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LL – Longlife

Tendo eu nascido na primeira metade da década de 80, pertenço a uma geração capaz de descrever, trautear, repetir um conjunto de anúncios de publicidade a marcas e serviços que ouvimos e vimos, alguns ainda a preto e branco, e que pertencem ao nosso imaginário. Lembro, como tantas e tantos outros acredito, o coelhinho de uma marca de pilhas que “durava” sempre mais, em actividade. Vivíamos o tempo de promoção das pilhas longlife, das pilhas LL.

Lembrei-as a propósito da ligação literacia-liderança que a Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde promove por estes dias através do seu “Programa de Liderança” que propõe pensar e responder à pergunta “O que é preciso para ser um jovem líder na saúde?”.

Pergunta desafiante, mas, particularmente, tema muito relevante à formação e ao desenvolvimento, pessoal e profissional, de jovens estudantes e profissionais das mais diversas áreas da saúde. Sobretudo num tempo e num Mundo onde a complexidade dos problemas, exige ampla literacia e capacidade de leitura e mobilização de recursos junto de nós mesmo, de outras pessoas, da sociedade. Num tempo e num Mundo onde a complexidade dos problemas, exige lideranças cada vez mais preparadas, com propósito e com valores.

O programa (que convido a descobrir/participar) é concretizado através de sessões com jovens líderes, de diferentes áreas da saúde, tendo ontem decorrido a sessão dinamizada pelo Sérgio Alves, presidente da ANEP (Associação Nacional de Estudantes de Psicologia), hoje referência junto das e dos estudantes de psicologia em Portugal e um inspirador e muito promissor líder. A convite da Cristina Vaz de Almeida e com o apoio da Vânia Lima (a ambas muito agradeço), coube-me o enquadramento do tema e a apresentação do Sérgio.

Nessa curta intervenção falei de literacia e da sua importância, da liderança e dos caminhos de influência, inspiração e mobilização no sentido de um objectivo comum. Abordei o papel da confiança e da segurança psicológica nesse caminho. Reflecti sobre a importância da comunicação, mas, também, sobre o quão imperativo (ético) é o autocuidado e o desenvolvimento pessoal e profissional. Discuti, finalmente, como cada uma destas iniciativas representa como que “água” que deve encher “barragens”, permanecendo disponível e alimentando-nos, também de energia. E de como temos o dever, a cada dia, de cuidar com justiça do legado que deixamos e, logo, de quem vem depois de nós, contribuindo para que cada uma dessas pessoas encontre a sociedade e as instituições mais e melhor capacitadas do que nós encontramos, conforme eu e nós encontramos face à geração que nos antecedeu.

Longlife à (promoção da) literacia e liderança, com propósito e com valores. Longlife a esta e a estas iniciativas.

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V Encontro DRNorte e “Os Ninguéns”.

 

“Não me sinto responsável por coisa nenhuma”. Esta frase, parte de uma conversa da Sr.ª Procuradora Geral da República com jornalistas foi amplamente abordada e debatida na última quinta-feira, véspera do V Encontro Anual dos Psicólogos do Norte, promovido pela Delegação Regional do Norte da Ordem dos Psicólogos Portugueses, com o apoio da Câmara Municipal de Vila do Conde.

Foi exactamente trazendo esta frase da véspera que comecei a moderação de uma das sessões do encontro, não pela reflexão que possa(mos) fazer da mesma, antes porque a sessão reunia uma psicóloga e dois psicólogos (três colegas a que me junto) exactamente nos antípodas de uma visão de “não se [nos] sentirem[sentirmos] responsáveis por coisa nenhuma”. Muito pelo contrário.

Uma sessão onde o Jorge Gato abordou as questões da “inclusão e da(s) equidade(s)”, a partir da reflexão sobre uma “prática culturalmente competente e afirmativa com pessoas LGBTQ+”, assente numa importantíssima triangulação entre as dimensões do “conhecimento, da técnica/prática e das atitudes e valores das psicólogas e psicólogos”, enquanto elementos estruturantes de uma intervenção psicológica de qualidade junto de populações vulnerabilizadas.

