No próximo dia 24 de Agosto passam 30 meses da data em que escrevi o primeiro artigo desta rubrica. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e terminava com uma proposta: “Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.”
Nesse dia, sabia dos desafios complexos do país e do Mundo nesse momento e sabia, também, que estariam para vir outros, não menos complexos e não totalmente previsíveis. Estávamos a 24 de Fevereiro de 2021 e não previa que, exactamente um ano depois, se entrasse numa escalada da invasão pela Federação Russa da Ucrânia e se iniciasse uma Guerra na Europa. Ou que estaríamos hoje, enquanto nos debatemos com eventos climatéricos significativos resultantes, também, da crise climática, a discutir, como estamos a discutir, os impactos da inteligência artificial generativa, dos computadores espaciais e realidade virtual ou a preparamo-nos para pensar as transformações que podem advir com os futuros computadores quânticos.
É por isso, pensando no presente, mas sobretudo no futuro, que 63 artigos depois desse primeiro, aqui partilho um pedido e um compromisso.
Se há algo que parece unânime no debate público em Portugal, talvez no Mundo, é a necessidade de potenciar o crescimento económico. Ora, o pedido que partilho convosco é para que, enquanto sociedade, em Portugal e no Mundo, procuremos complementar este discurso e objectivo com a necessidade de promover, simultaneamente, a equidade e a segurança, incluindo psicológica, de pessoas e comunidades, como vectores fundamentais para, num quadro de direitos humanos, democracia e multilateralismo e de protecção do meio ambiente, contribuirmos para a possibilidade de bem-estar de pessoas e para a coesão social.
Tal como tem acontecido com a pobreza, particularmente com a pobreza extrema, também a nível global existiu nas últimas 3 décadas uma significativa redução das desigualdades globais entre países, manifesta em indicadores como a esperança média de vida, o acesso a alimentos e água potável, à educação ou à internet e outros meios de comunicação. Porém, existem neste percurso três questões que importa detalhar e que devem estimular reflexão e mobilizar enquanto sociedade.
Se a diferença entre os países classificados como economias mais desenvolvidas e menos desenvolvidas diminuiu nestes elementos, não o fez em todas as áreas. Dois exemplos em dimensões relevantes: a mortalidade infantil, que descendo em ambos os grupos de países, fê-lo muito mais intensamente nos países com economias mais desenvolvidas, aumentando a diferença e desigualdade. Também na poluição do ar a diferença aumentou nos últimos anos, muito devido ao crescimento das cidades, da população e da industrialização dos países apelidados de em desenvolvimento.
Este ponto, a par do acesso a espaços azuis e verdes, traz-nos à segunda importante questão. O facto de, além das iniquidades globais, existirem iniquidades nacionais. Em Portugal o ritmo de decréscimo tem sido relativamente baixo no que se refere aos rendimentos e permanecem desfasamentos significativos em elementos como a saúde, a educação, a habitação ou o acesso à recreação, à cultura ou ao desporto pelo nível de rendimentos, localização (por vezes dentro da mesma cidade) ou pertença comunitária. É, também por isso, que sendo possível como se tem demonstrado, importa acelerar e aprofundar a redução das desigualdades, algo fundamental à promoção da saúde pública, da capacidade de agência, controlo e previsibilidade das pessoas, logo do seu bem-estar e, portanto, do desenvolvimento da sociedade.
Finalmente, a redução das desigualdades está também positivamente associada a maior confiança nas outras pessoas, nas instituições, incluindo políticas, e na coesão social. É por isso que retrocessos nos últimos anos na redução da desigualdade em algumas áreas, particularmente na que se refere à vivência de liberdades de direitos e política e da vivência em democracias, periga estes elementos e nos deve fazer reflectir na forma como forças da sociedade civil e da política usam o medo, a instigação do ódio e a desinformação para procurar polarizar a sociedade, promover a desconfiança, romper contratos sociais e diminuir direitos. Como os usam para fragilizar a segurança, incluindo a segurança psicológica, de todas as pessoas numa sociedade.
O discurso de ódio e o desrespeito por condições diversas de vivência, incluindo práticas religiosas, pertença comunitária, condição de vivência no país ou orientação sexual, depois de terem diminuído significativamente nas últimas décadas, estão, nos últimos anos, em crescimento em alguns países e continentes no Mundo, incluindo na Europa. A ascensão das chamadas “democracias iliberais” e o retorno do autoritarismo em alguns países condicionam a segurança, incluindo a psicológica, e a igualdade, como fundamentos base das sociedades. Prevenir, portanto, a inversão de caminhos de maior segurança psicológica para todas as pessoas e comunidades, desde logo na Europa e em Portugal em concreto e generalizar esta necessidade Mundo fora, é fundamental à promoção do bem-estar das pessoas e da coesão social. Da possibilidade de respondermos à adversidade e a acontecimentos de vida negativos com suporte de outras pessoas e/ou com apoio comunitário ou social. Da possibilidade de errarmos e de, por isso, não sermos eternamente penalizados, particularmente se tivermos determinadas características ou condições face a outras pessoas, com outras características ou condições.
É este, assim, o meu pedido. Que à necessidade de crescimento económico, unânime no debate público, somemos a promoção da equidade e da segurança, incluindo psicológica, e que todas as pessoas, quaisquer que sejam os seus papéis e responsabilidades na sociedade, se envolvam e para isso contribuam. Se este é o meu pedido, o compromisso que partilho é que, enquanto este espaço e esta rubrica me for permitida, também aqui vou continuar a disponibilizar contributos, a partir de um olhar que procuro que seja informado pela ciência, para que este pedido seja tema e desígnio e de como é possível continuarmos e acelerarmos o caminho percorrido nestas áreas em Portugal e no Mundo.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a psicologia, enquanto ciência e profissão, tem, necessariamente, que procurar contribuir mais para informação e literacia da população sobre os impactos da desigualdade e da insegurança psicológica nas pessoas e sua possibilidade de bem-estar, nas comunidades e seu desenvolvimento e na sociedade e sua coesão social. Tem, também e necessariamente, que contribuir, conjuntamente com outras disciplinas, para promover situações e/ou transformações sociais que permitam e promovam os valores da equidade e da segurança, incluindo a segurança psicológica. Por isso, este meu pedido, a quem me lê e também à minha ciência e profissão. Por isso, este compromisso meu, como responsável desta rúbrica e enquanto psicólogo.
Tiago Pereira
30 meses ao redor, um pedido e um compromisso
in Sábado (Ao redor…); 21.08.2023


