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A 21 de Outubro de 1879, Thomas Edison apresentou, formalmente, o pedido de patente para um projecto – a lâmpada incandescente – que viria a transformar a vida das pessoas. Creio-o um momento simbólico e creio-o, particularmente, num momento em que algum obscurantismo parece querer, metaforicamente, um regresso a alguma penumbra.

Num momento em que por cá e um pouco por todo o Mundo a saúde, particularmente a saúde mental, e o bem-estar são desafiados (veja-se as administrações hospitalares do Reino Unido a classificarem a “saúde mental como uma emergência nacional”), dados e informação científica sobre esta área, particularmente nas/os jovens (onde os desafios são muito significativos) é, julgo, como que uma “patente para uma lâmpada incandescente”, 144 anos depois.

É, também por isso, que venho partilhar o Ebook “Saúde Mental dos Jovens”. Coordenado pela Tania Gaspar, pelo Fábio Botelho Guedes e pelas Ana Cerqueira e Margarida Gaspar de Matos, resulta de um estudo colaborativo da World Health Organization sobre o bem-estar de adolescentes (6º, 8º, 10º e 12º anos), envolvendo 51 países e promovido em Portugal pela Aventura Social – Associação, com colaboração de um conjunto de entidades, incluindo a Ordem dos Psicólogos Portugueses.

Os seus resultados sublinham o agravamento dos problemas de saúde mental e bem-estar, nomeadamente no que se refere às preocupações, relações interpessoais e expectativas futuras. Procuram detalhar e discutir as causas (e consequências), para melhor informar políticas públicas.

Conta com um capítulo (“Estatuto socioeconómico, saúde mental e bem-estar em adolescentes em contexto de pandemia”; página 45-67) para o qual contribui com as/os autoras/es e a que se juntaram, ainda, a Marta Barata e a Sofia Sousa. Artigo que analisa, especificamente, o impacto da condição sócio-económica na saúde mental e bem-estar, que surgem penalizados em populações com os mais baixos níveis, procurando, também, apresentar e reflectir outras variáveis que os condicionam, mais uma vez, para melhor informação às políticas públicas, numa matéria particularmente sensível.

Perguntava a Margarida Gaspar de Matos na sessão de apresentação o que podemos fazer para que esta informação chegue mais e com maior impacto a decisoras/es. Três curtas sugestões, tornar e manter “salientes” os determinantes sociais da saúde, bem-estar e sucesso educativo. Envolver todo o ecossistema no processo de investigação e acção. E, particularmente, reforçar um esforço e empenho conjunto de promoção da confiança, que permita mais possibilidade, quando justificada, de mudança e mais envolvimento e compromisso na mesma de todos. Todos.

Muito obrigado por este trabalho. Muito obrigado por terem procurado o meu contributo e por me darem esta oportunidade.

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10.10.2023

Anteontem assinalou-se mais um Dia Mundial da Saúde Mental. Desde 1992 assim é, a cada 10 de Outubro. Desde 1994, quando foi “a melhoria da qualidade de acesso de serviços de saúde mental em todo o Mundo”, com um tema em específico. Em 2023, a “Saúde Mental enquanto Direito Humano Universal”, mote cuja implicação da sua concretização procurei reflectir em detalhe em conversa com a Joana Almeida Carvalho, numa entrevista para a Manhã Informativa do Porto Canal neste Dia Mundial da Saúde Mental, que aqui partilho.

Nela foco três aspectos essenciais:

a) A necessidade de sermos consequentes com a ideia, hoje amplamente disseminada, que “não há saúde sem saúde mental”, procurando detalhar e exemplificar a forma como a saúde mental impacta e determina a saúde física e como a saúde física impacta e determina a saúde mental. Como, no fundo, se interligam, quais os factores que o justificam e que não pode existir prevenção e investimento em saúde sem investimento e promoção da saúde mental, algo explicitado e aprofundado no contributo científico intitulado “O impacto da saúde mental na saúde física – Custos económicos e intervenções psicológicas custo-efectivas”, publicado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses nesse mesmo dia;

b) A importância de, ao considerarmos a saúde mental como direito humano universal, isso se reflectir em todas as políticas públicas e não apenas na área da saúde. Para o concretizar e, mais uma vez, exemplificar, abordei parte das 10 medidas propostas pela OPP a 6 diferentes Ministras/os nesta data: Saúde; Educação; Trabalho, Solidariedade e Segurança Social; Habitação; Ciência, Tecnologia e Ensino Superior; e Justiça.

c) O quão relevante seria (será?) se (quando?) este dia não for apenas um dia a cada ano… Antes que o anteontem seja também o ontem, o hoje, o amanhã e o depois de amanhã. 365 dias por ano, com tudo o que isso implica para a prevenção e promoção e para as pessoas que vivem com um problema de saúde mental, para as suas famílias e pessoas próximas, para a sociedade e para o seu desenvolvimento e para a sustentabilidade dos seus serviços.

No fundo, para a possibilidade de saúde e bem-estar de cada pessoa e para a resiliência das nossas comunidades. Para a coesão do nosso país.