Uma sessão onde a Himali Bachu reflectiu sobre os contributos da psicologia e das psicólogas e psicólogos para uma “visão multicultural para os dias de hoje”, pensando as novas realidades (nomeadamente pelo crescimento das migrações, também em Portugal) e dos novos desafios, de adaptação, por exemplo, dos serviços públicos às mesmas, enquanto contributo fundamental para a adaptação e para a qualidade de vida das populações migrantes.

Uma sessão onde o Jorge Pereira, a partir da sua experiência, discutiu as dimensões da relação entre a deficiência e a sexualidade a partir do contributo da psicologia, desde logo, na promoção da literacia e contributo para a transformação de estereótipos e preconceitos, bem como no trabalho de promoção de comportamentos desde momentos de vida precoces, fundamentais à vivência deste aspecto fulcral do bem-estar ao longo da vida.

Uma sessão, finalmente, em que todas e todos nos referimos a como a psicologia e em como psicólogas e psicólogos podem, a partir dos seus múltiplos contributos e papéis, influenciar positivamente as vidas de pessoas, famílias e comunidades mas, também, contribuir para transformações políticas e socais, fundamentais à possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação de todas as pessoas.

Um obrigado ao Eduardo Carqueja e, nele, a toda a equipa que organizou e preparou mais um magnifico encontro, marcado pela qualidade científica, claro está, mas, também, pela dimensão humana. Dimensão humana, expressa nos afectos, na forma como o encontro foi enquadrado (incluindo o poderoso “Os Ninguéns” do Eduardo Galeano) e no papel destinado ao desenvolvimento pessoal e profissional que procuramos (e encontramos) na passada sexta-feira. Obrigado. Muito obrigado.

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Somos a Nossa Melhor Ferramenta – Autocuidado na Gestão Pessoal de Carreira

“Somos a Nossa Melhor Ferramenta – Autocuidado na Gestão Pessoal de Carreira“. Foi este o tema da edição de 2023 da “PsiCarreiras on.Summit” (Ordem dos Psicólogos Portugueses) que ontem decorreu.

Somos. Porque cada psicóloga e psicólogo é, naturalmente, uma pessoa. Porque é um/a profissional com intervenção na área da saúde e bem-estar. Uma pessoa e um/a profissional integrada/o numa sociedade vertiginosa e incerta e num contexto, não raras vezes, de desafio que comporta, por vezes, precariedade, não reconhecimento, dilemas frequentes e obstaculiza a missão, propósito e significado. Somos, somos a nossa melhor ferramenta porque somos uma profissão de fortíssimo desafio e responsabilidade onde o autocuidado, também enquanto processo de desenvolvimento pessoal e profissional, é fundamental.

 

Disse-o a abrir a Summit, reforçando o papel que a OPP tem assumido na disponibilização de recursos nesta área, no investimento na formação e apoio ao desenvolvimento profissional contínuo na profissão ou na tentativa de integração destas dimensões na formação inicial e contínua, enquanto elementos centrais da profissão, também por via do Diploma Europeu em Psicologia e do advogar de processos de intervisão e supervisão, entendendo o auto e heterocuidado como imperativo ético.

 

À abertura seguiram-se intervenções/debates tocando, entre outros, temas como o “Autocuidado ao Longo do Ciclo de Desenvolvimento Profissional”, as “Transições (In)Esperadas e seus Desafios”, a conciliação de (diferentes) papéis ou o “Auto e Heterocuidado na Construção de Carreiras Sustentáveis”, a partir dos riscos específicos da profissão e do que nos diz a ciência psicológica sobre o autocuidado. Autocuidado que, como escrevi há meses (“Benefícios e limites do autocuidado” | https://www.linkedin.com/pulse/benefícios-e-limites-do-autocuidado-tiago-pereira/), por ser tão fundamental, não pode ser gerador de “processos de (auto)culpabilização, pela dificuldade de algumas pessoas se mobilizarem ou concretizarem comportamentos e estratégias de autocuidado (…) é colectiva a responsabilidade de não acrescentarmos novos factores de stresse decorrentes da impossibilidade de priorizar e realizar estas acções, a factores de stresse por vezes já significativos.”

