidade de) controlo por pares, situações possíveis em actividades profissionais em que existe a percepção por parte de clientes de que estão perante um/a especialista na área em que procuram ajuda. Clientes estes, muitas vezes, em situação de vulnerabilidade a propósito do próprio pedido de ajuda e/ou de desequilíbrio de informação e conhecimento potencial face à pessoa que procuram.

A acrescentar complexidade à situação somemos à sobrevalorização das nossas competências o viés do optimismo, ou seja, a tendência também comum nos seres humanos para sobrestimarmos a possibilidade de vivenciarmos situações positivas no futuro. A eles, a “ditadura da autorreferenciação”, pela qual as pessoas tendem a generalizar as suas experiências, percepcionando-as como “a realidade” única. Ainda um momento e contexto onde o acesso à informação é simples e rápido e em que a exposição, por via por exemplo de séries ou filmes, às mais diversas situações nos permitem percepcionar como próximas, simples e com “finais felizes” determinadas circunstâncias complexas (quem nunca viu um filme de um potencial desastre aéreo de final feliz e herói/heroína improvável?). Tudo a reforçar a sobrevalorização das nossas competências particularmente em áreas que nos despertam interesse mas que não conhecemos com profundidade, a partir da formação, treino, experiência e realidade.

Com este quadro de referência, e mesmo considerando o aumento global da literacia das populações em áreas diversas, creio restar clara e compreensível a necessidade de organização e regulação profissional em áreas com impacto significativo nas pessoas e no interesse público. De um quadro comum base de necessidade de uma (“boa”) formação académica, complementada com treino, experiência e formação (específica) profissional, com compromisso e responsabilização com a excelência das práticas assentes num quadro ético e deontológico, numa atitude de desenvolvimento profissional contínuo, potenciados por processos de validação e melhoria conjunta entre colegas da mesma profissão e no quadro de equipas e trabalhos multidisciplinares.

Por tudo isto, e pelo seu reforço, devíamos mobilizar-nos enquanto sociedade, coesa. Acontece, porém, como aqui escrevi no início de Março (Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais), que debates públicos assentes na disponibilidade restrita de informação, na generalização e na desconfiança são “limitados” e não permitem “promover solidariedade, respeito pelas especificidades” e “construir mais participadas e equilibradas respostas, logo soluções melhores que beneficiariam a sociedade e o interesse público”. Assim tem sido com o “debate” em curso das propostas de alteração aos estatutos das Ordens Profissionais, modelo em que o Estado delega, sob sua tutela e supervisão, competências e atribuições diversas a um conjunto de associações públicas profissionais por ele legitimadas.

O presente “debate” é caracterizado pela desconfiança e pela narrativa de “corporativismo” das Ordens, nada mais injusto para parte delas, cujos órgãos são muitas vezes pressionados nesse sentido pelos seus membros, mantendo, porém, o foco no contributo para mais equitativo acesso a melhores serviços dos seus profissionais pela população e no desenvolvimento da profissão com vista ao interesse público. Diminui-se, assim, o envolvimento cívico, a construção conjunta, e abre-se espaço para, à boleia de resultar num potencial crescimento económico, assistirmos a propostas de maior desregulação da actividade profissional em áreas que envolvem direitos fundamentais, desprotegendo a sociedade e as pessoas, particularmente as em situação de maior vulnerabilidade ou impossibilitadas de decisões totalmente informadas e em liberdade. Urge que nos questionemos se os valores em que assenta este “debate” são os adequados a mudanças com impacto no presente e no futuro e se, ainda que se concretizando os benefícios económicos estimados com a desproteção das pessoas, isso resultaria em aumento do seu bem-estar, fim último que creio que decisores e a sociedade prosseguem com o objectivo de crescimento económico.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a ideia feita do “declínio moral” das pessoas pode ser uma “ilusão” percebida como verdade ao longo dos últimos 70 anos (!), conforme um importante estudo recente demonstra. Cabe, pois, a quem nos governa, estimular a reflexão, a construção conjunta, projectar o futuro e decidir, procurando prevenir os enviesamentos e os efeitos do momento e do contexto que ajudam a explicar o comportamento e tomada de decisão de pessoas individuais. Cabe serem, também, responsivos à expectativa das pessoas de ter instituições de proximidade que reforçam a confiança mais empoderadas e uma sociedade civil mais forte e participativa no sentido do bem-comum. Confiemos mais. Co-construamos mais. A sociedade não se faz “num dia” e é imensamente perigoso o caminho de muito pôr em causa por uma vitória, num processo ou num “irritante”. Pirro, o Rei de Epicuro e da Macedónia, teria certamente algo a dizer sobre isso.

 

Tiago Pereira

Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

in Sábado (Ao redor…); 13.06.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/se-uma-parte-relevante-de-nos-se-julga-capaz-de-aterrar-um-aviao-comercial-numa-emergencia-apenas-com-o-apoio-da-torre-de-controlo

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A morte da COVID é manifestamente exagerada

O jornal Inevitável desta semana volta ao tema da pandemia e dedica a sua edição a pensar e a reflectir o momento actual da COVID-19 e os diversos e múltiplos impactos da pandemia. Sob o mote “A morte da COVID é manifestamente exagerada”, reúne um conjunto de contributos, incluindo uma conversa/entrevista minha com a jornalista @Sónia Peres Pinto, que abaixo partilho.

