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30 meses ao redor, um pedido e um compromisso (Ao redor…; 21.08.2023)

No próximo dia 24 de Agosto passam 30 meses da data em que escrevi o primeiro artigo desta rubrica. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e terminava com uma proposta: “Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.”

Nesse dia, sabia dos desafios complexos do país e do Mundo nesse momento e sabia, também, que estariam para vir outros, não menos complexos e não totalmente previsíveis. Estávamos a 24 de Fevereiro de 2021 e não previa que, exactamente um ano depois, se entrasse numa escalada da invasão pela Federação Russa da Ucrânia e se iniciasse uma Guerra na Europa. Ou que estaríamos hoje, enquanto nos debatemos com eventos climatéricos significativos resultantes, também, da crise climática, a discutir, como estamos a discutir, os impactos da inteligência artificial generativa, dos computadores espaciais e realidade virtual ou a preparamo-nos para pensar as transformações que podem advir com os futuros computadores quânticos.

É por isso, pensando no presente, mas sobretudo no futuro, que 63 artigos depois desse primeiro, aqui partilho um pedido e um compromisso.

Se há algo que parece unânime no debate público em Portugal, talvez no Mundo, é a necessidade de potenciar o crescimento económico. Ora, o pedido que partilho convosco é para que, enquanto sociedade, em Portugal e no Mundo, procuremos complementar este discurso e objectivo com a necessidade de promover, simultaneamente, a equidade e a segurança, incluindo psicológica, de pessoas e comunidades, como vectores fundamentais para, num quadro de direitos humanos, democracia e multilateralismo e de protecção do meio ambiente, contribuirmos para a possibilidade de bem-estar de pessoas e para a coesão social.

Tal como tem acontecido com a pobreza, particularmente com a pobreza extrema, também a nível global existiu nas últimas 3 décadas uma significativa redução das desigualdades globais entre países, manifesta em indicadores como a esperança média de vida, o acesso a alimentos e água potável, à educação ou à internet e outros meios de comunicação. Porém, existem neste percurso três questões que importa detalhar e que devem estimular reflexão e mobilizar enquanto sociedade.

Se a diferença entre os países classificados como economias mais desenvolvidas e menos desenvolvidas diminuiu nestes elementos, não o fez em todas as áreas. Dois exemplos em dimensões relevantes: a mortalidade infantil, que descendo em ambos os grupos de países, fê-lo muito mais intensamente nos países com economias mais desenvolvidas, aumentando a diferença e desigualdade. Também na poluição do ar a diferença aumentou nos últimos anos, muito devido ao crescimento das cidades, da população e da industrialização dos países apelidados de em desenvolvimento.

Este ponto, a par do acesso a espaços azuis e verdes, traz-nos à segunda importante questão. O facto de, além das iniquidades globais, existirem iniquidades nacionais. Em Portugal o ritmo de decréscimo tem sido relativamente baixo no que se refere aos rendimentos e permanecem desfasamentos significativos em elementos como a saúde, a educação, a habitação ou o acesso à recreação, à cultura ou ao desporto pelo nível de rendimentos, localização (por vezes dentro da mesma cidade) ou pertença comunitária. É, também por isso, que sendo possível como se tem demonstrado, importa acelerar e aprofundar a redução das desigualdades, algo fundamental à promoção da saúde pública, da capacidade de agência, controlo e previsibilidade das pessoas, logo do seu bem-estar e, portanto, do desenvolvimento da sociedade.

Finalmente, a redução das desigualdades está também positivamente associada a maior confiança nas outras pessoas, nas instituições, incluindo políticas, e na coesão social. É por isso que retrocessos nos últimos anos na redução da desigualdade em algumas áreas, particularmente na que se refere à vivência de liberdades de direitos e política e da vivência em democracias, periga estes elementos e nos deve fazer reflectir na forma como forças da sociedade civil e da política usam o medo, a instigação do ódio e a desinformação para procurar polarizar a sociedade, promover a desconfiança, romper contratos sociais e diminuir direitos. Como os usam para fragilizar a segurança, incluindo a segurança psicológica, de todas as pessoas numa sociedade.