 

Agradeço à equipa responsável pelo evento, particularmente à Ana Sofia Nobre, Joana Almeida Monteiro, Mafalda Reis, Rita Tavira Santos, Rodrigo Dumas Diniz e à equipa de comunicação da OPP. Agradeço às e aos oradores: Katia Almeida, Marucia Bardagi, Sofia Andrade, Djamila Correia e Silva, Irina Chaves, Joana Amen, Sara Bahia, Sónia Pinote Bernardes, Filipa Maló Franco, Rita Santos, Tânia Correia, Mafalda Esteves, ao Renato Gomes Carvalho, Ana Nunes da Silva, Sónia P. Gonçalves e ao Nuno Costa. Agradeço a todas e todos quantos participaram.

 

Agradeço porque lhes sou grato na minha actual condição, transitória e finita. Agradeço porque lhes sou grato na minha condição não transitória e não finita, de psicólogo, para a vida. Obrigado.

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Comportamento Democracia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia Tomada de Decisão

ADSE

Se fora viva, Nadine Gordimer completaria hoje 100 anos. Não os completa porque perdemo-la em 2014 com 90 anos, depois de uma vida intensa, também centrada nos direitos humanos e na luta contra o apartheid. Depois de uma obra intensa, também, que lhe valeu, entre outros prémios, o Nobel da Literatura em 1991. Jamais esquecerei o “Um Mundo de Estranhos”, livro que escreveu ainda cedo na sua vida e que trata com um misto de mestria, simplicidade e genuinidade a diversidade e, particularmente, uma amizade improvável, inaceitável mesmo, para tantas pessoas.

Já Charles Lindblom faleceu, exactamente, com 100 anos. Menos mediático que Nadine Gordimer, também escreveu bastante, embora textos e livros técnicos, sendo essencialmente conhecido pela descrição que fez do “incrementalismo”. Método que remete para a realização de mudanças e para a incorporação de inovação (por ex. na sociedade e nas políticas e administração pública) através de pequenas alterações / incrementos evolutivos, prescindindo da necessidade de permanentes revoluções. Lindblom, apesar de bastante criticado pelo conservadorismo intuído destas posições, defendia-o, particularmente, em contextos de forte divisão política, face a problemas complexos e em períodos de incerteza. Se mais exemplos precisássemos de que o vivemos, Milei acaba de se tornar presidente eleito da Argentina.

Penso no trabalho da Nadine e do Lindblom a propósito de, finalmente, se ter concluído um processo/trabalho de anos com potencial transformador. Falo dos desenvolvimentos e investimento tecnológico realizado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) que, num projecto conjunto com a ADSE, IP, permitem, hoje, a validação automática e “on time” da inscrição na OPP da/o profissional que prestou o serviço, possibilitando, sem “esforço” a verificação automática da sua condição para a realização do acto, validação do reembolso e, ainda e para futuro (que espero curto), com a informação de ser (ou não) especialista com possibilidade de aceder a um reembolso diferenciado porque valorizado, conforme já acontece, hoje, com uma das maiores seguradoras de saúde e algo que  a OPP tem sempre advogado. 

Uma pequena grande mudança, única no contexto da ADSE, que impacta, melhorando, a administração pública. Que facilita e acelera processos de reembolso, simplificando, digitalizando, desburocratizando. Que obstaculiza más práticas, previne potenciais erros e fraudes e, essencialmente, garante segurança e saúde pública.

Compete-nos tornar menos “estranho” o Mundo (para algumas pessoas ainda estranho) dos profissionais de saúde e da intervenção psicológica, também pela garantia de acesso, contingente e o mais equitativo possível, a cuidados de saúde nesta área, praticados por profissionais qualificados, capazes de prestar serviços e garantir respostas competentes e eficazes. Incremental ou não, este é também um contributo para isso e para a afirmação do acto das psicólogas e psicólogos, do seu valor e da sua relevância.