Ao destaque da capa do jornal (“A ansiedade e os ataques de pânico aumentaram muito nas crianças e jovens”), a partir de um relato meu do que as colegas psicólogas e psicólogos referem relativamente às questões da saúde mental na população mais jovem, junta-se o destaque do interior da entrevista (“Não regressámos todos ao que éramos em 2019”), reflexão minha sobre a forma (diversa) e o tempo (diverso) do regresso à “normalidade” (dos eventos, das comemorações, do trabalho, …).

Além destes destaques, a entrevista foca outros aspectos, como são exemplo a ideia de que “o regresso a determinas as rotinas é um momento de celebração e de partilha”, fundamental à nossa identidade, ao bem-estar e à saúde mental ou a de que “não há hoje um psicólogo no SNS que tenha tempo para receber mais pessoas”, discutindo a necessidade de um investimento mais significativo e assertivo do Serviço Nacional de Saúde no reforço de profissionais de saúde mental, também porque as “pessoas com menos recursos são as que têm maior dificuldade em aceder-lhes”.

A quem possa interessar, partilho links para a entrevista completa nos sites Jornal i e Nascer do Sol.

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Presidência da República

9 de Março de 2021. Marcelo Rebelo de Sousa toma posse para o segundo mandato enquanto Presidente da República. No seu discurso, perante um país há um ano em pandemia, refere ser uma das suas prioridades a reconstrução “da vida das pessoas”. Diz ser “tudo ou quase tudo – emprego, rendimentos, empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos. É mais, muito mais do que recuperar.”

Ontem passou um mês sobre uma sua audiência a uma comitiva que integrei da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Nela abordamos esta “reconstrução maior que uma recuperação”. Sentimos interesse na profissão e nas/os profissionais, mas, também, o reconhecimento do seu rápido crescimento e impacto crescente. Falamos do seu papel e contributo e dos desafios da sua prática em diferentes contextos, da educação à saúde, passando pela área social, comunitária e do trabalho. Reflectimos sobre melhorias no acesso a serviços de psicólogas/os em diferentes áreas e por diversos tipos de prestadores e da participação dos profissionais em equipas multidisciplinares. Reforçamos a necessidade de aprofundar e acelerar este caminho, particularmente no SNS e na área social, junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Discutimos, ainda, a presidência portuguesa da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP) e os seus temas em torno do contributo da psicologia nas questões da pobreza e exclusão social, temas também fundamentais do VI Congresso da OPP/XIII Congresso IberoAmericano de Psicologia que decorrerá em Lisboa (SET 2024) e que conta com o seu Alto Patrocínio (informações/inscrições: https://congresso.ordemdospsicologos.pt).

“Só haverá, porém, verdadeira reconstrução se a pobreza se reduzir, os focos de carência alimentar extrema desaparecerem, as desigualdades se esbaterem, a exclusão diminuir, a clivagem entre gerações e entre territórios for superada”, dissera também na tomada de posse. Sabe o Sr. Presidente que o país pode contar, nestes e noutros desígnios, com o contributo das psicólogas e psicólogos e da sua associação pública profissional, tal como sabemos que o Sr. Presidente o reconhece e valoriza.

Simbolicamente, horas depois, receberíamos a proposta do Governo de revisão do Estatuto da OPP. Proposta que teve tanto de surpreendente como de inaceitável e que, a cumprir-se, representaria um retrocesso na protecção dos cidadãos, do interesse público e no acesso a serviços de psicologia de qualidade, pela desregulação da profissão e fim das suas especialidades profissionais.

Um conjunto de acções, a par da forte mobilização de psicólogas/os e não apenas, permitiram que se acordassem alterações que esperamos ver “formalmente” espelhadas na proposta final aprovada (e confirmada) em Conselho de Ministros, que muito em breve conheceremos. Resta, depois, trabalhar junto da Assembleia da República com o propósito último de podermos prosseguir o nosso papel e (importante) contributo enquanto profissão fundamental ao país e às pessoas.

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Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

“Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

…porque haveria de considerar-se incapaz de realizar actos próprios de diferentes profissões e de escolher pessoas habilitadas, preparadas e competentes para junto de si realizarem determinados actos, sejam de índole jurídica, contabilística ou psicológica?”

A primeira frase deste texto, título do 59º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado), resulta de um recente estudo da “YouGov”, onde “1 em cada 3 das mais de 20.000 pessoas dos EUA que nele participaram referem sentirem-se “algo ou muito confiantes” em que conseguiriam aterrar um avião comercial, apenas com indicações da torre de controlo (quase 1 em cada 2 se considerarmos apenas os homens)”.

Exemplo que, “numa tarefa de enormíssima complexidade e cuja probabilidade de sucesso é, de acordo com as/os especialistas, virtualmente 0”, demonstra “o excesso de confiança que pessoas, sem determinada competência e experiência para a realização de uma tarefa têm sobre a sua capacidade de a realizarem com sucesso.”