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Companheirismo e Persistência

Hoje passam 56 anos do desaparecimento do psicólogo Gordon Allport. Em 70 anos de vida deixou uma importante obra que iniciou debates em áreas dispares como a personalidade, a maturidade, a motivação, a religião, os rumores ou a formação de preconceitos. Obra que incluiu um trabalho de campo na África do Sul, na década de 50 e em pleno apartheid, relativo à teoria/hipótese do contacto. Allport defendia que o contacto entre diferentes pessoas/grupos diminuiria preconceitos, ódio e o racismo entre pessoas e grupos. Faleceu em 1967 afirmando que essas suas ideias não tinham sido confirmadas, mas, além de pioneiras, a história da África do Sul e estudos mais actuais (de dados longitudinais) demonstram que, efectivamente, o contacto com pessoas diversas pode impactar neste sentido

“Companheirismo e Persistência”, 67º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado; link abaixo) parte da “palavra alemã kameradschaft que descreve um sentimento de camaradagem. De companheirismo. Sentir profundamente humano, abundantemente partilhado entre as pessoas e com forte impacto no nosso comportamento e tomada de decisão” (…) que explica, melhor que a ideologia ou objectivos militares/políticos, a não dissidência e persistência na II Guerra Mundial das tropas Nazis, mesmo quando já perto da derrota.

Discute o conceito e a sua importância histórica (“as relações, a confiança, o companheirismo e o paradoxo da inexistência tão clara como gostaríamos de um “nós” e um “outras/os” foram fundamentais ao progresso”) e contemporânea, na mitigação da crescente polarização ou na prevenção da desinformação e do seu impacto na sociedade. Pensa-o, ainda, na relação com a persistência, “competência ao mesmo tempo fundamental (num Mundo em rápida mudança e de enorme complexidade e ambiguidade) e desafiada (por este Mundo, também pautado por hiper e diversa estimulação e pela procura de gratificações e sensações imediatas).”

Discuste como mais que a capacidade ou competência parece ser “o sentimento de pertença e a posição relativa face ao grupo próximo que estimulam ou obstaculizam a persistência”, por exemplo no que se refere ao insucesso e abandono no Ensino Superior, significativos em Portugal.

Propõe que “reflictamos sobre o impacto da competição no insucesso e abandono e o papel que a pertença e companheirismo devem assumir”, bem como serem “pessoas como nós que tomam decisões e agem (…) pessoas que necessitam do companheirismo para persistir e para, persistindo, aprender, mudar, não abandonar, resolver, florescer. Pessoas que fizeram, fazem e farão a nossa relação com o Mundo. Persistamos, com elas, pelo Mundo.”

 

Ps. Amanhã comemoremos o Dia Mundial da Saúde Mental. Dia também para ponderarmos, espero, como a diferença e a diversidade desenvolvem a sociedade e devem ser respeitadas e como a equidade e a redução das desigualdades estimulam o bem-estar e a coesão social. Como, no fundo, são essenciais à saúde e saúde mental de pessoas e comunidades.

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À conversa sobre pobreza e exclusão…

Hoje queria propor-vos um quiz: Qual é o país que viu recentemente mais que duplicar, em apenas 12 meses, o número de crianças a viver em situação de pobreza?

Como creio possível que não tenha acertado à primeira deixo três pistas: trata-se do país que “liderou” a expedição à Lua que permitiu que um primeiro astronauta, com essa nacionalidade, a pisasse; país onde a OpenAI, organização que desenvolve e disponibiliza o ChatGPT, tem sede; país com o maior produto interno bruto (PIB) do Mundo.

Sim, trata-se dos EUA e esta duplicação não decorreu da pandemia em si, antes da “retirada” e do “fim” recente de um conjunto de apoios/programas que, em grande medida, decorreram da resposta à pandemia.

Esta realidade reforça algo que, quem habitualmente aqui me lê, sabe que venho defendendo. Que a diminuição da pobreza depende, claro está, do PIB (e do crescimento económico) mas quando triangulado com a redução das desigualdades e com o investimento em programas, com base em evidência científica, que combatam a pobreza e, particularmente, contribuam para a quebra de ciclos geracionais de pobreza.

No final da semana passada, no IV Encontro dos Psicólogos do Sul, discuti numa interessante (a meu ver) conversa com o Miguel Herdade exactamente estes dois aspectos. Sob o mote da pobreza e exclusão, e partindo do que tem sido o trabalho desenvolvido e dos objectivos da estratégia “.Final à Pobreza” (https://finalapobreza.pt) da Ordem dos Psicólogos Portugueses, conversamos sobre a realidade das desigualdades no contexto da educação (nomeadamente as decorrentes do nível socioeconómico das famílias e do nível de escolaridade, particularmente da mãe) e como a sua redução concorreria para a mitigação das situações de pobreza e exclusão.