O discurso de ódio e o desrespeito por condições diversas de vivência, incluindo práticas religiosas, pertença comunitária, condição de vivência no país ou orientação sexual, depois de terem diminuído significativamente nas últimas décadas, estão, nos últimos anos, em crescimento em alguns países e continentes no Mundo, incluindo na Europa. A ascensão das chamadas “democracias iliberais” e o retorno do autoritarismo em alguns países condicionam a segurança, incluindo a psicológica, e a igualdade, como fundamentos base das sociedades. Prevenir, portanto, a inversão de caminhos de maior segurança psicológica para todas as pessoas e comunidades, desde logo na Europa e em Portugal em concreto e generalizar esta necessidade Mundo fora, é fundamental à promoção do bem-estar das pessoas e da coesão social. Da possibilidade de respondermos à adversidade e a acontecimentos de vida negativos com suporte de outras pessoas e/ou com apoio comunitário ou social. Da possibilidade de errarmos e de, por isso, não sermos eternamente penalizados, particularmente se tivermos determinadas características ou condições face a outras pessoas, com outras características ou condições.

É este, assim, o meu pedido. Que à necessidade de crescimento económico, unânime no debate público, somemos a promoção da equidade e da segurança, incluindo psicológica, e que todas as pessoas, quaisquer que sejam os seus papéis e responsabilidades na sociedade, se envolvam e para isso contribuam. Se este é o meu pedido, o compromisso que partilho é que, enquanto este espaço e esta rubrica me for permitida, também aqui vou continuar a disponibilizar contributos, a partir de um olhar que procuro que seja informado pela ciência, para que este pedido seja tema e desígnio e de como é possível continuarmos e acelerarmos o caminho percorrido nestas áreas em Portugal e no Mundo.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a psicologia, enquanto ciência e profissão, tem, necessariamente, que procurar contribuir mais para informação e literacia da população sobre os impactos da desigualdade e da insegurança psicológica nas pessoas e sua possibilidade de bem-estar, nas comunidades e seu desenvolvimento e na sociedade e sua coesão social. Tem, também e necessariamente, que contribuir, conjuntamente com outras disciplinas, para promover situações e/ou transformações sociais que permitam e promovam os valores da equidade e da segurança, incluindo a segurança psicológica. Por isso, este meu pedido, a quem me lê e também à minha ciência e profissão. Por isso, este compromisso meu, como responsável desta rúbrica e enquanto psicólogo.

 

Tiago Pereira

30 meses ao redor, um pedido e um compromisso

in Sábado (Ao redor…); 21.08.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/30-meses-ao-redor-um-pedido-e-um-compromisso

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Dualidade(s)

Ontem nasceu em Portugal o primeiro bebé por inseminação pós-morte. O Hugo resulta de uma luta e activismo da sua mãe, Ângela, que nos e o inspirará, estou certo, vida fora. Desse activismo, e de um desejo partilhado com o seu marido que faleceu vítima de cancro aos 29 anos, e que deixou escrito que o desejava, mesmo quando a Lei ainda não o permitia.

Lei esta, agora com resultado concreto, cuja base, desafiante, não depende apenas das áreas da Medicina, Direito ou Ética. Envolve, também e necessariamente, a Psicologia e a consideração dos impactos psicológicos destes processos, naturalmente complexos, em todas as pessoas envolvidas. Isso mesmo referiu a Ordem dos Psicólogos Portugueses no contributo científico em fase de discussão da alteração à Lei (https://recursos.ordemdospsicologos.pt/files/artigos/parecer_sobre_projectos_de_lei_n___214_xiv__223_xiv__237_xiv_e_572_xiv.pdf) que o passou a possibilitar e que permitiu, entre outras alterações, que fosse nela incluído um ponto (Art. 22º; 7) que refere que “É assegurado, a quem o requerer, acompanhamento psicológico no quadro da tomada de decisão de realização de uma inseminação post mortem, bem como durante e após o respetivo procedimento.” Um contributo da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos para, cremos, melhorar a Lei e reforçar a possibilidade de bem-estar de todas as pessoas envolvidas e a confiança da sociedade nestes processos.