“Somemos à sobrevalorização das nossas competências o viés do optimismo” (…), a “ditadura da autorreferenciação”, (…) um momento e contexto onde o acesso à informação é simples e rápido” e onde existe uma enorme possibilidade de percepcionarmos como próximas e com “finais felizes” situações complexas.

Assim, mesmo considerando o aumento global da literacia, creio “compreensível a necessidade de organização e regulação profissional em áreas com impacto significativo nas pessoas e no interesse público. De um quadro comum base de necessidade de uma (“boa”) formação académica, complementada com treino, experiência e formação (específica) profissional, com compromisso e responsabilização com a excelência das práticas assentes num quadro ético e deontológico, numa atitude de desenvolvimento profissional contínuo, potenciados por processos de validação e melhoria conjunta entre colegas da mesma profissão e no quadro de equipas e trabalhos multidisciplinares.”

A desconfiança e a narrativa de “corporativismo” tem marcado o debate em torno das Ordens Profissionais, “nada mais injusto para parte delas, cujos órgãos são muitas vezes pressionados nesse sentido pelos seus membros, mantendo, porém, o foco no contributo para mais equitativo acesso a melhores serviços dos seus profissionais pela população e no desenvolvimento da profissão com vista ao interesse público”. Diminui-se, assim, “o envolvimento cívico, a construção conjunta, e abre-se espaço para (…) assistirmos a propostas de maior desregulação da actividade profissional em áreas que envolvem direitos fundamentais, desprotegendo a sociedade e as pessoas, particularmente as em situação de maior vulnerabilidade ou impossibilitadas de decisões totalmente informadas e em liberdade.” 

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De pequenino é que se torce o ecrãzinho (Ao redor…; 16.05.2023)

“Quero ir a todas maternidades do país e quero que, quando um bebé nascer, alguém de forma aleatória, coloque uma etiqueta na testa que determinará a sua condição nos seus primeiros, digamos, 50 anos de vida. Baseado na cor da etiqueta organizaremos os bebés através de diferentes condições de exposição a ecrãs e redes sociais e acompanharemos o seu progresso e comportamento ao longo da vida.” Foi a proposta experimental impossível que Adam Alter apresentou quando Malcolm Gladwell o desafiou para um desenho experimental com uma “varinha mágica de investigação”. Fê-lo considerando a lacuna de conhecimento relativo aos que poderão ser os efeitos a longo prazo da exposição a ecrãs e redes sociais, em diferentes momentos da nossa vida.

Havendo quem entenda que as preocupações com estes temas são excessivas, creio importante reflectirmos sobre os seus impactos, particularmente em bebés, crianças e adolescentes e sobre o que sabemos do seu efeito a curto/médio prazo. Senão, vejamos.

Não resultando de uma “varinha mágica de investigação”, pudemos recentemente comparar resultados de provas de aferição de 2º ano entre crianças sem (2019) e com (2022) dois anos de pandemia COVID-19 e dos seus impactos no relacionamento interpessoal e na Educação. Em Português, na Oralidade, a percentagem de alunas/os que “conseguiram” caiu 46,4 pontos percentuais, de 59,7% para 13,3%, aumentando 42,8 pontos a percentagem de crianças que revelaram dificuldade ou não conseguiram / não responderam (de 16,1% para 62,9%). Valores que confirmam o que ouvimos ao redor e preocupa as equipas técnicas que trabalham com estas idades: um aumento considerável de dificuldades na área da fala e na aquisição da “língua materna”, menor número e diversificação de palavras e maior utilização de “estrangeirismos”, associados a vídeos e jogos online, observados cada vez mais precocemente.

Não resultando de uma “varinha mágica de investigação”, podemos também comparar as alterações ao nível dos problemas de saúde mental das e dos jovens nos últimos anos. Alguns estudos demonstram aumentos progressivos e significativos, com a prevalência a duplicar no Reino Unido ou a quadriplicar, se considerarmos apenas a depressão, em França. E, ao contrário do anterior, estes últimos anos remetem para mais de uma década, com início entre os anos 2010 e 2012, momento em que, entre outras mudanças, se generalizaram os smartphones, a utilização de redes sociais e recursos tipo “Like” e “Retweet”. Um artigo recente do “Finantial Times” apresenta-o, graficamente. Nele, três linhas sobem consistentemente de 2010 a 2022: a de jovens dos EUA que referem não se ter encontrado presencialmente com amigas/os no último mês (de 4% para 12%); a dos que referem não se “sentirem bem por viver” (de 6% para 11%) e a do aumento do suicídio na adolescência. Gráficos em linha com as já consideráveis investigações que demonstram correlação, mais significativa no sexo feminino, entre longos períodos de exposição a redes sociais e a deterioração da saúde mental na população jovem.