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A dúvida e o regresso aos outros (Ao redor…; 08.11.2023)

O Mundo em que vivemos é desafiador e complexo. Sabemo-lo, muitas vezes de forma desconcertante, por vezes de forma irónica, outras vezes, infelizmente, com muito sofrimento. Cada um de nós tem exemplos disso e não faltam histórias que o tratam, na nossa memória colectiva, umas reais, outras ficcionadas. Pensemos, por exemplo, no Titanic e na forma como a “White Star Line”, sua promotora, o promovia com uma narrativa assente numa suposta “inafundabilidade”, questionada pelas consequências sobejamente conhecidas do embate num iceberg meros quatro dias após o início da sua primeira viagem. Pensemos, por exemplo, no conto do “Patinho Feio” de Hans Christian Andersen e de como a narrativa evolui da ostracização e rejeição de um suposto “patinho” para o mais deslumbrante cisne do lago.

Sendo o Mundo em que vivemos desafiador e complexo, a dúvida é hoje, para muitas pessoas e usando das metáforas anteriores, um “patinho feio” e a ausência de dúvida, responsável por embates que as e nos afundam. Há diversas razões que o justificam. Da polarização, causa e consequência, também, da maior ausência de dúvida, à sobrecarga de informação e facilidade e rapidez de acesso à mesma, que estimula uma maior passividade na aceitação da informação. Passando pela forma como as redes sociais e os seus algoritmos tendem para a amplificação das crenças e opiniões próximas de quem procura informação ou pelo efeito descrito como Dunnig-Kruger, relacionado com a forma como os conhecimentos limitados das pessoas sobre determinados fenómenos podem conduzir, paradoxalmente, a crenças fortes e a uma confiança injustificada da pessoa nas suas próprias capacidades de compreensão desse fenómeno. Como um menor conhecimento sobre algo pode, ao invés de suscitar dúvida e estimular a curiosidade e procura de mais informação, gerar certezas e encerramento nas mesmas.

Estes factores contextuais potenciam-se e potenciam estas características profundamente humanas, às quais acrescem, ainda, a nossa necessidade de pertença e enquadramento num grupo social e um conjunto de heurísticas (por exemplo de disponibilidade, que nos conduz a considerar como mais provável um evento que facilmente podemos evocar face a outros não tão automáticos) e de vieses (por exemplo de confirmação e ancoragem, respectivamente a forma como procuramos ou damos mais atenção a informação que confirme as nossas crenças e opiniões e como confiamos na primeira informação, informação âncora, que recebemos sobre um determinado fenómeno) que, ao simplificarem e automatizarem processos cognitivos e mentais geram, muitas vezes, erros sistemáticos no pensamento e na tomada de decisão.

Os nossos abundantes “nunca” e “sempre” navegam os ventos deste Mundo desafiador e complexo em que vivemos onde a dúvida parece não ter lugar. Rigidificam e limitam opções, diálogos e processos de adaptação no dia-a-dia e ao longo da vida. Afastam-nos de pessoas e de opiniões, polarizando-nos. Promovem a desconfiança que, essa sim e ao contrário da dúvida, floresce com consequências severas na diminuição da coesão social e da qualidade das instituições e da democracia.

É neste quadro que cultivar a dúvida, a possibilidade de não estarmos (sempre) certos, é um contributo fundamental para respondermos aos desafios contextuais que se nos colocam. Devemos fazê-lo ao longo da vida e conjugá-lo com o desenvolvimento da capacidade de escuta, de relação e de competências socio-emocionais, que garantam níveis de auto-estima e auto-confiança. Devemos fazê-lo com a promoção do interesse, da curiosidade e de literacia científica e capacidade de pesquisa, organização e interpretação da informação e, ainda, com a promoção de contextos que promovam a segurança psicológica e uma comunicação aberta. Fazermo-lo pode, mesmo, ser um antídoto para interpretações, decisões e comportamentos automáticos e precipitados associados a processos como os de desinformação, de oposição e destruição e do extremar de posições. Pode, ainda e nesse sentido, ser fundamental a um questionamento essencial ao progresso social e científico, ser gerador de espaço de construção e co-criação, de um espaço de entendimento entre polos e posições diversas, permitindo mais crítica construtiva, colaboração e potenciado melhores e mais participadas respostas aos problemas e desafios mais significativos.