Conversamos, ainda, sobre o papel das professoras e professores no sucesso educativo, sobre a importância da educação dos 0-3 e do investimento precoce no desenvolvimento infantil ou sobre as consequências, nos primeiros 1000 dias dos bebés e daí para o futuro, do stresse e outras condições decorrentes da pobreza e da exclusão. Conversamos sobre a evidência disponível e sobre como poderia e poderá informar políticas (públicas) e apoiar mudanças e transformações, possíveis e plausíveis, em favor da redução da pobreza e da promoção da qualidade de vida e da possibilidade de bem-estar.

Espero que quem a ela assistiu, presencialmente ou à distância, tenha gostado… Como eu gostei. Agradeço ao Miguel o que nos trouxe e traz, sempre. E agradeço, o convite, a confiança e toda a dedicação, à Delegação Regional do Sul da OPP e à organização do evento nas pessoas da Raquel Raimundo, Carla Fernandes, Ana Meira, Raquel Granjo, Gabriel Soares, David Guedes, Sara Bahia e de todo o staff da OPP envolvido.

Que conversemos mais e mais sobre estes temas. E que estes temas sejam tema, neste e noutros Encontros. Tema na sociedade…

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Onde estavas na transição digital? (Ao redor…; 06.09.2023)

Seja por via do original – a pergunta que Baptista-Bastos fazia a quem entrevistava nas suas “Conversas secretas” – seja por via da personagem humorística nele inspirada e interpretada por Herman José, a pergunta “onde estava no 25 de Abril?” entrou no nosso imaginário e é hoje utilizada para diversas situações. Todavia, não creio provável, ainda que no futuro, que nos perguntemos “onde estava/s na transição digital?”, mas…

Não creio porque, desde logo, é um fenómeno claramente distinto do que representou e impactou o 25 de Abril para as pessoas e sociedade portuguesa. Mas também não nos lembraremos dele como nos recordamos de onde estávamos quando tivemos conhecimento dos acontecimentos relativos ao 11 de Setembro de 2001 ou quando decorria a final do Campeonato Europeu de Futebol de 2016. Não, porque ao contrário destes momentos, a transição digital não tem uma data e não se constitui como acontecimento significativo. É, antes, um processo, com poder transformador e que, queiramos ou não, será profundamente significativo na nossa vida presente e futura.

Um processo, em rigor, em curso há décadas, e que se projecta, exponencialmente, aquando de momentos de introdução e/ou generalização de novas tecnologias ou possibilidades, capazes de rapidamente transformarem processos de educação ou trabalho e a forma como vivemos em sociedade. São disso exemplo, a internet, os computadores pessoais, os smartphones, a realidade virtual ou, mais recentemente, a inteligência artificial generativa (por exemplo, o ChatGPT). Será disso exemplo a possibilidade, defendida por múltiplos especialistas, de atingirmos a “superinteligência artificial”, ou seja, um sistema não-humano ultrapassar a inteligência humana.

Apesar de ser um processo em curso, penso ser fundamental reflectirmos o momento actual como particularmente relevante neste percurso. Todas e todos intuímos que, com a evolução rápida da realidade virtual e, particularmente, da inteligência artificial generativa, existirão alterações profundas e visíveis no nosso dia-a-dia e que isso requererá da parte de cada pessoa, grupos e comunidades, a par do desenvolvimento de novas competências, a necessidade de uma rápida adaptação e de gestão dos impactos emocionais e no bem-estar desta transformação.

Até hoje, a transição digital, além da famosa “eliminação do papel”, trouxe-nos impactos positivos, mas, também, necessariamente desafios e impactos menos positivos, que permitem comunicarmos muito mais rapidamente e com menor custo, acedermos mais facilmente a informação e cultura, podermos preparar e prever viagens ou entregas ou podermos realizar acções de educação / formação ou mesmo intervenções terapêuticas à distância. Com este ponto de partida, perspectivemos os impactos do actual crescimento exponencial e do momento que vivemos ter uma característica estruturalmente diferente dos anteriores que o torna o crucial. Verdadeiramente, é a primeira vez que a tecnologia vem, de certa forma, apropriar-se, potenciar e generalizar partes de uma competência tipicamente humana, a cognição. O ChatGPT está para os processos cognitivos como a memória, a linguagem, o processamento de informação ou a criatividade como os primórdios dos motores de busca estão para a Google hoje ou como o primeiro Iphone está para as redes sociais hoje.

E, se esses primórdios, já significam resumos automáticos de reuniões segundos depois do seu fim ou produções de código ou texto com alguma complexidade, numa ferramenta gratuita e generalizada, podemos pensar (mesmo que não consigamos prever com acuidade) o que poderá ser a evolução destas ferramentas e o que permitirão. A forma como tenderão a contribuir para a substituição ou diminuição de necessidade de determinadas tarefas e uso de competências, mas, também, como nos ajudarão a descrever e prever fenómenos e como isso pode apoiar acções preventivas e prescritivas, permitindo, por exemplo na área da saúde, acções de prevenção e intervenção precoce e personalizada, algo que será relevantíssimo em áreas como o cancro ou nas doenças degenerativas.