Este nascimento acontece, curiosamente, quando estou a ler um pequeno livro cujo narrador é um bebé ainda no útero da sua mãe, no seu último trimestre de gravidez. A certa altura tem uma passagem impactante sobre a sua dúvida em se nascerá num “tempo bom” quando considera os desafios do tempo presente (de há menos de uma década) de um Reino Unido onde nascerá Vs. o tempo do bem-estar e de todos os indicadores que, retirando os desafios imensos que descreveu, tornariam sempre o melhor e, eventualmente, mais seguro momento para nascer e viver no contexto do UK.

Esta dualidade creio que nos acompanha também nestes exemplos. Esta possibilidade, oportunidade, mesmo num tempo desafiante. Esta, outras, outra.

Penso, por exemplo, o que pensaria G. Engel quando, após a publicação em 1977 de um artigo na Science propondo um “modelo biopsicossocial” que desafiasse “o modelo biomédico” que “não deixa espaço na sua conceptualização ao papel das dimensões sociais, psicológicas e comportamentais na doença”, veria passarem 23 anos até ao fim do século e milénio e mais 23 anos de novo século e milénio para as United Nations aprovarem, em 26 de Junho último, a primeira resolução sobre “saúde mental e suporte psicossocial” para o desenvolvimento sustentável e paz, assente na protecção direitos humanos.

46 anos passaram, é certo. Mas temos hoje aprovada por unanimidade (e bem sabemos o quão isso é relevante por difícil ao tratar direitos humanos no quadro dos países da ONU) uma resolução que o determina e nos convoca. A todas e todos, por todas e todos.

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Fact Check – PHDA

A 30 de Julho de 1962 a capa do New York Times assinalava o pedido de “desculpas incondicionais” do presidente Eisenhower (EUA) à Suécia. Pedido de desculpas relativo a um discurso que havia feito 2 anos antes onde associara as políticas sociais da Suécia a um caminho para um país de “pecado, nudez, consumo excessivo de álcool e suicídio”. Sabemos, ainda melhor hoje e com maior escala de dados, a evolução da Suécia nestes 60 anos. Mas já sabíamos da inversão da taxa de suicídio, particularmente nos homens a partir dos anos 50, e que sendo ainda muito alta nos anos 60, muito decresceu, sendo já há anos mais baixa que a dos EUA.

Sabemos. Sabíamos. Mas a utilização de informação não factual ou de desinformação em política não é um fenómeno de hoje. Como não o é noutros aspectos da nossa vida, do marketing à saúde, incluindo, pela sua sensibilidade, a saúde mental e parentalidade. Tem passado. Tem presente, expandido pela diminuição de mediadores na comunicação, pela tecnologia que aumenta o acesso e pelos algoritmos das redes sociais que estimulam a sua (rápida) propagação e polarização. Terá futuro, com tecnologias ainda mais poderosas e, potencialmente, impactantes.

Pelo seu papel na saúde e bem-estar de indivíduos, na saúde pública, equidade e coesão da sociedade, projectos diversos de fact check são fundamentais ao tempo que vivemos. Partilho um, da autoria da Ana Kotowicz, uma importante colaboração do Observador com o Facebook, com contributo meu.

Trata-se do “Fact Check – Teste online permite fazer diagnóstico de perturbação de hiperatividade com défice de atenção?” a propósito de uma publicação assim resumida pela jornalista: “Nas redes sociais, um destes testes [Motion Induced Blindness] está a ser partilhado como uma forma de testar, muito rapidamente, se se tem Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção (PHDA). O problema? Não é verdade, como explica ao Observador o psicólogo Tiago Pereira.” Continua referindo que argumento existir “um aspeto positivo que leva a que este tipo de publicações apareçam”, a crescente “procura de informação sobre o tema e isso é bom” e que “a parte menos boa é que a informação factual coabita com informação não factual e enganadora, assim como a ciência coabita com a pseudociência nas redes sociais.”