Deixo um exemplo, também porque curioso, o “RTO – Return to Office” [Regresso ao Escritório]. Com o irromper do teletrabalho, necessariamente exponenciado pela pandemia que recentemente enfrentamos, muitas pessoas, incluindo “especialistas”, afirmaram que as transformações no mercado de trabalho e no modo de trabalhar seriam, sem dúvida, permanentes. Sabemos que, no geral, os seres humanos não são bons a prever o futuro mas, ainda que o saibamos, não deixa de ser assinalável que em 2023 as maiores empresas, incluindo consultoras ou tecnológicas como a “Zoom” (cujo negócio principal é exactamente a disponibilização de ferramentas que permitem e facilitam o trabalho à distância), estejam a solicitar aos e às trabalhadoras que, com algumas condições, regressem ao trabalho presencial, ao menos em parte do tempo de trabalho, considerando, entre outros, os impactos que o teletrabalho em exclusivo demonstra ter na vinculação, qualidade de trabalho e produtividade de equipas. Que este “RTO”, possibilitado pela dúvida, informado pela ciência e respeitando a diversidade de trabalhadoras e trabalhadores, seja estímulo para um outro “RTO”, o “Return to Others” [Regresso às Outras e Outros].

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a dúvida, ao invés de uma demonstração de fraqueza ou de vulnerabilidade, é virtuosa. Assume um papel muito relevante, protegendo-nos de heurísticas, vieses e de um contexto que nos rodeia que periga a sua utilização e utilidade, cristalizando-nos e polarizando-nos. A dúvida, particularmente se assente em princípios de confiança e não de desconfiança, é elemento central de construção de soluções em áreas muito diversas, incluindo o respeito e a paz, de aproximação de comunidades e de progresso da sociedade, dependendo isso de que, dia-a-dia, nos nossos diferentes papéis, pratiquemos e utilizemos pensamento crítico e a dúvida construtiva… Dúvida que nos permite melhores tomadas de decisão, sobre as quais versará o próximo texto deste “Ao redor”.

 

Tiago Pereira

A dúvida e o regresso aos outros

in Sábado (Ao redor…); 08.11.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-duvida-e-o-regresso-aos-outros

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Oh Lord, please don’t let me be misunderstood

“Oh Lord, please don’t let me be misunderstood”. Vivemos dias, mais uns, de enorme imprevisibilidade. Incredibilidade, até. Mundo fora e em Portugal. Dias onde a complexidade e múltiplas nuances – não se coadunando com simplificações, julgamentos e preconceitos sempre presentes – estimulam incompreensões, mal-entendidos, polarizações.

Por estes dias lia Bob Dylan, um dos prémios Nobel da literatura mais incompreendidos. No seu “A filosofia da canção moderna” (que recomendo) escreve sobre um conjunto de canções que inspira(ra)m o seu percurso. Entre elas, uma, interpretada por uma cantora (Nina Simone) também bastante incompreendida. Falo da “Don´t let me be misunderstood”, canção que Bob Dylan apresenta como “de mal-entendidos e ideias falsas”, sublinhando que “o problema de ser mal interpretado é que diminui o prazer da vida”. E a possibilidade de (co-)construção, acrescento eu.

Também há dias, embora há já mais alguns, participei num trabalho da @Rádio Renascença, onde procurei disponibilizar um conjunto de informações e reflexões que, espero, contribuam para prevenir “mal-entendidos e ideias falsas” sobre o ano profissional júnior (estágio profissional) da @Ordem dos Psicólogos Portugueses, particularmente reforçando o seu enquadramento enquanto um “primeiro ano de prática profissional supervisionada”, acompanhada e enquadrada num plano de formativo e de desenvolvimento profissional.

Na peça, focando também a necessidade de crescimento rápido para resposta às necessidades da população do número de profissionais no SNS, destaco que apesar do número crescente de psicólogas/os em Portugal (27.000, resultado de uma profissão ainda recente e com elevado crescimento anual), “nos últimos anos, houve uma melhoria do acesso dos profissionais a atividades na área da psicologia”. Para tal junta-se ao “impulso forte da OPP no advogar pela melhoria de acesso a serviços de psicologia nas mais diversas áreas e contextos, a procura cada vez maior por parte dos cidadãos” fazendo com que “tanto os serviços públicos como alguns privados estejam cheios e com listas de espera”, logo “subdimensionados face à procura”.