Fazendo-o com a cognição humana, terá ainda muitas limitações a poder fazê-lo em dimensões mais emocionais, ainda que as impactando. Mas o que poderá acontecer com a utilização da computação quântica, algo previsível no futuro e que mudaria (mudará?) significativamente a capacidade de tratamento de dados e possibilitará maiores aproximações, inclusivamente, à reprodução da forma como o cérebro humano funciona? É este o contexto que levou a que um conjunto de personalidades relevantes na área, lideradas por Geoffrey Hinton, um psicólogo por vezes apelidado “pai da inteligência artificial”, publicasse um manifesto apelando a que “mitigar o risco de extinção (humana) devido à inteligência artificial deve ser uma prioridade global conjuntamente com outros riscos como as pandemias e a guerras nucleares”.

Efectivamente os desafios e riscos hoje existentes implicam desenvolvimentos suportados em dimensões éticas e sociais, alinhando a tecnologia com os valores da humanidade. Apenas orientações que o impliquem, em conjunto com o reforço do multilateralismo, poderão, com sucesso, contribuir para que estes riscos sejam mitigados e para que esta transformação contribua para o desenvolvimento e para a redução das iniquidades a uma escala global, com instrumentos e ferramentas globais.

Terminei o primeiro paragrafo deste texto com um mas… Mas, porque talvez nos devamos mesmo perguntar, a nós mesmo, “onde estamos na transição digital?”. Como estamos para ela preparadas e preparados, que competências temos e, eventualmente, precisamos desenvolver, como nela estamos a participar e a estamos a influenciar? Foi também este o mote das comemorações, a 4 de Setembro último, do Dia Nacional do Psicólogo, com uma conferência e um conjunto de acções em torno do “Factor Humano na Transição Digital”, reflectindo-se estes temas na profissão, mas, principalmente, com a sociedade, os contributos de uma ciência que, estudando o comportamento humano e o que o influencia, pode ser importantíssima às pessoas, às organizações, ao desenvolvimento das tecnologias e às políticas neste processo de transição digital.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, infelizmente de forma não equitativa, a inteligência artificial generativa disseminar-se-á rapidamente. Não sem riscos, não sem obstáculos, não sem medos, terá o potencial no futuro curto que se pode prever de nos tornar melhores estudantes e profissionais, nas mais diversas áreas, sendo nosso copiloto e ferramenta auxiliar aos processos de tomada de decisão e realização de tarefas, quando e se alinhada com as dimensões éticas e de segurança e com os valores do humanismo e dos direitos humanos. Este alinhamento, não apenas, mas também depende de cada um de nós e de onde estamos e queremos estar na transição digital.

 

Tiago Pereira

Onde estava na transição digital?

in Sábado (Ao redor…); 06.09.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/onde-estava-na-transicao-digital

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Temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social (Observador; Mental)

Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental. Foi este o título escolhido pelo Observador para a newsletter de apresentação da sua nova secção dedicada à Saúde Mental. E… Temos, mesmo.

Eu e você, sabemos, já o experimentámos. Quando não estamos bem, quando sentimos preocupação, angústia ou ansiedade, falar com alguém sobre o que se passa connosco pode ajudar-nos. Tal qual pode ajudar-nos ouvir alguém falar sobre como lidou com as suas situações, situações essas que muitas vezes nos são próximas. Ou aceder a informação de qualidade, cientificamente validada e ajustada aos nossos conhecimentos, experiências e necessidades para que possamos melhor reconhecer o que estamos a vivenciar, atribuir-lhe significado e promover mudanças. Para, por vezes com sucesso, desenvolvermos estratégias, incluindo de autocuidado, visando a adaptação a novas situações e a adversidades ou acontecimentos de vida negativos. Temos (mesmo), portanto, de falar sobre saúde mental.

Mas falar sobre saúde mental implica falar também sobre o que a influencia e, muitas vezes, determina. Da pandemia que vivemos, ao impacto das novas tecnologias na sociedade e na forma como aprendemos, trabalhamos ou nos relacionamos. Da crise climática e suas consequências, das migrações voluntárias ou forçadas, da guerra que persiste em demasiados territórios pelo Mundo e que voltou à Europa. Da precariedade e das crises socioeconómicas. Da pobreza e exclusão social.

Cresci numa aldeia que durante muito tempo via partir pessoas, demasiadas pessoas, e com elas, “partia” famílias, relações e a comunidade. Pessoas que, como o meu avô (e depois os meus dois tios), saiam da aldeia e depois do país a pé, boleia aqui, boleia ali, a caminho de diferentes cidades e países, no seu caso de uma Paris onde habitavam mais portuguesas e portugueses de que em qualquer cidade portuguesa. Partiam em busca de romper com uma pobreza destinada a si, à sua geração e às gerações seguintes. De romper com um ciclo de exclusão, por ela potenciado e aprofundado pela falta de liberdade de expressar e viver direitos. Os seus e, naquele caso, os da minha mãe e os meus futuros direitos. Eu sei o quanto a pobreza impacta a possibilidade de saúde, de bem-estar, de autodeterminação. Eu sei o quanto a pobreza e a exclusão limitam e obstaculizam a saúde mental. Eu sei e você sabe-o. Se queremos falar sobre saúde mental temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social.