Na peça refiro-me, ainda, a dados de prevalência e questões associadas ao diagnóstico de PHDA e aponto a especial “perversidade” da publicação dado que num dos poucos estudos que existem sobre a utilização do teste para diagnóstico de PHDA as/os autores “reconhecem [sublinhando-o] que não é possível utilizar esta ilusão visual para fazer um diagnóstico”.

Como o pedido desculpas, o fact check não resolve tudo, bem sabemos. Mas também sabemos da importância de repor a factualidade, a ciência, e, particularmente, de criarmos espaço, contexto e estímulo nas redes sociais e na sociedade que, com liberdade, não permita a diluição da fundamental separação entre ciência e pseudociência e factos e opiniões.

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APA 2023 | You belong here

“You belong here”. Este “pertences aqui” foi a impactante assinatura da Convenção da American Psychological Association de 2023. E o “pertences aqui” ganha particular relevância quando ali estamos, num país e numa associação com enormes complexidades, entre as e os que constroem e desenvolvem a nossa ciência (das/os jovens investigadoras/es às históricas referências) e que, dia-a-dia, um pouco por todo o Mundo, a advogam e praticam, por vezes em condições muito exigentes.

Pertences aqui. Pertencemos aqui. A uma ciência e profissão que tem a possibilidade mas, sobretudo, o dever de olhar o micro mas também o macro, de olhar o local, o nacional, o regional, o global. Uma ciência e profissão que deve integrar isso mais e mais nas suas práticas de investigação e intervenção, incorporando especificidades e, mesmo que muito mais difícil, aproximando a ciência das pessoas que pretende impactar na forma como a faz e a transfere para a sociedade civil, para decisoras/es e nas suas práticas, aumentando a sua eficácia e eficiência, o impacto e garantindo mais confiança das pessoas na ciência e nos profissionais.

Uma ciência e uma prática que deve prosseguir o multilateralismo. Uma ideia de construção conjunta a partir de uma base identitária de uma psicologia no quadro dos direitos humanos a contribuir para a possibilidade de autodeterminação de todas as pessoas. Algo para o qual procurei contribuir na sessão (e grupo de discussão) “Moving Forward a Global Perspective: Developing Effective Strategies” [Construindo uma Perspectiva Global: Desenvolver Estratégias Específicas], onde coordenei o grupo de trabalho em torno dos contributos da psicologia para a erradicação da pobreza, conjuntamente com a representação da USAID – Bureau for Humanitarian Assistanceque coordenou o grupo sobre a erradicação de terapias de reconversão sexual e oFernando de la Mora Salcedo das United Nations que coordenou o grupo dos contributos para a melhoria de acesso a serviços na área da saúde mental.

Uma ciência e uma prática que deve advogar pela saúde pública e pela protecção das pessoas. Num tempo de crescente obscurantismo e de desafios e questionamento à ciência, reforçar a sua ligação às pessoas, promover a confiança e a forma como “entrega” resultados positivos é fundamental. Também aqui, algo para o qual procurei contribuir na sessão “Is Psychotherapy a Separate Profession from Therapy Delivered by Psychologists?” [É a Psicoterapia uma profissão separada da Psicologia?] num quadro internacional, discussão a partir da realidade e dos contributos dos EUA discutidos pela Amanda Clinton, Ph.D., de Espanha pelo Manuel Berdullas (Consejo General de la Psicología de España) e de Portugal, por mim apresentados e reflectidos, com contributos fundamentais do David Dias Neto.

Isto, além dos diversos encontros/reuniões com associações congéneres e com boas e importantes, creio, perspectivas para o futuro, também para a psicologia em Portugal.

Pertences aqui. Pertencemos aqui.

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O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia.

Penso ser inegável que a psicologia tem hoje mais “voz e participação na sociedade e que isso contribui para a diminuição do estigma, para o aumento da literacia e do conhecimento e para uma maior participação da ciência e das/os profissionais no debate público e em diferentes contextos, da educação à saúde, passando pela área social e comunitária, desporto e actividade física e, muito importante, das organizações. Em todas estas áreas, mas a ritmo diferente. Na saúde subsistem 2 áreas em que tarda a integração mais consistente da ciência e de mais psicólogas/os: os cuidados de saúde primários e a saúde pública.”