Isso reflecte-se, e refiro-o na peça, na diminuição da taxa de desemprego e aumento da procura de serviços reportada e no aumento significativo de novos anos profissionais júnior (2021 e 2022 foram dois dos anos com mais novas/os psicólogas/os júnior e 2023 será também um ano excepcional).

Há, no entanto, e como em qualquer assunto com complexidade, desafios pela frente, associados, desde logo, às alterações legislativas em curso. Também há, porém, oportunidades significativas, nomeadamente pela ainda elevada “capacidade de absorção de novos profissionais”, pelo aumento das possibilidades de estágio profissional em serviços públicos e, ainda, pelas novas áreas profissionais em forte expansão e “reforço de profissionais a trabalharem temáticas emergentes”, com significativo “benefício para a sociedade e para as pessoas”.

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Chão pegajoso.

“Chão pegajoso.” Eventualmente poderão não estar familiarizadas/os com este conceito, quando não literal e aplicado às dimensões económicas e sociais. A Susana Peralta abordou-o num artigo ontem no @PUBLICO (“Chão pegajoso: nascer pobre é uma fatalidade”), onde, com a evidência disponível (e muito devemos ao seu trabalho e das suas equipas) sublinha o quão a mobilidade social ascendente (de geração para geração, na mesma família), curiosamente conforme a descendente em Portugal é “fraca”.

Problema que, não sendo exclusivo de Portugal é particularmente relvante, muito condicionado as possibilidades de bem-estar das pessoas e o país, considerando a sustentabilidade dos serviços (públicos) e a coesão social. A Susana Peralta, também no artigo, refere que o “chão cola” particularmente em 3 dimensões: nível de educação (veja-se o trabalho/reflexão do @Miguel Herdade que aqui trouxe há semanas); nível de rendimento; e nível de privação mais básico (ausência de possibilidade de uma refeição proteica).

Quem me costuma ler/ouvir sabe que este é um tema de permanente reflexão minha. Regresso a ele porque, sendo os ciclos intergeracionais de pobreza um fenómeno naturalmente complexo, multidimensional e “não solúvel” com uma única acção ou política, sinto que reflectimos (e actuamos) pouco numa das suas principais dimensões: a vivência da infância precoce em situação de pobreza e os impactos desproporcionais dessa adversidade em toda a vida desses bebés e crianças.

A esse propósito, no final da semana em que se comemorou o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, conversei com a @Carla Rocha (a quem agradeço) em mais um “Quarto do Fundo” (que partilho), parceria da @Rádio Renascença com a @Ordem dos Psicólogos Portugueses.

“Como travar a pobreza na primeira infância?” foi o mote de uma conversa que, passando por outros assuntos (a tal multidimensionalidade), se focou no impacto da adversidade relacionada com a pobreza e exclusão nos primeiros anos de vida. Estímulo para pesarmos como intervenções de políticas públicas que a reduzam no período da gravidez e primeira infância são fundamentais a par de investirmos na melhoria da actual geralmente má qualidade dos contextos educativos dos 0-3 anos e em fortalecer a intervenção precoce e as respostas em saúde, educação e área social.

Uma nota final, permitam-me, para reforçar que: a) a pobreza é um problema todos os minutos, horas, dias e não apenas de períodos em que, por via de datas comemorativas ou de um acontecimento tem projecção pública; b) que a pobreza é um problema de todas as pessoas, ainda que impactando mais quem vive em situação de pobreza; c) que é possível progredir na sua erradicação, se esse for um desígnio de todos nós e se todos, a partir dos nossos papéis de cidadania e profissionais, para isso contribuirmos.

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Quanto tempo têm(os)?

“Vá directamente até ao estúdio de trabalho de Sigmund Freud e veja o famoso divã do psicanalista”. Esta é a sugestão de visita do Museu Freud (Londres) caso tenhamos apenas meia hora. Foco no mais óbvio, mediático, eventualmente impactante, porém sem aprofundar o contexto (sugestão do museu para 1h de visita), o seu redor (para 90m), sem sentir, verdadeiramente, o espaço (para mais de 2h).