Os ecrãs e as redes sociais, pela sua aditividade, pelo “negócio” envolvido e com o “impulso” que resultou do isolamento em períodos da pandemia, estão a pressionar a substituição de interacções presenciais pela socialização em ambiente digital. Alterações que, particularmente se precoces e/ou excessivas, tenderão a reproduzir-se mais intensamente mais tarde e que têm e terão impactos no bem-estar, na conexão com outras e outros, nos processos de aprendizagem (social), no desenvolvimento cerebral, cognitivo e motor, no feedback e resposta emocional e comportamental face a situações quotidianas e, até, nas dimensões da actividade física e do sono.

Atendendo a que esta é uma área onde a regulação dos meios/plataformas não tem sido intensa e eficaz (por exemplo, nos limites de idade de utilização de tecnologias ou de aplicações), o papel das e dos cuidadores adultos é absolutamente preponderante. Mas, se conforme os dados de fenotipagem digital do “Sistema de Vigilância e Monitorização da Actividade Física e Desportiva”, 71,2% da população adulta em Portugal cumpre as recomendações de actividade física da Organização Mundial da Saúde (OMS) e um número superior as de vacinação, qual é a percentagem que cumpre as recomendações da OMS para a exposição a ecrãs de crianças com menos de 5 anos a seu cargo? A OMS recomenda que crianças até aos 2 anos não estejam expostas a ecrãs (televisão, computador, tablets e telemóvel) e que entre os 2 e os 4 anos a exposição seja pelo menor tempo possível e com supervisão, indicando como tempo máximo uma hora diária. Ora, das cadeirinhas de bebé com suporte para tablet, às mesas de cafés e restaurantes à nossa volta, creio sabermos que, ao contrário de outras recomendações da OMS, estas não são, infelizmente, particularmente consideradas.

Sabemos porquê. Pela própria utilização e pressão que se coloca a quem cuida e pela facilidade, adequação ao estilo de vida e resultado da utilização de ecrãs. É muito mais simples, por exemplo, quando se conjuga com a necessidade de trabalhar, realizar tarefas domésticas, fazer uma refeição ou, simplesmente, mantermos bebés e crianças sentadas e minimamente sossegadas. É muito mais simples para que nós, adultos, possamos prevenir conflitos e desfrutar de diferentes momentos. Muito mais simples hoje, mas muito mais difícil amanhã. Como com alguns alimentos, é assim com os vídeos online, com os jogos online e, mais cedo ou mais tarde, com as redes sociais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, tendemos a olhar este desafio e os problemas que dele resultam em dimensões iminentemente individuais, não considerando que estas alterações profundas marcam hoje a sociedade e uma geração de bebés, crianças, adolescentes, jovens, mas também de quem cuida. Com a presença fortíssima de ecrãs há menos pessoas disponíveis para interacções presenciais, facto que reforça a dificuldade e os desafios que se colocam às mesmas. Com a presença fortíssima de ecrãs acresce a pressão para a sua utilização como meio de entretenimento e lazer, pressão que decorre quer das próprias crianças que querem como as outras fazê-lo e participar nesse meio, quer de quem cuida dessas crianças que pretendem que as nossas se mantenham, desde logo, sentadas e sossegadas nos espaços públicos, mas não apenas. Quando a pressão social concorre para incumprirmos recomendações algo está errado e precisa, rapidamente, mudar, sob pena do que hoje verificamos poder ser mais grave no futuro, também pelo que aí vem com a inteligência artificial, com níveis potenciais de aditividade, “negócio” e impacto ainda imprevisíveis. Aceitam que estamos perante um problema? Aceitam o desafio de mudarmos e partilharmos o Mundo ao redor com os ecrãs de forma mais equilibrada?

 

Tiago Pereira

De pequenino é que se torce o ecrãzinho

in Sábado (Ao redor…); 16.05.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/de-pequenino-e-que-se-torce-o-ecrazinho

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A lã e a neve…

Ferreira de Castro viveu apenas dois meses após o 25 de Abril de 1974. A sua biografia informa, destacando, a sua participação no célebre primeiro 1º de Maio pós-25 de Abril e retenho-me nesse momento, quando o penso a partir do livro “A Lã e a Neve”, que publicou quase 30 anos antes desse dia e que, felizmente, foi recentemente reeditado pela Cavalo de Ferro.

“…Nos olhos do qual ele adivinhava, também, uma nuvem de tristeza.” Uma nuvem de tristeza, mas não apenas, percorre o livro que trata, ficcionada, mas não totalmente, a pobreza de Portugal no período próximo da II Guerra Mundial. Uma pobreza entre a Serra da Estrela (Manteigas, em particular) e a Covilhã. Uma pobreza a partir de um trabalho permanente, constante, entre a pastorícia, as casas, o campo e as fábricas, particularmente as tecelagens, da região. Uma pobreza que coarta a dignidade, que impacta a saúde e a saúde mental, que impossibilita uma ideia mínima de bem-estar, de (auto)cuidado. Uma pobreza que se reproduz, cíclica e socialmente, e que acompanha o desamparo de tudo e de todas as pessoas que, ao mínimo “abalo” ou acontecimento imprevisto, pessoal ou social, treme. Uma pobreza, nuvem de tristeza. Permanente.