Sobre a pobreza e exclusão de há 60 anos. Sobre a de há 30 anos. Sobre a resultante da grave crise sócioeconómica de há cerca de uma década, onde tantas e tantos outros partiram, “partindo”, uma vez mais, famílias, relações e a comunidade. Sobre a de hoje e a de amanhã. Falar e não permitir que naturalizemos a pobreza e a exclusão, que a assumamos com uma inevitabilidade, como um destino.

Podemos, no entanto, perguntar-nos: todas as pessoas que vivem em situação de pobreza têm ou vão ter uma dificuldade de saúde mental ou mesmo desenvolver doença mental? Ou, todas as pessoas com doença mental vivem ou viveram em situação de pobreza e exclusão? Não. E não. Mas, não sendo uma inevitabilidade, há uma relação forte entre a vivência em situação de pobreza e exclusão e os problemas de saúde mental, principalmente o stresse, a ansiedade e a depressão. Relação forte e circular que, porque relevante, não podemos não considerar e que determina que investir na promoção da saúde e da saúde mental seja garantir um mais eficaz combate à pobreza e à exclusão e que diminuir a exposição a situações de pobreza e exclusão seja reduzir um dos principais factores de risco dos problemas de saúde mental.

Se este ciclo penaliza tantas pessoas que nele se encontram e, no fundo, toda a sociedade, é fundamental que o pensemos também nas suas dimensões políticas e sociais. Desde logo porque coloca em perigo a sustentabilidade de serviços, particularmente na área da saúde e da segurança social, além de limitar a possibilidade de desenvolvimento económico do país. Depois porque períodos de incerteza económica, nos últimos anos comuns, constituem uma ameaça à saúde psicológica das comunidades porque, a acrescer ao stresse, ansiedade e sofrimento psicológicos, os factores protectores da saúde mental tendem a enfraquecer enquanto factores de risco como o desemprego e precariedade, o endividamento ou a perda de estatuto socioeconómico podem aumentar consideravelmente.

Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental. De pessoas, da vida dessas pessoas por trás dos impressionantes números. De acesso e de equidade e qualidade no acesso a literacia, recursos e serviços na área da saúde mental, certamente. Mas, se queremos falar de saúde mental, temos também de falar sobre como combater a pobreza e os seus ciclos geracionais e de como construir uma sociedade mais inclusiva e mais sensível à diversidade.

 

Tiago Pereira

Temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social

Observador (Mental); 28.08.2023

https://observador.pt/opiniao/temos-mesmo-de-falar-sobre-pobreza-e-exclusao-social/

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Crise Climática

“Temos de atuar em conjunto, como uma família, para salvar a nossa única Terra e salvaguardar o nosso único futuro”. Disse-o António Guterres, na recente cimeira do G20, sublinhando “que estes países são responsáveis por 80% das emissões poluentes” e advogando por mais liderança “na luta contra as alterações climáticas e manutenção dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável”, definidos pelas United Nations na Agenda 2030.

Apesar desta posição, a cimeira terminou sem “consensos” a propósito da #criseclimática. Sobre isto conversei com a Luisa Schmidt (cujo histórico contributo para a maior literacia e compreensão destes temas muito saúdo), com moderação da Andreia Palmeirim e do Pedro Filipe Silva na 2ªF na CNN Portugal, conversa que partilho. Nela são-me pedidos dois contributos específicos.

O primeiro sobre #ecoansiedade. Fenómeno que enquadro numa preocupação crescente, particularmente da população jovem, em torno da possibilidade do colapso ambiental e do medo (crónico, por vezes) associado. Preocupação que resulta da conjugação da significativa valorização dos problemas associados à crise climática com a falta de recursos para mudar/lidar com a situação percepcionada, a que acresce a imprevisibilidade e insegurança associadas. Destaco, na intervenção, que da ecoansiedade pode resultar #distresse, ou seja, níveis de ansiedade/stresse bloqueadores e paralisantes, que podem conduzir a sentimentos de desesperança, à perda de bem-estar, a dificuldades de inclusão ou, até, a sintomatologia depressiva. Mas, também e por vezes, a níveis de #stresse activadores e mobilizadores para a acção e participação pública e social, resposta mais positiva e adaptativa à situação.

O segundo sobre como num quadro de cada vez maior incerteza relativamente ao clima e aos fenómenos climatéricos extremos nos podemos adaptar. Aqui (aproveitando para sublinhar que os contributos da ciência e da prática psicológica neste desafio vão além do seu importante papel na reparação, apoio e suporte emocional às populações após uma situação de catástrofe) sublinhei o papel da #psicologia na prevenção, mitigação e adaptação, apoiando e informando processos de desenho de políticas públicas, estímulo à alteração de comportamentos e preparação de planos individuais e comunitários para a vivência de situações climatéricas extremas, promovendo a #resiliência individual e colectiva e reforçando o sentido de agência e de controlo, tão importantes nestas situações e, por si, preventivos da ecoansiedade.