Assim comecei lembrando o porquê deste ser, hoje, um Museu (Museu), e do caminho de afirmação, autonomização e contributo amplo da psicologia enquanto ciência e prática para múltiplas áreas e processos, a partir da abordagem biopsicossocial. Indo, necessariamente, muito além das importantes dimensões clínicas e remediativas, sendo particularmente relevante na prevenção e promoção, do individual ao societal, passando, naturalmente, pelas organizações, seu desenvolvimento, sustentabilidade e bem-estar das pessoas que as constituem.

Assim comecei, dizia, a minha intervenção na “Mental Health in the Workplace Summit 2023”. Resultante do Pacto pela Saúde Mental nos Locais de Trabalho, subscrito por dezenas de organizações e promovid pelo CRBL da Católica Lisbon School of Business and Economics, que decorreu na semana passada numa lindíssima sala na sede da EDP (obrigado Frederico Fezas-Vital pelo convite, palavras, por sentires que tinha/tenho um contributo válido).

Chamei-lhe “SP500 – Segurança Psicológica e o seu papel nas organizações” porque prossegui reflectindo sobre como a nossa ilusão da profundidade explicativa (tendermos a pensar saber mais sobre o funcionamento de algumas coisas do que realmente sabemos) se revela, significativamente, no entendimento que temos (ou não) das pessoas, dos seus comportamentos e da psicologia de forma geral. De como isso impacta, por vezes, o priorizar (ou não) da evidência científica nestas áreas e de como, a conjugação disso com termos “apenas meia hora”, resulta em eventuais “vieses” de actuação, por exemplo, na promoção da saúde e bem-estar em contexto organizacional.

Como pode, apesar do momento rápido, imprevisível, “angustiante” do Mundo, desfocar-nos de um elemento essencial base a qualquer acção nestas matérias – a segurança psicológica das pessoas. Fundamental à boa comunicação (importantíssima em contextos de e com diversidade), à coesão (fulcral à flexibilidade), ao envolvimento e propósito, à relação e ao auto e heterocuidado, à responsabilização individual/colectiva, à resolução de problemas, à confiança. Desfocar-nos de como a segurança psicológica é base e suporte de tudo e de todos.

Organizações falarem sobre este tema é importante. Comprometerem-se é ainda mais importante. Serem, cada dia (mais) consequentes, mais ainda. Para tal é importante que reflictam(os) quanto tempo (30m ou mais de 2h?) têm(os) para a saúde e bem-estar.

Quanto tempo para “mudar o possível na direccão do excelente”, conforme Gonçalo M. Tavares sabiamente escreveu há dias.

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“Competências; Cooperação; Activação Social”. Tema, simultaneamente, arrojado e que nos confronta e convoca. Tema do III Congresso dos Psicólogos dos Açores que, nos dias 19 e 20 deste mês, decorreu em Ponta Delgada.

Lembro-me muito bem das 1ª e 2ª edições. Do impulso, visão e ousadia da equipa que, coordenada pela Luz Melo, então presidente da Delegação Regional dos Açores da Ordem dos Psicólogos Portugueses, as pensou, projectou e concretizou. Saúdo a equipa actual (Carla Rocha, Joana Amen, Filipe Fernandes e Paula Domingues), liderada pelo Marco Santos, por continuarem e aprofundarem estas realizações, pelo tema e pela relevância e impacto de um evento que, reunindo, juntando e aproximando colegas, demonstrou o impacto do trabalho de colaboração desenvolvido com o Governo Regional e Secretarias Regionais, conforme bem expresso pelo presidente José Manuel Bolieiro, bem como com os municípios e diferentes projectos e organizações sociais, conforme expresso, por exemplo, pela vereadora do Município de Ponta Delgada (e colega psicóloga) Cristina Canto Tavares.

Saúdo e agradeço a confiança pelo convite que me foi feito para, neste III Congresso e com moderação da Cristina Dutra, realizar uma intervenção com o mote: “Psicologia: Reforçar o envolvimento e a activação comunitária para promover resultados em saúde, bem-estar e equidade”.