“O país precisa de mais saúde pública. A saúde pública precisa de mais psicologia”, 62º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) responde à questão: “Beneficiaria a saúde pública em Portugal de ter mais psicólogas/os nas suas equipas e de ter mais conhecimento e ciência psicológica no seu planeamento e na sua gestão e administração?”

“Sim, estou certo de que sim. Tal qual estou certo de que a experiência da pandemia o demonstrou possível e os desafios do presente e futuro o exigem”, respondo.

Faço-o afirmando que “a saúde pública tem e terá uma importância significativa, além da resposta a situações de crise, na melhoria dos indicadores de saúde do país (…) e na redução de desigualdades.”

Faço-o afirmando que os contributos das/os psicólogas/os e da psicologia, enquanto ciência comportamental, vão “além dos papéis mais tradicionalmente atribuídos na promoção da saúde mental (…) ou em situações de crise ou catástrofe”, podendo contribuir para o melhor desenho e efectividade das políticas, para melhores processos de investigação e avaliação, para o trabalho conjunto, multidisciplinar e de consultoria, formação, mobilização ou de educação psicológica deliberada, na transição digital, big data ou na capacitação de consumidores de saúde e melhoria de processos de comunicação.

Faço-o afirmando que “persistem barreiras históricas a esta maior integração que começam na compreensão do papel dos profissionais, na sua incorporação na legislação que enquadra as equipas e a sua actividade” e na (ainda) associação da “saúde pública à doença, particularmente às doenças físicas e a um modelo excessivamente, senão exclusivamente, biomédico, centrado, portanto, na/o médica/o, modelo para o qual são dirigidos os principais incentivos financeiros e recursos humanos.”

Mudar é fundamental sendo “necessário que, paralelamente ao aumento de recursos humanos, decorrente das maiores necessidades presentes e futuras, se diversifique a gestão e constituição das equipas e as suas competências, melhorando capacidades, eficiência e apontando a uma visão mais biopsicossocial de pessoas e comunidades como preconizado pela World Health Organization a partir do conceito “uma só saúde” e na advocacia pelo reforço do investimento em abordagens multissectoriais e multidisciplinares de saúde pública.”

“Nada mais essencial, também em Portugal.”

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14.600 dias na Terra

Hoje é um dia diferente para mim. Um daqueles em que, necessariamente, olho os dias, todos os dias, que vivi. Faço-o pensando-me hoje, no presente, e, de certa forma, como me fui pensando e imaginando a chegar ao dia de hoje, em cada momento já vivido.

Faço-o e faço-o com um grande sorriso. São 14.600 dias de curiosidade, de descoberta e de um processo de preenchimento. Dias, dias e dias a cumprirem dimensões expectáveis, mas, principalmente, a surpreenderem-me e a sugerirem-me o menos expectável. O menos expectável bom, muitas vezes. O menos expectável, menos bom, poucas vezes. O menos expectável, muito bom, felizmente, mais vezes. Pessoal e profissionalmente.

Um pequeno exemplo que beneficia do efeito de recência. Cresci, profissionalmente, desde quando era ainda apenas um estudante de psicologia, interessado e admirado pela forma como a American Psychological Association e a The British Psychological Society tinham capacidade de transferir a investigação científica em psicologia para o quotidiano do nosso dia-a-dia, para os desafios que se colocavam a pessoas e sociedade, para a afirmação da nossa ciência e dos seus profissionais e para a forma como a ciência psicológica poderia melhor informar as políticas públicas. Cresci assim e hoje, singelamente, procuro também eu fazê-lo.

Cresci, profissionalmente, a ler as revistas dessas Associações, particularmente a “The Psychologist”. Cresci e este mês, mês deste meu dia, num momento dos claramente menos expectáveis mas muito bons da minha vida, a edição da “The Psychologist” tem uma entrevista minha (cujo link abaixo partilho) sobre um tema que de uma ou de outra forma me tem acompanhado – a pobreza, a desigualdade, os seus impactos e como, a partir da psicologia, podemos contribuir para a sua mitigação e erradicação e para a promoção da saúde e bem-estar de todas as pessoas.