80 anos depois, aquela região é bem diferente. O país, a Europa, o Mundo, são bem diferentes. Apesar disso, e com formas de expressão e dimensão (felizmente) distintas, a pobreza e os seus impactos permanece na vida de muitas pessoas e famílias. De demasiadas. Isso mesmo e os contributos da ciência e da prática de psicólogas e psicólogos na minimização dos seus impactos e no combate às diversas formas de pobreza, discutiremos ali bem perto, na Guarda, na próxima sexta-feira (25.5).

O VI Encontro Luso-Espanhol de Psicologia, organização conjunta entre a Ordem dos Psicólogos Portugueses e o Consejo General de la Psicología de España centrar-se-á em dois temas principais, preocupações sociais significativas: a deficiência e a pobreza. Na área da pobreza, além de uma “Oficina Transformadora” a cargo do Alexandre Teixeira com a experiência do projecto “Cais Recicla”, terá uma mesa por mim moderada com a Isabel Soares (referência importantíssima no trabalho no nosso país nestas áreas e pessoa e profissional que muito admiro) e a Laura Vallejo Slocker e o Pedro Rafael Altungy Labrador, importantes referências do trabalho nestas dimensões em Espanha. Mais informações e inscrições, aqui.

Jorge Amado disse sobre Ferreira de Castro que “com a arma da literatura ajudou a transformar o Mundo (…) [Foi] coveiro de um Mundo caduco, de um tempo podre, parteiro de um Mundo novo, de um tempo alegre e livre”.  Que este Encontro e que os debates que dele decorram seja (mais) um contributo e, particularmente, estímulo a que com a “arma da psicologia” ajudemos “a transformar o Mundo”, pela possibilidade de um “tempo alegre e livre”, para todas e para todos.

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Ao redor... (Revista Sábado) COVID-19 Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia Tomada de Decisão

COVID-19, 20, 21, 22, 23, … (Ao redor…; 20.03.2023)

Acordamos um dia para, tão somente, mais um dia como tantos outros na nossa vida. Mas eis que algo significativo nele sucede e o terminamos a sentir que o Mundo desabou. Sei que sabem do que escrevo. Já o sentimos, certamente. É que, ao contrário das transformações positivas na nossa vida, normalmente incrementais, morosas e sem “uma data”, há mudanças e/ou perdas bruscas que decorrem de um acontecimento muitas vezes imprevisto, datado. Com dia, hora e até local.

E, se assim é com cada uma e um de nós, assim é com o Mundo e com o que dele nos chega, particularmente via comunicação social e redes sociais. Como a prosperidade e as melhorias não têm, normalmente, data e não se compadecem com a actualidade do dia-a-dia, chega-nos, desequilibradamente, mais informação sobre acontecimentos negativos súbitos que processamos e integramos, também, através de mecanismos de generalização e considerando e focando mais a nossa atenção em factos ou aspectos negativos face a positivos, algo que configura o apelidado “viés da negatividade”.

Tudo isto ajuda a explicar porque nos é tão simples de evocar ou ter presente datas de acontecimentos negativos significativos. Como recordamos onde estávamos, por vezes até o que estávamos a fazer, quando soubemos dos atentados nos Estados Unidos da América em 11 de Setembro de 2001 ou dos incêndios de 15 de Outubro de 2017 em Portugal. Como recordamos as datas relativas aos primeiros casos confirmados, à primeira morte ou ao primeiro dever de recolhimento obrigatório em Portugal em virtude da COVID-19 em 2020.

Passaram três anos e recordo cada um destes momentos, colectivos, e um outro, muito próximo. Sexta-feira, 13 de Março de 2020, dia da criação do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses e dia em que fui nomeado seu coordenador. Sabia e sabíamos, por essa altura, que algo significativo aí viria, mas era-me e era-nos, creio, impossível nesse momento perspectivar claramente os múltiplos impactos que a pandemia teria no Mundo, em Portugal e em cada uma e um de nós. Nessa altura e, em bom rigor, talvez ainda hoje na sua totalidade.

Nos três anos que decorreram entre esse dia e a passada segunda-feira 13 de Março, dia em que terminou a estrutura do gabinete de crise e em que, formalmente, deixei as funções de seu coordenador, muito mudou. No Mundo, onde se interrompeu a descida progressiva da percentagem de pessoas com fome e em pobreza extrema. Em Portugal, onde assistimos a uma diminuição da esperança média de vida à nascença, algo que já não sucedia desde 1996, e onde a COVID-19 irrompeu como responsável por entre 5 e 10% das mortes totais nos anos de 2020, 2021 (o pior, com 9,6%) e 2022, num total de mais de mais de 26.000 mortes a que se junta um número indeterminado, mas muito significativo, de complicações sucessivas e/ou doenças agravadas na população. Onde, também por isto, pela crise socioeconómica decorrente da pandemia e pelas fortes restrições e alterações aos padrões de vida, aumentou consideravelmente o sofrimento psicológico e, em alguns casos e particularmente junto de grupos populacionais em situação de maior vulnerabilidade, aumentou a prevalência de dificuldades de saúde mental ou mesmo de doença mental, particularmente associadas ao stresse, à ansiedade e à depressão. Onde, ainda e por muito relevante, muitas crianças e jovens, também particularmente em situação de maior vulnerabilidade, viram impactados e prejudicados os seus percursos escolares e educativos em virtude do encerramento das Escolas e de outras actividades, com perdas significativas e de exigente (para alguns, impossível) recuperação. Perdas que agravam a já de si grave crise na área da saúde mental da população mais jovem, não apenas resultante da pandemia, manifesta, por exemplo, nos dados que demonstram o aumento do mal-estar (físico e psicológico), da insatisfação com a vida e dos comportamentos auto lesivos.