Portugal está e estará profundamente exposto a estes fenómenos. Dos incêndios rurais à subida do nível do mar, passando pelo stresse hídrico. Também por isso, conjugar planos multilaterais de médio e longo prazo com o que no presente cada pessoa pode fazer e o que o país pode determinar, é essencial. Acções próximas, concretas e avaliáveis. Disse-o e advogo-o porque “temos de atuar em conjunto, como uma família, para salvar a nossa única Terra e salvaguardar o nosso único futuro”.

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Onde estava na transição digital?

Ricardo Araújo Pereira costuma afirmar que, mesmo quando se tem essa pretensão, um/a humorista “não consegue controlar totalmente o efeito do [seu] humor”. E o humor, como sabemos, tem um papel muito importante e diverso na sociedade. Porque nos diverte e faz sentir bem. Porque nos aproxima e permite sintonizar com outras e outros e começar/continuar conversas. Porque nos permite olhar, criticamente, o que nos rodeia. Em Portugal, como noutros países, diferentes gerações têm beneficiado do humor e, num certo momento da minha vida, o Herman José (e toda a sua equipa), particularmente no Herman Enciclopédia, marcaram-me muito. Entre tantas outras personagens recordo o “Artista Bastos”, personagem inspirada no Baptista-Bastos e que ajudou a projectar para os nossos dias a pergunta “Onde estava/s no 25 de Abril?”.

“Onde estava na transição digital”, 65º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) usa duma apropriação da pergunta ao processo de transição digital em curso, processo “com poder transformador e que, queiramos ou não, será profundamente significativo na nossa vida presente e futura”. Fi-lo, pois, “julgo ser fundamental reflectirmos o momento actual como particularmente relevante” (…) dado que com “a evolução rápida da realidade virtual e, particularmente, da inteligência artificial generativa, existirão alterações profundas e visíveis no nosso dia-a-dia” que “requererão da parte de cada pessoa, grupos e comunidades, a par do desenvolvimento de novas competências, a necessidade de uma rápida adaptação e de gestão dos impactos emocionais e no bem-estar desta transformação.”

Mas, não existindo apenas benefícios perspectivados desta transição em curso (também desafios e riscos que procuro, também, reflectir no artigo), devemos advogar e contribuir para “desenvolvimentos suportados em dimensões éticas e sociais, alinhando a tecnologia com os valores da humanidade. Apenas orientações que o impliquem, em conjunto com o reforço do multilateralismo, poderão, com sucesso, contribuir para que estes riscos sejam mitigados e para que esta transformação contribua para o desenvolvimento e para a redução das iniquidades a uma escala global, com instrumentos e ferramentas globais.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, infelizmente de forma não equitativa, a inteligência artificial generativa disseminar-se-á rapidamente. Não sem riscos, não sem obstáculos, não sem medos, terá o potencial no futuro curto que se pode prever de nos tornar melhores estudantes e profissionais, nas mais diversas áreas, sendo nosso copiloto e ferramenta auxiliar aos processos de tomada de decisão e realização de tarefas, quando e se alinhada com as dimensões éticas e de segurança e com os valores do humanismo e dos direitos humanos. Este alinhamento, não apenas, mas também depende de cada um de nós e de onde estamos e queremos estar na transição digital.”

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‘Let’s raise this flame of great things that can be built’ (Entrevista; The Psychologist; July23)

‘Let’s raise this flame of great things that can be built’

We hear from Tiago Pereira, Executive Board Member of Ordem dos Psicólogos Portugueses [Portuguese Psychologists Association], and a keynote speaker at the European Congress of Psychology

What is your keynote going to be on?

Poverty, and the potential path to its eradication. ‘No poverty’ is the first of the 17 Sustainable Development Goals (SDG), a globally agreed 2030 agenda towards a healthy planet and peaceful and inclusive societies in the world.

Poverty, exclusion, and inequalities are old, present, and, unfortunately, future challenges of humankind. I will talk about poverty as a major contributor to the loss of dignity, health (including mental health), well-being, self-determination, and societies’ social cohesion.

These are important goals of psychology, and psychologists are guided by ethical principles of intervention. As a science and a profession we must address this major societal challenge, with huge impact on several other challenges and SDG.

At ECP, I’ll try to promote reflection on how, as psychologists, we can contribute to this challenge. There’s also a role for professional associations promoting and stimulating these contributions. I will be presenting the ‘.Final à Pobreza’ [Full stop to poverty: see tinyurl.com/bdeyv6dw], as a strategy of the Portuguese Psychologists Association targeting this purpose.

What has changed in the area of poverty and exclusion in recent years?

We have achieved an important decrease in poverty worldwide in the last decades. This confirms that through a collaborative effort, it is possible, just the same way we addressed objectives that seemed unattainable some decades ago and ended slavery, apartheid and some diseases.

However, the World Bank pointed out that Covid-19 was the ‘biggest setback to poverty reduction efforts since 1990’. The reduction in poverty and social exclusion has stopped in 2020. If we consider new geopolitical, economical and climate threats (such as the Russian aggression and war on Ukraine, new conflicts in Asia and Africa, the weakening of liberal democracies and United Nations, socio-economic uncertain and climate crisis), it is now expected that we will finish 2030 still with 7 per cent of the world’s population living in extreme poverty and high rates of poverty in the UK, Portugal, and other countries in Europe.