Nela, a propósito de uma pergunta, falo do “20.000 dia na Terra”, documentário que trata 24 horas fictícias de vida do Nick Cave e de onde provém a frase destacada na entrevista: “Let’s raise this flame of great things that can be built” [“Façamos crescer a chama das grandes mudanças que podemos construir”, numa tradução minha]. É um mote perfeito para estes meus não 20.000 mas 14.600 dias na Terra. Ajudar a fazer crescer, convosco, esta chama.

Que tenham mais um bom dia na Terra. Obrigado a todos quantos os vão partilhando comigo. Tudo de bom.

Entrevista “The Psychologist” (July/August 2023) | https://www.bps.org.uk/psychologist/lets-raise-flame-great-things-can-be-built

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The kids are not all right

Vivemos um momento muito complexo relativo à prevalência de problemas de saúde mental nas crianças e jovens. Em rigor, vivêmo-lo em todas as faixas etárias, mas, muito especialmente, na população mais jovem.

Problema que não é problema apenas em Portugal. Há sensivelmente um ano fiquei profundamente impactado ao assistir a um evento muito a propósito intitulado “The kids are not all right”, sobre o declínio da saúde mental na população jovem nos EUA. Tal qual fico ao reflectir sobre o aumento das perturbações depressivas e de ansiedade na última década na Europa, com países como a França ou o Reino Unido a aumentarem 2 a 4 vezes a incidência. Ou quando observo dados portugueses sobre comportamentos autolesivos ou dados globais sobre suicídio na adolescência. Quando um relatório do Centers for Disease Control and Prevention indica que em 2021 13% das alunas do ensino secundário nos EUA tentaram o suicídio (30% consideraram-no seriamente), 20% se considerarmos o universo das/os estudantes LGBTQ+ (45% consideram-no seriamente), existindo dados consistentes também sobre a maior prevalência em jovens com pertenças comunitárias distintas.

Desigualdade(s). Exclusão. Nas suas antigas e novas formas, enquanto determinantes do passado e presente fundamentais para os problemas referidos, potenciados pelas novas formas de desigualdade e exclusão decorrentes da relação com as outras e outros (também por via das novas tecnologias e de uma sociedade focada no presente, no imediato e numa “ditadura” da felicidade), da pressão das notas e do mérito, da ausência de previsibilidade, controlo e de alguma segurança face ao futuro. Isto a par da carência de suporte e apoio consistente e contingente que acompanhe esta pressão e desafio à saúde mental e o capital social hoje existente que faz com que as/os jovens “exijam”, bem, respostas mais significativas e eficazes neste âmbito.

Sobre isto conversei com a Margarida Gaspar de Matos e a Tânia Monteiro Neves no Encontro Nacional de Psicólogos Ubuntu a 22.06, momento que aqui partilho: https://www.youtube.com/watch?v=qzRJWQvmqBs. Sobre isto conversei, com amigas/os e colegas de sempre, a convite da Cláudia Espiguinha Guerra, no meu primeiro Agrupamento de Escolas, onde estagiei e trabalhei os primeiros 7 anos enquanto psicólogo, reflectindo sobre os “Desafios na promoção da saúde mental de crianças e jovens”.

Sobre isto, finalmente, volto a partilhar o artigo “(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem” que escrevi na rubrica “Ao redor” em Setembro de 2022: https://www.linkedin.com/pulse/rosa-dos-ventos-da-saúde-mental-população-jovem-tiago-pereira/.

Também para lembrar que a pandemia continuou/aprofundou alguns destes problemas, nomeadamente as suas manifestações comportamentais. Apenas continuou/aprofundou, não explica por si o aumento consistente da última década, pelo que há muito mais a fazer que a simples (e importante) recuperação da pandemia.

Para isso, todos contamos. Todos somos fundamentais.