Finalmente, a pandemia impactou significativamente o bem-estar de forma geral. Hoje mesmo, Dia Internacional da Felicidade, a Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas publicou o relatório da felicidade mundial (2020-2022) onde Portugal mantém o 56º lugar, 22 lugares abaixo do 34º de 2019, numa análise que engloba as dimensões do rendimento disponível, do apoio social, da esperança de vida com saúde, da liberdade, generosidade e da percepção da corrupção, todas directa ou indirectamente influenciadas pela pandemia.

Pandemia que, mais que transformar, acelerou mudanças “sem data” e enfatizou iniquidades e vulnerabilidades. Mudanças na forma de comunicar, de aprender ou de trabalhar. Mudanças na ciência e na utilização do seu conhecimento, por exemplo na produção de vacinas. Mudanças no reconhecimento da importância da literacia em saúde e em ciência ou da prevenção do obscurantismo e da desinformação. No reconhecimento, ainda, da importância da confiança nos sistemas e em decisores e mediadores, incluindo jornalistas e profissionais de saúde. Enfatizou que “não estamos todas e todos no mesmo barco”, tal qual trouxe mais certeza da incerteza, das vulnerabilidades das pessoas e sistemas e de futuras crises de saúde pública.

Pandemia que, também mais que transformar, tornou mais consciente a importância da saúde mental, particularmente da população mais jovem, e da resiliência de pessoas e comunidades. Reforçou a necessidade de mitigar a precariedade, a pobreza e a exclusão social, promovendo a coesão social e factores protecores. A necessidade de reforçar a equidade, a proximidade e a contingência do apoio na área da saúde mental e de priorizar a possibilidade e a oportunidade de bem-estar para todas as pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a pandemia juntou, por via das funções que assumi, o enorme desafio pessoal de adaptação à realidade que impôs ao meu maior desafio profissional. Trouxe-me desafio, mas envolvimento, comprometimento e propósito ao que foi o meu contributo, pequeníssima parte do contributo maior (será ainda maior em futuras crises) da ciência psicológica e, particularmente, das psicólogas e psicólogos junto de pessoas, organizações e no apoio à tomada de decisão. “…viu-o lá fora, na viela, por trás da cerca alta. Um homem possante, um gigante escondido por trás da cerca de um metro e oitenta, a pá despontando de tempo a tempos, devolvendo a neve ao céu”, excerto do “A primavera há-de chegar, Bandini”. Primavera que chega hoje. Oportunidade para “devolvermos a neve ao céu” e de nos mobilizarmos para que a “Primavera” chegue a e para todas as pessoas.

Tiago Pereira

COVID-19, 20, 21, 22, 23, …

in Sábado (Ao redor…); 20.03.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/covid-19-20-21-22-23-

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Ao redor... (Revista Sábado) COVID-19 Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

COVID-19, 20, 21, 22, 23, …

“Acordamos um dia para, tão somente, mais um dia como tantos outros na nossa vida. Mas eis que algo significativo nele sucede e o terminamos a sentir que o Mundo desabou. Sei que sabem do que escrevo. Já o sentimos, certamente (…) Passaram três anos e recordo (…) [a] Sexta-feira, 13 de Março de 2020, dia da criação do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses e dia em que fui nomeado seu coordenador. Sabia e sabíamos, por essa altura, que algo significativo aí viria, mas era-me e era-nos, creio, impossível nesse momento perspectivar claramente os múltiplos impactos que a pandemia teria no Mundo, em Portugal e em cada uma e um de nós.”

“COVID-19, 20, 21, 22, 23, …”, 54º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como a pandemia, “mais que transformar, acelerou mudanças “sem data” e enfatizou iniquidades e vulnerabilidades” e sobre o meu papel, e o de tantas e tantos outros psicólogos, ao longo da mesma.

Sobre como trouxe “mudanças na forma de comunicar, de aprender ou de trabalhar. Mudanças na ciência e na utilização do seu conhecimento, por exemplo na produção de vacinas. Mudanças no reconhecimento da importância da literacia em saúde e em ciência ou da prevenção do obscurantismo e da desinformação. No reconhecimento, ainda, da importância da confiança nos sistemas e em decisores e mediadores, incluindo jornalistas e profissionais de saúde.” Sobre como enfatizou que “não estamos todas e todos no mesmo barco”, tal qual trouxe mais certeza da incerteza, das vulnerabilidades das pessoas e sistemas e de futuras crises de saúde pública.”