We’re in an era of paradoxes. More resources than ever and, at the same time, huge inequalities, mental health problems and major threats to the opportunity of well-being for all. This menace is reinforcing the need for psychology and psychologists to study social determinants of mental health and well-being and their impacts in effective interventions. We need to fulfil a role in this area, informing public policies and promoting social transformations that reinforce equity and the chance of well-being for all.

We’ve had big advances in psychological research, as an important hub of science, and a growing number of psychologists in the world (e.g. in Portugal, an increase of 67 per cent in the last decade). We now have plenty of data on causes and consequences of poverty. We must use that knowledge to inform practices and public policies in a better and more efficient manner.

How do we do that?

Globally, we must talk and discuss more about poverty and exclusion at different microlevels, in society and media. We must really set poverty eradication as a priority and collaborate at national and international level, with an interdisciplinary focus to achieve this goal.

But there’s more. We must promote literacy on poverty and its causes and impacts, for people at risk of poverty and for all society. This will have an important influence on discrimination, stigmatisation (and self-stigmatisation) and exclusion.

Also, regardless of the improvement of the last years, we still need to reinforce research on poverty and on the effect of interventions reducing it. We need to stimulate more reflection and training of psychologists in this area. We need more collaboration between psychologists acting in different areas and between psychologists and other professionals working in social, educational and health contexts, as well as with decision makers. And we must lobby for more equality in the access to evidence-based psychological support for vulnerable people, and to the factors behind the success of these interventions (e.g. see Improving Access to Psychological Therapies data about the inequal access to support for people from deprivation areas, or the impact of deprivation on the success of interventions).

Finally, we must have a more evidence-based design of public policies. This is even more important for poverty and exclusion, given the impact of some civil society prejudices and biases. We also need to evaluate the impacts and to follow the longitudinal effects of the policies.

What’s holding us back, either as psychologists or as a society?

We are facing interdependent, interconnected, and intersecting crises. This ‘polycrisis’ challenges the prioritising of poverty and inequalities. Psychologists, in some countries and societies, are lacking the capacity and the tools to influence civil society and public policies. We have to promote psychologists’ identity, and psychologists’ professional associations must work for this and contribute to people’s confidence levels in governments and public policies. We must lead, and assume roles as decision makers to take a more active position on social transformation.

 

So is it primarily a lack of evidence, or a lack of the networks and infrastructure required to put that evidence to work?

We need to strengthen research and have better data on poverty. But more than that, I feel that the greater need is of transferability and impact of evidence and data on the design of policies and on the literacy of civil society.

Today, we have plenty of information on consequences of living in poverty, organised in multiple layers. We know about scarcity mindset and its effects on stress or in reducing our cognitive resources to anticipate, plan and make good decisions. We have moved on from ideas of inherent incapability, lack of character or motivation, or personality problems of people living in poverty. Studies on the first 1000 days of life, beginning in the womb, confirm that this period is crucial for the development of brain structures. Disadvantages at day 0 deepen in the next two years for children exposed to poverty and exclusion contexts. We also have robust evidence on the cycles of poverty, and solid associations between mental health problems (anxiety, depression, and stress) and precarity, unemployment and poverty. This makes combatting poverty crucial when we want to promote mental health and the need to promote mental health if we want to interrupt cycles of poverty and eradicate it.

But as we know, changes in civil society, in decision makers and social transformation, is a never-ending process. To secure gains on these matters, we must have strong networks of professionals working in this area, empowered, with resources and with support from people, institutions, and the government.

Tell me about your work with the Portuguese Psychologists Associations; for example how you sought to help communities through Covid.

On 13 March 2020, some days after the first confirmed Covid-19 cases and some days before the first lockdown in Portugal, I was designated coordinator of the Covid-19 crisis cabinet of the Portuguese Psychologists Association. Although we are a recent organisation, created by law in 2008, our past contributions and relations with Portuguese decision makers and authorities allowed us to participate in the national effort. We undertook a central role on the response to pandemic in relation to the needful balance between protection of public health and protection of mental health and well-being, particularly for people and groups with specific vulnerabilities.

Five swift examples of that:

  • our part in the design of the algorithm, and training and supervision of the clinical and health psychologists supporting the establishment of the psychological counselling 24/7 telephone service of Portuguese NHS, totally free and confidential, that is still ongoing today in Portuguese and English languages and has had more than 200,000 attendances in the first three years of activity;
  • the strategy and creation of a behavioural science task force to work with government;
  • responsibilities on the training of more than 2000 psychologists as micro influencers to foster mobilisation and promote pro-health, pro-social behaviours, health literacy and to empower decision-making in their communities;
  • the elaboration of literacy documents and tools for different targets and of eusinto.me [I feel] website – an online information portal on psychological health and well-being;
  • the development and offer of resource and training for psychologists to boost their role addressing Covid-19 pandemic and its consequences on mental health and well-being of the communities.