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Pobreza e desigualdades (ECP2023)

Quando estou fora de Portugal, num país onde compreendo a língua, alargo a rotina de “olhar” as primeiras páginas dos principais jornais portugueses aos principais jornais do país onde estou. Assim o fiz na passada semana com os jornais do Reino Unido e, apesar do momento que vivemos, apesar dos problemas sociais e económicos que a Europa enfrenta e em semana de comemoração do 75º aniversário de um @NHS (SNS do UK) particularmente desafiado na sua sustentabilidade, não vi as palavras “pobreza” ou “desigualdades” nessas primeiras páginas, mesmo quando fundamentais nestas questões.

Continuamos a falar desproporcionalmente muito pouco de pobreza e de iniquidades face ao quanto são determinantes da saúde (incluindo saúde mental), da educação e do bem-estar. Fazêmo-lo porque enquanto sociedade, erradamente, tendemos a olhar estes problemas como problemas das pessoas que vivem em situação de pobreza ou em risco de pobreza e não como problemas de todas as pessoas, ao perigarem a coesão social e impactarem toda a sociedade. Fazêmo-lo enquanto sociedade e, também de certa forma, enquanto psicólogas/os, quando pensamos apenas estes problemas como parte do “problema”/”circunstância” de um/a cliente específica/o e não enquanto problemas macro, sempre e necessariamente presentes na sociedade.

Assim comecei a minha intervenção inicial no Main Stage Event “Poverty and inequalities and the impact of these on mental health” [Pobreza e iniquidades e seus impactos na saúde mental] do 18º Congresso Europeu de Psicologia, um interessante debate com Bridgette Ricketts, Philip Murphy e Germán Gutiérrez, presidente da IUPsyS, moderado pelo @Jon Sutton.

No dia seguinte, procurei aprofundar este tema no meu Keynote no congresso: “Multiple contributions of psychology to a “Full Stop to Poverty” – The role of psychological science, practice and professional associations” [“Múltiplos contributos para um “.Final à Pobreza” – O papel da ciência e da prática psicológica e das suas associações profissionais”]. Discuti-o na sua centralidade para a psicologia e nos contributos da ciência e da prática das/os psicólogas/os para a sua compreensão e erradicação, a par do papel particularmente importante das associações profissionais no estímulo a que isto possa acontecer.

A fechar, e a partir de uma questão da @Claudia Hammond que me acompanhou no Keynote, afirmei o quão poderá ser diferenciador ter 27.000 psicólogas/os em Portugal nos níveis mais micro (contextos de intervenção profissional) e cívicos (contextos de cidadania) a contribuírem para o aumento de literacia da população e sociedade sobre este tema, para a advocacia no mesmo e para (a necessidade de) intervenções baseadas na evidência e na transferência da ciência para as políticas locais, regionais e nacionais. Mais, o quão poderá ser transformador se aos 27.000 juntarmos, criando comunidade e mobilizando, centenas de milhares na Europa e no Mundo a contribuírem para um .Final à Pobreza.

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European Congress of Psychology 2023

É. Vivemos uma “Era de Paradoxos”. Possivelmente o tempo histórico com mais recursos disponíveis, mas, ao mesmo tempo, desigualdades significativas, grandes (e graves) problemas de saúde mental na população e ameaças críticas à possibilidade de bem-estar de todas as pessoas.

Na próxima semana, com orgulho, mas, principalmente, com sentido de responsabilidade e missão serei um dos Keynote Speakers do 18th European Congress of Psychology (https://ecp2023.eu/scientific-programme/keynote-speakers/).

Responsabilidade e missão, pela temática fundamental da intervenção versar a pobreza e ser, desta forma, focada, destacada e reflectida no congresso a partir da comunicação que intitulei de “Multiple contributions of psychology to a “Full Stop to Poverty” – The role of psychological science, practice and professional associations” [“Múltiplos contributos para um “.Final à Pobreza” – O papel da ciência e da prática psicológica e das suas associações profissionais”] e que será moderada pela Claudia Hammond.