Sobre como tornou “mais consciente a importância da saúde mental, particularmente da população mais jovem, e da resiliência de pessoas e comunidades. Reforçou a necessidade de mitigar a precariedade, a pobreza e a exclusão social, promovendo a coesão social e factores protecores. A necessidade de reforçar a equidade, a proximidade e a contingência do apoio na área da saúde mental e de priorizar a possibilidade e a oportunidade de bem-estar para todas as pessoas.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a pandemia juntou, por via das funções que assumi, o enorme desafio pessoal de adaptação à realidade que impôs ao meu maior desafio profissional. Trouxe-me desafio, mas envolvimento, comprometimento e propósito ao que foi o meu contributo, pequeníssima parte do contributo maior (será ainda maior em futuras crises) da ciência psicológica e, particularmente, das psicólogas e psicólogos junto de pessoas, organizações e no apoio à tomada de decisão (…) Primavera que chega hoje. Oportunidade para “devolvermos a neve ao céu” e de nos mobilizarmos para que a “Primavera” chegue a e para todas as pessoas.

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isto não é um cachimbo.

Na cultura existem objectos (livros, filmes, músicas ou quadros) que são mais conhecidos pelo objecto em si ou alguma das suas personagens/características do que pelo seu nome. Um exemplo, se falarmos do quadro “A traição das imagens” imagino que poucas pessoas pensem na imagem que evocam quando nos referimos ao quadro do “cachimbo”, embora este seja o seu nome. Pintado por René Magritte em 1929, permanece como um dos melhores exemplos do surrealismo ao “provocar” quem observa o quadro, desafiando a descrição do que é observado através da célebre frase “isto não é um cachimbo” abaixo da pintura de um cachimbo.

Penso-o a propósito da importância da literacia… Nas artes, certamente. Na ciência. Na área financeira. Na saúde e, mais especificamente, na saúde mental. Penso-o a propósito da colaboração da Ordem dos Psicólogos Portugueses com a Médis, também concomitante ao lançamento da sua nova cobertura compreensiva na área da saúde mental, e do meu contributo para se conhecer e reconhecer o burnout.

Síndrome hoje mais presente na sociedade, também pela maior consciência acerca do fenómeno e da pressão resultante das crises e da incerteza, das transformações no mercado de trabalho e dos desafios de conciliação da vida pessoal com a vida profissional.

No vídeo procuro afirmar como o burnout implica a triangulação da exaustação emocional resultante da dificuldade de gerir o stresse profissional com um menor envolvimento e propósito com e no trabalho e, finalmente, com um sentimento de perda de eficácia enquanto trabalhador/a. Poderá, esta tríade, estar ainda associada a outra sintomatologia (física e psicológica) e a dificuldades na gestão da vida pessoal e familiar mas apenas se cumpre nesta tríade, sem a qual teremos um quadro onde “isto não é burnout”.

Ainda no vídeo abordo questões da prevenção e do tratamento, sublinhando que além da dimensão individual relativa ao sofrimento psicológico, à gestão de emoções, à autorregulação e ao autocuidado é fulcral a dimensão organizacional. Porque, se as lideranças não estiverem atentas a este fenómeno e à promoção da saúde e do bem-estar das pessoas/equipas, dificilmente se mitigam e previnem estas situações.

Era, é e será fundamental que as organizações possam considerar e integrar nas suas práticas e dinâmicas os principiais determinantes do bem-estar no trabalho. Considerá-los de acordo com a evidência científica, avaliá-los e geri-los com as práticas que a ciência prova que, efectivamente, resultam.

Pela saúde e bem-estar das pessoas. Pela sustentabilidade e prosperidade das organizações e do país.

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Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais (Ao redor…; 06.03.2023)

Generalização. “Não há atribuições colectivas de culpa em Portugal, Senhor Deputado”. Foi com estas palavras que o Presidente da Assembleia da República interrompeu o discurso inarrável de um Sr. Deputado em torno de um conjunto de generalizações, naquele caso, relativas à comunidade cigana em Portugal. A generalização induz que experiências ou conhecimentos focados ou limitados sobre um determinado tema sejam processadas como se referindo ao total das situações, algo que influencia a tomada de decisão, conduzindo a erros e ao reforço de estereótipos e preconceitos.

Disponibilidade. A heurística da disponibilidade é um processo cognitivo que explica porque percebemos como mais provável um determinado acontecimento se tivermos presente um evento semelhante próximo. Porque também, tantas vezes, assistimos a debates profundamente autorreferenciados em que boas ou menos boas experiências de alguém sobre um determinado acontecimento induzem a sua visão sobre essa temática e tendem a diminuir a probabilidade da pessoa procurar outros dados, informações, referências ou ângulos sobre o assunto.

Desconfiança. A confiança é um valor fundamental numa sociedade e é hoje abundante a investigação que demonstra que níveis mais elevados de confiança (nas instituições e nas e pessoas) têm um peso importante na percepção de bem-estar das populações. Noutro prisma, a desconfiança está associada aos conflitos sociais, à diminuição da participação social e pública das pessoas e à falta de coesão social.