Nela falei do papel da psicologia nos processos de transformação social e como foram, são e serão possíveis. Falei de determinantes macro do individual e como, em qualquer área de actividade, os temos que considerar, afirmando o nosso papel potencial neles. Falei de bem-estar, da sua relação com a saúde (e saúde mental) e de factores protectores e de risco. Falei do Mundo hoje e de como podemos melhorar e potenciar a utilização da ciência psicológica. De como a profissão se deve repensar e como pode e deve influenciar a sociedade para responder aos seus desafios e promover maior possibilidade de autodeterminação a cada pessoa. Falei, ainda, de envolvimento e participação. De propósito, pertença e activação comunitária. De agência e co-criação do futuro colectivo. De que podemos começar por fazer algo para, logo, fazer algo mais e, em seguida, melhor.

Pensei-o e partilhei-o, no final com a “Difference” (https://www.youtube.com/watch?v=eSElIhIcHAE) do Benjamim Clementine a acompanhar, qual singelo contributo para o envolvimento na mudança e activação pela saúde, bem-estar e equidade.

Reflecti-o, no final, a partir de uma pergunta da Carla Fernandes, ligando-o à forma como é fundamental reforçarmos a estrutura de projectos e organizações, procurando o por vezes exigente equilíbrio de tempo e foco nas actividades concretas junto do público-alvo e no desenvolvimento da estrutura e envolvimento das equipas no caminho para uma dinâmica que consolide, aprofunde, envolva e torne mais possível e mais fácil para quem se nos segue, continuar, fazendo mais e melhor para o bem comum.

Pois esse é, também, nosso desígnio.

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Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

3 Semanas, 3 Dias

Ontem comemorou-se o Dia das Nações Unidas, dia que assinala o aniversário da entrada em vigor da Carta das Nações Unidas em 1945. “Nós, os povos das Nações Unidas decididos”, assim começa, para logo referir: “A promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de um conceito mais amplo de liberdade”.

Sempre me interpelou este “conceito mais amplo de liberdade” no quadro de um Mundo profundamente diverso. De um Mundo profundamente desigual. Isso e a curiosidade deste Dia das Nações Unidas (24.10) se comemorar, exactamente, duas semanas após o Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) e uma semana após o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17.10), quando os problemas de saúde mental e a pobreza (e exclusão a ela associada) condicionam de forma tão significativa a liberdade, o bem-estar e a coesão social.

Hoje, no evento “Diálogos sobre Pobreza – Saúde, pobreza e desigualdades”, organizado pela EAPN – European Anti Poverty Network (Bragança) darei um contributo sobre as interfaces entre a saúde mental e pobreza, pensando o contributo da ciência, da prática, da cidadania e das políticas públicas.

Faço-o após ter, no âmbito do I Fórum Intermunicipal para a promoção da Saúde Mental da Região do Vale do Homem (obrigado Sofia Pinto), discutido contributos potenciais da psicologia (enquanto ciência e prática) e da Ordem dos Psicólogos Portugueses, através da estratégia “.Final à Pobreza” (https://finalapobreza.pt), para a erradicação da pobreza e para melhorar a possibilidade de saúde e bem-estar de todas e todos.

Faço, também, após três outros contributos nestes temas que provêm no Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza:

a) O artigo “Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade?” (https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_estamos-a-falhar-%C3%A0s-pessoas-em-situa%C3%A7%C3%A3o-de-activity-7120308409584791552-1n4h?utm_source=share&utm_medium=member_desktop)

b) A participação no fórum da TSF (https://www.youtube.com/watch?v=cdnaUyJoH84)e), onde abordei o papel do plano de acção da estratégia nacional de combate à pobreza, a medida das/os “gestoras/es de caso” e a necessidade de reforço, capacitação e empoderamento das organizações/instituições sociais;

c) E na Antena Aberta da Antena 1 (https://www.youtube.com/watch?v=ibUgO6pcISc), onde discuti o quão determinante será fazer do combate à pobreza desígnio nacional para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde e equidade no Sistema Educativo e como a ciência deve informar mais as políticas e práticas nesta área, particularmente no que toca à pobreza infantil.

A psicologia pode, efectivamente, contribuir para a mudança, para a transformação e para promover “o progresso social e melhores condições de vida dentro de um conceito mais amplo de liberdade”, para todas e todos.

Nisso, contam sempre comigo. Contam sempre connosco.