Responsabilidade e missão, também, porque permitirá apresentar um projecto que procura reunir um triângulo que creio virtuoso (ciência, prática, associação profissional), procurando um contributo mais assertivo e decisivo da psicologia, nas suas diversas áreas, públicos e contextos de intervenção, para o “combate à pobreza” e para a promoção da saúde, bem-estar e coesão social nesta “Era de Paradoxos”.

Responsabilidade e missão, ainda, porque reflicitirá uma visão para a profissão à escala nacional e global, enquanto ciência hub e prática transversal, capaz de positivamente influenciar outras ciências e práticas e, com elas, colaborar na prossecução da resposta a desafios societais de enorme complexidade, que necessitam de empenho e envolvimento conjunto do micro ao macro.

Responsabilidade e missão, finalmente, porque assentará numa visão do papel de uma associação pública profissional (Ordem dos Psicólogos Portugueses) activa e participativa, que procura estimular, suportar e afirmar o contributo das/os psicólogas/os para os que são os mais relevantes desafios do nosso país e Mundo, particularmente quando tão significativamente impactam a vida das pessoas. Quando condicionam (tão cruelmente), como a pobreza e a exclusão a ela associada o fazem, a dignidade, a saúde (incluindo a saúde mental), o bem-estar e a autodeterminação das pessoas, além da coesão social e prosperidade da sociedade e do Mundo.

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Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento

“Nós, enquanto seres humanos, somos no geral pouco eficazes a prever o futuro.” Ainda assim, acompanho o CEO da Apple quando, na recente apresentação do “Vision Pro”, referiu que, como os computadores pessoais e, mais tarde, os computadores portáteis, os computadores espaciais, conforme o definiu, representarão uma “nova era”.

“Uns óculos para pensarmos as profissões no futuro e a solidão e isolamento”, 60º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como um dispositivo que “permite aceder ao “Mundo digital” sem ecrãs físicos e interagir com o computador sem dispositivos “extra-humanos” como teclados, ratos ou superfícies”, imergindo totalmente o “Mundo digital” no real a partir apenas de uns óculos”, pode ser disruptivo, transformar-se e revolucionar a forma como se “projecta em Engenharia ou Arquitectura”, como se assistirá a espectáculos ou eventos desportivos e como se prestam serviços de Educação e Saúde.”

“Se as reuniões, a formação e o treino e intervenção à distância, aprofundadas na pandemia, melhoraram consideravelmente o quadro antes existente, particularmente para quem vive/trabalha em locais mais remotos, tudo tenderá a evoluir rapidamente para novas e potentes ferramentas que permitirão, através de experiências imersivas em tempo real cada vez mais simples e satisfatórias, o encontro de pessoas no “Mundo digital” a partir do seu “Mundo real”.

Assistiremos, potencialmente, a mudanças na forma de “formarmos (inicial e continuamente) profissionais de saúde, de treinarmos tarefas específicas, de realizarmos processos de articulação e intervisão interpares e de melhoria significativa da prestação de serviços (incluindo especializados), particularmente em contextos de difícil acesso e mais remotos. Na psicologia, juntar-se-á à evolução da utilização da realidade virtual e aumentada em intervenções psicológicas e psicoterapêuticas em diversas áreas (hoje já bastante testada e utilizada nas fobias), na complementaridade de intervenções (por exemplo, possibilitando experiências imersivas que potenciem a empatia), na realização de avaliação psicológica ou na assistência por parte de tradutores/interpretes em processos de intervenção.”

“Poderá, também, ter um positivo impacto nos serviços públicos e, até, em fenómenos particularmente relevantes em Portugal como a solidão/isolamento, a perda de população e serviços no interior ou a emigração. Mas pode, também e noutro prisma, se não utilizados responsavelmente, representar um conjunto de riscos também na questão da solidão/isolamento, na estigmatização/marginalização, na desinformação, na cibercriminalidade e, no limite, nos fenómenos de Guerra e conflito entre países.”

Deve, portanto, “para o bem da Humanidade, atender às evidências da ciência psicológica” e concorrer para “mais, mais próxima, personalizada e eficaz psicologia ao serviço das pessoas, do planeta, da prosperidade e da equidade.”