What role do schools, and educational psychology, play in uniting communities for a sustainable world?

How can we connect communities for a sustainable world without schools? The young generations have a major role on the present and the future of sustainability. And, like former Portuguese Minister of Education said before, I don’t think that there is (real) school without educational psychologists and its contributions. Schools, today, must work as hubs for development and promotion of protective factors, not only for all children and adolescents (in particular, those living with personal or social vulnerabilities), but also for their families and communities. Psychologists are essential to that.

In addition to traditional roles in education (e.g. vocational development, inclusion and specific needs interventions), psychologists must focus on multilevel approaches, working with school direction and with all educational community, centred in human rights, sustainability, psychological well-being and socioemotional development, as well as in promoting community unity and support, positive parenting and equity and inclusion in all society.

Fortunately, I think Portugal have good examples on that and recent changes in the role of psychologist in schools, its models of intervention, and the important investment in these professionals (more than duplicate in public schools in last years), are evidence of this.

Have you been to Brighton? Do you think it’s a good base for this particular Congress and its themes?

I never went to Brighton in person before, but I have strong images and a narrative of Brighton… the songs, the books, the movies. Brighton, for me, is a quite different sea and beach from the ones in Portugal that I (and I think all world) love. But it is also where Nick Cave lived before the city became ‘both a more beautiful place to live, and a place where we [he and is family] can’t really continue to live’. I follow his career and life for long time now and I watched 20,000 Days On Earth, a documentary filmed in Brighton about 24 fictious hours in his life. In that, he said that ‘all of our days are numbered (…) sometimes this idea can be the smallest thing in the world, a little flame (…) if you can hold on to that flame great things can be constructed around it that are massive and powerful and world changing – all held up by the tinniest of ideas.’

When in Brighton, in the first days of July, I’ll have had almost 14,600 days in Earth. I’m motivated to make my small contribution to the world to ‘become both a more beautiful place to live, and a place where we really could continue to live’. For that, it is critical and possible to eradicate poverty and exclusion, and to use psychology’s contributions, in an interdisciplinary approach, to address other challenges that will shape our future and to unite communities for a more sustainable world.

Brighton, as a special, strong, and inclusive city, is the perfect places to unite psychologists in these challenging times. Let’s raise this flame of great things that can be built around it, things that are massive and powerful and world changing. To add another ‘s’ to sun, sand, and sea: social. Social psychology and transformation for a fairer world with opportunities of well-being and self-determination for all.

My hope is to see this happening in my 20,000th day on Earth and, who knows, getting back to Brighton.

Tiago Pereira

‘Let’s raise this flame of great things that can be built’

The Psychologist; July23

https://www.bps.org.uk/psychologist/lets-raise-flame-great-things-can-be-built

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1000 dias e as políticas públicas

É inestimável a importância da ciência. Na psicologia, como em outras áreas, na conceptualização, no desenvolvimento de instrumentos e metodologias e na definição de protocolos de avaliação e intervenção baseados em evidência, é certo. Mas, também, nas dimensões macro fundamentais à sua disseminação e à sua transferência com impacto social, desde a promoção de literacia à tão importante, mas nem por isso pouco desafiante, informação ao desenho, avaliação e implementação de políticas públicas.

Na publicação da @The British Psychology Society procuro dar um exemplo de como a investigação sobre as causas e os impactos da vivência em situação de pobreza e de exclusão (parte significativa com contributo da ciência psicológica) tem permitido a densificação do conceito dos “1000 dias” e de como essa evidência deve informar as políticas públicas, nomeadamente sobre o quão fundamental pode ser na redução de ciclos de pobreza, mitigar estas situações em famílias em processo de gravidez e nos dois primeiros anos de vida do bebé. Algo sobre o qual temos vindo a trabalhar e advogar em Portugal.

Fi-lo em Brighton (UK), em Julho passado, aquando do 18º Congresso Europeu de Psicologia e logo após o Keynote que nele apresentei: “Multiple contributions of psychology to a “Full Stop to Poverty” – The role of psychological science, practice and professional associations” [“Múltiplos contributos para um “.Final à Pobreza” – O papel da ciência e da prática psicológica e das suas associações profissionais”]. 

O contributo para o desenho de políticas é essencial para maior e mais rápida generalização dos seus benefícios e dos impactos da ciência para a promoção, neste caso, da possibilidade de autodeterminação e de bem-estar para todas as pessoas. Em tempos particularmente desafiantes para a ciência é importantíssimo, também por este papel, que reflictamos sobre a história da nossa relativamente jovem, mas, muito importante ciência, procurando compreender os erros cometidos no passado e reforçando os mecanismos para, a cada dia, produzirmos mais e melhor ciência, reforçando a confiança das pessoas e sociedade nela e a sua capacidade de produzir impacto social.

Ps. Para mais informações sobre os “1000 dias” partilho duas publicações com alguns meses. Um artigo exactamente titulado “1000 dias” e a minha participação no programa da “É ou não e” (@RTP) sobre pobreza em que discuto sobre o tema.