A generalização, a heurística da disponibilidade (de informação) e a desconfiança são, no actual contexto, presença permanente no comentário e debate público em Portugal e, muitas vezes, princípios-chave na reflexão sobre a criação, revisão ou regulamentação (operacionalização) de Leis. O peso que um “caso” tem na percepção de que tudo é igual, que “algo que nos aconteceu” ou que “conhecemos” tem na nossa percepção de uma situação/problema e que a desconfiança impõe, prejudicam gravemente o debate público e a construção de soluções legislativas mais simples, ágeis, responsivas e personalizadas.

Temo-lo assistido em diversas situações. Voltamos a assistir no debate em torno da proposta de alteração ao Regime Jurídico das Associações Públicas Profissionais. Muitas e muitos dos que critica(ra)m o Sr. Deputado (e bem!) pela permanente generalização e atribuição de culpas colectivas debatem as Ordens Profissionais em Portugal usando da generalização e tratando 20 Ordens muito diferentes como se tudo e todas fossem iguais. Como se Ordens com inscrição obrigatória para a prática profissional fossem semelhantes a outras sem essa obrigatoriedade. Como se Ordens com várias dezenas de milhares membros ou com várias décadas fossem iguais a outras com poucos milhares de membros ou anos de existência. Ou como se todas as Ordens tivessem estágios profissionais não remunerados, de longos anos ou não tivessem já no seu estatuto definidos processos de reconhecimento de habilitações académicas e profissionais obtidas no estrangeiro. Como se um “caso” fosse a realidade, “caso” esse público ou, por vezes, resultante de uma experiência autorreferenciada, particularmente quando para ilustrar e confirmar uma ideia, a “sua ideia”, sobre um assunto. A isto acresce ainda o princípio da desconfiança e a ideia de que as Ordens, todas as Ordens, prosseguem agendas “corporativas” não compatíveis com o “interesse público”.

Estes princípios limitam o debate público e limitaram-nos neste processo em específico. Uma revisão de Lei que pretendia a modernização do regime jurídico das Associações Públicas Profissionais, partindo de outros princípios, que apontassem mais às especificidades das diversas Ordens, que atendessem menos à “percepção” e mais à “realidade e a factos” e que se baseassem no valor da confiança, permitiriam construir mais participadas e equilibradas respostas, logo soluções melhores que beneficiariam a sociedade e o interesse público.

Permitiriam, certamente, que se reflectisse mais profundamente a mais-valia das comissões responsáveis pela avaliação dos estágios profissionais serem constituídas, também, por elementos externos à profissão, sem experiência profissional, portanto, quando estas comissões servem o exacto propósito de avaliação do desenvolvimento de competências profissionais. Ou do órgão de supervisão, agora proposto, ser constituído por “40% de membros oriundos dos estabelecimentos de ensino superior que habilitem academicamente o acesso à profissão organizada em associação pública profissional, não inscritos na associação profissional”. Daqui decorre que, nos casos como na psicologia em que as e os docentes das Universidades são na sua grande maioria profissionais da área, o leque de recrutamento destes membros será diminuto e discriminará quem, na sua actividade académica, realiza acções de prática de extensão à comunidade, realiza investigação-acção, lecciona unidades curriculares que incorporem actos psicológicos (como a avaliação psicológica) ou, simplesmente, realize prática enquanto psicóloga/o, estando por isso inscrita/o na Ordem dos Psicólogos Portugueses. Ou, noutro prisma, que tal como sucede com a/o Provedor/a agora proposto, cuja remuneração do cargo está prevista no regime jurídico, se previsse a remuneração ou, no mínimo, um regime de faltas justificadas para o órgão jurisdicional da Associação Pública Profissional. Considerando a especial complexidade da actividade e a necessidade de ser reforçada no quadro da melhoria dos processos de auto-regulação das profissões seria algo fulcral, a par da introdução de mecanismos de mediação ética para algumas situações, da manutenção do escrutínio e eleição directa e do aumento do número de membros, pontos infelizmente não plasmados no novo regime jurídico, embora propostos, algo que parece incoerente com os objectivos propagados das alterações propostas, nomeadamente no que se refere ao aumento do escrutínio e melhoria da auto-regulação das profissões.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, tal qual era e será a primeira atribuição de qualquer Associação Pública Profissional “a defesa dos interesses gerais dos destinatários dos serviços”, importa que possamos caminhar para um debate público e para processos de co-construção de Leis que se baseiem menos na generalização, nas heurísticas de disponibilidade e autorreferenciação e na desconfiança. Ao contrário, é a identificação de particularidades, os dados de qualidade e escrutínio e a confiança mútua que abre espaço ao diálogo e à cooperação, que promove solidariedade e o respeito pelas especificidades e que estimula o envolvimento cívico e político. É a confiança mútua que permite a construção de mais eficazes soluções para os mais complexos problemas.

 

Tiago Pereira

Generalização, disponibilidade e desconfiança – Alterações ao regime jurídico das Ordens Profissionais

in Sábado (Ao redor…); 06.03.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/generalizacao-disponibilidade-e-desconfianca—alteracoes-ao-regime-juridico-das-ordens-profissionais